DRAUSIO VARELA x BOLSONARO
Drauzio Varella: Bolsonaro é o maior responsável pela disseminação do vírus no Brasil

Por Giulia Affine, da Agência Pública – Colocar os direitos dos pacientes em primeiro lugar é o que o Dr. Drauzio Varella vem fazendo ao longo de seus mais de cinquenta anos de profissão. Médico oncologista formado pela Universidade de São Paulo, ele foi um dos primeiros a se dedicar ao tratamento da AIDS no Brasil, fazendo campanhas de prevenção e esclarecimento veiculadas no rádio. Durante décadas, ele atuou – e ainda atua – como médico voluntário junto à população carcerária em São Paulo. Hoje, em meio à pandemia, ele afirma que médicos não têm direito de prescrever remédios ineficazes contra o coronavírus, pois isso fere a ética da profissão.
“Eu sou oncologista, então eu tenho direito de usar uma droga que não tem efeito na doença daquele paciente? Esse é um direito meu? E o direito do doente? [O doente] que está recebendo uma droga que não vai acrescentar nada e poderá juntar efeitos colaterais. O médico não tem esse direito, não. O médico tem que se basear na melhor informação científica disponível para adaptá-la para aquele paciente”, diz.
Escritor e comunicador, Dr. Drauzio dedicou boa parte da sua vida profissional à divulgação de ciência e informação sobre saúde para a população, primeiro no rádio, depois na televisão, e hoje também na internet. É por isso que ele se diz decepcionado ao ver que um vídeo seu – gravado antes do coronavírus se alastrar pelo mundo, em que ele diz que a Covid seria um “resfriadinho” na maioria dos casos – foi usado por membros do governo federal para minimizar a pandemia e propagar desinformação. “É uma coisa tão baixa”, critica. “E é destinada a fazer o quê? A confundir a população. A justificar os absurdos que o Presidente da República fala – e não é que ele falou em janeiro do ano passado, quando a epidemia não estava aqui. Ele fala até agora. Passou um ano inteiro confundindo a população, dando exemplo pessoal de como você faz para facilitar a disseminação do vírus. Isso sim é um crime que não pode ficar sem punição.”
Aos brasileiros que estão desanimados e desiludidos, ele tem um recado claro: “Nós temos que resistir.” Ele conta que ouvia histórias de sua avó, que no início do século XX sobreviveu à gripe espanhola no Brasil numa época em que as famílias não tinham nem rádio em casa. “Hoje, uma parte expressiva da população fica em casa com televisão, com internet, se falando pelo zoom, e a gente vai dizer que não aguenta mais? Tem que aguentar. Sai, máscara, volta. Não se aglomera, não fica se juntando com os outros, não é a hora, não vai ser assim pra sempre. Vai passar. Nós estamos vivendo os piores momentos, e agora é a hora que a gente tem que sobreviver, porque senão a gente não deixa descendentes, né?”
O senhor afirmou que o presidente Bolsonaro é o grande responsável pela disseminação da pandemia no Brasil. Quais foram os principais erros que ele cometeu?
Bom, eu acho que ele é o principal, mas não é o único. Há muita gente responsável, inclusive esses meninos de classe média que se metem nos bares, que organizam festas clandestinas, e outras autoridades que também negaram as medidas de proteção da sociedade.
Mas ele é o maior responsável por uma razão muito simples: é o presidente da República, autoridade máxima do país, que detém o controle do Ministério da Saúde. Quem é que tinha que coordenar todo o esforço de combate à epidemia? Era o Ministério da Saúde. Quem nomeou os ministros da Saúde? Foi ele. Então, ele é o maior responsável, não há como fugir dessa responsabilidade.
Nós tínhamos que ter aprendido uma lição fundamental na epidemia da AIDS: você só combate a epidemia quando tem uma coordenação central, uma autoridade que chama para si a responsabilidade de adotar as medidas mais sensatas de acordo com a opinião dos técnicos e da ciência, que é o único recurso que a gente tem.
No caso da Aids, quando começamos a ter drogas altamente eficazes, a partir de dezembro de 1995, o Ministério da Saúde assumiu a liderança, juntou um grupo de jovens técnicos, sanitaristas, infectologistas, e disse o que nós tínhamos que fazer, que era distribuir medicamentos para todos [os pacientes]. Na época, essas drogas custavam muito caro, saíam na faixa de dois, três mil dólares por mês. Vê o tamanho do desafio? Nós fomos pra cima dos fabricantes das drogas, pra cima das multinacionais, quebraram patentes, negociaram o preço, e conseguiram 90% de abatimento. Drogas que custavam cem passaram a custar dez pro governo e aí foi possível combater a epidemia.
[Mas] quando veio esta epidemia [de covid-19], nós tivemos a situação oposta. Primeiro, nós tivemos o Ministério da Saúde completamente degradado. Não porque não tenha gente boa, os quadros do Ministério da Saúde do Brasil sempre foram gente preparada e competente. Mas, as alterações que o ministério sofreu pra colocar lá militares – que eu não tenho nada contra, lógico, mas [são] pessoas que não tinham nenhum preparo na área da saúde… Deu no que deu. E tivemos um Presidente da República que, pessoalmente, adotou medidas para dar exemplos do que nós deveríamos fazer se quiséssemos disseminar a epidemia mais depressa: sair por aí sem máscara, provocando aglomerações.
[Também] tem o erro crasso de não pensar nas vacinas quando elas estavam disponíveis. Qualquer pessoa diria, ‘bom, os Estados Unidos, a Europa, a Ásia tão indo atrás, nós temos que ir atrás também’. Era arriscado, claro, mas a troco de que os países estavam investindo bilhões de dólares na compra de vacinas? São idiotas? Eles estavam afim de jogar dinheiro fora? Quando todos os países estavam correndo em busca das vacinas, não havia por que o Brasil não fazer o mesmo, né?
E nós falhamos. Por sorte nossa, nós tínhamos o Instituto Butantã em São Paulo e a Fiocruz no Rio de Janeiro, que se empenharam para a obtenção da vacina. Mas isso foi uma iniciativa dos dois institutos, não foi uma iniciativa do governo federal que disse, ‘olha, vamos organizar, vamos ver se nós dispomos da tecnologia, vamos apoiar o Butantã’. Ao contrário, o presidente pessoalmente declarou guerra ao Butantã, dizendo que era uma vacina chinesa, que o Ministério da Saúde não ia comprar. São coisas completamente sem sentido.
A pergunta que mais recebemos dos nossos Aliados foi: qual a sua opinião sobre os médicos que receitam o chamado “tratamento precoce” ou “kit-Covid” com cloroquina, ivermectina e outros remédios que hoje sabemos que são comprovadamente ineficazes contra o coronavírus?
Minha opinião é a pior possível, né? Como é que você tem um médico que sai defendendo uma droga inútil, com nenhuma eficácia demonstrada, para que continue sendo receitada? A medicina não pode ser assim A medicina tem que ser baseada nas evidências científicas. Isso é o que diferencia a medicina atual daquela que foi praticada há 100 anos atrás, [quando] os médicos faziam sangria, aplicavam sanguessugas. Isso foi feito durante milênios, quando a medicina não era baseada nas evidências.
O que mudou da metade do século passado para agora foi a necessidade de você comprovar que determinado tratamento tem ação contra aquela doença. Todos os estudos que foram feitos até aqui não permitiram identificar uma única droga com a ação contra o coronavírus. Quem não gostaria de ter uma droga barata com toxicidade conhecida, que pudesse ser administrada nas fases iniciais da doença e que impedisse que a doença se tornasse grave, ou que curasse a doença? Por que nós somos contra? Porque não há nenhuma evidência. Não é que não há evidências de que a droga seja útil. As evidências todas são de que elas são inúteis. E que ainda podem acrescentar efeitos colaterais.
E o que o senhor acha que leva tantos médicos a aderirem a esses tratamentos que não funcionam? É um posicionamento político se sobrepondo à ética médica?
Acho que sim. Eu só consigo ver duas razões. A primeira é a ignorância e a segunda é uma decisão política.
Muita gente também falou do papel do Conselho Federal de Medicina, que deu aval aos médicos para escolherem prescrever esses medicamentos. Como o senhor avalia esse posicionamento?
Eu acho que o Conselho Federal de Medicina e vários outros conselhos estaduais são órgãos políticos, são órgãos comandados por pessoas que são políticas, que estão ali para defender as suas posições políticas e os seus interesses políticos e pessoais. É disso que se trata.
Você vê na internet médicos de avental branco, com o nome bordado no bolso do avental, falando absurdos, as coisas mais cretinas que alguém pode dizer e levantando boatos que vão ter influência na população de um modo geral e os nossos Conselhos estão mudos. Não falam nada, deixam correr. Essas pessoas estão identificadas. Eles tinham que ser chamados, dizer: ‘Meu filho, o que tá acontecendo com você? Por que você disse uma coisa dessas, qual é a justificativa?’
Mas, infelizmente, ao lado dos médicos que estão dando um grande exemplo pra população lá nos hospitais, tratando dos doentes, se expondo, expondo as suas famílias à transmissão do vírus e os que estão aí educando a população, se esforçando, se expondo também a retaliações políticas, nós temos esse lado dos médicos que realmente tem um papel que eu acho desprezível nesse episódio todo.
Os médicos que receitam esses medicamentos inócuos e até perigosos deveriam ser punidos?
Eu acho que nós temos um código de ética muito rigoroso, sabe? Quando vemos o ministro da Saúde fazendo uma acrobacia intelectual para dizer que o médico tem direito de receitar o medicamento que ele quiser… O direito como? Eu sou oncologista, então eu tenho direito de usar uma droga que não tem efeito na doença daquele paciente? Esse é um direito meu? E o direito do doente? [O doente] que está recebendo uma droga que não vai acrescentar nada e poderá juntar efeitos colaterais. O médico não tem esse direito, não. O médico tem que se basear na melhor informação científica disponível para adaptá-la para aquele paciente. O direito de adaptar, sim. Isso é o que a gente chama de arte da medicina.
A medicina é uma arte. O que é a ciência? É o conhecimento científico. E a arte é, como que eu aplico esse conhecimento científico para essa pessoa em particular, que tem 30 anos, que tem essas características de vida, enfim. Esse é o direito que o médico tem. Mas ele pegar uma droga, ou várias drogas, que não têm nenhuma eficácia e administrar para o paciente, ele não tem esse direito, de jeito nenhum.
Eu vejo o Ministro da Saúde dando essas explicações e tentando fazer esse contorcionismo, e eu lembro daquele ditado popular que em cadeia eles usam muito. É ele querer provar que a linguiça comeu o cachorro.
Um dos nossos Aliados fez uma pergunta que resume o que muitos brasileiros estão sentindo agora: nós vamos conseguir acabar com a pandemia ou ela vai acabar conosco antes?
Não, nenhuma epidemia acabou com a humanidade, nem com um país sequer. Nós tivemos a epidemia de peste na idade média, em 1400 e pouco, que matou metade da população europeia, uma coisa muito assustadora. Mas não matou toda a população.
Primeiro, não é fácil você combater esse vírus, em lugar nenhum do mundo. Aqui as coisas também estão muito polarizadas, ‘ah, porque o governo, ah, porque o governo’, nenhum governo do mundo, nenhum governante, nem o governante ideal pra população brasileira nesse momento seria capaz de impedir mortes. Claro que não. O que não aconteceria é de nós termos nos transformado no campeão mundial em número de mortes diárias.
Nós estamos tendo três mil e tantas mortes por dia, há vários dias. Imagine que nós tivéssemos agora 420 milhões de doses de uma vacina mágica, que você deu duas doses, pronto, ninguém mais pega a doença. Ia acabar a epidemia? Claro. Mas ia acabar agora? Evidente que não. Primeiro porque você precisa de um tempo pra administrar essa vacina, depois porque as pessoas que já adquiriram o vírus vão desenvolver a doença. Quando morre alguém, essa pessoa se infectou, no mínimo, duas ou três semanas atrás. Então, as mortes por coronavírus contam a história da epidemia no passado, não no presente.
Já seria um problema terrível. Agora, imagina nós não termos vacinas suficientes. O cálculo que os epidemiologistas fazem, se correr tudo bem, se chegar o que vem da Índia e da China, se as fábricas da Fiocruz e do Butantã seguirem o cronograma direitinho, nós vamos ter todos os brasileiros dos grupos acima de 60 anos e mais os grupos de riscos vacinados até fevereiro do ano que vem. Isso é um longo processo. E tem tanto “se” no caminho que esse cronograma pode não ser respeitado.
Então, a situação é de que nós vamos conviver com o vírus. Ele vai continuar sendo transmitido enquanto nós não vacinarmos todos os brasileiros, até as crianças. E mesmo assim, conseguir 100% de cobertura vacinal da população inteira é muito complicado. Mesmo para o Brasil, que tinha um dos melhores programas de imunização do mundo, mesmo a gente contando com essa infraestrutura de 38 mil salas de vacinação espalhadas pelo país, não será fácil a gente vacinar um número suficiente de brasileiros para fazer o vírus desaparecer.
Hoje estamos no pior momento da pandemia, mas mesmo assim parte da população precisa sair para trabalhar, e parte insiste em se arriscar deliberadamente por não acreditar nas medidas de prevenção. O que poderia ser feito – tanto pelas pessoas individualmente quanto pelo Estado – para melhorar esse cenário?
No iniciozinho, em janeiro de 2020, eu mesmo achei que enquanto a doença estava só na China, não tinha chegado no Brasil, não parecia que seria uma ameaça tão grave. Eu e muitos outros, o Anthony Fauci nos Estados Unidos achou que não haveria uma mortalidade maior do que a gripe, e ele é a maior autoridade em doenças infecciosas no país. Quando estava na China, a gente não recebia as informações que refletiam a realidade, né?
Mas em fevereiro de 2020, do jeito que a doença apareceu na Itália, que é um país livre em informação, a situação ficou clara pro mundo. A partir desse momento, eu pensei que seria difícil no Brasil porque as medidas tomadas na Europa e na Ásia foram de isolamento social de cara. E nós aqui teremos muita dificuldade, porque temos um cinturão de pobreza e de miséria nas periferias das cidades brasileiras que não permite que as pessoas que não têm recursos sobrevivam sem sair pra rua para trabalhar todos os dias. O cara que vende objetos nas ruas, o que vende sanduíche, o que vende cafezinho, como é que essas pessoas vão sobreviver? Eles saem, ganham aquele dinheirinho, correm pro supermercado, e chegam em casa com a compra do dia seguinte. Eles não têm poupança, aplicação em CDB, para poder escapar da fome. E agora nós estamos vendo como é grande essa população de brasileiros que não dispõe de recurso nenhum. Essa seria a população que teria mais chance de se infectar mesmo.
Mas, aí, nós partimos de um erro, que eu espero que nunca mais seja cometido em nenhuma nova epidemia no país, que é o conceito do grupo de risco. Esse conceito colabora muito para a disseminação da epidemia. O que a gente dizia na época da AIDS? Os grupos de risco eram os homens homossexuais e os usuários de droga injetável. Então você era mulher, não usava droga na veia, você não fazia parte do grupo de risco, e aí você se arriscava. Você arranjava um namorado que era bissexual ou que era usuário de droga e você não sabia. Você expõe a população quando estabelece a coisa do grupo de risco.
O que aconteceu aqui foi a mesma coisa. Quem é o grupo de risco? Quem tem mais de 60 anos, pressão alta, diabetes, obesidade. Aí o cara tem 35 anos, vai à academia três vezes por semana, não tem pressão alta nem diabetes, não tem nada disso. Ele acha que tudo bem com ele. E olha o que tá acontecendo agora: nas UTIs brasileiras, mais da metade são jovens com menos de 40 anos. Por quê? Porque acreditaram nessa história dos grupos de risco.
Espero que nunca mais seja feito isso no Brasil. Não temos grupos de risco, nós temos comportamentos de risco. E aí, infelizmente, isso irmana aqueles que saem pra trabalhar, porque não têm alternativa, e os outros que saem pra passear, pra fazer festas em ambientes fechados.
