Eurasia Interconectada
Como a Eurásia será interconectada

Por Pepe Escobar, para o Asia Times
Tradução de Patricia Zimbres, para o 247
A extraordinária confluência entre a assinatura do acordo sobre a parceria estratégica Irã-China e a saga do Ever Given no Canal de Suez fatalmente irá dar um novo impulso à Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) e a todos os corredores interconectados da integração eurasiana.
Essa parceria é o desdobramento geoeconômico de maior importância ocorrido no Sudoeste Asiático nos últimos tempos - ainda mais importante que o apoio geopolítico e militar a Damasco prestado pela Rússia, que vem ocorrendo desde 2015.
Múltiplos corredores ferroviários cruzando a Eurásia, incluindo trens de carga terrestres lotados de mercadorias - a mais icônica delas talvez sendo a Chongqing-Duisburg - são a principal base de apoio da ICR. Em poucos anos, todos esses corredores ferroviários serão de alta-velocidade.
O principal corredor terrestre é o Xinjiang-Cazaquistão - seguindo então para a Rússia e mais além; o outro atravessa a Ásia Central e o Irã, seguindo até a Turquia, os Bálcãs e o Leste Europeu. Pode levar tempo para que esses corredores terrestres consigam competir, em termos de volume, com as rotas marítimas, mas a substancial redução do tempo de transporte já vem incentivando um aumento maciço dos carregamentos.
A conexão estratégica Irã-China fatalmente irá acelerar todos os corredores interconectados levando até o Sudoeste Asiático e cruzando a região em todos os sentidos.
E o mais importante é que os muitos corredores de conectividade comercial são diretamente ligados à criação de rotas alternativas para o transporte de petróleo e gás, evitando aquelas controladas ou "supervisionadas" pelo Hegêmona desde 1945: Suez, Malaca, Ormuz, Bab-al-Mandeb.
Conversas informais entre comerciantes do Golfo Pérsico revelaram forte ceticismo quanto à principal razão da saga do Ever Given. Pilotos de marinha mercante concordam que os ventos de uma tempestade do deserto não seriam capazes de afetar um mega-container estado-da-arte equipado com complexíssimos sistemas de navegação. O cenário de erro do piloto - quer induzido ou não - vem sendo seriamente levado em conta.
O assunto predominante entre gente do ramo: o Ever Given que encalhou era de propriedade japonesa, arrendado em Taiwan, segurado no Reino Unido, tripulado exclusivamente por indianos e transportava mercadorias chinesas para a Europa. Não é de admirar que os cínicos, ao examinarem o episódio, se perguntem Cui Bono?
Os comerciantes do Golfo Pérsico, comentando à boca pequena, insinuam também que há um projeto para que Haifa venha futuramente a se tornar o maior porto da região, em estreita cooperação com os Emirados, usando uma ferrovia a ser construída entre Jabal Ali, em Dubai, e Haifa, dispensando o Suez.
Voltando aos fatos concretos, o mais interessante desdobramento de curto prazo é que o petróleo e o gás do Irã poderão ser transportados para Xinjiang através do Mar Cáspio e do Cazaquistão - usando um gasoduto transcáspio ainda a ser construído.
O que se encaixa perfeitamente no território ICR clássico. Na verdade, é ainda mais que isso, porque o Cazaquistão é parceiro não apenas da ICR mas também da União Econômica Eurasiana (UEEA) liderada pela Rússia.
Do ponto de vista de Pequim, o Irã é também absolutamente essencial para o desenvolvimento de um corredor terrestre indo do Golfo Pérsico ao Mar Negro, e continuando até a Europa pelo Danúbio.
Obviamente, não é por acidente que o Hegêmona esteja em alerta máximo em todos os pontos desse corredor de comércio. Sanções de "pressão máxima" e guerra híbrida contra o Irã; uma tentativa de manipular a guerra Armênia-Azerbaijão; o ambiente de pós revolução colorida tanto na Geórgia quanto na Ucrânia - que fazem fronteira com o Mar Negro; a sombra da OTAN se espalhando sobre os Bálcãs: é tudo parte de uma conspiração.
Agora, me arranja aí uns lápis-lazúli
Um outro capítulo fascinante do Irã-China diz respeito ao Afeganistão. Segundo fontes de Teerã, parte do acordo estratégico trata da área de influência do Irã no Afeganistão e da evolução de mais um corredor de conectividade chegando até Xinjiang.
E aqui voltamos ao sempre intrigante corredor do Lápis-Lazúli – conceito formulado em 2012 visando, inicialmente, uma maior conectividade entre o Afeganistão, o Turcomenistão, o Azerbaijão, a Geórgia e a Turquia.
O maravilhosamente evocativo nome de Lápis-Lazúli remete à exportação de diversas pedras semipreciosas pelas Antigas Rotas da Seda para o Cáucaso, Rússia, Bálcãs e África do Norte.
Hoje, o governo afegão vê essa ambiciosa remixagem século XXI como partindo de Herat (uma área importante de influência persa), continuando até o porto do Mar Cáspio de Turkmenbashi, no Turcomenistão, por um oleoduto transcaspiano até Baku, continuando até Tblisi e os portos geórgios de Poti e Batumi, no Mar Negro, conectando-se finalmente a Kars e Istambul.
Essa é uma iniciativa realmente séria, com o potencial de ligar o Leste do Mediterrâneo ao Oceano Índico.
Rússia, Irã, Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão assinaram a Convenção sobre a Situação Legal do Mar Cáspio, em 2018, no porto cazaque de Aktau, e o interessante é que suas grandes questões vêm agora sendo discutidas na Organização de Cooperação de Xangai (OCX), da qual Rússia e Cazaquistão são membros plenos, o Irã brevemente o será, o Azerbaijão é um parceiro de diálogo e o Turcomenistão, um convidado permanente.
