GERAL IX
Os EUA querem dar lições aos outros, mas são o país que mais viola os direitos humanos no mundo - José Reinaldo Carvalho
Estados zumbis: EUA apostam na fragmentação da América do Sul - Rodrigo Vianna
Por Rodrigo Vianna

Por Rodrigo Vianna
Das urnas, das ruas e das redes surgiram sinais contraditórios em boa parte da América do Sul nos últimos meses. Analistas de esquerda enxergam a possibilidade de uma nova onda progressista na região, mas o quadro é ainda nebuloso e incerto. Vejamos...
Se a primeira década do século XXI significou o enterro do neoliberalismo, com uma onda forte de esquerda a ocupar o poder (da Argentina à Venezuela, passando por Uruguai, Brasil, Paraguai, Bolívia e Equador), a década seguinte marcou uma virada para a direita - que se explica por mudanças na economia internacional, mas também por estratégias golpistas impulsionadas pelos Estados Unidos para reocupar o subcontinente.
Os governos de direita instalados no Brasil (Temer/Bolsonaro), Equador (Moreno), Argentina (Macri) e Bolívia (Añez) não mostraram o mesmo vigor programático do neoliberalismo da era FHC/Menem/Fujimori.
O curto ciclo de direita, que agora parece já perder fôlego, tem um caráter destrutivo: romper com programas sociais, anular práticas de valorização das populações negras e indígenas, desmontar a UNASUL e a política internacional independente, destruir o projeto de desenvolvimento autônomo e apagar do mapa qualquer vestígio de “socialismo do século XXI” – ainda que no Brasil e na Argentina, especialmente, os governos de esquerda tenham promovido poucas mudanças na estrutura produtiva, nada parecido com um programa “socialista”, nem muito menos “comunista”.
Vale destacar que a onda de direita foi contida na Venezuela. Ali, apesar de todos os problemas políticos e econômicos do governo chavista, a organização popular e as mudanças estruturais no aparelho de Estado (Forças Armadas) permitiram resistir ao golpismo patrocinado pelos EUA. Na Venezuela, “lawfare” e campanhas midiáticas não bastaram para derrubar a esquerda como se fez no Brasil. Tampouco se conseguiu produzir um golpe policial-religioso-militar como o ocorrido na Bolívia.
Mas o que importa observar é que, rapidamente, a direita mostrou seus limites em toda a região nos últimos cinco anos: governa para 30% da população, exclui a massa indígena e trabalhadora, não tem sequer projeto de desenvolvimento (ainda que concentrador, como ocorria no Brasil sob a ditadura de 1964).
Quando chamada a se manifestar no voto, a população devolveu o poder para a esquerda. A vitória de Aníbal Fernandez na Argentina, trazendo de volta o kirchnerismo à Casa Rosada, e o triunfo do MAS na Bolívia, derrotando em menos de um ano o golpe agro/militar/religioso/policial, pareciam indicar uma nova virada progressista a partir de 2020.
No Brasil, o retorno de Lula ao jogo aponta caminho semelhante. Mas é preciso cautela. A esquerda também não conseguiu apresentar um programa claro para o futuro e aposta mais numa “volta aos bons tempos”.
No Equador, isso permitiu que setores da direita liberal impusessem séria derrota ao grupo de Rafael Correa – elegendo em segundo turno um banqueiro. Na Bolívia, logo após ganhar a eleição presidencial, o MAS de Evo Morales acaba de sofrer importante revés nas eleições regionais, perdendo a maior parte dos governos. E, mesmo na Argentina, o peronismo sofre desgaste de popularidade por conta da pandemia e da crise econômica.
Então, a “nova onda progressista” pode ser apenas uma quimera? Calma...
No Peru, o quadro é de absoluta fragmentação: a esquerda organizada teve menos de 10% dos votos e ficou fora do segundo turno, num país destroçado pelo lavajatismo e pelo discurso antipolítica. Pedro Castillo, professor e sindicalista de esquerda, mas sem base organizada nacionalmente, é favorito para vencer a ultradireitista Keiko Fujimori no segundo turno; Castillo, no entanto, pode ter problemas para governar. A direita “liberal” ficou fora do jogo.
Na Colômbia, outro sinal de fadiga do discurso conservador: pesquisa divulgada esta semana mostra o ex-prefeito de Bogotá Gustavo Petro, de esquerda, em primeiro lugar nas pesquisas, seguido por Sergio Fajardo (um “verde-liberal” centrista). A direita uribista, radical, parece sem forças para a disputa.
