DAQUI A TRÊS MESES (meados de Julho )

Em um trimestre de morte e mais vacina, recessão e CPI, política deve mudar

Bolsonaro jamais deixou de aparecer com 30% de ótimo/bom no Datafolha. Será neste tumulto outonal que sua popularidade vai descambar?

1 _____ A CPI da Covid vai durar três meses, pelo menos.

2 _____ Este segundo trimestre será de recessão, afora milagres. 

3 _____ Em três meses, acaba a rodada reduzida do AUXÍLIO EMERGENCIAL e ainda NEM HÁ auxílios de salário e emprego.

4 _____ Também em três meses, METADE dos ADULTOS deve estar vacinada; TODAS as pessoas dos grupos de RISCO devem ter recebido a primeira dose, afora desastres novos na produção de vacinas. 

5 _____ Até lá, julho, também pelo menos 40% da população deve ter sido infectada. 

Assim, deve estar provisoriamente imunizada, CASO a zona de desastre sanitário que é o Brasil NÃO venha a produzir NOVAS variantes mortíferas do vírus. 

6 _____ Mais de MEIO MILHÃO de brasileiros terão morrido de Covid.

Em três meses, pois, pode bem ser que a conversa política e o debate público no país sejam outros.

A CPI da Covid apareceu em primeiro lugar neste calendário do outono de sofrimentos variados, mas NÃO É, em si, decisiva.

Tende a ser um palco, o “reality show” dos humores políticos do país; talvez tenha mais relevância como telão onde serão projetadas outras revoltas.

  • "Se você [Kajuru] não participa [da CPI], vem a canalhada lá do Randolfe Rodrigues para participar e vai começar a encher o saco. Daí, vou ter que sair na porrada com um bosta desses", afirmou Bolsonaro em áudio divulgado pelo senador Jorge Kajuru

Por causa da CPI, pode bem ser que os crimes de Jair Bolsonaro, do general Pesadello e de seus coronéis do Exército, além de outras incompetências e colaboracionismos do Ministério da Saúde, fiquem mais expostos, por semanas.

Pode aparecer uma prova mortífera.

Mas haverá tanto mais incentivo para a CPI bater em Bolsonaro quanto maior for o desprestígio presidencial, o que depende da reação popular e da (inexistente) oposição à ruína bolsonariana.

Bolsonaro jamais deixou de aparecer com 30% de “ótimo/bom” no Datafolha. Vai ser neste tumulto outonal que sua popularidade vai descambar de modo crítico?

Será um trimestre ruim na economia, o que nem sempre é motivo imediato de abalo do prestígio presidencial.

Em março, comércio e serviços afundaram.

Abril terá sido algo pior.

Com a reabertura, maio pode ser melhor.

O balanço final (PIB) deve ser negativo, em um ambiente de auxílios reduzidos, embora o nível de atividade acabe por ser bem melhor que o do segundo trimestre de 2020.

O morticínio NÃO BASTOU para comover aqueles 30% de bolsonaristas.

No entanto, pesquisas internas do governo, de acompanhamento da popularidade, indicam que a barreira dos 30% caiu, um pouco.

Impopularidade, CPI e crise do Orçamento podem aumentar o número de parlamentares desgarrados, que procurem alternativas em 2022, embora 2018 tenha mostrado que eleição se decide ainda menos por apoio político-partidário.

Caso Bolsonaro vete, em parte ou de todo, o dinheiro extra para emendas parlamentares, terá um problema.

Caso não o faça, terá de cortar a despesa de funcionamento do governo no osso, terá de negociar o gasto continuamente e ainda estará sujeito a rasteiras do Congresso, pois pode ser enquadrado em crime fiscal.

Esse tumulto não contribui para “as reformas” e indica que o teto de gastos está indo para o vinagre.

Enfim, a depender da reação de Bolsonaro, de suas ameaças golpistas, pode ser que o STF aumente a fervura dos processos que por lá correm contra o bolsonarismo.

