MENSALÃO do PT - TOADA NEGACIONISTA ?

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TOADA NEGACIONISTA?
live com Pizzolato vai negar o MENSALÃO 
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'Gabinete do Ódio' da Presidência será ALVO de convocação da CPI do GENOCÍDIO 
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Randolfe vê CPI do GENOCÍDIO como ‘mais importante CPI da história’
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Entenda como Beckett e seus personagens em situações-limite sintetizam a era Covid
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INACREDITÁVEL mas REAL: 
CPI do GENOCÍDIO pode desgastar governo mas NÃO deve levar a IMPEACHMENT de Bolsonaro, diz cientista político da USP
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“A longo prazo, os danos neurológicos causados pela covid-19 serão os mais preocupantes”
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“São os CIENTISTAS ‘CANALHAS’ que vão tirar o Brasil dessa crise infernal”
(Miguel Nicolelis)
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Excesso de confiança e nova variante fazem pandemia escapar ao controle na Índia
País asiático, que achava ter superado o pior da crise sanitária, bate diariamente recordes globais de contágios, com uma dupla mutação do vírus, potencialmente mais resistente a vacinas
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100 dias de Biden, uma profunda mudança de rumo nos Estados Unidos
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Estados Unidos FINALMENTE reconhecem o GENOCÍDIO de ARMÊNIOS sob o Império Otomano (TURQUIA)
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Pedro Castillo de extrema-esquerda, tem o dobro das intenções de voto de Keiko Fujimori que denuncia que o COMUNISMO é CAOS e AUTORITARISMO, mas essas são duas características também associadas ao seu projeto político”, afirma o cientista político.
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*27.abr.2021 - O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI da Covid, no Senado - Edilson Rodrigues/Agência Senado
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Depois de Gleisi dizer que não houve corrupção na Petrobras, live com Pizzolato vai negar o mensalão

Por Lauro Jardim

Givaldo Barbosa

Não há dúvida que o PT aproveita o momento em que Lula volta à condição de ficha-limpa para tentar reescrever a história — com muita cara de pau, ressalte-se.

No sábado, em entrevista a Sérgio Roxo, Gleisi Hoffmann respondeu da seguinte forma, e aparentemente sem corar, sobre um tema que, pelo visto, o partido já tira de letra.

— A senhora concorda que houve corrupção na Petrobras durante os governos do PT.

— Não concordo que houve corrupção na Petrobras durante os governos do PT.

Um evento que será transmitido pelo YouTube na noite de hoje segue a mesma TOADA NEGACIONISTA.

Tem a promoção da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e foi batizado de "O Mensalão Mentirão e a privatização da verdade".

Também sem a menor cerimônia — e depois de Gleisi dizer que não "não concordo que houve corrupção na Petrobras durante os governos do PT" — vai-se negar o que já foi julgado no processo do mensalão.

A cereja do bolo são os três debatedores. Henrique Pizzolato; Andrea Haas, mulher de Pizzolato; e Eugênio Aragão, ministro da Justiça (da Justiça, vale repetir) de Dilma Rouseff.

Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil no primeiro governo Lula, foi condenado a 12 anos e sete meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.

Também foi condenado pela CVM a pagar uma multa de R$ 500 mil por repasses de recursos feitos de modo irregular à DNA Propaganda, de Marcos Valério, o principal operador do mensalão.

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A reação de Pacheco ao ataque de Flávio Bolsonaro

Senador Rodrigo Pacheco, presidente do Senado

Chamado de ingrato pelo senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) no dia da instação da CPI da Covid, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), garante a aliados que não entrará em debates para “animar a claque”. O senador pode até responder uma ou outra provocação, e se o fizer, promete adotar um tom sóbrio.

Interlocutores de Pacheco afirmam que com a postura ele busca se distanciar, como presidente do Senado, dos parlamentares que, segundo ele, usarão a CPI da Covid para jogar para sua plateia eleitoral. O senador tem dito que “será chamado para dançar” tanto pelos governistas quanto pela oposição, mas que não vai “oferecer a contradança”.

Nesta terça-feira, Flávio Bolsonaro afirmou ao GLOBO que Pacheco (DEM-MG), foi "ingrato" ao cumprir determinação do Supremo Tribunal Federal para instalar a CPI da Covid e, ao mesmo tempo, ignorar decisão proferida ontem pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal que procurava impedir Renan Calheiros (MDB-AL), crítico do governo, de relatar a comissão.

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'Gabinete do Ódio' da Presidência será alvo de convocação da CPI da Covid | Bela Megale - O Globo

O assessor especial da Presidência Tércio Arnaud, que desponta como um dos integrantes do “gabinete do ódio”, ao lado do presidente Jair Bolsonaro

Funcionários do Palácio do Planalto que integram o chamado “gabinete do ódio” serão alvos de um pedido de convocação da CPI da Covid, instaurada nesta terça-feira no Senado. O PT vai solicitar a convocação dos assessores da presidência da República Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Salles Gomes e Mateus Matos Diniz. O trio bolsonarista é apontado como responsável por ataques a adversários do presidente nas redes sociais.

Uma das frentes articuladas pela oposição mira o uso de redes sociais para disseminar fake news que boicotam medidas sanitárias, como uso de máscara, além de ataques a autoridades que decretaram medidas de isolamento social, como governadores e prefeitos. Para isso, os senadores trabalham em um pedido de compartilhamento de dados da CPMI das fake news com a investigação da Covid.

A ideia é saber se houve dinheiro público e até de privado de apoiadores do presidente na disseminação de ataques e notícias falsas relacionadas à pandemia. A avaliação da oposição é que, ao unir a negligência do governo federal sobre a pandemia e o uso de fake news, Bolsonaro terá que lidar com os temas mais espinhosos de sua gestão.

– Se o presidente da CPI da Covid requisitar algum material, não há problema nenhum. O que for pedido sobre fake news relacionadas às vacinas, Covid-19, estamos dispostos a compartilhar – disse o senador Angelo Coronel (PSD-BA), presidente da CPMI das fake news.

Os senadores também pretendem explorar investimentos do governo federal em campanhas como “O Brasil não pode parar”, que pregava contra o isolamento social e acabou proibida pela Justiça, a ações de marketing com influenciadores digitais defendendo o tratamento precoce, ou seja, o uso de remédios sem eficácia para tratar a Covid-19.

