CELEBREMOS: Floresta amazônica brasileira agora é EMISSORA de CARBONO devido à DEGRADAÇÃO.

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Floresta amazônica brasileira agora é emissora de carbono devido à degradação
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12 Apóstolos do Genocídio.
Quem patrocina 400.000 mortes
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Pior do que a marca de 400_mil mortos é a perspectiva de chegar aos 500_mil
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VERGONHA! FUNAI PERSEGUE SONIA GUAJAJARA
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Os “pecadilhos” da Lava Jato e a democracia no Brasil
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No Dia do TRABALHADOR, Bolsonaro diz a pecuaristas que NÃO expropriará fazendas onde houver ESCRAVIDÃO 
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Saudável e acessível:
Conheça perfis que descomplicam relação com a comida
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Bolsonaro afirma a ruralistas que governo reduziu multas ambientais para gerar 'paz e tranquilidade'
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Biden e a quinta força do universo
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TERRORISMO de ESTADO e a ditadura militar: golpe de Estado e o caso RIOCENTRO 
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1º de maio de 1981 e o atentado da extrema direita militar ao show do Riocentro
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Exército protege capitão do Riocentro há 40 anos
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O silêncio dos culpados
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Divagações sobres casas de vidro
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Floresta amazônica brasileira agora é emissora de carbono devido à degradação

Vista aérea da Amazônia após queimadas perto de Apuí, no Amazonas

Da RFI - A floresta amazônica brasileira, vítima das mudanças climáticas e das atividades humanas, expeliu nos últimos dez anos mais carbono do que absorveu, uma mudança importante e sem precedentes, de acordo com um estudo publicado esta semana.

Sem as florestas, um dos “pulmões” do planeta, que absorvem entre 25 e 30% dos gases de efeito estufa emitidos pelo homem, as mudanças climáticas seriam muito piores.

Mas, por vários anos, os cientistas têm se preocupado com a perda de vapor nas florestas tropicais e temem que possam desempenhar cada vez menos seu papel de sumidouros de carbono. E a preocupação vem principalmente da floresta amazônica, que representa metade das florestas tropicais do planeta.

O estudo, publicado na quinta-feira (29) na Nature Climate Change por uma equipe internacional, analisa a Amazônia brasileira, que representa 60% dessa floresta primária, e os resultados são sombrios.

Entre 2010 e 2019, a floresta perdeu sua biomassa: as perdas de carbono na Amazônia brasileira são cerca de 18% maiores do que os ganhos, afirmou em nota o Instituto Francês de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente (INRAE).

“É a primeira vez que temos números que mostram que mudamos e que a Amazônia brasileira é agora emissora líquida de carbono, explicou um dos autores do documento, Jean-Pierre Wigneron, pesquisador do INRAE.

Por enquanto, a priori, “os outros países estão compensando as perdas da Amazônia brasileira” e, portanto, “a Amazônia inteira ainda não mudou, mas pode mudar em breve”, continua.

“Até agora, as florestas, em particular as tropicais, nos protegiam ao possibilitar a redução do aquecimento, mas nosso último baluarte, a Amazônia, está em processo de desestruturação”, alerta o pesquisador.

Degradação da floresta

O estudo também destaca a responsabilidade não reconhecida, mas principal, pela "degradação" da floresta. Ao contrário do desmatamento que faz com que a área arborizada desapareça, a degradação inclui tudo que pode danificá-la, sem destruí-la completamente: árvores enfraquecidas na orla de áreas desmatadas, corte seletivo, pequenos incêndios, mortalidade de árvores ligada à seca. Os ataques são menos facilmente detectáveis ​​do que grandes áreas arrasadas.

Usando um índice de vegetação orindo de observações de satélite, que permite sondar toda a camada de vegetação e não apenas o topo, o estudo concluiu que essas degradações florestais contribuíram com 73% das perdas de carbono, contra 27% para o desmatamento, que é, no entanto, bastante grande.

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TJ do Rio mantém condenação de Bia Kicis por fake news contra Jean Wyllys

247 - O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou recurso apresentado pela deputada bolsonarista Bia Kicis por propagar notícias falsas contra o ex-deputado federal Jean Wyllys.

O TJ manteve a condenação de pagamento de R$ 41,8 mil como indenização por danos morais, além de ordenada a exclusão de duas postagens em redes sociais. A informação é do colunista do O Globo, Alcemo Gois.

A decisão considera que a deputada “extrapolou o seu direito ao caluniar o autor (Jean Wyllys), sem qualquer base verossímil, de ter participado da tentativa de homicídio do Presidente da República”.

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Análise: Josias de Souza - Fala de Queiroga sobre vacinas é digna de CPI

Alan Santos/PR
Imagem: Alan Santos/PR
Josias de Souza

Colunista do UOL

01/05/2021 05h48

O esforço para agradar Bolsonaro transforma Marcelo Queiroga num personagem confuso. Quarto ministro da Saúde em 14 meses de pandemia, o doutor participou como convidado especial de videoconferência da Organização Mundial da Saúde. Ao tratar de vacinas, disse uma coisa e o contrário. Soou como se desejasse fornecer material para os senadores que o interrogarão na CPI da Covid em sessão marcada para a próxima quinta-feira.

Num instante, Queiroga declarou: "Não há que falar em atraso de vacinação no Brasil. Nós começamos nossa vacinação assim que a lei assim nos permitiu." Repetiu o lero-lero segundo o qual o país "dispõe de mais de 500 milhões de doses de vacinas contratadas". E reiterou a promessa de que até o final do ano "teremos nossa população inteiramente vacinada."

Como a segurança pública pode - e deve - caminhar ao lado da democracia

Noutro momento, o doutor pronunciou algo muito parecido com uma súplica: "...Reiteramos nosso apelo àqueles [países] que possuem doses extras de vacinas para que possam compartilhá-las com o Brasil o quanto antes, de modo a nos permitir lograr avançar em nossa ampla campanha de vacinação, de modo a conter a fase crítica da pandemia e evitar a proliferação de novas linhagens e variantes do vírus."

Juntando-se os pedaços da fala do ministro, chega-se à ambiguidade e à falta de nexo. No trecho em que nega o atraso e celebra o excesso de vacinas, o orador revela que a história do combate à pandemia no Brasil seria uma coisa maravilhosa, se fosse verdadeira. Na passagem em que fala como um mendigo de vacinas, Queiroga como que reconhece que a história da vacinação no Brasil é um pesadelo do qual o brasileiro terá dificuldade para acordar.

O demônio, como se sabe, sempre esteve nos detalhes. E não costuma perder. Na versão de Bolsonaro, incorporada por Queiroga, não há atraso na vacinação porque as primeiras doses foram aplicadas em janeiro, assim que a Anvisa liberou. Conversa mole.

A vacina Oxford-AstrtaZeneca, a preferida do capitão, foi corretamente adquirida pelo governo brasileiro, via Fiocruz, antes do aval da Anvisa. O erro foi não ter diversificado as compras. Em agosto de 2020, o Ministério da Saúde refugou oferta de 70 milhões de doses da Pfizer. Em outubro, Bolsonaro mandou rasgar um compromisso de compra de 46 milhões de doses da Coronavac. Foi às compras tardiamente.

Aplicando-se o filtro da Anvisa no cronograma oficial de vacinação do Ministério da Saúde, as mais de 500 milhões de doses que o governo diz ter contratado sofrem um processo de lipoaspiração, pois a conta inclui duas vacinas que ainda ralam para obter o referendo da Anvisa: a russa Sputnik (10 milhões de doses) e a indiana Covaxin-Bharat Biotech (20 milhões).

Incluíram-se também entre as vacinas "contratadas" lotes de imunizantes ainda sem contratos assinados: 110 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca, a ser produzida na Fiocruz; e mais 30 milhões de doses da Coronavac, a ser fornecida pelo Butantan.

No universo bolsonarista, não há coisas certas ou erradas. Há coisas que são toleradas e outras que pegam mal. Enquanto o brasileiro morria de Covid, a aversão de Bolsonaro aos imunizantes foi negligenciada. No instante em que as pessoas começaram a morrer por falta de vacina, o governo foi intimado pelas circunstâncias e pelo Supremo Tribunal Federal a exibir um plano nacional de vacinação.

A despeito de toda a pregação de Bolsonaro contra a vacina, as pesquisas indicam que algo como oito em cada dez brasileiros desejam se vacinar. Daí o esforço do governo para reescrever a história do negacionismo de Bolsonaro.

Queiroga enalteceu na OMS a competência do sistema de saúde brasileiro, capaz de aplicar mais de 2 milhões de doses de vacinas por dia. Ele tem razão. O diabo é que não há vacinas. Para amansar o vírus, o Brasil precisaria vacinar entre 70% e 80% de sua população. Por ora, receberam a primeira dose 14,74% da população. Apenas 7,15% receberam a segunda dose de uma das vacinas disponíveis.

O painel Monitora Covid-19, da Fiocruz, estima que, mantido o ritmo atual, apenas em 2023 o país poderia festejar a vacinação de todos os brasileiros com mais de 18 anos. Queiroga dispõe desses dados, pois a Fiocruz pende do organograma do seu ministério. O doutor encosta o seu CRM na lenda de que a vacinação não está atrasada porque não quer que Bolsonaro apresse sua demissão.

No momento, Queiroga corre atrás de vacinas. Se não vigiar as palavras, logo pode estar correndo da CPI.

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Análise: Reinaldo Azevedo - Randolfe quer ministro da Justiça na CPI. Faz bem! Entrevista é inaceitável

Anderson Torres e Randolfe Rodrigues. Senador, vice-presidente da CPI, acerta e decide fazer requerimento convocando ministro a depor depois de entrevista em que este acena com uso político da Polícia Federal para interferir na comissão - Isaac Amorim/MJSP; Reprodução
Anderson Torres e Randolfe Rodrigues. Senador, vice-presidente da CPI, acerta e decide fazer requerimento convocando ministro a depor depois de entrevista em que este acena com uso político da Polícia Federal para interferir na comissão Imagem: Isaac Amorim/MJSP; Reprodução
Reinaldo Azevedo

Colunista do UOL

01/05/2021 08h03

O delegado Anderson Torres, um dos "amigos dos meninos", é ministro da Justiça. Assim, o troço já começa mal. Não porque delegados não possam ser ministros da Justiça, mas porque ministros a Justiça não podem se comportar como delegados que atuam fora das regras do jogo.

Ele concedeu uma entrevista à "Veja". Li. Defendi nesta sexta, no programa "O É da Coisa", que fosse convocado pela CPI da Covid. No fim da noite de ontem, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que também não gostou do que viu, afirmou, em conversa com esta coluna, que já estava redigindo o requerimento de convocação. Também a Procuradoria-Geral da República deveria se interessar pelo caso. Mas duvido.

Português dá volta ao mundo com 200 litros de vinho no barco, mas não bebe

A menos que as palavras não façam mais sentido, Torres, na condição de ministro da Justiça, deixou claro que pretende mobilizar a estrutura da Polícia Federal para interferir nos rumos da CPI. Mais: parece fazer uma ameaça nem tão velada aos governadores. Se não é o que o encadeamento de perguntas e respostas evidencia, ele, então, que se explique. E a CPI será um ótimo lugar para fazê-lo. Há outras aberrações na entrevista. Mas, neste artigo, vou me cingir a essas questões, que, entendo, ferem a institucionalidade e a ordem legal. Leiam estas perguntas e respostas.

Por que a CPI da Pandemia tem provocado tanto alvoroço no governo?
A gente tem de ter muito cuidado com os rumos que essa CPI vai tomar. O povo brasileiro é quem vai sair perdendo se houver uma CPI apenas com objetivos políticos nessa altura do campeonato, com a população sofrendo, com pessoas morrendo pela Covid. É bom ressaltar que a maioria das ações de combate à pandemia foi executada com recursos federais. Pergunto: a investigação vai se limitar ao governo federal? É preciso seguir o dinheiro.

Mas a Polícia Federal já faz isso há algum tempo, não?
Sim, sem dúvida. Há muitos casos sob investigação nos estados desde o início da pandemia. O problema é que isso não está sendo falado. Eu vou pedir esses dados à Polícia Federal, tudo o que já foi feito. Há várias operações em andamento. Isso precisa ser mostrado. As pessoas têm de tomar conhecimento disso também.

O senhor, portanto, defende a ampliação do foco da CPI, investigar também os gestores estaduais?
Defendo transparência. Houve irregularidades e desvios de dinheiro público. Tudo isso tem de ser apurado.

VAMOS VER
Quem disse que as investigações conduzidas por Ministério Público e Polícia Federal não estão sendo "faladas"? Um governador de Estado -- Wilson Witzel -- foi deposto nesta sexta-feira em razão da blitz que PGR e PF desfecharam contra governadores. A propósito: em vez de se dedicar à compra de respiradores e de kits de UTI e intubação, o governo federal preferiu estimular o pega-pra-capar nos Estados. Como sempre acontece nessas operações, quem deve e quem não deve acabam igualmente expostos.

Ora vejam... O ministro, falando como delegado "amigo dos meninos", acha ruim que se possam investigar irresponsabilidades e omissões do governo federal, mas apoia a investida contra os Estados e se dispõe a mobilizar a Polícia Federal para "mostrar as operações em andamento". Ou por outra: nada menos que o titular do Ministério da Justiça, ao qual a PF é subordinada apenas administrativa, está dizendo que a polícia que serve ao Estado atuará em benefício do governo. E com o objetivo de interferir no andamento da CPI.

Quando um ministro, que também é delegado, diz nesse contexto que "houve irregularidade e desvios de dinheiro público" e que "tudo isso tem de ser apurado", cumpre indagar: ELE ESTÁ FALANDO DE INVESTIGAÇÕES JÁ EM CURSO E, POIS, JÁ EM APURAÇÃO, OU ESTÁ ANUNCIANDO NOVAS INVESTIDAS, HIPÓTESE EM QUE TERIA SIDO PREVIAMENTE AVISADO DO QUE VEM POR AÍ? NESSE CASO, A PF ATUARIA COMO POLÍCIA POLÍTICA.