Caso houvesse oposição, seria um trimestre para que se expusesse o desastre do governo e uma alternativa.

Isto é, que líderes políticos não apenas batessem de modo organizado no governo mas que apresentassem programas, ideias, slogans, de um país diferente.

O “centro” (a direita), porém, acha que vai aparecer com um garoto-propaganda, em cima da hora, um BOLSOCOLLOR_ATENUADO, para levar a eleição. Hum.

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Pastor que ora pela morte de Paulo Gustavo será processado por homofobia

Paulo Gustavo, com o marido Thales Bretas e os dois filhos. Arquivo Pessoal/Instagram[/fotorafo]

Dezenas de entidades LGBTQIA + e outros grupos defensores de direitos humanos anunciaram, neste sábado (17), que vão processar na Justiça o pastor José Olímpio, da Assembleia de Deus de Alagoas, que declarou orar pela morte do ator Paulo Gustavo, internado há um mês com covid-19, em estado grave.

"Esse é o ator Paulo Gustavo que alguns estão pedindo oração e reza. E você vai orar ou rezar? Eu oro para que o dono dele o leve para junto de si”, publicou o pastor em suas redes sociais nesta semana.  Após a repercussão negativa do comentário, José Olímpio apagou a publicação.

O artista, de 42 anos, é casado com o médico Thales Bretas, com quem tem dois bebês.

"É urgente que crimes como estes, motivados por homofobia, sejam enquadrados da tipificação da LGBTfobia , na lei de combate ao racismo de n. 7.716/2018, e que punições mais rigorosas e severas sejam tomadas  contra condutas homofóbicas e atos discriminatórios como o em questão", diz a nota (veja a íntegra abaixo) assinada pelas principais entidades de defesa dos direitos de LGBTs do país ao anunciar que medidas judiciais serão tomadas contra o pastor.

Uma das signatárias do documento, a Aliança LGBT+ afirma que a declaração do pastor não é caso isolado, atinge cotidianamente gays, lésbicas e trans. "Vivemos tempos sombrios. Esta afirmativa foi dita por nós inúmeras vezes nos últimos meses. O mundo enfrenta uma gravíssima pandemia que segue ceifando milhões de vidas pelo globo, o país em que vivemos segue sendo epicentro da pandemia do novo coronavírus", diz o movimento em nota própria (veja a íntegra mais abaixo).

Após repercussão negativa, pastor apagou comentário homofóbico contra Paulo Gustavo Instagram
"A pandemia que ainda segue em curso transformou o caráter de alguns e revelou o verdadeiro caráter de outros, fazendo com que pudéssemos separar o joio do trigo e sem nenhuma sombra de dúvidas fossemos capazes de compreender melhor o outro", diz o texto assinado pelo ativista Toni Reis, líder da Aliança LGBT+. O texto de repúdio ao pastor também tem apoio de lideranças evangélicas.

Internado na UTI desde o começo de março, Paulo Gustavo enfrenta complicações da covid-19, está intubado e com pulmão artificial. Seu estado de saúde é considerado crítico. Nas redes sociais, Thales publica atualizações sobre o quadro clínico do companheiro.

A internação de Paulo Gustavo causou comoção entre fãs e artistas, que têm organizado correntes de oração pelo restabelecimento da saúde do ator, conhecido pelos papéis humorísticos, com sucessos tanto no teatro, na TV e no cinema.

Pastor José Olímpio diz orar pela morte de ator Reprodução
O Congresso em Foco não conseguiu localizar o pastor José Olímpio para se manifestar sobre o comentário que fez sobre o ator. O espaço está aberto caso ele queira se manifestar.

"Queremos vida, felicidade e muita cidadania, direitos humanos. Ninguém merece a morte", disse ao Congresso em Foco o presidente da Aliança LGBTI+, Toni Reis, colunista deste site.