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Randolfe vê CPI ‘mais importante da história’ e nega palanque para 2022

27.abr.2021 - O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI da Covid, no Senado - Edilson Rodrigues/Agência Senado
27.abr.2021 - O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI da Covid, no Senado Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Do UOL, em São Paulo

27/04/2021 16h08

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) disse hoje que a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid é a 'mais importante da história'. Em entrevista à GloboNews, ele também afirmou que não considera que a comissão será usada como palanque eleitoral porque seus trabalhos não vão durar até o ano que vem, quando acontecem as eleições nacionais.

"Eu diria que essa CPI foi instalada sob a necessidade de honrar a memória dos mais de 380 mil mortos pela pandemia. Tenho dito que essa CPI é a mais importante da história do Congresso Nacional porque nunca se teve uma comissão para apurar e investigar razões que levaram diretamente à morte de brasileiros", falou.

CPI da Covid: Renan quer convocar todos os ministros da Saúde de Bolsonaro

Randolfe Rodrigues foi eleito hoje para ocupar a vice-presidência da CPI da Covid. Ele era o único candidato ao posto, mas, mesmo assim, quatro parlamentares não o apoiaram e votaram em branco.

Políticos da base de apoio do governo Bolsonaro vêm argumentando que esta CPI será usada como palanque político para as eleições de 2022. Randolfe, porém, discorda, argumentando que ela não estará mais ativa no próximo ano. "E triste daquele que tentar fazer palanque sob a montanha de quase 400 mil mortos", completou.

Randolfe aproveitou para atacar a condução do governo federal do combate à pandemia: "Se tem alguém que politizou a pandemia desde o início foi o governo de Jair Bolsonaro".

Ao final da entrevista, o senador defendeu a CPI mais uma vez e aproveitou para alfinetar o colega Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, que ao defender que a comissão não deveria ser instalada, argumentou que era importante manter o isolamento social.

"Aliás, acho que a CPI já trouxe uma grande conquista, vi meu colega Flávio Bolsonaro defendendo isolamento social, defendendo pras pessoas ficarem em casa. Que bom, uma conversão do senador Flávio Bolsonaro à ciência".

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Entenda como Beckett e seus personagens em situações-limite sintetizam a era Covid

Dramaturgo irlandês criou protagonistas confinados e histórias que não se concluem, que dialogam com momento atual

São Paulo

“O ar fica repleto de nossos gritos, mas o hábito é uma grande surdina”, escreve Samuel Beckett, em sua famosa peça "Esperando Godot". O dramaturgo irlandês evoca ali uma dinâmica que atravessa vários eventos traumáticos, e que parece se repetir durante esse ano pandêmico.

"De certo modo, essa experiência da pandemia mostra para nós que estamos num contexto catastrófico, mas que acabamos nos habituando a isso para não ouvir esse gritos", diz Mario Sagayama, autor de "Ele Fala de Si como de um Outro", livro sobre o dramaturgo.

Mas não é só esse trecho, e nem só essa peça, que mobiliza processos que parecem comuns aos que passam por essa crise sanitária. Com seus vários personagens confinados, histórias que nunca se concluem e montagens feitas para a televisão, Beckett parece sintetizar a pandemia no teatro.

boca sozinha no escuro
Cena de 'Not I', monólogo de Samuel Beckett protagonizado por uma boca (da atriz Billie Whitelaw), filmado pela BBC em 1977; na década de 1980, o próprio dramaturgo dirigiu suas peças para apresentações em canal alemão - Museu de Arte Contemporânea de Barcelona/Reprodução

"Boa parte da recepção de Beckett é atravessada por essa justaposição a catástrofes", afirma Sagayama, que também estudou a obra do dramaturgo em seu mestrado na Universidade de São Paulo.

Muitas de suas obras, inclusive, foram montadas em contextos trágicos —Susan Sontag apresentou "Esperando Godot" em Sarajevo durante a guerra da Bósnia, obra que também foi montada em áreas atingidas pelo furacão Katrina, nos Estados Unidos, e outras peças do diretor foram encenadas em prisões americanas e francesas.

"Leram muito a obra dele como se fosse uma representação alegórica do que se passou na Segunda Guerra Mundial. Isso, em geral, pode ser problemático, porque não é uma alegoria o que acontece ali. Mas como ele põe personagens em situações-limite, suas peças acabam sendo um terreno fértil para essas leituras", afirma o pesquisador.

Diretores se voltaram para obras do irlandês em peças online durante a pandemia no Brasil. Renato Borghi apresentou, de casa, peça que mostra uma dupla isolada no fim do mundo. Em entrevista, Gerald Thomas afirmou que voltará aos textos de Beckett, e que "não há ninguém melhor do que ele para falar dessa reclusão e da catástrofe da morte".

É o caso também do diretor Fábio Ferreira, que apresentou virtualmente "Vozes do Silêncio", trabalho com três monólogos de mulheres encenados pela atriz Carolina Virgüez. Ele lembra que, de maneira geral, Beckett trabalha com a aporia —situações em que necessariamente as coisas não se concluem. "A ideia é deixar vazios. Essa premissa dele acaba captando e se enquadrando em situações muito extremas da humanidade", diz.

Em "Fim de Partida", por exemplo, um dos quatro personagens que estão confinados num bunker narra a seu parceiro cego o que vê fora dali por uma espécie de escotilha. Depois de passar um tempo vendo nada, ele diz que avistou uma criança. Seu perceiro responde "que terror". "Ou seja, sobreviveremos e isso vai continuar", diz o diretor.

Ferreira lembra ainda o fato de que várias cenografias de Beckett, assim como em "Fim de Partida", são espaços de exceção e de confinamento. "A pandemia é uma situação beckettiana. Parece que a gente se tranca dentro de um bunker e tudo no entorno, a natureza e as realizações humanas, é relativizado."

As três peças curtas apresentadas em "Vozes do Silêncio" já estavam sendo trabalhadas pela equipe antes da pandemia. Segundo a atriz Carolina Virgüez, essa narrativa fragmentada ganhou mais uma camada com a pandemia, principalmente pela constante falha da comunicação humana nas obras do dramaturgo.

"Esse texto sempre foi muito vigente por conta dessa incomunicabilidade que Beckett traz, e essa pergunta constante em relação a nossa existência agora ganha um relevo muito maior porque nós estamos em espaços de confinamento", diz. "Estamos numa situação de imobilidade. O pensamento sai desordenado porque ele perdeu, de alguma maneira, as âncoras e as estruturas."

Luiz Fernando Ramos, professor do departamento de artes cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, discorda, no entanto, que essa aproximação de Beckett com a pandemia se dê pelos assuntos tratados em sua obra, como a ideia de solidão, confinamento e de espera dos personagens. "Acho que ele é pertinente em qualquer circunstancia", afirma.

