Brazil Conference
LULA foi vítima de um VALE-TUDO JUDICIAL, diz Bernardo de Mello Franco, nO Globo: Moraes EXPÔS o MÉTODO da República de Curitiba
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EVANGÉLICOS já começam a ABANDONAR Bolsonaro
Pandemia leva evangélicos a CRITICAREM Bolsonaro
*PRESIDENCIÁVEIS de centro e PT (Fernando Haddad, João Doria, Ciro Gomes, Eduardo Leite e Luciano Huck) se UNEM em críticas a Bolsonaro em evento virtual
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‘Eu viajaria a Paris no 2º turno COM_MAIS_CONVICÇÃO. PT nunca mais’
Médicos relatam DEMISSÕES, AGRESSÕES e COERÇÃO para receitar ‘tratamento precoce’
Presidenciáveis de centro e PT se unem em críticas a Bolsonaro em evento virtual Fernando Haddad, João Doria, Ciro Gomes, Eduardo Leite e Luciano Huck participaram do Brazil Conference para debater rumos do país

SÃO PAULO — Representando o PT, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad fez coro a lideranças do chamado centro em críticas a Jair Bolsonaro na noite deste sábado, em evento realizado virtualmente. João Doria e Eduardo Leite, do PSDB, Ciro Gomes (PDT) e o apresentador Luciano Huck compuseram um painel do Brazil Conference at Harvard & MIT para debater os rumos do país.
Considerados potenciais candidatos à presidência da República em 2022, Doria, Ciro, Huck e Leite já haviam se unido em um manifesto em defesa da democracia, divulgado em 31 de março. O documento, no entanto, não incluiu o ex-presidente Lula, considerado o mais provável concorrente ao Palácio do Planalto no PT. Ainda assim, um acordo para uma candidatura única no ano que vem é considerado difícil.
Os participantes do evento fizeram declarações duras contra Bolsonaro sobre diversas questões, como as áreas educacional e ambiental do governo, mas principalmente em relação à condução federal no combate à pandemia. Apesar de provocações pontuais e divergências no que consideraram as prioridades para a economia brasileira, o ambiente foi de enaltecimento mútuo.
Doria chamou Bolsonaro de "fascínora genocida". Huck criticou a gestão do governo na área da educação e o que considerou irrelevância do ministro Milton Ribeiro. Leite disse que o presidente não tem uma agenda clara para a economia. Haddad se recusou a elencar qualquer ponto positivo do governo federal. E Ciro afirmou que "2022 impõe aos brasileiros a tarefa de banir o bolsonarismo" da política e que Bolsonaro começa a se preparar para resistir a uma eventual derrota em 2022.
— O delírio de Bolsonaro é formar uma milícia para resistir de forma armada à derrota eleitoral que se aproxima — disse Ciro.
Em determinado momento, Fernando Haddad prestou solidariedade aos governadores paulista, João Doria, e gaúcho, Eduardo Leite, pelo ataques sofridos de Jair Bolsonaro. O petista afirmou ser preciso um "pacto" em favor da democracia e chamou de "retrocesso civilizatório".
— Eu queria terminar me solidarizando com os dois governadores aqui, que são do PSDB e que têm sofrido ataques indignos, intoleráveis. Um presidente que se porta da maneira como Bolsonaro frente a dois governadores de oposição porque (eles) querem para o país algo diferente do que o presidente está oferecendo não podem sofrer o tipo de ataque que estão sofrendo. Isso é indigno da nossa democracia. Não pode ser tolerado por nenhuma força política. Passou de todos os limites. Todo aqui merece ser respeitado — afirmou Haddad, sendo aplaudido por João Doria.
O governador paulista agradeceu às palavras de Haddad, que administrou a prefeitura de São Paulo entre 2013 e 2016, e fez elogios ao petista.
— Eu sou testemunha da dignidade, da postura que foi a transição da prefeitura de São Paulo com Fernando Haddad. Apesar de nossas diferenças, em nenhum momento fomos ofensivos, agressivos e nos maltratamos. Fizemos uma transição civilizada, democrática e construtiva. Isso é parte de sua boa biografia e eu testemunhei isso — declarou Doria.
Evangélicos já começam a abandonar Bolsonaro

247 - A gestão da pandemia do novo coronavírus tem provocado fissuras na base formada por líderes religiosos que apoiam o presidente Jair Bolsonaro. Alguns pastores evangélicos que votaram nele há dois anos já falam em terceira via para as eleições de 2022, enquanto outros admitem que o apoio ao Bolsonaro persiste apenas para evitar a volta do PT ao poder. Nem o empenho do governo federal para manter templos abertos durante a crise sanitária melhorou o humor de parte de sua base. A reportagem é do jornal O Globo.
A redução do entusiasmo com o mandatário começou a ficar clara em 29 de março, quando Bolsonaro fez uma convocação para um “dia do jejum”. No ano passado, 36 líderes evangélicos gravaram um vídeo em que atendiam “à proclamação santa feita pelo chefe supremo da nação”. Este ano não houve vídeo. A cerimônia, realizada no mesmo dia em que foi anunciada a troca de seis ministros, teve a presença de três lideranças.
Líderes evangélicos ainda apoiam Bolsonaro com o objetivo de evitar a volta do PT à Presidência, na opinião do pastor batista Carlito Paes, líder da Igreja da Cidade de São José dos Campos. “Penso ser um erro, porque este ato pode ser lido pelo governo como apoio incondicional e (levar o governo a que) cometa novos erros”, escreveu no Twitter, no começo de março. Apesar da crítica, Paes já rezou com Bolsonaro depois que ele foi eleito presidente e chegou a tentar indicar nomes no Ministério da Educação.
Lula foi vítima de um vale-tudo judicial, diz Mello Franco

247 – O colunista Bernardo Mello Franco, do Globo, aponta em sua coluna deste domingo como o ex-juiz Sergio Moro, condenado por parcialidade pelo Supremo Tribunal Federal, fraudou a distribuição de processos contra o ex-presidente Lula. "Lula vive em São Bernardo do Campo e foi acusado de receber vantagens de empreiteiras em Guarujá e Atibaia. Os três municípios ficam no Estado de São Paulo. No entanto, os casos foram levados para o Paraná, onde Sergio Moro pontificava nos julgamentos da Lava-Jato", lembra Mello Franco.