Um dos grandes problemas de conectividade a serem tratados é a viabilidade da construção de um canal ligando o Mar Cáspio à costa do Irã no Golfo Pérsico. Esse projeto custaria pelo menos sete bilhões de dólares. Uma outra questão é o imperativo da transição para o transporte de carga em contêineres no Mar Cáspio. Em termos da OCX, isso aumentará o comércio da Rússia com a Índia via Irã, além de oferecer mais um um corredor para o comércio da China com a Europa.
Com o Azerbaijão prevalecendo sobre a Armênia na conflagração Nagorno-Karabakh e, ao mesmo tempo, firmando finalmente um tratado com o Turcomenistão sobre suas respectivas situações no Mar Cáspio, a construção do setor oeste do Lápis-Lazúli é agora muito provável.
O setor leste é uma questão muito mais complicada, envolvendo um assunto de importância absolutamente crucial que atualmente está sendo discutido apenas em Pequim, mas também na OCX: a integração do Afeganistão ao Corredor Econômico China-Paquistão (CECP).
Em fins de 2020, o Afeganistão, o Paquistão e o Uzbequistão concordaram quanto à construção daquilo a que o analista Andrew Korybko deu o delicioso nome de ferrovia PAKAFUZ. A PAKAFUZ representará um passo de importância-chave para a expansão da CECP para a Ásia Central através do Afeganistão. A Rússia está mais que interessada.
Esse pode se tornar um caso clássico do melting pot ICR-UEEA atualmente em formação. A hora decisiva - que incluirá a tomada de decisões sérias - ocorrerá no próximo verão, quando o Uzbequistão planeja realizar a conferência "Ásia Central e do Sul: Conectividade regional. Desafios e oportunidades".
Portanto, tudo avançará de forma interconectada: o elo TransCaspiano; a expansão do CECP; Af-Paq conectados à Ásia Central; um outro corredor Paquistão-Irã (via Baluquistão, incluindo a finalmente possível conclusão do gasoduto IP) até o Azerbaijão e a Turquia; a China profundamente envolvida em todos esses projetos.
Pequim irá construir estradas e dutos no Irã, incluindo um gasoduto para levar gás natural iraniano até a Turquia. A parceria Irã-China, em termos de investimentos projetados, é quase dez vezes mais ambiciosa que o CECP. Pode-se chamá-la de CECI (Corredor Econômico China-Irã).
Resumindo: os estados-civilização chinês e persa estão a caminho de repetir a relação muito próxima que desfrutaram durante a dinastia Yuan, a era da Rota da Seda, no século XIII.
CITNS ou nada
Uma outra peça do quebra-cabeça é como o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (CITNS) irá se unir à Iniciativa Cinturão e Rota e à União Econômica Eurasiana. Um ponto de importância central é que o CITNS é também uma alternativa ao Suez.
Irã, Rússia e Índia vêm discutindo desde 2002 as intrincadas minúcias desse corredor comercial marítimo/ferroviário/terrestre de 7.200 quilômetros de extensão. O CITNS, tecnicamente, começa em Mumbai e segue pelo Oceano Índico até o Irã, o Mar Cáspio, chegando então a Moscou. Uma medida da atratividade desse Corredor é que Azerbaijão, Armênia, Belarus, Cazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão, Ucrânia, Omã e Síria são membros do CITNS.
Para o grande deleite dos analistas indianos, o CITNS reduz o tempo de trânsito do Oeste da Índia ao Oeste da Rússia de 40 para 20 dias, ao mesmo tempo em que corta os custos em mais de 60%. O corredor já está em operação, embora ainda não como um elo de fluxo livre e contínuo marítimo-ferroviário.
Nova Delhi já gastou 500 milhões de dólares em um projeto da máxima importância: a expansão do porto de Chabahar, no Irã, que supostamente se tornaria seu ponto de entrada para uma Rota da Seda made in India, ligando o país ao Afeganistão, e seguindo então para a Ásia Central. Mas então, todo o projeto saiu dos trilhos quando Nova Delhi resolveu flertar com a fracassada proposta do Quad.
A Índia também investiu 1,6 bilhão de dólares em uma ferrovia ligando Zahedan, a principal cidade do sudeste do Irã, à mina de ferro/aço de Hajigak, no Afeganistão central.
O presidente da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento iraniano Mojtaba Zonnour já deu indicações de que, seguindo-se à parceria estratégica Irã-China, o passo seguinte deverá ser um acordo de cooperação estratégica Irã-Rússia que privilegie "serviços ferroviários, estradas, refinarias, petroquímica, automóveis, petróleo, gás, meio ambiente e empresas baseadas no conhecimento".
Uma possibilidade que Moscou já vem seriamente levando em conta é a construção de um canal entre o Cáspio e o Mar de Azov, a norte do Mar Negro. Enquanto isso, o já construído porto de Lagan no Mar Cáspio é um divisor de águas com certidão passada.
Lagan liga-se diretamente a diversos nós da ICR. Há conectividade ferroviária com a Transiberiana, chegando até a China. Cruzando o Cáspio, a conectividade inclui Turkmenbashi, no Turcomenistão, e Baku, no Azerbaijão, que é o ponto de partida da ferrovia BTK que cruza o Mar Negro e então segue da Turquia até a Europa.
Na faixa iraniana do Cáspio, o porto de Amirabad liga-se ao CITNS, ao porto de Chabahar e segue adiante até a Índia. Não é por acidente que diversas empresas iranianas, bem como o Grupo Poly da China e o Grupo Internacional de Engenharia Energética da China querem investir em Lagan.
O que vemos em jogo aqui é o Irã no centro de um labirinto que cada vez mais se interliga com a Rússia, a China e a Ásia Central. Quando o Mar Cáspio, finalmente, for ligado a águas internacionais, teremos um corredor de comércio e transporte que será uma alternativa real ao Suez.
Depois do Irã-China, deixou de ser irrealista imaginar o possível surgimento, em um futuro não tão distante de uma Rota da Seda do Himalaia unindo os membros do BRICS à China e à Índia (pensem, por exemplo, na energia do gelo himalaico convergindo em um Túnel de Energia Hidráulica de uso comum).
