IDEOLOGIA DE GÊNERO

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Fantasia de masculinidade de Bolsonaro é a real ideologia de gênero, dizem pesquisadoras

Regina Facchini e Isadora França discutem construção de direitos LGBTI+ e desmonte com ofensiva conservadora

Nesta semana, o Ilustríssima Conversa discute o processo tortuoso de reconhecimento dos direitos das pessoas LGBTI+ no Brasil.

Para falar sobre esse assunto, o repórter Eduardo Sombini recebe Regina Facchini e Isadora Lins França, professoras dos programas de pós-graduação em ciências sociais e antropologia social da Unicamp e organizadoras do livro “Direitos em Disputa: LGBTI+, Poder e Diferença no Brasil Contemporâneo” (Editora da Unicamp).

A partir de diversos ângulos, a coletânea narra a construção de políticas de combate à discriminação e de afirmação da cidadania desses grupos nos anos 1990 e 2000 e analisa a ofensiva conservadora da última década que, na avaliação das convidadas, vem promovendo um desmonte da agenda de gênero e de sexualidade no país.

Na conversa, as pesquisadoras abordaram as transformações das estratégias e do vocabulário do movimento LGBTI+ nas últimas décadas, que ganhou novos sujeitos e se abriu para a ideia de que é preciso combinar a denúncia da homofobia com o enfrentamento de outros tipos de opressão, como o racismo e o machismo.

Retratos de Regina Facchini e Isadora Lins França
Regina Facchini (esq.) e Isadora Lins França, organizadoras de 'Direitos em Disputa: LGBTI+, Poder e Diferença no Brasil Contemporâneo' - Divulgação

Facchini e França também discutiram a força política da chamada ideologia de gênero, que teve um papel fundamental na campanha que levou Jair Bolsonaro à Presidência. Elas consideram esse termo um factoide, usado para criar pânico moral e viabilizar um projeto que transforma o gênero e a sexualidade em tabus.

O Ilustríssima Conversa está disponível nos principais aplicativos, como Apple PodcastsSpotify e Stitcher. Ouvintes podem assinar gratuitamente o podcast nos aplicativos para receber notificações de novos episódios.

O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.

Já participaram do Ilustríssima Conversa Alessandra Devulsky, autora de livro sobre racismo e colorismo, Idelber Avelar, que discutiu a ascensão do bolsonarismo, Christian Dunker, psicanalista que reconstituiu a história da depressão, Lira Neto, que narrou a saga dos judeus sefarditas até o Recife, Roberto Simon, autor de livro sobre o apoio da ditadura brasileira ao golpe contra Allende, no Chile, Heloisa Buarque de Hollanda, que situou as principais tendências do pensamento feminista contemporâneo, Ilona Szabó, que discutiu as ameaças à democracia no Brasil, Luiz Simas, que apontou os conflitos do Brasil institucional e da brasilidade, Malu Gaspar, repórter que investigou os escândalos de corrupção e a derrocada da Odebrecht, Flavia Rios, coorganizadora de coletânea da intelectual Lélia Gonzalez, Karla Monteiro, biógrafa do jornalista Samuel Wainer, Vinicius Torres Freire​, que tratou de medidas econômicas durante a crise do coronavírus, Muryatan Barbosa, pesquisador da história do pensamento africano, e Júlio Delmanto, autor de livro sobre a história social do LSD no Brasil, entre outros convidados.

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"Mulher bomba", "véu assusta": brasileiras muçulmanas relatam preconceitos

Mariam Chami usa o perfil @mariamchami para divulgar a cultura islâmica - arquivo pessoal
Mariam Chami usa o perfil @mariamchami para divulgar a cultura islâmica Imagem: arquivo pessoal

Priscila Carvalho

Colaboração para Universa

17/04/2021 04h00

Na última terça-feira (13), o Instagram lançou stickers em comemoração ao mês do Ramadã, que vai até o dia 12 de maio. O uso exagerado e mal feito das figurinhas na rede social gerou um desconforto e incômodo para a comunidade muçulmana, já que perfis aleatórios usavam as imagens para promover páginas e produtos. Só que a falta de informação e interesse em pesquisar mais sobre a celebração e a religião islã não se limita somente às redes sociais. Diariamente muçulmanos sofrem com estereótipos, além de xenofobia e intolerância religiosa.

Universa conversou com quatro brasileiras muçulmanas sobre as ofensas e termos preconceituosos que já ouviram no país. À reportagem elas também contam como o uso do hijab (véu usado para cobrir os cabelos, orelha e pescoço) sofre ainda estigmas, como a discriminação no mercado de trabalho, e vira, indevidamente, motivo de piadas.

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"Olha a mulher bomba"

Hyatt Omar, 22 anos e estudante de psicologia, mora atualmente no Canadá @hyattomar - arquivo pessoal - arquivo pessoal
"islã sofre com estereótipos de que a mulher é submissa e que a religião é opressão", diz Hyatt Imagem: arquivo pessoal

"Meus pais não nasceram no Brasil. Eles são da Palestina. Desde pequena, fui criada com a religião inserida na minha vida e com a cultura árabe. Eu cresci em Pelotas (RS), cidade de menos de 400 mil habitantes. A comunidade muçulmana não era tão grande, então, não sofria com tantos olhares ou preconceitos.

Como não uso o hijab, eu passava despercebida nos lugares e dificilmente sofria algum olhar. Mas quando íamos para cidade vizinhas, minha mãe sempre recebia olhares por causa do véu. Algumas pessoas não sabem, mas o hijab é uma ordem de Deus e a mulher tem o livre arbítrio de usá-lo ou não. Mesmo não vestindo o lenço, já ouvi coisas horríveis, sim.

Uma vez estava na rua e um pessoal de carro passou e gritou 'olha a mulher bomba'. Foi bem constrangedor. Além disso, eu tenho um nome árabe, então quando vamos para o aeroporto, tenho três vezes mais chance de ser parada do que uma pessoa com nome 'comum'.

Além da intolerância religiosa, o islã sofre com estereótipos de que a mulher é submissa e que a religião é opressão. E não é. O islã trouxe o direito de herança, voto e outros. O problema não é a religião, e sim, o machismo que está na sociedade e isso está em qualquer religião. Eu me sinto mais segura de andar na Palestina à noite, do que no Brasil, por exemplo.

No uso dos stickers, acho que faltou sensibilidade e empatia. Vi marca de sex shop usando figurinhas. O objetivo não foi bem usado". Hyatt Omar, 22 anos e estudante de psicologia, mora atualmente no Canadá @hyattomar

"Você pode tirar isso?"

Fabiola oliveira, 32 anos, professora e ativista @fabiolaoliver - arquivo pessoal - arquivo pessoal
"Infelizmente há uma visão deturpada da religião e sempre associam ao terrorismo", diz Fabiola Imagem: arquivo pessoal

"Antes eu era cristã e me converti ao islã depois de uma viagem à Nova Zelândia. Comecei a estudar a religião, me identifiquei e faz nove anos que me converti. No começo foi um pouco complicado para minha mãe entender, mas hoje ela super entende. Infelizmente há uma visão deturpada da religião e sempre associam ao terrorismo.

O preconceito existe e já passei por situações ruins na internet e fora dela. Algumas pessoas falam que nós, muçulmanos, não acreditamos em Deus e nos taxam como anticristos, principalmente quando ocorre algum ataque na Europa.

