COLAPSO CAOS

Opinião:

Josias de Souza - Sem UNIÃO, Brasil potencializa o CAOS sanitário

Josias de Souza

Colunista do UOL

31/03/2021 20h17

A pandemia impôs ao Brasil dois grandes problemas:

a escassez de vacinas e a contagem dos cadáveres que se avolumam enquanto não chegam as doses que faltam para atingir o estágio da imunização coletiva.

Diante da necessidade de retardar as mortes até que as seringas alcancem todos os braços a serem vacinados, o país tenta seguir procedimentos adotados ao redor do mundo.

Entre eles o uso de máscaras, a higienização das mãos e, sempre que possível, o isolamento social.

No Brasil, a aquisição de vacinas ocorreu tardiamente e os paliativos sanitários foram aplicados sem método. 

O resultado é uma tragédia que a quantidade de mortos —mais de 300 mil— tornou inquestionável. 

Num esforço para atenuar o flagelo, criou-se na semana passada um comitê anticovid. Reúne Bolsonaro, os presidentes do Senado e da Câmara e o ministro da Saúde.

Reuniram-se nesta quarta-feira. Ao final, forneceram ao país mensagens desencontradas.

Bolsonaro se isola, estica corda e pressão aumenta sobre PGR e Congresso

Bolsonaro reiterou sua aversão às medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos. 

Defendeu a volta a uma hipotética normalidade. Marcelo Queiroga, o quarto ministro da Saúde, escalou o muro. 

Disse que "medidas extremas nunca são bem vistas", mas recomendou o "distanciamento". 

Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, defendeu as medidas que o governo hesita em apoiar.

Realçou a importância da "uniformização do discurso".

Pacheco pronunciou algo muito parecido com um vaticínio.

O Brasil, segundo o comandante do Senado, só tem dois caminhos a seguir: a união ou o caos.

O comentário chega num instante em que crescem as filas nas UTIs.

Acentua-se o drama da falta de oxigênio e de sedativos para a intubação de pacientes que sobrevivem à fila.

Os cemitérios são forçados a realizar expediente noturno para dar conta do sepultamento dos mais de 3 mil mortos que a covid produz diariamente.

Ou seja:

a união de que falam as autoridades de Brasília tornou-se uma utopia.

Mas o caos já é uma realidade bastante palpável. 

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Opinião:

Leonardo Sakamoto - Com quase 4 mil mortes em 24h, Jair bombará vírus com auxílio de R$ 5/dia

Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

31/03/2021 21h05

O Brasil bateu um novo recorde, nesta quarta (31), com o registro de 3.950 mortes em 24 horas. Não temos vacinas disponíveis para frear a escalada de terror porque o Seu Jair não comprou quando deveria. A única alternativa no curto prazo seria um duro isolamento social, coisa que sabota. E ele ainda quer pagar um auxílio emergencial tão pífio que não vai segurar ninguém em casa. Ou seja, o presidente empareda seu país. Ou melhor, asfixia.

O governo avisou que vai começar a liberar o novo auxílio emergencial na próxima terça (6). Com 96 dias de atraso, pois ele deveria ter mantido o benefício na virada do ano a fim e garantir que as pessoas não precisassem ir às ruas em busca do básico para a sobrevivência, bombando a infecção.

O pior é que o benefício retorna na forma de migalha que cai do banquete dos subsídios e isenções dados aos mais ricos e não como uma política central para a garantia de dignidade de trabalhadores informais pobres no pior da pandemia.

Enquanto na primeira onda, muito menos letal, o benefício começou entre R$ 600 e R$ 1200 por mês, agora, em meio a um verdadeiro massacre, o valor será de R$ 150 a R$ 375. Com R$ 150 é possível comprar apenas 23% da cesta básica em São Paulo, 29%, em Belém e 31%, em Salvador, de acordo com levantamento mensal feito pelo Dieese.

Não à toa o que choca o mercado financeiro é a possibilidade do valor do auxílio ser maior, não o governo flertar com o golpismo.

