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“Ciro está voltando às suas origens da Arena”, diz PML

247 - O jornalista Paulo Moreira Leite, em participação no programa Bom Dia 247 desta segunda-feira (19), analisa a nova articulação de Ciro Gomes, que se reuniu por cinco horas com ACM Neto para discutir aliança nacional contra o PT.
Segundo o jornalista, a veia de direita do pedetista não é nova. “Quando o Ciro atuava no movimento estudantil, ele era membro da Arena Jovem. Agora, ele se encontra com o neto do ACM e irão sair juntos em aliança. É o desfecho de sua trajetória”
“A aliança com ACM Neto, visando as eleições presidenciais, está sendo feita às claras, já pensando num segundo turno. Sendo assim, ao menos ilude menos gente”, acrescenta.
Saiba mais
O pedetista Ciro Gomes, que ontem disse que irá a Paris novamente em caso de segundo turno entre Lula e Bolsonaro, está cada vez mais próximo da direita tradicional, segundo aponta reportagem desta segunda-feira da Folha de S. Paulo. "O presidente do DEM, ACM Neto, tem discutido com Ciro Gomes (PDT) uma solução conjunta para uma terceira via. Ambos reuniram-se recentemente, por cinco horas, na casa de Ciro, em Fortaleza. O compromisso deles é de que o PDT e o DEM buscarão um projeto para se contrapor a Bolsonaro e Lula", aponta a repórter Julia Chaib. Ciro deve apoiar ACM Neto na Bahia, na provável disputa contra o ex-governador Jaques Wagner.
Leda Nagle compartilha fake news conspiratória sobre plano de Lula para matar Bolsonaro (vídeo)

247 - Bolsonarista, a apresentadora Leda Nagle compartilhou um vídeo fake news neste segunda-feira (19) reproduzindo uma postagem de um suposto delegado, que revelou os planos do ex-presidente Lula para matar Bolsonaro.
Com tom conspiratório, ela revela a postagem, e faz seu alerta.
Nagle foi duramente criticada pelos internautas por disparar fake news de forma irresponsável.
Ressentido, Bial ataca Stycer e toma invertida: “achei grosseiro mesmo o tratamento dado a Lula”

247 - O jornalista Maurício Stycer, em sua coluna no portal UOL, afirma que “há um aspecto positivo no texto mal-educado que Pedro Bial publicou na "Folha" na tarde de domingo (18) com ofensas a mim, mesmo sem ser citado nominalmente, e ao UOL. Trata-se da constatação, que me deixa realmente feliz, que uma crítica de televisão em sentido estrito ainda gere debate e discussões no Brasil”. “Infelizmente, porém, a qualidade da contestação de Bial deixa muito a desejar. O apresentador busca explicar por que disse numa TV pública ligada ao governo do Estado de São Paulo, durante o "Manhattan Connection", que só entrevistaria o ex-presidente Lula com um detector de mentiras. Em coluna no UOL, classifiquei o comentário como "grosseiro"”, relembra o jornalista.
Ele relata que, no texto publicado pela “"Folha", Bial informa que foi convidado a escrever pelo editor do jornal, de quem teria ouvido. "Acho que você está sendo vítima de uma campanha". O apresentador, então, emenda: "Faz sentido oferecer-me compensação, pois houve campanha, e foi desencadeada pelo UOL [portal que tem participação minoritária e indireta da Folha] a partir de colaboradores 'cheerleaders' do Twitter, que cravaram o adjetivo "grosseiro" como início de seu título caça-clique"”.
Stycer rebate o artigo: “Campanha? Meu texto, publicado na quinta-feira (15), teve muita repercussão na internet. Uma parte considerável dos comentários que vi foi em apoio a Bial - e com críticas a mim e xingamentos a Lula. Algumas poucas figuras públicas, como o comediante Gregorio Duvivier, o influenciador Felipe Neto e o ator José de Abreu, criticaram Bial. O apresentador Danilo Gentili ironizou a minha visão””.
“Por fim, Bial quer ensinar ao crítico qual seria o adjetivo correto para qualificar o seu comentário sobre o "polígrafo" para Lula. "Grosseiro", já sabemos, não o agradou. "Mais honesto seria 'jocoso' ou 'irreverente', mas talvez não fosse tão chamativo", ensinou o apresentador, insistindo na ideia de que o termo "grosseiro" foi usado por mim para conseguir audiência para a coluna. Não. Achei grosseiro mesmo o tratamento dado a Lula, como teria achado o apresentador se referisse assim a outros ex-presidentes. Uma grosseria gratuita”, diz Stycer.
Em artigo, Pedro Bial tenta justificar grosseria contra Lula
Bial abre o artigo afirmando que a não foi "grosseiro" ao atacar Lula. "Mais honesto seria “jocoso” ou “irreverente”, mas talvez não fosse tão chamativo", di

247 - Após a repercussão negativa gerada nas redes após Pedro Bial agredir gratuitamente o ex-presidente Lula, o apresentador da Rede Globo publicou um artigo na Folha, neste domingo (18), para tentar explicar a declaração sobre o uso de polígrafo contra o ex-presidente.
Bial abre o artigo afirmando que a não foi "grosseiro" ao atacar Lula, como apontou centenas de internautas nas redes sociais. "Mais honesto seria “jocoso” ou “irreverente”, mas talvez não fosse tão chamativo", diz.
E segue: "E saibam agora que, em minha resposta bem-humorada à grosseria de Lula - “ao vivo, só com polígrafo” -, eu não estava apelando ao truísmo universal de que “políticos mentem”. Nem me referia a possíveis inverdades em discursos, declarações ou depoimentos do dono do PT. Tampouco invoquei a famosa entrevista em que Lula disse, como se falasse a verdade, que mentia mesmo para dramatizar estatísticas".
Bial tenta justificar o seu ataque citando que em 2005, Lula, então Presidente da República, teria dito que o jornalista havia sido grosseiro na conversa em Brasília, que girou em torno do mensalão, o que segundo ele não foi verdade.
Covid-19 avança sobre povos indígenas de todo o Brasil, diz Apib

Sputnik - Um levantamento realizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Apib, mostra que a pandemia de COVID-19 se espalha pelas aldeias e o número de seus membros mortos já ultrapassa a casa dos mil.
A Sputnik Brasil ouviu um representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Fundação Nacional do Índio (Funai) para saber mais sobre como está sendo gerenciada a ajuda a esses povos para o combate à pandemia.
Segundo a Apib, já foram registrados 1.039 óbitos e mais de 52 mil indígenas — distribuídos entre 163 povos — tinham sido infectados com a doença. A média é de três mortes por dia, informa o levantamento do órgão, divulgado pouco antes desse dia 19 de abril, quando se celebra o Dia do Índio.
Pandemia entre os indígenas
Gilderlan Rodrigues da Silva, coordenador regional do Cimi no estado do Maranhão, disse que a situação dos povos indígenas hoje, por conta da expansão da pandemia, é muito delicada, pelo fato de nem todos ainda terem sido vacinados.
