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Aos 100 dias, Biden dispensa bipartidarismo e se torna o presidente ousado que ele nunca disse que seria
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5 momentos-chave do discurso de Biden ao Congresso - BBC News Brasil

Meio século depois de entrar no Congresso dos Estados Unidos como senador, Joe Biden retornou à Casa para proferir seu primeiro discurso como presidente americano.
Biden prometeu um conjunto de medidas no valor total de US$ 4 trilhões (cerca de R$ 21,4 trilhões), incluindo a expansão do ensino gratuito, desde a educação infantil à superior, e também a assistência financeira a crianças pobres. E celebrou a superação de sua promessa de aplicar nos americanos 100 milhões de doses de vacina contra a covid-19 nos seus primeiros 100 dias de mandato (o número já passa de 220 milhões de doses aplicadas).
A BBC News separou cinco momentos-chave da fala de Biden no tradicional discurso ao Congresso feito pelos presidentes americanos a cada início de ano.
'Senhora vice-presidente, senhora presidente da Câmara'
Pela primeira vez na história americana, as duas pessoas sentadas atrás do presidente enquanto ele proferia esse tipo de discurso eram mulheres.
Crédito,
Chip Somodevillaat/REUTERS
Pela primeira vez, duas mulheres apareceram atrás do presidente no discurso ao Congresso — a vice-presidente Kamala Harris (à esq.) e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, com Joe Biden à frente
Eram elas: a presidente da Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira) e política democrata de posto mais alto no Congresso, Nancy Pelosi, e a vice-presidente Kamala Harris, que atuou como senadora pela Califórnia antes de concorrer na chapa presidencial democrata em 2020.
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Ao cumprimentar "a senhora vice-presidente e a senhora presidente da Câmara", Biden acrescentou: "Nenhum presidente jamais proferiu essas palavras nesta tribuna. Nenhum presidente jamais proferiu essas palavras, e já estava na hora".
'A verdade acima das mentiras'
Biden começou seu discurso ao Congresso com uma referência não muito sutil ao seu antecessor, Donald Trump.
O atual mandatário disse que "herdou uma nação em crise", e descreveu os EUA como uma "casa em chamas".
"Agora, depois de apenas 100 dias, posso contar à nação: os EUA estão progredindo novamente", disse ele, acrescentando que o país nunca fica parado.
"Os EUA estão emergindo de novo. Escolhendo a esperança em vez do medo. A verdade acima das mentiras. A luz sobre as trevas. Após 100 dias de recuperação e renovação, os EUA estão prontos para decolar. Estamos trabalhando novamente. Sonhando novamente. Descobrindo novamente. Liderando o mundo novamente."
'Eliminar o racismo estrutural'
As tensões raciais atingiram novos picos no ano passado, após a morte de George Floyd em maio de 2020 durante uma abordagem policial em Minneapolis.
Biden se referiu em seu discurso ao assassinato de Floyd pelas mãos de um agente, dizendo: "Todos nós vimos o joelho da injustiça no pescoço da América negra."
"Não vamos ignorar o que nossas próprias agências de inteligência afirmaram: a ameaça terrorista mais letal à pátria hoje é o terrorismo de supremacia branca."
Crédito,
EPA/CRAIG LASSIG
George Floyd foi morto após ser sufocado por mais de nove minutos por policial em maio de 2020, nos EUA
O presidente também defendeu a polícia, recebendo aplausos, dizendo que "a maioria dos homens e mulheres uniformizados usam seu distintivo e servem suas comunidades com honra".
Mas ele disse que o trabalho deve ser feito "para reconstruir a confiança entre as autoridades policiais e as pessoas a quem elas servem, para erradicar o racismo estrutural em nosso sistema de Justiça criminal".
Os ricos precisam 'pagar sua parte justa'
Grande parte do discurso de Biden se concentrou em vender seus planos de grande investimento para reformar a infraestrutura e os programas sociais dos EUA.
O American Jobs Plan, por exemplo, tem US$ 2,3 trilhões (cerca de R$ 12,3 trilhões) previstos para um pacote de infraestrutura — e com esperada geração de empregos —, incluindo obras de transporte público, ferrovias, aeroportos, saneamento, internet banda larga de alta velocidade, estradas e pontes, hospitais e creches.
E todos esses planos dependem do aumento de impostos sobre os ricos.
O presidente insistiu na noite de quarta-feira que era um jogo justo.
"É hora de as corporações americanas e o 1% mais rico dos americanos pagarem sua parte justa. Apenas paguem sua parte justa", disse ele.
Muitas empresas sonegam impostos por meio de paraísos fiscais, da Suíça às Bermudas e às Ilhas Cayman, e se beneficiam de brechas e deduções fiscais que permitem o offshoring de empregos e a transferência de lucros para o exterior. Isso não está certo."
Biden enfatizou que sua proposta de reforma tributária ajudaria a "recompensar o trabalho, não a riqueza" e afetaria "três décimos de 1% de todos os americanos".
A Casa Branca indicou que o pacote seria viabilizado pelo aumento em quase duas vezes da alíquota de imposto de renda sobre ganhos de capital acima de US$ 1 milhão, chegando a 39,6%; e também pela elevação da alíquota para famílias com renda superior a US$ 400 mil.
O governo também iria "reprimir" os milionários e bilionários que trapaceiam nos impostos.
"Olha, não pretendo punir ninguém. Mas não vou aumentar a carga tributária da classe média deste país", disse Biden.
"O que eu propus é justo."
'Temos que provar que a democracia ainda funciona'
Biden encerrou a noite relembrando os eventos de 6 de janeiro, quando os apoiadores de Trump invadiram o Capitólio dos Estados Unidos, e pediu aos congressistas que provassem que a democracia pode superar tais atos.
Crédito,
Getty Images
Para Biden, a invasão do Congresso por apoiadores de Trump, que deixou cinco mortos, foi "o pior ataque à nossa democracia desde a Guerra Civil"
No início de seu discurso, ele chamou a invasão, que deixou cinco mortos, de "o pior ataque à nossa democracia desde a Guerra Civil".
"Nossa democracia pode atender às necessidades mais urgentes de nosso povo? Pode nossa democracia superar as mentiras, raiva, ódio e medos que nos separaram? Os nossos adversários, os autocratas do mundo, estão apostando que não", disse.
"Eles acreditam que estamos cheios de raiva, divisão e raiva. Eles olham para as imagens da multidão que atacou este Capitólio como prova de que o sol está se pondo sobre a democracia americana.
"Eles estão errados. E temos que provar que estão errados. Temos que provar que a democracia ainda funciona."
100 dias de governo Biden: Como o presidente americano enterrou a Era Trump e deixou Bolsonaro fragilizado

"A diplomacia voltou", prometeu Joe Biden. Seus cem primeiros dias na presidência americana representaram, de fato, uma guinada importante na política externa dos EUA, com a Casa Branca mergulhada num esforço para refazer alianças minadas durante a Era Trump e deixar claro que o isolacionismo não era uma opção se o país busca ser protagonista no destino do mundo.
Mas a transformação nos EUA fez uma vítima: o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) que, isolado, foi obrigado a rever sua estratégia internacional e mudar o tom de seu discurso.
O presidente brasileiro foi um dos últimos a reconhecer a vitória do democrata, chegou a falar em fraude e gerou indignação nos EUA ao não condenar de forma contundente a invasão do Capitólio.
Brasil: órfão e fragilizado
O republicano Donald Trump tinha em Bolsonaro seu aliado incondicional na aliança erguida para reconstruir o palco internacional a partir de uma base ultraconservadora e religiosa.
O elo entre os dois líderes teve repercussões na forma como o Brasil passou a votar em decisões da ONU sobre direitos das mulheres, acesso à educação sexual, direitos reprodutivos, movimento LGBTQIA+ e temas como racismo, violência policial, minorias e mesmo sobre democracia.
A aliança profundamente ideológica também afastou o Brasil de posturas tradicionais em temas relacionados a Cuba e Israel, além de fazer com que o país ecoasse o discurso americano contra o Partida Comunista Chinês.

Órfão, fragilizado e sob pressão, o Palácio do Planalto busca agora uma diplomacia que seja vista como mais pragmática. Mas a desconfiança internacional é de que a mudança de discurso não represente, de fato, uma transformação na política externa e nem nos princípios defendidos por Bolsonaro.
A mudança de governo nos EUA é importante para o mundo e, especialmente, para o Brasil. Trump era o único ponto de apoio internacional do governo Bolsonaro, e isso não é desprezível."
Celso Amorim, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa
Mas o fim do governo do republicano, segundo o diplomata, "mudou a correlação de forças no Brasil". Ainda que não tenha sido o único fator, a chegada de Biden ajudou na queda de Ernesto Araújo no comando do Itamaraty e contribuiu para que fosse tomada uma decisão de buscar uma imagem mais pragmática para a diplomacia. "Para o Brasil, mais importante que a chegada de Biden, foi a queda de Trump", conclui.
Como Biden afetou Bolsonaro

Pandemia
Uma das principais transformações de Biden no cenário internacional foi assumir a gravidade da pandemia e apostar numa resposta coordenada do mundo à crise.
A Casa Branca retornou à OMS, voltou a pagar suas contribuições para a entidade, destinou recursos para a compra de vacinas pela Covax e deixou claro, nos bastidores, que iria colocar todo seu peso para que a reforma da agência mundial de Saúde atendesse a seus objetivos.
A mudança deixou o Brasil sozinho nas críticas e no relacionamento conflituoso com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Por meses, Bolsonaro ecoava os ataques de Trump contra a agência, por vezes usando exatamente as mesmas palavras para se referir à OMS e suas recomendações.
Abandonado pela Casa Branca e diante de uma explosão de casos e de mortes, o Palácio do Planalto optou por adotar um novo tom.

Desde março, o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, saiu em busca do apoio da OMS e, em abril, pela primeira vez, houve uma reunião entre o chanceler brasileiro Carlos França e o diretor-geral da agência, Tedros Ghebreyesus. No encontro, o Brasil ouviu um apelo: "Exerça sua liderança global".
Críticos da postura americana, porém, alertam que a ação de Biden é insuficiente, já que ele privilegiou a vacinação em seu país — inclusive para jovens — antes de autorizar qualquer doação ou exportação de insumos para a fabricação de doses em outros lugares do mundo.
Isso, segundo a OMS, aprofunda a disparidade global. Enquanto mais de 220 milhões de doses foram distribuídas apenas nos EUA, países pobres receberam menos de 50 milhões. Sem citar nomes, Tedros chegou a chamar o comportamento dos países ricos de acumular vacinas de um "escândalo moral".

