Bolsonaro cava sua cova | Merval Pereira

Bolsonaro cava sua cova | Merval Pereira - O Globo

Quando foi anunciado o general Hamilton Mourão como vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro para concorrer à Presidência da República, um dos filhos do candidato fez o seguinte raciocínio, em voz alta: é bom ter um nome “cascudo”, para deixarem de pensar em impeachment. Fazia referência a que o companheiro de chapa era um general de Exército que já dera demonstrações de que seguia a linha de seu pai, ao elogiar o torturador Ustra, ou ao se referir à possibilidade de um “autogolpe”. O feitiço, porém, virou contra o feiticeiro.

Hoje, o fato de ter Mourão como vice traz tranquilidade diante do futuro, caso Bolsonaro seja impedido pelo Congresso. Não que seja um estadista, muito menos traidor, como o presidente desconfia, mas é o agregador natural, pelo cargo que ocupa e pelas atitudes que vem tomando, das insatisfações disseminadas. Mourão tem tido comportamento correto diante das grandes crises, demonstra bom senso na maior parte das vezes, coloca-se como alternativa natural ao gênio explosivo de Bolsonaro, sem precisar fazer declarações críticas, apenas usar o bom senso.

Quando os militares começaram a assumir cargos importantes no ministério de Bolsonaro e em seu entorno, parecia a todos que serviriam como força moderadora do instinto selvagem de Bolsonaro. O fato de não terem reagido às muitas provocações do presidente, quando insuflava manifestações em frente ao Palácio do Planalto ou do Quartel-General do Exército, contra o Supremo Tribunal Federal (STF) ou o Congresso, fez supor que os militares o respaldavam nesses assaltos ao estado de direito. Chamando de “meu Exército” o Exército brasileiro, dava a impressão de que tudo estava dominado por seu radicalismo.

Demorou, mas ficou claro agora que o respeito à hierarquia tem um limite, coisa que Bolsonaro desconhece. Assim como acha que o presidente da República é um imperador, com todas as suas vontades atendidas, também acha que ser comandante em chefe das Forças Armadas permite que suas vontades sejam aceitas sem pestanejar por seus subordinados. Militares não seguem ordens absurdas é um lema corrente nas Forças Armadas. Licença para ponderar é outro.

A escolha do general Paulo Sérgio Nogueira para o Comando do Exército e o destaque dado pelo novo ministro da Defesa, Braga Netto, ao combate da pandemia de Covid-19 são derrotas simbólicas do presidente Bolsonaro, que teve de escolher os novos comandantes entre os mais antigos nas três Armas, e não entre aqueles que lhe são mais próximos.

O general Paulo Sérgio deu uma entrevista no fim de semana ao jornal “Correio Braziliense” destacando o sucesso que o Exército teve no combate à pandemia, ressaltando que o índice de letalidade na corporação é de 0,3%, enquanto no país está em 2,9%. E irritou Bolsonaro, que, no entanto, o nomeou. A escolha pela antiguidade é uma tradição das Forças Armadas, mas o presidente da República, como comandante em chefe, pode escolher entre os oficiais de quatro estrelas. Saindo da antiguidade, no entanto, estaria criando mais incômodos para os militares.

O almirante Garnier era o segundo em antiguidade, mas foi o escolhido. É considerado o mais habilidoso dos almirantes que estavam na lista e já era secretário-geral do Ministério da Defesa. Os dois são ligados ao demitido general Fernando Azevedo e Silva, antigo ministro da Defesa, e ao ex- comandante do Exército Edson Pujol.

Com suas atitudes erráticas e radicais, e um governo ineficiente, Bolsonaro vem perdendo também apoio nos setores que, não sendo radicais, o preferiram ao PT. O estopim dessa debandada foi a carta dos economistas e empresários deixando claro que expressiva parte da sociedade perdeu a paciência com seu governo ou com a impossibilidade de haver uma economia liberal com um presidente de visão retrógrada não apenas nos costumes, mas também na economia.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, veio em seguida com o “sinal amarelo” de advertência, que jogou na mesa a carta do impeachment. Mas o Centrão ganhou um ministério que opera diretamente do Palácio do Planalto para o Congresso, com distribuição de cargos e verbas para obras. Acomodou-se, por enquanto.

Os próximos meses, no entanto, nos reservam muitos problemas, com a economia em frangalhos e a pandemia descontrolada. Um presidente destrambelhado e isolado nesse cenário é caminho aberto para crises permanentes. Ciro Gomes tem razão. Bolsonaro está mais perto do impeachment do que de uma quartelada.

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Por Malu Gaspar

O presidente Jair Bolsonaro gesticula durante solenidade de aspirantes da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), na cidade de Resende (RJ), ao lado do vice Hamilton Mourão em novembro de 2019