"Na quinta-feira, o ministro Alexandre de Moraes disse que a transferência das ações violou o princípio do juiz natural", afirma. "Moraes expôs o método da República de Curitiba para driblar a lei e escolher réus, transformando-se numa espécie de 'juízo universal' do país. 'Em todas as denúncias, o MP jogava o nome da Petrobras e pedia a prevenção da 13ª Vara', disse. O artifício deu poderes quase ilimitados ao juiz e aos procuradores da força-tarefa", pontua.
"A transferência das ações para Curitiba foi o primeiro ato de um vale-tudo judicial contra Lula. O Supremo participou do baile ao retardar o julgamento de ações que questionavam se era permitido prender um réu sem condenação definitiva. A manobra permitiu a prisão do petista às vésperas da eleição presidencial de 2018", relembra ainda o colunista.
Moraes expôs o método da República de Curitiba | Bernardo Mello Franco - O Globo

O Supremo Tribunal Federal confirmou, por 8 votos a 3, a anulação das condenações de Lula. A corte concluiu que a 13ª Vara de Curitiba não tinha competência legal para julgar o ex-presidente. Isso equivale a dizer que sua prisão foi resultado de um processo irregular.
Lula vive em São Bernardo do Campo e foi acusado de receber vantagens de empreiteiras em Guarujá e Atibaia. Os três municípios ficam no Estado de São Paulo. No entanto, os casos foram levados para o Paraná, onde Sergio Moro pontificava nos julgamentos da Lava-Jato.
Na quinta-feira, o ministro Alexandre de Moraes disse que a transferência das ações violou o princípio do juiz natural. A Constituição afirma que “ninguém pode ser processado ou sentenciado senão pela autoridade competente”, definida por regras do Código de Processo Penal. “O juiz não pode escolher a causa que quer julgar”, resumiu o ministro.
Moraes expôs o método da República de Curitiba para driblar a lei e escolher réus, transformando-se numa espécie de “juízo universal” do país. “Em todas as denúncias, o MP jogava o nome da Petrobras e pedia a prevenção da 13ª Vara”, disse. O artifício deu poderes quase ilimitados ao juiz e aos procuradores da força-tarefa.
No caso de Lula, Moraes observou que o MP nunca provou a conexão entre os desvios na Petrobras e as obras no sítio no tríplex. “A partir do genérico, sem nenhuma ligação com fatos específicos, se acusou e se denunciou o ex-presidente”, criticou. A defesa repetia isso desde 2016, mas o Supremo levou cinco anos para declarar que o processo foi ilegal.
A transferência das ações para Curitiba foi o primeiro ato de um vale-tudo judicial contra Lula. O Supremo participou do baile ao retardar o julgamento de ações que questionavam se era permitido prender um réu sem condenação definitiva. A manobra permitiu a prisão do petista às vésperas da eleição presidencial de 2018.
“Se essa inversão não tivesse sido feita, a história do Brasil poderia ter sido diferente”, disse na quarta-feira o ministro Ricardo Lewandowski. “Foi uma opção que o Supremo fez e que teve consequências muito sérias”, acrescentou. A principal consequência atende pelo nome de Jair Bolsonaro.
Elio Gaspari: O que falta a Bolsonaro é seriedade

A diplomacia americana está fritando Bolsonaro. O capitão, seu ex-chanceler e o ministro Ricardo Salles viajaram numa maionese de excentricidades e pirraças. Do outro lado, o Departamento de Estado levantou um muro. Quando um porta-voz disse que espera “seriedade” do governo brasileiro na cúpula do clima que começa quinta-feira, cravou uma estaca na agenda.
Enquanto o Departamento de Estado pedia “seriedade”, o primeiro-ministro francês, Jean Castex, justificava o bloqueio a viajantes brasileiros e arrancava risadas na Assembleia francesa ao lembrar que “o presidente da República, em 2020, aconselhou a prescrição de hidroxicloroquina, e gostaria de lembrar que o Brasil é o país que mais a prescreveu”.
Bolsonaro passou de piromaníaco a pedinte. Admitiu acabar com o desmatamento até 2030 e estragou sua nova posição numa única frase: “Alcançar esta meta, entretanto, exigirá recursos vultosos e políticas públicas abrangentes, cuja magnitude obriga-nos a querer contar com todo apoio possível.” Coisas assim se fazem, mas não se dizem, sobretudo se esse mesmo governo desdenhou a ajuda estrangeira e esvaziou o Fundo Amazônia. Colocar o Brasil, ou qualquer outro país, na posição do cachorro que olha para os espetos de frangos, como fez o doutor Ricardo Salles, é apenas burrice.
O Império e a República cuidaram da Amazônia de todas as formas, mas nunca falaram em dinheiro. Essa é a pior maneira para se começar uma negociação diplomática. Com ela, chega-se apenas a uma velha piada, atribuída ao ex-secretário de Estado Americano Henry Kissinger.
Numa versão politicamente correta, ela fica assim:
“Todos têm um preço”.
“Há coisas que eu não faço, nem por um milhão de dólares”.
“Você já está discutindo seu preço”.
Veneno
A carta de Bolsonaro a Joe Biden ocupa sete páginas.
Fosse qual fosse seu efeito, ele foi anulado pela curta notícia do afastamento do delegado Alexandre Saraiva, que chefiava a Superintendência da Polícia Federal no Amazonas e acusou o ministro do Meio Ambiente de advogar no interesse de desmatadores.
Lula e Bolsonaro
Uma Lava-Jato e três anos depois, Lula ficou maior, e Bolsonaro está menor.
Suprema criatividade
Quem entende de Supremo Tribunal Federal arrisca: com a anulação das sentenças que Curitiba impôs a Lula, algo como dez réus de Sergio Moro, em condições similares, pedirão o mesmo benefício. Para negá-lo, será necessária inédita criatividade.