Ramos lembra, em todo caso, uma experiência do diretor com peças montadas para um canal alemão de televisão nos anos 1980 que pode dialogar com a discussão sobre o teatro virtual nesse último ano. "Uma questão que supostamente é crucial no teatro é a presença, a simultaneidade entre quem apresenta e quem a vê, e os riscos dessa simultaneidade —que, em último caso, alguém pode morrer", ele diz.

Canais como a BBC já montavam algumas peças do dramaturgo, mas, na TV alemã, foi a primeira vez que o próprio Beckett dirigiu as montagens, como as de "Not I", "Quad" e "What Where". Com isso, defende Ramos, ele mostra que é possível construir uma linguagem cênica por meio da televisão, até um tanto independente dessa premissa da simultaneidade entre diretor e público —possibilidade que atravessou todo o teatro durante a pandemia.

"Beckett resolve experimentar essa linguagem, é como mais um passo. Ele já tinha ido da literatura para o teatro, já tinha esgotado o teatro, a e televisão apareceu como uma oportunidade", diz. "Elas são o registro mais fiel desse último teatro do Beckett totalmente autoral. É uma espécie de testemunho a que podemos assistir com o mesmo frescor."

O dramaturgo, segundo Ramos, chamava a experiência de "peephole", uma arte vista como quem a olha através de um olho mágico. Mas é também um jogo com a ideia de uma arte que é das pessoas ("people") e popular, diz o professor.

O diretor Fábio Ferreira lembra ainda uma cena de um dos textos tardios de Beckett que, segundo ele, sintetizam as angústias e disputas do nosso tempo. Em "O Despovoador", criaturas vivem dentro de um tubo de ensaio numa narrativa distópica, e todas tentam escapar por escadas, como numa recriação do inferno dantesco.

"É um pouco a situação que vejo hoje na pandemia", diz Ferreira. "Todos querendo subir pequenas escadas —uns querendo passar por cima dos outros, outros aguardando de forma mais disciplinada."

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CPI da Covid pode desgastar governo mas não deve levar a impeachment de Bolsonaro, diz cientista político da USP

Jair Bolsonaro discursa na Cúpula do Clima - Reprodução/YouTube
Jair Bolsonaro discursa na Cúpula do Clima Imagem: Reprodução/YouTube

27/04/2021 15h58

A CPI da Covid instalada nesta terça-feira (27) pelo Senado para investigar a gestão da pandemia da Covid-19 pelo governo federal tem potencial para abalar a imagem de Jair Bolsonaro e de seu governo. No entanto, o calendário político e a base de apoiadores fiéis tornam pouco provável o avanço dos vários pedidos de impeachment contra o presidente, avalia o cientista social da USP, Glauco Peres da Silva.

Adotada a pedido do Supremo Tribunal Federal, a CPI da Covid deve oferecer à opinião pública um embate entre os senadores da oposição e independentes com os governistas, minoria na Comissão Parlamentar de Inquérito. A CPI da Covid terá 90 dias, prorrogáveis, para investigar principalmente as omissões do governo no combate à pandemia e repasses de recursos a estados e municípios.

Schelp: Primeira sessão de CPI sugere tempos difíceis pela frente para governo

Para Peres da Silva, o aspecto determinante desta CPI será a maneira como o bloco oposicionista vai conseguir lidar com as tentativas do executivo e da bancada de apoio ao presidente de barrar qualquer tipo de investigação. "A gente vai ver um debate tenso e principalmente muito público desses dois grupos dentro da CPI. Por um lado o governo tentando segurar e por outro, principalmente os (senadores) da oposição tentando de alguma forma levantar evidências que possam incriminar ou indicar um crime de responsabilidade do presidente", prevê o cientista social.

A Comissão será presidida por Omar Aziz (PSD-AM) e terá Renan Calheiros (MDB-AL) como relator. Mesmo antes da confirmação dos membros que vão conduzir os trabalhos, a movimentação política já era sentida como "um golpe" pelo executivo, segundo o professor. Apesar de se mostrar na defensiva, o governo também já colocou em campo sua estratégia.

"O executivo está tentando se blindar e tem peças-chave em várias posições, como na Procuradoria-Geral e na Polícia Federal, tentando de alguma maneira contar com esses aliados para tentar impedir que uma investigação como essa possa levar a um prejuízo maior. Dentro da CPI vai haver muito barulho e muito levantamento de informação que deve ser negativa para o presidente", avalia.

"A expectativa é de saber se o trabalho vai ser bem feito, se vai poder levantar informações e criar o ambiente que a oposição deseja, de contestação do executivo", acrescenta.

CPI e impeachment

A CPI da Covid e seus resultados podem interferir na análise de pedidos de impeachment que se acumulam na Câmara dos Deputados, mas o calendário político é favorável ao presidente, afirma o analista da USP.

"Estamos no final de abril, início de maio. Daqui a pouco mais de um ano estaremos às vésperas da eleição. O que provavelmente vai acabar acontecendo é que não haverá tempo hábil para que se investigue e dê prosseguimento a uma apuração para um impeachment. Esse é o cenário mais provável. A não ser que a popularidade do presidente caia a níveis muito baixos, o que tem sido difícil. Ele tem mantido um 'colchão' relativamente estável de 20% de aprovação de seus eleitores mais fiéis", calcula.

Para Peres da Silva, não resta dúvidas que diante da gestão polêmica da pandemia, as investigações dos senadores deverão provocar um "desgaste grande do executivo" e seu impacto será mais provável na eleição presidencial do ano que vem. No entanto, a configuração política dependerá ainda da disputa de narrativas para os eleitores.

"A estratégia do presidente é a de disputar interpretações sobre as coisas, menos os fatos em si. Como o discurso dele contra a corrupção em meio a denúncias de rachadinhas. O que importa é desmoralizar quem fala. A questão é quais as evidências serão trazidas para que elas possam ser contundentes o suficiente para impedir que esse discurso prevaleça junto a parcela de seu eleitorado", diz.

O cientista social mantém um certo ceticismo sobre eventuais mudanças de Bolsonaro em sua política sanitária e de combate à pandemia a partir das investigações e conclusões da CPI da Covid.