No estado atual das coisas, a Rússia está muito focada nas possibilidades ilimitadas do Sudoeste Asiático, como o Chanceler Sergey Lavrov deixou claro na 10ª conferência do Oriente Médio do clube de Valdai. Os presentinhos do Hegêmona em diversas frentes - Ucrânia, Belarus, Síria, NordStream 2 – empalidecem na comparação.
A nova arquitetura da geopolítica do século XXI já vem tomando forma, com a China fornecendo múltiplos corredores de comércio para um desenvolvimento econômico contínuo, e a Rússia sendo a fornecedora confiável de energia e bens de segurança, bem como a conceitualizadora da pátria da Grande Eurásia, com a diplomacia sino-russa de "parceria estratégica" jogando no longuíssimo prazo.
O Sudoeste Asiático e a Grande Eurásia já entenderam para que lado sopram os ventos (do deserto). E logo, os senhores do capital internacional também entenderão. Rússia, China, Irã, Índia, Ásia Central, Vietnã, Indonésia, a Península Coreana, todos passarão por um surto de capital - inclusive os abutres financeiros. Seguindo o evangelho que reza que a Ganância é Boa, a Eurásia está prestes a se tornar a suprema fronteira da Ganância.
Opinião - Paul Krugman: Abraçando o lado mais macio da infraestrutura
Investimentos no futuro nem sempre envolvem concreto
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Os republicanos estão tendo dificuldade para explicar por que são contra o Plano Americano de Empregos do presidente Biden.
Seus verdadeiros motivos não são um mistério. Eles querem que Biden falhe, assim como queriam que o presidente Barack Obama falhasse, e mais uma vez vão oferecer oposição de terra arrasada a qualquer proposta de um presidente democrata. E eles são especialmente contra programas públicos que possam ser populares, e assim ajudem a legitimar um governo ativista na mente dos eleitores.
Mas expor esses verdadeiros motivos não agradaria ao eleitorado, por isso eles estão procurando linhas de ataque alternativas. E nos últimos dias muitos republicanos parecem ter se concentrado na afirmação de que a maioria dos gastos propostos não são realmente em infraestrutura.

Sendo eles quem são, não podem deixar de ir a extremos ridículos, e suas alegações de que só uma pequena porcentagem da proposta é infraestrutura "real" são facilmente derrubadas. A única maneira de chegar a algum lugar próximo de seus números é declarar, bizarramente, que só despejar concreto para o transporte conta, o que significa excluir gastos em coisas essenciais para uma economia moderna como água limpa, eletricidade confiável, acesso a banda larga e outras.
É verdade, entretanto, que grande parte dos gastos propostos envolve apoio a coisas intangíveis --despesas em pesquisa e desenvolvimento, maior apoio à inovação e investimento em pessoas. Então, o que você precisa saber é que a tese para esses investimentos intangíveis é exatamente tão forte quanto a tese para se reparar estradas decadentes e pontes que desmoronam. De fato, é ainda mais forte.
Vamos começar pela tecnologia.
A ideia de que o investimento não é real se não envolver aço e concreto seria uma novidade para o setor privado. É verdade, lá nos anos 1950, cerca de 90% dos gastos em investimento das empresas foram em equipamento e estruturas. Mas hoje em dia mais de um terço do investimento das empresas é em "propriedade intelectual", principalmente P&D e compras de software.
As empresas, portanto, acreditam que podem alcançar resultados reais investindo em tecnologia --visão ratificada pelo mercado de ações, que hoje atribui um alto valor às companhias com relativamente poucos ativos tangíveis. O governo pode fazer o mesmo? Sim, pode. Na verdade, o governo Obama fez isso.
O investimento em tecnologia, especialmente em energia renovável, foi só uma fração do estímulo de Obama, mas é a parte que recebeu as piores críticas. Lembra-se de como os republicanos reclamaram sem parar de que as garantias de empréstimos para a companhia de energia solar Solyndra deram errado?
O negócio é que, se sua estratégia tecnológica só produz vencedores, você não está assumindo riscos suficientes. Os investidores privados não esperam que toda aposta dê certo; três em cada quatro startups apoiadas por capital de risco fracassam. A questão é se há sucessos suficientes para justificar a estratégia.
E o investimento de Obama em tecnologia verde produziu muitos sucessos. Você provavelmente ouviu falar na Solyndra; e ouviu falar no papel crucial de um empréstimo de US$ 465 milhões a uma empresa chamada Tesla?
Mais geralmente, os anos após 2009 foram marcados por um progresso espetacular em energia renovável, com a eletricidade solar e eólica em muitos casos hoje mais baratas que a de combustíveis fósseis. Ainda há pessoas que parecem imaginar que a energia verde é coisa de hippies cabeludos, mas a realidade é que é a onda do futuro.
Não sabemos quanto desse progresso pode ser atribuído ao estímulo de Obama, mas ele certamente desempenhou um papel.
E que tal os gastos em pessoas, que correspondem a centenas de milhões e poderão ser o principal foco de uma proposta adicional? Há evidência avassaladora de que é uma boa ideia.
A verdade é que é difícil avaliar a recompensa de gastar em infraestrutura física, porque não podemos observar o fato contrário —o que teria acontecido se não construíssemos aquela ponte ou estrada. Só teremos evidência sólida sobre o valor do investimento físico se, como parece muito possível, algumas peças chaves de nossa infraestrutura desmoronarem.
Em contraste, sabemos muito sobre os efeitos de investir em pessoas, porque alguns de nossos programas mais importantes voltados para as famílias, como cupons de alimentação, foram implementados gradualmente pelo país. Isso permite que os pesquisadores comparem a trajetória de vida dos americanos que receberam ajuda quando crianças com a dos que não receberam.
Os resultados são claros. As crianças que receberam ajuda se saíram melhor do que as que não receberam em todos os aspectos: educação, saúde, renda. O retorno social da ajuda a famílias, especialmente crianças, vem a ser enorme.