Estará o ministro da Justiça, como afirma o professor e jurista Lenio Streck, atirando a flecha para pintar o alvo depois? No seu universo mental, a acusação precede a investigação? Não espanta, assim, que teça loas à Lava Jato e a Sergio Moro. No fim das contas, são todos gatos do mesmo saco.

CRIME DE RESPONSABILIDADE
É preciso verificar se o ministro Anderson Torres não está cometendo crimes de responsabilidade, segundo define a Lei 1.079 nos seguintes artigos, com seus respectivos incisos:
Art. 6º São crimes de responsabilidade contra o livre exercício dos poderes legislativo e judiciário e dos poderes constitucionais dos Estados:
(...)
7 - praticar contra os poderes estaduais ou municipais ato definido como crime neste artigo;

8 - intervir em negócios peculiares aos Estados ou aos Municípios com desobediência às normas constitucionais.

Art. 9º São crimes de responsabilidade contra a probidade na administração:
4 - expedir ordens ou fazer requisição de forma contrária às disposições expressas da Constituição;
7 - proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo.

CRIME DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
A punição à improbidade administrativa, como se vê, é artigo da lei que define crime de responsabilidade, mas tem o seu próprio mandamento na Lei 8.429. Se a 1.079 só pode ser acionada enquanto a autoridade está no cargo, esta outra alcança os faltosos mesmo quando deixam a sua função -- uma razão a mais para Torres ser prudente.

Refresco a memória do senhor ministro com o Artigo 11:

Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, e notadamente:
I - praticar ato visando fim proibido em lei ou regulamento ou diverso daquele previsto, na regra de competência;

CUIDADO TAMBÉM COM A LEI 1.579, DELEGADO!
Anderson Torres pode não se lembrar, mas existe uma lei que trata do funcionamento regular de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. As suas respostas deixam claro que ele pretende interferir na comissão com os "dados" que ele diz que pedirá à Polícia Federal e com o que ele anuncia que "tem de ser apurado" -- quase impossível não sentir aí o cheiro da ameaça aos governadores e da disposição de interferir na CPI.

A Lei 1.579, de 1952, define:
Art. 4º. Constitui crime:
I - Impedir, ou tentar impedir, mediante violência, ameaça ou assuadas, o regular funcionamento de Comissão Parlamentar de Inquérito, ou o livre exercício das atribuições de qualquer dos seus membros
.

A propósito: também os membros da Procuradoria-Geral da República devem prestar atenção ao texto legal se, porventura, se virem na tentação de se associar a facções desvirtuadas da Polícia Federal, numa espécie de caça aos governadores, com o objetivo de desviar a CPI do seu rumo.

Torres talvez não saiba, mas CPIs não têm o poder de investigar as administrações estaduais, embora, claro!, eventuais indícios de que houve desvio de verba pública possam interessar à comissão. Mas, como reconhece o próprio delegado-ministro, a Polícia Federal e o Ministério Público já estão apurando esses casos — com o mesmo espalhafato, diga-se, que caracterizava a Lava Jato: primeiro a expiação pública e depois a devida apuração.

CONCLUO
Ainda voltarei, sim, em outro texto, à entrevista do ministro da Justiça. Há respostas lá que não podem ficar sem um confronto com os fatos. Este já se alonga.

Anderson Torres tem, sim, de depor na CPI para explicar se:
a: pretende usar a estrutura da Polícia Federal para intimidar governadores e tentar desviar a CPI do seu foco;
b: se fez uma ameaça velada aos governadores e uma espécie de anúncio prévio de futuras operações, antecipando, diga-se, um juízo condenatório.

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Pior do que a marca de 400_mil mortos é a perspectiva de chegar aos 500_mil

Josias de Souza

Colunista do UOL

29/04/2021 18h41

O estágio civilizatório de uma sociedade é o resultado da análise de tudo o que sobra para ser desenterrado na posteridade. No futuro, quando a arqueologia fizer suas escavações à procura de sinais que ajudem a entender a decadência do Brasil, encontrará em meio aos ossos dos mortos por Covid-19 evidências de que não foram apenas os erros que produziram uma tragédia sanitária no Brasil, mas o modo como o país agiu depois de cometer esses erros.

A pandemia do coronavírus é uma tragédia planetária. No Brasil, o vírus produziria cadáveres em qualquer circunstância. Mas nenhum país chega à marca de mais de 400 mil mortos por acaso. Há método na insanidade brasileira. O país parece ter feito uma opção preferencial pelo erro. Bolsonaro, porém, declarou na terça-feira, em frente ao Palácio da Alvorada: "Eu não errei em nada." Algo de muito errado acontece quando um administrador público acha que está sempre certo.

Para o presidente, a pandemia era uma "gripezinha" que estava no "finzinho". E a segunda onda não passava de "conversinha". Em função desse negacionismo, o Brasil convive com dois flagelos: a escassez de vacinas e o excesso de cloroquina. Imaginou-se que a livre circulação do vírus conduziria à imunidade coletiva. O que se verificou foi o surgimento de uma nova cepa do vírus, mais letal do que a primeira.

A despeito de tudo, Bolsonaro continua desprezando a máscara e enaltecendo a cloroquina. O presidente rejeita a ideia de se vacinar sob holofotes, para dar o exemplo. Com a sinceridade de quem não sabia que estava sendo gravado, o general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, disse ter tomado a vacina escondido, tamanho é o receio de desagradar o capitão.

Num ambiente assim, o pior não são os erros que levaram o Brasil à marca dos 400 mil mortos, mas a perspectiva de chegar aos 500 mil cadáveres sem perceber que há um remédio infalível para cada culpa: reconhecê-la.

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Le Monde: Como Bolsonaro consegue se manter no poder em meio à "carnificina humanitária"?

Em pronunciamento, Bolsonaro ignora tragédia em que o Brasil está mergulhado

247 - Artigo de Bruno Meyerfeld publicado no Le Monde apresenta a população brasileira como extremamente passiva diante dos desmandos de Jair Bolsonaro na gestão da pandemia. 

"A pergunta que não quer calar: como ele consegue se segurar? Jair Bolsonaro é certamente um homem acostumado às tempestades. Mas enquanto o Brasil, devastado pela variante P1, banido no cenário internacional, tem mais de 400.000 mortos da Covid-19 e afunda cada vez mais na carnificina humanitária, todos se perguntam sobre a surpreendente capacidade de resiliência do líder da extrema direita", escreveu.

Bruno Meyerfeld aponta as responsabilidades de Bolsonaro pelo morticínio. 

"Sua responsabilidade pelo drama em curso é, no entanto, gritante: Jair Bolsonaro negou sucessivamente a epidemia, impediu qualquer medida de contenção, recusou-se a negociar vacinas, atrasou os planos de imunização. Em qualquer outra democracia, é difícil imaginar um líder assim permanecendo no topo do estado. E, no entanto, contra todas as probabilidades, aqui está o presidente ainda firmemente ancorado no poder, desfrutando de popularidade intacta entre 25% a 30% da população e uma sólida maioria no parlamento."

O autor estranha a falta de reação dos brasileiros:

"Por um ano, nenhuma manifestação em massa veio para questionar seu governo. Ao contrário dos chilenos, argelinos, libaneses, iraquianos ou de Hong Kong, os bravos brasileiros não enfrentaram a Covid-19 para ir às ruas e gritar sua raiva, contentando-se com desfiles de carros pequenos e concertos de maconha. Protestos que parecem muito tímidos, senão insignificantes, em comparação com o colapso vertiginoso do país."

Ele ainda especula que parte do problema se deve ainda ao temor da volta das esquerda ao poder:

"As principais razões para esta situação são conhecidas: parte inabalável de popularidade entre sua base militante, crise econômica, medo do retorno da esquerda ao poder, acordo político inteligente negociado com parlamentares do centro. Mas isso não explica tudo. Porque a crise da Covid-19 atualizou um dado mais profundo e essencial, permitindo que Jair Bolsonaro permaneça no poder: o relatório da morte no Brasil."

Por fim, ele fala da imagem do Brasil como País do Carnaval: 

"No imaginário, o Brasil é um país festeiro associado ao carnaval, ao samba, ao futebol e à caipirinha, o coquetel nacional. O país sempre exportou, com vontade e com sucesso, a sua imagem de democracia mista, “terra do futuro”, de alegria de viver e de amor fácil. O Brasil, este gigante pacífico “eternamente estendido no seu berço sublime” , como até proclama o Hino Nacional."

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Saudável e acessível: Conheça perfis que descomplicam relação com a comida

Os gêmeos Eduardo e Leonardo, do perfil Vegano Periférico no Instagram - Arquivo pessoal
Os gêmeos Eduardo e Leonardo, do perfil Vegano Periférico no Instagram Imagem: Arquivo pessoal

Cléberson Santos

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

01/05/2021 06h00

Comer bem não deveria ser algo complicado. É comum as pessoas acharem que não conseguem se adaptar a uma alimentação mais saudável ou que ser vegetariano é "coisa de rico". Alguns influenciadores vão na contramão deste pensamento e ensinam seus seguidores a melhorar a relação com a comida, além de defender a ideia de comida saudável para todas as pessoas.

É o caso, por exemplo, dos irmãos gêmeos Leonardo e Eduardo Santos, mais conhecidos no Instagram como @veganoperiferico. Em seu perfil, eles mostram como é possível se alimentar sem carne e provocam reflexões sobre o impacto do consumo da proteína animal no meio ambiente. Ou da nutricionista Fernanda Imamura, que bate de frente com as dietas e promove uma "nutrição gentil e humanizada".

Ecoa selecionou alguns desses perfis para você acompanhar e começar a rever essa ideia de que alimentação saudável não é para todo mundo. Siga abaixo!

Favela Orgânica

Do alto do Morro da Babilônia, no Rio de Janeiro, a paraibana Regina Tchelly ensina o "aproveitamento integral do alimento". Por meio de cursos, oficinas, programas de TV e até grafites, ela explica formas de aproveitar partes dos alimentos que normalmente jogamos no lixo, como casca, sementes e talos.

Que tal conhecer esse pé de moleque feito com casca de banana?

João Diamante

Também do Rio de Janeiro, mas no Complexo do Andaraí, saiu João Diamante, que se especializou em gastronomia após trabalhar como ajudante de cozinha na Marinha.

Quando voltou de Paris, onde trabalhou com um renomado chef, João desenvolveu seu próprio projeto social, o Diamantes na Cozinha, onde ensina desde o cultivo até a finalização do prato.

Em seu perfil no Instagram, João compartilha seus trabalhos, viagens e também algumas receitas, como esse bolo de maçã com castanha do Pará.

Luciene Santos

Conhecida no Instagram como @sapavegana, onde soma mais de 114 mil seguidores, a estudante de direito Luciene mostra como é possível ser vegetariano mesmo sendo pobre.

Ela compartilha fotos das suas idas à feira livre e discute temas como o racismo no movimento vegano. Mas o que enche os olhos no seu feed são os seus PFs, pratos baratos e lotados de comida gostosa, como um bom almoço pede, mas sem nenhuma carne.

Vegano Periférico

Outro perfil que propaga o veganismo popular é o Vegano Periférico, criado pelos irmãos gêmeos Leonardo e Eduardo Santos, de Campinas (SP).

Assim como Luciene, eles também usam a rede social para divulgar as demandas do movimento vegano e compartilhar receitas, como essa pizza com queijo de castanha de caju e carne de jaca.

Gabi de Pretas

Conhecida pelo seu trabalho como produtora de conteúdo de beleza negra, Gabi Oliveira está com um IGTV repleto de receitas veganas em seu perfil, seguido por quase 500 mil pessoas.

A youtuber parou de comer carne há cerca de dois anos e nos últimos meses tem compartilhado receitas bem fáceis e básicas, como essa clássica berinjela empanada.

We'e'ena Tikuna

We'e'ena é artista plástica, cantora, estilista e nutricionista. Aos 30 anos e com mais de 104 mil seguidores no Instagram, foi a primeira indígena da tribo Tikuna a se formar em nutrição.

Quer saber se a alimentação indígena é saudável? We'e'na explica neste vídeo que ela produziu para o seu canal no YouTube.

Fernanda Imamura

"Nutrição gentil e humanizada, sem dietas", esse é o propósito da nutricionista Fernanda Imamura, que soma mais de 35 mil seguidores em seu Instagram.

Por lá, Fernanda se posiciona contra dietas restritivas e defende que é possível ter uma alimentação saudável sem abrir mão das delícias que você ama.

Bela Gil

Impossível não falar em alimentação saudável sem citar a Bela Gil, colunista de Ecoa e famosa pelo programa Bela Cozinha, do canal GNT.

Em seu Instagram, com mais de 1,6 milhão de seguidores, e em seu canal no YouTube, Bela expande a proposta do seu programa de trocar os alimentos industrializados pelos ingredientes naturais. Essas almôndegas de casca de banana são bons exemplos disso!

Ecoa Ciclo Alimentação - banner - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

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12 Apóstolos do Genocídio. Quem patrocina 400.000 mortes | Jornalistas Livres

Ação denuncia os grandes apoiadores do projeto genocida do governo Bolsonaro
12 Apóstolos12

12 Apóstolos do Genocídio.

Lambes espalhados pela região central da cidade revelam “12 Apóstolos do Genocídio”, denunciando grandes apoiadores do governo Bolsonaro. Os 12 Apóstolos do Genocídio não se dignam a se unir para combater a situação pandêmica que atinge a assombrosa marca dos 400 mil mortos, majoritariamente pretes, pobres e perifériques.

Ao invés disso, os 12 Apóstolos do Genocídio atendem a jantares pleiteando apoio para a reprodução de suas mercadorias “custe o que custar”, revelando a histórica indiferença das elites com as milhares de mortes evitáveis.

O trabalho busca dar nome e rosto aos apoiadores deste governo, internacionalmente conhecido como “governo genocida”. Os lambes serão espalhados pela cidade por todo o mês de maio.