Um dos gargalos para a distribuição de ajuda e vacinação contra a COVID-19, segundo ele, é a distância e o acesso às terras indígenas. Há um esforço muito grande por parte do Cimi para que esses povos não saiam de seus territórios e que sejam feitas barreiras sanitárias, com o intuito de impedir o avanço da doença entre as tribos.
Questionada sobre como está agindo para combater a pandemia e evitar o contágio dos indígenas, a Funai respondeu através de uma nota à Sputnik Brasil que, no âmbito de suas competências, tem dado toda a atenção e o suporte necessários para que as comunidades possam passar pela pandemia da melhor forma possível.
"A Fundação tem superado diversos desafios logísticos de Norte a Sul do país para que as cestas de alimentos cheguem às aldeias, sobretudo nas áreas mais remotas. Em muitos lugares o acesso é difícil, principalmente em locais onde há floresta e mata fechada. Há aldeias em que a chegada é possível apenas de barco ou avião. Nesses casos, deve haver um planejamento minucioso para que as ações sejam cumpridas de forma efetiva e segura", continuou a nota da Funai.
Ao todo, a Funai já investiu R$ 46 milhões em ações preventivas, com destaque para o suporte a cerca de 300 barreiras sanitárias, a fim de impedir o ingresso de não indígenas nas aldeias. Ainda no mês de março de 2020, a fundação já havia suspendido as autorizações para ingresso em terras indígenas, disse o órgão na nota.
Sobre a vacinação dos povos indígenas e demais questões envolvendo a saúde indígena, a Funai esclareceu na nota que o responsável pelo assunto no país é o Ministério da Saúde, que o órgão não cuida diretamente da matéria, mas sim a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai/Ministério da Saúde), que possui a competência institucional de coordenar e executar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas e todo o processo de gestão do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) no Sistema Único de Saúde (SUS).
Os indígenas foram incluídos pelo Ministério da Saúde na primeira fase dos grupos prioritários do Plano Nacional de Imunização (PNI) contra a COVID-19. Relatório das ações realizadas pela Sesai para enfrentamento da pandemia do novo coronavírus — em versão atualizada em 9 de abril — traz dados sobre porcentagens de imunizados, apontando que cerca de 295 mil receberam pelo menos a primeira dose.
Ajuda aos povos indígenas
De acordo com Gilderlan, os indígenas têm tido também certo apoio de alguns governos estaduais e municipais pelo Brasil a fora em termos de distribuição de cestas básicas, mas que infelizmente isso foi visto somente no ano passado, e que agora pouco apoio tem sido dado.
Por conta disso, o representante do Cimi explicou que "muitos povos, nesse momento, estão fazendo suas próprias roças, para produzir sua alimentação, por entenderem que não dá para depender exclusivamente das cestas básicas, que foram bastante reduzidas".
A Funai informou que já entregou aproximadamente 600 mil cestas básicas a famílias indígenas durante a pandemia, o que representa cerca de 13 mil toneladas de alimentos distribuídos. Segundo o órgão, a medida "garante a segurança alimentar de milhares de indígenas no país, contribuindo para o isolamento social e para evitar o risco de contágio pela COVID-19".
Outro problema assola a população indígena e suas terras: "A invasão de seus territórios aumentou, colocando-os em situação de vulnerabilidade, então há uma preocupação muito grande com essa situação que eles estão vivendo, junto com a falta total de apoio por parte dos governos nesse quesito", explicou Gilderlan.
Em contraste com essa afirmação do representante do Cimi, a Funai disse que, no âmbito da proteção da territorial, desde o início da pandemia foram realizadas 306 ações em 221 terras indígenas para coibir ilícitos, como extração ilegal de madeira, atividade de garimpo, além de caça e pesca predatórias, a um custo de R$ 12 milhões, realizadas em parceria com outros órgãos, como Exército e Polícia Federal. Também foram executadas 11 expedições de localização e monitoramento de índios isolados.
Atuação do Cimi e da Funai
Gilderlan afirmou que o Cimi tem buscado estar junto dos povos indígenas nesse momento difícil através da doação de kits de higiene e itens de alimentação, além de apoio na produção das roças, na proteção dos territórios, na realização de denúncias, na cobrança da vacinação para esses povos, tanto os que estão em território demarcado como os que estão vivendo no contexto urbano.
O órgão tem buscado ajudar esses povos, continuar sua missão junto a eles "por entender que o momento é bastante complicado e que se faz necessária essa presença, essa escuta, também essa cobrança para que haja prioridade para os indígenas", continuou o representante do Cimi.
Ele frisou que o Cimi tem lutado junto as organizações indígenas para que os povos tenham a sua produção necessária de alimentos, acesso às vacinas e na manutenção de seu modo de vida tradicional.
A Funai, por sua parte, diz promover o etnodesenvolvimento e a autonomia indígena, e para isso foram investidos R$ 18 milhões em ações que visam a autossuficiência das comunidades, como a aquisição de materiais de pesca, sementes, mudas, insumos, ferramentas e maquinários agrícolas.
A intenção do órgão é fazer com que os indígenas mantenham a produção, além de colaborar para que, no pós-pandemia, as etnias invistam em processos de geração de renda e fortaleçam sua cultura.
Rádio Internacional da China/247
É verdade que a natureza desprezível de alguns políticos japoneses é imutável?
Rádio Internacional da China - "Extremamente belicoso e extremamente gentil, extremamente submisso e extremamente odiado de ser ordenado, extremamente leal e extremamente rebelde..." Esta é a análise da antropóloga cultural norte-americana, Ruth Benedict, sobre o caráter e as características culturais da nacionalidade japonesa em seu livro publicado em 1946. Após 75 anos, a atuação desprezível de alguns políticos japoneses revelou mais uma vez ao mundo essa grande contradição.
Na verdade, nas conversações de alto nível entre os EUA e o Japão realizadas em meados de março em Tóquio, o Japão foi muito servil, seguindo os EUA ao fazer comentários irresponsáveis sobre muitas questões relacionadas à China. Vale notar que a declaração conjunta que envolve, pela primeira vez, a questão de Taiwan, é um movimento muito importante. Tendo em vista que o Japão invadiu a parte continental da China e colonizou Taiwan, não há dúvida de que essa prática terá um impacto negativo nas futuras relações sino-japonesas.
O Japão mostrou nos últimos anos uma vontade de melhorar suas relações com a China. Por que de repente decidiu mudar? Os fatores internos são a chave. Os políticos japoneses pretendem aproveitar a estratégia dos EUA para conter a China e atender às suas próprias demandas.
Desde que seu PIB foi ultrapassado pela China em 2010, o Japão depende e está mais ciumento e ansioso com o desenvolvimento da China. O governo Abe cumpriu a ideia de "um Indo-Pacífico livre e aberto centrado no confronto com uma China em ascensão". Depois que Suga assumiu o poder, ele herdou essa ideia e foi mais longe.