Meio Ambiente
Outra transformação na posição americana se refere ao meio ambiente. Biden, segundo negociadores internacionais, de fato usou essa plataforma para tentar mostrar ao mundo uma tradução na prática de sua promessa de que "America is Back" (Os EUA voltaram).
Na semana passada, em uma cúpula organizada pela Casa Branca, o presidente americano anunciou metas ambiciosas de redução de emissões de gases de efeito estufa e fez questão de colocar o tema no centro de sua agenda para 2021.
Biden também conseguiu reunir, de forma virtual, os principais líderes mundiais, inclusive rivais como Vladimir Putin e Xi Jinping.
Uma vez mais, o órfão foi o Brasil, que contava com o apoio de Trump para se recusar a entrar em negociações aprofundada sobre a questão climática. Em 2019, diante dos incêndios na Amazônia, foi o ex-presidente americano que abortou uma declaração conjunta do G7 contra a situação brasileira.
Sentindo-se blindado por Trump, o Brasil até mesmo apresentou compromissos insignificantes em relação às metas de emissões em dezembro de 2020.

O jogo, porém, mudou com Biden, que na campanha eleitoral já havia ameaçado Bolsonaro por seu comportamento em assuntos climáticos. Como resposta, o presidente brasileiro não poupou críticas ao americano.
Contudo, uma vez no poder, o pragmatismo foi restabelecido e os dois governos voltaram a negociar. Isso, porém, não impediu que, na cúpula de Biden na semana passada, o Brasil descobrisse que não era mais protagonista em temas ambientais (foto).
Colocado num lugar de mero coadjuvante, Bolsonaro abandonou os ataques contra a comunidade internacional e mentiu sobre a situação brasileira.
Suas promessas foram vistas como resultado da pressão de Biden, da ausência de Trump e da insistência de governos estrangeiros para que o Brasil fizesse um gesto. Mas não convenceu negociadores.
Na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a adesão sonhada do Brasil vai depender de como o governo atua na questão climática, enquanto na União Européia não há chance de um acordo com o Mercosul vingar enquanto não houver provas de um compromisso de Bolsonaro em lutar contra o desmatamento.

Direitos Humanos
Uma outra aposta de Biden é a recuperação da agenda internacional sobre direitos humanos, incluindo o reconhecimento do racismo estrutural, da violência policial, da vulnerabilidade de minorias e da agenda LGBTQIA+.
Em sua pauta também estão temas como a garantia de espaço para a sociedade civil, o fortalecimento da imprensa, a denúncia de estratégias de desinformação e o fortalecimento da democracia.
Em todos esses aspectos, ainda que o impacto possa levar mais tempo para ser notado, outra vez o Brasil se depara com a ausência de um aliado. Na própria cúpula do clima, Biden não deixou Bolsonaro ser o único brasileiro a falar. Horas depois, a Casa Branca deu espaço para uma liderança indígena, Sinéia do Vale, da etnia wapichana (foto).

Nos primeiros dias de seu governo, Biden ainda anunciou na Organização Mundial da Saúde (OMS) o fim da postura da administração Trump de vetar termos como saúde reprodutiva e direitos sexuais em programas e resoluções internacionais. O gesto representa o fim de uma aliança e da promoção de uma agenda ultraconservadora no mundo, que contava com o Brasil como um dos principais pilares.
No Itamaraty e nas alas mais conservadoras de apoio do governo, a aproximação nesses temas com Trump era considerada como um dos principais movimentos da política externa do ex-chanceler Ernesto Araújo e da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves.
O argumento do grupo liderado por Trump, Bolsonaro e Viktor Orban (Hungria) era que existiria uma manobra nas entidades internacionais para incluir termos como direito à saúde reprodutiva e sexual nos programas, o que abriria uma brecha para legitimar o aborto.

China e Rússia
A transformação da política externa de Biden, porém, não significou uma mudança profunda em relação aos chineses, foco também de duras críticas de Trump.
A Casa Branca indicou que quer trabalhar com Pequim onde houver pontos de acordo, como na questão ambiental. Mas, em reuniões fechadas com a cúpula da ONU, revelaram que os diplomatas americanos pressionam a comunidade internacional a denunciar a situação de direitos humanos na China, enquanto no setor de tecnologia a ordem é a de não perder mais espaço para os asiáticos.
Trump havia aberto uma crise internacional ao elevar tarifas contra bens chineses e estabelecer de fato uma guerra comercial, inclusive paralisando os trabalhos na OMC (Organização Mundial do Comércio).
Ao assumir o poder, Biden destravou os trabalhos na agência mundial do comércio e indicou que quer uma reforma da entidade. Mas não retirou a pressão comercial sobre a China.
Para negociadores, um dos grandes desafios de Biden será o de dar sinais para a classe média americana de que a "volta dos EUA ao mundo" não significará a perda de empregos e a fuga de empresas das cidades americanas.
A julgar pelos cem primeiros dias de governo, o confronto com Pequim não ocorrerá pelas redes sociais ou por declarações. Tampouco haverá um espaço para uma moderação.
Ao falar ao New York Times, recentemente, uma frase chamou a atenção de diplomatas. "Quero ter certeza de que iremos lutar para que haja investimentos primeiro nos EUA", disse. Em inglês, a frase soou com duas palavras conhecida da Era Trump: "America first".

Para negociadores estrangeiros, a atitude de Biden sobre a China não difere do que Trump mantinha, pelo mesmo no que se refere à substância. "Temos um Trump com bons modos", ironizou um diplomata.
De fato, pelo mundo, o governo americano vem fazendo pressão para que haja um front contra a China, no que ficaria claro durante uma cúpula que Biden quer organizar em maio sobre a defesa da democracia.
Temas como as violações à população Uyghur e a situação das liberdades fundamentais em Hong Kong também estão no centro da ofensiva americana.
Da mesma forma que pressiona a China, Biden também deu sinais de que não está disposto a retirar por enquanto sanções impostas sobre a Rússia, em coordenação com os europeus.
Para embaixadores pelo mundo, os cem primeiros dias foram marcados por uma elevada velocidade no esforço de Biden de mostrar ao mundo que não é Trump e que os EUA voltam a ser um parceiro.
Mas negociadores alertam que isso não será suficiente para reconquistar a posição de liderança no cenário internacional, hoje disputado de forma intensa por interesses chineses e num período em que, pela primeira vez, a Ásia soma mais de metade do PIB do planeta.
Edição: Clarice Cardoso;
Biden chega à marca dos 100 dias de mandato: confira quais promessas foram cumpridas
Joe Biden cumpriu algumas das promessas que havia anunciado em campanha, mas mantém outras esquecidas. Uma das principais travas é a política externa do democrata

Brasil de Fato - O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, completa nesta quinta-feira (29) 100 dias à frente do cargo, com uma marca de 54% de aprovação popular, segundo pesquisa de opinião do projeto FiveThirtyEight. Até agora, obteve a aprovação de 11 de leis e 42 ordens executivas, cumprindo algumas promessas que havia anunciado em campanha, enquanto ainda mantém algumas promessas esquecidas.
Pandemia
Conforme disse que faria durante a campanha eleitoral, o presidente democrata criou uma força-tarefa para conter os contágios da covid-19 e distribuiu 200 milhões de doses de imunizantes em todo o país. Até o momento, 114.8 milhões de estadunidenses foram vacinados, equivalente a 42% da população. Essas cifras foram alcançadas enquanto os Estados Unidos exportaram menos de 10% da sua produção nacional.
O quadro, se positivo por um lado, gera críticas por outro. “Os Estados Unidos estão concentrando as vacinas, enquanto deixam no limbo os países do Sul global. E vemos os ataques contra China e Cuba que estão fazendo o impossível para salvar vidas”, afirma Claudia de la Cruz, militante da Assembleia Internacional dos Povos (AIP) nos Estados Unidos.
Equipes de especialistas, chamadas de tanques de pensamento (think tanks), que assessoram a Casa Branca, apontam que os EUA precisam tomar o lugar da China como principal fornecedor de imunizantes, dentro da disputa geopolítica pela posição de maior potência global.
Atualmente, Biden promete enviar 60 milhões de doses da vacina da Astrazeneca para a América Latina. Em março, foram enviadas 2,5 milhões de doses ao México.
O democrata também anuncia investimentos na contenção da pandemia internamente. De acordo com a Casa Branca, os Centros para Controle e Prevenção de Doenças receberão nos próximos meses US$ 8,7 bilhões em recursos suplementares, o que o governo diz ser o maior aumento em duas décadas.
Apesar do sucesso na contenção da crise sanitária, a diretora da organização The People's Forum, Claudia de La Cruz, assegura que Biden está longe de ser um presidente popular.
“Biden não ganhou por ser o melhor candidato para o povo dos Estados Unidos ou porque o povo entendia que era uma opção que representava os interesses das maiorias, ganhou porque para muitos era menos doloroso vê-lo ganhar no lugar de Donald Trump, e para outros assegurava os interesses da classe dominante melhor que Bernie Sanders (candidato derrotado nas prévias do Partido Democrata nas últimas eleições)", analisa.
Economia
O chefe da Casa Branca anunciou recentemente o Plano Biden, que prevê o desembolso de US$ 4,15 trilhões (aproximadamente R$ 20,7 trilhões), equivalente a 20% do PIB anual dos EUA, para a recuperação econômica do país.
Pelo tamanho do desembolso, o projeto tem sido comparado com o New Deal, do ex-presidente Franklin Delano Rooselvet, posto em prática para socorrer a economia depois da Grande Depressão de 1929.
O pacote está dividido em duas partes, a primeira inclui US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 9,5 trilhões) para ajudar pequenas empresas e pagar auxílio emergencial aos mais pobres, além de estender o período de seguro-desemprego.
A segunda parte compreende um plano de investimento em infraestrutura, chamado de Plano de Emprego Americano, no valor de US$ 2,25 trilhões distribuídos, nos próximos oito anos, entre infraestrutura geral e residencial. O valor seria financiado com o aumento de 21% para 28% do imposto corporativo. Se conseguir aprovar essas mudanças irá cumprir outra promessa de campanha que era de aumentar os impostos aos empresários.
Esse valor servirá para fornecer internet à população rural, renovar estradas até realizar incentivos à pesquisa e ao desenvolvimento de fontes de energia limpa.
Na última terça-feira (27), Biden assinou um decreto aumentando o salário mínimo para prestadoras de serviço federais de US$ 7 a US$ 15 por hora.
“Essas ações são mínimas, realmente tocam a superfície da crise econômica, que é muito profunda. Temos mais de 40 milhões de desempregados e mais de 45 milhões de desalojados”, denuncia Claudia de La Cruz.
Mudança Climática
Na última semana, Biden concluiu outra de suas promessas centrais de campanha que era convocatória de uma Cúpula do Clima. Durante o encontro entre líderes, prometeu reduzir as emissões de gases do efeito estufa em pelo menos 50% até 2030.
Além disso, revogou decretos de Trump, retornando ao Acordo de Paris e cancelou a construção do oleoduto Keystone.
Para o próximo ano fiscal aumentou em US$ 14 bilhões o orçamento da pasta. A "economia verde" será o carro-chefe da reativação econômica dos Estados Unidos, segundo porta-vozes da gestão Biden.
Migração
Apesar de que no primeiro dia de mandato emitiu um decreto que ampliava o programa de Ação para Chegada de Crianças (DACA - sigla em inglês) -- aumentando os prazos para entrega de documentos e permissões de trabalho -- o tema migratório é o ponto fraco da gestão, segundo a opinião pública estadunidense.
Biden manteve o limite de entrada de 15 mil refugiados, estabelecido por Trump, apesar de ter prometido que aumentaria para 62,5 mil.
O democrata também se apoiou em regras estabelecidas pelo republicano para aumentar as deportações. Até março, 60% dos 171 mil imigrantes que cruzaram a fronteira sul do país foram deportados e cerca de 4 mil permanecem detidos.
A gestão bateu recorde de crianças e adolescentes desacompanhados detidos nas unidades do sistema migratório. Até março eram 18.890 jovens presos– a maior cifra dos últimos 20 anos.
Em fevereiro, Biden criou uma força-tarefa para ajudar a identificar crianças separadas de seus pais e reunir as famílias. No entanto, até o início de abril, nenhuma família havia sido reunida.
Em relação ao muro fronteiriço entre Estados Unidos e México, o mandatário havia estabelecido um prazo de 60 dias para revisar o projeto. Até o momento, não enviou mais recursos, mas não suspendeu as obras.
Também durante os primeiros dias de gestão propôs um projeto de lei para legalizar a situação de imigrantes que entraram no país de maneira irregular, que desde então está parado no Congresso.
Os pactos de migração com o México e as nações da América Central terão um orçamento de US$ 861 milhões para o próximo ano.
Organizações sociais questionam que a maior parte da verba é direcionada para aumentar a patrulha nas fronteiras ao invés de atacar os motivos que geram a imigração: desemprego, pobreza e violência nos países de origem.
O governo mexicano já enviou 10 mil soldados a mais para vigiar sua fronteira, enquanto Honduras mandou 7 mil efetivos e Guatemala deve deslocar mais 1,5 mil homens aos 12 postos de controle fronteiriço.
Política exterior
Este talvez seja o aspecto em que a administração Biden mais se assemelha à gestão do seu antecessor republicano. Nos primeiros dias de mandato, o Pentágono voltou a bombardear a Síria, revivendo a guerra, que já dura dez anos.
No orçamento do próximo ano fiscal dos EUA, o presidente aumentou em 1,7% as verbas para defesa, chegando a US$ 753 bilhões, sete vezes superior ao valor destinado para financiar a educação.
“Vemos uma reafirmação da agenda imperialista dos EUA. Em geral, os democratas nunca abandonaram essa posição de guerra”, aponta de La Cruz.
Além disso, o democrata não retrocedeu na guerra comercial contra a China, apontando o país asiático como o principal adversário dos EUA. Já nos primeiros meses de gestão, nomeou uma embaixadora da ONU com um histórico “anti-China” e emitu novas sanções acusando suposta violação de direitos humanos no território chinês.
"Esses ataques à China representaram um aumento dos crimes de ódio contra os imigrantes asiáticos dentro dos Estados Unidos", afirma Claudia de La Cruz.
Por outro lado, também aumentou a tensão com a Rússia, acusando o presidente Vladimir Putin de ser um “assassino”, emitindo novas sanções e expulsando dez diplomatas russos de Washington.
Biden também havia prometido reativar as negociações com o Irã sobre o Acordo Nuclear, assinado em 2015 durante a gestão Obama, e abandonado por Trump. Outra promessa que não se cumpriu.
Além disso, há menos de uma semana, Joe Biden anunciou a criação de um Centro de Controle de Influências Malignas, subordinado à Agência Central de Inteligência (CIA), para conter a “influência da Rússia, Irã, Coreia do Norte e China”.
Em relação à América Latina, Washington continua reconhecendo o autoproclamado Juan Guaidó como presidente encarregado da Venezuela e concedeu o Status de Proteção Temporal (TPS – siglas em inglês) a 320 mil venezuelanos residentes nos EUA.
“No caso do conflito na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, Biden não só aproveitará, como seguirá criando as condições para um possível ataque contra a Venezuela, contra Cuba e Bolívia”, defendeu.
Apesar das expectativas logo após sua eleição, Joe Biden também não reatou a negociações de retomada de relações diplomáticas com Cuba, interrompidas ou até anuladas durante a gestão republicana.
Biden discursou como se fosse Bernie Sanders