Os 12 Apóstolos do Genocídio são:

André Esteves (BTG Pactual);

Claudio Lottenberg (Hospital Albert Einstein);

Alberto Saraiva (Habib’s); 

Paulo Skaf (Fiesp); 

Edir Macedo (Universal do Reino de Deus); 

Luiz Carlos Trabuco (Bradesco);

Flavio Rocha (Riachuelo); 

Tutinha Carvalho (Joven Pan); 

David Safra (Safra);

Carlos Sanches (EMS); 

Rubens Meni (CNN); 

Silas Malafaia (Assembleia de Deus)

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VERGONHA! FUNAI PERSEGUE SONIA GUAJAJARA | Jornalistas Livres

Vergonha! FUNAI a serviço de Bolsonaro persegue a líder indígena Sonia Guajajara. Órgão criado para proteger e promover os direitos dos povos indígenas agora é quem quer calar as denúncias do genocídio dos povos tradicionais na pandemia
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Compart.


O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), delegado da PF Marcelo Augusto Xavier da Silva, colocou seus colegas policiais para intimidar uma das mais importantes e reconhecidas lideranças indígenas do País, Sonia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

Por Laura Capriglione

por Helio Carlos Mello


O argumento: Sonia e a Apib teriam difamado o governo de Jair Bolsonaro na série “Maracá”, um conjunto de 8 episódios veiculados pelo Youtube no final do ano passado, com denúncias de violações de direitos cometidas contra os povos indígenas no contexto da pandemia da Covid-19.

É a primeira vez, desde sua criação em 1967, que a Funai é usada para perseguir líderes indígenas, em vez de protegê-los. “Não irão prender nossos corpos e jamais calarão nossas vozes. Seguiremos lutando pela defesa dos direitos fundamentais dos povos indígenas e pela vida”, afirmou a Apib em nota.

CURRÍCULO DE VIOLÊNCIAS

Marcelo Augusto Xavier da Silva é um sujeito violento. Segundo a BBC Brasil, ele teve de prestar dois concursos para delegado da Polícia Federal, porque foi rejeitado na avaliação psicológica do primeiro dos concursos que prestou. “Os examinadores consideraram que a personalidade de Marcelo não era adequada ao cargo, já que policiais não podem ser pessoas excessivamente agressivas ou impulsivas”.

Em janeiro de 2019, o presidente da Funai, que foi escolhido pessoalmente por Jair Bolsonaro, foi denunciado pelo próprio pai, então com 71 anos, por ter-lhe desferido um soco no rosto. O pai de Marcelo Augusto Xavier da Silva fez boletim de ocorrência na delegacia Novo São Joaquim (MT).

por Helio Carlos Mello

Pode ser pior? Pode!

Quando era policial federal, sua atuação foi contestada em duas investigações internas da corporação, em uma delas por suspeitas de estar colaborando com os intrusos de uma terra indígena.

Tanta confiança têm os inimigos dos povos indígenas na atuação de Marcelo Augusto Xavier da Silva que ele chegou a ser nomeado para trabalhar como assessor do pecuarista e secretário de assuntos fundiários do Ministério da Agricultura, Nabhan Garcia, ex-presidente da UDR, inimigo da reforma agrária e da demarcação de terras indígenas, antes da conquistar seu troféu maior: a presidência da Funai.

por Matheus Alves

Com esse histórico de vida, não é difícil entender por que a Funai pediu à PF que persiga e tente intimidar Sonia Guajajara.

Ele é um legítimo herdeiro dos genocidas bandeirantes, que seguem levando a morte, a doença e a dor às terras indígenas.

Por isso, Jornalistas Livres irmanam-se à luta de Sonia e da Apib. E exigem o fim da perseguição.

por Matheus Alves

Aproveitamos para divulgar a todos os internautas a série de vídeos que tanto incomodou a Funai.

Assista, divulgue. Não vão calar a voz da Resistência!

por Matheus Alves
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Os “pecadilhos” da Lava Jato e a democracia no Brasil | Jornalistas Livres

Não é possível falar em verdadeira democracia se não houver respeito a direitos e garantias fundamentais de todos os cidadãos. A Lava Jato, portanto, ainda tem uma tarefa para o futuro: que seja assegurado ao país que nada parecido será tolerado em repetição.
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Compart.

Tânia Maria Saraiva de Oliveira publicado originalmente no Brasil de Fato. Os “pecadilhos da Lava Jato.

O lamurioso voto do ministro Luís Roberto Barroso no julgamento do dia 22 de abril, em que o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para manter a decisão da 2ª Turma da Corte, que declarou a suspeição do ex-juiz Sergio Moro, foi, antes de tudo, lamentável.

Que o ministro fizesse um discurso político pseudomoralista(“pecadilhos”), nominando a operação Lava Jato como a grande obra de combate à corrupção no país, já era esperado. Que falasse dos valores devolvidos aos cofres públicos como motes justificadores de todos os atos praticados também estava no escopo. Afinal, essa tem sido a trajetória de suas posições dentro do STF quando se trata dos questionamentos aos métodos da investigação.

Espantosas foram as criatividades jurídicas formuladas pelo ministro, a despeito da redação expressa do art. 96, do Código de Processo Penal, da jurisprudência firmada e do regimento interno do próprio Tribunal, em uma interpretação segundo a qual a exceção de incompetência deveria ser analisada antes da suspeição, e de que cabe autonomamente ao relator decidir sobre a perda do objeto de um processo cujo julgamento estava em andamento.

Criou, ainda, um fictício conflito de competência entre o relator e a Turma, quando se sabe, sem sobra de dúvida, que aquele colegiado era o juiz natural do julgamento do HC de suspeição.

Contudo, a parte mais estarrecedora do discurso político do ministro Barroso foi a naturalização de tudo que foi e vem sendo revelado pelos áudios divulgados desde 2019, reduzindo o relacionamento estabelecido entre os integrantes do Ministério Público Federal no Paraná que faziam parte da força-tarefa da Operação Lava Jato e o juiz Moro à ocorrência de “meros pecadilhos” e “fragilidades humanas”.

Deixar de enxergar a elementar seletividade e o evidente interesse do juiz no resultado do processo foi uma opção pessoal pela miopia. A afirmação de que quando o juiz orientava procuradores sobre momentos e etapas da operação, opinava sobre as peças produzidas, indicava testemunhas e combinava resultados é um procedimento normal do sistema deveria exigir uma resposta oficial do Conselho Nacional de Justiça, porque compromete todo o Poder Judiciário.Isso é “pecadilho”?

A Lava Jato termina tristemente. Custou milhares de empregos de cidadãos com a destruição da indústria naval, tirando mais de 100 bilhões do Produto Interno Bruto. A defesa de interesses políticos, particulares e corporativos, busca de promoção pessoal, inclusive com ganhos financeiros com palestras e atividades fora da função pública afastou qualquer, porventura existente em princípio, intenção de desestimular práticas de corrupção sistêmica que afirmava existir no Brasil.

O que fica agora é a expectativa sobre os próximos passos do debate jurídico após a publicação dos acórdãos no STF. A toda evidência, a declaração de que todo o processo ocorrera de forma irregular e, portanto, ilegal, gera o dever do Estado de reparar os prejuízos materiais e morais decorrentes de comportamentos de seus agentes no exercício de suas funções, nos termos que dispõe o art. 37, § 6º, da Constituição Federal.

Sabe-se que para configurar o dever de indenizar da responsabilidade objetiva basta a presença do nexo causal ligando a conduta do agente público ao dano sofrido pela vítima, no caso o ex-presidente Lula, que permaneceu indevidamente encarcerado por 580 dias, sofrendo ofensa a um bem de valor inestimável e inalienável do indivíduo, que é a liberdade, dentre outras perdas.

Para além da questão que a ele diga respeito individualmente, contudo, mostra-se necessária a readequação da responsabilidade para fazer frente às demandas por reparação de danos no âmbito da sociedade em geral, decorrentes das consequências nefastas derivadas dos riscos secundários pelas práticas dos desvios pelos membros da operação Lava Jato. O prejuízo foi ao próprio Estado Democrático de Direito.

E não há que se falar que para isso necessita-se usar provas ilegais. A investigação sobre a atuação de agentes estrangeiros nos acordos de leniência, por exemplo, que não dependem do debate de validade de áudios obtido por hackers, sobre o que, a propósito, a Corregedora-geral do Ministério Público Federal já determinou a abertura de uma sindicância para apurar irregularidades nas tratativas mantidas para troca de informações e comprometidos.

Em nome do princípio da legalidade e das garantias democráticas, asseguradas pelo pacto constitucional de 1988, é necessário que se investiguem e se punam os atos praticados por Sérgio Moro e os membros da força-tarefa da operação Lava Jato em Curitiba. Aquilo a que o ministro Barroso chamou, em sua extensa pregação travestida de debate jurídico, de “vingança da corrupção contra quem ousou enfrentá-la”. Que, na verdade, corretamente se coloca como o dever do Estado de punir quem pratica crimes.

Não é possível falar em verdadeira democracia se não houver respeito a direitos e garantias fundamentais de todos os cidadãos. A Lava Jato, portanto, ainda tem uma tarefa para o futuro: que seja assegurado ao país que nada parecido será tolerado em repetição.e os “pecadilhos”.

Edição: Poliana Dallabrida

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No Dia do Trabalhador, Bolsonaro diz a pecuaristas que não expropriará fazendas onde houver escravidão

Bolsonaro falou a pecuaristas (reprodução)

Jair Bolsonaro aproveitou o 1o. de Maio, Dia do Trabalhador, para dar uma demonstração do lado em que ele se encontra.

Ao lado da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, ele disse que não regulamentará a emenda constitucional 92, que torna passível de exprapriação as propriedade em que for constatado o trabalho escravo.

"Nós devemos, sim, rever a emenda constitucional 81 de 2014, que tornou vulnerável a questão da propriedade privada. É uma emenda que ainda não foi regulamentada e, com toda certeza, não será regulamentada em nosso governo porque nós precisamos alterar isso que foi feito em 2014, tornando vulnerável repito a questão da propriedade privada", disse Bolsonaro durante sua participação na cerimônia de abertura da 86ª ExpoZebu, 

O deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL do Rio de Janeiro, reagiu.

"O Brasil não tem um presidente, tem um jagunço, um despachante de bandido. Bolsonaro anunciou hoje, dia 1° de Maio, que não vai regulamentar a emenda constitucional que prevê a expropriação de terras de fazendeiros que exploram trabalho escravo. É o passe-livre da escravidão”, disse.

Em seu discurso, Bolsonaro disse também que em seu governo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) deixou de "levar o terror ao campo", pois teriam perdido o repasse de Organizações não governamentais (ONGs).

"O nosso governo também poucas invasões tivemos no campo, tivemos então a perspicácia de buscar minar os recursos para o MST, acabamos com o repasse de ONGs para eles, então, eles perderam bastante força e deixaram de levar o terror ao campo", afirmou.

Segundo dados do Radar da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, em 111 dos 267 estabelecimentos fiscalizados em 2019, houve a caracterização da existência dessa prática com 1.054 pessoas resgatadas em situações desse tipo. 

O levantamento apresentado em j2021 aponta ainda que, no ano anterior, o número de denúncias aumentou, totalizando 1.213 em todo o país, enquanto em 2018 foram 1.127.

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Bolsonaro afirma a ruralistas que governo reduziu multas ambientais para gerar 'paz e tranquilidade'

Ricardo Salles, Jair Bolsonaro e tradutora

Reuters - O presidente Jair Bolsonaro afirmou, neste sábado, em fala para criadores de gado, que seu governo optou por diminuir as multas ambientais aplicadas a produtores para trazer mais “paz e tranquilidade”, e voltou a criticar movimentos sociais por causaram “terror” no campo.

“Os senhores também, no nosso governo, tiveram uma participação do Ibama e do ICMBio sem agressões. A quantidade de multa caiu bastante porque nós preferimos entrar pelo lado, primeiro, do aconselhamento, das observações. Em último caso, a questão das ‘multagens’. Isso diminuiu bastante no campo e trouxe mais paz e tranquilidade para o produtor rural”, disse Bolsonaro em uma fala para a versão virtual da Expozebu, feira organizada pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu.

A queda na quantidade de multas é criticada por ambientalistas como reflexo, na verdade, da perda de capacidade de atuação do Ibama. Desde 2019, o Brasil tem voltado a bater recordes de desmatamento ilegal. Os números mais recentes, de agosto de 2019 a julho de 2020, mostram que a Amazônia perdeu 11.088 quilômetros quadrados de floresta, maior número dos últimos 12 anos.

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Jair Bolsonaro também prometeu aos pecuaristas que não regulamentará a emenda constitucional 86, que prevê a expropriação de fazendas que explorarem o trabalho escravo.

O deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL do Rio de Janeiro, disse que o Brasil não tem presidente, mas um jagunço.

A fala de Bolsonaro acontece um dia depois de John Kerry, missionário de Joe Biden para questões ambientais, dizer que conversou com o ministro Ricardo Salles e espera que os governos do Brasil e EUA trabalhem juntos em políticas de proteção ambiental.

A manifestações simpática de Kerry ocorreu alguns dias depois da Anvisa rejeitar a Sputinik, vacina que é usada em 63 países, inclusive Argentina e México, e já foi aprovada para uso no Chile.

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"Como salvar meu casamento" _ Morre a escritora brasileira Edy Lima aos 97 anos

 247 - A escritora brasileira Edy Lima, autora de dezenas de livros inspirados no folclore brasileiro, morreu neste sábado (1º) aos 97 anos. A notícia foi divulgada pelo jornalista Florestan Fernandes Júnior. A causa da morte não foi informada. 

"O Brasil perdeu hoje uma de suas mais importantes escritoras, Edy Lima. Com mais de 50 livros publicados, ela é autora da série para crianças: 'A Vaca Voadora'. Parte de sua obra foi traduzida para o espanhol, italiano e catalão. Recebeu vários, prêmios entre eles o Jabuti", escreveu Florestan pelo Twitter. 

Edy Maria Dutra da Costa Lima nasceu em Bagé, RS, em 1924, onde passou a infância e a adolescência, e se mudou em seguida para a cidade de São Paulo. Atuou também como jornalista. É autora de peças de teatro e fez parte do seminário do Teatro de Arena de São Paulo,que montou a peça A farsa da esposa perfeita, com direção de Augusto Boal. Na televisão, destaca-se a novela Como Salvar Meu Casamento, na extinta TV Tupi.