As partes mais macias, menos tangíveis, da agenda de gastos de Biden —incentivo a novas tecnologias, especialmente veículos elétricos, ajuda à educação e mais amplamente às famílias com crianças —devem ser consideradas "infraestrutura"? A resposta certa é: quem se importa? Tudo é investimento produtivo no futuro do país.
E o futuro precisa de trabalho. A recuperação da pandemia deve ser apenas o começo; precisamos de uma estratégia para curar nossos antigos problemas de crescimento lento da produtividade e fraca demanda privada. Investimento público em grande escala, seja ou não a ideia de infraestrutura para algumas pessoas, é o caminho a seguir.
Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves
Opinião - Paul Krugman: A pandemia e a cidade do futuro
Lições de Alexander Hamilton e o comércio de livros
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Em 1957, Isaac Asimov publicou "Naked Sun" (no Brasil, Os Robôs ou O Sol Desvelado), uma novela de ficção-científica sobre uma sociedade em que as pessoas vivem em propriedades isoladas, com suas necessidades atendidas por robôs, e interagem apenas através de vídeo. A trama gira em torno de como essa falta de contato direto distorce e limita suas personalidades.
Depois de um ano trabalhando em casa –os que puderam–, embora servidos por humanos menos afortunados, e não por robôs, isso parece quase certo. Mas como viveremos quando a pandemia passar?
Ninguém sabe realmente, é claro. Mas talvez nossa especulação possa ser informada por alguns paralelos e modelos históricos.
Na verdade, um ano de isolamento deu ao trabalho remoto um case clássico de proteção à indústria nascente, conceito geralmente associado à política de comércio internacional que foi enunciada sistematicamente pela primeira vez por ninguém menos que Alexander Hamilton.
Hamilton afirmou que havia muitas indústrias que poderiam florescer nos jovens Estados Unidos, mas não conseguiam decolar devido às importações. Se tivessem uma pausa na concorrência, por exemplo, por meio de tarifas temporárias, essas indústrias poderiam adquirir experiência e sofisticação tecnológica suficientes para se tornarem competitivas.
O argumento da indústria nascente sempre foi delicado como base para políticas –como você sabe quando é válido? E você confia nos governos para fazerem essa determinação? Mas a pandemia, ao impossibilitar temporariamente nossos antigos hábitos de trabalho, claramente nos tornou muito melhores para explorar as possibilidades do trabalho remoto, e parte do que costumávamos fazer –longos deslocamentos para nos sentarmos em cubículos, voos constantes para reuniões de valor duvidoso– não voltará.
Se a história servir de exemplo, entretanto, muita coisa de nosso antigo modo de trabalhar e viver de fato voltará.
Veja esta comparação: o que a internet fez ou não fez sobre nosso modo de ler livros.
Uma década atrás, muitos observadores acreditavam que os livros físicos e as livrarias que os vendem estariam à beira da extinção. E parte do que eles previram aconteceu: os leitores eletrônicos ocuparam uma parte significativa do mercado, e grandes redes de livrarias sofreram um golpe financeiro importante.
Mas a popularidade dos e-books atingiu um platô em meados da última década, nunca chegando perto de superar o lugar dos livros físicos. E enquanto as grandes redes sofreram as livrarias independentes vêm florescendo, na verdade.
Por que a revolução da leitura foi tão limitada? A conveniência de "baixar" livros é óbvia. Mas para muito leitores essa conveniência é superada por fatores mais sutis. A experiência de ler um livro físico é diferente e, para muitos, mais aprazível do que ler tinta eletrônica. E perambular numa livraria também é uma experiência diferente de comprar online.
Eu gosto de dizer que online posso encontrar qualquer livro que eu esteja procurando; na verdade, baixei um exemplar de Os Robôs algumas horas antes de escrever este artigo. Mas o que eu encontro numa livraria, especialmente uma loja independente com boa curadoria, são livros que eu não estava procurando, mas acabo descobrindo como um tesouro.
A revolução do trabalho remoto provavelmente vai acabar de modo semelhante, mas em uma escala muito mais ampla.
As vantagens do trabalho remoto –em casa ou, possivelmente, em pequenos escritórios situados longe das áreas urbanas mais densas– são evidentes. Os espaços para morar e trabalhar são muito mais baratos; os deslocamentos são curtos ou inexistentes; você não precisa mais lidar com a despesa e o desconforto da vestimenta formal de trabalho, pelo menos da cintura para baixo.
As vantagens de voltar ao trabalho em pessoa, em contraste, serão relativamente sutis –as recompensas da comunicação direta, a magia que pode surgir de interações imprevistas, as amenidades da vida urbana.
Mas essas vantagens sutis são, de fato, o que move as economias das cidades modernas –e até o ataque da Covid-19 essas vantagens alimentavam uma crescente divergência econômica entre grandes áreas metropolitanas, de alto nível educacional, e o restante do país. A ascensão do trabalho remoto pode prejudicar essa tendência, mas provavelmente não a reverterá.
O renascimento das cidades não será um processo totalmente bonito; grande parte dele provavelmente refletirá as preferências dos americanos ricos que querem os luxos e o glamour das grandes cidades. "O principal problema de mudar-se para a Flórida é que você tem de viver na Flórida", disse um gerente financeiro à agência Bloomberg.
Mas enquanto as cidades prosperam em parte porque atendem aos estilos de vida dos ricos e supérfluos –queira ou não, sua riqueza e seu poder ajudam muito a moldar a economia–, as cidades também prosperam porque muito compartilhamento de informação e atividade cerebral acontece nas pausas para o café e cervejas após o expediente; as ligações pelo Zoom não são um substituto adequado.
Ou, como disse o grande economista vitoriano Alfred Marshall sobre os centros tecnológicos de sua era, "os mistérios do negócio tornam-se não mistérios; mas é como se estivessem no ar".
Assim, a melhor aposta é que a vida e o trabalho em, digamos, 2023, serão muito parecidas com a vida e o trabalho em 2019, mas um pouco menos. Poderemos ir ao escritório menos do que costumávamos; talvez haja um excedente de espaço urbano para escritórios. Mas a maioria das pessoas não conseguirá ficar muito distante da multidão frenética.