Joe Biden pode ter sido eleito presidente dos EUA como um moderado e centrista, mas tem governado como um progressista mais próximo ao campo da esquerda dentro do Partido Democrata. Seu discurso para o Congresso na quarta-feira estava mais em sintonia com Bernie Sanders do que com Barack Obama, especialmente nos trechos sobre a economia. Seria uma mistura da tradicional social-democracia europeia com os emergentes partidos verdes da Alemanha e da França.
Para celebrar seus 100 dias na Casa Branca, Biden foi progressista em economia. Foi progressista em imigração. Foi progressista na educação. Foi progressista na questão das armas. Foi progressista na reforma da polícia. Foi progressista nos direitos das minorias LGBTQ+. Foi progressista nos direitos das mulheres. Foi progressista no meio ambiente.
Não está claro se estes seus ambiciosos planos para transformar os EUA serão aprovados no Congresso. Haverá enormes dificuldades. Mas está claro que Biden deu uma guinada para a esquerda. No campo social, até era esperado. Os democratas vinham adotando esta agenda há anos. A grande mudança se dá mesmo na economia, com um crescimento no papel do Estado. Segundo a consultoria de risco político Eurasia, o neoliberalismo praticamente morreu nos EUA. O Partido Republicano, com Donald Trump, já havia adotado uma postura protecionista, contra o livre mercado. Agora foi a vez dos democratas. O atual presidente se distanciou das políticas econômicas de Bill Clinton e Barack Obama.
Ao longo do seu discurso, Biden se focou muito mais em questões domésticas do que em política externa. Seria também na linha de Bernie Sanders ou mesmo de Trump, que tinha o slogan de “America First” (EUA em primeiro lugar). Chegou a mencionar a China, com críticas leves e pouco específicas à violação dos direitos humanos naquele país. Não entrou, no entanto, em detalhes sobre a perseguição à minoria uighur em Xinjiang e tampouco à repressão aos ativistas pró-democracia em Hong Kong. Ainda assim, deixou espaço aberto ao diálogo.
No caso da Rússia, foi um pouco mais assertivo ao citar os ataques cibernéticos e à intervenção nas eleições dos EUA, embora também celebrando o diálogo em áreas de convergência como o START. O Irã e a Coreia do Norte integraram uma passagem rápida, sem profundidade. O Afeganistão ganhou mais espaço por causa da retirada das tropas — determinadas por Trump, mas que será implementada por Biden, com adiamento da data da saída dos militares para o aniversário de 20 anos dos atentados do 11 de Setembro.
Senti falta de menções a aliados americanos, como a União Europeia, Reino Unido, Canadá, Japão, Coreia do Sul e Austrália. Questões ligadas ao Oriente Médio, como Israel e Palestina e Guerra da Síria, ficaram ausentes. Da América Latina, apenas países da América Central foram incluídos na parte de imigração — nem mesmo México e Cuba receberam menções.
Pode-se discordar ou concordar com os posicionamentos de Biden ao longo do discurso. Certamente, muitos conservadores e políticos republicanos não devem ter gostado. Ao menos, porém, o discurso foi feito por uma pessoa normal e não pela aberração que presidiu os EUA nos últimos 4 anos.
Aos 100 dias, Biden dispensa bipartidarismo e se torna o presidente ousado que ele nunca disse que seria