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Brasileiros já não conseguem pagar suas contas em Miami

247 - Com a pandemia de coronavírus e a desvalorização do real, o sonho de viver nos EUA pesou no bolso de empresários brasileiros que haviam se mudado para passar temporadas prolongadas na Flórida.

Empresas de mudanças internacionais observaram aumento de 60% no fluxo de retorno ao Brasil, informa a Folha de S.Paulo.

Com as restrições impostas devido ao vírus e a alta do dólar, que valorizou quase 30% em relação ao real em 2020 —de R$ 4,014 ao fim de 2019 para R$ 5,189 no mesmo período no ano passado—, ficou caro manter o padrão de vida em regiões nobres de Miami. 

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Biden e a quinta força do universo - Valter Pomar

Por Valter Pomar

Dizem que há quatro forças fundamentais no Universo: gravidade, eletromagnetismo, força nuclear forte e força nuclear fraca.

Mas há uma quinta força, sobre a qual ainda há controvérsias.

O Plano Biden talvez tenha resolvido a questão.

Vejamos: é compreensível que os neoliberais tenham dificuldade de explicar o approach keynesiano das propostas de Biden.

Afinal, é comum que os súditos colonizados sejam duplamente mais realistas do que o rei e, por isso, acreditem que a receita do consenso de Washington seja capaz de fazer os Estados Unidos superarem sua crise interna e enfrentarem o desafio posto pela China.

Também é compreensível que a esquerda aproveite o plano Biden para reafirmar a inconsistência do neoliberalismo e para enfatizar a necessidade (aqui no Brasil) de programas maciços de investimento público.

Mas a esquerda não pode se limitar a isso, não podemos virar torcida de presidente gringo (que ontem era chamado de golpista e corrupto, e agora há quem chame de revolucionário e motivo de admiração). Afinal, há outros aspectos da questão que precisam ser observados. Por exemplo.

1/o objetivo de Biden com este programa é – palavras dele – “liderar o mundo de novo”. Ou seja: se “der certo”, teremos mais imperialismo, não menos imperialismo. E para que "dê certo", teremos imensos conflitos com China (e com Rússia e com todo o “eixo do mal”); e não menos conflitos. Portanto, existe um vínculo intenso entre a política interna e a política externa de Biden. Separar as duas, dizer que uma seria ruim e a outra seria boa, é não perceber este vínculo;

2/o objetivo de Biden não é reestruturar o capitalismo dos Estados Unidos (muito menos “revolucionar”, como disse recentemente, num arroubo de entusiasmo, a companheira Gleisi Hoffmann). Não está em curso uma redução do peso do capital financeiro, nem dos oligopólios, nem do complexo militar-industrial. Portanto, mesmo que tudo "dê certo", serão necessariamente muito limitados os efeitos do “momento Biden” sobre a desigualdade interna aos EUA e, principalmente, sobre a desigualdade entre as nações;

3/Por fim, vamos aguardar o que acontece na realidade, pois discurso por discurso, plano por plano, Obama fez muitos. Aliás, Trump também, pois cá entre nós, Biden está buscando um objetivo que também era de Trump: "Dinheiro de americanos vai ser usado para comprar produtos americanos feitos nos EUA. É assim que deve ser e como vai ser neste governo".

E esse último ponto nos remete ao seguinte: quais os efeitos que este “momento Biden” podem causar no Brasil, agora e no caso do PT voltar ao governo.

Sobre isso, está em curso um debate no interior do Partido dos Trabalhadores, onde alguns confundem 1/o que está ocorrendo nos Estados Unidos, 2/os desdobramentos externos da política interna dos EUA, 3/os impactos potenciais disso tudo na política brasileira e 4/os impactos potenciais na economia brasileira.

Acerca dos últimos dois pontos, destaco o seguinte:

1/Biden foi uma espécie de “terceira via” nos EUA, entre Trump e Bernie Sanders. E no Brasil, o mais provável é que os EUA tentem contribuir para que surja uma “terceira via” entre Bolsonaro e Lula. Claro, sempre pode acontecer deles ficarem sem alternativa. Pensando nisso, já há na esquerda quem esteja querendo disputar as atenções do império. Mas quem está pensando em fazer isso, esquece de um detalhe muito importante: o que é bom para os EUA, não é bom para o Brasil...

2/... no caso concreto, não será bom porque as medidas adotadas por Biden, se tiverem sucesso lá, não terão desdobramentos positivos aqui. Aqueles que sonham com CSN, com montadoras, com o que houve na China depois de 1978, não entenderam que o mundo mudou, que o capitalismo mudou, que os Estados Unidos mudaram e que o Brasil também mudou.

É compreensível que se queira acreditar noutra coisa. Pois, é claro, tudo seria mais fácil se pudéssemos contar com a mão amiga do império (e, quem sabe, com a mão forte dos nacionalistas das forças armadas). 

Mas, infelizmente, isso é apenas efeito da quinta força do Universo: a ilusão.

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A falta de consciência democrática foi fatal para o Brasil - Emir Sader

Por Emir Sader

Ato em defesa da democracia e contra o golpe

O momento decisivo para o golpe que rompeu com a democracia, tirou o PT do governo e introduziu governos antidemocráticos, antinacionais e antipopulares, como os do Temer e do Bolsonaro, foi quando a direita orquestrou o impeachment da Dilma, em 2015/2016 e as forças democráticas não tiveram força para sair às ruas defender a democracia e sucumbiram ao golpe da direita.

O enorme apoio de massas que os governos do PT tiveram ao longo de três mandatos se baseou, sobretudo, no sucesso das suas políticas sociais. Deslocando a prioridade do ajuste fiscal dos governos neoliberais de Collor e de FHC, os governos do Lula e da Dilma conquistaram e consolidaram grande apoio popular, que permitiu a eleição e reeleição deles em quatro eleições sucessivas, de 2002 a 2014.

Significativamente o grande bastião de apoio dos governos passou a ser o Nordeste, a região mais pobre do Brasil e que teve a mais espetacular transformação nos governos do PT. E, ao mesmo tempo, o setor de menor apoio relativo aos governos do PT foi a classe média do Sudeste e do Sul do Brasil. Que também foi beneficiada pelas políticas sociais do PT – embora, relativamente, em menor grau do que os mais necessitados, os mais pobres -, e para quem a questão democrática costuma ter um peso grande.

O caso de São Paulo é paradigmático. Estado mais populoso, com a maior população de origem nordestina do país, com as maiores desigualdades e contradições sociais do Brasil, pela extraordinária riqueza das elites e pela imensa massa de população pobre, foi inicialmente um bastião do PT, mas deixou de ser há muito tempo. A reeleição sucessiva de governadores tucanos é uma expressão disso. Mas as dificuldades para reeleger os governos municipais do PT na cidade de São Paulo – Luiza Erundina, Marta Suplicy e Fernando Haddad -, confirmam essa dificuldade de enraizamento consolidado do PT em São Paulo.

Mesmo o prestígio das políticas sociais não conquistou apoio amplo e permanente nas grandes periferias de São Paulo e das grandes metrópoles do Sudeste e do Sul do Brasil, como se poderia esperar, pelo seu sucesso em promover os direitos dos setores mais pobres da população. 

As forças democráticas, a esquerda e o PT, em particular, não desenvolveram um discurso e um trabalho de conscientização popular que demonstre como a democracia é um valor fundamental para o Brasil, que somente na democracia a maioria da população pode impor sua vontade, que foi somente porque vivíamos numa democracia, que foi possível a eleição e a reeleição dos governos do PT.  A visão da esquerda tradicional de que se trata de uma “democracia burguesa”, desvaloriza a democracia, promove uma atitude instrumental da democracia: se usa essa democracia até onde se possa, até onde ela aguente. Mas não como uma democracia que, com todas suas limitações, foi conquistada pela luta popular contra a ditadura, que é a esquerda que valoriza a democracia, que a direita governou, na maior parte do tempo, pela ditadura, que assim que conseguiu, rompeu a democracia, para tirar o PT do governo.

Se trata de uma democracia liberal  como sistema político. Por isso é indispensável refletir sobre que tipo de Estado e de democracia a esquerda quer. Qual o sistema mais democrático possível para o Brasil. Que tipo de transformações são necessárias para ampliar sempre mais a democracia e contornar seus aspectos não democráticos.

A falta dessa consciência democrática no povo permitiu que a direita articulasse a derrubada da Dilma baseada em argumentos falaciosos, não democráticos, que não deveriam permitir, de forma alguma, o impeachment de um presidente. Não havia consciência democrática para mobilizar o povo para defender a democracia, mais além de se estivesse de acordo ou não com o governo da Dilma. Era um governo reeleito democraticamente pelo povo. A direita tratou de fazer uma espécie de referendo sobre a aprovação ou não do governo a condição de sobrevivência do governo. E impôs o impeachment como se um governo, eventualmente não aprovado nos primeiros meses do novo mandato, pudesse ser derrubado.

É certo que as próprias condições da reeleição da Dilma eram um forte chamado de atenção da perda de apoio popular dos governos do PT. Aécio ganhou no Sudeste e no Sul com mais de 2/3 dos votos.  Dilma conseguiu se reeleger, em grande medida, porque teve mais de 70% dos votos do Nordeste. E triunfou por uma pequena margem de votos, apesar de ter feito um governo muito bom do ponto de vista das políticas sociais e de ter terminado seu mandato com o Brasil tendo, pela primeira vez na sua história, pleno emprego. 

O PT deu por estabelecido que, ganhas as eleições, teria condições de governar por pelo menos mais quatro anos, demonstrando não estar consciente do processo golpista que se armava no país já ao longo do primeiro mandato da Dilma e da crise do sistema político, promovido pelas campanhas contra a política e pela desqualificação do PT como vinculado à corrupção . Não compreendeu o que acontecia e porque se davam  as mobilizações golpistas diretas em 2015 e 2016 e porque elas tinham repercussão em setores significativos da população. E não teve assim capacidade de agir, de organizar forças políticas de defesa da democracia, acompanhadas de mobilizações populares, que pudesse neutralizar e derrotar o golpe que se articulava.

É certo que em 1964, mesmo com grandes mobilizações populares de defesa do governo Jango e da democracia (pesquisas só reveladas muito posteriormente mostravam o apoio majoritário que tinha o governo Jango) não foram suficientes para evitar o golpe. Mas aquele era um golpe articulado durante uma década e meia e que contava com o apoio ativo das FFAA, que finalmente tomaram o governo e governaram durante mais de duas décadas.

Agora era uma articulação muito mais débil, que poderia ter sido derrotada. A responsabilidade não é apenas dos governos do PT e do PT como partido, mas do conjunto do campo popular, incluindo os movimentos sociais, que também concentraram as políticas  de consciência popular nas conquistas sociais, sem combiná-las com a consciência democrática indispensável. A esquerda era acusada de não valorizar a democracia, de se valer dela para realizar seus objetivos. Quando perdeu a democracia, com o golpe e a ditadura militar, passou a valorizá-la. Mas sem compreender o tipo de Estado que saiu do processo de redemocratização, seu potencial e seus limites.

Nunca esteve na plataforma fundamental do campo popular o tema de “democratizar a democracia”. Na Bolívia, no Equador e na Venezuela, foram convocadas Assembleias Constituintes, que democratizaram os Estados, mudaram o seu caráter, como condição para os governos antineoliberais e democráticos que aqueles países passaram a ter. 

É preciso incorporar a ideia de que o Estado é determinado por uma determinada correlação de forças, que ele é um espaço de disputa entre as forças democráticas e as antidemocráticas, entre a esfera mercantil e a esfera pública. Que o Estado atual tem uma estrutura forte antidemocrática, da qual fazem parte as FFAA, as polícias, o Judiciário, a forma de representação política.

Que, portanto, é tarefa prioritária da esquerda e de todas as forças democráticas, do PT em primeiro lugar, refletir sobre a natureza do Estado que temos, fazer balanço do que passou com esse Estado desde a redemocratização – com os governos neoliberais, com os governos do PT, com os governos de restauração antidemocrática – para definir as questões democráticas fundamentais que é preciso enfrentar. Tanto desenvolver um trabalho de consciência popular sobre a importância da democracia, como definir os limites do Estado atual e como se podem restabelecer o potencial democráticoa que permitiu os governos do PT e, provavelmente, apontar para a necessidade de uma Assembleia Constituinte, que redefina a natureza do Estado, democratizando a democracia, definindo mecanismos que bloqueiem os processos de militarização do Estado, que promovam a democratização os meios de comunicação e do Judiciário,que estabeleçam, de forma institucional, mecanismos de participação popular no Estado, que redefinam as formas de eleição dos parlamentares, que estabeleçam mecanismos de referendos revogatórios, pelos quais o povo possa revogar um governo que não responde pelas propostas pelas quais foi eleito, mediante um referendo – entre tantas outras questões.

Em suma, é indispensável resgatar a política e o Estado como questões centrais do Brasil hoje. Só com esse resgate será possível restabelecer e consolidar a democracia no país. A  consciência democrática enraizada na consciência popular é condição indispensável da construção de um país menos desigual, menos injusto, mais solidário, de um Brasil emancipado e soberano.

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Terrorismo de Estado e a ditadura militar: golpe de Estado e o caso Riocentro - Roberto Bueno

Por Roberto Bueno

A ditadura militar brasileira derivada do golpe de Estado de 1964 foi articulada com o alto empresariado nacional, com a grande mídia nacional e setores controlados do Poder Judiciário, todos ancorados pelo poderio do imperialismo norte-americano, disposto a financiar a violência contra a democracia brasileira encarnada no regime progressista de João Goulart. Esta associação para o golpe de Estado logo desembocou no derramamento de sangue de cidadãos brasileiros por parte dos militares e também por gente próxima ao regime distribuída em diversos setores da administração pública e, embora em menor escala, até mesmo de algumas instituições privadas. Dentre elas, o papel de algumas empresas foi sendo desvelado ao longo do tempo, como o caso da fabricante de automóveis Volkswagen, assim como a já mais conhecida participação da empresa jornalística da família Frias, por intermédio de seus veículos impressos, a Folha de São Paulo e a Folha da Manhã, cujos automóveis foram úteis ao regime em ações de inteligência e repressão, assim como os da empresa Ultragás, que sob a presidência do ignóbil Henning A. Boilesen (reconhecido como “plateia” em sessões de tortura) instrumentalizava veículos de transporte de gás da empresa para a fiscalização de pontos específicos de interesse da repressão. 