A Aliança enviou ofício ao procurador-geral de Justiça de Alagoas, Márcio Roberto Tenório de Albuquerque, que abra investigação contra o pastor.

Veja a nota assinada por dezenas de entidades e defensores de direitos humanos:

"CARTA DE REPÚDIO E REVOLTA AS AGRESSÕES PROFERIDAS PELO LÍDER RELIGIOSO DA ASSEMBLEIA DE DEUS EM ALAGOAS - PR. JOSÉ OLÍMPIO

Instituições LGBTQIA + e outras defensoras de direitos humanos de todo o país,  vem a público manifestar seu repúdio as  agressões motivada por homofobia, escarrada pelo líder religioso da Assembleia de Deus em Alagoas - pastor José Olímpio, na última quinta-feira, 15/04 , na página oficial do Instagram do pastor.

O ato criminoso de violência, praticado por este líder religioso, contra o ator Paulo Gustavo, que se encontra internado em virtude de problemas de saúde causadas pelo COVID-19, problema sério de saúde pública e sanitária mundial, fere severamente não só Paulo, mas todas as vítimas da doença, a comunidade LGBTQIA+, classe artística e a todos os cidadãos de bem que tenham bom senso e sintam empatia por seu próximo.

A intolerância e o conservadorismo, observados não apenas em crimes de ódio como este, mas também em discursos e práticas preconceituosas, presentes em diversas instâncias do cotidiano brasileiro atual, causam sérios problemas à ordem pública democrática deste país e entristece-nos saber que este não é um caso isolado, mas apenas um dos tantos casos de crimes motivados por LGBTfobia no Brasil, como foi o atentado de 15 de abril de 2021, a honra de Paulo Gustavo e todos os cidadãos decentes e de caráter libido deste país.

É urgente que crimes como estes, motivados por homofobia, sejam enquadrados da tipificação da LGBTfobia , na lei de combate ao racismo de n. 7.716/2018, e que punições mais rigorosas e severas sejam tomadas  contra condutas homofóbicas e atos discriminatórios como o em questão.

Fora o tratamento jurídico específico para tais crimes, reconhecendo sua  especificidade, compreendemos ainda que apenas através da educação é que poderemos construir um país mais tolerante à diversidade sexual,  de gênero, religiosa, política, étnica, social e cultural, tambem de pensamento político e religioso mas não de intolerância criminosa e libertinagem.

Por fim, manifestamos nosso apoio e solidariedade ao ator Paulo Gustavo e a todos que se sentiram feridos e magoados com a fala criminosa do pastor, ao mesmo tempo comunicamos oficialmente que medidas judiciais serão tomadas contra o pastor José Olímpio - líder religioso da Assembleia de Deus em Alagoas, ao mesmo tempo também nos solidariezamos com todos os religiosos que se sentiram agredidos e triste por este ato criminoso e intolerante.

Maceió, 17 de abril de 2021.

Assinam esta carta:

GGAL- Nildo Correia ,; CAERR - Kamila Emanuele ; Givanildo Lima - ARTGAY/AL, Aliança Nacional LGBT - Toni Reis ; Rede Gay Brasil - Fábio de Jesus ;
GGM -  Messias Mendonça ; INCVF/AL - Rosaly Damião) - INCVF ; Movimento dos Povos das Lagoas - Isadora Padilha ;  Ticiane Simões - Ateliê Ambrosina ;  CAVIDA - Wilza Rosa ; Marcelo Nascimento -  Fundador do Movimento LGBTQIA+ em Alagoas ; Associação Cultural Joana Cajuru - Waneska Pimentel, Annabella Andrade - Coletivo " O Direito Achado na Rua", REBRACA - Indianarae Siqueira, GGB - Marcelo Cerqueira, Quibamda Dudu - Otávio Reis, Associação As Musa de Castro Alves do Recôncavo - ASMUSADECAR - Gilvan Dias Medeiros ; Movimento Nacional da População em Situação de Rua de Alagoas MNPR/AL e Fórum Nacional dos Usuários do Sistema Único de Assistência Social de Alagoas FEUSUAS/AL - Rafael Machado ; GLAD Delmiro - Anna Moura ;  Luiz Mott - Fundador do Movimento LGBTQI+ na Bahia ; Coletivo LGBTIA+ Flutua (UFAL) -  Fernando I. Rodrigues de Farias; Associação LGBTQI+ e Candomblé GRUPO IGUAIS DE CORURIPE - Sophia Braz ; Arco Íris LGBT de Paripueira - Darlan Kadosh ; Instituto Feminista Jarede Viana - Ana Pereira ; Núcleo de Estudo e Pesquisa das Expressões Dramáticas ; Cia Cultural Vixe Maria ; PesComPasso Artes Cênicas ; Paty Maionese Produções e Eventos - Paty Maionese ; Coletivo Popfuzz - Nina Magalhães ; Cia Orquídeas de Fogo ; AMIREBO - Lafon Pires"