Então o que podemos fazer hoje? O que está faltando?
Nós temos que pensar assim: o que foi feito de errado no Brasil, já foi feito. Daqui pra frente, como nós temos que pensar? Bom, nós vamos conviver com esse vírus por muito tempo. Então nós temos que ensinar as criancinhas, os jovenzinhos, a usar máscara o tempo todo. A máscara tem que fazer parte do nosso vestuário, assim como eu não saio de casa sem camisa, nós não podemos mais sair sem máscara. A ciência é que tem que dizer pra população o que pode e o que não pode fazer.
Não fizemos assim com a AIDs? A gente dizia como é que tem que ser sua vida sexual, o que você pode fazer que não tem risco e o que você não pode fazer que tem risco. Não dá pra fazer como a igreja fazia: não pode ter atividade sexual, sexo só no casamento. Resolveria o problema, mas as pessoas são teimosas, elas não obedecem.
Nós temos que dizer o que é possível. Por exemplo, ao ar livre, o risco é menor de pegar o vírus do que dentro de um ambiente fechado. Então, ‘ah, eu vou sair pra dar uma volta porque eu não aguento mais’, você pode sair com a máscara. Só que você não vai encontrar o amigo ou amiga na esquina e abraçar e beijar. Tem que estabelecer quais são as regras pras pessoas entrarem nesse jogo com segurança
Bom, aí o que acontece? ‘Eu não saio, fico trancado em casa. E chega no fim de semana, eu tenho dois casais de amigos que tão trancados como a gente, vamos convidar eles pra vir aqui’. É assim que se transmite o vírus. Porque você fica num ambiente fechado, às vezes as pessoas até chegam de máscara, aí na hora que serve o primeiro aperitivo tem que tirar a máscara, depois já ficam sem. Você pode estar aglomerado com cem pessoas e não ter nenhuma infectada e você não corre risco nenhum, e você pode receber a visita de uma pessoa só, infectada, que te transmite o vírus.
Eu acho que daqui em diante, nós temos que fazer essas definições e divulgar isso pelos meios de comunicação. Nós passamos essa epidemia inteira e o que nós divulgamos pelos meios de comunicação de massa? Eu participo do Todos Pela Saúde, nós que fizemos a primeira campanha para utilização de máscara. Isso não tem cabimento, uma iniciativa privada fazer uma coisa que caberia às autoridades federais, estaduais, municipais, a todos
O senhor defende um lockdown rigoroso, como foi feito em Araraquara?
Olha, as pessoas pensam que você faz um lockdown por decreto e funciona, não funciona. Há a necessidade de uma coordenação central. Fecha tudo? Não, não tem como fechar tudo, fica sem pão em casa, fica sem comida, é impossível. As pessoas que fazem as atividades essenciais têm que pegar ônibus, metrô, trem, isso tem que ser uma coisa muito organizada. Em Araraquara, o prefeito se reuniu com os industriais da região, com os comerciantes, com lideranças, sindicatos, estabeleceu medidas, formas de manter a população em casa, auxílio para manter a população. Foi uma ação na qual participou não apenas o governo municipal, mas os empresários também, dando cestas básicas etc. E aí ele partiu pra uma coisa que foi pra valer e conseguiu esse resultado maravilhoso. Só não foi mais maravilhoso porque as cidades em volta não fizeram isso. Então, você olha as UTIs em Araraquara, os pacientes internados não são mais de Araraquara, vieram das cidades vizinhas
Eu não vejo condição prática de nós fazermos isso mais no Brasil. Você pode fazer uma redução e conseguir um certo grau de lockdown num estado. São Paulo, por exemplo, agora parece que está começando a experimentar as vantagens do fechamento. Foi um lockdown? Não, foi uma redução da mobilidade da população. Aí o que acontece? Você fica sob uma pressão grande dos comerciantes porque a situação deles é aflitiva: se tem funcionários, eles demitem todo mundo, fecham o negócio deles, que às vezes vem de uma geração para outra, se destrói tudo? Então, você não consegue manter por muito tempo e usa qual critério [para reabrir]? Começa a reduzir o número de casos na UTI, começa a ver uma certa folga de leitos para evitar o colapso integral, abre um pouco e aí aumenta o número de casos. Nós vamos levar isso por cada vez mais tempo, porque a gente não consegue manter o distanciamento social.
Eu acho que nós temos que investir nesse momento na máscara, pesadamente. Máscara custa barato. Colocar máscara em todos os lugares, distribuir para a população, orientar como se usa, propagandas na televisão, no rádio, lideranças da sociedade toda insistindo no uso da máscara, porque isso tem um impacto. E eu acho que é um fim atingível, você pode convencer a população de que vai ter que usar máscara ainda por muitos meses.
A pandemia no Brasil veio acompanhada de uma série de problemas sociais, econômicos e políticos que tornaram essa situação gravíssima e com certeza deixarão sequelas no nosso país. Uma Aliada perguntou quais são os efeitos negativos de longo prazo na saúde que mais te preocupam?
Primeiro são as sequelas. Essa não é uma doença que tem um curso típico de infecção viral na qual você fica doente, febre, outros sintomas, depois tudo passa, o sistema imunológico se recupera e você toca a vida pra frente. Quantas gripes a gente não teve que ocorreram dessa maneira? Essa doença é um vírus que se dissemina pelo corpo todo, e provoca fenômenos inflamatórios especialmente nos músculos, no coração, nos pulmões, no fígado e em outros órgãos, até no cérebro. E uma proporção razoável dos pacientes não consegue resolver isso em duas semanas. Ficam com sequelas que se mantêm. A gente vê na televisão pessoas que saem das UTIs de cadeira de rodas. Muitos não conseguem andar, às vezes pessoas fortes.
Nós temos um outro lado dessa questão que é o seguinte: o vírus vai ficar. Se o vírus vai ficar, vai continuar havendo uma demanda no Sistema Único de Saúde. Não vai ter jeito. Nós não podemos relaxar neste ponto, dizer: ‘bom, então desmobiliza, esquece os leitos de UTI, fecha.’ Vai ter que fazer essa operação com cuidados. Veja a diferença da primeira pra segunda onda, ela nos pegou de surpresa. Leitos fechados, hospitais de campanha fechados. Não estou dizendo que eles deviam ter permanecido abertos, porque manter uma estrutura dessas sai caro e não tem nenhuma utilidade por meses. Mas nós temos que ter agilidade pra montar outros rapidamente se eles forem necessários. Então nós vamos ter a necessidade de uma vigilância do sistema de saúde.
E aí, nós temos um lado bom. Pelo menos agora os brasileiros entenderam o que é o SUS. O SUS tá na Constituição desde 1988. E nesses 30 anos, qual era a imagem que o brasileiro tinha do SUS? O pronto-socorro lotado de gente, maca no corredor, gente no chão, as pessoas reclamando que estão lá há horas e não são atendidas. Não levavam em consideração o nosso Programa Nacional de Imunizações, o programa da AIDS, o programa de transplantes que nós temos no Brasil – o maior número de transplantes gratuitos do mundo. Os EUA fazem mais que nós, mas vai ver quanto custa lá. Hoje, quando a gente sofre um acidente, alguém passa a mão no telefone e em cinco minutos chega o resgate. O que é o resgate? É o SUS chegando ali. Você tem um programa de hemodiálises no Brasil, nenhuma cidade fica a mais de 200 km de um centro de hemodiálise, e as hemodiálises são gratuitas pra todo mundo.
Nós temos ilhas de excelência no SUS. Falta a nós uma política de saúde porque nós não levamos a saúde a sério. A população leva, claro, mas os políticos não levam a saúde a sério. Vamos pegar antes do governo atual, pra não dizerem que estamos sendo parciais. De 2009 a 2019, quando tomou posse o novo governo, nós tivemos 13 ministros da saúde, em dez anos. A média de permanência no cargo foi de dez meses. O que você faz em dez meses? Dá pra criar uma política de saúde? Não dá. E nem daria porque os ministros da saúde não são especialistas em saúde, não são sanitaristas com boa formação, não são grandes gestores públicos. Eles são políticos. E o Ministério da Saúde, que é um ministério que só compra, é disputado com unhas e dentes pelos políticos. Então, pra agradar o partido X, que o Presidente justifica dizendo que precisa ter maioria na Câmara e no Congresso, eles dão pro partido Y, depois troca e põe o partido Z. E é assim que funciona. Isso que eu tô dizendo pro governo federal funciona pro estadual e pro municipal também. Esse é o problema. Enquanto a gente não se convencer que a Saúde é uma prioridade do jeito que é a Educação, que nós precisamos de técnicos preparados, nós precisamos de políticas públicas, vai ficar dessa maneira.
E, outra pergunta de uma leitora: o que podemos fazer, como comunidade, como sociedade para evitar novos surtos como o que vivemos hoje?
A primeira coisa que a gente precisa ter é informação. Quer dizer o seguinte: de repente numa região da Amazônia, onde está o contato do homem com o mata virgem, aparece uma doença estranha. Rapidamente, nós temos que identificar e sequenciar, conhecer o genes do agente que provocou essa doença para, a partir daí, montar estratégias de tratamento e de contenção.
Nós tivemos a epidemia em Manaus, essa coisa terrível. Onde é que foi descoberta a variante P1, que depois se espalhou pelo país inteiro? Em Tóquio, no Japão. Pegaram japoneses que tinham estado em Manaus e chegaram lá com a doença, e sequenciaram. Se não fossem os japoneses, pode ser que a gente não tivesse sequenciado ou levado muito tempo pra fazer o sequenciamento. Então, nós temos que investir na ciência, que é a única forma de você lidar com esse tipo de problema. Não há outra.
A desinformação e o negacionismo estão permeando e atrapalhando nosso combate à pandemia. Muita gente perguntou como dialogar com as pessoas que não acreditam nas medidas de prevenção? Que argumentos a gente pode usar com essas pessoas?
Olha, é difícil. Se dissesse que a epidemia tá começando agora, mas começou em março do ano passado. Se essas pessoas não se convenceram ainda de que é uma coisa grave, de como a doença se espalha, do perigo que correm, é difícil você conseguir convencê-las com argumentos, né? Com argumentos você consegue convencer pessoas que são racionais. As pessoas que agem nessa base, que se negam a enxergar, que tomam uma atitude irracional, não é com argumentos que você vai convencê-los, é com medidas coercitivas. Não toma vacina, então não viaja, por exemplo. Não é assim que a gente faz com as outras vacinas? Não leva a criança pra tomar a vacina, não recebe o Bolsa Família, aí as pessoas correm e levam. Nós vamos ter que agir assim com essas pessoas irracionais.
E o senhor também acabou sendo alvo da desinformação, né? Aquele vídeo de janeiro de 2020, em que se refere à Covid como um um resfriadinho na maioria dos casos foi disseminado por seguidores, por políticos próximos e até pelo próprio presidente. O senhor se dedica há tanto tempo a comunicar a divulgar a ciência e a saúde de forma clara, como foi ter uma fala sua usada de forma distorcida, sem contexto
É lógico que você fica decepcionado. Você tem uma vida inteira de atuação profissional, grande parte dela dedicada à divulgação de conhecimentos científicos e de informações sobre saúde para a população. E aí, você vê, de repente, pegarem uma fala sua que foi feita em janeiro [de 2020], quando não havia nenhum caso no Brasil, não havia nenhum caso na Itália ainda. As informações que nós tínhamos eram da China. Lógico que eu errei, evidente. Mas acho que eu não cometi um erro de avaliação naquele momento porque nós não tínhamos dados. O mundo inteiro não esperava que isso acontecesse.
Agora, você pega uma frase dessa e joga nesse contexto… até agora, toda hora repetem isso: ‘ai, não era um resfriadinho?’. Eu tenho um desprezo tão profundo por essa gente [que espalha desinformação] que, sinceramente, não me atinge mais, sabe? Porque é uma gente desclassificada, é o pior tipo de brasileiro que pode existir. Eu não tenho diálogo com essas pessoas. Não vão me atingir, eu não sou candidato a nada, nunca serei, meu trabalho não é político. Não levo a sério. É uma coisa tão baixa. E é destinada a fazer o quê? A confundir a população. A justificar os absurdos que o Presidente da República fala – e não é que ele falou em janeiro do ano passado, quando a epidemia não estava aqui. Ele fala até agora. Passou um ano inteiro confundindo a população. Dando exemplo pessoal de como facilitar a disseminação do vírus. Isso sim é um crime que não pode ficar sem punição, eu acho. Nem sei qual a punição, isso nem cabe a mim, isso é coisa dos dos juristas.
A informação que eu recebi é que o primeiro a colocar esse vídeo foi o Ministro do Meio Ambiente. Aí você vê de onde vem, né
Sim, o filho do Presidente também.
É, pois é
Após um ano de pandemia, muitos brasileiros estão exaustos e desiludidos. Que mensagem o senhor teria para as pessoas que estão se sentindo assim?
Nós temos que resistir. Quando eu tinha seis, sete anos, minha avó me contava as histórias da gripe espanhola. Ela e meu avô tinham três filhos pequenos naquela época. Ela dizia: ‘ah, filho, você não imagina o que aconteceu aqui. A gente tinha que ficar fechado em casa, só saía correndo pra comprar alguma coisa na venda e trazia pra casa. E mesmo assim, a gente ia com muito medo porque as pessoas morriam, as famílias velavam durante a noite, e na manhã seguinte colocavam os corpos na calçada pras carroças levarem pra enterrar em valas coletivas.’ É uma história que eu ouvi de pequenininho, e tenho até hoje essa imagem dos corpos na calçada. A gente morava no Brás, que é um bairro operário aqui de São Paulo.
Nós somos descendentes – todos nós, você, eu e todos que estão nos lendo – de pessoas que sobreviveram à gripe espanhola e puderam deixar descendentes dessa maneira. Eles sobreviveram numa época [entre 1918 e 1920], em que eles tinham que ficar trancados em casa e não tinham nem rádio. Imagine.
Hoje, uma parte expressiva da população fica em casa com televisão, com internet, se falando pelo zoom, e a gente vai dizer que não aguenta mais? Tem que aguentar. Sai, máscara, volta. Não se aglomera, não fica se juntando com os outros, não é a hora, não vai ser assim pra sempre. Vai passar. Nós estamos vivendo os piores momentos, e agora é a hora que a gente tem que sobreviver, porque senão a gente não deixa descendentes, né?
Falando nisso, um dos nossos editores que leu o seu livro sobre corridas perguntou como o senhor tem se organizado pra manter as atividades físicas que tanto preza?
Eu não gosto tanto, eu faço porque é preciso [risos]. Eu estou convencido de que, se quiser envelhecer bem, você tem que fazer exercício. Fazer exercício é difícil. Nenhum animal desperdiça energia sem necessidade. Os animais gastam energia atrás de comida, atrás de sexo ou pra fugir de predadores. Com essas três necessidades garantidas, eles ficam parados, não se mexem. E nós também temos essa tendência. Mas eu estou convencido de que todo mundo quer viver muito, mas não a qualquer preço. Você não quer viver muito numa cadeira de rodas, dando trabalho pra família, né? Você quer viver muito legal, enquanto estiver bem. Quando não tiver mais, tudo bem, tá na hora de se despedir.
Então eu faço exercício mesmo. Agora eu tô com essa dificuldade das ruas, mas eu subo a escadaria do prédio. Eu faço isso há muitos anos, mas agora eu faço como exercício mesmo, pelo menos quatro vezes por semana. Meu prédio tem 16 andares, eu subo a escadaria, desço de elevador, subo de novo. Eu não vou falar quantas vezes eu faço isso, porque vocês vão achar que eu sou mentiroso.
Ah, fala, por favor. É mais de duas?
Muito mais que isso.
Dez?
Não, senhora, não vou falar. Lógico que você não vai pegar e subir 16 andares na primeira vez, mas você começa fazendo uma vez. O segredo é descer de elevador, porque na descida você machuca o joelho. E quando você desce, você faz aquele alongamento de dobrar o corpo e pôr a mão no pé, sem dobrar os joelhos. É importante isso.
'Brasil não levou pandemia a sério e muitos morreram desnecessariamente', diz Nobel de Medicina - BBC News Brasil
- Luis Barrucho - @luisbarrucho
- Da BBC News Brasil em Londres