WASHINGTON - Durante o governo de Barack Obama, Joe Biden era conhecido por fazer piadas autodepreciativas. Não ter ido às universidades Harvard ou Yale, ele dizia, não o impedia de ser um especialista em política externa ou de saber negociar com o Legislativo.
Agora com 100 dias de mandato, que se completam nesta sexta, Biden não pede mais desculpas. O presidente impulsiona a maior expansão do governo dos Estados Unidos em décadas, pretendendo gastar US$ 6 trilhões para enfrentar os desafios sociais e econômicos em uma escala nunca vista em meio século. Para um político que fez uma campanha eleitoral prometendo uma restauração das velhas normas políticas, seu histórico até agora equivale a um tipo de revolução que ele disse no ano passado que não perseguiria — mas que, segundo assessores, tornou-se inevitável diante da pandemia.
O resultado é algo que poucas pessoas esperavam: sua Presidência está transformando o significado de ser um democrata, mesmo na ala mais conservadora do partido que passou décadas pregando o evangelho do bipartidarismo.
— Ficamos muito felizes com sua agenda e somos os moderados — disse Matt Bennett, cofundador do Third Way, um centro de estudos democrata que recebeu o nome da linha de governo adotada pelo ex-presidente Bill Clinton. — Alguns disseram que esta é uma lista de desejos progressistas. Nós diríamos que ele está definindo o que é ser um democrata moderado do século XXI.
Biden alardeou sua agenda de expansão de gastos públicos novamente na noite de quarta-feira em seu primeiro discurso ao Congresso, defendendo seus esforços para aumentar a vacinação e despejar trilhões de dólares na economia como uma forma de unificar uma nação fragmentada.
— Estamos vacinando a nação; estamos criando centenas de milhares de novos empregos — disse ele. — Estamos entregando resultados reais às pessoas. Elas podem ver e sentir em suas próprias vidas.
Biden, 78, buscou essas mudanças radicais sem perder o faro de saber onde está o eixo central de seu partido. À medida que o consenso democrata sobre as questões mudou ao longo dos anos, ele acompanhou o ritmo — aborto, controle de armas, casamento entre pessoas do mesmo sexo, Guerra do Iraque e Justiça criminal — sem nunca chegar à mais extrema posição progressista. Agora, ele está liderando um partido que se inclinou para a esquerda durante o governo Trump.
Em ligações privadas com o senador Bernie Sanders — derrotado nas primárias democratas — ele coleta ideias da ala progressista do partido. Com o senador Joe Manchin, democrata centrista da Virgínia Ocidental, ele mantém o controle sobre a base no Parlamento. E, em conversas com o senador republicano Mitch McConnell, líder da minoria e um parceiro de negociação de longa data, Biden faz apelos por apoio bipartidário, mesmo quando adverte que não vai esperá-lo indefinidamente.
— Biden é um político que se adapta ao momento — disse Rashad Robinson, presidente da organização de justiça racial Color of Change, que estava cética em relação a Biden durante as primárias, mas agora elogia seu trabalho. — Ele entende quando o contexto cultural mudou.
Para consternação de alguns republicanos, Biden está abordando a política de maneira diferente dos presidentes democratas recentes, que acreditavam que o apoio do partido adversário seria um baluarte para as suas políticas. Na década de 1990, Clinton adotou a triangulação, uma estratégia que forçou os progressistas a se conformarem com políticas moderadas, fechando acordos com os republicanos. O ex-presidente Barack Obama passou meses tentando conseguir a adesão bipartidária para as suas propostas.
Ambas as estratégias estavam enraizadas em temores que começaram na era Reagan: fazer muito para agradar a ala à esquerda poderia afastar os eleitores moderados que tinham uma visão cética do governo, deixando os democratas incapazes de construir coalizões para a reeleição.
Biden e seu governo adotaram uma filosofia diferente, argumentando que os tempos difíceis tornaram as ideias progressistas populares entre os independentes e alguns eleitores republicanos, mesmo que os líderes republicanos continuem a resistir a elas.
A guinada para a esquerda, dizem os assessores, reflete um reconhecimento por Biden de que os problemas enfrentados pelo país exigem soluções abrangentes, mas também que ambos os partidos mudaram durante os anos de polarização do governo Trump. Foi-se o Senado onde Biden passou décadas legislando como o ex-presidente Ronald Reagan, que gostava de dizer que chamaria de vitória qualquer negociação em que pudesse obter 70% do que queria.
— Há uma diferença entre o presidente Biden e o senador Biden — disse o ex-senador Chuck Hagel, um republicano que serviu por décadas com Biden e apoiou sua candidatura presidencial. — Há mesmo uma diferença entre o presidente Biden e o vice-presidente Biden. Ele é o presidente agora e tem a responsabilidade de tentar fazer o país avançar. Sim, ele quer fazer isso de uma forma bipartidária, se puder. Mas o fato é que esses problemas não vão se resolver sozinhos.
Outros republicanos veem um presidente mais dissimulado, que quebrou suas promessas. Em um discurso na quarta-feira à tarde, McConnell acusou Biden de "propaganda enganosa" durante sua campanha, dizendo que os americanos "elegeram um presidente que pregava moderação". Ele acrescentou:
— Em poucos meses, os funcionários de Biden parecem ter desistido de vender a verdadeira unidade.
Em seu discurso, Biden diz estar aberto a ouvir as ideias republicanas sobre seus planos, mas que não as esperará para sempre.
— Aceitamos ideias. Mas o resto do mundo não está esperando por nós. Não fazer nada não é uma opção.
Freire: Ignorância reacionária brasileira pinta Biden, o suave, como estatista e radical
Presidente não é estatista nem Roosevelt e segue certa tradição econômica dos EUA
Joe Biden quer o “Estado máximo”. Seria um Franklin Roosevelt. A gente lê essas tolices sobre os planos do presidente americano e seu primeiro discurso para o Congresso, nesta semana. Anos de mercadismo tosco e a degradação geral da inteligência no país talvez expliquem a incapacidade de apenas ler ou ouvir o que disse Biden. Quem sabe a tolice na verdade seja contrapropaganda prévia, receio de que mesmo a brisa de conversa mais progressista sopre por aqui.
“Wall Street não construiu este país. A classe média construiu este país. E os sindicatos constroem a classe média. E por isso que estou pedindo ao Congresso que aprove a Lei de Proteção ao Direito de se Organizar... Por falar nisso, vamos aprovar o salário mínimo de US$ 15 [por hora]. Ninguém deveria trabalhar 40 horas por semana e ainda viver abaixo da linha de pobreza. E precisamos garantir mais igualdade e oportunidade para as mulheres”, discursou o presidente.
Biden quer gastar mais? Quer. Se todos os seus planos forem aprovados, o aumento de gasto deve ficar em 1,5% a 2% do PIB americano, por ano, em parte coberto por aumentos de arrecadação e de impostos sobre ricos e empresas (que estão em baixa histórica, de oito décadas). Nem de longe há o “risco” de que os EUA comecem a se parecer com a Escandinávia, com o Canadá ou, “pior”, menos ainda com a França.

Biden propôs alguma mudança econômica institucional maior? Ainda não. Talvez o faça na regulação ambiental, que terá vida dura no Senado.
No mais, os planos Biden têm duas linhas maiores e uma linhazinha: 1) emprego para gente pobre, que estudou menos e minorias; 2) subsídios para a pesquisa cientifica e tecnológica —até prometeu cura do câncer; 3) remendos na seguridade social.
Biden fala de criar empregos que não serão terceirizados, exportados, para o resto do mundo e de trabalhos que tão cedo não serão feitos por máquinas: gente que cuida de creches, professores de escolas infantis, cuidadores de idosos e deficientes, operários de construção civil e serviços conexos (90% das vagas do plano de empregos não exigem formação universitária, disse).
Fala de pagar a faculdade comunitária: dois anos de ensino superior técnico em escolas locais. Jill, a primeira-dama, dá aula em uma faculdade dessas. Fala de licença familiar e médica paga de 12 semanas, de desconto de impostos para quem tem filhos, de baixar o preço do remédio e do plano de saúde. “Estado máximo”?
De início, o plano não dá conta, por si só, de fatores fundamentais da polarização de renda e educação, dos riscos socioeconômicos da automatização e dos empregos que migram para países em que se paga salário menor.
“Roosevelt”? Roosevelt praticamente inventou o Estado americano, em tamanho de gasto e instituições, e fez com que a figura do presidente americano se ocupasse decisivamente de economia (antes, era mais comandante em chefe, líder diplomático e político-moral).
Sim, Biden tem grandes planos, consideradas as expectativas reduzidas e a desumanidade reacionária do nosso tempo. Caso não invente um projeto de mudança ambiental profunda, pode fazer guinada importante, retomando linhagens antigas de política econômica americana, “hamiltonianas”, mas não reviravolta. Vai subsidiar a pesquisa e desenvolvimento das empresas (o que foi feito maciçamente desde a Segunda Guerra até o desmonte Reagan, que não foi total, aliás).
No mais, vai tentar remendar a selvageria dos últimos quase 40 anos de desigualdade crescente e de esvaziamento do miolo social americano.
Biden promete uma revolução: mais estado, impostos sobre ricos, controle de armas e nova lei da polícia | Míriam Leitão - O Globo
Por Míriam Leitão

Ao ser eleito, esperava-se que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fizesse um período de transição, conciliasse os mais moderados entre os democratas com a esquerda. Mas as emergências da hora levaram a mudanças mais profundas em relação a Trump nos seus primeiros 100 dias de governo. A pandemia, a crise econômica e a explosão dos casos de racismo estão levando Biden a propor uma revolução, como defendido por alguns. Uma reviravolta na estrutura da ação do estado, da economia, mas também das questões sociais. Se der certo, marcará o fim da chamada Reaganomics, política de estado pequeno inaugurada por Ronald Reagan há 40 anos.
Seu discurso no Congresso foi marcado por simbolismos, especialmente com a presença feminina em altos cargos. Ao iniciar sua fala, se dirigiu à vice-presidente Kamala Harris e à presidente da Câmara, Nancy Pelosi, dizendo que era o primeiro presidente a pronunciar “madam speaker, madam vice president”. “Já era tempo”, disse ele.
Disse que assumiu o governo com a maior epidemia em 100 anos, a maior crise econômica desde a grande depressão, e a maior crise democrática desde a guerra civil. Em termos de crise econômica, talvez essa crise seja tão grande quanto a enfrentada - e bem - pelo ex-presidente Barack Obama. A grande crise financeira de 2008, com o sistema financeiro desmontando.
Sobre a pandemia, prometeu que em 100 dias vacinaria 100 milhões, mas chegou ao dobro da meta e hoje mais de 200 milhões estão imunizados.
Biden deixou claro também a diferença do governo Trump em relação ao tamanho do estado na economia. Conseguiu aprovar dois projetos trilionários de gastos: o pacote de ajuda a empresas e famílias por causa da pandemia, e depois um pacote de infra-estrutura, inspirado no “New Deal” de Roosevelt. Ao mesmo tempo, quer fazer isto dentro das metas de redução das emissões de gases de efeito estufa. Um plano ousado.
Além disso, agora quer um novo projeto de estímulo à educação, com pagamento dos dois primeiros anos na universidade. Nos Estados Unidos, as grandes faculdades são privadas e o curso superior é muito caro. Anunciou também recursos para creche e apoio às mulheres.
E de onde tirar o dinheiro? Mais impostos sobre os mais ricos, ganhos de capital, pessoas que ganham mais de 400 mil dólares por ano e grandes empresas, disse ele.
Na parte social, falou de racismo e feminismo. Defendeu a proposta que fez de Lei George Floyd de reforma da polícia, para aumentar a proteção aos negros.
Falou algo que é tabu nos Estados Unidos: a restrição à compra, ao porte e à posse de armas, um direito constitucional. Afirmou que sabe que os republicanos pensam diferente, mas quer construir um consenso por conta do alto número de mortes provocadas por arma de fogo. Mais do que necessário.
Biden enterrou o neoliberalismo, diz Miriam Leitão, que prega neoliberalismo no Brasil

247 – A jornalista Miriam Leitão, que apoiou o golpe de estado de 2016 contra a ex-presidente Dilma Rousseff, com a tese das "pedaladas fiscais", criada pelo PSDB para abrir caminho para a restauração neoliberal no Brasil, reconheceu que o neoliberalismo está sendo abandonado nos Estados Unidos.
"Ao ser eleito, esperava-se que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fizesse um período de transição, conciliasse os mais moderados entre os democratas com a esquerda. Mas as emergências da hora levaram a mudanças mais profundas em relação a Trump nos seus primeiros 100 dias de governo. A pandemia, a crise econômica e a explosão dos casos de racismo estão levando Biden a propor uma revolução, como defendido por alguns. Uma reviravolta na estrutura da ação do estado, da economia, mas também das questões sociais. Se der certo, marcará o fim da chamada Reaganomics, política de estado pequeno inaugurada por Ronald Reagan há 40 anos", escreveu a jornalista, em seu blog.
Como só 6 se infectaram com covid-19 em show com 5 mil pessoas em Barcelona? - BBC News Brasil