As ações de violência durante o regime militar não deixaram de contar com o apoio do grande capital ou, na melhor das hipóteses, com o seu silêncio obsequioso, nada envergonhado, enquanto continuava a drenar volumosas quantias para os seus cofres. O poder civil compactuou com o terrorismo de Estado conduzido pelas mãos militares, prática comum sustentada no apoio do sistema de inteligência do regime, não sem o acobertamento indispensável para obter sustentação na opinião pública. Um dos mais graves casos de violência inscritos na história do Brasil pelos militares foi o caso das bombas que os militares planejaram detonar no Riocentro na noite de 30 de abril de 2021, potencialmente causadoras de milhares de mortes, sobretudo quando somada às outras medidas as para disseminar pânico no vultoso público que assistia show musical multitudinário no grande palco montado no Riocentro.  

O atentado do Riocentro se insere em contexto de desprezo nutrido pela ditadura militar brasileira não apenas pela vida humana, mas pela massa dos cidadãos que paga o soldo de cada um de seus membros. Este fato histórico a que dedicamos espaço merece ganhar a cada ano renovada atenção e destaque, de sorte que as novas gerações possam acumular conhecimento sobre o real significado da história de intervenções política golpista das Forças Armadas brasileiras na vida nacional que se atribuem papel tutelador da soberania civil. As suas consequências têm sido horrendas para o país, e em 1964 mergulharam-no em terrível e sombria noite, impondo pesadelo que durou décadas, e outras ainda para recuperar-se do grave prejuízo humano, político e econômico para, logo após, mais recentemente, quando medianamente cicatrizadas as feridas, voltar a atacar a pátria, ao tornarem-se fiadoras do golpe de Estado de 2016 e, passo seguinte, através do método de aproximações sucessivas, assumir o poder diretamente em 2018 realizando eleições com triunfo assegurado em ambiente controlado (instâncias eleitorais e exclusão de concorrentes favoritos) e manipulação do processo através de estratégias de propaganda com forte financiamento subterrâneo no país e fora dele.  

O mundo político brasileiro comprometido com valores democráticos descuidou de sua tarefa de defesa institucional por intermédio da mobilização popular, abrindo brechas para que os ânimos homicidas do Riocentro pudessem voltar à tona, para que os vetustos herdeiros da ânsia de torturar e exterminar o povo brasileiro assumissem o poder, desta feita dando azo ao desejo de matar sob a potencialização do temível vírus gerador da pandemia mundial. É preciso recordar esta tétrica passagem histórica sobretudo para os mais jovens, especialmente quando as instituições não assumem publicamente as suas culpas e nem expõem os crimes cometidos, pois é imperativo não esquecer o significado do governo das armas, no qual a liberdade é miragem, a vida sob censura uma tensão diária, assim como o desatino e o roubo da esperança são a regra, enquanto, em paralelo, a tortura vai sendo constituída como pesadelo útil para o poder atemorizar os defensores da democracia e da ordem constitucional. 

O terror tão típico das mentes assassinas que habitam o núcleo duro das ditaduras de toda sorte de composição é assaz atraente para perversos dispostos a comissão de toda sorte de brutalidades. Quando corriam os dias da distensão política e, portanto, já entrado o Governo do General João Figueiredo (1979-1985), teve lugar o fato criminoso organizado por forças militares e da inteligência conhecido como atentado do Riocentro. O atentado do Riocentro foi planejado para ser executado na noite do dia 30 de abril de 1981, entrada a madrugada, enquanto estava sendo comemorado do dia do trabalhador com um grande show musical ao qual acudiram milhares de pessoas no Riocentro, em ampla área destinada ao estacionamento de veículos em Jacarepaguá (RJ). Estavam presentes eminentes artistas populares da MPB da época, tais como Gal Costa e Chico Buarque, Gonzaguinha e Alceu Valença. Era o cenário para uma noite de congraçamento popular em tempos todavia muito difíceis sob o regime militar, dias em que a impaciência e a insatisfação política com o militarismo eram flagrantes, após seus tantos insucessos e reiteradas violências. Potencialmente, naquele espaço poderiam ocorrer demonstrações públicas de hostilidades ao regime militar de Figueiredo, personagem que ganhou as manchetes do período ao declarar sua preferência pelo cheiro dos cavalos ao do povo, sentimento este que, aliás, sem qualquer segredo, é compartilhado por proeminentes personalidades do atual governo brasileiro, como é o caso do Ministro Paulo Guedes. 

O planejamento do atentado do Riocentro envolvia a detonação de bomba para que atingisse a multidão e não apenas causasse susto. Estava em causa, verdadeiramente, a prática de ato criminoso organizado pelo regime militar brasileiro visando expor a situação de morte um número imprevisível de pessoas com o objetivo de, atribuindo a responsabilidade às forças de resistência antiditadura de esquerda, criar condições políticas que viabilizassem condições para angariar apoio popular para o fechamento do regime, já bastante decadente. Era este o segundo momento do desenvolvimento do plano, acusar tais “grupos de terroristas”, que teriam o objetivo seria desestabilizar o Governo militar, argumento que, pensavam as autoridades, persuadiria a população a apoiar o aumento da repressão e, por conseguinte, dar um passo atrás na abertura “lenta, gradual e segura” anunciada ainda pelo ditador Ernesto Geisel (1974-1979) e confirmada por seu sucessor João Figueiredo (1979-1985).  

O plano do atentado do Riocentro era criminoso, típico de delinquentes, que não deixam de sê-lo por estarem revestidos de autoridade pública. Sob farda ou não, o crime é imputável pelo fato de transgredir as normas de direito, cujo abuso foi flagrante à época mesmo quando os próprios transgressores também detivessem as chaves para a criação do ordenamento jurídico em sua íntegra, sob medida, conforme os seus interesses. Macabro era o plano, e a ideia-base era pavimentar com sangue humano a trilha das condições políticas para instaurar clima de pânico entre a população para criar o clima para perpetrar-se no poder, dando já mostras de que o seu treinamento para matar gente não encontraria fronteira ou limites quando o objetivo visado impusesse o assassinato dos contribuintes e cidadãos que pagam o soldo e vencimentos dos que traem a missão de servir o público.  

Rigorosamente, o grupo daqueles que desde então foram conhecidos militares “linha-dura” formaram um coletivo que deu sobradas mostras de disposição para utilizar absolutamente quaisquer métodos e praticar quaisquer crimes, contanto que o poder fosse assegurado em suas mãos. Não havia fronteiras de dor e sangue que lhes servisse de limite, afinal, décadas após, diria um político atual que na época não passava de militar mal avaliado – até mesmo pelo comandante do extermínio na época, a quem o classificava como “mal militar” – que o seu treinamento era para “matar pessoas”. Hoje em posição proeminente na República, o tal militar de baixa patente contém em seu prontuário a baixa do Exército por planejar explodir quartéis inteiros com seus companheiros de farda dentro, mas também omissão de que o seu treinamento para matar gente não envolveu diferenciar entre inimigo externo e os cidadãos nacionais. Ao que parece, os nacionais são merecedores do mesmo tratamento homicida segundo a doutrina de segurança nacional, cujos desdobramentos transforma exércitos inteiros em genuínas guardas pretorianas do império capitalista norte-americano em cada país sul-americano. 

Os militares da “linha-dura” viram frustrar o atentado do Riocentro devido a explosão acidental do artefato em face de má manipulação do agente encarregado da operação, momentos antes de levar a bomba para o local previsto para detonação. A dupla de terroristas militares a mando do Estado chegou ao Riocentro às 20h58m, e pouco após, quando das 21h20m, quando a jovem Elba Ramalho ocupava as atenções no palco, a bomba explodiu ainda dentro do veículo Puma em que os militares ultimavam os detalhes. A explosão vitimou instantaneamente o Sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, deixando semidestroçado o corpo do agente do DOI dentro do veículo Puma, placas OT-0279, em que estava sentado na posição de passageiro, enquanto o Capitão Wilson Luiz Chaves Machado que estava ao volante conseguiu sair do veículo com ferimentos gravíssimos à vista nua, tendo sido Andréa Neves da Cunha, conhecida irmã de Aécio Neves, quem veio a encontrá-lo e prestar primeira atenção a vítima levando-o ao hospital, onde os cuidados possibilitaram que sobrevivesse. 

Nos momentos seguintes ao atentado a grande imprensa empreendeu a difícil tarefa de tergiversar e ocultar os verdadeiros responsáveis pelo atentado, nenhum deles desarticulado com o regime militar. Não apenas aqueles militares estiveram relacionados ao caso, e na sequência outros nomes começaram a surgir. Além daquela bomba que explodiu no colo do Sargento Rosário, ainda outra estava prevista para explodir na casa de força do Riocentro, mas que, por mau cálculo, não teve carga suficiente para afetar a iluminação do ambiente festivo e, assim, obstar as condições de continuidade do show. Tal explosão ocorreu sem que o público tivesse notícia do sucedido, até que o cantor Gonzaguinha informou o fato, prestando contas de que antidemocratas haviam jogado bombas para amedrontar o público, circunstância que, mesmo sem mencionar nomes, todos já sabiam quem eram os responsáveis. Começavam ali dias bastante difíceis para o regime militar, pois quando o organismo do Estado se move e organiza para exterminar o seu próprio povo isto nada mais indica que a sua falência já ocorreu, seus dias já estão contados, e o rumo para o seu desfecho é inexorável, sendo o banco dos réus o destino provável para os organizadores de mortes e assassinatos. 

Abertas as investigações do caso Riocentro, e mesmo dispondo de todas as evidências e provas, o Coronel Job Lorena de Sant'Anna entregou relatório cujo eixo era manter a versão do DOI-CODI, que excluía os militares de qualquer envolvimento na ação, optando pela versão de que o Sargento Rosário e o Capitão Machado teriam sido vítimas de “subversivos”. O caso Riocentro seria reaberto tão somente quando era avançado o ano de 1999, portanto, longos 18 anos depois, pelas mãos da Procuradora da República Gilda Berer, tendo sido aberto um novo IPM (Inquérito Policial Militar) sob a presidência do General Sérgio Conforto, que desta vez foi concludente pela responsabilização do falecido Sargento Rosário. Nesta nova etapa de investigações sob o General Conforto, foi confirmado o envolvimento não apenas do Capitão Machado mas também do nome do General Newton Cruz, então Chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações, criado pela lei nº 4.341 em 13 de junho de 1964), assim como do conhecido Freddie Perdigão (posteriormente também apareceria envolvido na morte de Zuzu Angel além de ter seu nome citado pela conexão com a horrenda “Casa de Petrópolis” pelo assassinado “Doutor Pablo”, codinome do Coronel Paulo Malhães), então Chefe da Agência do SNI no Rio de Janeiro, envolvido em diversos casos nebulosos durante a ditadura militar, além de ter sido identificado por muitas vítimas e companheiros como um bárbaro torturador muito atuante nos porões da ditadura sob codinomes como “dr. Nabig” ou “dr. Pereira”, a quem foram atribuídos diversos crimes. 

Sob todos os ângulos de análise, o Riocentro foi ato terrorista planejado nos gabinetes militares e das autoridades da área de segurança do Estado, e série de evidências se somaram para sustentar esta hipótese, depois plenamente confirmada com a superação do regime militar e daqueles que ocupavam postos-chave e impediam a devida responsabilização dos culpados. Os indícios e provas eram múltiplos, a exemplo de que o veículo Puma tinha placas falsas, e dentro dele havia ainda outra bomba (que não detonou), ademais de granadas, algo inexplicável para quem comparece a um show musical com grande afluxo de pessoas, conjunto de fatos que se pretenderia explicar pela fantasiosa criação de que os militares teriam sido vitimados por militantes de esquerda. 

Além deste conjunto de elementos, havia a informação casualmente registrada por garçons durante o dia em um restaurante que suspeitaram da reunião de um grupo de homens armados lendo um mapa. Chamada ao local, a polícia identificou os presentes como agentes do DOI e militares do CIEX (Centro de Informações do Exército). Havia planejamento e método, e a provocação de mortes e assassinatos pelo regime não era casual, senão projeto. Entre as providências para a boa e segura execução do plano, estava a substituição do chefe da segurança do Riocentro precisamente naquele dia de realização do evento, mas também do policiamento, que tinha sido conveniente desativado, algo inexplicável justo em noite de alto afluxo de pessoas, algo que, ordinariamente, demanda aumento de policiamento e não o seu completo cancelamento, exceto se os planos não envolvessem a segurança do público. Era este o caso do regime que não se organizava para proteger e salvar vidas, mas para exterminá-las. 

O caso Riocentro foi típico do terrorismo de Estado, planejado pelos militares da conhecida linha-dura do regime ditatorial brasileiro da qual o atual Presidente do Brasil e o seu grupo fardado mais próximo é saudosista. O propósito final da ação violenta daquele grupo era corroer e finalmente impedir o processo de “abertura lenta, gradual e segura” que havia sido anunciado pelo General Ernesto Geisel como norte político para a sua administração, muito embora logo fosse perceptível tratar-se apenas de estratégia política para assegurar as bases autoritárias do regime sem que a ala radical ganhasse mais espaços no poder. O caso Riocentro foi a gota d´água que impôs limitação às ações terroristas da ditadura militar, pois em face da configuração da opinião pública, qualquer outro movimento identificável de violência terrorista dos militares teria sido fatal e certamente abreviado o regime. 