Petro é um ex-guerrilheiro, que abandonou as armas há 30 anos, tem perfil social democrata e já veio ao Brasil participar de encontros organizados pelo Instituto Lula. A vitória de Petro seria histórica num país em que, desde o século XIX, liberais e conservadores se revezam no poder jogando para a ilegalidade os que resistem.
Esses sinais contraditórios indicam uma longa crise de hegemonia na região: o projeto neoliberal não dá mais conta de oferecer saídas, mas a esquerda pode ter dificuldades para se firmar, caso tente simplesmente repetir a estratégia dos anos Chavez-Lula-Kirchner-Evo-Mujica-Correia-Lugo.
Não há mais a bonança das commodities, a favorecer crescimento de exportações com uso dos excedentes em programas sociais. Isso expõe as vísceras de um grave conflito distributivo: o jogo “ganha-ganha”, em que os muitos ricos faturam e os pobres podem sonhar com alguma ascensão, se encerrou.
A direita, de outra parte, descobriu que o discurso radical, de demonização dos “comunistas” e de eliminação física e simbólica dos adversários, pode permitir vitórias e mobilizações populares. O ressentimento e o medo vieram para ficar, como armas da extrema direita em sociedades que não conseguem mais crescer como no passado.
A tendência no horizonte é de prolongamento do conflito.
Os Estados Unidos, e aqui volto a tema sobre o qual escrevi ainda antes da queda de Dilma, apostam não na construção de regimes “sólidos” de direita como fizeram nos anos 1960/1970 (Pinochet/Chile, ditaduras no Brasil/Argentina), mas em estados enfraquecidos.
Trata-se de um projeto já vitorioso no mundo árabe: desde o fim da Guerra Fria, os EUA impuseram derrota histórica aos países governados pelo chamado “nacionalismo árabe”: Tunísia, Líbia, Egito, Iraque e Síria. Nesta última, Assad só resistiu porque a Rússia entrou na guerra e sustentou o governo sírio - ainda que enfraquecido.
Depois de aniquilar o nacionalismo árabe, os EUA se voltaram de novo para América do Sul na segunda década do século XXI. O projeto aqui também é o de aniquilar o ensaio de independência, representado por UNASUL e CELAC (leia meu artigo sobre o tema).
O projeto imperial é consolidar por aqui o que tenho chamado de “estados zumbis”. O risco para os países da América do Sul é caminharem para uma situação de anomia, com estados nacionais cada vez mais fracos, divididos e incapazes de agir no xadrez mundial. Isso é fundamental para os Estados Unidos, na grande disputa travada contra Rússia e China.
A eleição de Lula, em 2022, pode significar um ponto de virada e definição. Mas será uma longa travessia para reconstruir, nas frestas da disputa mundial, um projeto independente em que a América do Sul possa crescer, protegendo a natureza e a vida, e distribuindo renda.
Dessa vez, isso só será possível se governos progressistas forem capazes de alterar estruturas produtivas e de poder, sem ilusões com burguesias nacionais que, na hora H, correm sempre para Miami e aceitam o papel de administradoras do espólio colonial.
A CPI do Genocídio precisa investigar as Forças Armadas - Carla Teixeira
Por Carla Teixeira

A CPI do Genocídio, prevista para ser instalada pelo Senado Federal na semana que vem, será uma excelente oportunidade para que os brasileiros conheçam a dimensão da tragédia que abate o país. À parte as consequências políticas e possível responsabilização de indivíduos, é muito importante que se faça a busca por soluções institucionais que protejam as instituições de serem utilizadas contra a vida da população, no futuro, por governantes inescrupulosos e sanguinários.
Entre os responsáveis, as Forças Armadas aparecem como as principais sócias do genocídio em curso. A presença de militares, da ativa e da reserva, em cargos do governo dão a medida de interferência dos milicos nas questões políticas do país e deve nos fazer considerar que talvez o problema maior não seja Bolsonaro, mas os generais que utilizam a popularidade do capitão para se manterem no poder.
Os atuais integrantes do Alto Comando se graduaram nos anos 1970, são filhotes da ditadura, (de)formados pela “linha dura” para enxergar a esquerda, os movimentos sociais e os meios de comunicação como inimigos. O general Augusto Heleno – chefe do Gabinete de Segurança Institucional –, quando era capitão, foi ajudante de ordens do então ministro do Exército, general Sylvio Frota, demitido por Geisel, em 1977, por tentar dar um golpe e impedir a abertura democrática.