Opinião - Paul Krugman: Um golpe que estava por acontecer havia décadas
Um aspecto notável do 'putsch' do Capitólio é que nenhuma das queixas dos rebelados tinha qualquer base na realidade
Não, a eleição não foi roubada –não existem provas de fraudes eleitorais significativas.
Não, os democratas não são parte de uma conspiração de pedófilos satanistas.
Não, eles não são marxistas radicais –mesmo a ala progressista do partido seria considerada como de esquerda moderada em qualquer outra democracia ocidental.
Assim, a raiva toda se baseia em mentiras.
Mas o que é quase tão notável quanto as fantasias dos arruaceiros é o número muito baixo de líderes republicanos que se dispôs, apesar da violência e do Congresso profanado, a dizer à turba do MAGA que suas teorias de conspiração são falsas.
Tenha em mente que Kevin McCarthy, o líder da minoria republicana na Câmara dos Deputados, e dois terços de seus colegas votaram contra aceitar os resultados do colégio eleitoral mesmo depois da invasão do Congresso. (McCarthy, em seguida, desavergonhadamente lamentou a “divisão”, declarando que “demos buscar a parte melhor de nossa natureza”).
Ou considere o comportamento de republicanos importantes que não são usualmente considerados extremistas. No domingo, o senador Rob Portman declarou que “precisamos restaurar a confiança na integridade do nosso sistema eleitoral”. Portman não é estúpido; ele deve saber que o único motivo para que tantas pessoas duvidem dos resultados da eleição é que membros de seu partido deliberadamente fomentaram a dúvida. Mas ele ainda assim mantém o fingimento.
E o cinismo e a covardia da liderança republicana são, eu argumentaria, a causa mais importante do pesadelo que nosso país está vivendo. É claro que precisamos compreender os motivos de nossos inimigos internos da democracia. Em geral, os cientistas políticos consideram –e não surpreende, dada a história política dos Estados Unidos– que o antagonismo racial é o fator mais acurado para prever a disposição de aceitar violência política. E casos individuais indicam que frustrações pessoais –muitas vezes envolvendo interações sociais e não “ansiedade econômica”– também parecem propelir muitos dos extremistas.
Mas nem o racismo e nem a atração generalizada por teorias da conspiração são novidades em nossa vida política. A visão de mundo descrita por Richard Hofstadter no clássico ensaio “O Estilo Paranoico na Política Americana”, de 1964, é extremamente semelhante à posição dos que acreditam na teoria de conspiração QAnon hoje.
Ou seja, não existe muita vantagem a extrair de entrevistas com sujeitos de boné vermelho em lanchonetes; sempre houve pessoas como eles. Se hoje elas existem ou parecem existir em número maior do que no passado, isso provavelmente tem menos a ver com terem mais motivos para queixas do que com um encorajamento externo ampliado.
Pois a maior coisa que mudou desde que Hofstadter escreveu sua análise é que agora um de nossos grandes partidos políticos se dispõe a tolerar a, e na verdade a se alimentar da, paranoia política de direita.
Acalentar os malucos inicialmente foi motivado quase inteiramente pelo cinismo. Quando o Partido Republicano começou a se mover para a direita, na década de 1970, sua verdadeira agenda era principalmente econômica –o que seus líderes desejavam, acima de tudo, era desregulamentação e cortes de impostos para os ricos. Mas o partido precisava de algo mais que a plutocracia para vencer eleições, e assim começou a cortejar os eleitores brancos de classe trabalhadora com apelos muito mal disfarçados ao racismo.
Não incidentalmente, a supremacia branca sempre foi sustentada pela supressão de direitos eleitorais. Assim, não deveria surpreender que os direitistas uivem em protesto contra uma eleição manipulada –afinal, manipular eleições é o que o lado deles está acostumado a fazer. E não está claro em que medida eles de fato acreditam que a eleição foi manipulada, em contraposição a estarem enfurecidos por a manipulação eleitoral que eles em geral praticam não ter tido sucesso desta vez.
Mas a questão não é apenas raça. Desde Ronald Reagan, o Partido Republicano está estreitamente vinculado à direita cristã de linha dura. Qualquer pessoa que se sinta chocada com a prevalência de teorias da conspiração insanas em 2020 deveria reler “The New World Order”, publicado pelo evangelista televisivo Pat Robertson, aliado de Reagan, em 1991, que retratava um país sob ameaça de uma cabala de banqueiros judeus, maçons e ocultistas. Ou ver um vídeo promovido em 1994 por outro líder evangélico, Jerry Falwelll pai, intitulado “The Clinton Chronicles”, que retrata Bill Clinton como contrabandista de drogas e assassino serial.
O que mudou, de lá para cá? Por muito tempo, a elite republicana imaginou que poderia explorar o racismo e as teorias da conspiração e manter o foco na agenda plutocrática. Mas com a ascensão primeiro do Tea Party e depois de Donald Trump, os cínicos descobriram que na verdade os malucos estavam no controle, e que o objetivo destes era destruir a democracia, e não reduzir a alíquota do imposto sobre ganhos de capital.
E a elite republicana, com raras exceções, aceitou seu novo status subserviente.
Há quem talvez tenha esperado que número significativo de políticos republicanos sãos enfim dessem um basta e rompessem com seus aliados extremistas. Mas o partido de Trump não reagiu à sua corrupção e abuso de poder; manteve o apoio quando ele se recusou a aceitar a derrota eleitoral; e alguns de seus membros estão reagindo a um violento ataque ao Congresso com queixas sobre a perda de seguidores no Twitter.
E não existe motivo para acreditar que as atrocidades que estão por vir –e haverá mais atrocidades– farão diferença. O Partido Republicano chegou à culminação de sua longa jornada para longe da democracia, e é difícil acreditar que seja possível redimi-lo.