Sumiço
Um experimentado empresário do agronegócio registra que a militância dos agrotrogloditas entrou num período de entressafra. Deram-se conta de que colheram (ou queimaram) o que podiam.
Profissional e amador
O embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, é um diplomata de carreira. Como o ex-chanceler Ernesto Araújo também é, entende-se que profissionais acabem se comportando como amadores. Em 2019, quando estava sendo sabatinado pelos senadores americanos, Chapman classificou as queimadas da Amazônia como “ocorrências anuais”. Perdeu uma oportunidade de ficar calado, mas pode-se entender que não quisesse melindrar Bolsonaro, o bom amigo de Donald Trump.
Passou o tempo, Trump foi para a Flórida, e na Casa Branca está Joe Biden. O embaixador Chapman reuniu-se com integrantes da “Articulação dos Povos Indígenas do Brasil”. A Apib queria um “canal direto” de comunicação com o governo americano, e o encontro foi diluído com a presença de indígenas indicados pelo governo. Uma salada.
Não é boa ideia que um embaixador de povo estrangeiro se reúna com representantes dos “povos indígenas”, mas seria descortesia não conversar. Podia ter destacado um diplomata de escalão inferior para o encontro.
Chapman poderia consultar os arquivos do Departamento de Estado para estudar um valioso precedente. Em 1876, quando viajava pelos Estados Unidos, D. Pedro II teve seu trem parado por um grupo de índios Sioux, chefiados pelo famoso “Touro Sentado”. O cacique pedia que o Imperador intercedesse pelos índios americanos junto ao presidente Ulysses Grant. É improvável que D. Pedro tenha tratado do assunto.
Apocalipse
No mesmo dia em que se noticiava a morte, na cadeia, do vigarista Bernard Madoff, que em 2008 foi apanhado num golpe de US$ 15 bilhões, Jair Bolsonaro disse que o Brasil se tornou “um barril de pólvora”: “Estamos na iminência de ter um problema sério”.
O que ele quis dizer com isso, não se sabe. Desde o ano passado, Bolsonaro acena com um Apocalipse. Ora falava em saques, ora advertia para o caos. Morreram mais de 360 mil pessoas, faltaram testes, vacinas, oxigênio e remédios. A desordem esteve no governo, e os saques, quando ocorreram, atacaram a Bolsa da Viúva.
Madoff também apostou no Apocalipse.
Muita antes de ser apanhado, ele sabia que sua pirâmide explodiria e, preso, contou:
“Eu queria que o mundo acabasse. Quando aconteceu o atentado de 11 de setembro de 2001, eu achei que ali estava a saída. O mundo acabaria.”
Doutores cloroquina
É possível que o repórter Fabiano Maisonnave tenha entregue de bandeja um presente à CPI da Pandemia.
Seria o depoimento dos médicos Michelle Chechter e Gustavo Maximiliano Dutra, que foram a Manaus em fevereiro para aplicar a “técnica experimental ‘nebuhcq líquido’, desenvolvida pelo dr. Zelenko”.
Eram nebulizações de cloroquina.
Quatro pacientes grávidas receberam o tratamento.
Todas morreram.
Uma delas teve um vídeo gravado, postado no dia 20 de março pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni.
Ele informava que “de 0 a 10, melhorou 8”.
Talvez Lorenzoni não soubesse, mas ela morrera no dia 2.
Milton Ribeiro zangou-se
O ministro Milton Ribeiro, da Educação, zangou-se com uma reportagem de Paulo Saldaña mostrando a existência de um esquema para fraudar pagamentos do Financiamento Estudantil, boca rica administrada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, o FNDE.
Como os repórteres são uma raça maldita, o doutor Ribeiro bem que poderia estender sua zanga ao edital do FNDE de 2019 que pretendia torrar algo como R$ 3 bilhões na compra de equipamentos para a rede pública de ensino.
A Advocacia-Geral da União sentiu o cheiro de queimado, porque numa só escola 255 alunos receberiam 30 mil laptops (118 para cada um).
Outros 335 colégios receberiam mais de um laptop para cada aluno.
O edital foi suspenso e cancelado.
8Passaram-se dois anos, três ministros da Educação e pelo menos três presidentes do FNDE, mas ninguém sabe quem botou esse jabuti no edital.
Médicos relatam demissões, agressões e coerção para receitar ‘tratamento precoce’

SÃO PAULO - Médicos na linha de frente da Covid-19 relatam abusos e coerção frequentes para que receitem o chamado “kit Covid”. Mesmo com ineficácia comprovada na prevenção ou tratamento da doença, esses remédios são alardeados por autoridades, gestores e até colegas como solução mágica para a pandemia.
A infectologista Tassiana Galvão, professora da PUC-SP, conhece bem os prejuízos causados pela prescrição indiscriminada destes medicamentos. No dia 31 de março, ela viu o marido, Danilo Galvão, também infectologista, perder o avô para a doença após uso de remédios do kit prescritos por outro profissional. Guilherme Galvão morreu aos 79 anos com insuficiência hepática.
A complicação é um dos riscos associados ao uso do kit, que supostamente retardaria e amenizaria os efeitos da doença — daí também ser chamado de “tratamento precoce”. Na prática, nenhuma autoridade de saúde respeitada, como a OMS ou a Anvisa, o recomendam. Pelo contrário: alertam para possíveis efeitos colaterais, como complicações renais e hepáticas.
Tassiana, que atua com controle de infecção hospitalar no interior de São Paulo, recusou-se a assinar protocolos para a adoção do kit em hospital da região. Foi demitida no dia seguinte.
Seu relato é um entre vários de médicos pelo Brasil que têm sofrido múltiplas retaliações e pressões para adoção do tratamento. A intimidação vem de políticos populistas e colegas de profissão com viés ideológico ou desatualizados, além de pacientes desesperados e iludidos pelas fake news sobre o assunto.
— Na busca pelo voto e aprovação, políticos veem o kit como caminho fácil para agradar a população leiga, a solução para salvar a saúde e garantir retorno da economia — diz Tassiana.