Na opinião do virologista americano Charles Rice, vencedor do Nobel de Medicina em 2020, "como aconteceu nos Estados Unidos, o governo brasileiro não levou a pandemia a sério e, como consequência, muitos morreram desnecessariamente".
Falando à BBC News Brasil por e-mail, ele diz acreditar que o presidente Jair Bolsonaro é culpado pela crise de covid-19, e que enfrentar a pandemia sob sua liderança "será um desafio".
"Embora Bolsonaro e sua administração sejam responsáveis, acho que a prioridade agora deve ser seguir em frente, agir e enfrentar a pandemia. Será um desafio, principalmente com a atual liderança, mas talvez a vontade do povo e a imprensa ajudem."
Professor de virologia na Universidade Rockefeller (Estados Unidos), Rice dividiu o prêmio do ano passado com os pesquisadores Michael Houghton e Harvey J. Alter por seus trabalhos sobre o vírus da hepatite C. A doença, para a qual não existe vacina, provoca uma inflamação do fígado que pode se tornar crônica e causar câncer, levando à morte.
Crédito,
Marcos Corrêa/PR
Carta assinada por mais de 200 nomes, incluindo três vencedores do Nobel, critica atuação de Bolsonaro em pandemia de covid-19
Carta aberta
Recentemente, Rice foi um dos três ganhadores do prêmio Nobel a assinar uma carta com mais de 200 nomes, entre cientistas e pesquisadores de todo o mundo, para defender a ciência no Brasil e criticar a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. O documento, publicado em 7 de abril, diz que a área está sob ataque pela sua gestão (ver íntegra ao fim desta reportagem).
Fim do Talvez também te interesse
Além de Rice, outros dois laureados com o Nobel, Michel Mayor (Nobel de Física em 2019) e Peter Ratcliffe (Nobel de Medicina em 2019), também estão entre os signatários.
A BBC News Brasil entrou em contato com os dois - Mayor não respondeu aos questionamentos da reportagem e Ratcliffe afirmou, por meio de sua secretária, que ficou "feliz" de ter assinado a carta, mas que não "desejava fazer comentários adicionais" sobre a situação da pandemia da covid-19 no Brasil.
No documento, os signatários dizem que Bolsonaro "deve ser responsabilizado pela condução da crise sanitária no Brasil, que não somente fez explodir o número de mortes mas acentuou as desigualdades no país".
A carta lembra que o presidente se referiu à covid-19 como "gripezinha", criticou as medidas preventivas, como isolamento físico e uso de máscaras, e "por diversas vezes provocou aglomerações", além de "propagar o uso da cloroquina" e "desencorajar a vacinação".
"Em meio ao negacionismo, proliferação de falsas informações e ataques à ciência, em plena crise sanitária, o presidente chegou a mudar quatro vezes de ministro da saúde", acrescenta o documento.
Na carta, os signatários também destacam que a ciência no Brasil "vem sofrendo diversos ataques".
"Cortes e mais cortes orçamentários que ameaçam pesquisas e colocam o trabalho de cientistas em xeque; instrumentalização da ciência à fins eleitoreiros como bem mostram as declarações do presidente desacreditando o trabalho de cientistas durante a crise sanitária. Esses ataques, no entanto, vão além do contexto da covid-19".
O Brasil é um dos países mais afetados pela pandemia de covid-19 no mundo: tem o terceiro maior número de casos confirmados de coronavírus (mais de 14 milhões) e o segundo maior número de mortes (391 mil).
Veja a íntegra da carta abaixo.
Carta Aberta: solidariedade internacional aos pesquisadore(a)s e cientistas no Brasil e ao povo brasileiro.
Pesquisadore(a)s do mundo todo
Terça-feira, 6 de abril de 2021 - O Brasil registra 4195 mortes pela Covid. Ao todo, são mais de 340 000 óbitos contabilizados desde o começo da pandemia. Se o coronavírus afeta todos os países do globo, a amplitude da catástrofe sanitária que acomete o país não pode ser dissociada da gestão desastrosa do presidente Jair Bolsonaro. O presidente deve ser responsabilizado pela condução da crise sanitária no Brasil, que não somente fez explodir o número de mortes mas acentuou as desigualdades no país.
Em inúmeros momentos, o dirigente da república brasileira se referiu à covid-19 como « gripezinha », minimizando a gravidade da doença. Bolsonaro criticou as medidas preventivas, como o isolamento físico e o uso de máscaras, e por diversas vezes provocou aglomerações. Chegou a propagar o uso da cloroquina, embora cientistas alertassem para os efeitos tóxicos do uso do fármaco para combater a covid. Pesquisadores que publicaram estudos que demonstravam que o uso do medicamento aumentava o risco de morte em pacientes com Covid chegaram a ser ameaçados no Brasil. Bolsonaro desencorajou ainda a vacinação, chegando a sugerir, por exemplo, que as pessoas poderiam se transformar em « jacaré ». Em meio ao negacionismo, proliferação de falsas informações e ataques à ciência, em plena crise sanitária, o presidente chegou a mudar quatro vezes de ministro da saúde.
A ciência brasileira está sofrendo diversos ataques : cortes e mais cortes orçamentários que ameaçam pesquisas e colocam o trabalho de cientistas em xeque ; instrumentalização da ciência à fins eleitoreiros, como bem mostram as declarações do presidente desacreditando o trabalho de cientistas durante a crise sanitária. Esses ataques, no entanto, vão além do contexto da covid-19. Basta lembrar os ataques feitos por Bolsonaro ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em um contexto alarmante diante dos níveis de desmatamento da Amazônia.
Ao desmentir a ciência, Bolsonaro não somente fere a comunidade científica, mas toda a sociedade brasileira : são diários os recordes de mortes pela covid, dados da Fiocruz indicam por exemplo a circulação de 92 cepas do coronavírus no Brasil, o que torna o país uma gigantesca fábrica de variantes ; para além temos ainda os impactos sobre o meio ambiente, povos tradicionais da Amazônia e o clima global.
Em um contexto de crise sanitária, de agravamento das desigualdades, de mudanças climáticas, este tipo de conduta é inaceitável e o autor deve ser responsabilizado. Nós nos preocupamos com o agravamento da crise sanitária no Brasil, com os ataques à ciência e por meio desta carta aberta nós, acadêmico(a)s de todo o mundo, demonstramos nossa solidariedade com os/as colegas no Brasil, cujas liberdades estão ameaçadas e com a população brasileira que é afetada diariamente por essa política destrutiva.
Na TV Cultura, emissora pública de São Paulo, Mainardi insulta telespectadores e manda Kakay "tomar no c..." (VÍDEO)