A redemocratização baseou-se num arranjo político marcado pela conciliação e acomodação. O acerto anistiou torturadores, assassinos e ocultadores de cadáveres que jamais foram submetidos a qualquer justiça de transição. Os militares e integrantes da sociedade civil que apoiaram a ditadura nunca tiveram a democracia como valor, apenas como senso de oportunidade para garantir suas posições hegemônicas na nova ordem constitucional pós-1988.
Assim, a presença de milicos no atual governo é a volta dos que não foram. Diante da crise social que sangra o país, os militares mantiveram seus privilégios, seus salários, não foram atacados pela deforma da previdência, usufruem de cargos no governo e garantem a impunidade diante dos inúmeros crimes cometidos durante a pandemia. Isso sem contar as compras superfaturadas de leite condensado, pizza, vinho e cerveja. Não foi o acaso que manteve o general Pazuello no ministério da saúde quando nenhum sanitarista aceitou o cargo para fazer campanha contra o uso de máscaras, vacinas e a favor de remédios ineficazes.
Na retaguarda do gordo favorito do presidente, o Exército comprou, produziu e distribuiu cloroquina superfaturada (pagou seis vezes mais que o valor usual), mesmo sabendo que o medicamento é ineficaz contra a covid. Houve uma demanda do ministério da saúde pela distribuição do “Kit Covid” (contendo cloroquina, ivermectina e azitromicina) durante a crise de oxigênio ocorrida em Manaus. À época, médicos do Hospital da FAB denunciaram pressão, coação e represálias para que a hidroxicloroquina fosse receitada aos pacientes com covid.
Após o retumbante fracasso no combate à pandemia que já alcança o estarrecedor número de mais de 381 mil mortes, a demissão de Pazuello, do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, e dos três comandantes das Forças foi uma manobra que tentou colocar os militares como garantidores da ordem institucional e (acredite se quiser!) dos princípios democráticos, versão ecoada e replicada pela mídia corporativa (a mesma que apoiou a ditadura militar).
As falas de generais afirmando que “não há risco de ruptura” demonstra que ninguém quer ser o fiador de um governo fracassado. Ademais, qualquer golpe seria redundante, pois o atual governo já é militar. Em relação à ideologia da ditadura, a mudança é de forma, não de conteúdo: a hierarquia e a ordem que se impõem através do silenciamento do conflito, modelo que tentam reproduzir para o restante da sociedade.
Recentemente, o ex- comandante do Exército, general Pujol, disse que Pazuello deveria ter pedido demissão quando Bolsonaro o impediu de comprar vacinas. Aos incautos, fica parecendo que a decisão de permanecer ministro foi exclusivamente de Pazuello (o futuro boi de piranha), mas nas Forças Armadas nenhum militar da ativa se mantém num cargo civil sem a permissão do seu comandante (no caso, o próprio Pujol). Há uma tentativa de descolar a instituição militar dos crimes cometidos na pandemia, jogando uma cortina de fumaça que permita entrever apenas as atitudes individuais.
Uma das frentes de investigação da CPI do Genocídio será a recomendação do uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19. À luz da leniência praticada durante a redemocratização - que anistiou torturadores e assassinos, preservando suas memórias ao prazer dos fanáticos de agora –, os senadores têm o dever cívico e histórico de apurar o papel desempenhado pelas Forças Armadas no genocídio e os indícios de corrupção envolvendo a compra, produção e distribuição de cloroquina. Os generais precisam prestar contas à sociedade civil. Sem apurar isso, incorreremos novamente em erro e não seremos capazes de construir uma democracia sólida no Brasil.
Digam olá para o novo chefão multilateral - Pepe Escobar
Por Pepe Escobar

Por Pepe Escobar, para o Asia Times
Tradução de Patricia Zimbres, para o 247
Em tempos de grandes tensões geopolíticas, cabe a um verdadeiro estadista subir ao pódio global e neutralizar a atmosfera tóxica de Guerra Fria 2.0. O Presidente Xi Jinping proferiu sua fala no Fórum anual de Boao, em Hainan.
Aqui vai a íntegra do discurso. E comecemos com uma única frase:
No momento em que enfrentamos a pandemia da covid-19, pessoas de todos os países perceberam com a máxima clareza que é necessário abandonar a mentalidade de guerra fria e os jogos de soma-zero e se opor a qualquer nova forma de guerra fria e de confrontação ideológica.