O capitão Jair Bolsonaro deixou o Exército depois de ser absolvido em um tribunal militar, mas nem por isso evitou a porta dos fundos. É um episódio revelador. Nos anos 80, foi acusado de planejar a explosão de bombas em quartéis, na Academia Militar das Agulhas Negras e na adutora do Guandu, responsável pelo abastecimento de água no Rio de Janeiro. Mesmo com depoimentos e laudos demonstrando sua participação no caso, foi liberado pelo Superior Tribunal Militar. Assim, pôde construir uma carreira política como porta-voz dos interesses das baixas patentes.
Em sua lida no Congresso, o deputado-capitão se fez acompanhar por figuras como o ex-policial militar e faz-tudo Fabrício Queiroz. Durante anos, rendeu homenagens a — e empregou nos gabinetes da família Bolsonaro — parentes de PMs acusados de envolvimento com as milícias do Rio de Janeiro, entre os quais os do agora famoso matador de aluguel Adriano da Nóbrega. Milícias, nunca é demais lembrar, são grupos de policiais que se desviam de sua função para cometer crimes e impor suas próprias leis à margem do Estado.
Nada disso era segredo para o generalato. Já nos anos 90, Ernesto Geisel classificou Bolsonaro como um mau militar, alguém “completamente fora do normal” para a carreira. O ex-presidente e general dizia acreditar que, à medida que o país se desenvolvesse, a interferência do Exército na política diminuiria.
Geisel não viveu para ver o engajamento dos militares na campanha de Bolsonaro. Ao subir a rampa do Planalto, o capitão tinha a seu lado o general Hamilton Mourão e outros sete fardados, em ministérios normalmente ocupados por civis. Desde então, dezenas de militares da ativa e da reserva foram nomeados para o segundo escalão, e mais de 2.500 aceitaram cargos na administração pública.
Enquanto buscava cooptar a nata da instituição militar, Bolsonaro governava para as baixas patentes e para as milícias. Nos últimos dois anos, tentou fazer passar no Congresso leis que facilitam a posse de armas e ampliam as situações em que um policial pode matar sem ser punido. Nada disso incomodou as Forças Armadas. Para os militares, milícias e segurança pública são um não assunto, coisa menor, de polícia, e não de Exército.
Os militares se consideravam contemplados pelos cargos e pela defesa que o presidente sempre fez de sua atuação no período da ditadura. Havia alinhamento, também, em pontos doutrinários considerados cruciais, como o conservadorismo nos costumes e a soberania do Brasil sobre a Amazônia. Quando cobrados por alguma barbaridade professada pelo capitão, os generais diziam, à miúda, que eram apenas bravatas sem consequência. E se empenhavam em explicar que quem se envolvia na política eram as pessoas, nunca a instituição.
Ou os generais tinham perdido a capacidade de análise, ou preferiram acreditar no que mais lhes convinha. Mais de uma vez, o capitão demonstrou não só com palavras, mas com gestos, julgar que o Exército lhe devia respaldo para além de suas funções constitucionais. Desde o início da pandemia, toda vez que se viu em apuros, Bolsonaro ameaçou com uma revolta dos fardados.
O roteiro se repetiu nesta semana. Ao mesmo tempo que o capitão demitia toda a cúpula da Defesa, seus acólitos tentavam emplacar uma narrativa falsa para inflamar as polícias estaduais. A morte de um PM de Salvador, depois de atirar contra colegas num surto psicótico, foi travestida, nas redes bolsonaristas, de ato heroico de revolta contra o distanciamento social. Derrotado nessa questão no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro apelou ao Congresso que lhe desse poderes para interferir nos governos estaduais. Perdeu de novo.
O último capítulo da crise mostra que, por superestimar também sua ascendência sobre as Forças Armadas, o presidente deu a elas a chance de confrontá-lo. Não é um detalhe que, antes de ser demitidos, os comandantes tenham deixado vir a público a intenção de entregar os cargos em protesto contra a mão pesada de Bolsonaro. Além disso, o Alto-Comando do Exército conseguiu alçar à chefia o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira — que implantou regras de distanciamento social no Exército e foi apontado como um dos pivôs da irritação de Bolsonaro com o ex-ministro da Defesa.
Para os códigos da caserna, foram reações enfáticas. Mas estão longe de ser atos de heroísmo. A história mostra que, por mais que não queiram admitir, os militares são sócios da obra bolsonarista. Sob o pretexto de não atuar na política, silenciaram diante da falta de compostura institucional, das mortes e do desgoverno criado por Jair Bolsonaro. Se reagiram agora, é porque até mesmo seus largos limites foram ultrapassados. Antes assim.
Quem sabe os militares passem a cortar na raiz as bravatas golpistas, ajudando a fortalecer a democracia. E o vaticínio de Geisel ao final acabe se cumprindo, ainda que por linhas tortas.

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Bolsonaro entre seus fantasmas | Míriam Leitão - O Globo

Por Míriam Leitão

O país passou o dia 31 de março cercado de fantasmas do passado, que o presidente convocou e aos quais vive agarrado. Assombrou a democracia com uma crise militar plantada num dia emblemático, quando todos viviam um momento dilacerante da pandemia. O Brasil não sabe mais onde enterrar seus mortos, o ministro da Saúde pede para se “racionar” o oxigênio, hospitais fecham emergências por incapacidade de atendimento e Jair Bolsonaro nos atormenta.

Foi patética a apresentação dos novos comandantes. Toda a cena — na verdade, todo o episódio — lembrava os piores momentos da ditadura. O país não foi informado sobre o que levou o presidente a demitir o ministro da Defesa e os três comandantes das Forças. A democracia exige transparência dos atos do setor público. O general Braga Netto fez um discurso em cadência castrense, curto e ambíguo. Os três se perfilaram como na frente de um pelotão e saíram sem dar palavras. Toda a cerimônia durou 2 minutos e 30 segundos. Isso depois de uma Ordem do Dia cheia de mentiras sobre os fatos históricos.

O que Bolsonaro quis com tudo isso? Ele criou esse estridente ruído no 31 de março, data que venera, deliberadamente. Os militares da ativa garantem aos seus interlocutores que as Forças Armadas continuarão evitando a politização nos quartéis. Mas, para Bolsonaro, não importa o que é, e sim o que parece ser. Ele quis dar a impressão de que pode fazer o que quiser com o “seu” Exército, “suas” Forças Armadas. Ele quer que acreditem que elas estão alinhadas a ele.

Bolsonaro é comandante em chefe das Forças Armadas, como foram Dilma Rousseff, Lula, Fernando Henrique e Michel Temer. Como me disse um general esta semana, “prestamos as homenagens ao cargo, mas é absurdo pensar em alinhamento ao governo em si”. Bolsonaro quer mostrar que está tudo controlado, porque isso deixa a sua turba exultante, e os adversários, acuados. Os extremistas que o seguem, como lobotomizados, tinham sofrido um revés. A demissão de Ernesto Araújo foi imposta a Bolsonaro pelo Senado. Para não parecer derrotado, ele criou uma crise militar.

O alvo dele era o general Edson Pujol. Ele queria uma vassalagem digital que Pujol não quis dar, mas que o Brigadeiro Batista Jr., o novo comandante da Aeronáutica, já oferece. Ativo na rede social, o brigadeiro tem postagens identificadas com os bolsonaristas. Havia um outro problema com Pujol. A inveja de Bolsonaro. Segundo explicação de quem está bem perto do presidente: “É briga antiga. Pujol é um destaque inconteste pois além de excelente aluno realizou todos os cursos operacionais. Alia o físico ao intelecto.” Bolsonaro fracassou na carreira militar, como se sabe. E fracassa como presidente porque, na explicação de um general que conviveu com ele, falta ao presidente qualquer “noção institucional”. Bolsonaro não entendeu a função de cada instituição ou cada órgão de governo.