Era assim neutralizada uma das armas mais sujas do poder ditatorial militar para a disputa política, ou seja, o Estado dispor de seus órgãos e recursos humanos para assassinar os seus cidadãos. O terrorismo de Estado pode ganhar diversas formas e faces, todas elas horrendas como as de seus capitães. Este deve ser sempre o objeto de primeiro combate por parte das forças democrático-populares, pois quando segmentos sociais reagem contra o arbítrio e a força crua do Estado, logo, é possível impor insuportáveis custos políticos à covardia transformada em poder sob as vestes do manto jurídico da legalidade mal composta traduzida no massacre de cidadãos. É este modelo de Estado, terrorista e torturador, que Bolsonaro e o séquito de militares de duvidosa formação intelectual e compromisso com a legalidade constitucional vem comemorando incessantemente a cada fatídico dia 31 de março de 2019, data marcada pela lembrança de torturas indescritíveis, ignomínia de toda sorte e sangue sendo jorrado de vítimas da covardia cuja comissão mesmo os mais sombrios humanos duvidariam. A democracia brasileira já perdeu quando ouvimos a primeira manifestação de torturadores e todos os que subverteram a ordem constitucional de 1964 sem que lhes fosse imposta qualquer punição, mas o campo para reação visando sua reconstrução permanece aberto.

A dança sombria e funesta à beira do abismo não deu ainda seu passo conclusivo e, enquanto o ébrio e genocida dançarino não é contido, resolve ele arriscar seu derradeiro passo tentando um duplo twist, armado, de previsível desfecho, insistindo no convite à morte e ao extermínio da população, com a mesma ansiedade tanatológica que moveu os organizadores do Riocentro. O genocida e sua missão não encontra ponto de contenção, senão quando é travado por forças superiores. O ânimo genocida esteve sempre residiu em potencial nas ações do conjunto de personalidades que elogiam o ódio à vida e o desejo do extermínio e pautam a conjugação de ambos como guia para as suas opções políticas. 

Neste final de mês de abril de 2021 quando testemunhamos mais de 401 mil mortos e o altíssimo risco às vidas de outras dezenas de milhares de brasileiros, número que pode facilmente alcançar a casa da ceifa de centenas de milhares de vidas, até aqui tão somente foi explicitado o compromisso com a promoção da morte como forma política que habita mentes que aliam o desprezo pela população brasileira a ocultos interesses econômicos cobertos pela bandeira imperial. Como naquela sombria quadra histórica da ditadura militar de 1964, desde o Planalto Central emanam sinais de morte e extermínio que não serão contidos senão sob força contrária de que apenas o povo dispõe. Tristes os criminosos que traem a pátria e pavimentam seus interesses particulares com o sangue de centenas de milhares sob a expectativa de que a impunidade lhes fará do futuro um lugar de regozijo. 

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1º de maio de 1981 e o atentado da extrema direita militar ao show do Riocentro - Milton Alves

Por Milton Alves

Hoje, 30 de abril, faz 40 anos do atentado organizado por militares de extrema direita – integrantes do Doi-Codi – contra o show do 1º de maio, que acontecia no Centro de Convenções do Riocentro, na Barra da Tijuca. O espetáculo organizado por artistas, sindicatos, personalidade de esquerda e pelo Centro Brasil Democrático – entidade com influência do antigo PCB [Partido Comunista Brasileiro], reunia mais de 15 mil pessoas.

O evento contava com apoio e a participação da nata da Música Popular Brasileira, astros como Chico Buarque, Gal Costa, Clara Nunes, João Bosco, Alceu Valença, Simone, Fagner, Djavan, Elba Ramalho, Joana e grupos de grande sucesso na época como o MPB-4, a Cor do Som e as Frenéticas, entre outros.

Naquela fatídica noite, por volta de 21 horas, um automóvel Puma foi plantado no estacionamento do Riocentro. Dentro do veículo estavam o sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, de 35 anos, – agente “Wagner”do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna – conhecido pela sigla de Doi-Codi no organograma do Exército Brasileiro -, e o capitão Wilson Luís Chaves Machado, de 33 anos.

O pavoroso atentado, que poderia provocar a morte de milhares de pessoas, fracassou: As bombas que deveriam explodir na casa de força e no estacionamento do Riocentro não foram acionadas. Antes do tempo, dentro do Puma, uma bomba explodiu no colo do sargento do Rosário, que morreu no ato. O capitão Wilson acabou gravemente ferido, ficando com as vísceras expostas, em estado grave.

Anos depois, veio a público a informação de que, dentro do pavilhão, dez dos 14 portões estavam fechados, o que impediria a saída das pessoas, caso uma bomba explodisse lá dentro. Também havia sido programada uma explosão no setor de energia elétrica, para deixar o Riocentro às escuras, segundo apuração conduzida pelo jornal O Globo.

O plano macabro dos militares contava com quatro equipes de agentes do órgãos de repressão. Ao todo, estavam envolvidos quinze militares distribuídos em seis carros. A primeira equipe foi justamente a que falhou e deveria instalar três bombas no pavilhão. A segunda equipe, responsável por explodir a estação de eletricidade, também falhou, pois a bomba errou o alvo e não possuía força suficiente para gerar o dano desejado. A terceira e a quarta equipe estavam fora do pavilhão e seriam responsáveis por forjar evidências de que militantes de esquerda teriam sido os responsáveis pelas explosões. Para isso, prenderiam pessoas aleatoriamente e picharam muros da redondeza com a sigla do extinto grupo de guerrilha urbana VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Panfletos da suposta VPR foram jogados nas imediações do Riocentro. Também enviaram notas aos jornais assumindo a autoria do atentado em nome do “Comando Delta”, organização de fachada criada pelo Doi-Codi

O atentado contou com o suporte político e operacional do general Newton Cruz, que foi chefe do Serviço Nacional de Informação [SNI], e do coronel Nilton de Albuquerque Cerqueira, então secretário de Segurança no Rio de Janeiro, que afastou horas antes a PM do local.

A ação terrorista foi uma das últimas tentativas da extrema direita militar de brecar o processo de abertura em curso e intimidar a esquerda. Ao longo daquele ano, ainda ocorreram atentados contra sedes de entidades democráticas, contra sedes de jornais de esquerda e banca de jornais.

O Exército encobriu o crime e fez uma apuração fantasiosa e farsesca do caso. O capitão Wilson foi promovido e protegido pela hierarquia militar, tornando-se “professor” de História num colégio militar em Brasília.

A lembrança do atentado nos remete, inevitavelmente, para o papel desempenhado hoje pelos militares no governo da extrema direita de Jair Bolsonaro, são os herdeiros do porão fascista que apoiam e participam do mesmo. O bolsonarismo é uma herança nefasta da ditadura militar, mais especificamente do porão, da linhagem de assassinos e psicopatas como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, referência de militar do genocida que ocupa o cargo de presidente da República.

Ditadura nunca mais! Bolsonaro, nenhum dia a mais!

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Exército protege capitão do Riocentro há 40 anos - Alex Solnik

Por Alex Solnik

Por Alex Solnik, do Jornalistas pela Democracia

Naquela quinta-feira, 30 de abril de 1981, o capitão Wilson Luiz Chaves Machado, 33, como fazia todas as manhãs, desceu do apartamento número 503 do Edifício Pierre, situado à rua Visconde de Itamaraty 167, no bairro da Tijuca, onde morava com a mulher e a filha, para comprar leite e pão na Confeitaria Flor da Tijuca, situada a poucos metros dali.

Na banca de jornal da Major Ávila esquina com a avenida Maracanã, outra parada habitual, comprou o Jornal dos Sports para saber notícias do Fluminense, seu time do coração.

“Gente fina” e “comunicativo”: era descrito assim na vizinhança.

Depois do café em família, partiu, em seu Puma marrom metálico placa OP 0297, para o local de trabalho, à rua Barão de Mesquita, no mesmo bairro.

Ao cruzar o portão do I Batalhão de Polícia do Exército, e adentrar o Destacamento de Operações e Informações do Centro de Operações de Defesa Interna do I Exército, o DOI-Codi, sua identidade mudou. Ele virou “Dr. Marcos”.

A Lei da Anistia fora assinada dois anos antes, mas aquele porão clandestino do estado brasileiro ainda funcionava. E ali, por razões óbvias, todos usavam codinomes e assumiam outras identidades. O que acontecia ali, morria ali.

De capitão para cima, os codinomes eram sempre precedidos de “doutor”; de capitão para baixo, o prenome mudava para “agente”. Cada macaco no seu galho. Um manda, outro obedece.

Não era, porém, o mesmo DOI-Codi de antigamente, aquele de quando, ao entrar, ele ouvia os gritos desesperados de quem era submetido às torturas e de quem as comandava e os xadrezes viviam superlotados.

Agora imperava o silêncio. Graças à lei assinada pelo presidente Figueiredo, tão odiada por ele e seus comparsas, eles não podiam mais nem prender nem torturar ninguém. As celas estavam tão vazias quanto seus bolsos.

No tempo das vacas gordas, empresários agradecidos sabiam recompensá-los a cada vez que prendiam ou matavam perigosos comunistas que tentavam implantar o regime castrista entre nós, como gostavam de mostrar aos incautos. Tudo balela, tudo fantasia, mas havia quem acreditasse em bruxas.

Nem o “dr. Marcos” nem seus colegas – civis e militares – jamais engoliram essa punhalada nas costas, que partira logo de um ex-chefe da comunidade de informações, da qual também faziam parte. E que só chegou à presidência da República exatamente por ter sido chefe do SNI.

Menos mal que de tédio ele não podia se queixar. Por intermédio de um vizinho de bairro, o Coronel Freddie Perdigão, o “Dr. Flávio”, engajara-se num grupo de contestadores da abertura política engendrada pelo ex-presidente Geisel e adotada por Figueiredo.

Encontrava-se com ele, que já dera expediente no DOI-Codi de São Paulo e depois no SNI, o qual integrava por essa época, num bom restaurante do bairro, o “Garota da Tijuca”, situado à Praça Varnhagem, 5, especializado em carnes de todo tipo, para todos os gostos e acompanhamentos e iguarias apetitosas.

Entre camarões grelhados e generosas porções de bolinhos de bacalhau, o “Dr. Flávio” passava instruções ao “Dr. Marcos” a respeito de como, com quem, quando e contra quem deveria agir. Claro, o “Dr. Flávio” não fazia nada sozinho: em outro point gastronômico do Rio, o festejado “Angu do Gomes”, o rei do ensopado de miúdos, na zona portuária, à rua Sacadura Cabral, 75, discutia com outros militares graduados, tais como os coronéis Ary Pereira de Carvalho, chefe da Agência Rio do SNI e Nilton Cerqueira, comandante da PM, os planos que o “Dr. Marcos” e outros deveriam executar, em noitadas que, não raras vezes, terminavam, como boêmios que eram, no bordel ao lado, com anonimato garantido pelo dono da espelunca, o agente da Polícia Federal Augusto Pinto Moreira, irmão do dono do restaurante, Basílio Pinto Moreira. Tudo em família.

Num regabofe no “Garota da Tijuca” o “Dr. Flávio” comunicou ao “Dr. Marcos” que ele participaria da “Missão no. 115” ao lado do sargento Guilherme do Rosário, o “Agente Wagner”, também conhecido por “Robot”, tal como o “Dr. Marcos” era também chamado de “Patinho” e também muito ligado ao “Dr. Flávio”.

O “Dr. Marcos” sabia que os mais de 40 atentados a bomba entre 1979 e aquele dia, praticados em todo o Brasil, dos mais célebres aos mais banais tinham as digitais do “Grupo Secreto”, como viria a ser chamado pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, em 2014, o bando incrustado no estado brasileiro no qual atuava: “uma das mais ousadas organizações criminosas já vistas na história do Brasil”.

“Praticaram atos de terrorismo de estado” escreveram os procuradores Antônio do Passo Cabral, Sérgio Gardenghi, Ana Cláudia de Sales Alencar, Tatiana Pollo Flores, Marlon Alberto Weichert e Andry Borges de Mendonça na denúncia de 13d de fevereiro de 2014.

Atuavam no grupo, dentre outros, o Coronel Alberto Carlos Costa Fortunato, o Coronel Luiz Helvécio da Silva Leite, o Delegado Cláudio Antônio Guerra, o general Edson Sá Rocha (“Dr. Silvio”), o Coronel Freddie Perdigão (“Dr. Flávio”), o Coronel Romeu Antônio Ferreira (“Dr. Fábio”), o civil Hilário José Corrales, marceneiro e expert em bombas, além de autoridades do primeiro escalão do governo que controlavam tudo à distância, tais como o general Otávio Medeiros, ministro-chefe do SNI (que só não foi denunciado pelo Ministério Público em 2014 porque já estava morto) e o general Newton Cruz, chefe da Agência Central do SNI (ele sim denunciado por vários crimes).

Mas a destruição de bancas de jornais, a bomba na ABI, o artefato no carro do jornalista Hélio Fernandes, alguns atentados com vítimas, outros apenas com danos materiais, nenhum desses podia ser comparado ao que ele iria perpetrar naquele 30 de abril de 1981, durante o Show de Primeiro de Maio, no centro de convenções do Riocentro, com a nata dos cantores e cantoras brasileiros no palco, de Chico Buarque a Luiz Gonzaga.

O plano fora apresentado, um ano antes, pelo general Edson Sá Rocha, o “Dr. Silvio”, chefe de operações do DOI-Codi, mas seu superior, o Coronel Romeu Antônio Pereira, o “Dr. Fábio”, chefe da Central de Operações de Informações do DOI-Codi o proibiu de levá-lo adiante. E somente foi liberado para execução quando assumiu o novo chefe geral do DOI-Codi do Rio de Janeiro, o Tenente-Coronel Júlio Miguel Molinas Dias, o “Dr. Fernando”, no início de 1981.

Às 18h40 daquela quinta-feira, cinco veículos com três homens em cada um deixaram a sede do DOI-Codi, na Barra da Tijuca, em direção à estrada Grajaú-Jacarepaguá. Por volta das 20h00 pararam no Restaurante Cabana da Serra.

Sentaram-se próximo à entrada, chamando, desde logo, a atenção do garçom. Ele ficou ainda mais desconfiado com os lances seguintes. Os homens se reuniam em torno de um mapa, falavam baixo e exibiam armas.

A essa altura já apavorado, achando que seriam bandidos, o garçom chamou a polícia.

Uma rádio-patrulha com dois soldados chegou rapidinho, mas, vendo-se em inferioridade, os agentes da lei preferiram permanecer na viatura, observando.

Poucos minutos depois os homens da “Missão no.115” deixaram o restaurante em direção a Jacarepaguá.