Veja a íntegra da nota da Aliança LGBT+:

"NOTA OFICIAL DA ALIANÇA NACIONAL LGBTI+

DE REPÚDIO AO PASTOR JOSÉ OLÍMPIO

A Aliança Nacional LGBTI+ vem a público manifestar seu mais profundo repudio acerca da declaração do Pastor José Olímpio, considerado hoje como braço direito do Presidente da Assembleia de Deus em Alagoas, no tocante ao estado de saúde do ator Paulo Gustavo, que está internado há mais de 30 dias por complicações da Covid-19.

Vivemos tempos sombrios. Esta afirmativa foi dita por nós inúmeras vezes nos últimos meses. O mundo enfrenta uma gravíssima pandemia que segue ceifando milhões de vidas pelo globo, o país em que vivemos segue sendo epicentro da pandemia do novo Coronavírus.

Toni Reis, presidente da Aliança LGBT+: "Não há espaços na sociedade para tolerância com discursos preconceituosos" Agência Câmara
Quando acreditamos que mesmo em meio ao caos instalado, não haveria a chance de nos depararmos com declarações absurdas, nos deparamos com os seguintes dizeres proferidos pelo já citado Pastor:

“Esse é o ator Paulo Gustavo que alguns estão pedindo oração e reza. E você vai orar ou rezar? Eu oro para que o dono dele o leve para junto de si” diz o religioso.

A pandemia que ainda segue em curso transformou o caráter de alguns e revelou o verdadeiro caráter de outros, fazendo com que pudéssemos separar o joio do trigo e sem nenhuma sombra de dúvidas fossemos capazes de compreender melhor o outro. Porém, neste caminhar tênue, assim como dito, alguns se revelaram legítimas ervas daninhas, capazes de espalhar-se apenas com a finalidade de interferir negativamente em uma plantação.

Não há espaços na sociedade para tolerância com discursos preconceituosos, desrespeitosos e desonestos, que precisam ser rejeitados. Líderes religiosos são representantes de suas entidades e exemplos para os fiéis, por isso não devem jamais propagar o ódio e naturalizar a intolerância à diversidade de famílias, identidades de gênero e orientações sexuais.

'O sonho da igualdade só cresce no terreno de respeito pelas diferenças.'
Augusto Cury

Não obstante, alinhados com o repúdio manifestado pela Aliança Nacional LGBTI+, lideranças e outras entidades representativas manifestaram seu posicionamento, que encaminhados a nós, reproduzimos abaixo:

Para: Giana Karla Oliveira Teixeira (Pedagoga, Religiosa Praticante, Colaboradora da Área de Evangélic@s da Aliança Nacional LGBTI+):

Diante de acontecimento tão arcaico, a comissão de Pedagogos da Secretaria de Desenvolvimento Social do Município de Patos na Paraíba, se solidariza com toda comunidade LGBTI e repudia veemente toda e qualquer conduta de ódio a qualquer pessoa, inclusive homofobia. Os discursos de ódio proferidos por líderes religiosos contra qualquer ser humano em razão de sua condição sexual, nos impelem a cobrar da justiça punições imediatas para tal crime contra a humanidade.