(247 – "Um dos convidados do Manhattan Connection nesta quarta-feira (28), o advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, foi xingado por Diogo Mainardi ao final da edição, recebendo um bip que cobriu sua fala. 'Como diria Olavo de Carvalho, vai (piiii)', disse o jornalista, logo após o âncora, Lucas Mendes, agradecer a Kakay pela presença no programa", informa o blog Telepadi. A leitura labial identifica a frase “Vai tomar no c…”. Mendes emendou: “Boa noite, sem Olavo de Carvalho”. Assista a cena logo abaixo.
"Não me recordo de ter visto um anfitrião dizer isso a um convidado em um programa de TV, o que dirá em uma emissora que carrega Cultura no nome e princípios públicos no seu estatuto. Ainda que o canal tenha tido o cuidado de encobrir o xingamento, o nome feio aí é o de menos. Trata-se de uma postura inesperada para um programa norteado por ideias e argumentações", escreve ainda a jornalista Cristina Padiglione, responsável pelo blog.
Kakay foi insultado por que defendeu o estado de direito e condenou os abusos cometidos pelo ex-juiz Sergio Moro, recentemente declarado suspeito e parcial pelo Supremo Tribunal Federal e também apontado como agente de interesses internacionais, em reportagem especial do jornal francês Le Monde.
“Antonio Carlos, eu não estou a fim de ouvir as suas baboseiras. Você pra mim representa o atraso do desenvolvimento do Brasil”, começou Mainardi.
“Eu quero te responder, Diogo”, reagiu Kakay: “Uma vez eu estava conversando com Chico Anysio e ele me disse que quase todo humorista é mal-humorado. Eu não conheço muito a sua vida, mas acho você um humorista. Mas o humorista que é mal-humorado, ele tem que ter uma inteligência rara, e você ficou só no mau humor. É muito difícil, entendeu? A sua acidez, eu não sei onde ela leva.”
Após Mainardi xingar Kakay, TV Cultura diz que acionou produtora do Manhattan Connection

247 - A TV Cultura informou que acionou a produtora do Manhattan Connection para que sejam adotadas medidas contra Diogo Mainardi, que xingou o advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, no programa exibido nesta quarta-feira (28).
"A TV Cultura não concorda com o ocorrido e já tomou providências junto à empresa produtora do Manhattan Connection", disse a emissora em nota, de acordo com o site F5, do UOL.
Kakay foi insultado após defender o estado de direito e condenar os abusos cometidos pelo ex-juiz Sergio Moro, recentemente declarado suspeito e parcial pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e também apontado como agente de interesses internacionais, em reportagem especial do jornal francês Le Monde.
Em sua coluna no site Antagonista, Diogo Mainardi afirmou que o palavrão foi referente a algo que dito na primeira parte do programa, que contou com a participação do humorista Fábio Porchat.
"O 'convidado' era Kakay, que durante o programa vaticinou a prisão de Sergio Moro.
O xingamento era uma referência singela a algo que foi dito na primeira parte do programa, por Fábio Porchat", escreveu Mainardi.
Em discurso ao Congresso, Biden reconhece que EUA estão atrás da China

247 - À véspera de completar 100 dias de mandato, o presidente Joe Biden discursou nesta quarta-feira no Congresso dos EUA. No discurso, o presidente americano Joe Biden relembrou o passado de investimentos dos Estados Unidos, mas admitiu que o país, hoje, está atrás da China.
"Décadas atrás, nós costumávamos investir 2% do nosso PIB [Produto Interno Bruto] em pesquisas. Hoje [o nosso investimento] é menos de 1%. A China e outros países estão avançando rapidamente", considerou.
Biden foi mais duro em suas declarações sobre a Rússia, e mandou recado direto. "Com relação à Rússia, sei que preocupa alguns de vocês, mas deixei bem claro ao presidente Putin que, embora não busquemos escalada, suas ações terão consequências se forem verdadeiras", disse Biden a legisladores reunidos na câmara da Câmara, informa o UOL.
Biden disse também que o racismo sistêmico atrasa os Estados Unidos e fez apelo para a restrição de armas no país, durante seu primeiro discurso realizado no Congresso americano. O pronunciamento do democrata a congressistas durou aproximadamente 70 minutos
Biden usou como exemplo o caso de George Floyd —segurança negro morto asfixiado enquanto era abordado por policiais brancos, em Minnesota (EUA), no ano passado— para defender uma reforma policial ampla. Biden também admitiu que o problema do racismo nos Estados Unidos é "sistêmico" e "atrasa".
O presidente americano fez ainda um apelo ao Congresso em relação a reformas para restrição do uso de armas nos EUA. Ele considera que a violência armada se tornou uma "epidemia na América" e que é preciso agir para conter o avanço.
Plano trilionário
Diante do Congresso lotado, Biden também detalhou o plano federal de US$ 1,8 trilhão (cerca de R$ 9,7 trilhões, na cotação atual) em educação, creche e licença familiar paga. O pacote de medidas, batizado de Plano das Famílias Americanas, prevê ainda a desoneração de US$ 800 bilhões (cerca de R$ 4,3 trilhões) de impostos para a classe média.
Ele pretende financiar o plano aumentando os impostos sobre os ricos, e diz que quer recompensar o trabalho, não a riqueza. Suas novas medidas propostas arrecadariam cerca de US$ 1,5 trilhão ao longo de uma década.
EUA não buscam confronto com a Rússia e querem cooperação, diz Biden em discurso ao Congresso

Sputnik - Os EUA não buscam uma escalada de tensões com a Rússia e acreditam que ambos os países podem cooperar, disse Biden nesta quarta-feira (28), ao discursar no Congresso dos EUA. Segundo o presidente norte-americano, tanto Moscou quanto Washington podem cooperar em áreas de interesse mútuo, como na questão do controle de armas nucleares e em relação às mudanças climáticas.
"Com relação à Rússia, deixei bem claro ao presidente [Vladimir] Putin que, embora não busquemos uma escalada, suas ações têm consequências", disse Biden, conforme consta na transcrição do discurso fornecida com antecedência pela Casa Branca.
Biden citou a Rússia ao comentar sua posição, que classificou como "direta e proporcional", à suposta interferência de Moscou nas eleições presidenciais dos EUA em 2020 e também por acusações de ciberataques. A Rússia nega todas as acusações.
Apesar da situação, Biden reforçou que a Casa Branca pode cooperar com a Rússia em determinadas áreas.
"Podemos cooperar quando for do nosso interesse mútuo. Como fizemos quando estendemos o Tratado Novo START sobre armas nucleares - e como estamos trabalhando para fazer em relação à crise climática", disse Biden, ainda segundo a transcrição.
Tensões entre EUA e Rússia
As tensões se intensificaram entre Washington e Moscou após um relatório da inteligência dos EUA deste ano acusando a inteligência russa de hackear sistemas de tecnologia da informação dos EUA no ano passado, e de interferir nas eleições presidenciais de 2020 nos EUA para prejudicar a campanha de Biden.
Em abril, a Casa Branca aplicou sanções contra 32 entidades e indivíduos russos em resposta às acusações e atos considerados hostis contra os interesses norte-americanos. Em diversas ocasiões o governo russo negou as acusações e apontou que elas carecem de evidências.
À época, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia condenou as sanções e afirmou que elas são contrárias aos interesses das duas nações. Em resposta, a Rússia proibiu a entrada de oito cidadãos norte-americanos no país, incluindo autoridades do governo dos EUA.
As tensões já estavam em alta entre os dois países após uma entrevista de Biden, em março, à emissora ABC News, na qual o presidente norte-americano afirmou que Putin "pagaria um preço" pela suposta interferência na eleição dos EUA e chamou o presidente russo de "assassino".
Em resposta, Putin desejou saúde ao norte-americano e afirmou que Biden deveria olhar para o passado dos EUA antes de fazer tais acusações. Mais tarde, ambos conversaram ao telefone e Biden convidou Putin para um encontro presencial em um país terceiro.
Esquerda francesa apoia punição do Exército a militares que assinaram manifesto golpista