Pesquisadores na Espanha dizem que não detectaram sinais expressivos de infecção por coronavírus entre as pessoas que participaram de um grande show realizado como teste no mês passado.
Seis pessoas testaram positivo para covid-19 14 dias depois de assistir ao concerto em Barcelona, mas essa incidência, segundo os cientistas, foi menor do que a observada na população em geral.
Cerca de 5 mil pessoas participaram do experimento após testar negativo para covid-19.
Os participantes usavam máscaras, mas não precisavam manter distanciamento social.
Entre as seis pessoas com teste positivo, pesquisadores da Fundação de Combate à Aids e Doenças Infecciosas e do Hospital Universitário Germans Trias i Pujol concluíram que quatro delas foram infectadas em outro lugar, e não no show.
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Autoridades espanholas permitiram que o show, que contou com a banda Love of Lesbian, fosse levado adiante como parte de um projeto de pesquisa.
Os pesquisadores descobriram que a taxa de infecção entre os participantes do show foi metade da registrada entre pessoas da mesma idade em Barcelona.
"Não há evidências que houve transmissão durante o evento", disse o especialista em doenças infecciosas Josep Maria Llibre, um dos pesquisadores, em entrevista coletiva na terça-feira (27/04).
O especialista explica que, nos 14 dias após o show, foram detectados seis casos positivos. Isso, disse ele, é uma incidência cumulativa de 131 por 100 mil habitantes, em comparação com os 260 casos por 100 mil habitantes que Barcelona registrou no dia do concerto.
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As restrições à realização de eventos de massa foram violadas em vários países, como este na França em janeiro
Que medidas foram adotadas?
O concerto, realizado no dia 27 de março, foi uma iniciativa do Festivals per la Cultura Segura, um grupo de organizadores de música ao vivo de Barcelona, que se uniram em busca de um protocolo para realização de shows após a pandemia.
Um total de 4.592 pessoas compareceu ao concerto.
No dia do show, todos os participantes tiveram que se submeter a um teste de antígeno, que é mais rápido e mais simples do que os exames PCR. Esse teste não requer análises laboratoriais e seus resultados são revelados em 15 minutos.
Somente aqueles que tiveram teste negativo foram autorizados a entrar no concerto. Também os trabalhadores e convidados tiveram que se submeter ao teste.
O local onde o concerto foi realizado, o Palau Sant Jordi em Barcelona, foi dividido em três setores, cada um com vias de acesso e saída. Os participantes não podiam mudar de setor.
Pontos de controle e verificação de temperatura foram colocados nas entradas.
Os organizadores entregaram aos participantes máscaras do tipo FFP2, que são descartáveis e capazes de filtrar 94% das partículas transportadas pelo ar. São as mesmas utilizadas por profissionais de saúde.
Garrafas de álcool gel desinfetante também foram disponibilizadas para o público.
Os organizadores do evento disseram que a iniciativa de "sucesso" e afirmaram que "começam a ver uma luz no fim do túnel".
A banda envolvida na experiência, Love of Lesbian, agradeceu aos organizadores e cientistas pelo evento.
"Esperamos que a partir de agora, após esses excelentes resultados, o mundo da cultura seja ouvido como merece", tuitou a banda.
O show reuniu uma das maiores multidões da Europa desde o início da pandemia e ocorre em um momento em que países ao redor do mundo buscam novas maneiras de realizar eventos públicos com segurança.
Um experimento semelhante de dois dias ocorreu na Holanda em março com cerca de 1,5 mil pessoas.
‘O Paraíso e a Serpente’: Charles Sobhraj, o assassino de hippies que fugia das autoridades com identidades das vítimas - BBC News Brasil
- Norberto Paredes - @norbertparedes
- BBC News Mundo

Na década de 1970, uma onda de assassinatos perpetrados pelo francês Charles Sobhraj comoveu a Ásia.
Conhecido como "Serpente" e o "assassino de biquíni", Sobhraj agia com determinação e se destacava por suas artimanhas para escapar das autoridades, usando o passaporte de suas vítimas - que costumavam ser turistas acidentais hippies atraídos pela mística do subcontinente indiano.
A dramática vida do infame assassino serial, que hoje tem 77 anos, inspirou diversas obras literárias, cinematográficas e, mais recentemente, a série O Paraíso e a Serpente, coproduzida pela BBC e a Netflix (e já disponível para o público brasileiro).
Mas quem foi, de fato, o "Serpente" e como ele vive atualmente?
Nascido em Saigon (ou Ho Chi Minh, no Vietnã) em 1944, filho de um comerciante indiano (que lhe negou a paternidade) e uma das empregadas vietnamitas dele, Sobhraj obteve a nacionalidade francesa depois que seus pais se separaram e sua mãe se casou com um militar francês, instalando-se em Marselha, no sul da França.
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A rejeição por parte do pai deixou marcas de ressentimento e ódio na vida de Sobhraj :"Farei com que você se arrependa de ter faltado em seu dever como pai", escreveu ele em seu diário.
Durante a adolescência, ele não conseguia se sentir pertencente ao ambiente na Europa. Dedicou-se a furtos na rua e ao roubo de carros em Paris. Entrou e saiu de reformatórios e, ao chegar à maioridade, foi encarcerado no sistema prisional.
O primeiro amor
Mas, ao deixar a prisão, conseguiu um emprego graças à intervenção de um benfeitor, que também apresentou-o a Chantal Compagnon, uma integrante da burguesia parisiense e por quem ele se apaixonou imediatamente,

Por um breve período, Sobhraj tentou abandonar a vida de pequenos delitos e conseguiu trabalho em um restaurante, mas seu gosto pelo luxo e pelo dinheiro o empurrou de volta ao crime. Não demorou para que fosse novamente preso por roubo de automóveis - e Compagnon, cega pelos encantos de Sobhraj, esperou que saísse da prisão para se casar com ele. Juntos iniciaram uma viagem pela Ásia, durante a qual tiveram uma filha.
Aos 30 anos, o "Serpente" fez da Tailândia seu novo centro de operações.
Carisma
Muitas pessoas que conheceram Sobhraj concordam que ele era uma pessoa carismática nessa época. Em artigo ao site Vice, Gary Indiana, que conheceu o "Serpente" nos anos 1980, disse que o aspecto "provinciano" e "não europeu" dele faziam com que os hippies que viajavam à Ásia o achassem interessante e "inofensivo".
"A especialidade de Charles Sobhraj era assassinar hippies que vinham descobrir a Ásia", declarou Indiana.
"Sobhraj depenava todo o dinheiro desses viajantes sedentos por espiritualidade, desdenhoso da moral duvidosa que achava que eles tinham."
Até hoje é um mistério o motivo por trás desses assassinatos de hippies, mas pessoas que acompanham a história de Sobhraj acham que a resposta pode estar em seus traumas de infância.
Herman Knippenberg, diplomata holandês que, depois da morte de sua companheira na Tailândia - um caso que a polícia local não se deu ao trabalho de investigar -, começou a desvendar pistas e a descobrir os crimes, acredita que Sobhraj os matava quando não obedeciam.
"A resistência (de pessoas) às propostas de Sobhraj revivia a preocupação que ele teve na infância de ser rejeitado", disse o diplomata ao jornalista britânico Andrew Anthony.
Prisão e fuga
Nos anos 1970, a rota hippie havia se convertido em um destino popular de muitos jovens europeus e americanos que viajavam da Europa Ocidental ao Extremo Oriente, passando pelo Oriente Médio e pela Índia.

Nessa época, os controles de fronteiras não eram tão rígidos, e o "Serpente" se aproveitou disso.
O romance com Chantal Compagnon terminou quando ambos foram presos no Afeganistão. Ele conseguiu escapar drogando um carcereiro; ela permaneceu detida por mais tempo e, ao sair, decidiu recomeçar a vida longe do marido problemático.
A despeito disso, Sobhraj disse ao jornalista Andrew Anthony - que o entrevistou em Paris nos anos 1990 e também em 2004, em uma prisão no Nepal - que Compagnon continuou sustentando-o financeiramente e que o casal permaneceu em contato por muito tempo depois de sua separação.
Passados dois anos da prisão no Afeganistão, Sobhraj conheceu a canadense Marie-Andrée Leclerc, na Índia, e convenceu-a a passar o verão com ele na Tailândia.
"Múltiplas identidades"
Leclerc tampouco resistiu aos encantos daquele homem de quem, até então, pouco se sabia - e que também mudaria a vida dela para sempre. Pouco a pouco ela começou a praticar crimes com ele e acabou se convertendo em cúmplice.
O modus operandi consistia em drogar as vítimas para tirar seus pertences. O apelido "assassino de biquíni" veio depois de ele ser vinculado à morte de várias mulheres ocidentais vestindo biquíni no balneário de Pattaya, na Tailândia.

Sobhraj se aproveitava da ingenuidade de muitos turistas ocidentais, conquistava sua confiança e os convidava para um drinque. Com frequência, as vítimas acordavam depois disso sem ter nenhuma lembrança da noite anterior.
"Ele era um homem de muitas identidades: um intelectual israelense um dia e um vendedor libanês no outro, e percorria a Ásia buscando suas presas", recorda Gary Indiana em seu artigo.
Houve vezes em que Leclerc e Sobhraj mantinham suas vítimas em cativeiro, drogadas, por vários dias ou semanas. Daí roubavam seus passaportes para viajar e agir em outros países da região, confundindo autoridades.
Essa atuação esquiva rendeu a ele também o apelido de "Serpente". Segundo relatos, Sobhraj falava vários idiomas com fluência, o que era conveniente quando assumia a identidade de suas vítimas.

Ele também desenvolveu habilidades para escapar da prisão: acredita-se que tenha encontrado formas de fugir do encarceramento no Afeganistão, na Grécia, no Irã e na Índia.
Em 1971, a fuga na Índia (onde cumpria pena de 20 anos por envenenar turistas franceses que viajavam de ônibus) foi conseguida após ter fingido que sofria de apendicite para escapar do hospital.
Voltou a ser preso em 1976, mas dez anos depois escapou de uma forma ainda mais surpreendente: organizou uma festa de aniversário à qual convidou tanto guardas como prisioneiros.
As uvas e os biscoitos entregues aos convidados haviam sido "batizadas" com tranquilizantes, deixando inconscientes todos exceto Sobhraj e outros quatro fugitivos.
Segundo a imprensa indiana, o grupo ficou tão orgulhoso da fuga que se deixou fotografar atravessando os portões da prisão para as ruas de Nova Déli.
US$15 milhões por sua imagem
Como fugitivo, Sobhraj não se esforçava em excesso para se esconder da Justiça e era visto com frequência desfrutando da vida noturna. Por isso, voltou a ser detido.