Como um trabalhador pobre e informal irá sobreviver com R$ 5 por dia, considerando que, além de comer, ele tem contas de água, luz, telefone, internet, não se sabe. Talvez Jair Messias possa dizer para qual santo ou santa essas pessoas poderão rezar. Afinal, ele não sabe fazer chover maná, nem multiplicar pães e peixes, apenas criar ilusões de autogolpe.

Bolsonaro sabe que nenhuma mãe ou pai ficará em casa se protegendo desse vírus de merda enquanto seus filhos vão dormir com fome. Trabalhadores vão preferir tentar a sorte saindo em busca de bicos e trabalhos, contaminando-se em ônibus e trens lotados porque sabem que R$ 250 não dá. E é isso o que Jair quer.

Pois, ele vai continuar jogando esse pessoal contra governadores e prefeitos, que decretam o fechamento de setores econômicos como medida sanitária. Quer tudo aberto, para que a economia sofra menos e, com isso, sua reeleição continue viável.

"A fome está batendo cada vez mais forte na casa dessas pessoas que lacrimejam seus olhos quando veem que não têm o mínimo para dar a seus filhos." Bolsonaro teve a pachorra de dar essa declaração, nesta quarta, como se não tivesse responsabilidade alguma por essa fome.

Praticando um de seus esportes preferidos, o Arremesso de Responsabilidade à Distância, disse que a penúria é culpa do isolamento e não do atraso no pagamento do benefício aos mais pobres.

Ou do prolongamento desnecessário da pandemia causado por suas decisões de negar a gravidade da doença, incentivar aglomerações, receitar remédios sem eficácia, atacar a vacina por meses a fio e tentar emparedar quem se baseia na ciência.

Sabe o que é pior do que governantes que fazem da morte seu instrumento político? É a necropolítica que usa óleo de peroba, diariamente, como protetor solar.

Em tempo: Daí, quando bate o desespero, o empresariado "altruísta" espera um cambalacho do Congresso Nacional para poder comprar vacinas apenas para seus executivos, empregados e familiares, fora de qualquer lógica de imunização coletiva, e ainda abatendo os custos dos impostos. Comprar vacinas e doá-las ao SUS, ajudando a sociedade a sair do atoleiro como um todo? Coisa de otário.

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Bolsonaro luta para não ser culpado por 'negligência criminosa', diz especialista em ditaduras latinas

Bolsonaro sempre deixou claro seu apreço pela ditadura militar - Raul Spinassé/Folhapress
Bolsonaro sempre deixou claro seu apreço pela ditadura militar Imagem: Raul Spinassé/Folhapress

Mariana Sanches - @mariana_sanches - Da BBC News Brasil em Washington

31/03/2021 06h56

Estudioso de ditaduras latinas e diretor do Projeto de Documentação Brasileiro do Arquivo de Segurança Nacional Americano, em Washington D.C., Peter Kornbluh tem acompanhado com atenção os movimentos recentes na política nacional do Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro anunciou, na segunda-feira (29/3), a troca de comando de seis ministérios. Embora uma reforma ministerial fosse aguardada para acomodar os interesses políticos dos líderes do chamado centrão, base de sustentação de Bolsonaro no Congresso, a saída do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e a troca dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica surpreenderam.

Após saída de chefes militares, oposição pede preservação da democracia

Em sua carta de demissão, Azevedo e Silva afirmou que "neste período (à frente da pasta), preservei as Forças Armadas como instituições de Estado", o que provocou questionamentos sobre uma possível tentativa de politização do Exército Brasileiro.

Ao longo de março, Bolsonaro repetiu algumas vezes o termo "meu exército" para se referir às Forças Armadas do país. "O meu Exército não vai para a rua para cumprir decreto de governadores. Não vai. Se o povo começar a sair de casa, entrar na desobediência civil, não adianta pedir o Exército, porque meu Exército não vai. Nem por ordem do papa. Não vai", afirmou Bolsonaro, em 19/03, sobre a possibilidade de que os poderes estaduais impusessem lockdown para tentar conter a pandemia de covid-19, que já matou quase 318 mil.

Para Peter Kornbluh, o rearranjo de Bolsonaro nas Forças Armadas e nos demais ministérios é uma tentativa de sobreviver ao que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), chamou, na semana passada, de "remédios conhecidos e amargos, alguns fatais", que poderiam ser adotados pelo Congresso caso a condução da pandemia não fosse alterada.