O Japão está vivendo a quarta onda da pandemia e seu crescimento econômico caiu para -4,83% em 2020. O gabinete de Yoshihide Suga precisa urgentemente desviar os conflitos internos para obter apoio nas eleições presidenciais do Partido Liberal Democrático em setembro. Depois que Biden assumiu o poder e vê a China como uma concorrente, o Japão encontrou essa oportunidade.
É verdade que a natureza desprezível de alguns políticos japoneses não pode ser mudada? Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão foi derrotado pela China, que era fraca. Hoje em dia, o poder da China aumentou dramaticamente e o Japão não hesita em vender os interesses regionais para se aliar aos EUA e conter a China. Essa tentativa será uma tarefa impossível de ser concretizada.
Esses políticos japoneses devem perceber que a questão de Taiwan está relacionada aos interesses centrais da China. Se o Japão unir forças com os Estados Unidos para desafiar a China nessa questão, confrontos entre os dois países asiáticos serão desencadeados.
Os políticos japoneses sabem claramente a atitude dos EUA em relação a seus aliados. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos utilizaram o Japão para conter a União Soviética. No entanto, na década de 1980, o Japão foi sancionado pelos Estados Unidos e entrou em uma estagnação econômica de longo prazo. Além disso, a excessiva presença militar dos Estados Unidos causou enorme controvérsia no Japão. Muitas pessoas temem que, assim que houver operações de combate no futuro, o Japão se tornará a primeira vítima.
Um país que não aprendeu com a história não tem futuro. Os políticos japoneses acabarão pagando pelo que fizeram.
Xuxa diz que gostaria de ser negra e Taís Araújo dá choque de realidade: "depois te conto o que é ser preta no Brasil" (vídeo)
Atriz deu um choque de realidade na apresentadora Xuxa, após ela dizer que gostaria de ser negra: “depois te conto o que é ser negra no Brasil no mundo. É eita atrás de vish”, disse Araújo

247 - A atriz Taís Araújo deu um choque de realidade na apresentadora Xuxa, durante a exibição de um programa da GNT, após a “rainha dos baixinhos” dizer que gostaria de ser negra: “depois te conto o que é ser negra no Brasil no mundo. É eita atrás de vish”, disse Araújo.
Xuxa insistiu que gostaria de ser negra e Thaís reforçou: “então prepare seu espírito porque não é fácil”.
Mulheres que perderam emprego na pandemia recorrem à prostituição em SP
Felipe Pereira
Do TAB
19/04/2021 04h01
Quando a miséria prevalece e o filho chora de fome, certos constrangimentos se dissolvem. Em São Paulo, tem mulher se deitando com desconhecido por R$ 50.
A engrenagem da desgraça começa com comércio fechado pela pandemia, perda do emprego, dívidas e geladeira vazia. Aconteceu com uma vendedora de 21 anos que trabalhava numa loja do Brás, em que não vigorava a CLT. A moça sem direitos trabalhistas tinha um bebê com bronquite. O que ela não tinha era fralda e leite.
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'Tem final feliz?' Na fronteira entre o sexo e a massagem em São Paulo
A vendedora resistiu o quanto pôde, mas choro de filho dispara um alarme. Fazer programa não era indigno. Errado seria deixar o menino de seis meses passar necessidade. Foi com esse raciocínio que, em abril de 2020, "nasceu" Pâmela Cristina, nome de guerra escolhido pela prostituta de shorts jeans e camiseta branca que bate ponto na esquina da estação da Luz a partir das 10 horas da manhã.
Pâmela entrou no submundo por meio de uma amiga de infância que cresceu com ela num bairro da zona leste de São Paulo. Com o apadrinhamento, garantiu um lugar na calçada sem hostilidades das demais garotas que trabalham na região.
Na data combinada, Pâmela se apresentou maquiada, vestindo calça jeans e a blusa cropped mais curta que tinha no guarda-roupa. Ainda no caminho para a esquina, aconteceu o que ela temia — um homem perguntou se fazia programa. Respondeu que não, mas a amiga entrou na conversa. "Faz, sim."Pâmela pediu R$ 70, valor acima do preço tabelado de R$ 50. O cliente pagou.
"Fomos para um desses hoteizinhos que tem na Luz. No caminho, eu pensava em desistir e que precisava da grana. Ele entrou no quarto e tirou a roupa. Fiquei chocada. Meio que tirei parte da roupa e falei: 'Só chupo de camisinha'. Transamos, tomei banho e fui embora me sentindo suja, mas feliz com o dinheiro."
As imediações da estação da Luz estão dentro da área da cracolândia. Nas suas calçadas dá para conseguir drogas e prostitutas, mas a maioria das mulheres tem idade avançada. Pâmela era novidade e muito mais jovem. Bastante requisitada, logo estava fazendo R$ 500 por dia. O valor endireitou as contas domésticas.
Ainda na gravidez, a garota se separou de um ajudante de pedreiro. Sem serviço no começo da pandemia, ele conseguia enviar coisa como R$ 50 para o bebê por semana. Depois que Pâmela decidiu se prostituir, o combinado foi a mãe sustentar a criança e o pai cuidar do filho.
Hoje, os rendimentos não repetem o sucesso das primeiras semanas, mas são suficientes para bancar o filho. A garota não entrega dinheiro ao ex. Leva compras, roupas, calçados e brinquedos.
Escândalo na família
Assim que perdeu o emprego no Brás, Pâmela tentou vaga nas lojas do centro de São Paulo. Quando começou a se prostituir, combinou as duas atividades. Pela manhã, entregava currículos; à tarde, fazia programas. Ela também foi levada a boates, mas não gostou da experiência.
"Lá, você trabalha cafetinada e fica só com parte do dinheiro. Na rua, tudo que eu ganho é meu."
Pâmela se fixou na Luz e a decisão causou sequelas familiares. A mãe não falou nada, mas usou o WhatsApp para agir, causando um barraco digno de programa de fofoca vespertino.
"Ela veio até aqui [Luz], tirou fotos de mim fazendo ponto e mandou para o meu pai. Ele me mandou uma mensagem dizendo: 'Você tá se prostituindo? Me conta isso direito para eu não te matar'. A gente ficou dois meses sem se falar."
Quando o pai aceitou conversar, ouviu o relato da penúria que a filha e o neto estavam vivendo. O assunto foi colocado embaixo do tapete. Pâmela tem uma família que prefere se enganar e não toca no assunto.
A garota também tem seus dramas com que lidar. Criada na Congregação Cristã do Brasil até os 12 anos, ela tocava órgão nos cultos e ajudava na limpeza da igreja. O passado religioso gerou um choque de valores. Mas a repetição das idas aos quartos dos hotéis amenizou a crise moral.
Hoje, Pâmela conta que não sente vergonha. Mas admite que recorre a válvulas de escape. Junto com a amiga de infância, queima até 20 gramas de maconha por dia.
A realidade é dura, mas poderia ser pior. Quando estava sem leite e fralda para o filho, ela avaliou as possibilidades que estavam à disposição: prostituição, roubar ou traficar. A garota explica que, na quebrada onde nasceu, sabe de pessoas que poderiam providenciar meios para as duas atividades criminosas.