Um dos principais preconceitos que sofri foi a imersão no mercado de trabalho. Sempre preenchia os perfis para a vaga e depois vinham os questionamentos com a minha religião e ainda perguntavam se eu podia tirar o lenço. Algumas pessoas falavam "você pode tirar isso aí'. Só isso já machuca.

Também sofremos com os estigmas e acham que as mulheres não têm direitos. Minha religião já me garantiu direitos e o sistema machista patriarcal existe em todas as sociedades." Fabiola Oliveira, 32 anos, professora e ativista @fabiolaoliver

"O véu vai assustar as crianças"

 Carima Orra, 27 anos, empresária e influenciadora digital @camiraorra - arquivo pessoal - arquivo pessoal
"Me xingam e falam para eu voltar para o meu país, sendo que eu já estou nele", diz Carima Imagem: arquivo pessoal

"Eu nasci brasileira e meu pai é libanês. Nasci aqui e, desde sempre, cresci na comunidade muçulmana. Na infância, estudei em uma escola islâmica e depois mudei para um colégio normal. Como eu sempre tive amigas muçulmanas, não me lembro de ter sofrido baque nesta fase.

Fiz faculdade de Pedagogia no Mackenzie e também foi bem tranquilo. As minhas melhores amigas são desta época. O problema foi quando decidi arranjar um emprego. Na entrevista, me perguntaram se eu podia tirar o hijab porque eu iria assustar as crianças. Eu cheguei até a pensar que elas podiam estranhar, mas não era isso.

Depois de alguns anos, comecei a trabalhar com e-commerce e redes sociais e vi o quanto as pessoas eram preconceituosas atrás de uma tela do celular. Recebo até hoje xingamentos quando algum vídeo viraliza e, às vezes, falam para eu voltar para o meu país, sendo que eu já estou nele.

Um dos fatos que mais me marcou foi quando um motoqueiro passou e me chamou de mulher bomba. Ainda há muitos estigmas relacionados ao terrorismo e muçulmanos, associando uma religião a uma pessoa ou algo isolado.

Se alguém matar aqui no Brasil, ninguém vai falar que é terrorista. E também existe isso de que a mulher não tem voz. No Brasil há muitos casos de feminicídio, machismo e essas pessoas não seguem o islã.

Em relação às figurinhas, obviamente eu preferia que só a gente estivesse usando, mas o ponto positivo é que as pessoas se incomodam ao ver que algumas alguns usavam aquilo para se promover." Carima Orra, 27 anos, empresária e influenciadora digital @camiraorra

"Você não vai dar certo aqui"

Mariam Chami, 30 anos, empresária e influenciadora digital @mariamchami - arquivo pessoal - arquivo pessoal
"Algumas mulheres acabam tirando o véu para trabalhar por causa da pressão", diz Mariam Imagem: arquivo pessoal

"Eu nasci aqui e sou filha de pai libanês e mãe brasileira. Eu estudei em escola muçulmana e depois em escola convencional. Hoje, eu lido muito bem com o preconceito, mas antes ficava bastante estressada. Quando recebo mensagem de hater, eu penso 'mais engajamento'.

Uma vez tinha acabado de entrar numa empresa e o dono veio me cumprimentar, mas na nossa religião a mulher não pode ter contato físico com um homem desconhecido. Eu coloquei a mão no peito e expliquei a situação e logo ele falou: 'Uma pessoa como você não vai dar certo aqui". Nesta hora, meus olhos encheram de lágrimas e comecei a chorar.

Em outra oportunidade, tinha estagiado em um hospital e era recém-formada. Quando tentei a vaga fixa, a dona disse que a oportunidade já era minha e só tinha que passar na sala do RH. Naquele momento, a recrutadora começou perguntar se minha mãe usava lenço, se a minha irmã usava. Naquela hora eu já sabia que a vaga não ia ser minha. Eles nunca mais me responderam.

Mandei e-mail questionando e me falaram que eu era muito séria para a vaga de nutricionista em um hospital.

É muito ruim pensar que isso acontece, porque muitas mulheres precisam de emprego, precisam daquela oportunidade. Algumas acabam tirando o véu, se sentem desconfortáveis, mas tiram só para trabalhar. Também atribuem o islã ao machismo. A religião não é machista, a sociedade que é e isto está enraizado.

Eu tento falar e mostrar nas minhas redes sociais um pouco dessa cultura. Não quero converter ninguém. Mostro como o islã prega o amor e a tolerância" Mariam Chami, 30 anos, empresária e influenciadora digital @mariamchami

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Reportagem: Chico Alves - Votação do impeachment de Dilma mostrou um Brasil ignorado, diz sociólogo

Sessão da Câmara que autorizou o impeachment de Dilma Rousseff - Agência Brasil
Sessão da Câmara que autorizou o impeachment de Dilma Rousseff Imagem: Agência Brasil
Chico Alves

Colunista do UOL

17/04/2021 04h00

Há momentos tão importantes na vida política de um país que só podem ser compreendidos anos depois. Esse é o caso da sessão da Câmara que no dia 17 de abril de 2016 autorizou a continuação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na votação, transmitida ao vivo pela TV e pela internet para milhões de brasileiros, 367 deputados votaram a favor do impedimento de Dilma, enquanto 137 votaram contra.

As motivações apresentadas pelos parlamentares foram analisadas pelo sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo, que, juntamente com o colega João Luiz Carneiro, publicou o artigo "Em nome do pai - Justificativas do voto dos deputados federais evangélicos e não evangélicos na abertura do impeachment de Dilma Rousseff".

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O "pai" que aparece no título do estudo se refere menos a Deus, tão citado naquela votação, e mais à representação de família, tradição e valores conservadores, em contraste com as ideias progressistas que dominavam a pauta política até então.

"O Brasil em sua maioria é um país de gente com mentalidade atrasada", define Prandi, nessa entrevista à coluna. "E foi essa mentalidade atrasada que derrubou a chefe de governo cujo partido e o presidente que a precedeu davam mostras que queriam dar igualdade às mulheres, aos negros, aos gays, pautas de esquerda".

Para o sociólogo, as justificativas dos deputados são a prova de que Dilma não foi retirada do poder por causa das alegadas pedaladas fiscais ou pela crise econômica. O verdadeiro motivo foi a reação de uma parcela de brasileiros, até então sem voz, a avanços na agenda de costumes.

"Naquela sessão, cinco anos atrás, tivemos mostras daquilo que se expandiu a ponto de se transformar na voz oficial do Brasil, o governo Bolsonaro", afirma Prandi.

UOL - Analisada cinco anos depois, o que significou aquela sessão da Câmara em que os deputados fizeram verdadeiras performances para a audiência de milhões de brasileiros que os assistia e que deu prosseguimento ao processo de impeachment de Dilma Rousseff?

Reginaldo Prandi - O artigo que escrevi tem o título "Em nome do pai", o que pode dar a impressão de que Dilma foi defenestrada em nome de Deus, ou seja, por motivos religiosos. Mas o que a pesquisa demonstra é que este "pai" não é necessariamente uma referência divina, mas representa a família tradicional, o costume tradicional, as normas de vida calcadas em uma moralidade retrógrada.

