Brasil, MERGULHADO no "discurso da ESTUPIDEZ", banaliza MORTES

*
"Hackeando Darwin"
*
Gisele Cittadino: ‘em qualquer lugar sério, a turma de Curitiba estaria presa’
*
'BUG HUNTERS' :
caçar defeitos em sites vira PROFISSÃO COBIÇADA e MILIONÁRIA 
*

Mergulhado no 'discurso da estupidez', Brasil está se acostumando à multiplicação das mortes, diz psicanalista

Mauro Mendes Dias, em seu livro "O Discurso da Estupidez" , diz que a estupidez tem caracterizado um posicionamento de algumas pessoas diante da vida

São Paulo | BBC News Brasil

Após mais de 369 mil mortos por Covid-19 e uma população fadigada pelas medidas de isolamento social, seria possível supor que a urgência de uma vacina contra o novo coronavírus fosse unânime entre os brasileiros.

No entanto, posições antivacina, embora minoritárias no país, são compartilhadas pelo presidente da República e por cidadãos, em um contexto de negacionismo da pandemia e desapreço pela ciência.

Em 1913, antes mesmo de vivenciar os horrores da gripe espanhola, Sigmund Freud escrevera que não havia "nada mais caro na vida que a doença —e a estupidez".

Definida por dicionários como uma ausência de discernimento, a estupidez tem caracterizado um posicionamento específico de algumas pessoas diante da vida, argumenta o psicanalista Mauro Mendes Dias em seu livro "O Discurso da Estupidez" (editora Iluminuras).

O autor identifica a vigência, hoje, de relações entre pessoas e com o mundo baseadas em uma substituição da verdade pela crença.

Segundo ele, a estupidez é local e, ao mesmo tempo, internacional.

Pessoal passando e ao fundo o congresso brasileiro
Homenagem em Brasília em frente a projeção sobre as mais de 100 mil pessoas que perderam a vida para a covid-19 no país; marca foi ultrapassada em agosto de 2020 - Adriano Machado/Reuters

Esse discurso, que é sem rosto e sem palavras, fica visível por meio das vociferações, conceito psicanalítico criado para designar os gritos marcados pelo ódio e que visam a impedir qualquer possibilidade de diálogo. Alguns minutos de interação nas redes sociais oferecem farta amostragem de uma comunicação cada vez mais vociferante.

Em entrevista à BBC News Brasil, Mendes Dias, que é diretor do Instituto Vox de Pesquisa em Psicanálise, explica que a maior ênfase do discurso da estupidez "reduz a complexidade, a inteligência e a reflexão".

Mendes Dias observou isso com a entrada do ex-premiê Silvio Berlusconi na política italiana, ainda nos anos 1990, inserindo naquela cena o mundo do marketing e da mídia. "Quando a política se torna um espetáculo, trata-se de transformar a complexidade da realidade, de agradar o público e a opinião pública, e não do compromisso político. Então, o discurso da estupidez propiciou o advento de líderes estúpidos", diz o psicanalista.

"Mas isso não é feito iludindo as pessoas de forma grosseira. Tem que ser construída uma outra realidade", prossegue. Nessa outra realidade, que deixa tudo definido e decidido para que os sujeitos simplesmente sigam, sem precisar fazer escolhas, as fake news e os absurdos são fundamentais para a "transformação da política em um espetáculo grosseiro".

"O que há de cativante no discurso de estupidez é que ele soube bem mobilizar essa espécie de paixão que habita a coletividade, que é poder ficar cega e surda pra tudo aquilo que importa", argumenta Dias.

"Nesse sentido, não é por acaso que os líderes estúpidos, principalmente aqueles que ascenderam na Europa, elegeram o imigrante como o grande problema. Ou nos EUA, em que se pensou que um muro na fronteira com o México ou acusar a China de querer roubar a economia mundial iria resolver todas as questões do país. Quem quer resolver um problema com seriedade não pode achar que botar um muro vai zerar os conflitos de um país."

Segundo o autor, esses são exemplos de o quanto se abre mão do pensamento crítico. "O estúpido quer prometer absurdos e cultivar uma espécie de adoração da morte; trata-se, o tempo todo, de destruir. Seja uma ilusão de mudança, seja tudo aquilo que representa o patrimônio da humanidade, no sentido ecológico ou cultural."

A principal tese do livro é a de que no discurso da estupidez, em seu propósito de instalação de uma nova realidade, a crença é colocada no lugar da verdade. Mas ele faz uma ressalva: "Não é uma questão de religião, é uma questão de seitas."

Na prática, a crença em um absurdo tem caráter cativante porque retira a necessidade de se lidar com a complexidade que é viver. "Se a gente se orientar pelos princípios das seitas, para que viver de maneira virtuosa, estudando, ou lendo, se daqui a pouco tudo vai acabar?"

A aderência às ideias absurdas não decorre de ignorância, baixa escolaridade ou condição socioeconômica, explica Dias. A ligação à crença passa por questões mais complexas, como a sexualidade.

"Não por acaso a vigência dos líderes estúpidos cobra sempre o preço da eliminação das diferenças. Uma vez que os líderes estúpidos surgem na cena política, eles apregoam uma moral heteronormativa combativa da diversidade sexual e encontram um apoio significativo nas diferentes 'igrejas' que proliferam nesse país e que fazem questão de colaborar com a estupidez ao identificar essa diversidade sexual com o demônio."

Estupidez e teorias da conspiração

Tanto o Brasil quanto outros países são palco de outra modalidade de enlaçamento pela crença: as teorias da conspiração, que, segundo o psicanalista, constituem comunidades em que pessoas compartilham um certo modo do vida.

É o caso do movimento QAnon, nascido nos EUA e hoje com adeptos inclusive no Brasil. Segundo esta teoria, o ex-presidente dos EUA Donald Trump é herói em uma espécie de acerto de contas final contra poderosos supostamente pedófilos e satanistas que ocupam o governo, a imprensa e o mundo corporativo.

No início do ano, membros do grupo participaram da invasão ao Congresso americano.

Manifestantes dentro do Congresso, próximos uns aos outros; há uma bandeira dos EUA e quadros em volta
Manifestantes comemoram invasão do Congresso dos EUA em janeiro - EPA

O psicanalista brasileiro destaca que, em teorias como essa, o absurdo confere aos sujeitos a possibilidade de atos insensatos.

"O sujeito se mantém cego e surdo, mas é mais perigoso —acabamos de ter a demonstração disso na invasão do Capitólio, em que pessoas morreram."

"Esse tipo de agrupamento humano consente à experimentação do gozo transgressivo, ou seja, você poder transformar sua vontade em lei: 'Minha vontade é que isso [a existência de uma rede de pedofilia chefiada por líderes políticos] seja verdade, o que vai me autorizar a dar uns tiros em quem eu quiser'."

Eles acreditam nisso?

Se para alguns persiste a convicção de que a Terra é plana, o coronavírus não existe ou Trump vai acabar com uma elite praticante de pedofilia, fica a pergunta: as pessoas realmente acreditam nisso que defendem ou são pessoas conscientes de que estão propondo outras realidades?

O diretor do Instituto Vox esclarece que há, por um lado, a adesão de sujeitos psicóticos ao discurso da estupidez, uma vez que eles "encontram um determinado tipo de conforto e de pacificação" porque aquela comunidade, aquele grupo de membros, não implica questões complexas que trariam dificuldades muito grandes para estes sujeitos.

No entanto, Dias adverte que qualquer um de nós pode aderir ao discurso da estupidez, por meio de motivações diferentes. Em seu livro, ele explica que a estupidez é uma condição humana que pode estar presente "em cada um dos espectros políticos e dos cidadãos".

Ele explica que alguns aderem a esse discurso porque encontram, neste momento histórico, a possibilidade de conquistar de forma mais rápida seus diferentes objetivos, incitando a redução de todas as complexidades possíveis e promovendo a destruição e a morte.