"Eu pensei que dava dinheiro, mas não dava futuro. Eu ia ser presa e acabaria longe do meu filho."
A pandemia impôs a Pâmela uma realidade em que a prostituição era a alternativa com menos efeitos colaterais. Ela só espera que não esteja contaminada pelo submundo a ponto de não querer voltar a ser vendedora. A preocupação existe, porque os rendimentos são bons e o asco ao ser tocada por estranhos desapareceu.

Medo do agiota
O ano de 2021 começou complicado na casa da cabeleireira Mirella, 40 anos. O fornecimento de cesta básica terminara e ela e o marido passaram dezembro comendo só arroz com feijão. Foi o cardápio até da ceia de Natal. A dieta limitada não impediu que a luz fosse cortada em janeiro.
A conta d'água também estava atrasada. Pior de tudo: pela primeira vez, desde o começo da pandemia, não havia R$ 700 para pagar o aluguel. O risco de serem despejados mudou de patamar. Passou de uma preocupação distante para uma possibilidade.
Dormir na rua apavorava Mirella. O medo de roubo, estupro e assassinato fez apelar para um agiota. Com os R$ 1 mil recebidos, a cabeleireira pagou as contas atrasadas e colocou comida na geladeira. O alívio foi provisório; o drama do empréstimo, permanente. Ela assinou uma duplicata com juros de 40% ao mês. "Senti que tava me fodendo, mas o desespero era grande."
A cabeleireira conta que não houve ameaça, apenas o aviso de que seria procurada em caso de atraso. O pavor em descobrir do que os capangas do agiota eram capazes transformou a prostituição em solução. De fevereiro em diante, ela adotou identidade dupla. De dia, usa o nome de batismo. À noite, atende por Mirella e faz ponto na Penha, na zona leste de São Paulo.
"A prostituição para quem trabalha na área de garagem de caminhão não atrai polícia. A PM não embaça porque a gente não faz bagunça, não joga camisinha usada no chão e não é área residencial."
Ciúmes do marido
Mirella deixou Rio Tinto (PB) e a família aos 21 anos, sonhando ser uma cabeleireira renomada em São Paulo. Chegou aos 40 orgulhosa das mechas e da escova progressiva que faz, mas não montou salão famoso. Atendia em casa, e a freguesia sumiu na pandemia. Nem foi isolamento social, mas falta de dinheiro, mesmo.
Arruinada financeiramente, Mirella comunicou ao marido a decisão de se prostituir. Contrariado, ele protestou. Diante da resolução da mulher, adotou a resignação. Não toca no assunto quando a cabeleireira volta para casa.
O combinado é ela deixar o ponto às 23h. Até esse horário, o casal troca mensagens de áudio enquanto Mirella espera clientes. Quando há demora na resposta, o ciúme aparece.
"Às vezes ele manda mensagem e falo que tô ocupada. Se eu demoro a mandar áudio, ele fala que tô fazendo romance ao invés de trabalho."
Para preservar a parceria do casamento, o casal tenta manter a rotina sexual. Mirella diz que estão juntos há oito anos e não existia mais a empolgação do começo do relacionamento. Eles transam somente nos finais de semana e, nesses dias, Mirella não dá expediente.
"Eu reservo o sábado e o domingo para o meu marido. São os dias que ele fica em casa e podemos estar juntos."
A realidade é ruim para os dois. Mirella precisa lidar com o casamento e administrar a cabeça. Muitas vezes, se sente humilhada por fazer programa. Também incomoda viver na mentira. Os vizinhos não sabem que está se prostituindo. A ausência durante as noites foi justificada com a desculpa de fazer um curso.
O look do cotidiano na hora de sair de casa mantém o disfarce, mas na mochila há roupas provocantes no lugar do material escolar. Mirella espera pagar o agiota até o meio do ano e encerrar este ciclo. Por enquanto, o cronograma está sendo cumprido.
No momento, a geladeira dela tem arroz, feijão, coxa e sobrecoxa de frango suficiente para uma refeição, margarina e uma jarra de Tang sabor laranja. O armário não tem pão, só bolacha salgada e café.
'Vida de boy': o corre dos garotos de programa no centro de São Paulo

Naquela quarta-feira, Thiago, 36, acordou animado. Era 20 de janeiro, data de pagamento para muitos assalariados. Apesar de ele não ter registro ou salário definido, o dia prometia bons ganhos.
Vestiu calça, camiseta e a inseparável munhequeira de couro, despediu-se rapidamente da mulher, com quem divide uma casa no Brás, na área central de São Paulo, e correu para mais um dia de trabalho a poucos quilômetros dali, na República. A primeira parada é no Cine Paris, disputado cinema pornô que oferece cabines privativas no nível da rua.
Não demora muito e ele sai acompanhado de um homem de meia-idade, baixinho, calça social larga, camisa branca e uma malinha a tiracolo. Com 2 metros de altura, Thiago abaixa a cabeça para ouvir melhor, mas logo eles se despedem. "Achei que ia fazer um antes do almoço, mas a gente marcou para amanhã", conta.
O relógio na calçada à frente aponta 12:45, 30ºC, e Thiago parte em busca de uma sombra na praça, do outro lado da rua. O lugar onde os paulistanos do século 19 assistiam a rodeios e touradas hoje recebe moradores de rua, vendedores de água, cartomantes e homens de idades, origens e tipos diferentes em busca de um trocado.
Entre o ir e vir das pessoas que trabalham na região — ou que tomam um sorvete como sobremesa, à sombra de árvores centenárias —, eles quase passam despercebidos: ficam horas sentados, encostados nas pequenas pontes sobre os lagos, com um olho no celular, outro no movimento. A Praça de República também é o ponto de encontro dos boys, como os próprios garotos de programa se autodenominam.
Os mais novos passeiam em grupos pequenos. Vestem camisas de time e apostam em roupas streetwear. Cabelo sempre na régua, pulseiras douradas, brincos e óculos de sol na cabeça. Desenvolveram um olhar especial para detectar quem é cliente e quem é curioso. Para o primeiro, eles apalpam a genitália. Para os outros, às vezes são ríspidos. "Não sei do que você está falando", me disse um rapaz de 20 e poucos anos e cabelos descoloridos. O paraibano Leo, 27, está desconfiado: não quer ver seu rosto ou nome verdadeiro na reportagem. "É complicado. Eu não trabalho aqui, não, mas preciso pagar as contas e aí tem que se virar nos 30."
Ao meu lado, William, 35, alerta. "Os mais novos são os mais ariscos. Muitos têm namoradas ou a família não sabe. Ninguém quer aparecer."
Com calça jeans maior do que o corpo e uma camiseta preta, ele conta que fazia programa desde os 21, mas afirma ter parado. Aquela tarde era uma exceção: precisava descolar uma grana para pagar o morador de rua que lhe vendeu uma bota nova — ele faz questão de mostrar o calçado, ainda sem riscos e sujeira. "Só faço quando estou na necessidade. Tem gente que gosta, mas eu não."