Os brasileiros estão morrendo aos milhares. Ontem foram 3.950, novo recorde diário. Somos, há vários dias, o país onde mais se morre por Covid-19. A pandemia está fora de controle. O Brasil vive dor excruciante. A culpa maior é de Bolsonaro. Essa última crise, artificial e desnecessária, foi criada por ele no momento em que o país virou uma aberração diante do mundo. Trocar comandantes das Forças Armadas no meio de uma pandemia é o retrato de um país caótico. E ele insiste. Ontem, logo depois da primeira reunião do comitê de coordenação para o enfrentamento da Covid, o presidente apareceu dizendo que era preciso mandar “o povo trabalhar”.

No discurso, Braga Netto disse que o dia era histórico. Segundo o ministro, as “Forças Armadas não faltaram no passado e não faltarão agora” e vão garantir “os poderes constitucionais e as liberdades democráticas”. Na Ordem do Dia, Braga Netto havia defendido “celebrar” o “movimento de 64”, que teria garantido “as liberdades democráticas que hoje desfrutamos”. Isso é mentira. Várias mentiras numa ordem só. A verdade: foi um golpe que gerou 21 anos de ditadura e a liberdade de hoje é resultado da luta contra aquele regime. A garantia dessa liberdade vem, claro, da Constituição, à qual as Forças Armadas estão submetidas. Em que democracia do mundo se permite que o governo mande celebrar um golpe militar? Quanta infâmia o país ainda vai tolerar?

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

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O golpe militar de 1964 em ficções e documentários

Dez produções sobre a ditadura no Brasil, do filme sobre ‘Marighella’ à série ‘Anos rebeldes’
Ruy Gardnier
31/03/2021 - 00:20 / Atualizado em 31/03/2021 - 17:17
Ditadura não se comemora, mas é importante lembrar, para que a liberdade nunca mais seja roubada, como aconteceu em 31 de março de 1964. Eis abaixo uma lista de dez filmes disponíveis em streaming que dramatizam, discutem, estudam e relembram o fatídico dia da “quartelada”, para lembrar a expressão de Carlos Heitor Cony. 

Cabe notar que ao menos um filme essencial para esse panorama, 
“Cabra marcado para morrer”, 
de Eduardo Coutinho, está indisponível no momento. Mas vamos às dicas.

‘Terra em transe’

Glauber Rocha faz uma investigação barroca e genial das forças políticas e econômicas brasileiras dos anos 60, alegorizadas no país imaginário de Eldorado, em que o jornalista Paulo Martins (Jardel Filho) tateia entre o apoio a figuras carismáticas interpretadas por Paulo Autran e José Lewgoy e vivencia a intervenção do capital estrangeiro no cenário político nacional e a ausência de soluções para aplacar a fome e a miséria da população. Premiado no Festival de Cannes de 1967. No Globoplay e no Telecine.

‘Blá Blá Blá’

Um político, interpretado por Paulo Gracindo, discursa ao vivo na televisão sobre a instabilidade política nacional e proclama medidas autoritárias para a contenção dos dissidentes. Mais que um aceno ridicularizante ao golpe de 1964 e às falsas razões nobres dos militares para tomar o poder, o filme é um libelo contra todo discurso de pretensões totalitárias e patriotismos de meia-tigela. Obra-prima de Andrea Tonacci. No SPCinePlay/Looke.

‘Pra frente Brasil’

“A ditadura só foi ruim pra comunista”, dizem algumas pessoas equivocadas. E “Pra frente Brasil” parece ter sido feito pra essas pessoas, ao dramatizar a vida de um cidadão pacato que é confundido com um subversivo e submetido a sessões de tortura. Tudo isso enquanto o Brasil sagra-se tricampeão na Copa do Mundo de 1970. O filme de Roberto Farias foi pioneiro em retratar a tortura no regime militar em filmes de ficção e foi censurado depois de ganhar o Festival de Gramado em 1982. No Vivo Play.

‘Jango’

Realizado 20 anos após o golpe, “Jango” acompanha os anos de presidência de João Goulart até ele ser deposto pelos militares em 1º de abril de 1964. O documentário de Silvio Tendler conta com riquíssimo material de arquivo e com depoimentos de intelectuais e políticos como Leonel Brizola, Afonso Arinos e Celso Furtado. A trilha sonora coube a Milton Nascimento e Wagner Tiso. No  Curta!On e Libreflix.

‘Anos rebeldes’

A minissérie de 20 episódios escrita por Gilberto Braga e dirigida por Dennis Carvalho em 1992 mostra o começo e o recrudescimento da ditadura militar pelos olhos de colegiais idealistas — em especial o casal vivido por Malu Mader e Cássio Gabus Mendes — que crescem e tomam diferentes rumos na vida, do emprego estável à luta armada, para restabelecer a democracia. Um dos mais altos momentos da TV brasileira. No Globoplay.

‘Marighella’

Se o longa de ficção de Wagner Moura permanece sendo adiado e sofrendo pressões, o documentário de Isa Grinspum Ferraz, de 2011, pode ser visto no estreaming. A diretora é sobrinha de Marighella — tido como maior inimigo do regime militar — e intercala o olhar pessoal com uma visão mais objetiva da figura histórica, num filme rico em material iconográfico e com música inédita feita por Mano Brown. No Telecine.

‘Retratos de identificação’

O documentário de Anita Leandro parte de fotografias encontradas no Dops para reviver, via entrevistas, a história de quatro guerrilheiros presos e torturados pelo regime militar. O modo como o filme trabalha os documentos, em sua fala e seu silêncio, mexe fundo. No Vimeo.

‘O dia que durou 21 anos’

Apesar da narração mais convencional, é o mais completo documentário sobre o golpe militar de 1964 e tem como foco documentos então recém-descobertos que comprovavam a participação do governo dos EUA na tomada do poder pelos militares. No  Curta!On, na AppleTV e no Google Play.