Para: Vagner Veras (Pedagogo da Secretaria de Desenvolvimento Social - Patos/PB):

É lamentável a postura crítica de alguns que se dizem "representantes de Cristo" que disseminam discurso de ódio e preconceito contra as minorias, fazendo o caminho inverso dos ensinamentos cristãos.

Para: Madalena Kelly Brandão Cordeiro (Professora, Evangélica da Primeira Igreja Batista ):

Esse pastor não me representa e não sabe o que é o Amor de Deus!
Eu como evangélica posso garantir que ele não sabe o que é o Amor. Este pastor não me representa como evangélica!
Em meio a tantas perdas, e tantas vidas ceifadas por uma doença fatal, podemos lembrar que não temos motivos para nenhum bastardo julgamento, e seguindo ao princípio Cristão e sendo fidedignos à Bíblia Sagrada, podemos compreender que seja conforme Mateus, Capítulo 7, Versículos 1 ao 2: "Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês."
I João, Capítulo 4, Versículo 20: " Se alguém declarar: “Eu amo a Deus!”, porém odiar a seu irmão, é mentiroso, porquanto quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não enxerga."

Neste passo, manifestamos toda nossa Solidariedade a Thales Bretas, esposo do ator Paulo Gustavo, desejando forças para enfrentar este momento grave. Desejamos também saúde, e força para que o quão breve possível Paulo Gustavo esteja alegre como sempre junto aos que ama.

Continuaremos nas orações e rezas para que sua melhora seja a mais plena e rápida possível.

A Igreja é chamada a ser instrumento de paz e de reconciliação
“Ad intra et Ad extra”.

Curitiba,16 de abril de 2021

Toni Reis
Diretor Presidente da Aliança Nacional LGBTI+

Gregory Rodrigues Roque de Souza
Coordenador Nacional de Comunicação da Aliança Nacional LGBTI+
Coordenador Titular da Aliança Nacional LGBTI+ em Minas Gerais

Robson Lourenço da Silva
Coordenador Adjunto Nacional de Comunicação da Aliança Nacional LGBTI+
Coordenador Adjunto Aliança Nacional LGBTI+ em Pernambuco

Giana Karla Oliveira Teixeira
Pedagoga, Religiosa
Colaboradora da Área de Evangelic@s da Aliança Nacional LGBTI+

Hugo Raffael Andrade
Coordenador Adjunto Nacional de Interiorização e Integração da Aliança Nacional LGTBTI+
Coordenador Adjunto Estadual da Aliança Nacional LGBTI+ na Paraíba

Messias da Silva Mendonça
Coordenador da Aliança Nacional LGBTI+ em Alagoas"

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30 anos depois, Vargas Llosa apoia fujimorismo - Sylvia Colombo

Mais de 30 anos depois de ter sido derrotado por Alberto Fujimori no segundo turno das eleições de 1990, o escritor e prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, 85, tem participado vivamente do debate político no Peru. Perder para um adversário que depois lideraria um governo autoritário e com graves abusos contra os direitos humanos colocou Vargas Llosa numa posição de ainda mais destaque do que já tinha por sua literatura.

O autor de “Lituma nos Andes” passou a figurar como herói anti-fujimorista, que havia tentado impedir os graves acontecimentos que se seguiriam. Deste lugar, ganhou afetos e a simpatia de quem não concordava com a escalada ditatorial do engenheiro. Até então um desconhecido no cenário, Fujimori é descendente de imigrantes e se identificava com os cantos esquecidos do país, enquanto Vargas Llosa tinha o apoio do setor em que nasceu, a elite urbana do país.