Para outros, a adesão deriva de uma espécie de necessidade de se acreditar em absurdos como forma de encontrar satisfação ou manter alguma esperança. E esta disposição ao absurdo tem relação com questões de desamparo e perspectivas de vida.

"Eu diria que praticamente a grande maioria das pessoas, em se tratando de Brasil, precisa acreditar nessas coisas. Não são loucas —essas pessoas vêm desacreditando. Mas é difícil ter que desacreditar porque elas só acreditaram por estarem no abandono total."

Este abandono se refere a uma decepção com as promessas não realizadas do sistema democrático. O bem-estar social e econômico prometido não veio, e isso alimentou as consequências que vivemos agora.

"O que a gente está criticando agora não caiu de repente em cima do meu colo nem do seu. Um terreno adubou isso."

"Nosso presidente da República estava há praticamente 30 anos dentro do Poder Legislativo, então isso não vem de agora. O difícil, eu penso, é ter de reconhecer que isso já está estava aí. Só que havia uma percepção limitada, uma banalização do nível da tolerância das pessoas. Supôs-se que os diferentes dramas humanos e as diferentes misérias iriam esperar pelas promessas democráticas, enquanto as pessoas viam o roubo e a dilapidação do patrimônio do país. Supunha-se que as pessoas iam continuar aceitando isso e que ninguém ia reagir."

O resultado desse processo de anos, na avaliação de Dias, foi uma perigosa recusa da política, com desdobramentos no enfrentamento da pandemia.

"São seres verdadeiramente hediondos que estão aí na realidade social brasileira. Digo isso porque se tem uma coisa que qualifica o sentido de hediondo é você consentir que as figuras públicas não tenham nenhuma competência pra poder administrar responsabilidades da nação e, ainda assim, se mantenham lá."

"Isso significa que estamos indo galopantemente em direção à destruição, e o tipo de tratamento que está sendo dado nesse país para a potência do vírus só reafirma o que estou dizendo. Estamos nos acostumando à proliferação e a multiplicação da morte à nossa volta."

O luto na pandemia

Na medida em que o vírus continua a circular e a fazer vítimas, o processo de perda de entes queridos fica cumulativamente mais doloroso, já que velórios e enterros precisam ser limitados por conta da contaminação.

"O luto e a dor sempre andaram juntos, mas neste momento em que a dor não pode ser reduzida a partir dos rituais, ela ganha uma dominância dentro do processo de luto, sendo mais difícil de ser vivida e elaborada. Isso leva ao surgimento de quadros como estados depressivos, dificuldades de dormir, crises de ansiedade com maior frequência e irritabilidade."

"Penso que só depois que passar a quarentena e as pessoas voltarem aos convívios entre seus próximos que a gente vai conseguir ter uma ideia mais viva desses diferentes problemas que foram gerados."

Não são apenas os desafios psíquicos trazidos pelo vírus que preocupam o psicanalista, que em sua experiência supervisionou hospitais psiquiátricos, Caps (Centros de Atenção Psicossocial) e outros dispositivos.

Há ainda as planejadas investidas do governo contra os modelos de tratamento que consideram a subjetividade dos sujeitos e apostam em suas relações com o mundo, alinhados à Reforma Psiquiátrica e à Luta Antimanicomial.

Para Dias, que há quase duas décadas avalia as práticas terapêuticas de pacientes nos Hospitais São João de Deus e Nossa Senhora de Fátima, em São Paulo, os fundamentos da Reforma Psiquiátrica agora sucumbem para privilegiar pequenos negócios relativos a internação psiquiátrica, por meio de clínicas utilizadas com essa finalidade.

"Trata-se do retorno de uma mentalidade redutora e punitiva, no sentido de visar a uma adaptação forçada às expectativas do meio social. Basta um pouco de experiência nesse campo para constatar a lucratividade de tais iniciativas, que contam com hiperinvestimentos nas medicações."

"Sabe-se, também, que o tempo de internação é cada vez mais reduzido, tendo em vista a falta de vagas na rede pública, aliada ao baixo valor das diárias pagas pelo SUS para manter o paciente internado. Tudo se passa como se o binômio internação/medicação fosse suficiente para abordar a complexidade das patologias mentais."

Tratamentos para o discurso da estupidez

Diagnósticos de uma época são recorrentes na Psicanálise, como demonstraram Freud e Lacan ao teorizar sobre as relações entre as pessoas, a cultura e o poder.

Dias identifica o discurso da estupidez e propõe tratamentos possíveis. Mas não se trata de uma solução, como ele explica: "(É preciso) reconhecer a culpa como um elemento que reúne as pessoas pra pensar seriamente seus erros, suas ilusões. É a necessidade de retomar projetos políticos que não fiquem tão confiantes de que as pessoas vão ficar esperando indefinidamente por soluções e que não vão reagir em nenhum momento."

Dias aponta que também é necessário reconhecer a complexidade dos afetos humanos e reconsiderar o papel decisivo do ódio tanto na subjetividade individual quanto na coletiva.

"Essa é uma crítica necessária de ser feita em relação às ideologias, praticamente as de esquerda, que sempre acreditaram no poder da união e de que as pessoas iam querer o bem e o melhor pra sua coletividade."

Ele frisa que o discurso da estupidez ensina como é possível mobilizar a paixão que as pessoas têm pela fragmentação e pela luta por interesses próprios.

Ele defende também ações práticas, como o reconhecimento de pessoas que exercem a solidariedade em comunidades.

"Esses heróis do cotidiano merecem ser reinvestidos por cada um de nós interessado em que essa realidade se modifique."

*

Chico Buarque relembra 25 anos do massacre de Eldorado dos Carajás: “meu respeito e admiração pelo MST” (vídeo)

Chico Buarque relembra 25 anos do Massacre dos Carajás: “meu respeito e admiração pelo MST” (vídeo)

247- O cantor Chico Buarque relembrou que neste sábado (17) que completam-se 25 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, que deixou 21 ativistas mortos, e ressaltou a importância do MST na luta campesina. Tem meu “respeito e admiração”, disse. 

Veja: 

Saiba mais 

 A chacina que ceifou a vida de 21 camponeses no município de Eldorado do Carajás, no sudoeste do Pará, completa 25 anos neste sábado (17).

Representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) garantiram aos trabalhadores a desapropriação da área para a reforma agrária. O cenário mudou quando um laudo considerou a propriedade como produtiva, beneficiando o latifundiário que se dizia dono da fazenda.

*

Gisele Cittadino: ‘em qualquer lugar sério, a turma de Curitiba estaria presa’

Gisele Cittadino, Sergio Moro e Deltan Dallagnol

247 - A jurista Gisele Cittadino, integrante do Grupo Prerrogativas (Prerrô) e da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), afirmou à TV 247 que em qualquer país sério do planeta os procuradores da Lava Jato de Curitiba estariam na cadeia.

“Em qualquer país sério do mundo, o lugar dessa gente era na cadeia, ou pelo menos afastados dos serviços. Em qualquer lugar sério eles estariam presos”, afirmou a jurista.

Para ela, o grupo traiu o próprio país ao colaborar secretamente com os Estados Unidos e com a Suíça, cooperação esta que inclusive foi destaque na imprensa suíça em meados de fevereiro deste ano. O Le Monde, principal jornal da França, destacou nas últimas semanas os serviços prestados pelo ex-juiz Sergio Moro aos norte-americanos.