‘Que bom te ver viva’

Em seu primeiro longa, Lúcia Murat recolheu histórias de oito mulheres que foram torturadas pelo regime militar, alternando os depoimentos com momentos ficcionais vividos por Irene Ravache tensionando drama e documentário. No Looke e no NetMovies.

‘Pastor Cláudio’

Hoje pastor evangélico, Cláudio Guerra foi assassino a serviço do estado brasileiro durante o regime militar. Neste filme de Beth Formaggini, ele é entrevistado pelo psicólogo Eduardo Passos e revela o modus operandi da ditadura para sumir com seus dissidentes. No Now.

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Bolsonaro FINGE recuar com militares,

mas já cravou sua estaca no terreno

Míriam Leitão - O Globo

O fato de o presidente Bolsonaro ter respeitado a lista de antiguidade para nomear os novos chefes militares pareceu um recuo. Mas é mais um movimento estratégico. Ele sempre faz isso: ataca uma instituição da República, depois finge recuar. O país pensa que ele passará a ficar moderado, mas ele jamais se moderou.

A nomeação de um general que defende medidas de isolamento e recomendações da OMS, como o general Paulo Sérgio Nogueira, é um bom sinal. Mas insuficiente. Primeiro porque para a Força Aérea ele nomeou um comandante que ecoa a milícia digital bolsonarista em suas postagens, o tenente brigadeiro Carlos Almeida Batista Jr. E o que ele quer é isso: transformar os comandantes militares à imagem de Villas Boas, autor do tuíte de ameaça ao STF. E era isso que o general Edson Pujol não aceitava ser, um agitador de rede social. Aqui no blog contamos as postagens do brigadeiro. Inaceitáveis para um chefe militar. Hoje já bajulou Bolsonaro chamando-o de “comandante supremo”. Era isso que Bolsonaro pedia, ao dizer que queria de Pujol “demonstração de apreço ao seu governo”.

Segundo, ficou demonstrado que ele pode demitir por motivo fútil, e sem qualquer explicação ao país, os três chefes militares, sem que nada aconteça. É claro que ele tem a prerrogativa de fazer isso. Mas não para intimidar as instituições, não para impor seu mandonismo, apenas quando houver razões para isso. Fez o ato de forma truculenta, e ficou por isso mesmo. O país se contentou com o fato de que informações de bastidores mostram que os demitidos reagiram em reunião tensa.

Por fim, muita gente elogiou o fato de Braga Netto ter falado em defesa da democracia na apresentação dos três chefes. Mas Braga Netto falou também que as Forças Armadas garantem as liberdades democráticas. Quem garante, general, é a Constituição. No mesmo dia de ontem, triste 31 de março, o mesmo Braga Netto dizia que o país tinha que “celebrar” a ditadura, que ele em raciocínio tortuoso chama de “movimento” e diz que foi feito para garantir a democracia. É dessa democracia que ele está falando. A que as Forças Armadas controlam.

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General Rêgo Barros, Tasso e Merval indicam que militares e elite decidiram-se pelo IMPEACHMENT de Bolsonaro

General Rêgo Barros, Merval Pereira, Tasso Jereissati e Bolsonaro

247 - Num ataque sem precedentes de um militar de alta patente a um presidente da República pelo menos desde a redemocratização do país, o general Otávio Santana do Rêgo Barros praticamente deu a senha para o apoio das Forças Armadas ao impeachment de Jair Bolsonaro. Com o apoio declarado do senador  Tasso Jereissati à derrubada de Bolsonaro e o artigo de Merval Pereira, porta-voz oficioso dos Marinho já antecipando clima de “tranquilidade” num eventual governo do general Mourão, as elites brasileiras indicam que o tempo de Jair Bolsonaro acabou e, em aliança com a esquerda, devem caminhar para o impeachment.
Rego Barros foi porta-voz de Bolsonaro de janeiro de 2019 a outubro de 2020 e deixou a função rompido com o ex-chefe. Passou para a reserva em 2019, mas é um general respeitado na cúpula militar. Em seu artigo, que você pode ler abaixo, diz que o desejo de Bolsonaro de transformar as Forças Armadas “em uma estrutura de apoio político afronta tudo o que defendem as Forças Armadas em sua atitude profissional”. Afirma que o atual presidente busca “adentrar as cantinas dos quartéis com a política partidária”.

 Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB, é um líder respeitado na direita e no empresariado -ele também um empresário multimilionário. 

Os dois fizeram, em seus pronunciamentos, referência direta ao estado emocional-mental de Bolsonaro. Para Rêgo Barros, “o amadurecimento intelectual – característica marcante na formação dos atuais chefes – não esteve presente em sua trajetória [de Bolsonaro]”; Jereissati diz ter  "dúvida até sobre seu equilíbrio mental".

Com o artigo de Merval Pereira, há uma clara indicação de que a constelação político-empresarial, midiática conservadora e da cúpula militar pela derrubada de Bolsonaro está configurada.

Leia a seguir a íntegra do texto do general Rêgo Barros:

Estamos diante de uma crise política que se avoluma diariamente, com efeitos não totalmente mensurados, embora eu não acredite que venha a se tornar institucional. Os sistemas de freios e contrapesos ajustarão a temperatura.

As mudanças constantes e atabalhoadas da gestão, às vezes deslocadas dos princípios mais salutares das democracias maduras, vêm promovendo preocupações em todos os estamentos da sociedade.

O chefe do poder executivo, por vezes, intenta estabelecer uma ligação emocional entre as suas deliberações e a instituição de Estado: Forças Armadas.

O processo deliberativo é arcaico. Está longe de tangenciar aquilo que é defendido no âmbito do estamento militar. Modernas ferramentas de profissionalização foram introduzidas nos atuais integrantes das Forças Armadas.

Na Academia Militar das Agulhas Negras, uma frase lapidar nos impacta diariamente ao avançarmos para o rancho, marchando no Pátio Marechal Mascarenhas de Moraes: “Cadete ides comandar aprendei a obedecer”.

Mas a roupagem é contemporânea, não é antolhada, e lembra as lideranças que privilegiam a flexibilidade, o trabalho em equipe e o êxito individual como estímulo. É o co(+)mandar. Mandar com.