A pressão se traduz em demissões, ameaças, contratações e escalas de plantão condicionadas à prescrição do kit, assédio verbal e uma série de irregularidades praticadas por gestores públicos, privados e colegas de profissão, relatam os médicos.
Maria Flávia Saraiva, médica da família que atua na mesma região de Galvão, pediu demissão de um hospital em que trabalhava havia quatro anos devido as pressões que vinha sofrendo. Assim como colegas, recebe constantes ameaças e xingamentos, inclusive em redes sociais, acusando-a de mentiras sobre os remédios e até assassinato deliberado de pacientes.
— Me colocar contra um tratamento que o presidente é a favor parece que me coloca como inimiga do Estado. Minha família fica horrorizada com os ataques. Por isso muitos colegas se calam — desabafa, em alusão à reiterada defesa da cloroquina e de outros medicamentos sem eficácia, promovidos pelo presidente Jair Bolsonaro desde o início da pandemia.
O endosso do kit por autoridades aumentou a procura de pacientes pelos medicamentos— e a tensão e tempo dos atendimentos. Em cidades do interior de São Paulo, o protocolo de tratamento precoce adotado oficialmente por municípios inclui 14 remédios.
— Metade da consulta é gasta desmentindo fake news — conta a médica da família. — A insistência varia com a moda: antes era a cloroquina, agora ivermectina, amanhã quem sabe? Quando negamos, os pacientes xingam, brigam, vão na ouvidoria.
‘Máquina de prescrições’
Nem mesmo estudantes de medicina têm passado ilesos pela coerção. Um residente da região metropolitana de Cuiabá, que pediu para não ser identificado por receio de retaliações, relata que viu sua supervisora numa Unidade Básica de Saúde sofrer represálias, como redução de equipe, por se negar a prescrever o kit. Ao questionar o uso da ivermectina num dos atendimentos com outro supervisor, foi repreendido.
— O médico responsável me mandou calar a boca e disse que, se a gente não quer trabalhar, tem muita gente precisando de emprego. A ameaça é clara: ou aceita o absurdo ou está fora— diz o residente.
Os gastos públicos com os medicamentos duvidosos, por prefeituras que adotaram oficialmente o protocolo, refletem-se na pressão sobre médicos para darem vazão aos estoques adquiridos. A pressão também assume a forma de receitas padronizadas entregues em blocos para que médicos apenas carimbem e assinem a prescrição do kit, relatam profissionais ouvidos pela reportagem que preferiram não se identificar.
A coação também cria situações aterradoras como a relatada pelo profissional de Cuiabá que, quando atendido com Covid-19 por outro médico, ouviu do colega uma recomendação incomum:
— Ele disse “vou te prescrever esses remédios porque sou obrigado, mas por favor não tome”. Somos forçados ou demitidos. Virou uma máquina de prescrições.
Julia Canellas, médica em São Bento do Sapucaí (SP), tem o respaldo da Secretaria de Saúde da cidade para não receitar os remédios. Em sua atividade anterior em município próximo, no entanto, lidou com profissionais mais velhos que apoiavam o kit. Na cidade atual, são os pacientes quem vão à Secretaria reclamar da falta de prescrições.
— Estamos fazendo o melhor para eles, mas eles não veem — lamenta.
Em comum, os médicos relatam insatisfação com a falta de apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM)na pressão que vêm sofrendo por defenderem a ciência.
— Esses kits com 15 remédios são uma salada mista com grandes riscos óbvios. Não há respaldo da ciência, e o Brasil tem sido um laboratório a céu aberto. O CFM diz que garante a autonomia do médico mas, na prática, essa autonomia é só pra quem receita — diz Saraiva.
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Pandemia de Covid-19 leva evangélicos a criticarem Bolsonaro

SÃO PAULO — A gestão da pandemia do novo coronavírus tem provocado fissuras na base formada por líderes religiosos que apoiam o presidente Jair Bolsonaro. Alguns pastores evangélicos que votaram nele há dois anos já falam em terceira via para as eleições de 2022, enquanto outros admitem que o apoio ao presidente persiste apenas para evitar a volta do PT ao poder. Nem o empenho do governo federal para manter templos abertos durante a crise sanitária melhorou o humor de parte de sua base.
A redução do entusiasmo com o mandatário começou a ficar clara em 29 de março, quando Bolsonaro fez uma convocação para um “dia do jejum”. No ano passado, 36 líderes evangélicos gravaram um vídeo em que atendiam “à proclamação santa feita pelo chefe supremo da nação”. Este ano não houve vídeo. A cerimônia, realizada no mesmo dia em que foi anunciada a troca de seis ministros, teve a presença de três lideranças.
O pastor Samuel Câmara, da Assembleia de Deus Belém, aparecia no vídeo do ano passado, mas hoje tem restrições ao presidente.
— O exercício do poder tende a desgastar, e a pandemia tem participação nisso. Gostaríamos que o presidente fosse mais protagonista. Acho que em alguns momentos ele é extremamente inflexível — disse.
Câmara defende o uso de máscara e a vacinação e acredita que essas medidas devem se sobrepor às convicções pessoais de Bolsonaro.
— Se houver uma terceira via, creio que o apoio (a Bolsonaro) será menor — disse.
Líder da Igreja Plenitude do Trono de Deus, emergente entre as neopentecostais, o apóstolo Agenor Duque condenou a troca de André Mendonça por Anderson Torres no Ministério da Justiça e a entrada da deputada Flávia Arruda (PL-DF) na Secretaria de Governo. “O jejum não era para o meu Deus”, escreveu o pastor, que, no ano passado, também aparecia no vídeo pró-Bolsonaro. Procurado, o apóstolo não retornou.

Líderes evangélicos ainda apoiam Bolsonaro com o objetivo de evitar a volta do PT à Presidência, na opinião do pastor batista Carlito Paes, líder da Igreja da Cidade de São José dos Campos. “Penso ser um erro, porque este ato pode ser lido pelo governo como apoio incondicional e (levar o governo a que) cometa novos erros”, escreveu no Twitter, no começo de março. Apesar da crítica, Paes já rezou com Bolsonaro depois que ele foi eleito presidente e chegou a tentar indicar nomes no Ministério da Educação.