William mora embaixo do Minhocão desde o começo da pandemia. Tão logo a quarentena foi decretada, com o fechamento restaurantes e estabelecimentos não essenciais, perdeu o emprego numa loja do Habib's. Antes, morava num albergue. "Mas roubaram minhas roupas. Lá tem muito ladrãozinho e o maldito do percevejo", diz ao TAB, levantando a camisa e mostrando as marcas de picada nas costas.
Natural de São Carlos, no interior de São Paulo, William conta que migrou para a capital para trabalhar na montagem de palcos no Carnaval. Com pouco dinheiro no bolso, acabou não voltando. Foi naquela mesma região que fez o primeiro programa.
Ele explica a dinâmica. "Quando você é novo, você é o rei da cocada preta. Todo mundo quer sair com o novato. Mas se você ficar todo dia aqui focado, junto com os mais velhos, você fica manjado". A saída, segundo William, é diversificar, passar uns 4 ou 5 meses sem ficar no mesmo ponto.
Quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
O trabalho dos boys não se restringe ao espaço de 20 mil m² da praça. Estende-se às ruas que a contornam — em cabines e cinemas. Reaberta antes mesmo dos cinemas, a sauna é uma opção, mas para poucos. "Custa mais caro, é um investimento para entrar", explica Thiago. "Até porque você não faz só um ou dois programas ali, não é?"
A parada obrigatória ainda é o Cine Paris, há 50 anos localizado no cruzamento cantado nos versos de Caetano Veloso. O cinema de rua — que foi de clássicos estrangeiros a pornochanchadas — hoje exibe, sem interrupção, filmes pornôs. A entrada com paredes pretas ficou ainda mais discreta desde que apagaram o letreiro que dizia "Cine 24 horas".
Após a fase mais restritiva da quarentena, o Paris reabriu cumprindo os requisitos: totens de álcool em gel, temperatura medida na porta e funcionamento até às 21h30. As cadeiras da sala de cinema foram separadas com 1,5 m de distância, mas William dá o toque: "É nas cabines que o pau come."
Em um corredor estreito, os boys ficam na porta de cada cabine e o cliente passeia como se estivesse numa feira. Se gostar, pode resolver a coisa ali dentro, pagando R$ 6 por 10 minutos com o boy escolhido. A oferta é tanta que o Viagra é item essencial na hora da escolha. "Se você não estiver com pau duro, você não consegue nada. No geral, todos eles tomam para conseguir fazer o giro do dia", explica William.
No escuro, o distanciamento social é inexistente, mas isso não impede que o Paris continue com boa frequência frente às bilheterias de outras praças durante a pandemia. Em poucos minutos, homens de todos os tipos passam por aquela porta: trintões de camisa social e relógio no pulso, jovens estilo skatista, idosos com dificuldade de locomoção. "Tem trabalhador, advogado, médico. Eu nunca vi, mas ouvi falar que vem até policial aqui", conta William. "Mas geralmente é um pessoal mais simples, coroa, tem aquele que é aposentado, que já tá livre na vida."
Não importa a idade ou a origem, todos saem sem olhar para o lado e rapidamente somem no meio da multidão na calçada. As travestis ainda aparecem, mas com menos frequência. A abertura de novas cabines na região, voltadas especialmente para elas, fez mudar um pouco a dinâmica local. Mulher também é permitida, mas nunca aparece. "Tem casal hétero que de vez em quando vem pra transar no cinema, mas é só", conta William.
Já são 14h e o movimento na região aumenta com o fim do horário de almoço, tanto que nem noto quando um homem idoso desce a rampa de acesso ao cinema acompanhado de três jovens. William cochicha e aponta o dedo discretamente: é um velho conhecido. "Ele é maricona" — é assim que os boys chamam (entre eles) os clientes —- "Nunca fala com ninguém. Se ele se interessar na cabine, ele te escolhe e puxa pra fora".
Na meio da bagunça, o mais velho saca uma nota e passa para um jovem bem arrumado, de Nike no pé e fone de ouvido auricular. Os outros dois o acompanham. Entre buzinas, sirenes e pessoas correndo na faixa de pedestres, eles somem ao entrar num pequeno hotel, bem onde cruza a Ipiranga e a avenida São João.
Novos tempos, novos boys
O paulista Henrique, 20, está sentado sozinho embaixo do sol com um braço fora da camiseta. A máscara descartável parece maior do que seu pequeno rosto. "Prefiro aqui do que as cabines, é sempre muita gente, tem muito cara que está lá faz tempo", diz.
De calça estilo rasgada, boné virado, tem o olhar meio perdido, parece nem notar o vaivém de pessoas. Estava refletindo sobre seu trabalho. "Pra mim não dá. Nunca é garantido", diz.
Ele conta que trabalhava como marceneiro antes da pandemia. Há dois meses, faz ponto na praça. A família acha que ele conseguiu um bico qualquer. "Eu faço pra guardar um dinheiro, mas aqui cada um é cada um."
As motivações dos boys variam entre pagar boletos e custear desde roupas a vícios, seja de droga ou de sexo. Gabriel, 22, diz que ele é dos que "mais gastam do que ganham". De bermuda, boné e barba rala, ele define seu estilo como "maloqueiro doidão". É o mais animado. "Tem quem não goste, mas eu adoro. Pode ser mulher, pode ser homem. Mas depende da idade. Tem uns caras que vêm aqui que, se você meter, o cara tem um infarto", diz, dando risada. Um boy do lado, até então alheio à conversa, solta: "Esse aí, se um cliente oferecer comida, ele ainda assim prefere o sexo".
De Itororó, na Bahia — "cidade da carne de sol" —, Gabriel mora num albergue na Mooca. Saiu de casa aos 17 anos. "Não gosto de depender de família e esse é meu corre pra sobreviver. Não tenho contato com eles e nem quero. Nem preciso esconder nada. Faço isso desde criança, cheguei pra eles e falei na cara de pau."
A dificuldade dessa vida, segundo ele, é administrar o tempo dentro do programa. "Tem que ser pá-pum, bagulho pra mim é assim. Pegou, gozou, já era. Uma hora lá dentro são três clientes que eu perco aqui fora", explica. Drogas ele usa de forma recreativa, após o serviço. "Não adianta você ficar bruxão de dia que não vai rolar nada. Tem uns que conseguem, tem cliente que gosta de uns porra- louca."
Gabriel conta que a ideia é conseguir um trabalho registrado e parar com a vida de boy. Como vai a procura? "Ainda não comecei." Os amigos caem na risada. "Estou sendo realista..."
Ele conta que já conseguiu fazer R$ 400 em um dia, mas isso ficou no passado. "A pandemia deu uma enfraquecida, as pessoas têm mais medo de se expor, é muita gente casada que vem", diz.
Na parte de trás da praça, onde as travestis ficam concentradas, a reclamação de Isadora é a mesma. Ela está em São Paulo há dois meses, veio de Recife com o marido, também garoto de programa. "Ele está agora na sauna trabalhando. Tem dias que ele ganha mais do que eu", balbucia, acariciando a máscara no queixo. "Eu trabalhava mais no Recife do que aqui. As meninas daqui dizem que antes da pandemia era bem melhor."