Tradução de Paulo Migliacci
*
Opinião - Paul Krugman: Como o Partido Republicano se tornou selvagem
Democracia dos EUA está sob ameaça de um tribalismo malévolo
Sempre houve pessoas como Donald Trump: egocêntricas, inclinadas à autopromoção, convictas de que as regras se aplicam apenas ao povinho, e de que aquilo que acontece ao povinho não importa.
Mas o moderno Partido Republicano não se parece com qualquer coisa que tenhamos visto no passado, pelo menos na história dos Estados Unidos. Se ainda existe alguém que não está totalmente convencido de que um dos nossos dois grandes partidos políticos se tornou inimigo não só da democracia, mas da verdade, os acontecimentos transcorridos depois da eleição deveriam bastar para eliminar quaisquer dúvidas.
Não é só porque a maioria dos republicanos da Câmara e muitos senadores republicanos estão apoiando os esforços de Trump para reverter sua derrota eleitoral, embora não existam provas de fraude ou de irregularidades generalizadas. Veja a maneira pela qual David Perdue e Kelly Loeffler estão conduzindo sua campanha no segundo turno das eleições para o Senado na Geórgia.

Eles não estão fazendo campanha em torno das questões políticas ou mesmo de aspectos reais do histórico pessoal de seus oponentes. Em lugar disso, afirmam, sem qualquer base nos fatos, que os oponentes são marxistas ou estão “envolvidos no abuso de crianças”. Ou seja, as campanhas para reter o controle republicano do Senado se baseiam em mentiras.
No domingo, Mitt Romney execrou as tentativas de Ted Cruz e de outros republicanos do Congresso de reverter o resultado da eleição presidencial, questionando: “Será que a ambição eclipsou os princípios”? Mas que princípios Romney acredita que o Partido Republicano defende, nos últimos anos? É difícil ver qualquer coisa que embase o comportamento recente dos republicanos a não ser a busca de poder de qualquer que seja a maneira.
Como chegamos a esse ponto, portanto? O que aconteceu com o Partido Republicano?
Não começou com Trump. Pelo contrário: a degradação do partido é evidente, para quem se disponha a vê-la, já há muitos anos.
Em 2003, escrevi que os republicanos haviam se tornado uma força radical, hostil aos Estados Unidos em sua forma atual, e que potencialmente ambicionavam criar um Estado de partido único no qual “as eleições sejam apenas uma formalidade”. Em 2012, Thomas Mann e Norman Ornstein alertaram que o Partido Republicano “não se deixa influenciar pelo entendimento convencional dos fatos” e “desconsidera a legitimidade da oposição política”.
Quem se surpreende diante da avidez de muitos integrantes do partido por reverter os resultados de uma eleição com base em acusações especiosas de fraude simplesmente não estava prestando atenção.
Mas o que propele a queda dos republicanos à escuridão?
Será uma reação populista à elite? É verdade que existe ressentimento com relação à mudança na economia, que privilegia as áreas metropolitanas com populações de nível de educação elevado, em detrimento das áreas rurais e das cidades pequenas; Trump recebeu 46% dos votos, mas venceu a eleição em condados que representam apenas 29% do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos. Existe uma forte reação adversa dos brancos à crescente diversidade racial do país.
Mas os últimos dois meses representam uma lição prática sobre até que ponto a ira das “bases” na verdade é orquestrada pelas lideranças. Se uma grande parte da base republicana acredita, sem qualquer fundamento, em que a eleição foi roubada, isso acontece porque os líderes do partido vêm repetindo essa acusação. Agora os políticos mencionam o ceticismo generalizado quanto aos resultados da eleição como motivo para rejeitar o resultado –mas foram eles mesmos que conjuraram esse ceticismo, do nada.
E o que é notável, se estudarmos os antecedentes dos políticos que fomentam o ressentimento contra as elites, é o quanto muitos deles são privilegiados. Josh Hawley, o primeiro senador a declarar que objetaria à certificação dos resultados da eleição, protesta contra a elite, mas se formou na Universidade Stanford e na Escola de Direito de Yale. Cruz, que hoje lidera os esforços para subverter a eleição, tem diplomas de Princeton e Harvard.
O ponto não é que eles sejam hipócritas, e sim que não se trata de pessoas que tenham sido maltratadas pelo sistema. Assim, por que parecem tão dispostos a derrubá-lo?
Não acredito que seja apenas por serem cinicamente calculistas, ou que estejam fingindo para satisfazer as bases. Como já afirmei, na verdade é a base que está seguindo orientações da elite do partido. E a loucura dessa elite não parece ser apenas fingimento.
Meu melhor palpite é de que estamos contemplando um partido que se tornou selvagem –que cortou o contato com o resto da sociedade.
As pessoas comparam o Partido Republicano ao crime organizado ou a um culto, mas para mim os republicanos se parecem mais com os meninos perdidos de “O Senhor das Moscas”. Eles não recebem notícias do mundo externo, porque suas informações vêm de fontes partidárias que simplesmente não reportam fatos inconvenientes. Não estão sujeitos a supervisão adulta, porque, em um ambiente polarizado, há poucas disputas competitivas.
Assim, eles cada vez mais olham apenas para si mesmos, e se engajam em esforços cada vez mais absurdos para demonstrar sua lealdade à tribo. O partidarismo deles não se relaciona a causas, ainda que o partido continue comprometido com o corte dos impostos dos ricos e com punir os pobres; o objetivo é afirmar o domínio daqueles que estão por dentro, e punir quem fica de fora.
A grande questão é por quanto tempo os Estados Unidos na forma que conhecemos serão capazes de sobreviver diante dessa tribalismo malévolo.
A atual tentativa de reverter o resultado da eleição presidencial não terá sucesso, mas já se estendeu por muito mais tempo e atraiu muito mais apoio do que qualquer qualquer pessoa previa. E a menos que alguma coisa aconteça para romper o domínio das forças inimigas da democracia e da verdade sobre o
Partido Republicano, um dia elas terão sucesso em matar o experimento americano.