Alguns acham que ele decidiu escapar perto do final de sua sentença na Índia para ser capturado de novo e enfrentar novas acusações, de forma a evitar a extradição à Tailândia, onde era procurado pela Justiça por cinco assassinatos e poderia ser condenado à pena de morte.
Quando ganhou a liberdade, em 1997, o prazo para que fosse julgado em Bangcoc já havia prescrito.
Sobhraj voltou à França, começou a uma nova vida no bairro chinês de Paris, contratou um agente e negociou entrevistas e sessões de foto. Conseguiu vender os direitos de sua história para um filme e um livro por US$ 15 milhões.
Vítima de seu próprio ego
Mas, em setembro de 2003, cometeu um erro, possivelmente em decorrência do próprio ego: viajou ao Nepal e acabou sendo reconhecido, preso por ter viajado com passaporte falso e pelos assassinatos de dois cidadãos americanos ocorridos 28 anos antes.
Mas só foi de fato condenado por homicídio pela primeira vez em 2004, apesar de ter sido alvo de acusações pela morte de 20 pessoas drogadas, estranguladas, golpeadas ou incendiadas na Índia, Tailândia, Nepal, Turquia e Irã entre 1972 e 1982.
Sobhraj negou as acusações, mas foi sentenciado à prisão perpétua.
Atualmente segue preso no Nepal e, em setembro de 2014, foi condenado por um segundo homicídio, de um turista canadense.
Entrevistado pelo biógrafo Richard Neville, autor de Life and Crimes of Charles Sobhraj (Vida e crimes de Charles Sobhraj, em tradução literal), ele admitiu: "sempre que posso falar com alguém, posso manipulá-lo".
O encarceramento não o impediu que seguir com sua vida. Há mais de dez anos mantém um relacionamento com Nihita Biswas, filha de uma de suas advogadas nepalesas. Segundo a imprensa local, o par se casou em 2010.
E, segundo o jornal britânico Sunday Mirror, que conseguiu entrevistá-lo em março, o "Serpente" ainda se declara inocente.
O físico que desafia a teoria do Big Bang e defende a ideia de um 'universo espelho' - BBC News Brasil
- Carlos Serrano (@carliserrano)
- BBC News Mundo

A principal teoria científica sobre o surgimento do universo é a de que tudo começou com o famoso Big Bang, uma enorme explosão de toda a matéria há 13,8 bilhões de anos.
O Big Bang deu início ao espaço e ao tempo e, por força dessa explosão inicial, o universo está em expansão até hoje.
Alguns físicos, entretanto, questionam o modelo e argumentam que talvez o Big Bang não teria acontecido como se acredita.
Um deles é o físico teórico sul-africano Neil Turok, diretor emérito do Perimeter Institute for Theoretical Physics, no Canadá.
"O Big Bang é o maior enigma da ciência", diz Turok em conversa com a BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. "Há evidências suficientes para nos convencer de que houve um Big Bang, mas ele é um mistério... não sabemos seu mecanismo."
Segundo ele a teoria do Big Bang que existe hoje "está incompleta".
Turok trabalhou ao lado de Stephen Hawking tentando descobrir o início do universo, mas diz que os cálculos em que trabalharam juntos "tinham falhas e eram inconsistentes".
O físico sul-africano reconhece que faz parte de uma minoria, mas propõe uma visão diferente do Big Bang.
Turok também vai contra modelos e experimentos que sugerem que vivemos em um universo complexo — que, para explicar como funciona o universo, agregam cada vez mais ideias novas sobre partículas, dimensões extras ou campos invisíveis.
Em vez disso, sua visão é que o universo é "extremamente simples" e que não é necessário sugerir novos modelos ou novas partículas para explicá-lo.
"Estamos nos afogando em teorias", diz ele. "O universo é incrivelmente econômico. Ele tem alguns princípios e os usa continuamente."
As ideias de Turok, além de questionar o trabalho de vários de seus colegas, levantam questões existenciais que vão além da astronomia.
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Universo espelho
A teoria mais aceita do Big Bang diz que toda a matéria e energia existentes se concentravam em um ponto e que uma poderosa explosão fez tudo o que existe - o universo - se expandir em bilhões de vezes seu tamanho original. Com isso, surgiram o tempo e o espaço como os conhecemos.
Então, à medida que continuou a se expandir e esfriar, o universo deixou de ser uma sopa densa e fervilhante de partículas, e foram formados os aglomerados de matéria dos quais as estrelas e galáxias são feitas.
Desde então, de acordo com o modelo, o universo continuou a se expandir, e continuará a se expandir até que um dia, daqui a bilhões e bilhões de anos, tudo esteja tão disperso que ele se tornará um espaço frio e inativo.
De acordo com essa explicação, o tempo inevitavelmente avança e sempre vemos mais matéria do que antimatéria.
Turok, no entanto, desafia essa visão. O problema, de acordo com sua teoria, é que essa concepção do universo viola um princípio de simetria da mecânica quântica. As simetrias descrevem características do espaço-tempo e partículas que permanecem inalterados apesar de ter havido alguma transformação.
A proposta de Turok é que o Big Bang também deu origem a um "universo espelho", onde governam nossas mesmas leis da física, mas ao contrário.
É um "anti-universo" onde o tempo corre para trás e a antimatéria é dominante. Dessa forma, a simetria seria cumprida.
Segundo Turok, embora pareça mais complexo, esse mecanismo é uma explicação mais simples do que aconteceu nos primeiros momentos do universo.
Por exemplo, elimina a possibilidade de que existam multiversos ou dimensões extras — que são hipóteses até agora não comprovadas mas utilizadas para explicar vários fenômenos astronômicos.
O modelo do universo espelho também oferece uma explicação para a matéria escura.
A matéria comum, que podemos ver e tocar, constitui apenas cerca de 5% da matéria do universo. O resto corresponde a uma misteriosa matéria escura sobre a qual pouco se sabe — e que pode ser feita de uma partícula até hoje desconhecida.
Turok, no entanto, diz que não é preciso pensar em novas partículas hipotéticas para explicar a matéria escura.
Sua teoria prevê que o Big Bang produziu um grande número de "neutrinos destros", um tipo de partícula que, que ainda não foi observada mas que em teoria deve existir.
De acordo com o modelo do universo-espelho, a matéria escura é feita de "neutrinos destros".
"Neste universo duplo gerado pelo Big Bang, você pode calcular quantos desses 'neutrinos destros' deveriam haver no universo atual, e esse número corresponde ao quanto de matéria escura deve existir", disse Turok.
"Desta forma, chegamos à explicação mais simples para a matéria escura, que não requer nenhuma nova teoria."
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Simplicidade e economia
"O universo é a coisa mais simples do universo", disse Turok em uma palestra apresentando sua teoria.
Com isso, ele quer dizer que não é a favor de adicionar novas partículas, novos campos, novas dimensões no estudo da física e da cosmologia.
"A área em que trabalho já foi responsável por milhares de modelos e conceitos, mas agora a natureza está nos mostrando que é extremamente simples", diz o físico. "Não há evidências dessas novas adições que pessoas como eu têm feito nos últimos 30 anos."
Por exemplo, é cético quanto ao que significam as novas descobertas do LHC (Large Hádron Collider, ou grande colisor de hádrons) e do Fermilab, dois aceleradores de partículas. Experimentos recentes feitos nos aceleradores apontam para a existência de novas partículas ou forças que até agora não foram vistas.
"Embora essas descobertas sejam apresentadas como sinais de uma nova física, essa afirmação não pode ser justificada no momento", diz ele, acrescentando que essas descobertas podem ser explicadas com base em princípios já conhecidos.
Turok se preocupa com o fato de que cada vez que os pesquisadores de física teórica encontram um mistério, eles adicionam um novo ingrediente para resolver o problema.
"Teoria das cordas, teoria M, membranas, dimensões extras, todos os tipos de complicações", diz ele."Assim chegamos à invenção do multiverso. O multiverso é o exemplo perfeito de uma teoria que é um desperdício", diz ele.
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L. Boyle/Perimeter Institute for Theoretical Physi
O modelo de Tuvok propõe dois universos, um o espelho do outro
A parte desordenada
Para Turok, em vez de adicionar ingredientes, a chave para entender os mistérios do universo é olhar para "a surpreendente simplicidade, beleza, elegância e economia" da natureza.
Para o físico, o universo é tremendamente simples nas menores e maiores escalas, mas no meio do caminho entre elas, onde os seres humanos estão localizados, há complexidade.
"Gosto de chamar de 'parte desordenada' da escala", diz ele."Não estamos no Big Bang, que é muito chato e uniforme, não há nada de interessante no Big Bang".
"Somos provavelmente a coisa mais complexa do universo e acho inspirador que as pessoas percebam que estamos rodeados pela simplicidade", afirma Turok.
"Somos complicados e imprevisíveis, mas somos capazes de descobrir a incrível simplicidade e economia do universo."
"Nós somos o instrumento que o universo tem para conhecer a si mesmo."
Quão agressiva é a variante do coronavírus que assola a Índia e por que sabemos tão pouco sobre ela - BBC News Brasil
- Soutik Biswas
- BBC News

Cientistas de todo o mundo estão investigando uma variante do coronavírus identificada na Índia.
Porém, eles não sabem até que ponto ela se espalhou ou se é ela que está impulsionando a segunda onda de covid-19 no país.
Os vírus sofrem mutações o tempo todo, produzindo diferentes versões de si mesmos. A maioria dessas mutações é insignificante, e algumas podem até tornar o vírus menos perigoso, mas outras podem torna-lo mais contagioso e resistente às vacinas.
Uma variante, batizada de B.1.617, foi detectada pela primeira vez na Índia em outubro.
"A superpopulação e a densidade da Índia a tornam uma incubadora perfeita para esse vírus registrar mutações", disse Ravi Gupta, professor de microbiologia clínica da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Por que a segunda onda de covid está sendo tão devastadora?
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Reuters
A Índia notificou cerca de 200 mil casos graves por dia desde meados de abril
A Índia tem relatado cerca de 200 mil casos graves por dia desde 15 de abril, bem acima do pico de 93 mil casos diários registrados no ano passado. E agora as mortes também aumentaram.
No entanto, a nova onda de casos na Índia pode ter sido causada por grandes concentrações de pessoas e pela falta de medidas preventivas, como uso de máscaras ou distanciamento social.
Jeffrey Barrett, do Wellcome Sanger Institute, no Reino Unido, diz que pode haver uma relação de causa e efeito com a nova variante, mas faltam evidências.
Ele observa que a variante é conhecida desde o final do ano passado: "Se ela está por trás da onda na Índia, demorou vários meses para chegar a este ponto, sugerindo que é provavelmente menos transmissível do que a variante Kent B117."
As vacinas continuarão a funcionar para esta variante?
Os cientistas acreditam que as vacinas existentes ajudarão a controlar a nova variante quando se trata de evitar que alguém fique gravemente doente.
De acordo com um artigo publicado na Nature por Gupta e seus colegas de pesquisa, algumas variantes inevitavelmente escaparão do efeito das vacinas atuais.
Como resultado, mudanças nas vacinas serão necessárias para torna-las mais eficazes. No entanto, as vacinas agora disponíveis provavelmente retardarão a propagação da doença.
"Para a maioria das pessoas, essas vacinas podem significar a diferença entre ficar assintomático ou levemente doente e acabar no hospital sob risco de morte", disse Jeremy Kamil, virologista da Louisiana State University, nos Estados Unidos.
"Por favor, tome a primeira vacina que eles lhe oferecerem. Não cometa o erro de duvidar e esperar por uma vacina ideal", acrescenta.
Um consórcio de dez laboratórios na Índia está sequenciando amostras de coronavírus
O quanto a nova variante se espalhou?
Os cientistas ainda não sabem ao certo o quão disseminada ela está na Índia. A nova variante foi detectada em 220 das 361 amostras coletadas entre janeiro e março no Estado de Maharashtra.
Também foi detectada em pelo menos 21 países, de acordo com o banco de dados global GISAID.
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É mais infecciosa ou perigosa?
Os cientistas ainda não sabem.
Kamil diz que uma de suas mutações é semelhante a outras identificadas nas variantes da África do Sul e do Brasil.
Essas duas mutações podem ajudar o vírus a escapar dos anticorpos do sistema imunológico que lutam contra o coronavírus com base na experiência de uma infecção anterior ou de uma vacina.
De todas as variantes descobertas, a mais preocupante no momento é aquela identificada no Reino Unido, que se espalhou para pelo menos 50 outros países.
"Duvido que a variante indiana seja mais infecciosa do que a variante do Reino Unido. Não devemos entrar em pânico", diz Kamil.
Por que se sabe tão pouco sobre ela?
Os cientistas têm até agora poucas amostras para investigar: 298 na Índia e 656 em todo o mundo, em comparação com mais de 384 mil para a variante do Reino Unido.
E, depois dos primeiros casos relatados na Índia, menos de 400 casos da variante indiana foram detectados em todo o mundo, diz Kamil.
O que é a 'imitação linguística' e como ela pode te deixar mais convincente - BBC News Brasil
- Bryan Lufkin
- BBC Worklife