*

Após três meses, investigação sobre sumiço de meninos em Belford Roxo (RJ) segue a passos lentos

Lucas, Alexandre e Fernando, os três meninos desaparecidos em Belford Roxo (RJ) ao final de dezembro

247 - As crianças Lucas Matheus, Alexandre e Fernando Henrique estão desaparecidos desde a tarde do dia 27 de dezembro de 2020, quando saíram para brincar e nunca mais voltaram.  Enquanto isso, as famílias aguardam na comunidade de Castelar, em Belford Roxo (região metropolitana do Rio de Janeiro), resultados das investigações que já duram mais de três meses.

Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, o sumiço voltou a suscitar dúvidas a partir da repercussão do caso de Henry Borel, morto aos 4 anos dentro de casa, e gerou comparações entre a atenção dada pelas polícias, pela mídia e pela sociedade em geral a casos ocorridos em áreas ricas ou pobres, com crianças brancas ou negras.

A defensora pública Gislaine Kepe, que está acompanhando as mães dos meninos, não vê essa relação. Apesar de citar o atraso no início das buscas pelos garotos, ela afirma que as diligências estão sendo feitas e a demora em casos de desaparecimentos acontece em qualquer classe social.

“Vejo um despreparo da Polícia Civil em geral na busca de pessoas desaparecidas. Ela é equipada para investigar crimes, e nem sempre há crimes envolvidos nessas ocorrências, por isso é preciso criar grupos especializados, como já existe na cidade do Rio”, diz.

*

Pressão política atrasa vacinação de idosos no Brasil, diz pesquisa da USP

Arquivo - Vacinação de idosos na UBS de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo - Lucas Borges Teixeira/UOL
Arquivo - Vacinação de idosos na UBS de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

17/04/2021 12h52

A pressão política e econômica é a razão apontada por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) para acusar a "preocupante" demora na vacinação de idosos no Brasil três meses após seu início no país.

De acordo com os dados do estudo a que o UOL teve acesso com exclusividade, nem os idosos com mais de 80 anos foram totalmente vacinados: 87% deles receberam a primeira dose e 66% ainda aguardam a segunda.

Sociedade reagiu a governo antivacina, diz Mandetta um ano após demissão

O Ministério da Saúde afirma que "não mede esforços para dar celeridade à imunização" e que o país "ocupa a posição do 5º país que mais vacina e o 9º no ranking global por 100 mil habitantes" (leia resposta completa abaixo).

Entre os idosos com idade entre 70 e 79 anos, a média brasileira é de 77% de imunizados com a primeira dose e de apenas 19% com a segunda. Já entre aqueles com idade de 60 a 69 anos os imunizados não passam de 29% —2% receberam a segunda dose.

Embora esta seja a média nacional, a situação é dramática em algumas unidades da federação. O Rio de Janeiro, por exemplo, aplicou a primeira dose em apenas 74% dos idosos com mais de 80 anos, "população menos numerosa e convocada prioritariamente", lembra o estudo.

 Após inicio da vacinação, casos e mortes de idosos diminui em Curitiba      - Foto: Lineu FIlho      - Foto: Lineu FIlho
Após inicio da vacinação, casos e mortes de idosos diminui em Curitiba Imagem: Foto: Lineu FIlho
No Paraná e Sergipe, só 71% daqueles entre 70 e 79 anos foram vacinados e 18% dos idosos de 60 a 69 anos receberam uma vacina em São Paulo.

Os trabalhadores de Saúde (80% primeira dose, 45% a segunda) e povos indígenas vivendo em suas terras (69% primeira dose, 47% a segunda) também fazem parte dos grupos prioritários ainda não totalmente vacinados. Entre Quilombolas e comunidades tracionais esses índices caem para 14% e 1%, respectivamente.

A cobertura com duas doses é incipiente em todo o país, menor que 5%
Estudo da USP e UFRJ

Pressão política

De acordo com os pesquisadores, a vacinação no Brasil é lenta mesmo entre o grupo prioritário em razão de pressões sofridas pelo governo federal, que acaba por ceder a elas, afirma o estudo.

Eles citam que "os critérios de priorização adotados pela maioria dos países focam na diminuição da mortalidade" e, por isso, "têm sido priorizados os trabalhadores da saúde (...) idosos, pessoas com comorbidades e grupos em extrema vulnerabilidade".

No Brasil, o Ministério da Saúde incluiu mais de 77 milhões de pessoas nos grupos populacionais prioritários a serem vacinados. Este número vem aumentando constantemente por pressões políticas e corporativas, acrescentando demandas a uma oferta notoriamente escassa de vacinas
Pesquisada da USP E UFRJ

"Enquanto a entrega de doses vem sendo constantemente revisada para menos, a cada dia é definido um grupo prioritário a mais", afirmou ao UOL o pesquisador Mário Scheffer, professor de Medicina Preventiva da USP. "A fila vai engrossando, há desde pressões políticas até pressão justa de categorias profissionais. Mas infelizmente ainda não há vacinas para atender tantas novas inclusões."

"Novos grupos vêm sendo convocados, sem que a população anterior tenha sido imunizada. Isso protege individualmente cada um que toma a vacina mas não garante a proteção coletiva nem mesmo dentro de cada grupo prioritário", acrescenta o professor.

Em nota, o Ministério da Saúde justifica "a dificuldade mundial na aquisição dos imunizantes" e diz que tenta antecipar a entrega de doses contratadas para o segundo semestre, mas não comentou a suposta pressão econômica e política. Disse apenas que, "com o avanço da vacinação, outros grupos prioritários são contemplados".

"A seleção dos grupos prioritários foi baseada em princípios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e discussões com especialistas", afirma.

Outro pesquisador, o professor Guilherme Loureiro Werneck, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ, admite a escassez de vacinas no mundo, mas critica "a falta de ação precoce do governo federal na aquisição de doses já oferecidas ao Brasil", como as do consórcio Covax Facility, da OMS.

"E tem a falta de coordenação", diz. "O plano brasileiro de vacinação é superficial, um não plano que dificulta alcançar as coberturas vacinais."

Embora o TCU (Tribunal de Contas da União) tenha recomendado ao Ministério da Saúde que coordene as ações de vacinação no Brasil, a pasta afirmou que, "com a lógica tripartite do SUS, estados e municípios têm autonomia para executar a campanha de vacinação a partir da realidade local (...) levando em conta as características de sua população, demandas específicas de cada região e doses disponibilizadas."

Faltam metas de vacinação

O estudo critica ainda a ausência de metas de vacinação pelo Ministério da Saúde.

"As metas são fundamentais porque orientam e permitem reorientar as ações de vacinação", explicou ao UOL a professora Ligia Bahia, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ. "Saber que não atingimos as coberturas vacinais ainda em grupos prioritários como idosos e profissionais de saúde permite desencadear atividades de resgate como a busca ativa de não vacinamos e de quem não compareceu para a segunda dose."

*

Opinião: Matheus Pichonelli - Lição da treta Felipe e Verônica: suruba em motel é coisa do passado

ménage, sexo a três - Getty Images
ménage, sexo a três Imagem: Getty Images
Matheus Pichonelli

Colunista do TAB

17/04/2021 04h00

O Felipe já transou em banheiro químico. Já transou em obra de vizinho. Por que não transaria na casa da Verônica, a anfitriã do Airbnb que não desconfiou das intenções do jovem que pagou uma fortuna de diária para celebrar ali seu aniversário com amigos e amigas?

A pergunta, feita pelo próprio Felipe, viralizou pelo Twitter durante a semana e lançou o jovem anônimo ao estrelato dos trending topics. O resto é história — e uma história (ainda) mal contada.

Relacionadas

Na crise, artista dos palcos se reinventa fazendo móveis na garagem da mãe

Pouco se sabe sobre eles, a não ser que a Verônica não gostou nada de saber que o rapaz e os 15 amigos transformaram sua residência, alugada através da plataforma, em um bordel. Pior: no meio de uma pandemia, como frisou a proprietária em um áudio furioso que virou meme.