Tradução de Paulo Migliacci
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Opinião: Milly Lacombe - Neymar tem razão: o mundo anda chato

Milly Lacombe
Colunista do UOL
07/04/2021 10h20
Neymar é craque, jogador fora-de-série. Vi Neymar em campo pela primeira vez num jogo da Copinha, no campo do Nacional, em São Paulo. Ele estava no banco, entrou no segundo tempo, já nem lembro o ano (2005 talvez?). Eu, que comentava o jogo para a TV, me emocionei quando ele pegou na bola. Era um garoto mirrado mas em três toques dava para ver que ele jogava diferente de todos ali. Minha vontade era a de levantar e aplaudir, mas eu não podia. Ou será que podia?
Na saída do pequeno estádio, pensava em Neymar. Comovida, entendi que talvez eu tivesse visto um dos maiores jogadores da nossa história em campo naquele dia. Cheguei em casa querendo rever os melhores lances do jogo na TV, mas precisava ir ao mercado antes das nove. Na época eu morava em Perdizes, perto do estádio do Palmeiras, e decidi ir a pé porque a loja não era longe. Na volta, carregando mais sacolas do que devia, notei um homem vindo em minha direção.
Por que os canais pagos perdem tantos assinantes?
Toda mulher sabe que o primeiro medo que nos invade nessas horas é o do abuso sexual.
Dinheiro, celular, bolsa, compras? nada disso importa.
Importa não ser estuprada.
São quase 70 mil estupros reportados por ano (um número que não retrata a verdade porque muitas de nós não têm coragem ou força de prestar queixa. Estima-se que esse número seja 10% do total).
Mais da metade (53%), contra meninas de até 13 anos.
Calcula-se que uma mulher seja estuprada a cada 11 minutos - uma terá sido até você chegar ao final desse texto.
Sobreviver a um estupro é seguir com esse fantasma para o resto da vida.
Mas tem pior:
no Brasil, uma mulher é morta a cada 9 horas apenas por ser mulher.
É chato ser mulher numa sociedade como essa.
Muito chato.
Então eu tenho que concordar com Neymar:
viver nesse mundo é chato pra burro.
A gente que é mulher cresce aprendendo a ter medo do sexo oposto, um medo que a gente internaliza e depois segue administrando pela vida.
Já pensou ter medo do sexo oposto?
Você não acharia isso chato?
Homens, afinal, têm medo que mulheres riam deles.
Nós temos medo que homens nos matem.
É super chato quando, mesmo sabendo disso tudo, a gente tem que aturar que um dos candidatos à presidência faça piada com estupro.
Isso é chato demais porque, falando francamente, nunca é "só" uma piada, sabe?
Palavras importam e elas podem ser usadas fantasiadas de gracejo para legitimar abusos ou podem ser usadas vestidas de coragem para libertar o excluído.
Tem mais coisa chata nesse mundo.
Por exemplo: é chato ser mulher, ser comentarista de futebol e ser criticada por criticar técnicos e jogadores acusados de estupro.
É chato escutar:
"ah, calma, não precisa ficar tão brava falando desse assunto".
Chato comentar um jogo de futebol que envolve uma dessas pessoas e saber que você vai ter que avaliar o profissional no âmbito do futebol, mas que sua vontade era dizer:
esse cara aí para o qual vocês estão babando um ovo foi acusado de estupro e fica difícil falar dele tecnicamente sem pensar nisso, sem se indignar com isso, sem se revoltar com isso.
É chato pra caramba quando uma coisa assim acontece.
Mas talvez Neymar e eu não estejamos falando da mesma chatice quando ele vai para as redes sociais escrever que o mundo anda chato.
A chatice para ele é não poder fazer mais piadas ou comentários machistas, racistas, LGBTfóbicos.
Esse é o mundo chato de Neymar.
A chatice para mim é viver num mundo que, todos os dias, abusa, assedia e mata mulheres (estando as mulheres negras à frente dessas estatísticas todas) e seguir tendo que escutar piadas machistas, lgbtfóbicas e machistas.
Apenas como registro: somos o país que mais mata LGBTQs no mundo e também o que mais consome pornografia LGBTQ no mundo.
Nossa crise é de desejo, e isso é bem chato.
"É só uma piada", repetem os críticos do politicamente correto.
Então, gente, de novo:
nunca é "só" uma piada.
Palavras importam, palavras ferem, palavras matam ao legitimarem o ódio, o deboche, a exclusão.
Esses mesmos do "é só uma piada" diziam assim:
"Bolsonaro só fala. Pode votar 17 que ele não vai fazer nada dessas coisas horrorosas que fala".
Corta e adianta dois anos esse filme de terror:
vivemos num Brasil no qual é chato pra caramba ter que ficar em casa (quem tem a sorte de poder ficar em casa) porque se sair pega o vírus que mata e contra o qual o atual presidente se recusou a lutar dizendo "não, obrigada" quando laboratórios do mundo inteiro ofereceram vacinas.
Podíamos, agora, estar quase todos vacinados.
Chato saber disso, né?
É chato não poder sair de casa, e, ainda mais chato, ser obrigado a sair em plena pandemia para colocar o pão na mesa porque o ministro da Economia do atual governo diz que não tem mais do que R$ 150 pra auxílio emergencial - o mesmo ministro que no começo dessa tragédia liberou bilhões (ou trilhões, mas quem está prestando atenção?) para ajudar o sistema financeiro.
Chato.
Chatíssimo isso aí.
É chato também quando a gente vai pesquisar a quantidade de dinheiro perdida para a sonegação fiscal no Brasil:
R$ 415 bilhões por ano.
Difícil saber o que esse número significa?
Vamos escrever de um outro jeito:
o que a sonegação tira dos cofres públicos todos os anos é sete vezes maior do que o que tira a corrupção.
Chato demais isso.
Quantos hospitais poderíamos construir com esse dinheiro desviado pelos muito ricos?
Quantas escolas?
Quantas vacinas?
Quantas pesquisas em saúde pública?
Chato, chato, chato.