Era algo em contraposição a todo movimento de modernização que inclui o movimento pela autonomia das mulheres, a construção do conceito de gênero, a favor da diferença, especialmente a diferença gay, o movimento contra o racismo.

Tudo aquilo que demonstrava uma certa evolução na linha da modernidade e da nossa posição no mundo bastante avançada em termos de costume, de identidade, tudo isso foi colocado dentro da possibilidade do impeachment de Dilma.

Mas a atuação da bancada evangélica foi bastante destacada no impeachment.

Tínhamos ali 1/4 dos deputados que, enquanto evangélicos, assumiam essa postura atrasada. Com um pequeno grupo de católicos tradicionalistas, também muito apegado a esses costumes reacionários.

Mesmo assim, se somarmos católicos e evangélicos não temos ainda aquela expressão tão grande de votos necessários para derrubar a presidenta. A maior parcela da Casa, apesar de não se manifestar através de uma religião, são os brasileiros que estão voltados para o passado.

O que derrubou a Dilma não foi simplesmente a religião, mas uma mentalidade brasileira atrasada. Parte das igrejas evangélicas, não todas, pois existem algumas que são progressistas, quando se fez representar no cenário político, ganhou voz. Ao ganhar voz, trouxe a público essas aspirações de um Brasil atrasado.

O artigo mostra que o Brasil em sua maioria é um país de gente com mentalidade atrasada. E foi essa mentalidade atrasada que derrubou a chefe de governo cujo partido e o presidente que a precedeu davam mostras que queriam dar igualdade às mulheres, aos negros, aos gays, pautas de esquerda.

São, então, representantes da direita que não se sabia que era tão grande no Brasil?

Essa parcela atrasada assume valores que são de direita, mas não tinha como expressar isso antes. Isso é revertido quando surge a voz dos evangélicos legitimada em suas cadeiras políticas. Isso é um grande processo de transformação de trazer a público a posição de direita como decisiva na política brasileira, que se completa com a eleição de Bolsonaro, que vai se mostrar uma incógnita do ponto de vista da religião.

Você não sabe se Bolsonaro é evangélico, católico. Ele fica numa posição que é de direita e é retrógrada. Assim, completou-se esse processo. E esse Brasil que não tinha voz, o Brasil podre, o Brasil ruim, o Brasil detestável, que pode provocar até a autodestruição com a disseminação do negacionismo.

Naquela sessão, cinco anos atrás, tivemos mostras daquilo que se expandiu a ponto de se transformar na voz oficial do Brasil, o governo Bolsonaro.

Reginaldo Prandi - Divulgação - Divulgação
Sociólogo Reginaldo Prandi Imagem: Divulgação

Qual mensagem esses que não tinham voz queriam passar?

Quando uma pessoa de direita falava, era minoritária, não tinha muita expressão, era muita abafada. Ali, naquela sessão, eles falam pela família, em nome de seus eleitores, de sua região, de seu pequeno recorte eleitoral, às vezes falam em nome do partido, genericamente em nome do Brasil. Quando são religiosos, falam em nome da sua religião e em nome de Deus.

Mas o que pesa mesmo é a ideia de que eles estão falando em nome de um país cujas mudanças eles temem. Não tem economia no discurso, não tem planejamento social, outras instituições, não se fala praticamente nada que não tenha a ver com esse Brasil arcaico. Aquela cidade do interior, a família, o avô, as tradições, os costumes antigos, aquilo onde eles se sentem seguros porque não tem qualquer mudança quanto a referências que herdaram dos pais e avós.

Nas justificativas de cada voto, a pauta de costumes superou inclusive alegações como a de corrupção, que teria sido a causa do impeachment?

A corrupção deixou de ser importante, a tal pedalada fiscal era uma bobagem, uma prática comum, que todo mudo fazia de conta que não via. Mas foi esse motivo que usaram para começar o processo de impeachment. Mas eles não votam por causa disso.

Como os progressistas não perceberam a insatisfação dessa parcela da população?

Esse setor estava sociologicamente cego. Nós não enxergamos o Brasil, só enxergamos aquilo que favorecia a ideia de um Brasil que estava no caminho certo. Todo esse pessoal que não tinha fala, que não tinha discurso, que não tinha quem os ouvisse, ia ficando para trás.

Fizemos de conta que tudo ia bem, fomos excessivamente otimistas. Subestimamos a parte muda do Brasil, a parte pobre. Qual era a maior mostra de que algo não estava bem para essa parcela? Era mudar de religião, deixar de ser católico e virar evangélico.

Não havia diálogo com esse grupo, houve até um certo desprezo. Os evangélicos sempre foram menosprezados, os bobos, os idiotas. Havia um preconceito muito grande contra eles. Quando entram na política, o fazem para se defender na Constituinte de 88, porque tinham medo que a Igreja Católica reconquistasse todo privilégio que já tivera.

Eles têm medo que o Brasil vire um país de tolerância gay, um país com direitos femininos totais, em que as diferenças sejam aceitas. Eles foram sempre relegados a um papel minoritário. Só que a posição dos evangélicos representa também aqueles que não são da religião deles. O Brasil não soube se olhar.

O sr. acredita que essa visão religiosa vai continuar a fazer a política brasileira retroceder?

Sou otimista. Acho que esse pessoal que estava fora da política entra agora e se depara com a necessidade de entender o Brasil, vai se civilizando. Vai aprendendo, finalmente, começa a saber o que é ciência. Começa aprendendo o que é vacina. Todo mundo que eu conheço e que em algum momento disse que não ia se vacinar contra a covid-19 já foi vacinado.

Isso acontece porque vai tendo um contato com a realidade que o obriga a aprender. Ao aprender vai se dando conta de que há outras possibilidades.

Conheço muitas lideranças evangélicas que não pensam mais como pensavam no tempo do impeachment da Dilma. Ao chegar na política, passaram a entender o que é. Descobrem que é preciso aprender a governar, vão deixando a tradição de lado e se transformando em atores realmente capazes de governar.

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Análise: Leonardo Sakamoto - Nos 25 anos do Massacre de Carajás, Brasil faz reforma agrária às avessas

Andrelina Araújo e o filho Róbson no enterro das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás - Jorge Araújo/Folhapress - 20.abr.1996
Andrelina Araújo e o filho Róbson no enterro das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás Imagem: Jorge Araújo/Folhapress - 20.abr.1996
Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

17/04/2021 02h08

Por Carolina Motoki e Igor Rolemberg, especial para a coluna*

Há 25 anos, em 17 de abril de 1996, na curva do "S" da rodovia PA-150, em Eldorado de Carajás (PA), 19 integrantes do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram assassinados pela Polícia Militar, quando marchavam em direção a Belém, para reivindicar a desapropriação de uma fazenda para a criação de um assentamento. Outros dois morreriam depois no hospital.

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Hoje, a pauta da reforma agrária quase desapareceu do debate público à medida que a violência no campo avançou. A concentração fundiária do Brasil, uma das mais piores do mundo, segue produzindo conflitos, fome, despejos: de acordo com o IBGE, metade das terras destinadas à produção continua nas mãos de apenas 1% dos estabelecimentos agropecuários.

E isso pode piorar: o presidente Jair Bolsonaro tem empreendido uma contrarreforma agrária que deve aprofundar ainda mais a violência no campo e a desigualdade brasileira, criando o ambiente para novos massacres.