Desde que assumiu o poder, Bolsonaro sempre obteve seus melhores índices de aprovação entre os evangélicos. Em abril de 2019, pesquisa do Datafolha mostrava que 42% dos eleitores desse grupo consideravam o governo como ótimo ou bom. Em março deste ano, esse número era de 37%. Apesar da redução, os evangélicos ainda avaliam Bolsonaro melhor do que a média da população. Segundo o Datafolha, o percentual geral dos que consideram o governo ótimo ou bom é de 30%.

Entre os católicos, persiste a polarização entre opositores e apoiadores de Bolsonaro. Mesmo no grupo mais alinhado ao presidente, como os integrantes da renovação carismática, há críticas à atuação do governo no combate à pandemia.
— Compomos a base de apoio ao presidente, mas tem muitos aspectos que nos distanciam, como a gestão da pandemia — afirma o deputado Francisco Jr. (PSD-GO), presidente da Frente Parlamentar Católica.
A CNBB e mais de mil párocos que assinaram o manifesto Padres Anti-fascistas se opõem ao mandatário.
A presença do presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), Cláudio Lottenberg, num jantar em apoio a Bolsonaro, no dia 8, causou indignação em parte da comunidade judaica. Ao GLOBO, o rabino da Congregação Israelita Paulista, Michel Schlesinger, mostrou-se contra as medidas sanitárias do governo e a abertura dos templos em meio à pandemia.
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Entrevista: ‘Eu viajaria a Paris no 2º turno com mais convicção. PT nunca mais’, diz Ciro Gomes

BRASÍLIA — O ex-ministro Ciro Gomes afirmou em entrevista ao GLOBO não ser provável uma aliança entre os demais pré-candidatos à Presidência que, junto dele, subscreveram um manifesto pela democracia no mês passado — os outros signatários eram João Doria (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM), Eduardo Leite (PSDB), João Amoêdo (Novo) e o apresentador Luciano Huck (sem partido). Ciro afirma que nunca mais fará aliança com o PT, define o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “tomado por ódio” e diz ter “convicção” de ter tomado a decisão certa ao ter deixado o país em 2018 durante o segundo turno da eleição entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad.
Como o senhor se define hoje? Um político de esquerda, centro-esquerda, centro...
A minha vida inteira busquei posicionamento de centro-esquerda. E agora achei a minha casa, porque no PSDB tentei isso, mas a inflexão de Fernando Henrique me fez sair; no PSB busquei isso, e a inflexão do Eduardo Campos me fez sair. Já no PDT, que tem a educação como preocupação central, estou encontrando muito conforto.
Qual a principal diferença entre a dinâmica da eleição de 2018 e a que ocorrerá em 2022?
A de 2022 será mais reflexiva do que passional. O predominante em 2018 foi o antipetismo irracional. Quem interpretou de forma mais tosca conseguiu se eleger. Agora, não. O predominante vai ser a busca por soluções práticas e concretas. Antes, era a política contra a não política. Agora, a experiência terá mais relevância. Antes havia moralismo, por conta do escândalo moral do PT; agora é mais a questão econômica, emprego.
A volta de Lula ao cenário eleitoral e a provável polarização dele com Bolsonaro prejudicam as suas pretensões à Presidência?
Não sei quem será o próximo presidente, mas estou seguro de que não vai ser Bolsonaro. Isso tem importância grande porque descomprime o eleitor. Parte do eleitorado vota no PT porque não quer Bolsonaro, ou no Bolsonaro porque não quer o PT. À medida em que Bolsonaro passe a aparecer como derrotado nas pesquisas, as pessoas vão tentar outra via. Trabalho por um cenário realista no qual Lula e eu estaremos no 2º turno, o que ofereceria ao povo debate de alto nível. E ainda admito a possibilidade de que Bolsonaro sequer esteja na disputa.
Por quê?
A história brasileira não é de normalidade. Do Dutra (ex-presidente Eurico Gaspar Dutra) para cá, só três presidentes eleitos terminaram o mandato. Qual a característica dos três? Governaram o país em expansão econômica e trabalharam até na conta do suborno para destruir o antagonismo. Bolsonaro administra a pior crise econômica, não tem imaginação e, quando não tem inimigo, cuida de criar. A economia está virando vinagre. O dólar desvaloriza no mundo inteiro, mas, no Brasil, aprecia.
No manifesto dos presidenciáveis em defesa da democracia, ficou a impressão de que há chance de uma candidatura única envolvendo o senhor, Doria, Amoêdo, Eduardo Leite, Mandetta e Luciano Huck. Por outro lado, há muitas divergências programáticas entre os seis...
O ideal seria que todo mundo que acha que o lulopetismo e o bolsonarismo não prestam ao país fizesse enorme esforço de unificação para dar ao povo uma via alternativa concreta e produtiva que diminuísse o nível de ódio e paixão. Mas, realisticamente, não é provável. O centro do colapso está na economia, emprego, dívida pública, sistema tributário. E há um conjunto de respostas diferentes nas cabeças das pessoas que você citou. Mas demos um sinal. De que somos capazes de, apesar das diferenças, achar um ponto em comum: a defesa da democracia.
Mas o senhor tem mantido conversas com esses outros presidenciáveis?
Só conversei com o Mandetta, que foi quem costurou o manifesto. Em cima da mesa, havia aquela situação do Bolsonaro, falando com tom autoritário no cercadinho, às vésperas do aniversário do golpe. Então valia a pena dar um sinal de comprometimento com a democracia. O mais realista hoje é imaginar que podemos (os signatários do manifesto) fazer uma campanha de respeito mútuo que construa convergência futura e tentarmos, já agora, algumas plataformas em comum.
Quais plataformas em comum?