"A gente não sabe o que mais tem que acontecer para que o governo federal decida se mexer, ou fazer diferente do que vem sendo feito, para além de ficar dizendo que a culpa é dos governadores e dos prefeitos. A presença do Lula foi um fator e a CPI pode ser um segundo fator que provoque no Executivo uma mudança de postura, que estava muito confortável e a oposição com pouco espaço. A CPI pode ter um peso suficiente e vai depender da condução e da divulgação pelos seus membros, se eles foram coordenados, coesos e fizeram um trabalho adequado. Mas se atuarem de maneira separada e independente, não será mais a CPI falando, serão os membros, e aí ficaria mais difícil", conclui.

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Excesso de confiança e nova variante fazem pandemia escapar ao controle na Índia

Foto aérea desta segunda-feira mostra famílias e amigos se despedindo de uma vítima de covid-19 em um crematório de Nova Délhi. Em vídeo, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, pede ajuda urgente para a Índia.
Foto aérea desta segunda-feira mostra famílias e amigos se despedindo de uma vítima de covid-19 em um crematório de Nova Délhi. Em vídeo, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, pede ajuda urgente para a Índia.JEWEL SAMAD / AFP

A pandemia está fora de controle na Índia. O subcontinente vem há dias superando repetidamente o recorde mundial de contágios diários (352.991 na segunda-feira); os hospitais, especialmente os da capital, Nova Délhi, chegaram ao limite da sua capacidade, sem oxigênio suficiente para todos os pacientes necessitados, e o céu de algumas grandes cidades se encheu de fumaça por causa da cremação maciça de mortos pela covid-19. Além da situação crítica, os especialistas observam com preocupação uma variante que circula no país, com uma dupla mutação que torna o vírus potencialmente mais infeccioso e resistente às vacinas, algo que terá que continuar sendo estudado.

O segundo país mais populoso do mundo (1,37 bilhão de habitantes, 6,5 vezes o tamanho da população brasileira) passou praticamente incólume pela pandemia até o começo do segundo semestre de 2020, quando enfrentou uma primeira onda que atingiu seu pico em setembro, voltando a um novo mínimo em fevereiro deste ano. Quando algumas autoridades e cientistas do país consideravam que a crise sanitária estava controlada, uma nova onda começou a crescer, primeiro num ritmo suave, e depois descontroladamente. Na semana passada, a Índia somou 1,6 milhão de novos casos, e a incidência acumulada é de 274 infecções por 100.000 habitantes nos últimos 14 dias, segundo o My World in Data, um site da Universidade de Oxford que reúne dados sobre diversos assuntos. A última cifra de óbitos voltou a bater um recorde no país: 2.336 no domingo. E a tendência em todos os indicadores é crescente.

Os motivos que levaram a Índia a esse ponto, depois de ter enfrentado com relativo sucesso a primeira onda de infecções, são variados. Por um lado, muitos apontam uma falsa sensação de normalidade que levou a um relaxamento das restrições. “Estávamos em estado de negação. A nação está perdida”, afirma, de Mumbai, Swati Rane, enfermeira que trabalha em uma UTI.

“Fomos muito otimistas e baixamos a guarda”, concorda Lancelot Pinto, epidemiologista do Hospital Nacional Hinduja, na mesma cidade. “Se observamos os dados de janeiro, parecia que a covid-19 tinha desaparecido das nossas vidas. As aglomerações começaram de novo, tudo reabriu. Isso contribuiu em grande medida para a propagação do vírus”, observa.

“O segundo fator é que esta nova variante do vírus parece muito mais contagiosa”, prossegue o médico. Por enquanto essa é apenas uma hipótese muito plausível, baseada nas evidências disponíveis, mas ele estima que, enquanto na primeira onda cada indivíduo positivo contaminava cinco contatos próximos, agora essa proporção disparou: “Vemos famílias inteiras contagiadas”, aponta. Além disso, o epidemiologista ressalta as falhas das pesquisas científicas que sugeriam que o país estava relativamente próximo da imunidade coletiva depois da primeira onda, pois cerca de metade da população adulta das principais cidades já teria sido contaminada. “Estes estudos não prestavam atenção às diferenças de prevalência entre as favelas e os bairros mais desenvolvidos, onde quase não houve contágios, e que agora representam ao redor de 80% a 90% das infecções que chegam ao hospital.”

O médico alerta para outra causa: o colossal desafio da vacinação em um país como a Índia, “que não transcorre no ritmo desejado”. E a enfermeira acrescenta que, como se fosse pouco, “agora tem gente que vai se vacinar e se contagia na espera”. “O sistema sanitário indiano é um caos”, resume Rane. Cerca de 10% da população recebeu pelo menos uma dose da vacina, o que significa que ainda há mais de um bilhão de pessoas sem imunização.

Suspeitos de estarem infectados pelo coronavírus esperam para ser atendidos em Mumbai.
Suspeitos de estarem infectados pelo coronavírus esperam para ser atendidos em Mumbai.

Cientistas de todo o mundo observam com atenção a evolução do vírus na Índia e as características desta nova variante. Sua peculiaridade, explica Antonio López Guerrero, virologista e professor de Microbiologia no departamento de Biologia Molecular da Universidade Autônoma de Madri, é que ele combina duas mutações. “Parecem conferir ao vírus mais capacidade de transmissão e, talvez, resistência à imunização, seja natural ou mediante vacinação”, afirma. Isto é, em suas palavras, “preocupante, como todas as variantes”. “Alarmante? O suficiente para tentar que não se espalhe pela Europa, como já se viu na Alemanha, Reino Unido e alguns outros países”, comenta.

Opinião semelhante expressa Marcos López Hoyos, presidente da Sociedade Espanhola de Imunologia: “As vacinas podem perder certa percentagem de efetividade, mas não toda. A questão é que, por quanto mais tempo o vírus circular e quanto mais infecções houver, mais chances há de surgirem mutações que causem problemas”.

Fernando Simón, principal autoridade espanhola para o combate à pandemia, disse na segunda-feira que a principal preocupação envolvendo a Índia é o volume de infectados, e não tanto a variante, que, segundo ele, não demonstrou por enquanto ser mais contagiosa nem mais virulenta. Vários países europeus ―incluindo França, Países Baixos e Reino Unido ―já estão impondo restrições a passageiros procedentes do país, para evitar a entrada dessa variante.