Com apenas três dias de governo, em 2019, ele suspendeu a compra e a demarcação de terras para a reforma agrária, em um ataque deliberado a uma das mais importantes políticas públicas de caráter constitucional, peça-chave para combater pobreza e desemprego e para assegurar direito a moradia, alimentação e renda.

Bolsonaro também se orgulha ao dizer que, em seu governo, não serão demarcadas ou tituladas terras indígenas.

Para além da má-fé política, a emenda do teto de gastos, aprovada em 2016, limita investimentos do Estado também nessa área. Há uma paralisação da reforma agrária também em decorrência de um esvaziamento orçamentário sem precedentes, como apontam as confederações sindicais Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) e Contraf (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar) em ação no Supremo Tribunal Federal.

Se, de um lado, a alegada falta de recursos congela políticas essenciais para a população brasileira, de outro a sonegação fiscal dos grandes proprietários de terras no pagamento do Imposto Territorial Rural (ITR) salta aos olhos: a sociedade deixa de arrecadar ao menos R$ 4,3 bilhões por ano.

Na Amazônia, a solução do governo produz mais violência

Ainda que falte dinheiro em caixa, isso não é desculpa para a omissão: além das desapropriações e compra de imóveis, o governo pode arrecadar terras públicas ou retomar áreas griladas. Hoje, 187 processos fundiários aguardam do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) apenas a imissão na posse do imóvel.

E não é só com desapropriação que se faz reforma agrária, ainda que ela seja um elemento indispensável e obrigação constitucional. Na Amazônia, a possibilidade de retomada de áreas públicas é ainda mais evidente: de acordo com a equipe de pesquisadores do Atlas da Agropecuária Brasileira, 16,6% de todo território nacional são terras não registradas; a quase totalidade delas está na região.

O acesso precário à terra está diretamente relacionado à degradação ambiental. Não à toa os casos de grilagem, de trabalho escravo e de conflitos violentos estão concentrados na Amazônia Legal.

Esse caos fundiário acaba favorecendo a política de contrarreforma agrária, que inclui a proposta de realizar regularização fundiária por auto-declaração. Isso significaria premiar invasores que se apropriaram de áreas públicas praticando crimes ambientais - muitas vezes com uso de trabalho escravo - e expulsando comunidades, em vez de redistribuir a terra que está concentrada.

Por essa proposta, discutida no Congresso Nacional, a vistoria in loco não seria mais necessária. Essa regularização fundiária beneficiaria quem está invadindo os territórios há menos tempo, o que promoveria uma ampla legalização da grilagem, aumento do desmatamento e reprodução de conflitos violentos.

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Propostas do Executivo também defendem que terras públicas sejam vendidas com descontos de até 90% sobre o valor-base de mercado, como sistematizou o relatório "Mudanças atuais das leis de terras", elaborado por organizações da sociedade civil.

Assim, não é exagero dizer que o presidente quer rifar o patrimônio público a entes privados, sem contrapartidas. Faz parte desse projeto, e já está em curso, a emancipação de assentamentos de reforma agrária pela concessão de títulos individuais, o que retira do Estado a responsabilidade sobre essas áreas e devolve as terras ao mercado, favorecendo a especulação imobiliária.

Essa titulação massiva também agravará a concentração fundiária. O assentado que receber o título de propriedade, sem apoio e infraestrutura necessária dos programas de reforma agrária, não aguentará muito tempo até vender sua terra ao fazendeiro ao lado.

O contingente de sem-terras se renovará, formando contínuas frentes de expansão, pressionando a ocupação de terras públicas, ocupando as periferias das cidades, deixando trabalhadores mais vulneráveis à exploração.

Está em curso, portanto, uma reforma agrária às avessas. Com ela, e em um momento em que a fome se aprofunda, o Brasil desperdiça a oportunidade de, a um só tempo, realizar justiça social e potencializar a agricultura familiar, grande responsável pelo abastecimento do mercado interno de alimentos, contrariamente ao agronegócio, voltado para exportação de matérias-primas.

A alta do arroz em plena pandemia é um bom exemplo de que nossa segurança alimentar está ameaçada quando as políticas públicas para o pequeno agricultor deixam de funcionar. Como se diz na roça: "se o campo não planta, a cidade não janta".

Assim, a reforma agrária não é só de interesse de sem-terras, mas de toda sociedade brasileira - exceto de quem se beneficia da concentração fundiária e da apropriação indevida do patrimônio nacional.

Os 25 anos do Massacre de Carajás apontam que realizá-la exige enfrentar desigualdades históricas, algo que o presidente está pouco disposto a fazer.

(*) Carolina Motoki é jornalista, educadora popular e assessora a Campanha de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo da Comissão Pastoral da Terra; Igor Rolemberg é graduado em Direito pela USP, doutorando em Antropologia Social pela UFRJ e foi agente da Comissão Pastoral da Terra em Marabá (Pará).

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Reportagem: Jamil Chade - Governo usa "familia" para combater o que chama de "ideologia de gênero"

Jamil Chade

e Maria Carolina Trevisan

17/04/2021 04h00

A secretária da Família do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), Ângela Gandra, participou em 12 de março de um evento com parceiros estrangeiros que incluía representantes de partidos de extrema-direita da Europa. Na ocasião, ela revelou estratégias para impor a agenda ultraconservadora do Planalto por meio da implementação de programas supostamente direcionados a atender as famílias, mas afirmou que o foco é combater a "ideologia do gênero".

Estamos trabalhando muito nas políticas públicas contra a 'ideologia de gênero'. Desde o primeiro momento, tiramos todas as cartilhas que tínhamos onde os pais eram preparados a ajudar seus filhos desde os dois anos [de idade] a escolher seu sexo."Ângela Gandra, secretária nacional da Família no Ministério da Mulher

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"Ideologia de gênero" é um conceito pejorativo usado pelo campo ultraconservador, muitas vezes ligado ao fundamentalismo religioso, contra os avanços nos direitos sexuais e reprodutivos e na igualdade de gênero, em especial a população LGBTQIA+. Defensores da moral costumam se referir à "ideologia de gênero" como ameaça à sociedade, posicionam-se contrários ao direito ao aborto e usam o conceito de "família" para impor uma agenda que, na realidade, tolhe direitos de quem não se alinha a esse posicionamento conservador.

A transmissão foi obtida pelo UOL. Trata-se de um seminário virtual intitulado "Uma resposta política à 'ideologia de gênero'", promovido pela organização internacional "Polítical Network for Values", uma plataforma de representantes políticos que defende valores como "a proteção da vida humana, o casamento, a família, a liberdade religiosa e de consciência".

Entidades antiaborto, políticos de extrema-direita e especialistas de diversos países trocaram experiências sobre estratégias de combate à "ideologia de gênero". O deputado federal Wilton Acosta (PRB-MS) também participou. Disse que a "ideologia de gênero" seria uma "afronta ao pensamento cristão" e se referiu a essas políticas como "agenda gayzista".

Além do Brasil, a reunião contou com entidades como a Alliance Defending Freedom (ADF) — que se diz dedicada à liberdade religiosa e é grande financiadora de temas ligados à agenda ultraconservadora — e representantes do partido de extrema-direita da Espanha, o Vox.