Nessas horas, falta uma Marcia Goldschmidt, uma Christina Rocha — além, é claro, de legendas tipo "Ele alugou minha casa e pegou geral" — para mediar a querela, ouvir as ponderações, trazer contrapontos e colher o veredicto da plateia. A do Twitter, além de milhares de sentenças, deixou evidente que:

1- o jovem adulto não tem maturidade para discutir suruba. Toda vez que o tema aparece, o deboche que esconde o assombro transforma todo mundo em criança desfraldada que ri ao ouvir palavras como "xixi" e "pum";

2- pelo buzz, dá para imaginar o tamanho do estrago que mais de um ano de encontros escassos vai resultar nos carnavais fora de época quando sair essa vacina. Não tem Verônica que dê conta de tanto afervoramento reprimido.

3- suruba em motel é coisa do passado.

Sobre a última sentença, quem analisa a conjuntura a médio e longo prazo é um velho especialista do mercado.

"O Airbnb hoje em dia é uma baita opção", diz Michel Chamon, 33, publicitário paulistano conhecido, e já retratado por aqui, como organizador extraoficial de surubas.

Embora faça aquele alerta básico de que, em tempos de pandemia, encontros do tipo não são recomendáveis, o autor de "As Crônicas da Esbórnia", obra autobiográfica, não esconde de que lado está na treta viral. "Ouvi o áudio e achei maravilhoso. Acho que o cara tá certo. O argumento dele é maravilhoso no final."

Chamon tem lá seus motivos. Ainda estão frescos na memória os perrengues que já passou quando tentava entrar em motéis com casais de amigos e precisava ficar deitado, escondido e desconfortável, no chão do banco de trás. Isso porque, a depender do local, é cobrada uma pernoite extra a cada novo elemento nos quartos inicialmente planejados para dois. Daí a estratégia que remete à clandestinidade.

Por isso, num balanço rápido feito pelo especialista, o modelo oferecido pelas plataformas da gig economy parece tão promissor.

Chamon conta que ele e os amigos já alugavam residências, casas na praia, chácaras e áreas de lazer para encontros do tipo muito antes disso tudo virar modinha ou existir Airbnb. E que já ouviu reprimendas dos proprietários por causa dos, digamos, resíduos deixados no ambiente (a descrição das cenas não são permitidas para o horário). Ele vê o Airbnb como um manancial de possibilidades. Só não testou ainda.

Para Chamon, o motel não vai morrer assim tão fácil. Vai ser sempre uma pedida para algo mais urgente e menos rastreável. Mas quem quiser uma alternativa mais segura, com tempo para desenvolver uma experiência mais elaborada, tem agora, com a ajuda das conexões online, opções mais atraentes. Em resumo: vem mais treta por aí entre Felipes e Verônicas.

Que ninguém estranhe se, no futuro, os proprietários aderirem à sugestão do aniversariante surubeiro — que ainda não reivindicou em público a autoria do áudio — e botarem alertas nos anúncios deixando claro o que pode e o que não pode fazer entre as muitas paredes das casas alugadas pela plataforma.

Enquanto isso, segue o mistério sobre se Verônica e Felipe chegaram a um acordo que fosse minimamente bom para os dois lados após a arrelia. Permanece em aberto, por exemplo, a pergunta sobre como ela descobriu o que os convidados fizeram durante a estadia. Isso nem o Airbnb, procurado pela coluna, soube dizer. Em sua política de uso, a empresa prevê medidas cabíveis, embora não especificadas, caso as partes causem "incômodo" aos vizinhos ou usem câmeras em espaços privados.

Ainda não se sabe também se o jovem cheio de planos e amigos foi banido ou se poderá em breve celebrar outros aniversários pela plataforma.

Até o fechamento desse post, a companhia ainda apurava as circunstâncias da suposta suruba.

*

'Bug hunters': caçar defeitos em sites vira profissão cobiçada e milionária

Guilherme Scombatti, bug hunter brasileiro que mora em Portugal - Guilherme Scombatti/arquivo pessoal
Guilherme Scombatti, bug hunter brasileiro que mora em Portugal Imagem: Guilherme Scombatti/arquivo pessoal

Leandro Vieira

Colaboração para o TAB

17/04/2021 04h01

Quando o relógio marca 18h, o especialista em sistemas de informação Guilherme Scombatti relaxa. Fim de expediente. Deixa o cômodo feito escritório de casa, onde trabalha há mais de um ano, e vai tomar um banho, passear com o cachorro, jantar. Acabou a lida? Nem pensar. Scombatti não se estira no sofá para assistir a um filme ou série, não passa horas lendo um livro nem deita na cama para descansar. Em boa parte das noites, o que faz é retornar ao escritório, onde liga novamente o computador. É hora de caçar bugs.

O paulista de 33 anos, magro, de cabelos lisos e mãos inquietas, engrossa as fileiras de uma atividade que atrai cada vez mais gente pelo mundo, seja pela promessa de ficar rico, seja pela mística aventureira que a cerca. O bug bounty é uma espécie de caça ao tesouro patrocinada por empresas. Nela, hackers "do bem", conhecidos como bug hunters, ganham prêmios — em geral, em dinheiro — se encontrarem falhas em seus sistemas, o que permite que as companhias as consertem rapidamente, evitando maiores danos.

Relacionadas

Mercado de Blu-Ray reaparece de forma tímida com filmes de nicho no Brasil

Em videoconferência, aninhado sobre uma cadeira gamer e com problemas para manter fixo na orelha o fone esquerdo, Scombatti conta que, há cerca de dois meses, encontrou o que é conhecido na comunidade como um bug de cinco dígitos. Ou seja, uma falha de alto impacto, cuja descoberta rendeu uma recompensa acima de US$ 10 mil.

Ele, que é o especialista número um no ranking da BugHunt, única plataforma de bug bounty do Brasil, não disfarça as razões para ter entrado na profissão. "Tem alguns programas que não pagam nada e aqueles que pagam. Eu atuo sempre com os que pagam. A adrenalina motiva porque traz o dinheiro. Quanto mais focado fico, quanto maior a criticidade do bug, maior a recompensa."

Quando volta ao computador, costuma passar duas horas direto trabalhando. Nos finais de semana, de quatro a cinco. Dentro dessa profissão, ele explica, há dois tipos de gente: as que atiram para todos os lados, criando processos automáticos de busca de falhas em vários programas, e as que preferem focar em alguns poucos. Scombatti é do tipo minucioso. Escolhe dois ou três programas em que tem mais interesse e passa semanas ou até meses debruçado sobre eles.

Na descrição, o trabalho pode ser bem maçante. Ele passa a maior parte do tempo testando, uma a uma, as várias funcionalidades de uma página. E vai pelos detalhes. Tenta mandar um arquivo malicioso no espaço de carregamento de uma imagem, explora uma permissão de acesso indevida, encontra um dispositivo que não realiza a ação esperada. "Passo meses dentro de um programa. Mas é de pessoa para pessoa. Tem quem vai no automático e quem vai no clique. Esse é o processo de que eu gosto."

Fome de aprender

Para facilitar a vida dos bug hunters e das próprias empresas que se beneficiam de seu trabalho, plataformas fazem a ponte. Dentro desses espaços, as empresas listam seus sites que permitem a busca por bugs. Elas também disponibilizam uma lista com regras, que incluem quais falhas devem ser buscadas e quais não. E, é claro, estabelecem os valores das recompensas.

O impacto de um bug pode ser classificado em baixo, médio, alto e crítico, de acordo com o potencial negativo da falha. Um bug que permita o vazamento de dados de usuários, por exemplo, deve ser considerado crítico.