Situação “angustiante”

Lancelot Pinto conta por telefone, durante um de seus escassos momentos de descanso, que a situação no hospital onde ele trabalha em Mumbai é “angustiante”, mas sem chegar ainda aos caóticos níveis vistos em Nova Délhi ou outras partes do país. “Está sendo estressante encontrar leitos para os pacientes, muitos tiveram que ser atendidos em casa”, observa. A enfermeira Rane é ainda mais pessimista. “O ano de 2020 foi caótico porque era algo novo, mas agora a situação está fora de controle. Nunca havia visto pacientes morrendo por falta de oxigênio. Ou pacientes levados para casa porque não há leitos nos hospitais”, lamenta, também de Mumbai, onde atualmente dirige uma consultoria de saúde.

Fila para vacinação em Mumbai.
Fila para vacinação em Mumbai. DIVYAKANT SOLANKI / EFE

Pinto diz que o cenário em sua cidade é relativamente “afortunado” em comparação a outras partes do país. “Há zonas onde é extremamente difícil ser internado porque não há leitos hospitalares. Advertiram-nos de que o suprimento de oxigênio pode se tornar um problema também aqui, e estamos tentando racionalizá-lo, mudar para concentradores de oxigênio… Estamos sendo muito precavidos”, acrescenta.

O Ministério da Saúde indiano pediu na segunda-feira aos governos estaduais que adotem um toque de recolher e fechem shoppings e outros estabelecimentos, além de restringir em 50% a ocupação dos escritórios, entre outras medidas para conter o vírus. “Os encontros sociais, de caráter político, esportivo, acadêmico, cultural e religioso, entre outras aglomerações, devem ser proibidos. Os casamentos devem contar com um máximo de 50 pessoas, e os funerais estão limitados a 20 participantes”, advertiu o ministério, pedindo que as medidas durem pelo menos 14 dias, conforme publica o jornal The Hindu.

O primeiro-ministro Narendra Modi pediu a todos os cidadãos que se vacinem e tomem precauções, mas foi muito criticado pela reação considerada tardia e por promover grandes comícios políticos sem respeitar as medidas de distanciamento, apesar dos crescentes contágios. A realização de uma eleição na segunda-feira que vem no Estado de Bengala Ocidental, mobilizando um eleitorado de 8,6 milhões de pessoas, também foi alvo de duras críticas.

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100 dias de Biden, uma profunda mudança de rumo nos Estados Unidos

O presidente Joe Biden ao final de uma entrevista coletiva na Casa Branca. Em vídeo, análise dos 100 dias de mandato de Biden.
O presidente Joe Biden ao final de uma entrevista coletiva na Casa Branca. Em vídeo, análise dos 100 dias de mandato de Biden.STEFANI REYNOLDS / POOL / EFE

Apenas 100 dias de Joe Biden na Casa Branca bastaram para comprovar a profunda guinada nos Estados Unidos. O presidente da grande potência quis deixar claro desde o início a diferença abissal em relação ao seu antecessor, Donald Trump. No aspecto econômico; em política externa; nos assuntos sociais e nas políticas migratórias ―embora neste caso tenha tido que recuar de suas ambiciosas promessas. Também, ou talvez acima de tudo, pela forma como encarou a pandemia: os Estados Unidos colocaram a vacinação maciça como a principal meta da sua agenda nos seus 100 dias primeiros como presidente. E cumpriu com sobras.

Uma vacinação maciça

Desde o primeiro dia, tudo precisava estar condicionado a frear a pandemia e suas consequências. Para reativar a economia, em queda livre e com os piores índices desde a Grande Depressão da década de 1930, era preciso a todo custo frear os contágios e mortes. A poucos dias de completar, nesta quinta-feira, uma centena de jornadas no comando de um país que havia fracassado na contenção do vírus e soma atualmente mais de 570.000 mortes, o presidente dos Estados Unidos anunciou que já foram administradas 200 milhões de doses de vacinas contra a covid-19. Neste momento, 27% da população está completamente vacinada, o que se traduz em algo mais de 90 milhões de pessoas (de uma população total próxima de 330 milhões).

Biden superou seus objetivos em relação à vacinação, pois nenhum dos prazos anunciados foi descumprido. Logo que assumiu, o mandatário disse que haveria 100 milhões de pessoas vacinadas em seus primeiros 100 dias na Casa Branca, e esse marco se deu no 58º dia de mandato. “Quando cheguei ao poder, apenas 8% da população estava vacinada”, disse o presidente ao informar na quarta-feira, 21 de abril, que 200 milhões de pessoas já haviam sido inoculadas. Era o 93º dia de sua presidência, e Biden observava que mais de 50% dos moradores adultos dos Estados Unidos tinham recebido pelo menos a primeira dose de alguma das três vacinas disponíveis no país. No começo deste mês, a Casa Branca comunicava que a partir do dia 19 abriria a vacinação a todos os adultos do país, o que, novamente, representava uma antecipação de duas semanas sobre o prazo de 1º de maio anunciado anteriormente por sua Administração. Ainda assim, e, apesar da boa notícia, o mandatário quis apelar à prudência ao declarar que os Estados Unidos continuam “numa carreira de vida ou morte contra o vírus”.

Uma mulher recebe sua segunda dose da vacina Moderna na clínica ambulante de vacinação contra covid-19 em Connecticut.
Uma mulher recebe sua segunda dose da vacina Moderna na clínica ambulante de vacinação contra covid-19 em Connecticut. JOSEPH PREZIOSO / AFP

A última medida do mandatário para estimular a população a se vacinar foi um crédito fiscal para cobrir gastos com horas não trabalhadas por causa da vacinação dos funcionários de empresas com até 500 assalariados. “Nenhum trabalhador dos Estados Unidos deveria perder um só dólar do seu salário para ter tempo de se vacinar ou se recuperar da doença”, afirmou Biden. Como o democrata conseguiu essas cifras? Recorrendo, segundo suas palavras, a uma tática de colaboração entre empresas semelhante à que se viveu “na II Guerra Mundial”, comparou Biden. Porém, a ideia de ressuscitar uma lei de períodos bélicos para frear os contágios e mortes por covid-19 não surgiu com Biden. O ex-presidente Donald Trump conseguiu fabricar os primeiros lotes de vacinas com a ajuda da Lei de Defesa da Produção, uma norma que datava da Guerra da Coreia (1950) e que confere ao presidente dos Estados Unidos o poder de obrigar as empresas a aceitarem e priorizarem contratos necessários para preservar a segurança nacional.