A plateia em Boao, uma espécie de Davos chinês, era composta não apenas por convidados pan-asiáticos. É significativo que estivessem presentes Elon Musk da Tesla, Tim Cook da Apple, Stephen Schwarzman da Blackstone, e Ray Dalio da Bridgewater, entre outros, ouvindo Xi com a máxima atenção.
Em um discurso relativamente compacto, Xi, mais uma vez, expôs a arquitetura do multilateralismo - e nela se encaixa uma China de volta à posição de superpotência. A mensagem talvez tenha sido sutilmente dirigida ao Hegêmona, mas seus alvos principais foram uma Eurásia em processo de rápida integração e a totalidade do Sul Global.
Xi ressaltou que o multilateralismo é o domínio da justiça, não da hegemonia, que nele ocorrem "consultas amplas", onde os países maiores se comportam de forma condizente com seu status, e com um maior senso de responsabilidade", tudo isso levando a "benefícios compartilhados", e não à prosperidade do 0.001%.
Pequim vê uma economia mundial aberta como sendo o caminho para o multilateralismo – que implica a ausência de "muros" e de "dissociação", com a China abrindo progressivamente sua economia e reforçando a interconexão das cadeias de fornecimento, da economia digital e da inteligência artificial (IA).
Resumindo, trata-se do Made in China 2025 em ação – sem referência à terminolgia tão demonizada durante a era Trump.
O multilateralismo e a economia aberta são os principais componentes da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) – que é não apenas um vasto modelo de comércio/desenvolvimento, mas também o principal conceito da política externa chinesa.
Xi, mais uma vez, teve que enfatizar que a ICR é "uma estrada pública aberta a todos, e não um caminho privado para a propriedade de uma única parte". Trata-se tanto do alívio da pobreza, do crescimento econômico e da "conectividade dura" de infraestrutura, quanto da "conectividade branda", que inclui a "cooperação no controle das doenças infecciosas, na saúde pública, na medicina tradicional e outras áreas".
É bastante significativo que, ao mencionar a adoção das vacinas chinesas, Xi tenha usado dois exemplos do Sul Global: Brasil e Indonésia.
Como seduzir o Sul Global
O enfoque chinês de um novo padrão de relações internacionais se baseia tanto em Confúcio quanto no Tao. Daí a ênfase na ideia de "comunidade de destino compartilhado" aplicada em escala global, e a rejeição de uma "mentalidade de Guerra Fria e de jogo de soma-zero", bem como da confrontação ideológica sob qualquer forma".
O ênfase recai sobre "igualdade, respeito mútuo e confiança mútua" na frente das relações internacionais, bem como no "intercâmbio e aprendizado mútuo entre civilizações". A maioria esmagadora do Sul Global compreende perfeitamente a mensagem.
Nas atuais circunstâncias, entretanto, a realpolitik dita que a Guerra Fria 2.0 já está em andamento, opondo Washington à parceria estratégica Rússia-China. O jogo, na verdade, tem lugar principalmente no Sul Global.
Xi, portanto, deve ter conhecimento de que recai sobre Pequim o ônus de provar que "um novo tipo de relações internacionais" é o roteiro preferencial para o futuro do mundo.
O Sul Global terá pleno conhecimento dos esforços chineses para "redobrar esforços para ajudar os países em desenvolvimento a derrotar o vírus" e "honrar seu compromisso de transformar as vacinas em um bem público global".
Em um nível prático, isso será de importância tão crucial quanto manter a China sob controle no que se refere à promessa feita por Xi de que o estado-civilização "jamais buscará hegemonia, expansão ou esfera de influência, por mais forte que ele venha a se tornar". O fato é que vastas regiões da Ásia pertencem, naturalmente, à esfera da influência econômica chinesa".
A União Europeia estará fortemente focada na "cooperação multilateral em comércio e investimentos" - referindo-se à ratificação e assinatura, no final do corrente ano, do acordo comercial China-União Europeia. E os empresários norte-americanos que acompanharem com cuidado a fala de Xi terão grande interesse em uma promessa sedutora: "Todos são bem-vindos a compartilhar as vastas oportunidades do mercado chinês".
As relações internacionais estão hoje totalmente polarizadas entre sistemas de governança rivais. No entanto, para a maioria esmagadora dos atores do Sul Global, em especial os países mais pobres, o teste decisivo para cada um desses sistemas - como os acadêmicos chineses sabem perfeitamente - é a capacidade de fazer avançar a sociedade e melhorar a vida das pessoas.