É possível para um hunter acumular vários bugs em níveis mais baixos, mas é aí que mora o perigo. Por serem mais facilmente encontrados, já podem ter sido identificados antes, caso que não gera recompensa. Já os mais altos são complexos de achar e geralmente são os que dão mais lucro — podem chegar a US$ 20 mil ou mais, no caso de gigantes como Netflix ou Apple. Algumas empresas também oferecem brindes como camisetas, jaquetas, canecas e baralhos personalizados. São os chamados swags, itens colecionáveis bastante disputados dentro da comunidade.

O Brasil ainda não tem tantos adeptos do bug bounty quanto os EUA ou a Europa, mas a prática também vem crescendo por aqui. Em 2020, nasceu por aqui o BugHunt, primeira plataforma brasileira de bug bounty. Os irmãos e sócios da empresa, Caio e Bruno Telles, querem atrair e educar não só os caçadores, mas também as companhias nacionais, que ainda enxergam todos os hackers como criminosos virtuais.

"Existe uma fome muito grande para aprender, e as empresas estão começando a abrir a mente para aceitar os programas de bug bounty", diz Caio Telles. Segundo ele, a base de usuários da plataforma tem crescido na proporção de 30% ao mês. A aposta é que o mercado nacional se desenvolva ainda mais nos próximos anos.

Guilherme Scombatti, bug hunter brasileiro que mora em Portugal - Guilherme Scombatti/arquivo pessoal - Guilherme Scombatti/arquivo pessoal
Guilherme Scombatti Imagem: Guilherme Scombatti/arquivo pessoal

100% caçador digital

Pela tela do computador, o mineiro de Uberlândia Guillermo Gregorio, 33, tenta explicar em "português normal" — sem usar os termos e jargões típicos da atividade, mas inescrutáveis para nós, leigos — como funciona a caçada. Algumas coisas, porém, se perdem na tradução.

Seu foco são falhas de segurança de autenticação. "Mas é um pouco mais complexo, porque dentro da autenticação existem cinco vertentes diferentes: escalação de privilégios para cima, para baixo, vertical, horizontal?", ele tenta se fazer entender. Mas acaba se rendendo: "Enfim, é um trem que ou você ama ou você odeia."

Gregorio destaca, no entanto, que o mais importante no início é compreender como o programa opera e suas principais funcionalidades. E às vezes é preciso correr atrás de documentações digitais anteriores para entender em que locais estavam os erros no passado. A partir disso é que se começa a procurar as pequenas falhas nos servidores.

Ele trabalha na área há cerca de dois anos, mas há 15 anos lida com segurança digital. É um dos poucos brasileiros que vivem exclusivamente da atividade. Na época, deixou a empresa da qual era sócio para se dedicar 100% ao bug bounty. E não se arrepende. "Financeiramente compensou, mas a principal motivação é que era um sonho que eu tinha, de trabalhar exclusivamente com isso."

Não que a atividade seja um mar de rosas. Como Gregorio faz questão de lembrar, é um trabalho normal, com rotina, horários específicos e uma dedicação e esforço até acima da média dos empregos mais tradicionais. Embora tenha uma certa vergonha de falar, ele admite: trabalha bem mais do que as oito horas de uma jornada diária. Em parte porque é necessário, já que sem toda essa energia os ganhos mensais começam a minguar. Em parte, segundo ele, porque gosta do que faz.

Entre seus principais feitos, destaca o fato de já ter ocupado a primeira posição no ranking mundial de desempenho em bug bounty da Netflix. Mas prefere não divulgar valores. "Sinceramente, nem para quem trabalha comigo eu gosto de falar, porque não faz sentido."

Discrição na veia

A discrição não é necessariamente regra no ramo, mas costuma ser adotada. Casos como o do adolescente brasileiro Andres Alonso Perez, que recebeu em 2020 uma recompensa de R$ 140 mil por encontrar uma falha crítica no Instagram, raramente vêm a público.

"A galera que está recebendo mesmo não aparece na mídia", diz o especialista em TI e bug hunter nas horas vagas Manoel Teixeira, 37. "Quem de fato faz não precisa desse destaque. Já está consolidado e não sai divulgando."

Na plataforma HackerOne, onde atua, Teixeira conta que já existem nove milionários — em dólares, vale lembrar. Recentemente, um usuário bateu US$ 2 milhões em recompensas.

O hunter brasileiro se interessou pela área a partir dos Capture the Flag (capture a bandeira), desafios de segurança que simulam cenários de vulnerabilidade na internet. Vence quem encontra uma "flag" no sistema, ou seja, um texto que surge durante a exploração de um determinado bug. E Teixeira tem talento para a coisa. Entre 2018 e 2020, ganhou três desses desafios na HackerOne, uma das maiores plataformas de bug bounty do mundo. Como recompensa, recebeu prêmios em dinheiro e viagens com tudo pago para Las Vegas e São Francisco.

Hoje, ele trabalha como bug hunter nos horários livres, sem um cronograma fixo. Quando pode, automatiza processos, que operam enquanto está ocupado com outras coisas. "Costumo relacionar bug bounty ao cara que é empreendedor. Quando você empreende, o negócio depende só de você e do seu trabalho." Para Teixeira, o dinheiro não é a única motivação. Há também a emoção da caça, a adrenalina da descoberta. "É indescritível mesmo. Claro que, com o passar do tempo, vai diminuindo. Mas, quando a falha é crítica, a sensação não muda."

Assim como colegas do ramo, Teixeira prefere a discrição, e de uma forma até mais literal. Durante a conversa com o TAB, por videoconferência, manteve a câmera fechada. No lugar de sua cara, surgiu o desenho pixelado de um rosto masculino, pintado em tons de verde e vermelho. Com um quê futurista, a face se divide em duas metades, uma delas aparentando estar em carne viva. Mais tarde, ele esclareceu se tratar da imagem que estampa a capa de um álbum da banda de rock nacional Pense, da qual é fã. E também pediu para não ter sua imagem incluída na reportagem.

Sorte e vontade

Como toda profissão, o bug bounty tem seus prós e contras. Apesar de seu potencial lucrativo, ela também pode ser instável e pouco segura. Até por isso pouca gente no Brasil se arrisca, por enquanto, a deixar o trabalho fixo e garantido para se aventurar.

Guilherme Scombatti, por exemplo, ganhou nos primeiros três meses de 2021 o suficiente para não precisar trabalhar o restante do ano. Abril, ele conta, não tem ido tão bem. Por esse motivo, ainda prefere manter o emprego fixo. "No bug bounty, tem mês em que você faz US$ 1.000 e mês em que faz US$ 10 mil", explica.

Segundo ele, que já encontrou bugs para empresas do naipe da Google, Spotify e Uber, o sucesso na área é questão de sorte, mas também de vontade. E não é todo programa que ele está disposto a gastar meses explorando. "Tem empresa que não me atrai em nada. Não é nem pelo dinheiro. Pode pagar muito, mas simplesmente não sinto vontade de perder tempo ali."

*

Mercado de Blu-Ray reaparece de forma tímida com filmes de nicho no Brasil

Fãs recebem cópia da 5ª temporada de "Game of Thrones" em Filadélfia, nos EUA - William Thomas Cain/Getty Images
Fãs recebem cópia da 5ª temporada de "Game of Thrones" em Filadélfia, nos EUA Imagem: William Thomas Cain/Getty Images

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB

27/08/2020 04h01

Desde que conheceu a pandemia, o brasileiro tem modificado forçadamente seu modo de viver. Isso também passa pelo consumo de arte e entretenimento, por meio de lives, serviços de streaming e até mesmo pela redescoberta do cinema drive-in. Até mesmo um nem tão velho conhecido voltou à tona em tempos de isolamento social: o Blu-Ray.

A mídia de alta definição, também chamada de BD, nunca vingou por aqui. Desde sua chegada ao país, em 2007, o blu-ray veio acompanhado da promessa de trazer uma experiência de som e imagem superiores ao DVD. A ideia foi cumprida, é verdade, mas para poucos: os custos com o aparelho e os discos sempre foram altos. A realidade não mudou, mas o mercado de home video tem outro tipo de consumidor em vista.