Vargas Llosa foi a principal voz crítica da autocracia imposta por Fujimori após o fechamento do Congresso, em 1992. E, depois da redemocratização do país, dos estragos que o fujimorismo impunha em sua ação vingativa a partir do parlamento, sendo o principal responsável, por exemplo, da queda de dois presidentes nos últimos anos, PPK (Pedro Pablo Kuczynski) e Martín Vizcarra.

Tudo isso mudou no último sábado (17), quando Vargas Llosa afirmou que apoiaria o movimento que foi seu principal inimigo. Em uma coluna publicada no jornal espanhol El País, sob o título “Chegando perto do abismo”, o escritor disse que tinha “combatido o fujimorismo de maneira sistemática, assim como fiz contra todas as ditaduras, de esquerda ou de direita. Creio que, nas próximas eleições, os peruanos devem votar por Keiko Fujimori, porque representa o mal menor e há, com ela no poder, mais possibilidade de salvar nossa democracia, enquanto com Pedro Castillo não existe nenhuma”.

Vargas Llosa se refere à votação de segundo turno, em 6 de junho, das eleições presidenciais, que serão disputadas entre a filha do ex-presidente, Keiko, de direita, e o esquerdista Pedro Castillo, um outsider que Vargas Llosa identifica com o projeto chavista. Ou seja, a lógica do escritor é a de que, entre um governo que evoca um regime autoritário de direita e outro que se espelha numa experiência autoritária de esquerda, seria melhor apostar no primeiro.

A mudança de opinião e o apoio de Vargas Llosa ao fujimorismo poderia ser apenas uma curiosidade, se ele não fosse o intelectual mais importante do Peru. Ali, sua palavra é ouvida pela sociedade, tanto é assim que os dois candidatos se manifestaram sobre o tema.

Keiko Fujimori telefonou para o escritor, agradeceu o gesto e afirmou estar de acordo com as garantias democráticas que Vargas Llosa pede, em seu texto, além de reafirmar o compromisso de respeito aos direitos humanos. Já Pedro Castillo afirmou que a declaração pouco importa, porque Vargas Llosa já não conhece o Peru e opina desde sua mansão em Madri –de fato, o escritor já vive há anos na capital espanhola.

O que é claramente uma contradição com relação a suas convicções históricas, por outro lado revela o pragmatismo de Vargas Llosa entre escolher sempre o que, para ele, seria o “mal menor”, a cada eleição. A questão é que estes “males” tampouco tiveram muito êxito, e a cada decisão, Vargas Llosa vai se desacreditando junto à sociedade peruana.

No período da redemocratização, Vargas Llosa apostou em Alejandro Toledo, que terminaria seu mandato em 2006 com um dos menores níveis de aprovação da história do Peru.

Em 2006, Vargas Llosa posicionou-se com vigor contra a candidatura de Ollanta Humala, então líder militar nacionalista de extrema-esquerda. Seu temor de que um populismo estilo chavista tomasse o Peru o fez preferir a vitória de Alan García, que de fato ocorreu. García acabou suicidando-se enquanto respondia a processo por corrupção, enquanto Toledo foi condenado e é foragido da Justiça.

Inconformado com a nova postulação de Humala em 2011, o escritor voltou a apoiar Toledo, mas este foi eliminado no primeiro turno. Vargas Llosa, então, teve de optar entre dois candidatos que não lhe agradavam nem um pouco.

De um lado, a mesma Keiko Fujimori, do outro, Humala.

Em suas palavras, era como ter de escolher “entre o câncer e a AIDS”. 

Mesmo assim, não quis abster-se, e deu seu voto de confiança a Humala depois que este fez amplas promessas de que se posicionaria no centro do espectro político, adotaria políticas de mercado e não desse ouvidos a seus familiares, ainda bastante metidos numa militância extremista de esquerda.

Hoje, Humala também enfrenta processo por corrupção e passou um tempo na cadeia.