247 - O Estado Maior das Forças Armadas da França anunciou punições contra os militares da reserva que assinaram um documento pregando a insurreição sob o pretexto de lutar contra a desintegração do país.
O manifesto dos militares foi apoiado pela líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen.
O líder do partido de esquerda França Insubmissa, Jean-Luc Melenchon se manifestou pelo Twitter saudando a atitude do Estado Maior das Forças Armadas
"Hoje o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas francesas acaba de anunciar sanções contra os militares que denunciamos por terem assinado uma tribuna chamando à insurreição", escreveu Mélenchon, que elogiou o caráter republicano das Forças Armadas francesas: "Na França o exército é republicano e seu chefe demonstra isso", escreveu o dirigente de França Insubmissa.
Áudios vazados comprovam que o genocídio é um projeto de governo - Pedro Simonard
Por Pedro Simonard

Uma vantagem para a oposição ao governo genocida é que este não aprende com seus erros que se repetem seja devido à soberba, seja por idiotia. Em mais um áudio vazado, o alto escalão do governo Bolsonaro cria provas contra si mesmo no dia exato em que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Genocídio iniciou seus trabalhos no Senado federal. O relator desta CPI, senador Renan Calheiros (MDB–AL) já mostrou que está com sangue nos olhos e não vai deixar barato as derrotas recentes que o governo do genocida lhe impôs. Em seu discurso de posse na relatoria ele já enviou recado para os militares, para a Lava Jato e para o clã Bolsonaro.
Os áudios vazados somaram-se à atitude prepotente e irresponsável do general-grande-especialista-em-logística, Eduardo Pazuello, pego passeando sem máscara em um shopping center em Manaus, uma cidade traumatizada pelas mortes por asfixia causadas pela falta de oxigênio durante a gestão do general no ministério da Saúde. Quando questionado pela sua atitude descabida em plena pandemia, Pazuello foi irônico perguntando onde é que vendiam-se máscaras para que ele adquirisse uma para seu uso. Um sujeito que passou quase um ano à frente do Ministério da Saúde certamente sabe da importância do uso de máscara para evitar a disseminação do vírus. Não o fez porque desejava criar confusão e desinformação com sua atitude e, desta forma, contribuir para o projeto genocida em curso. A atitude do general-grande-especialista-em-logística foi considerada tão absurda que os aliados do governo na CPI do Genocídio reagiram afirmando que este tipo de postura não ajudará em nada o governo nos debates durante CPI.
Voltando aos áudios, eles foram registrados durante a reunião do Conselho de Saúde Suplementar. Os participantes desta reunião não tinham conhecimento de que ela seria gravada em áudio e vídeo síncronos e por isso acabou transformando-se em uma sessão de sincericídio.
Em um dos áudios vazados, o ministro-chefe da Casa Civil da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, confessou que foi vacinado às escondidas segundo orientação do governo (leia-se Bolsonaro). A legislação determina que o ministro da Casa Civil trabalhe diretamente com o Presidente da República, assessorando-o. É o ministro mais próximo ao presidente. Luiz Eduardo Ramos é o mesmo que no dia 19 de abril publicou um tuíte em apoio ao seu amigo-de-fé-irmão-camarada, Jair Bolsonaro, dizendo que este poderia contar sempre com ele e com “seu exército”. A proximidade entre ambos chega ao nível da intimidade. O ministro não faria nada que desagradasse ao velho amigo. Vacinar-se publicamente, então, seria um absurdo, o cúmulo da traição. Mas como o parça recomendou que a vacinação fosse “secreta”, o ministro acatou a recomendação. Contudo, ele discorda do presidente no que tange à pandemia e isto fica evidente quando Ramos declara na reunião: “vou ser sincero: eu como qualquer ser humano, eu quero viver, pô, e se a ciência e a medicina tá (sic) dizendo que é a vacina, né Guedes, quem sou eu para me contrapor?” Nesta fala fica evidente que o ministro sabe quais são as medidas corretas a serem implementadas e confessou que está tentando convencer o genocida a vacinar-se também.
Se o ministro sabe o que deve ser feito, se o exército, força à qual ele pertenceu, também o sabe, tanto que vacinou ou vacinará seu contingente, ao submeter-se aos desígnios do genocida Ramos torna-se cúmplice do projeto de extermínio em curso e deve ser chamado a depor na CPI do Genocídio para esclarecer os fatos.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, mostrando que está afinado com o projeto neoliberal de extermínio em curso mundo afora, capitaneado no Brasil pelo governo Bolsonaro, também fez uma declaração sincericídica. Segundo ele, a pandemia não é a responsável pela redução da capacidade de atendimento do setor público! A culpa é da medicina que fez os seres humanos mais longevos e, sobretudo, do “direito à vida”! Afinal de contas, “todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130", declarou Guedes, e isto torna o Estado incapaz de satisfazer todas as crescentes demandas por atendimento médico devidas ao envelhecimento da população. Por causa disso, prossegue, o Estado quebrou e tornou-se incapaz de atendê-las.
Para que os trabalhadores não sobrecarreguem os serviços públicos e obriguem o Estado a taxar os ricos, Guedes propõe a criação de um vaucher que permitir-lhes-ia pagar pelos serviços de saúde que utilizassem, desafogando o orçamento público. Podemos depreender da fala de Guedes que a saída para este problema seria reduzir a quantidade de idosos, mas de idosos pobres, pretos, indígenas, LGBTQI+, mulheres etc. Os idosos ricos podem viver o quanto desejarem porque pagam seus planos de saúde, não sobrecarregam o Estado e movimentam a indústria do turismo, do entretenimento e dos serviços médicos e farmacêuticos.
Subliminarmente o discurso fascista do superministro evidencia que, para ele, o melhor seria que quem não pudesse pagar pela saúde morresse logo e dessa despesa de uma vez só.
O ministro está preocupado que a quebra do Estado não permita que seja realizada a parte do orçamento público destinada ao pagamento do capital rentista. O pagamento da dívida e dos juros da dívida para poucos é mais importante do que a vida da maioria dos trabalhadores.
Este raciocínio de Paulo Guedes coloca-se de acordo com famoso relatório do Banco Mundial publicado no começo da década de 2000 que informava que para manter o capitalismo funcionando e saudável bastavam cerca de 800 milhões de pessoas no mundo. O problema seria livrar-se dos outros 7 bilhões de pessoas sobre o planeta. Para esta gente, a pandemia chegou em um excelente momento e é por isso que a maioria dos governos a combateram com medidas que prejudicassem o menos possível as taxas de acumulação de capital e permitissem a maior quantidade de mortes possível sem colocar em risco a sobrevivência dos mais abastados.
O problema para o governo genocida é que estes áudios vazaram no momento exato em que a CPI do Genocídio instalou-se no Senado. Se a CPI será efetiva ou acabará em pizza ninguém ainda sabe. Contudo, ela já surtiu efeito e todos viram a imagem do senador Flávio Bolsonaro comparecendo à sessão de instalação da CPI e, candidamente, solicitar um adiamento da comissão parlamentar – a qual o governo não vê a hora de começar a funcionar, segundo o 01 – porque a presença dos senadores e convidados em uma mesma sala poderá colocar suas vidas em risco. A CPI já conseguiu que os genocidas abandonassem o negacionismo de maneira milagrosa! Santo remédio contra o negacionismo, esta CPI.
Esperemos que a CPI encoraje o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), a colocar em pauta um dos 5% dos pedidos de impeachment de Bolsonaro que são consistentes, já que o presidente da Câmara informou que 95% não apresentam argumentos sólidos contra Bolsonaro. São mais de 60 solicitações de impeachment na Câmara e 5% representariam algo por volta de três processos. Para o afastamento do presidente basta um. Escolhe um deles, Lira, e coloque-o para votação no plenário. A pressão popular vai encarregar-se do resto.
P.S.: Precisamos defender uma reforma constitucional que substitua o impeachment, instrumento utilizado pela burguesia neocolonial para retomar o controle do poder, pelo recall, instrumento que coloca nas mãos do povo a destituição daqueles que ele mesmo elegeu.
Covid-19: Brasil tem queda de casos e mortes, mas especialistas alertam para risco de repique