O mandatário não é mais um militar. Ele detém, tão somente, uma carta patente que indica ter obtido, em um determinado momento da vida, os requisitos para exercer as funções intermediárias na hierarquia da oficialidade das Forças Armadas.

O amadurecimento intelectual – característica marcante na formação dos atuais chefes – não esteve presente em sua trajetória.

Permaneceu como aluno, cadete e oficial cerca de quinze anos. Como político, mais de trinta anos. Naturalmente os atributos que lhe foram ensinados, enquanto militar, ficaram pelo caminho, substituídos por conceitos não aplicados dentro de uma instituição como é o Exército Brasileiro.

Seu aparente desejo de transformar essa centenária instituição, detentora dos mais altos índices de confiabilidade, em uma estrutura de apoio político, afronta tudo o que defendem as Forças Armadas em sua atitude profissional.

Buscar adentrar as cantinas dos quartéis com a política partidária é caminho impensado para as Forças Armadas. Elas já estão vacinadas contra esse vírus.

Não se pode também aceitar uma transformação no core da instituição Forças Armadas, cambiando as cláusulas pétreas que as sustentam secularmente: hierarquia e disciplina, pilares para o exercício da função de constitucional, conforme sobejamente referendado pelos nossos comandantes.

É preciso deixar claro, entretanto, que não há nenhum sinal de alerta pulsando. A profissionalização castrense ultrapassa amadorismos atemporais que possam prejudicá-la. As lideranças estão atentas: as de ontem, as de hoje e as de sempre. As ideias de legalidade, legitimidade e estabilidade permanecem indicando o caminho. E as Forças Armadas diariamente reforçam a sua imunidade.

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Análise: Reinaldo Azevedo - Há algo perturbador no olhar de Bolsonaro. Não é política. Não é economia

Jair Bolsonaro: sem o golpe para chamar de seu, restou desmoralizar seu ministro da Saúde e o Comitê contra a covid - Isac Nóbrega/PR
Jair Bolsonaro: sem o golpe para chamar de seu, restou desmoralizar seu ministro da Saúde e o Comitê contra a covid Imagem: Isac Nóbrega/PR
Reinaldo Azevedo




Colunista do UOL

01/04/2021 06h15

Atualizada em 01/04/2021 16h58

Jair Bolsonaro agiu de olho no calendário com seu marketing do terror. No melhor dos mundos para ele, esta quarta, 31 de março, seria por tropas nas ruas, em alguns locais simbólicos ao menos, indicando quem manda. Seria um feito e tanto. Nos 57 anos do golpe militar de 1964, as Forças Armadas voltariam a ser uma ameaça à segurança dos indivíduos, "celebrando", para usar um verbo da predileção de Braga Netto, mais um recorde de mortos por covid-19: 3.950 em 24 horas; 66 mil só no mês de março; 321.826 ao todo. Que feito! Quem não morresse em razão do vírus poderia morrer à bala.

É importante que tenhamos a clareza de que o presidente tentou desfechar um golpe. Eis o nome que se dá quando pessoas uniformizadas e armadas, que deveriam atuar como forças de Estado, resolvem ditar as regras da vida civil e da política. Não parece que seu novo ministro da Defesa seja do tipo que diz ao chefe: "Ah, melhor não..." Há um sinal de que, não fosse a resistência do Alto Comando das Forças Armadas, haveria general batendo às portas do Supremo para dizer: "Olhe, não se trata de um golpe, mas precisamos mudar isso..."

O É DA COISA: Ninguém assistiu ao enterro da última quimera bolsonarista

Não! Nunca achei, como escrevi aqui tantas vezes, que um golpe fosse viável ou factível. Isso não quer dizer que não se tenha tentado. Eis o ponto. Fosse o impeachment apenas matéria de merecimento, Bolsonaro teria de ser impichado 28 vezes. Mas, como se sabe, isso depende da política. As limitações de mobilização impostas pela pandemia também facilitam as tentativas de arruaça do mandatário.

Não pensem que Bolsonaro vai mudar. Uma das palavras de extremistas de direita, aqui e no mundo, é não recuar nunca. O presidente não é um teórico da coisa — como Filipe Martins —, mas é um intuitivo entusiasmado. O discurso negacionista encontra eco numa parcela significativa do país que, de verdade, está sendo ameaçada e lançada na insegurança econômica pela covid-19 e pela inépcia do governo.

E daí? Como de hábito, Bolsonaro atribui a terceiros os desastres provocados por seu governo e por ele próprio. Exerce, assim, o que tenho chamado aqui de estranho "populismo da morte". Muita gente que é prejudicada pelas medidas de restrição social — e existem aos milhões — prefere voltar a sua fúria contra governadores e prefeitos. Falta-lhes a clareza necessária para constatar que o caos é filho da indisciplina, que o alimenta.

Na fase em que estamos, quanto mais o presidente sabotar o distanciamento social, como voltou a fazer nesta quarta, mais prolonga a crise. E, assim, entramos no círculo vicioso desse populismo da morte: a conclamação à indisciplina, em nome do funcionamento da economia, contribui para aumentar a contaminação e os óbitos, o que, por seu turno, acaba paralisando a economia, o que alimenta o proselitismo funesto.

Nesta quarta, no tal comitê contra a covid, até Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, sugeriu que as pessoas evitem aglomerações no feriado de Páscoa. Bolsonaro concedeu uma entrevista em seguida em que pregou vida normal e volta ao trabalho, insistindo na comparação esdrúxula, segundo a qual toques de recolher e outras medidas restritivas são coisas ainda piores do que estado de sítio. A afirmação é tão estúpida que nem errada chega a ser.

O atual presidente e o pensamento lógico nunca foram íntimos. Nos últimos dias, ele tem insistido na tese mentirosa de que o colapso na Saúde evidencia a ineficácia do "lockdown" — que, insista-se, nunca existiu em dimensão nacional ou estadual. Quando muito, algumas cidades o aplicaram, a exemplo de Araraquara, no interior de São Paulo, e com bons resultados.