Relacionadas

Mostra revela como a inteligência artificial vai criar o cinema do futuro

O momento agora é de as empresas independentes trabalharem em filmes de nicho. Ao menos é o que acredita o Thiago de André, doutor em meios e processos audiovisuais pela USP (Universidade de São Paulo). Ele explica que a indústria de blu-ray não é tão lucrativa, mas o terreno está pronto àqueles que voltarem o olhar para públicos específicos.

"Quem procura mídia física está preocupado com experiência de qualidade mais alta. Não só no sentido da alta resolução, mas de um filme que realmente, vamos dizer assim, te coloque para pensar, faça sentir uma coisa bastante intensa. Alguns desses filmes são mais antigos e não foram feitos no contexto dos grandes estúdios norte-americanos. Isso abre espaço para distribuidoras menores", afirma ao TAB.

Para quem compensa?

De André argumenta que os grandes estúdios não têm interesse de explorar esse segmento como na década passada. Entre abril e maio de 2020, apenas seis títulos foram colocados à venda em BD no mercado brasileiro: "Star Wars: A Ascensão Skywalker" e "Frozen 2" (Disney), "1917" (Universal), "Jumanji: Próxima Fase" e "Bad Boys para Sempre" (Sony Pictures) e "Maria e João - O Conto das Bruxas" (Imagem Filmes). Os preços vão de R$ 39,90 a R$ 69,90, basicamente os mesmos de dez anos atrás.
Um título em BD tem tiragem média de mil cópias no Brasil. "Vale a pena recuperar um filme de um grande diretor ou uma obra consolidada. Mas dificilmente as obras serão distribuídas pelas grandes, porque elas estão interessadas em um volume só conseguem com novos lançamentos. No máximo relançam 'Star Wars'."

Joe Hill, escritor e filho de Stephen King, fotografa um fã interagindo em uma pintura 3D que comemora a chegada do filme "Doutor Estranho" em Blu-Ray na loja Best Buy de Los Angeles, em 2017 - Tara Ziemba/FilmMagic/Getty Images - Tara Ziemba/FilmMagic/Getty Images
Joe Hill, escritor e filho de Stephen King, fotografa um fã interagindo em uma pintura 3D de "Doutor Estranho", lançado em Blu-Ray na loja Best Buy de Los Angeles, em 2017 Imagem: Tara Ziemba/FilmMagic/Getty Images

A indústria de DVD e blu-ray está em declínio em todo o mundo. De acordo com o relatório da MPAA (Motion Picture Association of America), as vendas globais dessas mídias caíram pela metade em cinco anos, chegando a US$ 13,1 bilhões em 2018. Na contramão desse movimento, a assinatura de serviços de streaming de vídeo ultrapassou a de TV a cabo nesse período.

De olho nos clássicos

Esse cenário não assusta o curador da Versátil Home Video, Fernando Brito, responsável pela seleção de filmes da distribuidora. Ele diz que pensava em voltar a trabalhar com a venda de blu-ray antes mesmo do início da pandemia. Os planos não foram interrompidos e a empresa negociou os direitos de três filmes do diretor cult de terror John Carpenter: "A Bruma Assassina" (1980), "O enigma de outro mundo" (1982) e "Christine, o carro assassino" (1983).

Cena do filme "A Bruma Assassina" (1980) - Reprodução/IMDb - Reprodução/IMDb
Cena do filme "A Bruma Assassina" (1980) Imagem: Reprodução/IMDb

Clássicos do cinema dos anos 1940 a 1980 e obras menos conhecidas da grande audiência são o foco da companhia. Nessa curta retomada foram anunciados 11 títulos em BD, entre eles obras de Stanley Kubrick, Brian de Palma e David Lynch. Os anúncios são feitos com muito suspense nas redes sociais.

Além dos longas-metragens, são incluídos horas de extras, cards dos filmes e pôsteres. Uma das estratégias da Versátil é iniciar a pré-venda antecipada, oferecendo descontos de até R$ 20 por item para fisgar a clientela. O valor de uma caixa de filmes pode chegar a R$ 139,90.

Em conversa com o TAB, o curador de filmes diz que o seu cliente tem de 40 anos para cima, uma vez que a geração millennial não criou uma relação com a mídia física. "É um público pequeno, mas muito ativo nas redes sociais. Às vezes compra mais de um filme para dar de presente para alguém. Tem aqueles que compram várias cópias pra vender no Mercado Livre a preços exorbitantes", conta, aos risos.

A Versátil aposta no retorno do blu-ray e anunciou filmes já para 2021, talvez um reflexo do crescimento de 20% em vendas nos últimos meses. Filmes brasileiros estão no radar para 2021. "A experiência de se consumir superficialmente está nos streamings e torrents. É de se pensar que o blu-ray pode não ter decolado no Brasil, e acho que nunca vai decolar nas proporções do DVD. Por outro lado, criou-se uma base de pessoas cinéfilas que são o mercado de hoje", diz o especialista.

Estratégia quase forçada

O fechamento das salas de cinema da Reserva Cultural em São Paulo e Niterói (RJ) acelerou a volta da loja online da Imovision, que pertence ao mesmo grupo. A distribuidora independente retomou a comercialização de filmes com a tentativa de amenizar a crise financeira, destaca o fundador das duas empresas, o francês Jean-Thomas Bernardini, radicado no Brasil há mais de 40 anos.

Com um filme em blu-ray lançado por mês, o destaque tem sido para as produções nacionais. Os premiados "Hoje eu quero voltar sozinho" (2014) e "Aquarius" (2016) estão entre os mais vendidos — curiosamente, ambos estão disponíveis na Netflix.

Sobe e desce do cinema nacional em 2016: Aquarius - Divulgação - Divulgação
Cena do filme "Aquarius" Imagem: Divulgação

Num segundo momento, Bernardini pode trocar a cautela pela ousadia e investir em produtos mais arrojados, como coleções baseadas no catálogo da Imovision. "Não podemos entrar com tudo em um mercado depois de tanto tempo. Tínhamos que dialogar com os cinéfilos, ver o que eles gostariam e aí propor nossas ideias. Temos que tomar cuidado para não lançar qualquer coisa", destaca ele, que já registrou "algum lucro" com a comercialização de blu-rays.

Jean-Thomas Bernardini, dono da Imovision - Divulgação - Divulgação
Jean-Thomas Bernardini, dono da Imovision Imagem: Divulgação

Aparelhos em falta

O que pode impedir o pequeno avanço dessa mídia física no Brasil não é a pirataria, o streaming de vídeo, muito menos os filmes baixados, mas a suspensão da produção de aparelhos.

As poucas opções disponíveis no mercado variam entre R$ 300 e R$ 2.000. Por isso, a comunidade cinéfila fez uma petição online para pedir a volta da fabricação desses players. Até o momento, mais de 3.100 assinaturas foram coletadas. Nenhuma empresa tem planos de produzir novamente o tocador no país. As alternativas são videogames como PlayStation e Xbox, que possuem leitor de BD.

"Existe um grupo que quer consumir esses discos e está percebendo que parar de fazer esses aparelhos é jogar uma pá de cal nas mídias e antever que isso pode levar ao seu desaparecimento do mercado", diz De André. "Se o blu-ray aumentar um pouquinho sua participação de mercado, sua presença deve continuar durando. Mas se permanecer estável, na hora em que os cinemas reabrirem, talvez uma parte do público sedento por ver filmes volte a frequentar as salas de cinema."