Vou propor, assim que houver maturidade... Vou conversar com o PSDB, que hoje tem problema interno que não vou interferir. A esmagadora maioria acha inconveniente a candidatura do Doria. Falo isso porque tenho relação íntima com muitos no PSDB, como o Tasso. Se o Doria insistir, vão lançar prévias com Eduardo Leite. O Eduardo Leite vencendo, o PSDB ficará mais flexível para compor. É remota a possibilidade de eu ter (como aliado) o PSDB, um partido que tem Fernando Henrique, que tem o governador de São Paulo... Conheço meu lugar, mas preciso sinalizar e vou chamar organicamente partidos como o PSDB para conversar.
Com quais partidos já conversou?
Com o DEM há conversa que já deu frutos. Com apoio do PDT, que indicou a vice, o candidato do ACM Neto, presidente do DEM, venceu a eleição no primeiro turno em Salvador. Com o PSD, fomos de apoio ao Kalil em BH e iremos apoiá-lo no ano que vem ao governo de Minas. A nossa tática, do PDT, é agrupar PSB, PV, Rede, como fizemos em muitas cidades em 2020, e expandir aliança para a centro-direita com o DEM e o PSD. Muitas dessas conversas são conduzidas pelo (presidente do PDT) Carlos Lupi, único que fala 100% por mim.
Em 2018, apenas o Avante aderiu à sua coligação. Não teme que Lula concentre o apoio da esquerda e do centro, reduzindo o seu tempo de TV e palanques regionais?
Quando Lula entra na disputa, faz tremer tudo o que está posto. Essa é a característica dele. Tenho afeto por ele, mas não admiração porque ele não tem nenhum tipo de escrúpulo ou limite. Então ele promete ao Guilherme Boulos (PSOL) que o apoiará ao governo de São Paulo, mas mantém a candidatura do Haddad. Em Pernambuco, fizeram tudo para derrotar o filho do Eduardo Campos no ano passado, mas agora Lula foi para lá e diz que sempre foi amigo de infância do PSB. Oferece o posto de vice ao PSB e, ao mesmo tempo, ao Josué Gomes.
Em setembro, o senhor e Lula se encontraram no Instituto Lula. Muita gente teve a impressão de que haveria uma reaproximação...
Foi nosso último encontro. Depois, nem por telefone. Naquela ocasião, estava um extremo azedume entre as nossas militâncias. E o Camilo Santana fez esforço enorme para unificar. Achei que devia colaborar. Mas Lula virou uma pessoa que, o que diz de manhã, já não serve de tarde. Está tomado de ódio. Tudo o que domina Lula hoje é a vontade de se vingar. Lula tem cinismo. A gente faz monitoramento de rede. Eles continuam atacando a mim e a outras pessoas na blogosfera. Lula dá a ordem, eles fazem. Se existe gabinete do ódio com Bolsonaro, com o PT é igualzinho.
Essa subida no tom da sua parte não inviabilizaria o eventual apoio do PT ao senhor caso vá para o segundo turno contra um candidato que não seja Lula?
O lulopetista fanático não me apoiará. Prefere Bolsonaro. E falo isso como alguém que foi contra o golpe de Estado contra Dilma, apesar de ela ter desastrado o país. No Senado, Renan Calheiros e Eunício Oliveira apoiaram o impeachment. Aí, eu parto para cima dessa gente. E, um ano depois, lá está Lula agarrado a eles. E ainda tem quem ache que devo alguma coisa ao PT. Nunca mais faço aliança com eles.
Em 2018, muitos na esquerda o criticaram por viajar para Paris no segundo turno da eleição, em vez de declarar apoio a Haddad contra Bolsonaro. O senhor se arrepende disso?
Pelo contrário. Eu faria hoje com muito mais convicção. Em 2018, fiz com grande angústia. Aquela eleição já estava perdida. Mesmo somando meus votos com os do Haddad, não alcançaríamos Bolsonaro. Lula mentiu para o povo dizendo que era candidato quando todos sabiam que não seria. Manipulou até 22 dias antes da eleição, deixando parte da população excitada.
Em caso de segundo turno entre Bolsonaro e Lula em 2022, vai para Paris de novo?
Como brasileiros não podem viajar para a França pela pandemia, nesse caso vou para Tonga da Mironga do Kabuleté (referência à música de Vinicius de Moraes e Toquinho).
Defina Bolsonaro, Doria, Mandetta, Huck e Lula em uma palavra ou expressão para cada.
Genocida. Não conhece o Brasil. Bem intencionado. Animador de auditório. Ególatra.
Como caminhará o PDT no Rio e em São Paulo na disputa ao governo do estado?
Em São Paulo, a situação está indefinida. No Rio, podemos lançar o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves (PDT) ou apoiar o deputado Marcelo Freixo (PSOL).
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(02/04/2021) Mesmo com aliança distante, líderes do centro dizem que manifesto marca ‘aproximação’

SÃO PAULO - Embora digam que ainda é cedo para falar em candidatura única para a Presidência, nomes do centro afirmam que o manifesto em defesa da democracia, divulgado na quarta-feira, foi um importante gesto de aproximação desse campo. Líderes partidários e alguns dos signatários ouvidos pelo GLOBO dizem que o documento cumpriu o papel de fazer contraponto ao aniversário do golpe militar de 1964 e ao presidente Jair Bolsonaro. Segundo eles, a iniciativa recebeu ontem apoio de líderes políticos, do empresariado e personalidades da cultura.
Um dos seis signatários, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), avalia que o momento é de diálogo entre as forças políticas do centro, mas adota cautela ao tratar de composições para 2022.
— Tudo tem sua hora. Agora é a hora da defesa da democracia, da Constituição, da liberdade e da Justiça — afirmou Doria.
Ele é seguido pelo presidente do PSDB, Bruno Araújo:
— A capacidade de convergência posta à prova nesse momento nos faz manter a esperança que haverá maturidade para aglutinar forças políticas relevantes do país em torno de um projeto que nos tire de sucessivos anos de crise.
Além de Doria, o tucano Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul também assinou o manifesto. A carta recebeu ainda o endosso de outros possíveis presidenciáveis, como o apresentador Luciano Huck, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM), o empresário João Amoedo (Novo) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT).