E daí? Bolsonaro fala o que lhe dá na telha e, com uma simples declaração, transforma em bobos aqueles que acreditaram que o comitê poderia significar um passo adiante no combate à doença. É um pesadelo sem fim. Como lockdown não há e como há serviços que não podem parar, então já se tem uma taxa inevitável de contaminação — e, por consequência, de mortos.

O presidente não faz o menor esforço, no que lhe diz respeito, para impedir a permanência e agudização da tragédia. Ao contrário: sabota aquele que é, na prática, um esforço, ainda que modesto, do comitê que ele próprio criou.

Tem a arruaça na alma. Seja ao tentar agitar quartéis, seja ao recomendar às pessoas um comportamento que, potencialmente — e com altíssima potência —, é tão suicida como homicida.

Não haverá golpe. Isso não quer dizer que a democracia não esteja sendo esgarçada um pouco por dia, todos os dias.

O Brasil mata mais de um World Trade Center por dia.

O Brasil mata 14,6 Brumadinhos por dia.

O Brasil derruba 6,6 Boeings 747 por dia.

Mas nada move o coração do faraó.

Vejam a imagem. Há algo de perturbador nessa obstinação. Nada tem a ver com política. Nada tem a ver com economia. O que o move?

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O fim do capitão ficou mais próximo - José Luís Fiori

Por José Luís Fiori

Jair Bolsonaro

Por José Luís Fiori 

1.

As mudanças no ministério constituem uma grande derrota do senhor Bolsonaro, seguida de um erro de cálculo clamoroso e passo em falso. O pano de fundo dessas mudanças é conhecido, e quase não precisa ser relembrado: a soma da catástrofe sanitária com o descalabro econômico, o isolamento internacional e a desintegração moral da sociedade brasileira. Mas, do meu ponto de vista, a mudança ministerial propriamente dita teve como objetivo encobrir a grande derrota do governo, que foi a demissão imposta do ministro de Relações Exteriores, o senhor Ernesto Araújo. As pessoas talvez não avaliem a importância deste senhor para o governo Bolsonaro, e por isso também não consigam avaliar o tamanho do tombo que a saída do chanceler representou para o governo.

Independentemente de tratar-se de um idiota quase inconcebível, o senhor Ernesto foi colocado onde estava para ter conexão direta com o governo de Donald Trump e como uma âncora capaz de assegurar o capitão contra as tempestades que ameaçariam seu governo, cuja ignorância e incompetência eram de pleno conhecimento do governo americano. Este contribuiu decisivamente para o golpe de Estado de 2016, e depois participou da operação de instalação do senhor Bolsonaro na Presidência do Brasil, mesmo sabendo que se tratava de uma pessoa inteiramente inepta e insana.

Além disso, Ernesto era o membro mais “ilustrado” da extrema-direita bolsonarista. No meio desta militância, Ernesto fazia papel do sábio idiota capaz de formular as idiotices ideológicas da extrema-direita em linguagem de “clube literário”. Sua importância nesse grupo era tão grande que mesmo depois da derrota de Donald Trump, a decisão era mantê-lo no governo. Já o ministro do meio-ambiente Ricardo Salles não passa de um lobista e pode ser escanteado a qualquer momento sem maior custo para o governo; e o próprio senhor Guedes deve ser desembarcado em breve, trocado por qualquer outro desses “gênios do mercado” que pululam pelas esquinas da Faria Lima e pelas páginas da imprensa conservadora.

A saída do “chanceler apocalíptico”, no entanto, teve, tem e terá um peso muito diferente na história deste governo. Por isso foi necessária uma pressão gigantesca de vários grupos de interesse e um golpe final do Senado brasileiro para enxotá-lo do governo contra a vontade do senhor Bolsonaro. E foi essa grande derrota que colocou Bolsonaro de joelhos e o levou a essa mudança ministerial, que não passaria de mais uma pantomima ridícula do capitão ofendido se não fosse o fato de que desta vez cometeu vários erros de cálculo estratégico que poderão ser definitivos para o futuro do seu governo.

O primeiro grande erro do senhor Bolsonaro foi ter “aberto o jogo” antes do tempo, deixando que todos vissem que não dispõe neste momento de mais do que um “par de setes’’, como se diria no jogo de pôquer. Sofreu uma grande derrota e tentou ocultá-la com uma grande ofensiva e acabou parindo um rato, e assim todos viram que ele não dispõe de mais ninguém disposto a ir para seu governo que não sejam figuras inteiramente desconhecidas e despreparadas, saídas da roda íntima de sua família e de suas tertúlias e churrascos de quintal nos fins de semana tediosos de Brasília.

O que ele fez foi um troca-troca com seus militares de pijama e de confiança, e trouxe três pessoas novas com quem pouco menos que tropeçou no corredor: um funcionário do cerimonial do palácio que foi alçado à condição de novo ministro de Relações Exteriores, sem nunca ter sido embaixador ou feito uma carreira diplomática. Numa escolha do tipo “se não tem outro, vai tu mesmo”, de uma pessoa que não tem currículo, abandonou a carreira diplomática e dedica-se a ensinar “boas maneiras” ao pessoal do Palácio, além é óbvio de ser amigo de um dos “filhos presidenciais”, e de ser um pouco mais “diplomático” que o Ernesto.

Para o Ministério da Justiça, trouxe um delegado de polícia de Brasília mesmo, da “bancada da bala” e obviamente amigo de mais um de seus filhos. E para a Secretaria de Governo, indicou uma deputada que está no seu primeiro mandato, também por Brasília e que foi indicada pelo presidente da Câmara, tendo sido eleita na vaga do seu marido que estava preso ou sob julgamento por ocasião das eleições. E seu principal título, segundo dizem, é saber organizar a distribuição dos recursos do Orçamento entre os pedidos e favores dos membros do Centrão, isto é, sem demérito de uma pessoa que não conheço, ser colocada como pessoa de confiança do presidente da Câmara junto ao Gabinete da Presidência e junto ao caixa do Orçamento da República.