Maquiada, com cabelo loiro recém-platinado, brincos grandes, ela parece ignorar minha presença, apesar de responder às perguntas. O jeito vai ser ir pra pista, ela diz. "Na avenida eu ganho mais. Gente rica por aqui é difícil, só se for no fim de semana."
Com camiseta e bermuda mais gastas, o baiano Leonardo Souza talvez seja o boy mais velho da região. Tem 50 anos, mas o porte atlético e o rosto sem rugas dão aparência de pelo menos 10 anos a menos. A maior parte dos clientes são aposentados ou jovens que não saíram do armário. A análise do orçamento ele fez pelas roupas. Se for alguém simples, faz por R$ 60.
Naquela tarde, ele tinha acabado de encontrar na rua um homem com quem havia feito programa na semana anterior. Estava com a esposa. "Nem falou boa tarde", reclamou, enquanto encarava potenciais clientes. Só baixa a guarda quando passa uma criança ou um carrinho de bebê. Ele então abre um sorriso grande e acena animado. "Eu gosto muito de criança, tenho 10 filhos."
Leonardo mora numa ocupação nos arredores da praça. A pandemia também afetou seu trabalho, mas diz ter ficado tranquilo por causa de um cliente fixo. "É um rapaz que me banca em tudo, alimentação, saúde."
O mineiro Thiago diz que é uma profissão que precisa de disciplina — e ele entendeu isso quando fez seu primeiro programa numa sauna no Rio de Janeiro, onde morava. "É um dinheiro fácil, rápido e alto. Todo dia ganhava R$ 700. Eu nem sabia o que fazer com aquilo", diz.
Por não saberem lidar com o trabalho e o dinheiro, muitos boys acabam sumindo da praça. "Veio a pandemia, perdeu dinheiro, perdeu programa, veio a depressão, o que vai distrair? A droga. Se não tiver psicológico firme, naufraga." Não foi seu problema. "Sou cascudo e tenho dote, eu tenho 26 cm, então isso ajudou muito nesse período."
Uma pessoa boa
O relógio marca 14h45. Thiago aproveita o pouco movimento para almoçar num restaurante na frente da praça. Enquanto espera o marmitex, ele conta que já foi ator — "Abre aí o Xvideos, deixa eu te mostrar". Na plataforma de vídeos pornográficos, ele aparece como Thiago Cavalão. Para os clientes ali, ele é Mateus. Para outros boys, "negão". Já a família evangélica do interior de Minas Gerais nem sonha com aquela realidade. "Mas eu tenho profissão, fio. Sou serralheiro, vendedor, desossador, vigia", diz.
Simpático e querido por muitos, Thiago tem voz grave e articulada, gosta de conversar olhando nos olhos. "Aqui precisa de disposição. Dormir bem, comer bem, se alimentar bem, não se drogar muito." E o Viagra? "Tomo porque fiquei dependente, é como cigarro, ele solta uma substância como a nicotina. Você sente falta daquilo."
Das duas vezes em que o vi, Thiago estava com um bracelete de couro grande, com tiras de de várias cores. Cada uma tem um significado, ele diz, recusando-se a revelar qual era. Ele então chega mais perto e coloca o dedo na minha testa: "Todo mundo tem fé aqui dentro. E isso é um pedacinho de Deus em cada um de nós. Eu vim de igreja evangélica, eu sei a verdade. Eu sou uma pessoa boa."
Ele então volta a se sentar. O dia de pagamento acabou não rendendo como esperado e ele diz que vai se aposentar. "Não tenho mais idade. Você não está sentindo uma diferença de quando você tinha 25? Você vai envelhecendo por dentro, sabe? A tolerância vai diminuindo."
Os planos daqui pra frente incluem "não trabalhar para os outros". Após ouvir muitas vezes que seu dom estava no meio das pernas, ele diz ter descoberto a verdade. "Me peguei refletindo e acho que descobri meu verdadeiro dom. É o dom da venda", diz, sorrindo. "Sou um ótimo vendedor. Tenho o maior prazer de vender e conversar com as pessoas."
Risco de morrer por Covid é 13 vezes maior do que por violência
Mesmo assim, é grande o número de pessoas que desprezam o vírus e se arriscam em aglomerações
O risco de perder a vida por causa da Covid-19 na capital paulista é, no período de um ano, 13 vezes maior que o de morrer violentamente, seja por briga, assalto, engano, sem intenção ou acidente de trânsito. Ainda assim, parcela da população que aparenta temer a violência urbana se arrisca em festas e eventos clandestinos sem nem mesmo cuidados básicos, como o uso de máscara.
Entre a confirmação do primeiro óbito por coronavírus e 17 de março, passaram-se um ano e 19.897 mortes na capital —a Covid-19 levou 1 em cada 597 paulistanos. Em 2020 inteiro, homicídios, latrocínios e o trânsito provocaram 1.474 —1 em cada 8.053.
A contaminação acelerou, com mais de 5.200 pessoas mortas na cidade nos últimos 30 dias, e a comparação seria ainda mais assombrosa, se considerado só o atual pico da pandemia.
Nada disso é suficiente para fazer com que um rapaz de 22 anos, que compra e vende celulares, desista das aglomerações. “Lá em Guaianases, tudo flui normal, sem máscara mesmo”, disse na semana passada, ao lado de outros dois amigos na região central. As tabacarias são os destinos preferidos. “Balada pequena, que não é tão popular como umas conhecidas com MC que já está estouradão. Mas baladinha, com DJ”, afirmou. “Nós queremos fazer dinheiro, concluir o progresso e viver.”
Um amigo dele, 23 anos, que trabalha “puxando” clientes para lojas joga os cuidados nas mãos da providência divina. “Se for para ser, será. Tenho fé em Deus, que é mais forte que tudo.”
Às vezes, a aglomeração ocorre diante de quem quiser ver. Na quinta (15) à noite, ao menos 50 pessoas se reuniam na rua Dom José de Barros, na República (centro), para beber e fumar ao redor de um bar e de duas viaturas da PM, inertes.
Garçonete diz que não teve alternativa
Nem toda pessoa flagrada em casa noturna, no meio da aglomeração, é alguém que decidiu apenas se divertir em meio à fase crítica da pandemia. O desemprego, a falta de oportunidade, as contas batendo à porta e a ausência de auxílio governamental digno obrigaram uma cabeleireira de 24 anos a fazer bico como garçonete em um dos locais fechados pela fiscalização na zona leste.
Por causa dos três filhos pequenos, a cabeleireira aceitou R$ 100 para trabalhar à noite e acabou na delegacia. “Falei para o escrivão que, se não fosse por essa situação, não sairia”, diz.
A jovem mãe conta que não tem uma rede de apoio familiar. “Minha mãe morreu, não sei onde meu pai vive e o pai dos meus filhos deveria pagar pensão, mas não paga”, fala. “Não vejo a hora de meu emprego real voltar. Já não aguento mais ficar sem poder fazer nada e com dívida aparecendo.”