Em 2016, a disputa foi entre Keiko e PPK, pois Vargas Llosa ficou com PPK, que acabou afastado pelo parlamento e, adivinhem, foi também processado por corrupção.

Cada vez mais, os fãs da MAGNÍFICA OBRA de Vargas Llosa parecem preferir deixar de ouvi-lo falar sobre política, tamanhas são suas CONTRADIÇÕES e CONTORCIONISMOS retóricos.

A derrota como candidato presidencial em 1990 acabou dando ao mundo livros inesquecíveis e um prêmio Nobel das letras.

Isso é o que está para ser celebrado.

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Conheça a história real do assassino da série 'O Paraíso e a Serpente'

"O Paraíso e a Serpente": o que aconteceu com o assassino da série na vida real?
"O Paraíso e a Serpente": o que aconteceu com o assassino da série na vida real? Instagram/Reprodução

Daniel Palomares

De Splash, em São Paulo

18/04/2021 04h00

Os oito episódios de "O Paraíso e a Serpente", série britânica recém-chegada à Netflix, são chocantes e eletrizantes, mas ainda não dão conta de explorar todos os detalhes da trajetória criminosa de Charles Sobhraj, assassino que aterrorizou turistas na Ásia na década de 1970.

Para proteger a identidade de algumas das pessoas envolvidas na trama obscura, nomes foram trocados para a minissérie. Mas a vida real do assassino consegue ser ainda pior do que o retratado na tela. Conheça a história real de Charles Sobhraj.

Contém spoilers da série!

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Origem do Mal

Charles Sobhraj nasceu no Vietnã, em 1944. Seus pais se divorciaram quando ele ainda era pequeno, e Charles dividia seu tempo entre a França e a Ásia. Já na adolescência, ele passou a cometer pequenos delitos ao redor de Paris e foi preso pela primeira vez em 1963.

Foi na prisão que Charles conheceu Felix d'Escogne, com quem foi viver após ser libertado. Ao lado dele, Sobhraj aprendeu a ser um perfeito vigarista, manipulando todos que orbitassem ao seu redor.

Mergulhado em mentiras

Poucos anos antes de cometer os assassinatos, Charles se casou com a francesa Chantal Compagnon, que teve seu nome alterado para Juliette na série. Quando ela estava grávida, eles se mudaram para a Ásia, onde ele chegou a ser preso no Afeganistão, no Irã e na Índia.

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Para conseguir escapar da prisão, Charles fazia amizade com os guardas e armava as cenas mais absurdas. Ele conseguiu fugir da cadeia em Nova Delhi inventando estar doente e, quando foi detido em Atenas, distraiu os guardas ateando fogo a uma ambulância.

Os produtores de "O Paraíso e a Serpente" optaram por não conversar com o próprio Charles, preso até hoje no Nepal, justamente por sua compulsão em contar mentiras. O roteiro foi baseado em entrevistas feitas pela jornalista Julia Clarke com o assassino.

Ele sempre está tentando monetizar sua história e nós tínhamos certeza de que nunca o pagaríamos por isso. Ele é um mentiroso compulsivo, qualquer coisa que nos dissesse não seria verdade.

Paul Testar, coprodutor, em entrevista ao "Los Angeles Times"

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Marie-Andreé e Charles Sobhraj na época dos crimes Imagem: Instagram/Reprodução

Na trilha dos hippies

Depois de sucessivas fugas da prisão, Sobhraj abandonou a mulher e a filha e viveu no Paquistão e na Tailândia, onde cometeu os primeiros crimes. Foi em Bangkok que conheceu sua amante e cúmplice, a canadense Marie-Andree Lecrerc.

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Sobhraj se passava por um vendedor de joias e fazia amizade com jovens viajantes dos EUA e da Europa. Ele então os drogava para depois assassiná-los e roubar seus passaportes. Apesar de condenado por dois assassinatos, ele pode ter sido responsável por até 20 mortes.