Lira se referia a um processo de impeachment. "Bolsonaro está lutando contra qualquer esforço político para responsabilizá-lo pela negligência criminosa que já levou a dezenas de milhares de mortes desnecessárias e muitas milhares mais por vir", avalia Kornbluh.

Indicativo de que Bolsonaro procura se defender de ataques externos são os nomes que pinçou para os postos. Quase todos já estavam em seu círculo mais próximo e são considerados de estrita confiança da família. O sucessor de Azevedo e Silva na pasta é o general Walter Braga Netto, que até então chefiava a Casa Civil. Em seu lugar, entrou o General Luiz Eduardo Ramos, outro militar aliado de longa data de Bolsonaro, que era o secretário de governo da Presidência, responsável pela articulação do Executivo com o Congresso.

Na vaga de Ramos entra a deputada federal Flávia Arruda (PL-DF), com a incumbência de negociar com os colegas do centrão, da qual também faz parte. Além disso, para o lugar do chanceler Ernesto Araújo, cuja demissão era demanda explícita do Congresso, Bolsonaro também encontrou uma solução dentro do Palácio do Planalto: o embaixador Carlos Alberto França, que como cerimonialista da presidência conquistou a simpatia do mandatário.

"Obviamente, Bolsonaro está se fortalecendo contra o crescente - e justificável - descontentamento nacional com sua liderança", afirmou Kornbluh.

Para o especialista, é possível que além dos alertas domésticos, Bolsonaro esteja atento ao que tem acontecido com seu aliado internacional prioritário, o ex-presidente Donald Trump.

"Os ex-consultores da força-tarefa contra a covid-19 de Trump agora estão dizendo que suas ações negligentes, semelhantes às de Bolsonaro, foram responsáveis por mais de 400 mil vidas perdidas nos Estados Unidos", diz Kornbluh, em referência a uma entrevista à CNN dada, nesta segunda 29/3, por Deborah Birx, coordenadora da resposta contra a covid-19 na Casa Branca.

Ela afirmou que o presidente não levava a sério o problema e estimou o número de vidas que poderiam ter sido salvas se as medidas adequadas fossem tomadas.

Tanto Bolsonaro quanto Trump agiram contra medidas de distanciamento social, se recusaram ao longo de meses a usar máscara, promoveram tratamentos sem eficácia cientificamente comprovada, como a hidroxicloroquina, e chamaram a doença de "gripezinha".

Bolsonaro e 'a paixão pela era da ditadura militar'

Com a ressalva de que não tem conhecimento suficiente sobre o Exército brasileiro para afirmar que poderia haver alguma tentativa de golpe agora, Peter Kornbluh vê com preocupação os movimentos em relação às Forças Armadas e o histórico de opiniões do presidente sobre o assunto.

"Bolsonaro nunca escondeu sua paixão pela era da ditadura militar e suas próprias tendências autocráticas", afirmou.

Durante a campanha presidencial, em 2018, Bolsonaro afirmou que seu livro de cabeceira era "Verdade Sufocada", do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos militares acusados de tortura e assassinatos ao longo da ditadura. Em julho de 2016, em uma entrevista à rádio Jovem Pan, ele afirmou: "O erro da ditadura foi torturar e não matar".

Autor de livros referência na área como O Arquivo Pinochet: Um Dossiê revelado sobre atrocidades e responsabilidades, sobre a ditadura militar chilena, e Por baixo dos panos em Cuba: A história secreta das negociações entre Havana e Washington, sobre o regime socialista em Cuba e sua relação com os EUA, Kornbluh se mostra cético sobre as possibilidades de sucesso de Bolsonaro em seu movimento político, qualquer que sejam suas intenções por trás dele. Isso porque o número de vítimas da covid-19 apenas aumenta e deve seguir pressionando os políticos e a sociedade a demandarem respostas do Executivo. Nesta terça, 30/3, o país atingiu um novo recorde: 3.780 mortes em 24 horas.

"Tanto o povo brasileiro quanto os militares, como instituição, bem sabem que um regime liderado por Bolsonaro não pode protegê-los do inimigo invisível que assola o Brasil: o coronavírus".

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