Todos nós sabemos que cair nas graças de alguém é mais difícil do que parece. Fazer com que alguém fique do seu lado, seja durante uma apresentação ou venda de uma ideia, ou simplesmente quando se quer causar uma boa impressão, é um processo estressante.
Mas descobrir o segredo para se conectar com alguém pode ser mais fácil do que parece: basta imitar essa pessoa.
Já sabemos que copiar a linguagem corporal, as expressões e os gestos pode ajudar a criar relacionamentos, mas os resultados de um novo estudo sobre comportamento organizacional indicam que imitar o estilo de comunicação de alguém também pode te deixar mais convincente.
Esta técnica se chama "imitação linguística", e os dados mostram que a aplicação dessa estratégia pode aumentar a eficácia da sua mensagem.
Por exemplo, da próxima vez que você participar de uma videoconferência com todos os seus colegas, preste muita atenção em como eles falam e apresentam suas ideias.
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Alguns podem se preocupar apenas com dados rápidos e resultados e agir de forma abrupta e até um pouco distante. Outros podem ser muito menos lineares e se enredar em pormenores.
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Se os seus colegas forem mais informais na escrita e na fala, relaxe também seu estilo de comunicação
A pesquisa mostra que você deve ajustar seu discurso para imita-los, mesmo que o estilo de comunicação deles seja muito diferente do seu.
Desenvolver esse talento camaleônico pode ser um acréscimo muito útil às suas ferramentas para conquistar pessoas e progredir na carreira.
Uma análise abrangente
"Como você faz sua voz se destacar na maré de sugestões, propostas e muito mais? Isso é o que a imitação linguística pode facilitar", diz Maxim Sytch, professor de Gestão e Organizações da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.
Sytch e Yong H Kim, professor de Gestão da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, são os dois pesquisadores responsáveis por esse novo estudo.
A pesquisa deles se concentra na área do Direito e em como a imitação linguística pode ajudar os advogados a conquistar a simpatia dos juízes e a ganhar causas.
A dupla analisou mais de 25 milhões de palavras em mais de 1,8 mil documentos jurídicos de acesso público relativos a ações judiciais por violação de patentes nos Estados Unidos.
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Copiar o estilo de comunicação de seus interlocutores pode te deixar mais convincente
Eles usaram uma ferramenta computacional de análise linguística para identificar o estilo de escrita dos juízes e advogados envolvidos. E avaliaram quatro estilos de escrita, cada um com uma escala móvel:
- Pensamento analítico (em que pontuações mais altas sugerem que o autor favorece a lógica, e pontuações mais baixas indicam que o autor privilegia valores pessoais);
- Influência (em que pontuações mais altas significam confiança, e pontuações mais baixas sinalizam humildade);
- Autenticidade (em que pontuações mais altas refletem um estilo que tende a ser honesto e sincero, e pontuações mais baixas sugerem um estilo mais reservado);
- Tom emocional (em que autores com pontuações mais altas tendem a ser mais otimistas e positivos, e aqueles com pontuações mais baixas adotam um tom mais triste ou ansioso).
A partir daí, eles analisaram quais advogados ganharam suas causas — e quais não.
Para sua surpresa, os pesquisadores descobriram que, se as equipes jurídicas imitassem mais de perto o estilo de escrita preferido do juiz em documentos de decisões judiciais anteriores, suas chances de vitória mais do que dobravam.
Em média, os advogados da amostra de Sytch e Kim tinham 11,5% de chance de ganhar. Mas os advogados que praticaram mais a imitação linguística viram essa taxa subir para 25%.
Colhendo os benefícios
Conquistar a simpatia de alguém por meio da comunicação pode significar que você vai se sentir mais confortável, mas a recompensa por uma observação perspicaz vai além disso.
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Mesmo durante as agora frequentes videoconferências, podemos analisar o estilo de comunicação dos outros colegas
Considere, por exemplo, fechar um acordo com um cliente, impressionar o executivo certo ou construir relacionamentos com pessoas da sua organização, que estarão mais propensas a fazer o que você deseja.
Para aplicar de forma eficaz a imitação linguística, Sytch sugere prestar atenção à maneira como as pessoas fazem perguntas e observar que partes das apresentações elas acham mais ou menos convincentes.
Essa seria "uma janela não apenas para como se comunicar com elas, mas também para como elas processam as informações".
Ao escrever, preste atenção em como seus colegas redigem seus emails, mensagens ou chats, e ecoe a forma e o sentimento.
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Prestar atenção em como uma pessoa faz uma apresentação pode ajudar a imita-la
Você pode encontrar muitas pistas sobre como eles gostam de se comunicar. "Tenho alguns colegas que adoram emails longos com vários tópicos e planilhas anexadas. A maneira de respondê-los é provavelmente escrevendo um email igualmente longo, respondendo a cada um dos pontos", sugere Sytch.
Em outras situações, você pode conhecer alguém que acrescenta cor às mensagens, com histórias e sentimentos pessoais. Você pode enviar uma resposta semelhante, talvez incluindo até um breve caso seu para enfatizar o que deseja dizer.
Ou, se você está conversando com alguém mais conservador e direto, de repente um superior ou um executivo, vá direto à resposta. Deixe o bom humor de lado, se é isso que eles fazem.
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Uma boa estratégia de observação pode levar você a alcançar seus objetivos
"Se você me apresentar algo de uma maneira que estou acostumado a ouvir, semelhante à forma como articulo meus pensamentos, será mais fácil para eu processar a essência desse argumento. Como resultado, isso permite que você seja mais persuasivo", explica Sytch.
Claro que é mais fácil falar do que fazer. Mas você pode usar seus contatos para ter uma ideia de como uma pessoa é, especialmente se você não a conhece. Pergunte a alguém que conheça "seu alvo", recomenda Sytch.
Algo do tipo:"Oi, vou fazer uma apresentação para o Brian, como ele é? Que tipo de perguntas ele faz? O que preciso fazer para convencê-lo?"
"Ser sensível a esse processo de fornecer informações — a como outras pessoas processam a informação —, pode aumentar a chance de sermos ouvidos", finaliza Sytch.
Crimes nazistas: a noite do massacre de Penzberg

Sem mais derramamento de sangue – era esse o objetivo de Hans Rummer. O prefeito da pequena cidade de Penzberg, ao sul de Munique, que havia sido deposto pelos nazistas em 1933, sabia que os soldados americanos estavam a apenas alguns quilômetros de distância. Sem cerimônias, ele removeu então o nazista que ocupava o cargo na prefeitura desde 1944, além de ter impedido a explosão da mina local e libertado trabalhadores forçados. Mas o social-democrata teve que pagar com a vida por sua coragem. Na noite de 28 a 29 de abril de 1945, ele foi assassinado por soldados leais a Adolf Hitler.
Nazistas condenados nos EUA escampam da Justiça na Alemanha

Além de Rummer, foram fuzilados ou enforcados outros 15 homens e mulheres, incluindo uma gestante. O crime, executado dez dias antes da rendição incondicional da Alemanha nazista e após seis anos de guerra mundial, foi o tópico de uma discussão iniciada nesta segunda-feira (26/04) pelo presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, com estudantes de Penzberg. Diante da pandemia de coronavírus, contudo, o encontro aconteceu apenas no formato digital: de um lado, a partir do Palácio Bellevue, em Berlim, falavam Steinmeier, sua esposa Elke Büdenbender e a escritora Kirsten Boie; do outro, em Penzberg, participavam os jovens, conectados ao vivo e ao lado do prefeito Stefan Korpan.
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O presidente alemão só foi saber da noite do assassinato em 2019, durante uma visita à cidade. Penzberg, disse ele no início da conversa, representa os crimes que os alemães cometeram nos últimos dias da guerra. "Até o último minuto, ocorreram assassinatos em toda a Alemanha." Em 1948, foi erguido um memorial em Penzberg em memória à tragédia ocorrida pouco antes do fim do regime nazista, e o museu da cidade também abriga uma exposição permanente sobre o episódio.
Noite Escura – o massacre de Penzberg na forma de livro para jovens
A primeira vez que Tabea confrontou este capítulo sombrio de sua cidade natal foi numa aula de história. Para isso, ela consultou os arquivos de Penzberg e se debruçou integralmente na noite do assassinato. Emelie, que não é natural de Penzberg, já havia aprendido algo sobre isso com sua colega de classe, Emma. Mas foi somente através do projeto na aula de história que o tema se tornou "presente" para ela. Antes, ela não poderia ter imaginado "que algo assim tivesse acontececido aqui". Com Emma, foi completamente diferente – sobretudo por causa de seu avô. "Ele tinha mais ou menos a minha idade e teve que lutar na guerra – enquanto eu posso crescer aqui em paz."
Marcha em formato virtual lembra história do Holocausto
![Captura de tela de imagem promocional da Marcha dos Vivos [MOTL] 2021](https://static.dw.com/image/57109396_301.jpg)
Repetidamente, os jovens enfatizaram a importância de uma abordagem pessoal ou emocional da era nazista. Iris, por exemplo falou sobre suas impressões ao assistir ao filme A Lista de Schindler, de Steven Spielberg: "Achei muito louco ver algo assim". Ela disse ter tido uma experiência semelhante com livros como When Hitler Stole Pink Rabbit, de Judith Kerr. E agora chega um novo livro sobre os terríveis acontecimentos de Penzberg: Dunkelnacht ("Noite Escura", em tradução livre), escrito pela autora infantil e juvenil Kirsten Boie. Durante o encontro, alguns trechos foram lidos pela própria autora.
'O que foi que eles fizeram?'
A noite do assassinato de Penzberg é contada a partir da perspectiva dos jovens com base em fatos históricos. Uma mistura, portanto, de documentário e ficção. Veronika gostou do formato, pois ele permite que o leitor se identifique melhor com o acontecido, além de achar que assim pôde "capturar melhor a parte emocional da história". Ela também achou impressionante a visita ao memorial do campo de concentração de Dachau, a noroeste de Munique, "porque foi possível estar ao vivo no local onde tantas injustiças aconteceram". Tudo isso, avalia Veronika, torna a história mais emocionante.
No livro "Dunkelnacht", a autora Kirsten Boie descreve a noite do massacre a partir de uma perspectiva jovemA autora Kirsten Boie ficou feliz com a recepção de seu livro pelos jovens. Na sua geração, ainda era difícil conversar com pais e professores sobre a era nazista. Por outro lado, tudo podia ser vivido de forma muito concreta. "Tratava-se das pessoas que viveram na época e a quem sempre perguntávamos: o que foi que eles fizeram?" Isso a acompanhou durante toda a juventude e, assim, o nazismo teve algo a ver com a sua própria vida.
Placa comemorativa no 76º aniversário do massacre
Para os jovens de hoje, tudo isso parece tão distante quanto "as guerras napoleônicas e eles encontram poucos paralelos", opina a escritora. Mas quando testemunhas contemporâneas falam com eles, "isso surte muito, mas muito efeito". Ou quando eles visitam locais onde algo aconteceu. "Então, de repente, tudo se torna real novamente". Bem no local onde o prefeito Rummer e sete outros homens foram fuzilados, já havia sido erguido um memorial em 1948. Agora, no aniversário de 76º aniversário da noite do assassinato, uma placa de bronze será inaugurada no centro da cidade, comemorando o destino das 16 pessoas que foram assassinadas.
O memorial de Nikolaus Röslmeir fica no local onde oito pessoas foram fuziladas pouco antes do fim da guerraFoi também em 1948 que os nazistas foram julgados, ainda sob a lei de ocupação dos Aliados. Dois foram condenados à morte, outros quatro receberam sentenças de prisão, algumas das quais vitalícias. No final das contas, porém, todos os réus escaparam com vida pois as sentenças foram severamente atenuadas em vários julgamentos subsequentes após a fundação da República Federal da Alemanha.
Elke Büdenbender: 'O que nós poderíamos fazer hoje?'
No final da conversa com o presidente alemão sobre a noite do assassinato de Penzberg, sua esposa Elke Büdenbender dirigiu uma pergunta aos jovens: "O que todos nós poderíamos fazer hoje para que algo assim não aconteça novamente?" Valentin dá a resposta – na forma de uma citação do livro Dunkelnacht de Kirsten Boie:
Oskar Schindler
"Contanto que nos lembremos desses feitos, desde que não esqueçamos todas as coisas inimagináveis que são possíveis, podemos ver também o que acontece hoje com uma perspectiva diferente. E neste contexto, tomamos decisões de forma diferente, com mais cautela, talvez até de forma mais humana"
Um 'testemunho contemporâneo eterno'
O estudante Valentin, por sua vez, complementa a citação com suas próprias reflexões. Ele diz que vê o livro como uma espécie de "testemunho contemporâneo eterno" e acredita assim estar falando por todos. O que os nazistas e a população alemã cometeram há quase 80 anos "não deve se repetir jamais".