As mais lidas agora

*

Livro explica como engenharia genética pode trapacear ou ajudar humanidade

Getty Images
Imagem: Getty Images

Lidia Zuin

Colaboração para o TAB

04/10/2020 04h00

Recentemente publicado pela Faro Editorial, o livro "Hackeando Darwin" foi escrito por Jamie Metzl, especialista americano em tecnologia, saúde futurista e geopolítica. Depois de trabalhar no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, o PhD em História Asiática pela Oxford e doutor em direito pela Harvard decidiu se debruçar à pesquisa de um emergente ramo científico: a engenharia genética.

Sua dedicação gerou frutos que ultrapassaram o livro de mais de trezentas páginas — lhe rendeu uma vaga no comitê da ONU para desenvolvimento de padrões globais, governança e supervisão da edição do genoma humano. Afinal, como alerta Metzl em seu livro e em palestras, esse tipo de regulamentação e questionamento precisa ser feito o quanto antes, uma vez que movimentos já estão sendo feitos e gerando controvérsias, como foi o caso das gêmeas chinesas que tiveram seu genoma editado.

Relacionadas

Futurista e analógico: como tecnologia e tradições se misturam no Japão

Didática, mas também um tanto alongada, a narrativa que Metzl tece em "Hackeando Darwin" passa por momentos de entusiasmo e especulação. Há, de fato, um capítulo especial no qual o autor se dedica às questões éticas em torno da engenharia genética, porém a dúvida que fica é se uma pessoa leiga realmente conseguirá chegar até essa parte crucial antes de desistir ao longo da explicação do processos de cruzamento genético de Mendel.

Retorno da eugenia?

Como um fã e também autor de ficção científica, Metzl chegou a publicar o romance "Eternal Sonata" em 2016, no qual reflete sobre a busca pela extensão da vida. Em "Hackeando Darwin", ele também cita exemplos ficcionais como o filme "Gattaca" (1997), no qual podemos vislumbrar uma sociedade futura em que todos são geneticamente melhorados para exercer determinada atividade. Caso contrário, são relegados a postos de trabalho e classes sociais "inferiores".

Essa discussão, no entanto, já havia aparecido em 1932 quando Aldous Huxley publicou o seminal romance "Admirável Mundo Novo". O curioso é que o escritor britânico tinha um irmão chamado Julian que, além de ter sido o primeiro diretor da UNESCO, também era um biólogo e forte entusiasta da eugenia. Em entrevista para o TAB, Metzl comenta que, como filho de refugiados do nazismo, ele tem plena consciência dos perigos que uma suposta "ciência" genética pode causar, assim como visto na obra de Huxley.

"É bem fácil desenvolver cenários realistas para como essas tecnologias podem ser usadas de forma a destruir democracias, nossas sociedades e nossa humanidade", argumenta o escritor, que, apesar disso, acredita que não devemos permitir que o medo nos paralise: "Se nosso processo de raciocínio para aqui, nós estaremos cometendo um grave desserviço a nós mesmos, a nossos filhos e às futuras gerações."

De acordo com Metzl, "as mesmas tecnologias que podem ser mal utilizadas também têm o potencial de fazer milagres que nos beneficiarão tremendamente." Para ele, "toda vez que uma criança morre devido a um distúrbio genético grave, isso é um crime contra a humanidade". Então, se podemos usar a engenharia genética e outras tecnologias para proteger essas crianças, "nós devemos ao menos considerar essa possibilidade."

O livro "Hackeando Darwin"  - Divulgação - Divulgação
O livro "Hackeando Darwin" Imagem: Divulgação

A pergunta é onde, não quando

Uma das abordagens trazidas por Metzl que pode deixar o leitor confuso está relacionado ao entusiasmo com que o autor descreve a visão de um futuro no qual o sexo se desvincula do objetivo reprodutivo — enquanto a fertilização in vitro e a seleção de embriões se normalizam, de modo que pais poderão customizar seus filhos como em uma partida de "The Sims".

Devido à sua experiência na área de segurança e relações exteriores, Metzl leva em consideração como determinadas práticas podem ser regulamentadas ou proibidas em determinados países, mas, em outros, podem ser liberadas. Então, o que pode soar como ficção, na verdade, já é real — conforme o autor explica a presente ocorrência do "turismo da fertilidade", o que inclui tanto jurisdições em que não há proibição de acesso ao genoma do embrião antes da implantação quanto locais em que o aborto é legalizado.

Para Metzl, esse tipo de modalidade turística só irá aumentar no futuro ou, na realidade, as pessoas nem precisarão se mover fisicamente para fazer tais procedimentos. "Futuros pais podem enviar óvulos congelados ou mesmo embriões em fase inicial por correio para uma clínica de fertilização em outro país, onde o embrião poderá ser criado e, então, editado à maneira que desejarem. Esse embrião poderia ser implantado em uma barriga de aluguel em uma terceira jurisdição ou, ainda, um dia, em um útero artificial. É fácil de ver como as coisas ficam cada vez mais complicadas rapidamente", explica ao TAB.

Enquanto procedimentos semelhantes já acontecem com plantas e animais, esse tipo de abordagem em pacientes humanos gera uma outra problematização em torno de como regulamentar tais práticas — e se elas, afinal, são éticas. Metzl é bastante prático ao discutir essa parte em seu livro, propondo inclusive estratégias que permitam o uso delimitado dessas soluções. "Na minha visão pessoal, o Reino Unido é provavelmente o país com a melhor regulamentação do mundo em termos de embriologia e fertilidade, o que pode ser um modelo para todos. Mesmo com essa abordagem, ainda temos que fazer uma combinação de diferentes jurisdições com diferentes regras e padrões", argumenta o pesquisador.

Sexo pós-reprodutivo: uma questão de gênero

Uma interessante questão no livro "Hackeando Darwin" é que há alguns momentos fictícios e didáticos, em que uma mulher vai até uma clínica de fertilização do futuro e faz escolhas envolvendo seus próximos filhos. Metzl, de fato, trata de direitos reprodutivos em seu livro, inclusive discorrendo mais ao fim da obra sobre o tema do aborto e a maneira com a qual diferentes países e religiões o enfrentam.

Um dado surpreendente levantado pelo autor é que homens têm uma janela reprodutiva muito maior do que as mulheres — tanto em termos de longevidade quanto de quantidade. Um homem produz, em média, cerca de 525 bilhões de espermatozóides ao longo de sua vida, enquanto uma mulher possui 300 mil óvulos durante a puberdade e somente 300 a 400 destes serão ovulados durante seu período fértil.

A matemática é óbvia, mas a sociedade, não: há muito mais opções de métodos contraceptivos às mulheres do que aos homens, desde anticoncepcionais orais até implantáveis, injetáveis e adesivos — sendo que todos eles acompanham possíveis efeitos colaterais como trombose, gravidez ectópica, além das variações de humor e libido. Só mais recentemente começaram a testar um anticoncepcional masculino.

Sobre isso, Metzl reforça sua defesa à liberdade reprodutiva feminina, mas suas ponderações levam em consideração a diversidade de perspectivas de acordo com cada crença e tradição — e foi por isso mesmo que o autor foi convidado para escrever um artigo sobre o tema para o Vaticano.

O pesquisador Jamie Metzl  - Esther Horvath - Esther Horvath
O pesquisador Jamie Metzl Imagem: Esther Horvath

Futuro à prova de golpes

Outra questão levantada por Metzl diz respeito à privacidade e ao valor que nossos dados genéticos possuem. Se, hoje, já vemos nossos dados pessoais e publicações em redes sociais sendo monetizados por terceiros, também há um outro lado na economia digital que monetiza nosso DNA sequenciado, vendendo essa informação à indústria farmacêutica, por exemplo. A longo prazo, seguradoras mal-intencionadas podem se utilizar desses mesmo dados para extorquir clientes que tenham predisposição a determinadas doenças.

O pesquisador afirma que é justamente por isso que precisamos de uma regulamentação que proteja as pessoas de desdobramentos catastróficos — para que vítimas não precisem se defender sozinhas, mas sejam amparadas pela própria legislação.