Como se pode ver, um grupo inteiramente mambembe, mas que deixa claro que neste momento a capacidade de convocação do senhor Bolsonaro é próxima de zero, no meio das elites políticas e econômicas da própria direita brasileira. Além disso, ao precipitar-se no seu movimento reativo e vingativo, acabou atingindo um grande amigo e velho seguidor, o ministro da Defesa, que foi defenestrado sem maior complacência exatamente por ser militar e ter que obedecer em silêncio. Mas com isto o senhor capitão deixou claro que não tem lealdade nem com seus amigos mais fiéis e leais, o que o deixa completamente só, uma vez que não tem partido político nem qualquer grupo de apoio que não sejam seus filhos e apaniguados de quintal.

Por fim, Bolsonaro abriu seu jogo com relação às Forças Armadas (FFAA), e com isso deverá precipitar um processo de separação entre a turma da farda e a turma do pijama. Decidiu agredir o comandante em chefe do Exército e o mais provável é que provoque um fechamento de posição da oficialidade das três Armas em torno da posição defendida pelo General Pujol. Ou seja, uma vez mais, o senhor Bolsonaro ficou sem pão nem pedaço, e agora deverá ser colocado na cadeirinha de castigo simultaneamente pelas FFFA e pelo Centrão.

O centrão

A primeira questão é saber em que consiste exatamente esse grupo parlamentar que a imprensa apelidou de “Centrão”? E todo mundo sabe que se trata de um aglomerado de pessoas e siglas que ocupam em geral o submundo fisiológico do Congresso Nacional, representando interesses e demandas individuais ou grupais localizadas e heterogêneas. O grupo de onde saiu o senhor Bolsonaro depois de permanecer ali durante 28 anos sem dizer ou fazer coisa alguma. Este grupo parlamentar, ou a maior parte de seus membros atuais, já fez parte da “base de apoio” do governo de FHC, do governo Lula, do governo Dilma, do golpe do Temer e agora estão embarcando e tomando conta do governo do senhor Bolsonaro, que eles sabem que é uma “canoa furada”’ mas de onde desembarcarão correndo logo que percebam que está afundando definitivamente.

Em síntese, esse grupo parlamentar sempre esteve e estará pendurado em qualquer governo que suas reivindicações locais e corporativas. O problema é que esse grupo não tem a menor condição, interesse ou capacidade autônoma de constituir ou sustentar um governo por sua própria conta, nem muito menos definir algum projeto coerente e nacional para o país. Sua mais completa heterogeneidade de interesses impede que dali nasça qualquer tipo de ideia mais inteligente e unitária, ou qualquer objetivo que envolva todo o país, para além de suas causas individuais ou corporativas.

Os militares

A questão militar constitui o ponto onde o erro do capitão trará consequências mais difíceis de serem administradas, porque, na prática, seu governo é um governo militar – ou pelo menos é um governo dos militares que tomaram conta da maioria de seus ministérios e cargos comissionados – que agora está procurando estabelecer uma aliança com o “Centrão”, que, como já vimos, é um amontoado de siglas que compõem um bloco parlamentar unificado pelo seu denominador comum, o “fisiologismo” que sempre foi objeto das críticas políticas e morais dos militares.

A participação dos militares neste governo, e mais recentemente, a catastrófica gestão do general da ativa, Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, vem atingindo pesadamente o prestigio das FFAA e sua fama de “salvadores da pátria”. Esse despreparo e incompetência vêm sendo demonstrados pelo capitão que ocupa a Presidência, pelo inominável ministro da Saúde que acaba de sair e por uma lista sem fim de personalidades que vão do hilário – como é o caso do ministro de Ciência e Tecnologia – ao absolutamente desastroso – como é o caso dos responsáveis pela segurança institucional do presidente, incapazes de localizar um pacote de 39 kg de cocaína dentro do avião presidencial. Imagina se fosse uma bomba, provavelmente atribuiriam a culpa aos comunistas…

Mas, afinal, esta experiência governamental lamentável dos militares talvez possa ter alguma consequência positiva, porque está cada vez mais forte dentro da oficialidade brasileira a convicção de que cabe aos militares uma função de Estado e de defesa da nação, e não a função de governar ou sustentar um governo que carece inteiramente de quadros que não sejam os amigos dos filhos e da família em geral do senhor Bolsonaro.

Na sociedade cresce cada vez a consciência de que os militares até podem ser homens de boa vontade e boas intenções, mas que foram treinados para tratar de canhões, navios, cavalos ou aviões de guerra, muito mais do que de ciência, educação, saúde, arte, infraestrutura, ou mesmo de tecnologias de ponta, para não falar do seu mais absoluto despreparo com relação à vida política dos partidos e dos demais poderes da República, com seus respectivos deveres e obrigações.

Neste ponto é que muitos podem estar se equivocando, ao pensar que Bolsonaro tomou conta das FFAA ao deslocar seu amigo para o Ministério da Defesa e ejetar os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Do meu ponto de vista, ao contrário, o que ele conseguirá com sua desastrada movida é separar definitivamente as FFAA do seu governo, criando um fosso que deverá aumentar, deixando-o cada vez mais isolado.

Mas, ao mesmo tempo, permitirá que talvez as FFAA aprendam de uma vez por todas que o melhor mesmo é manter-se nos quartéis e não voltar a se meter numa aventura como esta em que se envolveu o General Villas-Boas, levando atrás de si a maior parte do oficialato brasileiro. Esse deslocamento geológico que está em pleno curso talvez explique a distinta receptividade que tiveram o famoso tweet de Villas-Boas em 2018 e a nota apagada, antiquada e inteiramente deslocada que seu amigo de longa data e de larga tradição familiar golpista postou no dia 29 de março no site do Clube Militar. As coisas estão mudando, e talvez esteja chegando a hora da turma de pijama desfrutar as suas aposentadorias e deixar de escrever notas iradas nas redes sociais ou corporativas.

2022

Considero uma completa insensatez discutir neste momento a eleição do ano de 2022. O país está inteiramente desgovernado em meio à maior crise sanitária de sua história, e está assistindo a paralisia e destruição de sua economia, e da própria infraestrutura física, com o fechamento de milhares de empresas, saída de capitais cada vez mais acelerada e tudo isto sobre o cadáver de mais de 300 mil brasileiros e cerca de um milhão e meio de brasileiros atingidos pela perda de seus entes queridos e muitas vezes responsáveis pelo sustento de famílias inteiras.