Ele criou uma falsa narrativa sobre quem matou. Dizia que eram hippies drogados e criminosos, que não deveríamos ligar para eles. Muitas famílias relutaram em se envolver com a série por isso. Era importante mudar essa narrativa.

Richard Warlow, roteirista e produtor, ao "Los Angeles Times"

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Tahar Rahim viveu o temido Charles Sobhraj na série "O Paraíso e a Serpente" Imagem: Instagram/Reprodução

Realidade além da ficção

No terceiro episódio da série, o jovem francês Dominique vivia preso na casa de Sobhraj, forçado a trabalhar para ele e sendo constantemente drogado. Com a ajuda de um casal de vizinhos, ele consegue recuperar seu passaporte e fugir de Bangkok para Paris.

Na vida real, Sobhraj mantinha Dominique e outros dois jovens em cárcere. Todos foram ajudados pelo casal de vizinhos a fugir, mas somente Dominique é retratado pois nunca se soube mais notícias sobre os demais.

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O capanga de Sobhraj, o indiano Ajay Chowdhury, também tem um fim desconhecido. Depois de colaborar com vários dos assassinatos de Sobhraj, Ajay foi visto pela última vez em 1976 e nunca se soube do seu paradeiro.

Um fim trágico, porém, teve o macaco de estimação de Sobhraj. Ele realmente existiu e acabou morrendo ao beber as drogas que eram destinadas a Dominique. Como não era um macaco domesticado, ele precisava usar fraldas, mas isso pareceu absurdo demais para os produtores retratarem no seriado.

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Jenna Coleman como Marie-Andreé Leclerc em "O Paraíso e a Serpente" Imagem: Instagram/Reprodução

Vivendo perigosamente

Quando foi finalmente preso na Índia, em 1976, após drogar um grupo de 60 estudantes franceses, Sobhraj usava sua lábia para conseguir vantagens na cadeia. Em troca de joias, ele conseguiu viver confortavelmente, com direito a uma TV particular e comendo do bom e do melhor.

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Enquanto isso, o diplomata holandês Herman Knippenberg, responsável por investigá-lo na série, reunia mais e mais provas da ligação de Sobhraj com uma série de crimes na Tailândia. Depois de dez anos preso na Índia, Sobhraj sabia que acabaria sendo transferido e condenado a morte em Bangkok.

Dois anos antes da possível transferência, ele ofereceu uma festa para os carcereiros e conseguiu drogá-los. Com isso, escapou da prisão e se deixou ser capturado, adicionando dez anos à sua sentença. Nesse tempo, os crimes da Tailândia já teriam prescrevido e ele não poderia mais ser condenado.

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Matéria da libertação de Charles Sobhraj em 1997 Imagem: Robert NICKELSBERG/Gamma-Rapho/Getty Images

Em 1997, Sobhraj foi libertado da prisão na Índia e viveu como um homem livre até 2003, quando fez uma viagem ao Nepal. Lá, ele foi reconhecido e ainda poderia ser acusado dos crimes que cometeu, mais de 20 anos antes.

Depois de anos dando entrevistas e se tornando uma espécie de celebridade, Sobhraj finalmente poderia ser condenado a prisão perpétua. Ironicamente, foi no primeiro dia de aposentadoria de Knippenberg que o diplomata recebeu a notícia de que o criminoso que tanto buscou havia sido detido.

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Do ponto de vista dramático, é o tipo de coisa que odiaria escrever. É muito na cara. Mas realmente a história que marcou a vida dele o chamou no mesmo dia que ele tinha desistido de tudo.

conta o roteirista Richard Warlow ao "Los Angeles Times"

Sobhraj hoje em dia

Em 2003, Charles Sobhraj foi condenado a prisão perpétua por assassinatos de dois jovens no Nepal e segue preso até hoje em Katmandu. Sua cúmplice, Marie, morreu na prisão na Índia, em 1984. Com 77 anos atualmente, nunca mais se soube de uma tentativa de Sobhraj de escapar.

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