SÃO PAULO — Há uma queda real nos números de casos, mortes e internações por Covid-19 no Brasil. No entanto, especialistas dizem que não é hora de otimismo e alertam que, se a população abandonar os cuidados, pode haver um recrudescimento e situação ainda mais grave no mês de junho.
Ontem foi o sexto dia de queda nas médias móveis de mortes, com -19% em relação a 14 dias atrás. A média móvel de casos, que vinha caindo, apresentou estabilidade, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa.
Levantamento do Observatório Covid-19 da Fiocruz divulgado nesta quarta aponta queda no número de casos, mortes e ocupação de leitos, mas mostra também que os valores permanecem em patamares críticos.
O número de casos diminuiu a uma taxa de -1,5% ao dia, enquanto o de mortes foi reduzido a -1,8% ao dia. Segundo os pesquisadores que fizeram o levantamento, isso revela “uma tendência de ligeira queda, mas ainda não de contenção da epidemia”.
O estudo mostra ainda que a taxa de letalidade mais que dobrou, de 2% no final de 2020 para 4,4% na semana de 18 a 24 de abril. Para a equipe da Fiocruz, esse aumento estaria relacionado à sobrecarga dos hospitais.
E, apesar do menor número de mortes e casos, hospitais continuam lotados. Dez estados e o Distrito Federal têm taxas de ocupação de UTIs Covid superiores a 90%, outros dez apresentam taxas entre 80% e 89%, quatro estão na zona de alerta intermediária (entre 60% e 80%) e apenas dois estados estão fora da zona de alerta.
Para Alexandre Naime Barbosa, chefe da Infectologia da Universidade Estadual Paulista, a principal razão para a queda nos casos e mortes é a adoção de medidas restritivas por estados e municípios entre março e abril:
— Quando veio aquela tsunami, muitas cidades fizeram um pseudolockdown. Depois de 14 dias a gente colhe os resultados.
Outros fatores influenciaram na melhora, segundo o infectologista. Um deles é uma imunidade coletiva adquirida após a exposição em massa à variante P.1, que levou a milhares de mortes. Segundo estudos, a proteção contra o coronavírus conferida pela infecção natural é de cerca de 80%.
Embora avance lentamente, a vacinação pode ter tido efeito. Até ontem apenas 14,5% da população tinha recebido a primeira dose, e só 6,9% a segunda. Pessoas imunizadas transmitem menos o vírus por não ficarem tão doentes: sintomáticos têm de três a cinco vezes mais carga viral e por isso transmitem com mais intensidade.
Semanas decisivas
Com a flexibilização das restrições, o infectologista diz acreditar que as próximas semanas vão ser decisivas.
Com base em dados do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington, Barbosa traçou três possíveis projeções para o Brasil no dia 17 de junho: na mais otimista (com restrições e máscaras), haveria 1.068 mortes/dia. No cenário atual (com máscara e distanciamento, sem medidas restritivas), seriam 1.867 mortes/dia. No pior caso (baixa adesão às máscaras e ao distanciamento social), o número pode chegar a 3.165 mortes/dia — situação semelhante ou pior do que no pico dessa segunda onda.
— Não é que a flexibilização não deva ser feita, mas as regras têm que ser cumpridas, não pode virar a bagunça de novembro e dezembro. Se, nas próximas semanas, as pessoas usarem máscaras e mantiverem o distanciamento, os números continuarão caindo, mas, se banalizar, teremos um repique — diz Barbosa.
O sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina diz que o momento “não é de otimismo, mas de realismo”.
— Há queda em função do que fizemos no passado recente e, se todos estão na rua, vamos ver um recrudescimento a seguir, com um monte de gente doente daqui a pouco. Estamos perto do Dia das Mães e isso pode ser um matricídio — diz o sanitarista. — A variante P.1. continua solta. Se nós também estivermos soltos, vai ser um desastre.
Anteontem, levantamento do Imperial College de Londres mostrou, pela primeira vez desde novembro, a taxa de transmissão (Rt) menor que 1, o que indica tendência de desaceleração do contágio. O índice do Brasil nesta semana foi de 0,96. Nos dois relatórios anteriores, estava em 1,06.
Para a epidemiologista e reitora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Lucia Pellanda, as medidas de restrição tiveram efeito.
— É hora de comemorar, mas não relaxar. Não acabou a pandemia, ainda temos níveis muito piores do que no pior momento de 2020.
Mãe de Gil, do 'BBB', fala sobre reaparecimento do pai dele - Patrícia Kogut, O Globo
Gabriel Menezes

Durante o “Big Brother Brasil” 21, Gilberto deixou claro que está muito curioso para saber se foi aprovado para o PhD nos Estados Unidos. Desde que o programa começou, ele foi aceito em dois programas de doutorado no país, nas universidades do Texas e da Califórnia. Segundo a sua mãe, Jacira Santana, as cartas de aceite das duas universidades já foram respondidas e não há qualquer risco de ele perder o prazo de inscrição:
- Ele tem até setembro para decidir qual universidade vai querer. Está tudo certo.
Ela afirma que a hipótese de o filho desistir dos planos acadêmicos para aproveitar a fama nas redes sociais é algo que não a preocupa:
- Eu não vou me meter na escolha dele. O que ele decidir está decidido. Acho, sim, que ele tem que aproveitar a fama para termos uma vida melhor. Mas quem sabe ele consiga fazer isso paralelamente. Imagino que, por conta da pandemia, os estudos sejam remotos por um período.
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Recentemente, veio à tona um outro assunto pessoal: a relação de Gil com o pai, que o rejeitou ainda na infância. Em entrevista recente ao Extra, ele, que também se chama Gilberto, disse que quer uma reconciliação. Jacira afirma que também não irá se intrometer, mas ressalta que defenderá o filho:
- Ele nunca se aproximou, e o Gilberto também não. Eu não vou interferir. Se ele quiser se aproximar do pai, tudo bem. Agora, se machucar o filho de novo, eu boto a minha peixeira na mão e vou na goela dele. O Gil já sofreu demais com isso.
Com auxílio emergencial reduzido, Brasil terá 61 milhões na pobreza em 2021 - BBC News Brasil
- Thais Carrança
- Da BBC News Brasil em São Paulo

Com o valor menor do auxílio emergencial este ano, o Brasil deve somar 61,1 milhões de pessoas vivendo na pobreza e 19,3 milhões na extrema pobreza, segundo estudo publicado nesta quinta-feira (22/04) pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP).
Em 2021, são consideradas pobres as pessoas que vivem com uma renda mensal per capita (por pessoa) inferior a R$ 469 por mês, ou US$ 5,50 por dia, conforme critério adotado pelo Banco Mundial. Já os extremamente pobres são aqueles que vivem com menos de R$ 162 mensais, ou US$ 1,90 por dia.
Em 2019, os brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza somavam 51,9 milhões. Isto significa que, em 2021, o Brasil terá 9,1 milhões de pobres a mais do que antes da chegada do coronavírus ao país.
No ano anterior à pandemia, os extremamente pobres eram 13,9 milhões. Assim, em apenas dois anos, 5,4 milhões de brasileiros se somarão a esse grupo que convive com a carência extrema.
Para as pesquisadoras Luiza Nassif-Pires, Luísa Cardoso e Ana Luíza Matos de Oliveira, autoras do estudo, o aumento da miséria esperado para esse ano revela que o auxílio emergencial com valor médio de R$ 250 é insuficiente para recompor a perda de renda da população mais pobre em meio à pior fase da crise de saúde pública provocada pela covid-19.
Fim do Talvez também te interesse
"Já havia um crescimento da pobreza antes da pandemia, isso só não se agravou no ano passado devido ao auxílio emergencial de R$ 600 a R$ 1.200", observa Oliveira.
"O novo modelo do auxílio, que sofreu um corte significativo, está deixando grande parte da população desamparada", acrescenta a economista, lembrando ainda que a queda de 4,1% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020 só não foi maior devido ao benefício, que permitiu a parcela significativa da população manter um nível mínimo de consumo.
As economistas destacam ainda que as mulheres e a população negra são as mais afetadas por essa grave piora das condições de vida no país.
Crédito,
Igor Alecsander/Getty Images
Bolsa Família, salário mínimo e maior acesso à educação levaram à redução da pobreza no Brasil até 2014
Pobreza vem crescendo desde 2015
Até 2014, a pobreza diminuiu durante anos no Brasil, graças ao avanço de políticas sociais como o Bolsa Família, os ganhos reais do salário mínimo e a ampliação do acesso à educação.
Em 2015, sob efeito da crise econômica, a tendência se inverteu e a miséria voltou a crescer ano após ano. A trajetória de alta, no entanto, foi interrompida em 2020, graças ao efeito do auxílio emergencial.
O benefício foi criado em abril do ano passado, com valor de R$ 600, que podia chegar a R$ 1.200 para mães solteiras chefes de família. Foram pagas cinco parcelas nesses valores cheios e outras quatro com os valores reduzido à metade, num total de R$ 295 bilhões.
Em julho de 2020, mês em que o efeito do benefício atingiu o seu auge, a taxa de extrema pobreza do país foi reduzida a 2,4% e a de pobreza a 20,3%, estimam as pesquisadoras, com base em dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua e da Pnad Covid-19 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Foram os patamares mais baixos já registrados para esses indicadores em pelo menos 40 anos, conforme uma série mais longa produzida pelo pesquisador Daniel Duque, do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas).
A título de comparação, essas mesmas taxas eram de 6,6% e 24,8% em 2019, antes da pandemia. Agora em 2021, a expectativa é de que a extrema pobreza atinja 9,1% da população e a pobreza chegue a 28,9%.
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Patrick Altmann/Getty Images
População de baixa renda ficou sem auxílio nenhum de janeiro a março de 2021
Neste ano, a população de baixa renda ficou sem auxílio nenhum de janeiro a março. Em abril, o pagamento começou a ser feito primeiramente apenas através do aplicativo da Caixa, o que dificultou o uso do recurso por parte das famílias, que têm dificuldade de acesso à internet.
O valor do benefício foi reduzido a uma média R$ 250, variando entre R$ 150 para pessoas que moram sozinhas, R$ 250 para domicílios com mais de uma pessoa e R$ 375 para mães solo.
O universo de beneficiários foi diminuído de 68,2 milhões de pessoas em 2020, para 45,6 milhões de famílias em 2021.
O saque foi restrito a uma pessoa por família e limitado a indivíduos que já receberam o auxílio em 2020 - o que significa que quem perder a renda esse ano, não poderá contar com a ajuda.
O montante autorizado pelo Congresso para o auxílio emergencial em 2021 é de R$ 44 bilhões, comparado aos R$ 295 bilhões do ano passado. Está previsto o pagamento de quatro parcelas este ano, ante nove parcelas pagas em 2020.
"Estamos no pior momento da pandemia em termos sanitários, com diversas cidades voltando a restringir atividades e, justamente agora, foi reduzido o estímulo fiscal", observa Oliveira, que é professora visitante da Flacso Brasil (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) e coordenadora-geral da secretaria executiva da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Serviço Público.
"Isso deve ter um impacto não só para a população vulnerável, mas também um efeito macroeconômico muito grande. Então é um problema para os mais pobres e para o Brasil como um todo."
Mulheres negras são as mais prejudicadas
Embora a redução do estímulo fiscal afete o Brasil como um todo, são as mulheres negras as mais prejudicadas pela redução do auxílio emergencial em 2021, aponta o estudo lançado nesta quinta-feira pelo Made-USP.
Antes da pandemia, a pobreza atingia 33% das mulheres negras, 32% dos homens negros e 15% das mulheres brancas e dos homens brancos. Com o auxílio reduzido de 2021, esses mesmos indicadores devem subir a 38%, 36% e 19%.
Já a taxa de extrema pobreza, antes da crise, era de 9,2% entre mulheres negras, 8,9% entre homens negros, 3,5% entre mulheres brancas e 3,4% entre homens brancos.
Com o benefício emergencial nos valores de 2021, a miséria deve chegar a percentuais muito acima dos verificados antes da crise: respectivamente, 12,3%, 11,6%, 5,6% e 5,5%.
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'Como a posição das mulheres no mercado de trabalho já é mais vulnerável, quando há uma crise, elas são mais atingidas', diz pesquisadora
"De modo geral, as mulheres estão mais sujeitas à pobreza", observa Nassif-Pires, professora no Levy Economics Institute do Bard College (EUA).
"Elas são mais propensas a terem emprego informal, estão segregadas em ocupações que pagam menos e existe um hiato salarial entre homens e mulheres mesmo dentro de uma mesma ocupação. Além disso, elas mais frequentemente têm dependentes do que os homens", diz a economista.
"Então, há toda uma questão que vem de antes da pandemia, mas tudo isso se agrava com a crise, porque, devido à informalidade maior, é mais fácil para elas perderem o emprego", destaca, acrescentando que a pandemia também exigiu maior produção dentro de casa, em atividades de cuidado dos filhos e de idosos, que são no geral realizadas pelas mulheres.
"Em casais heterossexuais, frequentemente é a mulher que abre mão do emprego", lembra a professora do Bard College. Além disso, com as escolas e creches fechadas, muitas mulheres tiveram que deixar seus trabalhos fora de casa por não terem com quem deixar as crianças.
"Em resumo, como a posição das mulheres no mercado de trabalho já é mais vulnerável, quando tem uma crise, elas são mais atingidas", sintetiza Nassif-Pires.
Com relação à população negra, a pesquisadora é enfática quanto à origem das maiores taxas de pobreza desta parcela dos brasileiros: a herança da escravidão.
"Essa é a resposta rápida, mas, para além disso, há todo um racismo estrutural que resulta que, mesmo para um grupo de pessoas com a mesma escolaridade, há diferenças no nível salarial, nos tipos de ocupação e na taxa de informalidade entre negros e brancos."
"Então existe um racismo muito forte dentro do mercado de trabalho que coloca a população negra numa posição um tanto mais precária em termos de trabalho formal", observa.
'Estados deveriam complementar auxílio'
Para Oliveira, a pesquisa deixa evidente que são as mulheres negras as que mais estão sofrendo com a crise atual.
"Fica claro que precisamos de políticas específicas voltadas para esse grupo", diz a pesquisadora. "Precisamos também entender como a política fiscal e a política econômica como um todo impactam especificamente essa parcela da população."
A professora da Flacso-Brasil destaca, por exemplo, que cortes de recursos destinados à saúde, educação e assistência social afetam diretamente essa população mais vulnerável.
Além disso, a pandemia traz o risco de que avanços conquistados nas últimas décadas na redução da desigualdade racial e de gênero se percam, caso o Estado não dê uma resposta, na forma de medidas de apoio a essa população.
"Recomendamos a continuação do auxílio enquanto a pandemia durar e o pagamento de auxílios adicionais por Estados e municípios, para complementar esse valor tão baixo do auxílio federal de 2021", diz Cardoso, pesquisadora de pós-doutorado na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
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'A pobreza tem um caráter geracional. É muito provável que impacto que as famílias estão sofrendo agora tenha reflexos no futuro', afirma economista
"Além disso, indicamos também a elaboração de políticas voltadas aos jovens e crianças que estão em casa, como políticas de acesso à internet para os alunos de escolas públicas, porque a pobreza tem um caráter geracional", afirma a economista e demógrafa.
"Então esse impacto de agora que as famílias estão sofrendo não vai durar apenas um ano ou dois. É muito provável que isso se estenda e tenha reflexos no futuro também."
Para Cardoso, a demora do governo para retomar o auxílio em 2021 e os baixos valores estabelecidos mostram o descaso do governo com a população e com o combate às desigualdades. "Essas coisas deveriam ser prioridades", avalia.
Quanto à viabilidade de se estender o auxílio enquanto durar a pandemia, Nassif-Pires avalia que a restrição financeira imposta pelo teto de gastos é uma limitação política.
"O espaço fiscal poderia existir, mas existe um embate político por esse espaço", afirma.
"Pensando de forma estratégica, o custo do auxílio emergencial não é somente o seu valor de face, porque há um retorno disso. Ele faz com que a economia continue funcionando, então seu custo líquido é muito menor do que aquele que vai aparecer no Orçamento."
Além disso, a professora destaca que o auxílio emergencial tem papel fundamental no controle da pandemia.
"As pessoas que estão na extrema pobreza e na pobreza não têm a possiblidade de escolher cuidar de sua saúde. Elas estão numa situação de vida ou morte diária e não podem deixar de trabalhar, mesmo que estejam doentes ou trabalhando em situações precárias e expostas à pandemia", diz a economista.
"Manter a economia funcionando apesar da emergência de saúde, às custas de as pessoas precisarem se expor para sobreviver, tem impacto sobre a própria continuidade da pandemia. O problema econômico é resultado do problema sanitário."
O plano trilionário para capturar CO2 do ar e esfriar a Terra
- Frank Swaine
- BBC Future