A acusação: crimes de guerra
Eles eram funcionários do partido, militares, servidores administrativos, diplomatas ou industriais. Todos serviram ao regime de Hitler. Em 20 de novembro de 1945, iniciou-se o julgamento de 21 réus perante o Tribunal dos Aliados, criado especialmente para tratar dos crimes do nazismo.

O cenário: Palácio da Justiça de Nurembergue
Segundo a União Soviética, os julgamentos deveriam ocorrer em Berlim. Contudo, ao contrário dos edifícios da capital do Reich, o Palácio da Justiça de Nurembergue só fora levemente destruído durante a guerra, oferecendo espaço amplo, além de dispor de uma prisão própria. O fato de a cidade na Baviera ter servido de palco para os comícios do partido nazista também tinha um peso simbólico.

Franz von Papen: preparando o caminho para Hitler
O vice-chanceler do Reich tentou manter Hitler em xeque, um governo de coalizão com forças conservadoras nacionais, mas logo foi relegado a um posto de diplomata. Absolvido em Nurembergue, num processo posterior de desnazificação ele foi apontado como o principal réu. Condenado a oito anos em campo de trabalhos forçados, Von Papen acabou sendo libertado em 1949.

Hermann Göring: o "marechal do Reich"
Göring era o nacional-socialista mais graduado no banco dos réus, tendo acumulado diversos cargos sob Hitler. Sua responsabilidade era proporcionalmente grande. Ainda assim, alegava nada saber sobre os campos de concentração. Göring foi considerado culpado de todas as acusações e, por fim, condenado à morte. Na véspera da execução, porém, pôs fim à vida com uma cápsula de cianeto.

Rudolf Hess: o vice do Führer
Fiel seguidor de Hitler, Hess foi nomeado vice na liderança do partido. Em 1941, embarcou num voo para a Escócia, aparentemente por conta própria, e tentou em vão fechar um acordo de paz com o governo britânico. Em Nurembergue, foi condenado à prisão perpétua. Em 1987, aos 93 anos, Hess suicidou-se na prisão militar dos Aliados, em Spandau.

Hans Frank: o "açougueiro da Polônia"
Como governador-geral na Polônia ocupada, Frank investiu na exploração desenfreada do país. Ele foi responsável pelo assassinato de centenas de milhares de poloneses e judeus. Sobre estes últimos, disse em 1939: "Quanto mais [judeus] morrerem, melhor." Diante da condenação, Frank acabou se voltando para o catolicismo. Sobre a pena de morte, disse: "Eu a mereço e aguardo por ela."

Joachim von Ribbentrop: ministro do Exterior
Ribbentrop deixou claro que o Ministério das Relações Exteriores não era "puro", mas sim profundamente envolvido nos crimes do regime nazista. As missões diplomáticas no exterior, por exemplo, trabalharam em estreita colaboração com a SS e outras organizações no genocídio de judeus. Ribbentrop não demonstrou nenhum remorso em Nurembergue, e foi o primeiro dos condenados à morte a ser executado.

Albert Speer: o arquiteto favorito de Hitler
Speer (2º à esq.) foi o principal arquiteto do nazismo. Hitler era grande fã de seus edifícios monumentais. O tribunal, por outro lado, estava mais interessado no papel de Speer como ministro de Armamentos e Munições. Ele se apresentou como idealista equivocado e conseguiu encobrir parte de suas ações, como a expansão dos campos de concentração. Escapou por pouco à pena de morte.

Gustav Krupp: o magnata dos armamentos
O diplomata Gustav Krupp von Bohlen und Halbach (dir.) se tornou grande industrial através do casamento com Bertha Krupp, herdeira da gigante siderúrgica alemã. Inicialmente se distanciou de Hitler, mas, com o crescente papel da empresa no setor de armamentos, logo cedeu. Devido à saúde precária de Gustav von Krupp, seu processo foi arquivado.

Karl Dönitz: o último "presidente do Reich"
Como comandante da Marinha, Dönitz (c., entre Mussolini e Hitler) foi responsável por emitir slogans de perseverança suicida às tripulações dos submarinos. Pouco antes de cometer suicídio, Hitler o nomeou "presidente do Reich". Após dez anos de prisão, Dönitz permaneceu um ferrenho nacional-socialista até o fim da vida
Silvio Almeida: O homem certo
Bolsonaro e Guedes são feitos do mesmo material
A cada entrevista ou pronunciamento fica mais evidente que Paulo Guedes é o homem certo. Suas ideias, seu comportamento, sua gestão à testa do Ministério da Economia provam a cada dia que outro homem não estaria à altura —ou à baixeza, no caso— exigida para esse cargo. Nenhum outro ministro representa de forma tão essencial as forças políticas que levaram Jair Bolsonaro à Presidência da República.
O presidente da República e o ministro da Economia são absolutamente complementares e encarnam, ainda que em corpos distintos, um só espírito. São, portanto, apenas aparentes as suas contradições.
De um lado um sujeito cuja falta de modos é lida como "autenticidade". Manda jornalistas se calarem, desdenha do sofrimento da pandemia e agride quem dele discorda. Encarna o autoritário, que muitos pedem.
Na outra ponta, o "intelectual", reconhecido pelo mercado como grande gestor e homem de sucesso. É o campeão da liberdade, que o mercado deseja. Mas nada como os momentos de crise para erodir as aparências e fazer emergir das profundezas a natureza gemelar dos dois personagens. Quando acossados, o ódio que nutrem a pobres, a trabalhadores, a pequenos empresários e a aposentados emerge de forma primordial e sem freios.
Mas que espírito é esse que no governo brasileiro habita dois corpos e que tem o poder de se apresentar simultaneamente como defesa intransigente da liberdade e ameaça à democracia? Há alguns anos as ciências sociais, nas mais variadas áreas, têm se esforçado para compreender o fenômeno que alguns denominam como neoliberalismo autoritário. Acho que nenhum outro termo pode explicar melhor o "bolsoguedismo".
O uso do termo neoliberalismo autoritário é controverso. O termo se refere às condições objetivas e subjetivas surgidas com as transformações no regime de acumulação e no modo de regulação do capitalismo provocadas pelas crises do fordismo e do Estado de bem-estar social. Tais mudanças levariam à atualização das formas de regulação estatal na economia e a processos de reorientação ideológica conduzidos pelas exigências da concorrência de mercado.
O que os mais diversos autores têm apontado é que desde as suas origens o neoliberalismo esteve relacionado com o esvaziamento da democracia, já que medidas para limitar o poder econômico são consideradas interferências políticas que ameaçam à liberdade.
A liberdade, na visão dos considerados teóricos do neoliberalismo, se materializa na ordem da concorrência, e não no contrato social. Trata-se, portanto, de construir o mercado blindado das demandas democráticas e de redistribuição igualitária, "livre" de constrangimentos sobre o investimento e a lucratividade capitalista. Isso explicaria o movimento para desmantelar os sistemas de proteção social, a oferta pública, gratuita e universal de saúde e educação e a facilitar a captura do orçamento público por interesses privados.
Mas há os que considerem um absurdo a vinculação entre autoritarismo e neoliberalismo e, para tanto, fornecem exemplos de governos e países democráticos que adotaram o receituário neoliberal.
Pierre Dardot denuncia a confusão teórica daqueles que acusam essa incompatibilidade. Segundo o autor francês, é preciso distinguir: 1) autoritarismo como regime político; 2) autoritarismo político neoliberal e 3) a dimensão autoritária irredutível do neoliberalismo. O primeiro não é exclusividade de governos neoliberais. O segundo é resultado da acomodação das políticas neoliberais a distintos regimes políticos, democráticos ou autoritários, o que é determinado pelas circunstâncias históricas. Já o terceiro é o que Dardot chama de "restrição do deliberável", o que, em outras palavras, é a decomposição das instâncias de participação popular por meio de "reformas" e uso de medidas jurídicas excepcionais, especialmente no que se refere a decisões econômicas.
Guedes e Bolsonaro personificam a versão brasileira do centauro do neoliberalismo, que é metade liberdade econômica para o andar de cima da pirâmide social e metade repressão e violência para o andar de baixo. De vez em quando somos forçados a lembrar que é um único ser, com os mesmos projetos e o mesmo negacionismo da realidade social. No fundo, quem quer a liberdade de Guedes pede por autoritarismo; quem quer o autoritarismo de Bolsonaro é porque demanda a liberdade de Guedes.

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