Acadêmicos e formuladores de políticas chineses privilegiam o que eles chamam de planos de desenvolvimento SMART (específicos, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e temporalmente definidos).
Na prática, isso vem se traduzindo na confiança que a maioria dos cidadãos chineses têm em seu modelo político - sejam quais foram as interpretações ocidentais. O que importa é que o controle da covid-19 na China foi mais rápido que em qualquer outro lugar do mundo; que a economia voltou a crescer, que a erradicação da pobreza foi um imenso sucesso (800 milhões de pessoas saindo da pobreza em três décadas, 99 milhões na zona rural em 128.000 aldeias na etapa mais recente); e que a meta oficial de uma "sociedade moderadamente próspera" vem sendo alcançada.
Pequim, ao longo dos anos, montou cuidadosamente a narrativa de uma "ascensão pacífica" baseada no imenso legado histórico e cultural do país.
Na China, a interação entre ressonância histórica e sonhos futuros é extremamente complexa e difícil de ser decodificada por um estrangeiro. Ritmos passados estão sempre ecoando no futuro.
O que isso significa, em última análise, é que o excepcionalismo chinês - bastante óbvio nos séculos de sua história - baseia-se essencialmente no confucionismo, que define a harmonia como a virtude suprema e abomina o conflito.
E é por essa razão que a China não irá seguir o beligerante passado colonialista do Ocidente hegemônico: essa também foi uma das principais mensagens do discurso de Xi em Boao. Caso Pequim consiga convencer o Sul Global dessa narrativa de "missão histórica" – com atos tangíveis, e não apenas mera retórica - então estaremos entrando em um capítulo inteiramente novo.
Os EUA querem dar lições aos outros, mas são o país que mais viola os direitos humanos no mundo - José Reinaldo Carvalho
Por José Reinaldo Carvalho

Mais uma vez, a comunidade internacional se depara com a proclamação por parte da Casa Branca de que um dos aspectos centrais de sua política externa, durante a Administração do Presidente Joe Biden, será a "defesa dos direitos humanos".
Na história remota e recente, essa questão sempre vem à tona como pretexto para atacar terceiros países, promover sanções e bloqueios, golpes, intervenções e outras ações desestabilizadoras.
Apesar de estarem em funções há apenas três meses, o atual chefe da Casa Branca e seu Secretário de Estado já usaram a questão dos direitos humanos para ofender chefes de Estado e ameaçar países, entre estes a China, a Rússia, o Irã, Cuba e a Venezuela. Políticos estadunidenses, além do Presidente e do Secretário de Estado também proclamam a primazia da luta pelos direitos humanos como aspecto central da vida política internacional. Um recente documento do Senado dos EUA também estabelece a necessidade de se adotar uma estratégia de "contenção da China", sugerindo como pautas prioritárias para a realização desse fim a questão dos direitos humanos e a provocação de instabilidade política no território do grande país asiático.
Tal postura governamental e de círculos políticos estadunidenses é uma flagrante violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, cujo princípio fundamental é a autodeterminação dos povos e nações, o que implica a livre escolha dos seus sistemas políticos.
Para além disso, o uso do pretexto dos direitos humanos para justificar ações hostis contra outros países ignora outro princípio fundamental, qual seja o de que as políticas de direitos humanos no mundo não são homogêneas, mas concebidas e aplicadas em conformidade com as peculiaridades nacionais e os sistemas econômico-sociais. É desinformação ou má fé atribuir a países como China e Cuba, para citar dois exemplos, a condição de violadores dos direitos humanos, quando a própria ONU e outros organismos multilaterais aplaudem as políticas pró-ativas que esses dois países desenvolvem nesse terreno. Proteger os direitos humanos é antes de tudo defender o direito à vida, promover políticas públicas voltadas para o desenvolvimento social, destacadamente o combate à pobreza, aspecto em que a China é reconhecidamente o exemplo mais edificante no mundo.
Feitas essas considerações, é necessário ressaltar que não assiste moral aos Estados Unidos para apontar o dedo acusador a ninguém no que se refere a direitos humanos, por se tratar do país que é o maior violador desses direitos no mundo, algo que já ficou comprovado pelos crimes de lesa-humanidade que cometeu sistematicamente dentro e fora de seu território ao longo da história.