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A Carbon Engineering está planejando construir, no Texas, a maior usina de captura direta de ar do mundo
O ano é 2050. Saia do Museu do Petróleo da Bacia do Permiano, no Estado americano do Texas, e dirija em direção ao norte atravessando a vegetação castigada pelo sol, onde algumas bombas de óleo remanescentes compõem a paisagem, e você vai se deparar com um palácio cintilante.
A terra aqui é espelhada: as ondas azul-prateadas de um imenso painel solar se estendem em todas as direções.
Ao longe, eles esbarram em uma parede cinza colossal de cinco andares de altura e quase um quilômetro de comprimento. Atrás deste muro, você avista as tubulações e pórticos de uma fábrica de produtos químicos.
Conforme você se aproxima, vê que a parede está se movendo — ela é inteiramente composta de ventiladores enormes que giram em caixas de aço. Parece um aparelho de ar-condicionado gigantesco, soprando em proporções inacreditáveis.
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Esta paisagem texana ficou famosa pelos bilhões de barris de petróleo extraídos de suas profundezas durante o século 20. Agora, o legado desses combustíveis fósseis — o CO2 em nosso ar — está sendo bombeado de volta para os reservatórios vazios.
Se o mundo deseja cumprir as metas do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5 °C até 2100, paisagens como esta podem ser necessárias em meados do século.
Mas voltemos por um momento até 2021, para Squamish, na Província canadense de British Columbia, onde, em contraste com um horizonte bucólico de montanhas nevadas, estão sendo feitos os últimos retoques em um dispositivo do tamanho de um celeiro coberto com uma lona azul.
Quando entrar em operação, em setembro, o protótipo da usina de captura direta de ar da Carbon Engineering começará a remover 1 tonelada de CO2 do ar todos os anos.

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A usina piloto da Carbon Engineering em British Columbia, no Canadá, será o modelo para usinas de DAC muito maiores
É um pequeno começo, e uma usina um pouco maior no Texas está em andamento, mas esta é a dimensão típica de uma usina de DAC hoje.
"As mudança climática estão sendo causadas pelo excesso de CO2", diz Steve Oldham, executivo-chefe da Carbon Engineering. "Com a DAC, você pode remover qualquer emissão, em qualquer lugar, a qualquer momento. É uma ferramenta muito poderosa."
A maior parte da captura de carbono se concentra na limpeza das emissões na fonte: purificadores e filtros em chaminés que evitam que gases nocivos atinjam a atmosfera.
Mas isso é impraticável para pequenas e numerosas fontes pontuais, como os cerca de 1 bilhão de automóveis do planeta. Tampouco pode combater o CO2 que já está no ar. É aí que entra a captura direta.
Se o mundo quer evitar mudanças climáticas catastróficas, migrar para uma sociedade neutra em carbono não é suficiente.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) alertou que limitar o aquecimento global a 1,5 °C até 2100 exigirá tecnologias como a DAC para "implantação em larga escala de medidas de remoção de dióxido de carbono" — larga escala, neste caso, são vários bilhões de toneladas a cada ano.
O empreendedor Elon Musk prometeu recentemente US$ 100 milhões para desenvolver tecnologias de captura de carbono, enquanto empresas como Microsoft, United Airlines e ExxonMobil estão fazendo investimentos de bilhões de dólares nesta área.
"Os modelos atuais sugerem que vamos precisar remover 10 bilhões de toneladas, ou gigatoneladas, de CO2 por ano até 2050 e, no fim do século, esse número precisa dobrar", diz Jane Zelikova, cientista do clima da Universidade de Wyoming, nos Estados Unidos.
No momento, "não estamos removendo praticamente nada". "Precisamos começar do zero".
A usina da Carbon Engineering em Squamish foi projetada como uma plataforma de testes para diferentes tecnologias. Mas a empresa tem um projeto para uma usina muito maior nos campos de petróleo do oeste do Texas, que capturaria 1 milhão de toneladas de CO2 por ano.
"Uma vez que estiver pronto, é como uma forma, você simplesmente constrói réplicas dessa usina", diz Oldham.
Ele admite, no entanto, que o volume de trabalho pela frente é vertiginoso. "Precisamos extrair 800 gigatoneladas da atmosfera. Isso não vai acontecer da noite para o dia."
Céu azul
A ciência da captura direta de ar é simples. Há várias maneiras de fazer isso, mas o sistema da Carbon Engineering usa ventiladores para puxar ar contendo 0,04% de CO2 (níveis atmosféricos de hoje) por meio de um filtro embebido em solução de hidróxido de potássio — produto químico conhecido como potassa cáustica, usado na fabricação de sabão e vários outros produtos.

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A instalação da Climeworks perto de Zurique, na Suíça, vende o CO2 que captura para as estufas de produtores de hortaliças da região
O hidróxido de potássio absorve CO2 do ar. O líquido é canalizado para uma segunda câmara e misturado com hidróxido de cálcio, a cal usada na construção civil, que se prende ao CO2 dissolvido, produzindo pequenos flocos de calcário.
Esses flocos são peneirados e aquecidos em uma terceira câmara, de calcinação, até que se decomponham, liberando CO2 puro, que é capturado e armazenado. Em cada etapa, os resíduos químicos são reciclados.
Com as emissões globais de carbono continuando a aumentar, a meta climática de 1,5 °C parece cada vez menos provável de ser alcançada sem intervenções como essa.
"O número de coisas que teriam que acontecer sem a captura direta de ar é tão extenso e variado que é altamente improvável que sejamos capazes de cumprir o Acordo de Paris sem ela", diz Ajay Gambhir, pesquisador sênior do Instituto Grantham para Mudança Climática da Universidade Imperial College London, no Reino Unido, e um autor de um artigo sobre o papel da DAC na mitigação do clima.
O IPCC apresenta alguns modelos de estabilização do clima que não dependem da captura direta de ar, mas Gambhir adverte que eles são "extremamente ambiciosos" em suas previsões sobre os avanços na eficiência energética e a disposição das pessoas em mudar seu comportamento.
"Passamos do ponto em que a redução das emissões precisava ocorrer", acrescenta Zelikova. "Estamos confiando cada vez mais na DAC."
A DAC está longe de ser a única maneira de o carbono ser retirado da atmosfera. Ele pode ser removido naturalmente por meio de mudanças no uso da terra, como o plantio de florestas.
Mas é algo lento e exigiria grandes extensões de terras valiosas — reflorestar uma área do tamanho dos Estados Unidos, segundo alguns estimam, e aumentar o preço dos alimentos em cinco vezes no processo.
E, no caso das árvores, o efeito da remoção do carbono é limitado, uma vez que elas acabarão morrendo e liberando o carbono armazenado, a menos que possam ser derrubadas e queimadas em um sistema fechado.
O tamanho do desafio para a remoção de carbono usando tecnologias como a DAC, em vez de plantas, não é menor.
O artigo de Gambhir calcula que simplesmente manter o ritmo das emissões globais de CO2 — atualmente, 36 gigatoneladas por ano — exigiria construir cerca de 30 mil usinas de DAC de larga escala, mais de três para cada central elétrica a carvão em operação no mundo hoje.
A construção de cada usina custaria até US$ 500 milhões — chegando a um custo de até US$ 15 trilhões.
Cada uma dessas unidades precisaria ser abastecida com solvente para absorver o CO2. O abastecimento de uma frota de usinas grande o suficiente para capturar 10 gigatoneladas de CO2 por ano vai exigir cerca de 4 milhões de toneladas de hidróxido de potássio, o equivalente a uma vez e meia todo o fornecimento anual global deste produto.
E uma vez que essas milhares de usinas forem construídas, elas também vão precisar de energia para funcionar.