No Boletim de Ocorrências, a dupla de policiais anotou as características dos carros nos quais embarcaram. Um deles era um Puma marrom metálico placa OP 0297. Os outros eram uma Brasília, um Chevette, um fusca e um Opala.

O Puma era o carro da moda. O segurança do Riocentro Magno Braz Moreira foi o primeiro a ter contato com a dupla “Dr. Marcos” e “Agente Wagner” e quase barrou sua entrada, como declarou ao jornalista Caco Barcelos, no Globo Repórter exibido a 15 de março de 1996 na TV Globo:

“Eu vi o sargento e o capitão entrando sem credencial. Autorizei porque disseram que eram do Exército. Pedi identificação, eles se identificaram”.

O “Dr. Marcos” pediu para usar o telefone da administração, com o que Magno também concordou, visto que eram “autoridades”. Depois de alguns minutos eles voltaram ao carro, que estava sob as vistas de Magno e foram ao estacionamento do público, onde entraram com o bilhete no. 69239. E o “Dr. Marcos” estacionou.

O Puma também chamou a atenção do estudante João de Deus, que resolveu estacionar seu carro perto dele. Seria uma referência para localizá-lo depois do show. Todos os outros eram Fiat ou fusca.

“Aí vi essas figuras dentro do carro”, disse ele a Caco Barcelos, “dei boa noite e fui para o show”.

Outro espectador, Mauro César Pimentel, contou em depoimento ao Ministério Público ter também estacionado próximo ao Puma, que era seu sonho de consumo.

“Um dia vou ter um desses” pensou ao passar próximo ao veículo e observar que o ocupante do banco do carona segurava um artefato parecido com uma cafeteira. Também viu, no banco de trás, mais dois artefatos idênticos.

Quando se afastava, admoestado pelo “Dr. Marcos”, incomodado com sua bisbilhotice, Mauro César Pimentel ouviu uma explosão.

O segurança Magno Braz Moreira também ouviu. “Foi forte” disse ao Globo Repórter. “Cheguei ao local da explosão. Era o mesmo Puma que eu autorizei a entrar”.

Nessa hora, dentro do pavilhão, 9.892 pessoas cantavam e dançavam com Alceu Valença que relatou a Caco Barcelos:

“Eu estava cantando essa canção que fala das bombas de São João, de coração bobo, do sentimento do povo, da ternura e, de repente, a plateia toda que estava ligada em mim olhou para trás. E depois voltou para mim como se nada tivesse acontecido”.

“Aí eu voltei para o meu setor”, disse Magno Braz Moreira ao Globo Repórter. “Daí veio a segunda explosão, próximo de onde eu estava”.

Mauro César Pimentel viu o “Dr. Marcos” sair do Puma rastejando, mas em vez de socorrê-lo saiu procurando por socorro. Depois de caminhar alguns metros, segurando as vísceras, o capitão pediu ajuda a um taxista que acabara de deixar um espectador, mas ele se recusou a socorrê-lo. Para sorte do capitão, a neta de Tancredo Neves, Andréa, chegando atrasada, com seu namorado, o levou ao hospital.

O estado do “Agente Wagner”, lotado no DOI-Codi desde 1973 era deplorável. Ele tinha experiência em montagem e operação com explosivos, mas aquela bomba, por algum motivo, explodiu no seu colo, decepando suas mãos, estraçalhando barriga e genitália, arrancando o pênis e deixando a perna direita presa ao corpo apenas por um fio de carne.

Chamado às pressas, o comandante do 18o. Batalhão da PM, Coronel Ille Marlen Lobo Ferreira foi imediatamente abordado por agentes que se apresentaram como sendo da Polícia Federal quando chegou ao Riocentro.

“Estavam muito preocupados” disse ele ao Globo Repórter “como é que eu iria conduzir a partir daí. A partir do momento em que sentiram pelo meu telefonema ao chefe do Estado Maior narrando o que estava havendo, aquilo deu a eles tranquilidade de conversar comigo com mais franqueza e aí eles se identificaram como oficiais do Exército. Seriam do DOI-Codi e estariam de serviço ali”.

O coronel apenas se inteirava dos acontecimentos que ainda estavam quentes, quando foi informado, pelo oficial que o acompanhava, que havia outro artefato no pavilhão, ou na caixa d’água ou debaixo do palco, como os homens do DOI-Codi haviam lhe contado.

“Eu os repreendi severamente” disse o coronel Ille Marlen “e mandei desativar qualquer artefato que ainda houvesse. O capitão os acompanhou e deu certeza que o tal artefato tinha sido desativado. Era o capitão Volnei do Nascimento”.

A segunda bomba foi detonada pela segunda equipe do Grupo Secreto, composta pelo “Dr. Flávio”, pelo marceneiro Hilário Corrales e mais dois agentes não iderntificados, na casa de força do pavilhão. Não produziu o efeito desejado – apagão e pânico a seguir – porque não atingiu o alvo em cheio e mesmo se o atingisse não provocaria blackout porque havia geradores de energia disponíveis.

A operação abafa foi posta em prática rapidamente. A mando do chefe do DOI-Codi, Tenente-Coronel Júlio Miguel Molinas Dias, o capitão Divany Carvalho Barros, o “Dr. Áureo”, retirou do Puma, antes dos peritos chegarem, tudo o que pudesse incriminar os militares: a agenda e documentos pessoais do “Agente Wagner”, uma granada de mão e uma pistola. Entregou a pistola e a granada ao chefe, mas guardou a agenda até 1999, quando a entregou ao relator do 2o. IPM, general Sérgio Conforto.

O comandante do I Exército, Gentil Marcondes, apressou-se para ir ao Hospital Miguel Couto, onde o capitão Wilson Machado estava entre a vida e a morte.

“Vim trazer minha solidariedade, desejei um pronto restabelecimento, meu apoio” disse aos jornalistas, ao sair.

A narrativa de que os militares a serviço do DOI-Codi foram vítimas e não autores do atentado começou a ser esboçada pelo titular da Secretaria da Segurança Pública, general Waldir Muniz:

“Infelizmente, esses dois quando saíam do estacionamento dando marcha-a-ré o sargento viu aquele petardo e ao segurar explodiu. Você acha que alguém vai se suicidar”? 

Essa e a noite seguinte no DOI-Codi carioca foram tensas, como Molina Dias anotou em seu diário, resgatado depois de sua morte nebulosa, em 2011, em Porto Alegre.  

30 de abril

Intervalo do jogo Grêmio X São Paulo, telefonema do agente Reis. Disse que um cabo PM telefonara avisando que haveria um acidente com explosivo com uma vítima. Deu o nome quente: Dr. Marcos.

Por volta das 22h30 cheguei ao órgão… dirigi-me à vaga número 1 do comando. O dr. Wilson que estava na operação chegou logo a seguir. O agente Reis, que já chegara, avisou que recebeu outro telefonema do mesmo elemento, dizendo que um sargento estava no local, irreconhecível.

23h30 Hospital Miguel Couto – Tá sendo operado, vísceras do lado de fora. Estado grave.

23h35 Uma bomba na casa de força e uma no carro.

23h50 O Robot está morto. Tem uma granada que estava no carro e botaram no chão.

23h50 Alguém telefona comunicando que acharam uma granada no Puma.

Sexta-feira, 1o. de Maio

0h40 Coronel Cinelli – Falamos sobre a ida da perícia da PE à paisana e a retirada do corpo.

1h1min Tenente-coronel Portella liga ao HCE para receber o corpo de Robot.

1h5min Está sendo operado, dilaceração nas vísceras.

02h00 Helio – a doc recolhida no local está em poder dele. A doc Dr. Marcos já está com Dr. Áureo.

Sábado, 2 de maio

8h30 – Chegada ao destino. Transmitir mensagem ao dr. Marcos para não fazer esforço pra falar tranquilizando-o. Comandante do DOI e comandante do I Exército foram ao enterro e hospital. Foi mandado ao I Exército (Coronel Cinelli) as fotografias das placas com Vanguarda Popular Revolucionária para aproveitamento na imprensa. 

Molina Dias revela a farsa. Tanto as pichações nas placas de trânsito nas cercanias do Riocentro quanto suas fotos foram obra da quarta equipe da “Missão no. 115”, numa tentativa de atribuir o atentado ao grupo de luta armada que havia sido desmantelado em 1974.

A terceira, liderada pelo delegado Cláudio Antônio Guerra estava incumbida de prender “os suspeitos de sempre”, mas a operação foi abortada por motivos óbvios.

A equipe das pichações pôde realizar seu trabalho sem percalços; não havia policiamento algum na redondeza. O policiamento para o show do Primeiro de Maio, previamente agendado para ser realizado por um capitão, um sub-oficial, 2 sargentos, 4 cabos e 32 soldados do 18o. Batalhão da PM fora suspenso pelo comandante geral da PM, general Nilton Cerqueira, no dia 30 de abril, por telefone, diretamente de Brasília, onde estava em reunião com “órgãos de informação”, leia-se o ministro chefe do SNI, general Otávio Medeiros e o chefe da Agência Central do SNI, general Newton Cruz.

Transmitiu a ordem ao Chefe do Estado Maior da PM, Coronel Fernando Antônio Pott que a retransmitiu ao comando do batalhão, que estava passando, na tarde de 30 de abril, para o Coronel Ille Marlen Lobo Ferreira.

O telefonema do general Nilton Cerqueira mostrou que o alto escalão do governo Figueiredo estava envolvido na conspiração.

Do primeiro Inquérito Policial Militar instalado pelo Exército o incumbido foi o Coronel Luís Antônio do Prado Ribeiro. Renunciou ao cargo depois de sofrer pressões até do comandante do I Exército, General Gentil Marcondes Filho que recomendou que chegasse à conclusão de que o fato seria de autoria desconhecida, enquanto ele constatou que os laudos periciais indicavam que os vitimados estavam transportando os explosivos.

Seu substituto, o Coronel Job Lorenna de Sant’Anna seguiu o script e produziu um dos relatórios mais infames da história do Exército. Ignorando provas e ocultando depoimentos como o do perito Joaquim de Lima Barreto, que fez referência sobre a granada de mão que estava com os militares, ele concluiu que a bomba fora colocada por “alguém” entre a porta e o banco do Puma enquanto os dois militares saíram do carro para urinar.

Nem mesmo numa novela surrealista como “Saramandaia” caberia tanto desvario. Para isso acontecer, primeiro, os supostos “terroristas” deveriam saber que dentro do Puma estavam dois agentes do DOI-Codi dos quais supostamente queriam se vingar. Somente saberiam se os tivessem seguido desde a sede do DOI até o Riocentro. O próprio Capitão Machado declarou no IPM de 1999 que ninguém o seguira.

Ainda assim, os “terroristas” só conseguiriam plantar a bomba se (1) o Capitão Machado tivesse deixado a porta destrancada quando foi fazer xixi, o que um profissional como ele jamais faria e (2) a bomba coubesse entre o banco e a porta, mas não cabia, como explicou outro perito, o Coronel Orozimbo, no IPM de 1999.

Para sustentar sua tese delirante, o Coronel Job Lorenna de Sant’Anna argumentou que o pênis do Sargento Guilherme Rosário, vulgo “Agente Wagner” estava preservado, contrariando os laudos periciais.

O Exército acatou o relatório do coronel e o promoveu a general.

Em depoimento ao IPM de 1999, comandado pelo general Sérgio Conforto, já durante a redemocratização, o chefe da Agência Central do SNI, general Newton Cruz revelou suas ligações com o “Grupo Secreto” e a “Missão no. 115”:

“No dia 30 de abril de 1981, por volta das 8 h da noite, quando eu ainda me encontrava no meu gabinete na Agência Central do SNI, procurou-me um oficial da minha agência e me disse o seguinte: chefe, acabo de receber uma comunicação do Rio de Janeiro de um oficial do Exército que tem muito prestígio junto ao pessoal do DOI e que relatou ter tido um encontro com integrantes do DOI e que estavam dispostos a marcar presença no show que se realizava e que ele expôs que qualquer coisa que se fizesse perto da multidão poderia ter consequências imprevisíveis e que então o melhor seria fazer uma ação um pouco mais afastado para marcar presença e que ele ia com essa gente. Marcaram encontro. Esta ação corresponderia à colocação de uma bomba quase de brincadeirinha, na estação. Houve o encontro. Eles foram para a bomba da subestação. Ao encontro faltaram os dois oficiais que por conta própria foram para o estacionamento conforme era a ideia antiga”.

Seu chefe, o general Otávio Medeiros contou o episódio com outro enredo:

“Final de março ou início de abril, em despacho com o general Newton Cruz, este lhe dissera que tomara conhecimento por parte de um oficial que servia na Agência Rio do SNI, o coronel Freddie Perdigão, que dois elementos do DOI/I Ex tencionavam realizar uma ação no Riocentro por ocasião das comemorações de 1o. de Maio com a finalidade de assustar os presentes e que o informante asseverou ao general Newton Cruz que não se preocupasse pois o mesmo já os dissuadira da ação”.

Difícil saber quem disse a verdade, ou se alguém a disse, visto que os dois depoentes atuavam no serviço de Informações, onde a regra era esconder as verdades inconvenientes.

O general Newton Cruz também contou ter sido informado de que os atentados a bomba iriam continuar mesmo depois do Riocentro. Pediu, então, à Agência Rio do SNI que intermediasse um encontro seu com integrantes do “Grupo Secreto”.

Entrevistou-se, clandestinamente, num quarto de hotel, no Rio, com um tenente da PM e um sargento do Exército, aos quais ordenou que parassem com as atividades terroristas. 

Os elos dos generais Medeiros e Newton Cruz com o atentado do Riocentro não podiam ser mais explícitos. Medeiros confessou ter sabido que um crime estava sendo planejado, mas, como supostamente havia sido abortado não mandou sequer investigar a fim de punir os criminosos.

E jamais pediu que fossem identificados.

E por que Newton Cruz o avisaria do atentado se ele não fizesse parte do bando?

Newton Cruz, por sua vez, admitiu que sabia que o atentado a bomba iria acontecer, seja uma hora, como disse, seja um mês antes, como afirmou Medeiros. Num caso ou no outro, ele poderia ter barrado a operação, se quisesse, pois os envolvidos eram seus subalternos e ele tinha meios para detê-los.