A pandemia levou o Governo Trump a invocá-la, tanto para acelerar a produção de máscaras como para poder depois assegurar certos suprimentos para a produção da vacina. A receita do sucesso de Biden foi que o presidente reforçou as ajudas aos Estados, multiplicou os centros de vacinação federais e apostou numa rede de farmácias de proximidade. Essa foi uma das chaves do triunfo: que as vacinas estejam disponíveis em muitos lugares, seja um campo de beisebol ou em grandes descampados onde não é preciso nem descer do carro para receber a injeção. A produção e a distribuição foram decisivas e são as responsáveis, em grande medida, por esses resultados. Algo que o Governo Trump não conseguiu, por ter deixado o plano a cargo de cada Estado. Biden, ao contrário, assumiu as rédeas a partir de Washington para garantir que a vacinação fosse realmente maciça e se centrou na compra de suficientes doses não só para centros de atendimento médico, os primeiros a receberem as vacinas, mas também para que chegassem o quanto antes a toda a população, nos lugares menos esperados e sem parar por causa de feriados. “Se fizermos isto juntos, até 4 de julho é possível que você, sua família e amigos possam se reunir no quintal ou no bairro para organizar um almoço ou um churrasco e comemorar o Dia da Independência.” Esse é o objetivo máximo de Biden.

Ambição para superar a pandemia e modernizar o país

A ambição dos planos de estímulo e reconstrução, sem precedentes desde o New Deal de Franklin Roosevelt, definiu o programa econômico de Joe Biden nos primeiros 100 dias de seu mandato, mas seus objetivos vão além. É o que demonstra sua proposta de reforma fiscal, para exigir uma prestação de contas de multinacionais ―incluídas as grandes tecnológicas―, que durante anos esquivaram o pagamento de impostos federais e para obter financiamento para seus programas. Depois de sua declaração de intenções ―o plano de resgate da pandemia, de 1,9 trilhão de dólares (equivalente ao PIB do Brasil), aprovado pelo Congresso em março―, a Administração democrata se dispõe a modernizar os EUA mediante um colossal plano de infraestruturas, com investimentos de dois trilhões de dólares em oito anos para gerar milhões de empregos. A reforma fiscal será, se aprovada no Congresso, o instrumento para isso. O objetivo maior da sua política é combater pela raiz males como a pobreza infantil e, acima de tudo, uma desigualdade social sistêmica; os dois planos (o resgate e o programa de infraestrutura) incluem numerosas iniciativas a esse respeito. A principal diferença entre ambos está no financiamento: o primeiro fica a cargo do orçamento federal, o que aumentará o endividamento; o segundo depende dos contribuintes.

Joe Biden após anunciar que os Estados Unidos distribuíram 200 milhões de doses da vacina, em 21 de abril de 2021, em Washington.
Joe Biden após anunciar que os Estados Unidos distribuíram 200 milhões de doses da vacina, em 21 de abril de 2021, em Washington. ALEX WONG / AFP

Mediante a projetada reforma fiscal, que pretende elevar o imposto empresarial de 21% para 28%, o presidente não só aspira a arrecadar 2,5 trilhões de dólares nos próximos 15 anos para financiar seu exaustivo programa de reconstrução; ele quer mudar as regras do jogo. Esse propósito precisará ser visto com o Congresso, e não só os republicanos. “Os [democratas] moderados propõem uma menor elevação do imposto empresarial, para 25%”, aponta Jack Janasiewicz, da administradora de recursos Natixis.

Quando chegou à Casa Branca, ainda não se via a luz ao final do túnel da pandemia. Por isso, como prometeu em campanha, a primeira medida foi o plano de 1,9 trilhão de dólares como injeção econômica direta, a metade em forma de cheques em dinheiro para famílias e negócios afetados pela emergência, e o resto para ampliar a cobertura dos desempregados. O plano incluía uma verba de 400 bilhões (2,19 trilhões de reais) para incentivar a vacinação. A julgar pelos resultados (25% da população está imunizada), o objetivo se cumpriu. Pelo caminho da tramitação parlamentar ficou, entretanto, a promessa eleitoral de aumentar o salário mínimo federal para 15 dólares por hora.

O plano de infraestrutura aspira a reforçar o país frente ao avanço da mudança climática; de fato, a proposta do primeiro orçamento federal da Administração democrata prioriza a luta contra o aquecimento global. “Biden está preparando uma ordem executiva para insistir com as agências federais para que tomem medidas de combate aos riscos financeiros relacionados ao clima, incluindo medidas que poderiam impor uma nova regulação às empresas”, antecipa Janasiewicz. O principal temor é um repique da inflação, que, até agora, graças à intervenção do Federal Reserve (banco central), ficou sob controle. “O déficit subirá para 3,5 trilhões de dólares, uma cifra recorde, e esperamos que o crescimento do PIB possa superar 7% neste ano [6,5%, segundo o Fed]; isto só aconteceu três vezes nos últimos 70 anos. Agora cresceram as probabilidades de um período de inflação acima da meta do banco central”, apontavam recentemente em nota Libby Cantrill e Tiffany Wilding, da firma de investimentos Pimco, ressalvando que “a probabilidade de um processo inflacionário similar ao ocorrido na década de 1970 continua sendo relativamente baixa”.

Reabertura ao mundo, com a China na mira

A reabertura dos EUA ao mundo após quatro anos de isolamento percorreu várias estações nestes 100 primeiros dias do mandato de Joe Biden, com uma clara aposta no multilateralismo. As sanções à Rússia por sua ingerência eleitoral e um ataque cibernético maciço; a retirada definitiva das tropas do Afeganistão e o diálogo para reavivar o pacto nuclear com o Irã, que os EUA abandonaram em 2018, marcaram este período de graça, tanto como o fiasco da primeira reunião bilateral com a China. Além disso, Biden procurou na recente cúpula climática internacional recuperar a liderança para os EUA com um ambicioso plano de redução de emissões. Trata-se de uma guinada importante na política adotada pelo país nos últimos anos e implicará uma profunda transformação econômica desta potência.

Rússia, Afeganistão e Irã monopolizam os holofotes, enquanto a forja de velhas e novas alianças para rebater a pujança chinesa é a parte menos visível do iceberg diplomático. O fato de Yoshihide Suga, primeiro-ministro do Japão, ter protagonizado na semana passada a primeira visita oficial a Biden na Casa Branca indica qual é o objetivo primordial da sua política externa: frear a China e todos os seus desafios, tanto dentro do seu território (a repressão da minoria muçulmana aos uigures em Xinjiang) como no mar do Sul da China ou em seu apoio ao regime nuclear da Coreia do Norte, para não falar de suas ingerências em Hong Kong, Taiwan e Tibete. A primeira viagem oficial dos secretários de Estado e Defesa foi ao Japão, Coreia do Sul ―dois países onde os EUA mantêm tropas― e Índia, outro aliado crucial para domar a voracidade estratégica chinesa.