Quando todos tiverem seu DNA sequenciado e nós entendermos mais sobre nossa genética, iremos perceber que todo mundo sempre estará portando algum tipo de doença. Todos temos grandes forças escondidas, mas também vulnerabilidades desconhecidas. Fará mais sentido lidar com esses riscos de forma coletiva. Por isso, na minha visão, é melhor que a maioria das sociedades adotem um sistema de saúde nacional de pagamento único. Assim, todos podem estar protegidos.

Jamie Metzl

No momento em que nos deparamos com negacionismo científico e um retrocesso ainda maior do que a pós-verdade, será que faz sentido ter expectativas tão otimistas no que diz respeito à democratização da saúde?

Metzl diz que é entristecedor ver pais se negando a vacinar seus filhos; contudo, o escritor não acha que a culpa é só dos negacionistas, uma vez que nossa tecnologia avança de maneira tão rápida que, muitas vezes, parece mágica mesmo — e isso pode assustar as pessoas. "Precisamos trabalhar para que nossos sistemas educacionais sejam tão fortes quanto eles podem ser. Também precisamos fazer com que pessoas comuns tenham uma voz na hora de decidir como essas [novas] tecnologias serão usadas", opina.

O autor lembra de como, nos anos 1970, os cientistas acharam que os benefícios dos alimentos transgênicos eram tão óbvios que nem precisaria de uma campanha de comunicação e educação da sociedade. Só que a consequência foi contrária: a falta de informação fez com que grupos e movimentos anti-GMOs surgissem. Para ele, a divulgação científica deve andar de mãos dadas com o desenvolvimento tecnológico, de modo que esse tipo de reflexão não fique confinado aos comitês de ética — mas chegue às escolas e às comunidades que, afinal, são os sujeitos a serem afetados por essas mudanças.

*

Análise: Lidia Zuin - Na pandemia, heróis distópicos inspiram resistência ao caos

A atriz Elisabeth Moss em cena de "O Conto da Aia", do canal Hulu - Reprodução
A atriz Elisabeth Moss em cena de 'O Conto da Aia', do canal Hulu Imagem: Reprodução
Lidia Zuin

Colunista do TAB

26/03/2021 04h00

Em um momento no qual o Brasil atinge o triste marco de 300 mil mortos pela covid-19, o luto se estende para além das vidas perdidas e atinge a todos em desdobramentos psicológicos, econômicos e sociais decorrentes da pandemia. Seja pelo isolamento social, pela perda de um emprego ou encerramento de um negócio, o cancelamento de compromissos e a impossibilidade de comemorar datas importantes, infelizmente, ninguém vai sair ileso dessa pandemia.

Só que, assim como dizem os memes, é bem diferente a gente estudar um momento histórico anterior do que estar, de fato, vivendo durante ele.

De acordo com o modelo sobre os estágios de luto proposto por Elizabeth Kubler-Ross, geralmente passamos por cinco etapas que são definidas pela negação, raiva, negociação/barganha, depressão e aceitação. Ao longo desses últimos 12 meses desde que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a pandemia, passamos por todos esses estágios de luto sem necessariamente seguir a ordem e sem necessariamente saber quando isso vai passar. Afinal, como estamos vendo, o fato de vacinas terem sido desenvolvidas inclusive em solo brasileiro não significa uma logística eficaz. E enquanto não chega a nossa vez, o que fazemos?

Relacionadas

Reality shows, fama e a máquina de reatrolimentar solidão na era das massas

Nas redes sociais, o negacionismo se apresenta não apenas na divulgação e corroboração de tratamentos precoces ineficazes, mas também aparece nas postagens em que famosos e desconhecidos aglomeram e celebram os ilusórios e frágeis limites de suas bolhas. Um ano depois, contudo, estamos simplesmente exaustos, sem esperança, sem saber muito bem como agir para, de fato, mudar o cenário ativamente — afinal, depois de um ano tendo batido panela, as coisas meio que só pioraram?


Ignorar a pandemia e o cenário calamitoso no qual se encontra o Brasil não é uma opção — mesmo para as marcas e influenciadores mais apolíticos. Isso não significa que não haja alguns desajustes no meio do caminho. Seja através de um design que comunica uma informação trágica como um número de mortos usando uma cartela de cores que está longe de passar a mensagem de desespero e dor das famílias, ou arbitrariamente usando dados sobre o contexto dos Estados Unidos para sugerir "7 motivos para acreditar que tudo isso está acabando". Aqui no Brasil o cenário é totalmente diferente, como detalhou o perfil Sento Mesmo no Instagram.

*

*

*

No post acima, a agência de pesquisa Float já havia sugerido uma possível "bússola política" sobre o posicionamento das pessoas, de acordo com suas crenças políticas, perante a pandemia. Parece resumir bem essa sensação de desespero, desorientação e desamparo, porque praticamente nada nos dá a esperança de que as coisas estejam melhorando ou perto de acabar. À primeira vista, o post usando dados americanos convenceu muita gente de republicá-lo, tanto como uma forma de se convencer de que é possível ter esperança quanto para oferecer acalanto aos demais. Mas não era verdade.

Então, como agir diante da nova temporada da distopia Brasil?

Distopias têm ficado cada vez mais populares, tanto na indústria do entretenimento quanto no inconsciente coletivo que tenta, através de um diagrama de diferentes obras, posicionar onde o Brasil ou o mundo em 2021 estaria. Entre "1984", "Admirável Mundo Novo", "O Conto da Aia", "Fahrenheit 451" e "A Estrada", estamos nós aqui acompanhando reality shows, batendo panelas, tuitando compulsivamente e tentando descobrir formas de manter a saúde mental sem se alienar completamente e sem ter ataques de pânico ao acompanhar as notícias.

No ano passado, escutei um podcast com o escritor Bruce Sterling falando justamente sobre como a ficção científica e a fantasia muitas vezes abordam esses cenários catastróficos — às vezes até decorrentes de uma pandemia —, e o motivo pelo qual nos sentimos atraídos por essas narrativas distópicas.

Como já discuti aqui, distopias são alertas sobre o que não queremos viver e o que não devemos fazer, mas, como argumentou Sterling, elas nos apresentam protagonistas e personagens que estão ativamente tentando sobreviver ao caos ou até subvertê-lo em uma jornada heroica. São histórias que nos fazem crer na esperança diante do colapso, mesmo que seja uma esperança totalmente obscura e niilista, como a narrada por Cormac McCarthy em "A Estrada" ou no seriado "O Conto da Aia", em que a personagem June, apesar de todas as adversidades, continua tentando encontrar estratégias para resistir ao sistema.

Mais do que acreditar que tudo vai dar certo, precisamos de forças e espírito crítico para lidar com o momento, porque assumir que as coisas logo vão melhorar nos põe em uma posição passiva e de espera pelo destino já tido por certo. Não é que iremos viver uma pandemia para o resto do século, mas é que mesmo que todos sejam vacinados, ainda teremos outros problemas que continuarão, porque se tornaram ainda mais latentes durante esse último ano.

Observar a resiliência, a persistência e a postura ativa dos protagonistas de distopias, como indica Sterling, é o que nos atrai tanto nessas histórias obscuras. Ainda que não sejamos confortados com um clássico final feliz, ao menos os roteiristas nos deram uma faísca de esperança: a de que é possível fazer algo até mesmo quando o planeta está prestes a se destruído — mesmo sabendo que, na vida real, nem sempre conseguimos fazer algo de verdade.

*
*
*
*
*
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

________________________* QUARKS, LÉPTONS e BÓSONS ________________________* COMUNISMO de DIREITA e NAZISMO de ESQUERDA. É o FIM da PICADA...! ________________________* http://www.nano-macro.com/?m=1

9