O ex-juiz e ex-mnistro Sergio Moro também participa do grupo de Whatsapp que criou o manifesto e foi um dos primeiros a apoiar a ideia. No entanto, ele não assinou o documento formalmente por ter um trabalho em escritório de advocacia internacional.
Com projetos antagônicos para o país, Amoedo e o presidentes do PDT, Carlos Lupi, veem como “difícil” uma possível aliança entre os signatários. Amoedo reconhece que, dentro do grupo, há políticos que defendem soluções distintas para o país, mas, segundo ele, a publicação da carta lhe passa a sensação de "uma semente que foi plantada".
Lupi lembra que a restituição dos direitos políticos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) leva seu partido a conversar mais com o centro. De acordo com ele, embora tenha dado sua contribuição ao país, Lula "não representa o futuro que a gente quer construir".
Em entrevista à colunista Vera Magalhães, outro dos signatários, Ciro disse não ter ilusões de que sairá uma chapa do grupo:
— Trata-se de um gesto, concreto, no sentido de que, colocadas de lado nossas divergências, algumas inconciliáveis, temos o consenso possível a favor da democracia, da Constituição e contra um claro surto autoritário de Bolsonaro.
O presidente do DEM, ACM Neto, não acredita que o manifesto altere o cenário para a próxima eleição ao Planalto, mas diz não ter dúvidas do seu “peso simbólico”:
— Isso demonstra que, quando a democracia está em jogo, diferentes atores e partidos vão estar unidos.
O presidente do PSB, Carlos Siqueira, que não participou da articulação espera que saia uma candidatura desse grupo:
— É importante que se articulem para apresentar uma candidatura que represente as ideias que orientam essa força política, já que a diversidade de ideias e de políticas firmam parte essencial da democracia.
Ao organizar o manifesto, o grupo não chamou o PT. Ontem, em entrevista à Rádio Band News FM, o ex-presidente Lula parabenizou a iniciativa, mas lembrou que parte do grupo ajudou a eleger Bolsonaro:
— Todos tiveram a chance de garantir a democracia em 2018 votando no (Fernando) Haddad.
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(02/04/2021) Manifesto dos presidenciáveis: 5/6 votaram em Bolsonaro

Seis presidenciáveis divulgaram um manifesto “pela consciência democrática”. O texto não cita Jair Bolsonaro, mas afirma que a democracia está “ameaçada” em seu governo. “Cabe a cada um de nós defendê-la e lutar por seus princípios e valores”, conclama.
A carta exalta o movimento das Diretas, que “uniu diferentes forças políticas no mesmo palanque”. “O autoritarismo pode emergir das sombras, sempre que as sociedades se descuidam”, alerta. Curiosamente, os signatários se descuidaram quando o país elegeu um candidato que exaltava a ditadura e ameaçava “fuzilar” adversários.
Dos seis autores do manifesto, cinco pediram voto para Bolsonaro em 2018. Em São Paulo, João Doria chegou a mudar o próprio nome: passou a se vender como “Bolsodoria”. Seu padrinho político, Geraldo Alckmin, definiu a metamorfose como atitude de “traidor”.
O tucano Eduardo Leite também surfou a onda de extrema direita para se eleger no Rio Grande do Sul. Há oito meses, ele disse não sentir remorso pelo apoio ao capitão. “Não tenho arrependimento porque, dadas aquelas circunstâncias, acho que seria muito ruim o retorno do PT ao poder”, justificou.
O discurso é idêntico ao de João Amoêdo. “Não me arrependi porque não tinha opção. Achava pior votar nulo ou no PT”, disse no ano passado o ex-candidato do Novo. Não foi a única declaração que envelheceu mal.
Às vésperas do segundo turno, o apresentador Luciano Huck informou, em vídeo: “No PT, eu jamais votei e jamais vou votar. Isso é fato”. Em defesa de Bolsonaro, ele disse que “as pessoas podem amadurecer”. “Tem uma chance de ouro, né? De ressignificar a política no Brasil”, empolgou-se.
Henrique Mandetta não se limitou a fazer campanha: virou ministro de Bolsonaro. Ciro Gomes viu seu partido apoiar Fernando Haddad no segundo turno, mas preferiu voar para Paris. Depois disse que o capitão não oferecia nenhum risco à democracia.
Nos últimos tempos, cobrou-se que o PT fizesse uma autocrítica dos escândalos de corrupção. É justo, mas também seria bom pedir aos signatários do manifesto que expliquem por que ajudaram o atual presidente a chegar lá.
O sexteto também deveria informar o que fará num possível duelo entre Bolsonaro e a esquerda em 2022. Sem isso, o apelo à “consciência democrática” pode soar como marketing de ocasião.
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'Só Deus me tira da cadeira presidencial', diz Bolsonaro sobre possível processo de impeachment

BRASÍLIA — O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira que apenas Deus pode tirá-lo da cadeira presidencial. O comentário de Bolsonaro foi uma resposta à informação de que a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu cinco dias para que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), explique os motivos por não ter analisado os pedidos de impeachment protocolados na Câmara.
A decisão da ministra foi tomada em um processo no STF que questiona por que a Câmara dos Deputados não analisou os mais de 100 pedidos de impeachment já protocolados contra Bolsonaro. De acordo com a Constituição, a decisão sobre a abertura ou não de um processo de impeachment cabe ao presidente da Câmara, que não possui prazo para tomar a decisão.
— Eu não quero me antecipar e falar o que acho sobre isso, mas digo uma coisa: só Deus me tira da cadeira presidencial e me tira, obviamente, tirando a minha vida. Fora isso, o que estamos vendo acontecer no Brasil não vai se concretizar. Mas não vai mesmo. Não vai mesmo — afirmou Bolsonaro durante a live semanal que realiza nas redes sociais.
O presidente afirmou que irá aguardar a resposta de Arthur Lira à decisão de Cármen Lúcia. A ação no Supremo pede que a Corte imponha um prazo para que o presidente da Câmara analise os pedidos.