Chatíssimo quando a gente vê no noticiário que mais um bilionário teve sua dívida perdoada pelo fisco, ou quando o pai de um bilionário consegue audiência com o presidente e o ministro da Economia para tratar da dívida aos cofres públicos.
Caramba, isso é imensamente chato pra gente que paga tudo certinho, que anda na linha, e que nunca ganhou uma molezinha como essa.
Chato também quando tentam convencer você de que o maior problema do Brasil é a corrupção se a sonegação é sete vezes maior.
Corrupção, corrupção, corrupção:
é isso o que acaba com o Brasil e nada além disso, dizem por todos os lados.
Chato ser manipulado assim, né?
Quer saber outra coisa chata?
Quando a gente está vendo um jogo, e o craque do time, em vez de jogar bola, prefere simular faltas, rolar no chão executando um teatro macabro de vitimização.
Ô como é chato esse troço.
E a propósito:
mimimi, Neymar, é cair berrando de dor pela falta não sofrida.
Usar mimimi para falar da dor da exclusão, da dor da opressão, da dor do deboche é estar completamente desconectado do outro e da realidade a nossa volta.
Então, sim: o mundo anda chato.
Chato para todos, mas especialmente para mulheres, para negros e negras, para LGBTQs, para o entregador que trabalha no risco e nem uma gorjeta decente ganha, para o trabalhador que tem que se amontoar em um ônibus na volta para casa no meio de uma pandemia e ainda escutar dos poderosos, que raramente se manifestam pela boa luta, um mimimi sem fim pelo
"meu sagrado direito à piada e ao deboche".
Diante disso tudo não é pedir muito que o pessoal do "abaixo o politicamente correto" deixe de ser chato, engula o gracejo e, em vez de sair por aí exigindo espaço para seguir contando suas piadas ofensivas e opressoras, faça alguma coisa para que a gente viva numa sociedade mais justa, livre e decente.
O mundo atual tem chatices muito maiores do que não poder sequer fazer uma piada ruim que fere milhões e da qual poucos riem.
Acorda pra vida, Neymar. Seu destino era (é?) ser um gigante.
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Marinha dos EUA foi perseguida por OVNIs e ninguém consegue resolver mistério - Gizmodo Brasil

A Marinha dos Estados Unidos ainda não tem ideia de quem enviou um enxame de objetos voadores não identificados para perseguir navios de guerra na costa da Califórnia em julho de 2019, ou que tipo de drones eles eram e o que estavam fazendo, noticiou a NBC News na segunda-feira (5).
A notícia do incidente foi relatada pela primeira vez pelo Drive, que escreveu que os registros do convés obtidos sob a Lei de Liberdade de Informação dos Estados Unidos (FOIA) mostram que navios de guerra próximos ao campo de treinamento militar “sensível” nas Ilhas do Canal foram regularmente azucrinados por drones durante vários dias. Os veículos aéreos não identificados começaram suas viagens “prolongadas” à noite, muitas vezes em condições de baixa visibilidade.
O Drive também usou “centenas de gigabytes do sistema de identificação automática (AIS) de dados de localização de navios para uma reconstrução forense” das ocorrências. Os dados do AIS mostraram que os drones se concentraram no contratorpedeiro da classe Arleigh Burke USS Kidd, mas o USS Rafael Peralta, o USS Russell, o USS John Finn e o USS Paul Hamilton estavam nas proximidades, alguns dos quais estavam envolvidos na perseguição.
A combinação de registros de navios e dados AIS mostrou que os drones estiveram em operação por mais de 90 minutos, além da capacidade de unidades comerciais típicas, e que sua existência foi confirmada de forma independente por avistamentos do navio de cruzeiro Carnival Imagination. Investigadores navais tentaram identificar o que eram esses drones ou quem os estava operando (uma embarcação próxima, o ORV Alguita, negou ter veículos capazes de realizar tal operação).
Como o Drive observou, é curioso que, apesar de usar seus conjuntos de sensores sofisticados e implantar equipes de inteligência a bordo para registrar a nave, as embarcações envolvidas não foram capazes de produzir uma imagem melhor do que aconteceu, e o assunto não foi resolvido, apesar de relatos chegando ao “nível mais alto da hierarquia da Marinha”. O FBI também esteve envolvido na investigação, de acordo com a NBC. É possível que os drones em questão fossem algo totalmente diferente.
O almirante chefe de Operações Navais Michael Gilday abordou o assunto em um evento do Defense Writers Group, em Washington D.C., na segunda-feira, informou a NBC. A Marinha reconheceu uma série de incidentes bizarros envolvendo avistamentos de fenômenos não identificados, incluindo casos em que pilotos de caça encontraram objetos ostensivos que estavam se movendo de maneiras aparentemente além de qualquer capacidade técnica humana conhecida.
Ao mesmo tempo, vários relatórios documentaram os esforços do Pentágono para tentar esclarecer uma série de incidentes envolvendo aeronaves não identificadas, como o Programa de Identificação Avançada de Ameaças Aeroespaciais (que por sua vez envolveu alguns gastos questionáveis). Gilday fez referência ao trabalho contínuo da Marinha para agilizar o processo de relato sobre esses tipos de incidentes, bem como um relatório futuro que o Comitê de Inteligência do Senado solicitou que o Departamento de Defesa e o Diretor de Inteligência Nacional terminassem até junho.
Questionado se a Marinha havia identificado os drones, Gilday respondeu: “Não, não identificamos. Estou ciente desses avistamentos e, como foi relatado, houve outros avistamentos por aviadores no ar e por outros navios não apenas dos Estados Unidos, mas de outras nações — e, claro, outros elementos da força conjunta dos EUA.”
“Essas descobertas foram coletadas e ainda estão sendo analisadas”, acrescentou Gilday, dizendo que há “um processo bem estabelecido em vigor em toda a força conjunta para coletar esses dados e colocá-los em um repositório separado para análise”.
Questionado sobre se a nave era “extraterrestre”, escreveu a NBC News, Gilday não negou totalmente a possibilidade, mas disse que “não tinha nenhuma indicação disso”.
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