Um soldado do Exército afegão no distrito de Haska Meyna, na província de Nangarhar, em 14 de abril de 2021.
Um soldado do Exército afegão no distrito de Haska Meyna, na província de Nangarhar, em 14 de abril de 2021. GHULAMULLAH HABIBI / EFE

Apesar de ter devolvido a diplomacia ao cenário internacional, Biden não se privou de dar alguns murros na mesa, como ao anunciar as sanções mais duras contra o Kremlin desde a presidência de Barack Obama, fechando o parênteses de suposta cumplicidade ou negligência por parte de Trump, e a denúncia da implicação do poderoso príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman, no assassinato do jornalista crítico Jamal Khashoggi. Este último foi um movimento decepcionante para quem esperava medidas mais duras, inclusive sanções, mas soou como um aviso a um aliado tradicional, vital no equilíbrio regional do Oriente Médio. Apontar o dedo para o herdeiro foi a segunda advertência a Riad depois da retirada do apoio ao regime saudita na guerra do Iêmen, que o presidente democrata qualificou de “catástrofe humanitária e estratégica”.

A sombra da síndrome do Vietnã é alongada, e Biden começou seu mandato pondo limites a guerras sem fim como a do Iêmen, a da Síria ―parte do legado de Barack Obama― e a mais prolongada de todas, a do Afeganistão, quando se aproxima o vigésimo aniversário dos atentados do 11 de Setembro, origem da chamada “guerra ao terrorismo” declarada por George W. Bush. A permanência das tropas norte-americanas no país do Oriente Médio tinha chegado anos atrás a um beco sem saída, que as ações letais do Talibã e a dificuldade de levar adiante o diálogo com Cabul só contribuem para ressaltar. Sair do atoleiro afegão é um alívio para um país que continua recebendo corpos de soldados em sacos plásticos.

Apesar do que prometeu em campanha, Biden não retirará as tropas da Europa, e menos ainda em pleno reaquecimento da tensão na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia. Biden paralisou a retirada militar da Alemanha anunciada por Trump e vigia qualquer movimento no flanco oriental europeu, que representaria uma ameaça tanto para seus efetivos como para a linha de defesa da OTAN. A nova Guerra Fria com Moscou dominará as relações euro-atlânticas, junto com a declaração de boas intenções à União Europeia, pendente de se concretizar. Em outra mudança na política externa, o democrata reconheceu pela primeira vez neste sábado como “genocídio” a matança de armênios por parte do império turco, uma declaração que eleva a tensão com a Turquia, país que também é sócio da aliança atlântica.

Com exceção do México e do chamado Triângulo Norte (El Salvador, Honduras e Guatemala), para frear a saída de imigrantes irregulares, Biden não prestou atenção à América Latina.

Reviravolta nas políticas sociais

Antes de completar uma semana na Casa Branca, Joe Biden assinou uma ordem que proíbe a expulsão de qualquer membro do Exército por causa da sua identidade de gênero, levantando o veto imposto pelo ex-presidente Trump às pessoas transgênero. O decreto estabelece também que os departamentos de Defesa e de Segurança Nacional devem revisar os históricos de serviço dos militares que foram demitidos ou que tiveram sua reincorporação vetada por este motivo. O democrata se tornou o primeiro presidente a comemorar o Dia da Visibilidade das Pessoas Transgênero, celebrado desde 2009. O mandatário está pressionando para que o Senado aprove a Lei de Igualdade, que modifica a Lei de Direitos Civis de 1964 para incluir a proteção contra discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, junto com os casos motivados por raça, religião, sexo e origem nacional. Essas proteções se estenderiam a questões de emprego, moradia, educação, solicitação de crédito, entre outras áreas em que o coletivo costuma sofrer discriminações.

Participante da marcha do orgulho gay em 25 de junho de 2020.
Participante da marcha do orgulho gay em 25 de junho de 2020. LUCAS JACKSON / REUTERS

Os republicanos se opõem, entre outras razões, por medo de que isso obrigue pessoas religiosas a tomarem decisões que contrariem suas crenças, como a contratação em escolas privadas de pessoas cuja conduta viole seus princípios de fé. Para que o projeto se transforme em lei, deve obter 60 votos no Senado, que está dividido em metades iguais (50/50). Quanto ao direito ao aborto, a Administração de Biden também trabalha para reverter as decisões de seu antecessor. O democrata já revogou a medida que proibia ONGs e prestadores de serviços de saúde no exterior de utilizarem recursos do Governo norte-americano para prestar assessoria sobre aborto. Trump também proibiu que clínicas de planejamento familiar financiadas com recursos federais encaminhem suas pacientes para clínicas de aborto e cortou o orçamento destes centros, que atendem a mulheres de baixa renda. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS, na sigla em inglês) elaborou uma proposta para revogar esta última medida, que está em fase de discussão pública.

Em outra frente relevante, a agenda contra o racismo, Biden assinou quatro ordens executivas. Uma delas obriga o Departamento de Moradia e Desenvolvimento Urbano a tomar as medidas necessárias para “reparar as políticas federais racialmente discriminatórias que contribuíram para a desigualdade da riqueza durante gerações”. Outro decreto elimina os contratos do Departamento de Justiça com as prisões privadas. Os Estados Unidos são o país com maior população carcerária do mundo, composta desproporcionalmente por negros e latinos. As duas ordens restantes procuram combater a xenofobia contra os norte-americanos de ascendência asiática e aumentar a soberania das tribos nativas americanas.

Embora esteja em fase preliminar, o Governo democrata também quer reformar as normas sobre o assédio sexual em escolas. Biden assinou uma ordem executiva para que o Departamento de Educação revise as regras estabelecidas pelo Governo Trump, redefinindo o assédio sexual como uma gama limitada de ações “severas, generalizadas e objetivamente ofensivas”. O democrata afirmou que o Departamento de Educação deve “considerar suspender, revisar ou rescindir” qualquer política que não proteja os estudantes. Esse órgão prevê ―ainda sem data― convocar uma audiência pública para que estudantes, pais e profissionais da educação deem suas ideias antes que a Administração divulgue sua proposta sobre como colégios e universidades que recebem recursos públicos devem responder às acusações de agressão e assédio sexual.