Durante a transmissão, o presidente Bolsonaro voltou a afirmar que o país se aproxima de um limite. Nesta semana, em conversa com apoiadores no Palácio do Alvorada, o presidente afirmou que espera uma sinalização do povo. Na live, Bolsonaro disse que o governo vai "agir dentro das quatro linhas da Constituilção restabelecendo a ordem no Brasil".
— Lamento muito pelo futuro do nosso Brasil. E o que eu posso fazer? A gente só ganha a guerra se tiver informações, se o povo estiver bem informado, consciência do que está acontecendo. Alguns querem que seja imediatista. Eu sei o que tem que fazer, dentro das quatro linhas da Constituição. Se o povo cada vez mais se inteirar, se informar, cutucar seu vizinho, mostrar qual o futuro do nosso Brasil, a gente ganha essa guerra. Eu sei onde está o câncer do Brasil. Se esse câncer for curado, o corpo volta a sua normalidade. Estmaos entendidos? Se alguém acha que tem que ser mais explícito, lamento — afirmou.
Após decisão do STF, Bolsonaro critica Lula
Nesta quinta-feira, a maioria do Supremo Tribunal Federal confirmou a decisão do ministro Edson Fachin que anulou todas as condenações do ex-presidente Lula. Durante a live, o presidente comentou a decisão. Acompanhado do presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, comparou números de seu governo com os do petista.
— Se o Lula voltar, pelo voto direto, pelo voto auditável, tudo bem. Agora veja qual vai ser o futuro do Brasil com o tipo de gente que ele vai trazer para dentro da presidência. Se o Lula for eleito, em março de 2023, ele vai escolher mais dois ministros para o STF — afirmou o presidente.
Bolsonaro afirmou que não sabe se será candidato, mas colocou o ex-presidente como postulante ao cargo.
— Não estou dizendo que vou ser candidato mas vamos ter uma eleição pela frente, o Lula vai ser candidato. Tira eu de candidato. Quem seria o outro que iria para o Lula pro segundo turno? Só fazer um raciocínio que vão entender o futuro de cada um de vocês — disse Bolsonaro.
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‘Não há mais Consenso de Washington’, diz presidente do Eurasia Group

RIO – Para o presidente da consultoria americana Eurasia Group, Ian Bremmer, a receita neoliberal que ficou conhecida como Consenso de Washington – de privatizações, abertura comercial e Estado mínimo – não existe mais. Em entrevista por e-mail ao GLOBO, ele ressalta que a mudança pode ser vista até nos Estados Unidos, onde o lema de Donald Trump, “América primeiro”, dá lugar, na administração Joe Biden, a “Americanos primeiro”.
O papel do Estado, diz, vai crescer. Mas a questão da dívida em algum momento voltará a pesar, especialmente para as nações emergentes, quando as taxas de juros globais voltarem a subir.
Na pandemia, governos de todo o mundo foram obrigados a adotar medidas de estímulo a suas economias. Em sua avaliação, no mundo pós-pandemia o Estado vai manter esse papel?
O papel do Estado vai crescer. A Covid-19 afetou os pobres e os trabalhadores com mais força do que os ricos; mais pessoas perderam seus empregos por causa da tecnologia; a rede de seguridade social precisa de mais investimentos.
Essas questões já eram grandes e vinham crescendo – o motivo pelo qual vimos aumentar o populismo político no mundo nos últimos anos –, e a Covid apenas acelerou esse movimento, então os Estados terão de dar uma resposta.
Os trilhões em gastos dos EUA – a maior economia do mundo – terão impacto produtivo por uma década. E o modelo econômico chinês, da segunda maior economia do mundo, já era conduzido pelo Estado antes da pandemia.
Em algum ponto no futuro o endividamento vai novamente ter um peso político no papel do Estado expandido, mas isso não vai acontecer a curto prazo (exceto nos países que já estavam em apuros quando a pandemia começou).
Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) fez um apelo para que os governos mantivessem políticas fiscais flexíveis e chegou mesmo a propor um “imposto solidário” sobre empresas e indivíduos que ganharam na pandemia, para ajudar os mais prejudicados pela crise. Essa nova abordagem veio para ficar? Pode ser o fim do Consenso de Washington?
Não há mais Consenso de Washington, à medida que os EUA passam de uma política de “América primeiro” para uma política de “Americanos primeiro”. Europeus e americanos continuam a discordar, especialmente pós-Brexit e, em breve, pós-Merkel.
A China continua a crescer, mas não está alinhada. O FMI, por sua vez, busca assegurar que a ajuda para a recuperação econômica não seja interrompida prematuramente e que haja uma retomada, no pós-pandemia, das políticas sustentáveis.
Eles vão continuar a apoiar a taxação global e a redistribuição progressivas... mas isso não ganhará força com os principais governos.
A secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, recentemente propôs um imposto global mínimo para as empresas, de forma a acabar com o que chamou de “corrida para o fundo do poço”. O governo Biden lançou um ambicioso pacote de estímulo. Os EUA são vistos, agora, como defensores de um novo papel para o Estado. Essa mudança de postura vai durar ou, passada a pandemia, tudo voltará ao velho normal?
Vai durar por algum tempo, dada a escala da crise atual. Mas os Estados Unidos continuam a ser o país mais dividido politicamente entre as democracias avançadas, e isso foi algo que levou gerações, então vai levar um bom tempo para ser consertado. Em outras palavras, essas mudanças não ocorrerão de uma hora para outra apenas porque o governo Biden assumiu.
Os países emergentes enfrentam um dilema entre ajudar os pobres a enfrentarem a pandemia e manterem seu equilíbrio fiscal. Há alguma forma de lidar com a crescente desigualdade sem ter uma deterioração nas contas públicas?
É difícil imaginar isso. Mas se o investimento for criterioso e destravar o capital humano, pode colocar o país em uma trajetória melhor a longo prazo. Para algumas nações em desenvolvimento cujas economias têm sido mal conduzidas, essa crise vai ser realmente séria.
Olhe para Líbano, Turquia, Argentina. Mesmo países que estavam um pouco melhor, como Brasil e África do Sul, enfrentarão problemas quando as taxas de juros globais subirem...
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