A garçonete conta que as restrições impostas pelo governo, sem uma ajuda real como contrapartida, afetam quem põe a mão na massa e trabalha de verdade no Brasil. “Na classe alta, tanto faz, tanto fez. O dinheiro deles está guardado e vai continuar rendendo”, afirma.
‘Pensamento individualista é muito presente’, diz psicóloga
Professora da PUC-SP, Beatriz Brambilla afirma que se leva em consideração o aspecto ético, pautado no bem comum, em princípios de respeito, justiça e solidariedade, quando se avalia o que leva as pessoas a buscar aglomerações para se divertir. “No entanto, esses não são valores que estão, majoritariamente, postos em nossa realidade. A gente vive em uma sociedade muito competitiva, de destruição um do outro, de aniquiliação, em que o pensamento individualista é muito presente”, diz.
A psicóloga lembra que o isolamento não é opção para todas as pessoas e que não dá para colocar numa balança ficar em casa ou ir trabalhar, quando isso é uma necessidade, daí a importância do auxílio emergencial. “Seria uma forma de ter uma lógica solidária, de ‘ganha-ganha’, para todo mundo.”
O comportamento do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), que promove aglomerações e minimiza cuidados em relação ao coronavírus, mais letal do que os crimes cometidos na capital paulista, também chama a atenção de todos como mau exemplo. Segundo a psicóloga, a autoridade máxima do país ridiculariza a situação e não colabora com o combate à Covid-19. “Ele é uma grande ameaça à possibilidade de superação da crise sanitária”, diz.
Procurado, o Palácio do Planalto disse que “não se manifesta sobre questionamentos baseados em análises comportamentais”.
Desrespeito ocorre em todas as faixas
Não são apenas jovens na periferia que se descuidam em busca de diversão. As ações da polícia e da vigilância sanitária têm flagrado negacionistas de todas as classes sociais e faixas etárias. Desde bingos clandestinos, repletos de idosos, cassinos para milionários e até festas privadas em mansões, como uma identificada na última semana nas proximidades do Jockey Club, no bairro rico de Cidade Jardim.
Diretor do Dope (Departamento de Operações Policiais Estratégicas), Osvaldo Nico Gonçalves afirma que a polícia já flagrou casa de jogos sem ventilação. Entre os jovens, é comum encontrar festas animadas por DJs, em tabacarias, com as pessoas compartilhando narguile. “Colocam toda a família em risco para se divertir”, afirma o delegado. “Temos até que distribuir as máscaras para eles”, afirma.
Nico também diz que a lei é muito branda com esse tipo de infrator.
Coronavírus devasta famílias em um curto espaço de tempo
Filhos veem pais e irmãos perderem a batalha para o vírus em poucos dias ou questão de minutos
A Covid-19 já fez mais de 370 mil vítimas fatais no Brasil desde o início da pandemia. O dado é alarmante e coloca em o país em segundo lugar no ranking de nações com mais óbitos pela doença, atrás apenas dos Estados Unidos. Apesar de grave, a estatística esconde que, por trás desses números frios estão pessoas com famílias, sonhos e histórias interrompidas.
Muitas famílias foram devastadas pelo coronavírus, com mais de uma perda em um curto espaço de tempo. Foi assim com o publicitário Marcos Henrique Botelho, 36 anos, que perdeu o pai e o irmão para a Covid em menos de um mês. O irmão, Luiz Guilherme, de 31 anos, morreu no dia 8 de janeiro, enquanto o pai, Marcos Antônio, 69 anos, faleceu no dia 25. "Foi terrível. Parecia um filme de terror. Um pesadelo que iríamos acordar e que nada disso teria acontecido", afirma o publicitário.
Morador da Freguesia do Ó, na zona norte da capital paulista, Botelho explica que seu irmão tinha um problema de hepatite autoimune, razão pela qual tinha que ir com frequência ao hospital para fazer tratamento. Ele acredita, inclusive, que foi em uma dessas idas ao médico que Luiz Guilherme acabou se contaminando pelo coronavírus.

"Foi uma luta para arrumar UTI [Unidade de Terapia Intensiva] para meu irmão. Os problemas dele agravaram de um jeito muito complicado. Ele foi para a AMA [Assistência Médica Ambulatorial] de Pirituba e, depois de muito custo, o levaram para a UTI do hospital [Dr. José Soares] Hungria", lembra o publicitário.
O pai foi internado no dia 17 de janeiro no hospital Sorocabana, na Lapa (zona oeste) e, no dia seguinte, já foi transferido para o da Brasilândia, na zona norte, onde acabou sendo derrotado pelo vírus.
Segundo Botelho, as duas mortes são fortemente sentidas pela mãe, Soraia, 58 anos. "Tem sido muito difícil para ela. Perder um filho de 31 anos e um marido com quem foi casada por 40 anos não é fácil. Está sendo uma barra", relata.
Pais morrem em intervalo de 40 minutos
O produtor rural Evandro Marquesim, 44 anos, morador de Jundiaí (58 km de SP), perdeu os pais em um intervalo de apenas 40 minutos.
Aristeu Marquesim, 69, e Sheila Marquesim 64, morreram no dia 5 de abril. Considerando namoro, noivado e casamento, eles ficaram juntos por 50 anos e 16 dias.

"Em março, minha mãe mandou mensagem para mim: 'hoje faz 50 anos que eu comecei a namorar seu pai'. Passou 16 dias, meu pai e minha mãe faleceram com 40 minutos de diferença. Uma explicação para isso? Se alguém tem, pode falar para nós", diz Evandro.
As mortes de Aristeu e Sheila deixaram um vazio onde moravam, ao lado das casas de Evandro e da outra filha, Erika, 42 anos. "Agora a casa está ali abandonada, tudo bagunçado. O cachorro do meu pai está num desespero só, que a gente não sabe o que faz. São coisas que marcam muito", desabafa.
Segundo Evandro, Aristeu e Sheila foram internados no dia 21 de março em um hospital da cidade e no mesmo dia foram intubados. A mãe teve uma piora no quadro, com comprometimento nos rins, fígado e problemas neurológicos. O pai saiu da intubação dois dias depois, mas voltou a piorar. "Levaram para fazer uma tomografia e descobriu-se que criou um coágulo entre o rim e o intestino. Aí acabou estourando no domingo à tarde. Infeccionou o corpo todo, mas o coração dele não aguentou. Quando foi 8h, meu pai veio a falecer. E a minha mãe, depois, faleceu às 8h40."
'Estamos vivendo um dia após o outro'
A família da auxiliar administrativo Sônia Pessoa Viana, 34 anos, é mais uma das que foram esvaziadas pela pandemia. Moradora de Paraisópolis, na zona sul, ela perdeu dois em dois meses.
O primeiro que não resistiu às complicações provocadas pelo vírus foi o tio Renaildo, de 66 anos. Diabético, ele teve complicações ligadas à doença e, por esse motivo, foi a um hospital para se tratar. Sônia acha que foi em uma dessas visitas que ele pegou Covid.