Também admitiu conhecer dois integrantes do “Grupo Secreto”, aos quais deveria ter dado ordem de prisão ao encontrar, o que não fez. Ao contrário, recusou-se a revelar seus nomes no IPM, acobertando os criminosos, o que manteve até a morte. 

Os generais Medeiros e Newton Cruz foram, por sua vez, acobertados pelo presidente Figueiredo, que varreu a sujeira para baixo do tapete, como mostra episódio da novela “Yellow Cake”, escrita pelo agente do SNI Alexandre Von Baumgarten, que viria a ser assassinado por membros do mesmo grupo que jogou as bombas no Riocentro, a 12 de outubro de 1982.

Figueiredo teria convocado uma reunião com os generais Walter Pires, do Exército, Golbery do Couto e Silva, Casa Civil, Octavio Medeiros, ministro-chefe do SNI e Danilo Venturini, Casa Militar para debater a posição do governo em relação ao episódio.

Somente Golbery votou a favor de investigar o caso do Riocentro e punir os responsáveis com todo o rigor. 

Três meses depois Golbery abandonou o governo e Figueiredo não conseguiu fazer seu sucessor militar no Colégio Eleitoral, pondo fim à ditadura.

A investigação mais real e detalhada do atentado do Riocentro foi a do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, concluída a 13 de fevereiro de 2014 que o definiu como “ataque estatal sistemático e generalizado dos agentes do Estado contra a população brasileira”.

Foram denunciados, além do Capitão Wilson Luís Chaves Machado, o “Dr. Marcos”, o delegado Cláudio Antônio Guerra; o Coronel Nilton Cerqueira; o General Newton Cruz; o General Edson Sá Rocha, vulgo “Dr. Silvio” e o Capitão Divany Carvalho Barros, vulgo “Dr. Áureo”.

Outros nove criminosos só não foram denunciados porque já estavam mortos: Coronel Freddie Perdigão Pereira, vulgo “Dr. Flávio”; o Sargento Guilherme Pereira do Rosário, vulgo “Agente Wagner” ou “Robô”; o General Octavio Aguiar de Medeiros; o Coronel Ary Pereira de Carvalho, vulgo “Arizinho”; o Tenente-Coronel Júlio Miguel Molinas Dias, vulgo “Dr. Fernando”; o Coronel Alberto Carlos Costa Fortunato; o Coronel Luiz Helvécio da Silveira Leite; o Coronel Job Lorenna de Sant’Anna e o marceneiro Hilário José Corrales.

Nem com o advento da Nova República, o capitão Wilson Machado foi sequer julgado. Ao contrário, na última vez em que foi flagrado por câmeras de TV, em 1996, feito do Globo Repórter, morava em Brasília, fora promovido a tenente-coronel e desde 1988 dava aulas no Colégio Militar.

Ao ser identificado pela reportagem, fugiu.

Em 1999, em depoimento no IPM do General Sérgio Conforto, disse que nunca mexeu com bomba, que não sabe como a bomba apareceu no seu carro e que, ao ouvir a explosão, pensou que o motor do Puma tinha explodido.

A 24 de julho de 2001 recebeu a Medalha do Pacificador com palma, condecoração do Exército reservada aos torturadores, como diz o jornalista Elio Gaspari em seu livro “A ditadura escancarada”:

“Uma das moedas postas em prática era a concessão aos torturadores da Medalha do Pacificador com palma”.

Alguns condecorados:

General Edson Sá Rocha, General Nilton Cerqueira, Coronel Freddie Perdigão, Capitão Divany Carvalho Barros, Sargento Guilherme Rosário, general Otávio Medeiros, Coronel Ary Pereira de Carvalho.

Apesar de todas as provas e laudos periciais de que foi cúmplice do Sargento Guilherme do Rosário no atentado do Riocentro, denunciado por crimes que somam 36 anos de cadeia pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro – tentativa de homicídio doloso tentado duplamente qualificado pelo motivo torpe e por uso de explosivos, transporte de explosivos e associação criminosa - o hoje General Wilson Machado, 73, há quarenta anos guarda pacto de silêncio.

Ele protege o Exército e o Exército o protege.

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1º de Maio, dia de luta dos trabalhadores - José Reinaldo Carvalho

Por José Reinaldo Carvalho

Origens do Primeiro de Maio

O Primeiro de Maio é uma das datas mais importantes da história do movimento operário. A data está ligada às lutas das massas trabalhadoras por melhores condições de vida e trabalho. Com o passar dos anos, o Primeiro de Maio se tornou um dos mais importantes símbolos da luta de classes e da solidariedade internacional dos trabalhadores.  

A origem do Primeiro de Maio está nos trágicos acontecimentos ocorridos em 1886 na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, quando greves e manifestações dos trabalhadores pela redução da jornada de trabalho, foram duramente reprimidas.  Mais de 5 mil fábricas foram paralisadas e cerca de 340 mil operários saíram às ruas para exigir a redução da jornada. 

Em 4 de maio, durante um protesto dos grevistas na Praça Haymarket, uma bomba explodiu e matou um policial. O conflito explodiu. No total, 38 operários foram mortos e 115 ficaram feridos. A luta não foi em vão porque a partir dessas greves, a jornada de trabalho foi reduzida.

Contudo, mais de 300 líderes grevistas foram presos e torturados nos interrogatórios. Oito líderes do movimento - o jornalista Auguste Spies, do “'Diário dos Trabalhadores”', e os sindicalistas Adolf Fisher, George Engel, Albert Parsons, Louis Lingg, Samuel Fielden, Michael Schwab e Oscar Neebe - foram detidos e levados a julgamento. Eles entrariam para a história como “Os Oito Mártires de Chicago”.

Em 20 de agosto do ano seguinte, Spies, Fisher, Engel, Parsons, Lingg, Fielden e Schwab foram condenados à morte; Neebe pegou 15 anos de prisão. Pouco depois, em função da onda de protestos, Lingg, Fielden e Schwab tiveram suas penas reduzidas para prisão perpétua. 

Em 1891, a Internacional Socialista decidiu no congresso na cidade de Bruxelas que “no dia 1º de Maio haverá demonstração única para os trabalhadores de todos os países, com caráter de afirmação de luta de classes e de reivindicação das oito horas de trabalho”. A partir desse evento, o Dia Internacional dos Trabalhadores passou a ser o Dia Internacional dos Trabalhadores, um dia de luta contra a opressão e exploração capitalistas.  

Ao longo do século 20, o 1º de Maio se converteu em um dia de luta classista, pelos direitos sociais, sindicais e políticos dos trabalhadores. Com o advento do socialismo em diversos países, o Primeiro de Maio se tornou também um dia de luta por causas mais amplas, vinculadas aos movimentos anti-imperialistas e à causa da paz mundial. 

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O silêncio dos culpados - Antônio Carlos de Almeida Castro

Por Antônio Carlos de Almeida Castro

“Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera.”

Augusto dos Anjos, Versos Íntimos

Sempre tive muita dificuldade de conviver com pessoas ridículas. Em regra, o ridículo não consegue se imaginar como tal e causa enorme  constrangimento a todos. É o que chamamos de vergonha alheia quando nos deparamos com situações trágicas de tão embaraçosas.

Existem pessoas que não conseguem aguentar a convivência com os ignorantes; outras abominam a burrice e desprezam a prepotência. Para mim, ser ridículo é ser um pouco da fusão de todas essas “qualidades”.

Imagine que, no atual momento, o mundo inteiro está discutindo a melhor maneira de enfrentar a crise sanitária. Em todos os cantos e recantos do mundo, há uma corrente de solidariedade e compaixão com os infectados. Uma real força que emana da quase totalidade das pessoas no sentido de acompanhar o implemento das vacinas, de torcer pela queda do número de infectados, de manter um pensamento contra a dor, contra a solidão, contra o desespero da doença.

Enquanto me recolho para levar um pensamento positivo contra a angústia dos que sofrem, contra o medo natural que toma conta dos que percebem a gravidade da doença, consigo acompanhar a emoção natural de quem conseguiu se vacinar. Principalmente num país onde o Presidente da República optou por não comprar a vacina e investir na morte, por desprezar a ciência.

Pensamentos contraditórios ficam cada vez mais evidenciados: temos os que prezam e lutam pela vida, respeitam as normas que são ditadas pela medicina e os negacionistas, que pregam o culto à morte, ao sadismo. Contra os fascistas, que desconhecem a empatia e a solidariedade, vamos aos poucos nos posicionando e cortando as relações, mostrando nosso desprezo. A postura de enfrentamento das atitudes canalhas faz de nós pessoas com maior comprometimento à dor, seja nossa ou do próximo.

Mas eis que surge aquele que não tem noção do ridículo, num país onde o luxo maior é conseguir ser imunizado, pois o descaso criminoso do Presidente da República faz com que faltem vacina, oxigênio e insumos. Onde a política assassina optou, numa decisão medíocre e criminosa, por não permitir a compra das imunizantes. Onde, pelo que se sabe até agora, por ordem direta do irresponsável que ocupa a cadeira de Presidente, o governo deixou de comprar, várias vezes, lotes de milhões de doses que foram oferecidas pelas empresas.

O caos é tamanho que foi necessário o STF, prestigiando o direito constitucional das minorias, determinar a abertura de uma CPI no Senado Federal para acompanhar a tragédia causada pela Covid. O enredo, se levado a sério, terminará com a destituição e prisão dos responsáveis.

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Divagações sobres casas de vidro - Carlos Carvalho

Por Carlos Carvalho

Na semana em que concluía a releitura de A casa de vidro (1979), do Ivan Ângelo, eis que o The Intercep Brasil publica uma matéria intitulada “O cara da casa de vidro”. A matéria, disponível em https://theintercept.com/2021/04/24/grampos-comparsas-miliciano-adriano-da-nobrega-bolsonaro/  ,teria balançado todas as estruturas do governo em um país sério, e cabeças teriam sido guilhotinadas. Por aqui, no entanto, os poderosos veículos de mídia e seus miquinhos amestrados ignoraram solenemente a reportagem de Sérgio Ramalho e, como de costume, fizeram cara de paisagem. Paisagem que a cada novo dia fica mais tenebrosa, como se uma terrível tempestade estivesse a caminho. O pior para eles é que por aqui não se tem o hábito de colocar tapumes nas portas e janelas, muito menos descer aos porões, pois porões já não os temos. Mudando o rumo dessa prosa, mas ainda sem mudar totalmente, deixo a sugestão de leitura dos dois textos mencionados e, de Ivan Ângelo, um autor cuja atualidade da obra nos diz muito sobre um Brasil, recorrentemente distópico, sugiro também a (re)leitura de A Festa (1976). Pois bem. De onde venho, não lembro de notícias acerca da existência de casas de vidro, embora muitos por lá tenham telhados que não resistiriam a um tiro de baladeira (alguns chamam de estilingue) disparado por uma criança caçando passarinho. Dizem que por acolá, onde João de Santo Cristo ficou bestificado vendo as luzes de Natal também é assim. Logo, nada de meninos caçando passarinhos nas imediações do lago Paranoá. A insistência pode implicar em indiciamento na draconiana Lei de Segurança Nacional. É assim que as democracias morrem.

De onde venho, as praças estão ocupadas por aqueles que não possuem um teto que os abriguem nem contam com a proteção e os cuidados de um Júlio Lancellotti. Estão largados à própria sorte sob as marquises históricas de Luiz Severiano Ribeiro, de frente para a Coluna da Hora. De onde venho, tem gente circulando em carros que custam um milhão de reais. Por lá, comemora-se que a cidade terá seu primeiro prédio com elevador para carro e vaga na sala. Ainda não sei como será o prédio, mas bem que poderia ser todo de vidro esverdeado, imitando aqueles prédios cafonas de Miami, porque a crise, como se diz, também é estética. Mas, “deixemos de coisas, cuidemos da vida”. 

Quando li a manchete “O cara da casa de vidro”, embora sabendo de quem pudesse se tratar, desviei meus pensamentos para outras paragens, para outras pessoas. Assim, minha imaginação criou asas e, primeiramente, pensei em Lina Bo Bardi e sua casa de vidro no Morumbi. Mas a matéria dizia “O cara da casa de vidro”. Então me veio à mente Philip Johnson e sua Glass House, em New Canaan, Connecticut e, na sequência, a Farnsworth House, casa de vidro projetada por Mies van der Rohe, em Illinois, também nos Estados Unidos. Gosto de casas de vidro, pois acredito que enquanto residências, objetivam, entre outras coisas, a manutenção do contato dos seus moradores com o entorno, em uma espécie de comunhão. Parece haver, na idealização e construção desse tipo de casa, um exercício de liberdade que não se costuma observar nas residências tradicionais erigidas em puro concreto. Divagações, divagações. Nada além.

Oscar Niemeyer, por sua vez, aliou concreto e vidro à maioria das suas obras tanto no Brasil quanto no exterior. E assim são exemplos o Palácio do Planalto e o Palácio da Alvorada, casas de vidro na essência. Sob o céu de Brasília, o vidro, no traço do arquiteto comunista aponta, conscientemente, para a transparência que deveria existir entre os habitantes dos palácios e o povo. Muitas vezes, no entanto, e disso sabia o arquiteto, os caras que habitam as casas de vidro que projetou nada mais são do que prisioneiros das suas próprias histórias e suas verdades falseadas.

Assim, para encerrar tais divagações, afirmamos que aquilo que mais deve ser levado em consideração por aqueles que habitam casas de vidro é o que bem nos diz o músico jamaicano Peter Tosh, que na canção “Glasshouse” (Casa de vidro) lembra: “Se você vive em uma casa de vidro, não atire pedras”. (In)felizmente, nem todos levam essa máxima em consideração, de tão convencidos que estão da sua impunidade. E aqui, obviamente, não falamos de Bo Bardi, Johnson ou van der Rohe. O problema para tais “caras” é que ainda há muitos meninos andando pelos cerrados, armados de bodoque, caçando passarinhos; sabedores eles de que toda e qualquer casa um dia pode cair, principalmente as de vidro. 

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