A mediadora do encontro chegou a afirmar que o governo Bolsonaro era central para a manutenção da agenda ultraconservadora no palco internacional.

Discurso começou com tom de orgulho

Ângela Gandra, uma das pessoas mais influentes dentro do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, iniciou seu discurso em tom de orgulho, dizendo que Bolsonaro se comprometeu em não permitir que a "ideologia de gênero" fosse promovida. De acordo com ela, a estratégia é atuar por meio dos programas direcionados a "fortalecer a família".

Como estamos fazendo? Em primeiro lugar, com um projeto que se chama 'Famílias Fortes'. É um programa que estamos levando a todos os municípios do Brasil, que trata do fortalecimento de vínculos familiares. Porque muito acontece pelos abusos que há na família, a pedofilia e tudo, que depois as pessoas se confundem e vão para outro caminho. Pensamos que isso é a prevenção da prevenção: a família forte."Ângela Gandra, secretária nacional da Família no Ministério da Mulher

Um segundo programa seria o "Família na Escola", em parceria com o Ministério da Educação, que visa "chamar a família para acompanhar o conteúdo da formação de seus filhos na escola", segundo a secretária.

"O 'Família na Escola' é muito importante porque os pais não conhecem a ideologia que acontece na escola. Muitas vezes, se assustam ao ver os frutos ou o material. Há muita omissão também", afirmou.

Card do evento "Uma resposta política para a ideologia de gênero" - Divulgação - Divulgação
Card do evento "Uma resposta política para a ideologia de gênero" Imagem: Divulgação

Trabalho Legislativo

Ângela Gandra ainda explicou como o governo também trabalha junto ao Poder Legislativo e à Suprema Corte para avançar nessa direção.

Há um projeto que prevê a não discriminação na escola e a 'ideologia de gênero' instalada no Programa Nacional de Educação. Então, buscamos o ministro que é o relator do processo e pedimos, em nome das famílias que estão muito assustadas, pois desde pequenos começam a promover a descoberta de um e outro sexo, desde os 4 anos. E aos 10 e 11 anos, [de modo] mais forte."Ângela Gandra, secretária nacional da Família no Ministério da Mulher

Segundo ela, a mediação nessas idades é importante por conta "da falta de hormônios". "É mais fácil de se confundir, pela amizade, e depois estimular a sexualidade, mas vão sempre por outro caminho, muitas vezes por outro sexo."

"Vemos também que essa maneira de atuar é muito ideológica", opinou. Segundo ela, ao promover a "ideologia de gênero", seria "mais fácil depois impor outra ideologia porque o conflito interior leva a pessoa a ser manipulada".

"É algo pensado como ideologia em sua totalidade", disse a secretária.

Eduardo Bolsonaro envolvido

A secretária também explicou como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) atuará: "Ele está na Comissão de Educação e vai trabalhar muito fortemente contra a 'ideologia de gênero'".

Também tiramos o vocabulário: em todos os documentos, quando se usa 'gênero' significa 'sexo'. Há dois sexos. Estamos trabalhando nisso também para que não se mude a realidade através da linguagem", afirmou a brasileira aos demais participantes."Ângela Gandra, secretária nacional da Família no Ministério da Mulher

Ela disse, ainda, que seu objetivo é envolver "a sociedade civil, os pais, as famílias, que estão opinando muito mais e mostram o que não querem". A estratégia também inclui alianças no exterior, convocando outros países a se unirem ao movimento "Stand for the Family" (em uma tradução livre, "Ao lado da família").

Estamos indo bem. Vamos conseguir que se combata a ideologia no Brasil e que possa dar exemplo ao mundo."Ângela Gandra, secretária nacional da Família no Ministério da Mulher

Ela ainda destacou que, no governo, "temos uma diretora das comunidades LGBT". E ponderou: "mas para defender, proteger a pessoa humana. Proteger, não promover artificialmente uma realidade que é um ataque ao ser humano. Ajudamos para que não se dê violência contra essas pessoas, mas não promovemos como uma realidade natural".

O "Programa Famílias Fortes" foi lançado em abril de 2020 com o objetivo de "disponibilizar subsídios para que as famílias possam fortalecer as relações entre os seus membros no contexto de calamidade. O programa é uma ferramenta de fortalecimento de vínculos como caminho para a prevenção de comportamentos que possam gerar prejuízo social, físico ou emocional às famílias".

Divulgado em março de 2021, o "Programa Famílias na Escola" trabalha auxiliando "pais ou responsáveis em seus desafios cotidianos, em uma perspectiva positiva, para que adquiram conhecimento e desenvolvam as habilidades necessárias para cumprir suas responsabilidades em relação à educação integral de seus filhos", segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Os organizadores do evento saudaram a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) e o compromisso firmado pelo Brasil no "Consenso de Genebra", a cruzada internacional antiaborto composta por países autoritários e de extrema direita e capitaneado pelos Estados Unidos de Donald Trump.

Joe Biden, atual presidente americano, se retirou da declaração.

O que diz o ministério

Ao UOL, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos confirmou que Ângela Gandra fez uma "brevíssima participação no evento".

Afirmou que o programa "Famílias Fortes" foi "trazido para o Brasil pela UNODC [escritório da ONU para drogas e crimes] e era conduzido pelo Ministério da Saúde antes de 2019". A formação dos facilitadores que promovem as oficinas era presencial — nos municípios dos interessados —, mas, por causa da pandemia, passou a ser por meio de um curso à distância contratado junto à Universidade Federal de Santa Catarina. "O curso foi entregue em fevereiro de 2021 e já teve mais de mil alunos inscritos em menos de dois meses. O custo foi de R$ 300.000."

De acordo com o ministério, o programa deve "beneficiar 10.971 famílias em 47 municípios de 14 estados".

Sobre o programa "Família na Escola", o MDH diz que "está em fase de desenvolvimento, em parceria com o MEC. O custo total estimado como investimento inicial é de R$ 754.905, para a elaboração dos materiais necessários para o desenvolvimento do curso EaD, a contratação de consultores para a elaboração dos conteúdos e para a avaliação do Projeto".

Acerca da atuação internacional, o ministério diz que "temos em andamento a Partnership for Families, que neste ano focará principalmente no equilíbrio trabalho-família e nas questões e experiências que têm sido levantadas pela pandemia. Estamos ainda trabalhando o tema na OCDE e OIT, junto às empresas, com foco em políticas familiarmente responsáveis, já que uma grande questão também é a manutenção de empregos na pandemia".

O ministério disse ainda que a pasta que cuida da população LGBTI atua para "proteção contra a violência que infelizmente existe em nosso país".

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Elliot Page desabafa sobre projetos de lei que atacam os jovens trans

Elliot Page - Reprodução/Instagram
Elliot Page Imagem: Reprodução/Instagram

Colaboração para Splash, em São Paulo

16/04/2021 20h13

Elliot Page usou seu Instagram para fazer um desabafo na noite de hoje. O ator de 34 anos de idade, criticou projetos de lei nos EUA que atacam jovens trans.

O ator falou sobre a batalha que vivem diariamente pelo direito de existir.