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Estimular o crescimento de hortaliças em estufas pode se uma aplicação para o CO2 capturado do ar pela DAC
"Se esta fosse uma indústria global absorvendo 10 gigatoneladas de CO2 por ano, você estaria gastando 100 exajoules, cerca de um sexto da energia global total", diz Gambhir.
A maior parte dessa energia é necessária para aquecer a câmara de calcinação a cerca de 800 °C — quente demais para a energia elétrica sozinha, então, cada planta de DAC precisaria de um aquecedor a gás e de uma boa fonte de gás.
As estimativas de quanto custa capturar uma tonelada de CO2 do ar variam amplamente, de US$ 100 a US$ 1 mil por tonelada.
Oldham diz que a maioria dos números é excessivamente pessimista — ele está confiante de que a Climate Engineering pode remover uma tonelada de carbono por apenas US$ 94, especialmente quando se tornar um processo industrial difundido.
Um problema maior é descobrir para onde enviar a conta. Incrivelmente, salvar o mundo acaba sendo algo muito difícil de vender, comercialmente falando.
A captura direta de ar resulta, no entanto, em uma mercadoria valiosa: milhares de toneladas de CO2 comprimido.
Isso pode ser combinado com o hidrogênio para produzir um combustível sintético neutro em termos de carbono. E poderia então ser vendido ou queimado nos aquecedores a gás da câmara de calcinação (onde as emissões seriam capturadas e o ciclo continuaria novamente).
Surpreendentemente, um dos maiores clientes do CO2 comprimido é a indústria de combustíveis fósseis.
À medida que os poços secam, não é incomum espremer o óleo restante do solo pressionando o reservatório usando vapor ou gás em um processo chamado recuperação aprimorada de petróleo.
O dióxido de carbono é uma escolha popular para isso e vem com o benefício adicional de reter esse carbono no subsolo, completando o estágio final de captura e armazenamento de carbono.
A Occidental Petroleum, que se associou à Carbon Engineering para construir uma planta de DAC em larga escala no Texas, usa 50 milhões de toneladas de CO2 todos os anos na recuperação aprimorada de petróleo.
Cada tonelada de CO2 usada dessa forma vale cerca de US$ 225 somente em créditos fiscais.
Talvez seja apropriado que o CO2 presente no ar acabe sendo devolvido ao subsolo dos campos de petróleo de onde veio, embora possa ser irônico que a única maneira de financiar isso seja buscando ainda mais óleo.
A Occidental e outras empresas esperam que, ao bombear CO2 no solo, possam reduzir drasticamente o impacto do carbono do petróleo: uma operação típica de recuperação aprimorada sequestra uma tonelada de CO2 para cada 1,5 tonelada que libera de óleo fresco.
Portanto, embora o processo reduza as emissões associadas ao petróleo, ele não equilibra as contas.
Outras alternativas
Mas há outros usos que podem se tornar mais viáveis comercialmente. A Climeworks, empresa de captura direta de ar, tem 14 unidades de menor escala em operação sequestrando 900 toneladas de CO2 por ano, que vende para uma estufa para estimular o crescimento da plantação de picles.
E agora está trabalhando em uma solução de longo prazo: uma usina em construção na Islândia vai misturar CO2 capturado com água e bombeá-lo até 500 ou 600 metros abaixo do solo, onde o gás reagirá com o basalto ao redor e se transformará em pedra.
Para financiar isso, ela oferece às empresas e aos cidadãos a possibilidade de comprar crédito de carbono, a partir de meros 7 euros por mês. Será que o resto do mundo pode ser convencido a fazer isso?
"A DAC sempre custará dinheiro e, a menos que você seja pago para isso, não há incentivo financeiro", diz Chris Goodall, autor de What We Need To Do Now: For A Zero Carbon Future (O que precisamos fazer agora: para um futuro com carbono zero, em tradução livre).
A Climeworks pode vender créditos para pessoas virtuosas, firmar contratos com a Microsoft e a Stripe para tirar algumas centenas de toneladas de carbono por ano da atmosfera, mas isso precisa ser aumentado em um milhão de vezes, e requer que alguém pague por isso.
"Há subsídios para carros elétricos, financiamento barato para usinas solares, mas você não vê isso para DAC", diz Oldham.
"Há tanto foco na redução de emissões, mas não existe o mesmo grau de foco no resto do problema, o volume de CO2 na atmosfera. O grande impedimento para a DAC é que a ideia não está nas políticas".
Zelikova acredita que a DAC seguirá um caminho semelhante ao de outras tecnologias climáticas e se tornará mais acessível.
"Temos curvas de custo bem desenvolvidas que mostram como a tecnologia tem o custo reduzido muito rapidamente", afirma.
"Superamos obstáculos semelhantes com a energia eólica e solar. O principal é implementa-las ao máximo. É importante que o governo apoie a comercialização — ele tem um papel como primeiro cliente, e um cliente com o bolso cheio de dinheiro."

CRÉDITO,SANDRA O SNAEBJORNSDOTTIR
Instalações na Islândia pretendem mineralizar o CO2 para mantê-lo fora de circulação na atmosfera como uma solução de longo prazo
Goodall defende um imposto global sobre o carbono, o que tornaria caro emitir carbono, a menos que os créditos fossem adquiridos.
Mas ele reconhece que essa ainda é uma opção politicamente impopular. Ninguém quer pagar impostos mais altos, especialmente se os efeitos do nosso estilo de vida de alta demanda energética — incêndios florestais crescentes, secas, inundações, aumento do nível do mar — forem vistos como sendo arcados por outra pessoa.
Zelikova acrescenta que também precisa haver um diálogo mais amplo na sociedade sobre quanto devem custar esses esforços.
"Há um custo enorme nas mudanças climáticas, nos desastres naturais induzidos ou exacerbados. Precisamos acabar com a ideia de que a DAC deveria ser barata".
Risco e recompensa
Mesmo se concordarmos em construir 30 mil usinas de DAC em escala industrial, encontrar os materiais químicos para opera-las e o dinheiro para pagar por tudo isso, ainda não estaremos fora de perigo.
Na verdade, podemos acabar em uma situação pior do que antes, graças a um fenômeno conhecido como dissuasão da mitigação.
"Se você acha que a DAC estará lá no médio a longo prazo, você não fará tanta redução de emissões no curto prazo", explica Gambhir.
"Se a ampliação der errado — se for difícil produzir o adsorvente, ou se degradar mais rapidamente, se for mais complicado tecnologicamente, se acabar sendo mais caro do que o esperado —, então, de certa forma, por não ter agido rapidamente no curto prazo, você efetivamente se vê encurralado em um caminho de temperaturas mais altas."
Os críticos da DAC apontam que grande parte de seu apelo reside na promessa de uma tecnologia hipotética que nos permite continuar vivendo nosso estilo de vida rico em carbono.
Mesmo assim, Oldham argumenta que, para algumas indústrias difíceis de descarbonizar, como a da aviação, os créditos que financiam a DAC podem ser a opção mais viável.
"Se for mais barato e mais fácil retirar o carbono do ar do que parar de voar, talvez seja esse papel que a DAC desempenha no controle de emissões."
Gambhir argumenta, por sua vez, que não é uma situação do tipo "isso ou aquilo". "Precisamos reduzir rapidamente as emissões no curto prazo, mas, ao mesmo tempo, desenvolver a DAC com determinação para ter certeza de que poderemos contar com ela no futuro."
Zelikova concorda: "A DAC é uma ferramenta fundamental para equilibrar o orçamento de carbono, de forma que o que não podemos eliminar hoje possa ser removido mais tarde."
Enquanto Oldham busca expandir a Carbon Engineering, o fator primordial é provar que a DAC em larga escala é "viável, acessível e disponível".
Se ele for bem-sucedido, o futuro do clima do nosso planeta pode mais uma vez ser decidido nos campos de petróleo do Texas.
Em Miami, Anitta diz que já está vacinada: 'Feliz e triste ao mesmo tempo'

Renata Nogueira
De Splash, em São Paulo
29/04/2021 14h40
Atualizada em 29/04/2021 15h16
Em coletiva de imprensa realizada hoje para divulgar sua nova música, "Girl From Rio", que será lançada hoje às 19h, Anitta contou aos jornalistas que já está vacinada.
A cantora, que está em Miami, nos Estados Unidos, desde março trabalhando no seu novo álbum, disse que fica dividida com o sentimento de já ter sido imunizada contra a covid-19 muito antes da grande maioria dos brasileiros.
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Anitta ainda contou como tem sido a vida no país que já está bem mais avançado em relação ao Brasil na imunização da população.
Amanhã, ela dará uma festa em um hotel de Miami para comemorar o lançamento de "Girl From Rio" e conta que as baladas na cidade já voltaram e quase tudo está aberto.
"Aqui, por exemplo, se você quer ir a um jogo de basquete, a algum lugar fechado, você só mostra que você já tomou as duas doses da vacina há mais de 15 dias e pronto", explicou Anitta, antes de revelar que ela mesma já está imunizada e, por isso, trabalhando normalmente.
"Eu estou vacinada, praticamente todo mundo que eu conheço está. É feliz e triste ao mesmo tempo. Pois quando você olha para o Brasil você vê que infelizmente nosso presidente fez escolhas muito ruins", criticou a cantora, que não falou qual das vacinas disponíveis tomou.
Anitta, que tem sido bastante critica ao governo do presidente Jair Bolsonaro, ainda fez questão de lembrar como as coisas mudaram nos Estados Unidos logo após Donald Trump deixar a presidência e Joe Biden assumir, em janeiro.
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Vacinas na Flórida

Segundo dados oficiais, a Flórida já imunizou mais de 6 milhões de pessoas com as duas doses da vacina. Atualmente, o estado já está vacinando pessoas a partir de 16 anos com as vacinas da Pfizer. Os maiores de 18 anos podem ainda escolher entre essa ou as vacinas da Moderna ou Johnson e Johnson.
O estado prioriza a vacinação dos residentes, mas também está vacinando não residentes que apresentem documentos como uma declaração de aluguel mensal de alguma propriedade ou alguma comprovação de conta em instituições financeiras do país.
O pai de Anitta, Mauro Machado, já havia sido imunizado em março, também em Miami, e rebateu críticas de que teria furado a fila da vacinação, elogiando o atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.
Biden mandou vacinar sem olhar a quem. Latinos, cubanos, árabes, judeus, e todos os gêneros sociais. Turista está aqui e tem vacina disponível, porque não vacinar? Mauro Machado, pai de Anitta, em março
Paulo Guedes reclama de “filho de porteiro na universidade” e parece estar pedindo para ser demitido

247 - Depois de insultar a China, dizendo que “chinês inventou o vírus”, e de afirmar que brasileiros estavam querendo viver demais e chegar aos 100 anos, o ministro Paulo Guedes, da Economia, deu mais uma declaração estúpida, que provocaria sua demissão imediata em qualquer país minimamente sério, ao reclamar da entrada de “filho de porteiro” em universidade.
Sem saber que era gravado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, reclamou que o governo federal deu bolsas em universidades para “todo mundo” por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), aponta reportagem do Estado de S. Paulo, assinada por Mateus Vargas. “Guedes disse que o filho do seu porteiro foi beneficiado mesmo após zerar o vestibular, ainda que o programa tenha exigências de nota mínima para aprovar o financiamento”, relata o repórter.
Para o ministro, o Fies foi um “desastre” que enriqueceu meia dúzia de empresários. As falas de Guedes foram feitas em reunião do Conselho de Saúde Suplementar (Consu), na terça-feira, 27. “O porteiro do meu prédio, uma vez, virou para mim e falou assim: 'Seu Paulo, eu estou muito preocupado'. O que houve? 'Meu filho passou na universidade privada'. Ué, mas está triste por quê? 'Ele tirou zero na prova. Tirou zero em todas as provas e eu recebi um negócio dizendo: parabéns, seu filho tirou...' Aí tinha um espaço para preencher, colocava 'zero'. Seu filho tirou zero. E acaba de se endereçar a nossa escola, estamos muito felizes”, disse Guedes.




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