Este é o grande desafio colocado hoje na frente dos brasileiros. Falar ou calcular a próxima eleição presidencial agora é no mínimo uma postura desumana, pouco solidária, pouco patriótica. E pior ainda, de um humor macabro é falar ou discutir a reeleição do grande responsável pelo morticínio que está acontecendo na frente de nossos olhos. Por isto me parece extraordinário que a imprensa e grande número de analistas gastem tempo com este tema; e pior, considerem que é possível reeleger esse senhor que está sentado em cima da própria tragédia do seu povo e e costuma debochar disto.

Eu te diria, talvez na contramão de muito colegas, que não há a menor possibilidade de este senhor se reeleger depois dessa catástrofe. Deve se dar por satisfeito se conseguir chegar até o final do mandato, coisa que está ficando cada vez mais difícil, e por culpa dele próprio. As manifestações recentes de empresários, banqueiros, economistas e intelectuais do centro e da direita mais conservadora indicam que a velocidade da perda de apoio deste governo é cada vez maior.

No caminho do impeachment

Do jeito que as coisas estão e com a velocidade que está tomando a pandemia, a destruição econômica e a miséria da população, acho que muito mais cedo do que tarde o próprio Centrão abandonará o barco, e neste caso é muito provável que tomem o caminho do impeachment. Mas se as coisas tomarem este caminho, acho que antes os próprios militares se encarregarão de retirar esse senhor da Presidência, obrigando-o a renunciar ou levando-o para ser internado.

Bolsonaro ou qualquer outra pessoa que encarne sua mensagem de ódio, ressentimento e destruição sempre contará no Brasil e em outros países, com o apoio de em torno de 20% da população. Bolsonaro tinha algo em torno de 20% nas eleições de 2018, antes que tivesse início a operação nacional e internacional, política, jurídica, militar e midiática que o conduziu à Presidência. E hoje seu núcleo de apoiadores fiéis deve estar de novo na casa destes 15-20%. E não me parece provável que a velha direita conservadora possa voltar a apoiar esse senhor depois desta verdadeira tragédia que tem sido sua passagem pelo Palácio da Alvorada, onde ainda consegue debochar das vítimas da pandemia mesmo depois dos seus 320 mil mortos até o momento.

Uma outra coisa é saber como ele mantém o apoio fanático desses 15-20% de brasileiros. Acho que esta questão é complexa e remete a várias linhas possíveis de explicação. Porque explicar a necrofilia do capitão não é difícil; difícil é explicar a adesão necrofílica de seus seguidores. Na verdade, este caso sempre me faz relembrar o famoso suicídio coletivo dos fiéis do Pastor Jones, na Guiana, em 18 de novembro de 1978. Também naquela ocasião foi mais fácil para jornalistas e psicanalistas explicarem o suicídio individual do pastor Jones, muito mais do que o suicídio coletivo de centenas de seguidores fanatizados que se mataram junto com seu líder num ritual macabro, no qual as crianças que resistiram foram mortas por seus próprios pais ou pelos ajudantes do pastor, antes de estes também se suicidarem.

Lula

O retorno de Lula ao cenário brasileiro, com a recuperação dos seus direitos políticos causou um impacto enorme, por razões objetivas e também por razões psicológicas. Lula foi eliminado da vida política porque as forças que sustentaram o capitão, na fase final de sua campanha, sabiam que seria impossível elegê-lo se Lula estivesse livre. E agora, estas mesmas forças temem que o senhor Bolsonaro não consiga manter a compostura e interpretar o papel de governante, caso o ex-presidente apareça na sua frente livre, e de volta à liderança da oposição brasileira.

Tudo indica que o capitão perdeu inteiramente o que ainda lhe restava do pouco juízo que tem, e esta é uma das razões fundamentais por que demitiu seu amigo e ministro da Defesa, e resolveu demitir o General Pujol, porque estes decidiram não repetir o caminho do senhor Villas Boas, e não contestaram a recente decisão do STF que devolveu os direitos políticos aos ex-presidente Lula. Independentemente do que faça ou deixe de fazer no futuro imediato, a reentrada de Lula redefiniu os parâmetros da vida política nacional, e todas as forças em presença começaram a se manifestar e fazer suas opções.

Por outro lado, a oposição voltou a ter uma referência comum e um vetor capaz de atingir em cheio o desgoverno do país. Lula é uma pessoa que tem uma inteligência estratégica, um carisma e uma relação afetuosa com a população brasileira, mesmo com seus opositores, que é uma coisa inalcançável para uma pessoa odiosa, odienta e inteiramente desprovida de empatia com seu próprio povo, como é o caso desse senhor Bolsonaro.

Trump

A derrota de Trump atingiu em cheio a articulação da extrema-direita internacional que se utilizava do capitão através de seus filhos. Muitos até imaginaram que o capitão Bolsonaro poderia substituir Trump e tornar-se o novo líder da extrema-direita mundial. Mas o próprio Steve Bannon sabe perfeitamente que o capitão não tem estatura intelectual e política indispensável para desempenhar esse papel. E não haveria como sustentar esta ficção oficializando seu papel de marionete de seus filhos, até porque eles também não conseguem falar abertamente e se escondem sempre atrás de seus robôs.

Não é improvável que as forças conservadoras se desfaçam dele antes das eleições, para poder ocupar este espaço da direita, e mesmo da extrema-direita, com um candidato mais próximo da racionalidade cartesiana e de suas convicções liberal-cosmopolitas.

As tarefas mais urgentes da oposição neste momento consistem em ajudar o povo brasileiro a enfrentar e superar este momento terrível da sua história, propondo medidas parlamentares que possam atenuar o sofrimento da população, o desemprego e a morte de milhares de brasileiros ainda este ano e no próximo. Unir-se e fazer oposição ferrenha a esse governo, para impedir a desintegração completa das redes de sociabilidade que ainda mantém o Brasil unido, e somar forças para que nunca mais volte a acontecer no Brasil uma tragédia dessas proporções.

(Artigo editado a partir de entrevista concedida a Eleonora de Lucena no site Tutaméia.)

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