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"Enquanto observo o movimento esses projetos de lei que atacam os jovens trans nos Estados Unidos, especialmente nesta semana na Flórida, Alabama, Texas e Dakota do Norte, estou pensando em meus irmãos trans e na dor coletiva que nossa comunidade deve aperfeiçoar para batalhar continuamente por nosso direito de existir. Essas contas são perturbadoras, cruéis e exaustivas. Ligue para seus representantes. Diga-lhes para se oporem à legislação que nos discrimina. Diga a eles que nosso acesso aos cuidados de saúde é um direito humano inalienável. Diga a eles para deixarem as crianças trans praticarem esportes. Diga a eles que #TransPeopleBelong - sempre públicos e sempre faremos", escreveu ele.

Elliot é um homem Trans e trouxe isso a público no fim do ano passado.

Recentemente, o ator falou sobre sua mastectomia e garantiu que sempre se sentiu um homem. "Eu queria ser um menino. Sempre perguntava à minha mãe se eu poderia ser um garoto um dia", contou ele em um trecho da entrevista que fala sobre o procedimento de retirada das mamas.

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O amor na literatura LGBTQI+

Isabela Durão

Mais de 2500 anos separam os versos da poeta grega Safo das imagens de um beijo gay entre os personagens Hulkling e Wiccano na HQ “Vingadores: A Cruzada das Crianças” (Editorial Salvat, 2017). Celebrada por cantar o amor entre mulheres no século 6 a.C. e uma das poucas vozes femininas da Antiguidade a atravessar os séculos, a popularidade de Safo em seu tempo provavelmente entraria na mira do ex-prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella, que mandou recolher os exemplares da história em quadrinhos durante a Bienal do Livro carioca em 2019.

Como os fragmentos da obra de Safo atestam, pelo menos desde a Grécia Antiga histórias de amor LGBTQI+ existem na literatura. E se, durante muito tempo, a elas foi reservado um lugar de clandestinidade e censura, hoje despertam cada vez mais a atenção do público e da crítica, a despeito do avanço do conservadorismo personalizado em Crivellas e afins. “É algo que antes podia ser muito restrito à pesquisa acadêmica de resgate e agora também é genuíno em muitas pessoas leitoras. É uma coisa que tem se expandido”, observa Natália Borges Polesso. Estudiosa do tema e escritora, ela venceu o prêmio Jabuti em 2016 com “Amora” (Não Editora, 2015), coletânea de contos protagonizados por mulheres lésbicas.

Estamos falando por nós mesmas e podendo contar nossas próprias histórias de amor, do nosso ponto de vista

Polesso faz parte de uma geração de autoras e autores que ocupa não só cada vez mais estantes mas espaços de prestígio literário, como premiações e grandes eventos — a última edição da Flip, por exemplo, teve mesas debatendo a sexualidade com Paul B. Preciado, Caetano VelosoDanez Smith e Jota Mombaça —, com produções que fogem às narrativas cisheteronormativas cristalizadas no imaginário dos leitores ao longo do tempo. “Hoje a gente tem muito mais interesse de pessoas LGBTQI+ escrevendo sobre personagens LGBTQI+, e isso não era tão óbvio há alguns anos”, diz a escritora.

De fato, o apagamento e o tabu assombraram autores e obras que abordavam o amor e a sexualidade não-padrão. Mesmo consagrados no cânone, nomes como Mário de Andrade e Virginia Woolf tiveram esse viés de sua vida e literatura empurrados para debaixo do tapete, muitas vezes tratados de forma ambígua ou velada. “O caso não foi de marginalização, mas outros elementos foram colocados em jogo, fazendo com que as questões gays presentes nas obras não fossem vistas e analisadas pela crítica e pelos leitores”, explica Mário César Lugarinho, professor e pesquisador do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP.

Um olhar que vem se transformando: não só há um resgate daquelas e daqueles que caíram no esquecimento — de Maria Firmino dos Reis, primeira romancista negra do Brasil e que também escreveu poemas de amor para mulheres, a Ruddy Pinho, primeira pessoa trans a publicar um livro no país e a se candidatar a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras — como uma ressignificação dos mais reconhecidos. “Estamos caminhando para outros entendimentos de sexualidade e de relacionamento, e os apagamentos começam a ser vistos, compreendidos, mencionados. Isso muda nosso quadro de referência tanto historicamente quanto na produção contemporânea”, diz Polesso.

Da tragédia aos amores possíveis

Não à toa, a marginalização das histórias de amor LGBTQI+ conferiu a elas rótulos e enredos atrelados às normas da sociedade patriarcal. Até em autores celebrados por dar voz a essas paixões, como Caio Fernando Abreu e Cassandra Rios, ou em best-sellers recentes do calibre de “Me Chame Pelo Seu Nome” (Intrínseca, 2018), paira por vezes uma atmosfera de solidão, infelicidade ou perversão. “Existe nessas produções um padrão da irrealização do amor entre pessoas iguais”, avalia Lugarinho.

Por isso, questionar essa forma de retratar os romances têm feito parte da crítica e da escrita atuais. “Há uma onda de mostrar que as personagens eram problemáticas, dando mais uma volta no parafuso ao olhar para essas obras”, afirma Polesso. “Temos conseguido ler mais diversamente a literatura LGBTQI+, porque anos atrás era só insinuação ou aquela coisa triste, sofrida, proibida, às vezes perversa. Esse discurso já não é mais o mesmo.”

Escrever sobre os amores possíveis, então, é uma grande virada na criação literária LGBTQI+ da última década. “Estamos falando por nós mesmas e podendo contar nossas próprias histórias de amor, do nosso ponto de vista”, diz a poeta trans Kika Sena. “É um exercício porque isso sempre veio da perspectiva e do estereótipo do sofrimento, como se nossos corpos tivessem esse destino justamente associado a uma normatividade que define a quem pode pertencer o amor.”

Para Sena, no entanto, não é só o amor romântico que entra na conta. “Essas narrativas obviamente têm sua importância na desconstrução do olhar sobre os nossos corpos, mas temos que ver o amor nas várias camadas da existência humana. Isso facilita a compreensão de que outros corpos amam, se relacionam e trocam afeto para além do amor romântico”, diz ela, mencionando que sua grande paixão atualmente é o filho de sete meses.

Temos conseguido ler mais diversamente a literatura LGBTQI+. Anos atrás era só insinuação ou aquela coisa triste, sofrida, proibida, às vezes perversa

Polesso também considera importante trazer outros sentimentos e temas universais da tradição literária para personagens LGBTQI+, como ela faz no romance “Controle” (Companhia das Letras, 2019). “Por que essas coisas seriam excludentes? Nunca diríamos se o personagem é hétero”, questiona. No entanto, ela acredita que, para pessoas LGBTQI+, se identificar em amores felizes pode ser realmente uma experiência catártica.

Afinal, é uma questão de representatividade: se, por excelência, a literatura “nos salva da mesmice do mundo e nos mostra “outras formas de ser”, como observa Lugarinho, escrever e ler histórias de amor, em suas dimensões diversas, é uma maneira de escapar a padrões rígidos e violentamente impostos durante tanto tempo. “É bonito, mas também é triste: as pessoas têm a necessidade de saber que são amores possíveis, porque a gente vive em um mundo extremamente agressivo contra esse tipo de relação”, diz Polesso.