O outro tio, Valdete, 66, também fazia tratamento por causa das sequelas de um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Após passar mal, foi levado a um hospital, quando os médicos constaram comprometimento de 60% dos pulmões. Ele morreu dias depois.
O que ficam, agora, são as memórias. Admirador de pássaros, Renaildo será lembrado pelo canto das aves. "A casa dele é cheia de passarinhos até hoje. Minha tia não conseguiu se desfazer", diz. Já Valdete era marcado pelas anedotas. "Ele contava piadas que a gente ria, mas que não tinham graça. As perdas são difíceis. Estamos vivendo um dia após o outro", comenta.
Vírus leva junto a alegria da família
"Perder pessoas queridas faz com que a gente perca a alegria, perca um pedaço da gente". É assim que a funcionária pública Ana Laura Cardoso Oliveira, 28 anos, moradora de Itapevi (Grande SP) resume a situação de sua família, que teve duas mortes por Covid-19.
Com 68 anos, o avô dela, Edvaldo, foi o primeiro a morrer por causa do vírus, no início de março. Duas semanas depois, foi o tio, Edson, que tinha "50 e poucos anos" --segundo Ana, ele não gostava de dizer a idade.
Quando Edvaldo morreu, Edson compareceu ao rápido enterro. Em seguida, foi à empresa onde trabalhava como vigilante para entregar o atestado de óbito do pai. Ao chegar, desmaiou e foi levado a um hospital, onde foi constatado que ele também estava com Covid.
Ana Laura que Edvaldo e Edson eram pessoas agradáveis, que alegravam os ambientes. "Meu avô adorava contar histórias. Sempre falava de quando veio da Bahia para São Paulo e lembrava do tempo em que foi motorista de ônibus."
O tio Edson será lembrado pela música. "Ele gostava de cantar. Cantava muito louvor. Era ótimo cantor. Se tivesse tentado carreira, acho que teria conseguido."
Sem os parentes, Ana diz ter focado no trabalho para superar as perdas. "Não consegui abraçar ninguém da família", lamenta.
RJ: Merendeira que 'atendia pessoas sem máscaras' morreu 9 dias após mãe
Carolina Farias
Colaboração para o UOL, no Rio
19/04/2021 04h00
Com 23 anos de carreira como professora de Língua Portuguesa na rede estadual do Rio de Janeiro, Sandra Carvalho de Oliveira, 54, está com medo de voltar para a sala de aula. A pandemia do novo coronavírus matou mais de 40 mil pessoas no estado —entre elas, a mãe e a irmã de Sandra, a merendeira Solange Carvalho de Oliveira Pereiras, 58.
Sandra diz acreditar que a irmã foi contaminada onde trabalhava —a Escola Municipal Luiz Camillo, em Jacarepaguá, na zona oeste. Após Solange apresentar sintomas, ao menos sete pessoas da família testaram positivo para a covid-19. Apesar de supostamente ter contraído a doença depois de Solange, a mãe Semiramis de Carvalho Oliveira, 76, morreu nove dias antes da filha.
Rio prorroga medidas de restrição com praias fechadas
Solange tinha 20 anos de carreira na rede municipal. Seu cargo era de merendeira, mas foi adaptada para outras funções nos últimos seis anos por conta de uma hérnia na coluna. Na pandemia, trabalhou na escola na distribuição de cestas básicas, cartão alimentação e material didático.
Solange reclamava que estavam indo à escola sem máscara e ela tinha que receber essas pessoas. Com poucos funcionários, o portão fica aberto. Aí entravam sem máscara
Sandra Carvalho de Oliveira, irmã de Solange
Solange reclamou para a diretoria da escola sobre a situação. "A direção falou que ali [a escola fica na comunidade Santa Maria] 'era assim mesmo'", conta Sandra.

Sete contaminados
Foi Solange quem organizou um encontro da família durante o Carnaval no sítio de Sandra, em Guaratiba, zona oeste. Ela já sentia dores pelo corpo, sintomas da covid-19, mas achava que eram causadas pela coluna, segundo Sandra.
Das nove pessoas que foram ao encontro, sete pegaram covid e duas morreram —Solange e a mãe. Sandra disse acreditar que foi a merendeira quem contaminou a família.
A matriarca foi internada em 21 de fevereiro e morreu em 4 de março. Solange faleceu no dia 13. Foi Sandra quem teve que reconhecer os corpos, mesmo também infectada pela covid-19.
"Minha irmã foi a única no sítio com sintomas. É uma doença rápida. Todos tão felizes no feriado e, em duas semanas, tudo foi por água abaixo. É uma doença devastadora", desabafou.
Sindicato vai à Justiça contra governos
Levantamento feito pelo Sepe-RJ (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro) mostra que 41 funcionários da rede municipal e 52 da estadual morreram de covid neste ano.
A entidade vê como causa dessas mortes falhas nas medidas de segurança e vai à Justiça contra os governos estadual e municipal. "Vamos fazer uma representação criminal no Ministério Público responsabilizando o prefeito Eduardo Paes [DEM] e o governador Claudio Castro [PSC] em relação a essas mortes", afirmou Izabel Costa, coordenadora-geral do Sepe.
Ela diz que o sindicato cobra, desde o ano passado, um cronograma de obras para as escolas cumprirem os protocolos contra a covid. Mas o pedido não foi atendido. Para o Sepe, casos de contaminações e de mortes nas duas redes de ensino crescem desde a volta das atividades presenciais.
Sandra, que leciona no Colégio Estadual Maria Terezinha de Carvalho Machado, na Praça Seca, zona oeste do Rio, teme ser infectada.
"Não tenho a menor condições de voltar. Minha escola tem 4.000 alunos. Não tem como fazer distanciamento. Pedi consulta com uma psicóloga para me manter trabalhando remotamente com uma licença", diz a professora.
Segundo a Seeduc (Secretaria de Estado da Educação), a retomada das aulas presenciais, no modelo híbrido, acontece hoje (19). As aulas na rede estadual foram retomadas parcialmente em março, mas com o agravamento da pandemia, foram suspensas dia 12.
Na rede municipal, as aulas voltaram desde 6 de abril em 419 unidades de ensino infantil, 1º e 2º ano do ensino fundamental —o percentual de alunos autorizado a retornar às salas de aula depende das condições epidemiológicas da região.
Outro lado
A SME (Secretaria Municipal de Educação) do Rio informou que foram disponibilizadas máscaras, álcool em gel, sabonete líquido, higienização dos espaços e espaçamento no piso e carteiras nas escolas.
Sobre a merendeira Solange Pereiras, a SME afirmou que a escola não recebeu reclamações dela ou de qualquer outro servidor sobre a obrigação de atender pessoas sem máscaras.
A Seeduc afirmou que as escolas estão adequadas aos protocolos desde outubro. Foram comprados luvas e equipamentos face shield para os profissionais, além de máscaras para servidores e alunos. Também foram disponibilizados álcool em gel, tapetes sanitizantes e sinalização para distanciamento.
Servidores do grupo de risco permanecem em atividades remotas, segundo o órgão.












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