Os Estados Unidos são o país do racismo estrutural, da discriminação da população afrodescendente vítima de violações diuturnas de seus direitos humanos que muitas vezes se expressam através de crimes hediondos como foi o assassinato do cidadão de George Floyd, em 25 de maio do ano passado, em Minneapolis, que motivou maciças manifestações de protestos. Anteriormente nos anos de 2012, 2014 e 2015, para citar os episódios mais recentes, foram assassinados outros cidadãos negros, inclusive de menor idade, em Sanford (Flórida), Ferguson (Missouri), Utah e Ohio. Essas violações são uma herança do escravismo que vigorou naquele país até a segunda metade do século 19.
Um dos aspectos mais sombrios a revelar a violação dos direitos humanos nos Estados Unidos é o sistema judicial, com a maior taxa de encarceramento do mundo, mais de 700 pessoas por 100.000 habitantes. Isto é várias vezes a taxa de pessoas encarceradas em qualquer outro país. Os negros e hispânicos, que são cerca de 30% da população masculina americana, representam 60% dos presidiários, em mais uma indicação do racismo estrutural. (1)
Outro dado revelador de violações sistemáticas dos direitos humanos nos Estados Unidos é o confinamento em regime de solitária nas prisões. Estima-se que mais de 80.000 pessoas estão presas em regime de isolamento, em instalações com precária ventilação e sem luz natural (2). Muitos acusados de um crime são mantidos na prisão por longos períodos antes do julgamento, pois não podem pagar a fiança. Além disso, muitas pessoas recebem sentenças de prisão prolongadas por crimes menores. Há casos de presidiários cumprindo sentenças de décadas ou até prisão perpétua meramente por furto em lojas.
Outro indicador da gravidade das violações aos direitos humanos nos Estados Unidos é que mais de meio milhão dos seus cidadãos dormem nas ruas. Não têm seguro de saúde cerca de 27 milhões de pessoas e por volta de outros 60 milhões têm planos de saúde precários, sendo considerados como “subsegurados” (3).
Nos Estados Unidos, não há um sistema único de saúde, isto é, uma rede articulada com um propósito comum, mas sim uma série de programas estaduais independentes pouco conectados entre si. Cada uma das 50 unidades federativas tem o próprio sistema, em que o principal operador é o mercado, que atua com pouca regulação e portanto com reduzido alcance para a parte mais vulnerável da população.
A pandemia da covid-19 evidenciou as falhas desse sistema, com trágicas consequências sociais - a morte de mais de 560 mil pessoas. Com apenas 4% da população mundial, os EUA têm até agora 20% das mortes por covid-19 de todo o mundo (4).
O menosprezo pela universalidade dos direitos humanos nos EUA se manifesta também nas limitações do seu sistema político e eleitoral, que não é exemplo de democracia como habitualmente se propala. Trata-se de um sistema que institucionalizou a bipolarização, comprometendo sua representatividade e a participação política dos cidadãos, um sistema que reflete os interesses das grandes corporações econômicas e financeiras.
No plano externo, os Estados Unidos violam os direitos humanos através de atos intervencionistas, golpes, assassinatos de líderes políticos e guerras propriamente ditas. Os episódios mais notórios dos últimos anos foram as guerras no Golfo e a guerra no Afeganistão, que acarretaram em seu conjunto, além das perdas militares, centenas de milhares de mortes de civis.
Para além de tudo isso, os EUA não praticam nem respeitam o multilateralismo, apesar de muitas vezes o defenderem no plano retórico. É um país que se recusa a assinar a maioria dos acordos multilaterais e invariavelmente não reconhece o direito à paz e ao desenvolvimento de outras nações.
Os Estados Unidos são, assim, um país que viola os direitos humanos e se coloca frontalmente contrário à tendência principal de nossa época, que é o esforço pelo desenvolvimento compartilhado por toda a humanidade.
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(1) Abreu, Antonio, "Como nos EUA se trituram direitos humanos fundamentais", publicado no sítio "Abril", em 7 de abril de 2021[https://www.abrilabril.pt/internacional/como-nos-eua-se-trituram-direitos-humanos-fundamentais]
(2) Ozorio de Melo, João, "Consultor Jurídico", publicado em 3 de agosto de 2019 https://www.conjur.com.br/2019-ago-03/eua-presos-usam-justica-melhorar-condicoes-vida
(3) "Como a falta de um sistema universal de saúde prejudicou a resposta americana à pandemia", publicado no site AGRI em 20 de julho de 2020 [https://socgastro.org.br/novo/2020/07/como-a-falta-de-um-sistema-universal-de-saude-prejudicou-a-resposta-americana-a-pandemia/]
(4) Dados do Worldometers em 13 de abril de 2021 [https://www.worldometers.info/coronavirus/country/us/]
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