Para ter na estante

Dos clássicos aos contemporâneos, as possibilidades e as formas de amar são inúmeras. Gama seleciona alguns títulos para começar as leituras

Contos sobre elas

Em meio à profusão de obras feministas e de autoria feminina publicadas na última década, se destacam as histórias de amor entre mulheres. O vencedor do Jabuti “Amora” (Não Editora, 2015), de Natália Borges Polesso, e a coletânea “Faz Duas Semanas que Meu Amor” (Edições GLS, 2012), de Ana Paula El-Jaick, trazem contos com protagonistas lésbicas.

Poemas de amor

As amantes também figuram nos versos de “Canções de Atormentar” (Companhia das Letras, 2020), de Angélica Freitas, e “Sete Notas sobre o Apocalipse” (Garupa, 2019), de Tatiana Nascimento.

Corpos dissidentes

Na poesia da alagoana Kika Sena, reunida em “Periférica” (Padê Editorial, 2017), mulheres trans podem amar livres de estereótipos de orientação sexual e hipersexualização. Nos EUA, o celebrado poeta não-binário Danez Smith fala de relações afetivas, de sexo e de desejo entre pessoas LGBTQI+.

De olho no cânone

Romances homoafetivos estão em grandes clássicos da literatura mundial. É o caso de “O Quarto de Giovanni” (Companhia das Letras, 2018), de James Baldwin; “Orlando” (Penguin, 2014), de Virginia Woolf; e “A Cor Púrpura” (José Olympio, 2016), de Alice Walker.

O amor quando jovem

No mundo real, sabemos, nem só de príncipes e sapos se fazem os amores das princesas e nem só de pai e mãe se constituem as famílias. Os livros infantis “A Princesa e a Costureira” (Metanoia Editora, 2016), de Janaína Leslão, e “Olívia Tem Dois Papais” (Companhia das Letrinhas, 2010), de Márcia Leite, ambientam — e naturalizam — narrativas não-heteronormativas no universo das crianças.

Um assunto a cada sete dias
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Com preguiça de cozinhar? Veja como se alimentar bem mesmo morando sozinho

iStock
Imagem: iStock

Simone Cunha

Colaboração para o VivaBem

16/04/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Muitas pessoas associam praticidade a refeições industrializadas, mas isso geralmente leva a uma alimentação pobre em nutrientes
  • Felizmente, há alimentos práticos e saudáveis e as indústrias têm olhado para esse público com mais atenção
  • Cada vez mais têm opções de vegetais e leguminosas congelados no supermercado, mas também é bom saber o que comprar no mercado e como armazenar

Geralmente, a geladeira de quem mora sozinho tem comida pronta congelada e, na despensa, macarrão instantâneo e enlatados. Nos dias em que nada disso desperta o apetite, o delivery acaba sendo a melhor solução. A rotina até pode ser prática, mas o problema é que essas refeições costumam ser pobres em nutrientes, prejudicando também a saúde.

A explicação para essas escolhas fáceis é justamente não ter com quem compartilhar a comida, de acordo com a nutricionista Cynthia Antonaccio, mestre em nutrição humana pela USP (Universidade de São Paulo) e CEO da Equilibrium Latam. "Estar sozinho acaba ativando a preguiça, pois cozinhar envolve um preparo para compartilhar e a comida tem tudo a ver com dividir", diz.

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Você joga a casca fora? Ela tem nutrientes que não devem ser desperdiçados

A boa notícia é que já existem possibilidades para não cair na onda dos processados. "Há alimentos práticos e saudáveis e as indústrias têm olhado para esse público com mais atenção", confirma a especialista. Portanto, não é preciso se privar de preparar um alimento fresco, saboroso e nutritivo no dia a dia, mesmo em poucas porções. E algumas dicas facilitam essas escolhas, sem desperdício, planejando o que deve ser comprado, armazenado e consumido na rotina diária. Veja a seguir:

Renda-se aos congelados e alimentos a vácuo

Ervilhabrócoliscenourabatatamandioquinha, cada vez mais têm opções de vegetais e leguminosas congelados no supermercado. E o melhor: esses alimentos não perdem os seus nutrientes, garantindo o mesmo valor que os alimentos frescos. Só é importante ficar de olho na embalagem: "É importante que o alimento não tenha nenhum tipo de aditivo como sal ou tempero extra, na lista de ingredientes deve constar apenas o nome do produto escolhido", ensina Maiara Souza, mestre em ciências da saúde pela UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro) e nutricionista na Clínica Geisa Costa, em Uberaba (MG).

Conserve as folhas por mais tempo

Ter sempre uma saladinha é ótima opção para manter a boa alimentação. Porém, comprar aquele maço de alface e guardar na geladeira é ter a certeza de que metade irá para o lixo, pois irá oxidar. Para evitar perdas, a dica é higienizar as folhas antes de guardar, para garantir uma durabilidade maior. No entanto, é essencial guardar tudo bem sequinho. Para isso, use uma centrífuga (recipiente próprio para este fim) ou coloque as folhas limpas em um papel toalha ou pano de prato, que irão reduzir toda a umidade. Dá um pouquinho de trabalho, mas vale a pena. Com as folhas bem secas, Antonaccio diz que basta dividi-las em porções e acondiciona-las em saquinhos ou pote de vidro hermeticamente fechado, mantendo na geladeira.

Frutas em porções menores

Troque o mamão formosa pelo mamão papaia, afinal, a dica é investir em porções individuais para não deixar nada estragando na fruteira. Quer melancia? Compre apenas um pedaço. Ameixagoiabapêssego, kiwi, maçã e pera duram um pouco mais. Já morango e banana podem ser congelados e virar uma vitamina depois. "Um cuidado: se você já tem banana que está ficando passada, não coloque junto às frutas que acabou de comprar. Os gases emitidos pelo amadurecimento da banana irão acelerar o amadurecimento das frutas. Só deixe próximo se quer que uma fruta amadureça mais rápido", fala Souza.

Seja criativo com as sobras

Tempos atuais não combinam com desperdício, por isso, se sobrou comida, guarde e reaproveite. "Legumes e carnes podem ser picados e levados para a frigideira, basta adicionar um pouquinho de creme de leite com temperos e ervas e já vira um refogado delicioso", sugere Antonaccio. Ou ainda fazer com molho de tomate e jogar por cima de um macarrão. Ou incrementar uma omelete. Se pão ficou durinho, faça torradas e, se quiser algo mais sofisticado, coloque tomate, orégano, azeite e terá uma bruschetta.

Delivery pode sim!

Quem disse que só existem opções calóricas e gordurosas para entrega? É só apostar nas opções mais saudáveis. Mude o cardápio, peça em restaurantes menores, do bairro, que servem uma comidinha mais caseira. Sempre há um jeitinho para se alimentar bem e com sabor.

A compra básica

Quem mora sozinho não pode —nem deve — ficar armazenando muitos produtos com o risco de estragar ou passar do prazo de validade. Mas também não dá para ficar indo ao mercado toda hora. Por isso, as especialistas fizeram uma listinha de itens básicos que não podem faltar na cozinha para se alimentar bem. Tem que ter: leiteovos, tomate, atum em lata, vegetais a vácuo, salada pronta, queijo, azeite, ervas e temperos, creme de leite, massa wrap, carne moída ou peito de frango, cereais e sementes, sal, pimenta, cebola e alho. Com esses itens dá para fazer diversos pratos, por isso vale ter sempre em casa.

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Isolada da família, Elizabeth II chora pela morte de Philip durante funeral

Rainha fez sinal de reverência diante do caixão do marido
O Globo e agências internacionais
17/04/2021 - 11:50 / Atualizado em 17/04/2021 - 17:19
Elizabeth II na Capela de São Jorge Foto: POOL / REUTERS
Elizabeth II na Capela de São Jorge Foto: POOL / REUTERS

A rainha Elizabeth II enxugou as lágrimas e foi forçada a chorar sozinha na Capela de São Jorge durante o funeral de seu marido, o príncipe Philip, no Castelo de Windsor, neste sábado. Devido às atuais recomendações de distanciamento por causa da pandemia, ela permaneceu isolada em relação aos demais membros da família.

Foi assim que a rainha se despediu do homem com quem esteve casada durante 73 anos, a sua "força e apoio", em um funeral sóbrio ao estilo militar com máscaras e poucos convidados devido à pandemia.

Ela parecia abatida pela tristeza e abaixou a cabeça em reverência, enquanto olhava para o caixão de seu amado Philip. Seu filho mais velho, o Príncipe Charles, também chorava enquanto caminhava atrás do caixão, no cortejo que antecedeu a cerimônia na capela, seguido por outros membros da realeza.

Elizabeth II diante do caixão de Philip Foto: JONATHAN BRADY / AFP
Elizabeth II diante do caixão de Philip Foto: JONATHAN BRADY / AFP

O caixão do duque de Edimburgo estava coberto com seu estandarte pessoal e carregava a sua espada, um chapéu naval e uma coroa de flores. 

A rainha chegou à cerimônia enquanto o hino nacional tocava e o Bentley real parou ao lado do caixão, onde ela fez uma pausa pungente para um momento de reflexão, enquanto os canhões disparavam e os sinos badalavam em memória do duque.

Ela foi, então, conduzida à Capela de São Jorge com uma dama de companhia, antes de ficar sentada sozinha na frente da igreja, onde curvou a cabeça durante o minuto nacional de silêncio.

William e Harry caminham separadamente em cortejo funebre Foto: GARETH FULLER / AFP
William e Harry caminham separadamente em cortejo funebre Foto: GARETH FULLER / AFP

Seguindo atrás do caixão estava a procissão real, liderada pelos filhos de Filipe, o Príncipe Carlos, a Princesa Ana, o Príncipe André e o Príncipe Eduardo. Os netos, incluindo o príncipe William e o príncipe Harry, o seguiram, mas os irmãos rivais foram separados por seu primo Peter Phillips.

O duque de Cambridge entrou na capela um lugar à frente de seu irmão mais novo, enquanto os enlutados entravam no edifício gótico histórico sem dizer nada um ao outro.

A rainha decidiu que nenhum membro da realeza deveria usar uniforme militar depois que o príncipe Andrew exigiu se vestir como almirante e o príncipe Harry foi destituído de seus títulos. Eles foram autorizados a usar suas medalhas, no entanto.

Cerimônia

O caixão de Philip foi enterrado no jazigo real da Capela de São Jorge. Os restos mortais do duque de Edimburgo permanecerão lá até que a monarca se reúna com ele após sua morte. O casal reunido ficará então na Capela do Memorial do Rei George VI, pai de Elizabeth II.

A cerimônia começou com um minuto de silêncio, antes do início do rito religioso em São George, capela gótica do século XV localizada no Castelo de Windsor de quase mil anos, cerca de 50 km a oeste de Londres.

Carruagem foi construída pelo próprio príncipe Foto: POOL / REUTERS
Carruagem foi construída pelo próprio príncipe Foto: POOL / REUTERS

Muitos especialistas asseguram que foi Philip quem administrou com mão de ferro uma família marcada por crises, ajudando a rainha a resistir aos escândalos.  Mas todos os olhares se voltaram para os príncipes William e Harry, cujas relações estão tensas, em busca de algum sinal de reconciliação, durante o funeral.

Esta foi a primeira aparição pública de Harry de 36 anos com a realeza desde que ele e sua esposa Meghan, que não viajou para o Reino Unido porque está grávida, abandonaram seus deveres reais e se mudaram para a Califórnia.

Harry, entretanto, não caminhou ao lado de seu irmão de 38 anos. Entre eles estava seu primo Peter Phillips, alimentando especulações sobre um desentendimento que persiste.

O funeral foi presidido pelo Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, líder espiritual dos anglicanos.

Pandemia

Devido ao coronavírus, os britânicos foram aconselhados a não viajar para Windsor. Mesmo assim, alguns decidiram fazer a viagem enquanto a maior parte do país acompanhava o ato pela televisão.

"As pessoas não deveriam vir, mas este é um grande evento, o único em uma geração. O duque foi especial, então esperamos por muitas pessoas", disse à AFP Mark, 57 anos, um entre dezenas de policiais nas ruas de Windsor.

Nas proximidades do castelo, os curiosos também ficaram em silêncio, como Kaya Mar, um pintor de 65 anos que chegou no primeiro trem de Londres com um grande retrato de Felipe debaixo do braço.

"Foi muito importante para mim estar aqui hoje", disse, considerando que "era um bom homem" e "o país vai sentir falta dele".

Cortejo foi acompanhado a pé por membros da família Foto: LEON NEAL / AFP
Cortejo foi acompanhado a pé por membros da família Foto: LEON NEAL / AFP

Coberto com sua espada, seu boné naval e seu estandarte pessoal, o caixão do duque foi transportado pela manhã por carregadores do Primeiro Batalhão de Granadeiros - do qual Philip foi coronel por 42 anos - da capela particular da família real para outro salão do castelo.

Preparando-se para a procissão, os guardas reais e dezenas de representantes de outros corpos militares posicionaram-se, perfeitamente alinhados, no gramado impecável do pátio central do castelo enquanto soava a fanfarra.

Sob um sol forte, a carruagem pessoal do duque chegou ao local, puxada por seus dois pôneis.

Nos degraus de acesso à capela, posicionaram-se os representantes da cavalaria, vestidos de gala e capacetes com longas plumas.

Sem pompa

O príncipe consorte, falecido em Windson em 9 de abril, dois meses antes de seu centésimo aniversário, foi companhia constante de Elizabeth II, corada com apenas 25 anos em 1952, quando o Reino Unido se reconstruia após a Segunda Guerra Mundial e seu império começava a perder força.

A monarca publicou neste sábado uma foto comovente do casal descontraído no Parque Nacional Cairngorms da Escócia em 2003.

Criança durante minuto de silêncio, do lado de fora do Castelo de Windsor Foto: PHIL NOBLE / REUTERS
Criança durante minuto de silêncio, do lado de fora do Castelo de Windsor Foto: PHIL NOBLE / REUTERS

Imagens de momentos marcantes do casamento foram divulgadas nas redes sociais da família real.

Os funerais da realeza britânica geralmente têm grande alcance, aperfeiçoados ao longo dos anos e assistidos por monarcas e líderes de todo o mundo.

Mas as restrições impostas pelo coronavírus obrigaram a modificar os planos de sepultamento de Philip, que se limitaram a 30 convidados íntimos com máscaras e distanciamento de segurança.

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