Biden, além disso, criou o Conselho de Políticas de Gênero da Casa Branca, um organismo que coordenará os esforços do Governo para promover a equidade e igualdade de gênero mediante políticas e programas de combate aos preconceitos e à discriminação, e aumentar a segurança e as oportunidades econômicas. Também proporcionará recomendações legislativas e de política ao mandatário.

Desafio migratório

imigração é, junto com a crise do coronavírus, um dos principais problemas deste começo de Governo Biden. Os especialistas consultados para esta reportagem concordam que o Governo democrata estabeleceu a direção correta neste tema, mas as mudanças para desmontar o perverso sistema herdado de Donald Trump não chegaram com a velocidade esperada. O modelo migratório da nova era é um assunto pendente e, como muito do legado trumpista, terá sua sorte decidida num Congresso dividido e polarizado. “Esta direção é apenas parte de uma visão que está em construção. A Administração encara opções muito difíceis, e resta ver quais caminhos pode tomar no clima político atual”, afirma Hiroshi Motomura, acadêmico da Escola de Direito de Universidade de Califórnia em Los Angeles (UCLA).

Biden desenhou o perfil de sua reforma imaginada com uma série de ações nas primeiras horas de seu mandato. Prometeu regularizar 11 milhões de imigrantes irregulares, revogou o veto de viagens a alguns países muçulmanos e recriou os programas que garantem proteção a mais de um milhão de pessoas entre os jovens que chegaram aos EUA na infância (os chamados dreamers) e os migrantes provenientes de países afetados pela mudança climática e a pobreza, incluindo cidadãos venezuelanos. Também pôs fim à desumana política de separação de famílias e de expulsão de menores migrantes.

Famílias de imigrantes chegam à comunidade de Roma, no Texas, em março de 2021.
Famílias de imigrantes chegam à comunidade de Roma, no Texas, em março de 2021. HECTOR GUERRERO

Câmara de Representantes, de maioria democrata, aprovou o plano de Biden. O Senado o tem em suas mãos, e seu aval é mais complexo. “Necessita 60 votos, e tem 50. Estamos esperando que passe, mas será preciso convencer 10 republicanos, e não será simples”, considera a advogada Alma Rosa Nieto, integrante da Associação de Advogados de Imigração. “Ainda estamos lutando com um partido republicano pró-Trump com muitos legisladores anti-imigrantes”, afirma. O senador Lindsey Graham, muito influente entre os republicanos, disse em março que não apoiará reforma migratória alguma “enquanto a fronteira [com o México] não estiver controlada”. É apenas um exemplo do duro pedágio que aguarda a Administração democrata, à espera também de que a Câmara Alta aprove uma série de nomeações que renovarão a cúpula de Segurança Doméstica e da vigilância de fronteiras com perfis progressistas de ativistas e policiais.

Washington nega que a atual situação configure uma crise. Os agentes da patrulha fronteiriça detiveram em março 172.331 migrantes. É um aumento de mais de 100.000 detenções desde janeiro, e o maior registrado desde março de 2001. Este aumento de entradas causa tensão em várias regiões fronteiriças. Bruno Lozano, prefeito de Del Río (Texas), uma cidade que viveu a chegada da onda, enviou em fevereiro passado um SOS a Biden. “Não temos recursos para acomodar estes migrantes em nossa comunidade”, disse o democrata, conhecido por ser o prefeito mais jovem (e abertamente gay) na história desta localidade de 35.000 habitantes. A mensagem se tornou viral e foi amplamente repercutida pelos setores mais conservadores, interessados em manter a ideia de que a fronteira está fora de controle.

Os analistas põem em perspectiva essas históricas cifras. “É falso dizer que as fronteiras estão abertas”, afirma Aaron Reichlin-Melnick, do Conselho Americano da Imigração. “Nos últimos três meses, quase 70% das pessoas que entraram foram expulsas rapidamente graças a uma norma implementada no ano passado por Trump durante a pandemia e que Biden manteve. Menos famílias estão sendo autorizadas a ficar em 2021 do que em 2019 com a Administração Trump”, acrescenta. Os adultos sozinhos continuam sendo o grupo mais numeroso de migrantes, embora o fenômeno dos menores desacompanhados tenha voltado a crescer até níveis inéditos. Em março foram 18.000, um número que superlotou os albergues do Governo, cuja manutenção custa pelo menos 60 milhões de dólares (328,6 milhões de reais) por semana ao Departamento de Saúde e Serviços Sociais.

Biden também manteve do Governo anterior o teto de 15.000 refugiados anuais autorizados a entrar nos Estados Unidos. A decisão causou alvoroço entre as bases democratas, que consideram rompida uma promessa de campanha de elevar os acolhidos a mais de 60.000. A polêmica forçou o Executivo a recuar. Deve anunciar medidas definitivas em maio, mas muitos concordam que foi uma oportunidade perdida para estabelecer um antes e um depois em relação a Trump, uma era que não acaba de desaparecer por completo.

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“A longo prazo, os danos neurológicos causados pela covid-19 serão os mais preocupantes”

Sonia Villapol em seu laboratório em Houston na semana passada.
Sonia Villapol em seu laboratório em Houston na semana passada.S. V.

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Sonia Villapol (Bretoña, Espanha, 43 anos) trabalha no Texas Medical Center de Houston, EUA, onde é pesquisadora principal e professora no Center for Neuroregeneration do Methodist Hospital Research Institute. Lá, essa neurocientista formada em Biologia Molecular e Biotecnologia tem seu laboratório concentrado em buscar novos tratamentos para os danos cerebrais e abrir as portas para terapias alternativas que recuperem o cérebro prejudicado e reduzam a resposta inflamatória e suas consequências para os demais órgãos.

Há um ano, faz parte da Equipe de Pesquisa Internacional de Covid-19 (COV-IRT) que analisa como o coronavírus afeta a cabeça.

Pergunta. Quando soube que o vírus afetaria nosso cérebro?

Resposta. Quando soube qual era a via de entrada do vírus nas células, através dos receptores de angiotensina. Esses receptores para a enzima conversora de angiotensina II (ECA2) são a via de ancoragem do vírus, por isso desde o começo soubemos que teria efeitos neurológicos.

P. O que são os receptores de angiotensina?

R. São os receptores do sistema mais importante na regulação da pressão arterial.

P. E neles o vírus se ancora.

R. Esse vírus tem umas espículas que se ligam a esses receptores ECA2 que estão nas células humanas, funcionando como uma chave. E há receptores em todas as partes de nosso corpo. Em todos os órgãos, em maior ou menor proporção: pulmões, intestinos, coração, cérebro. E nos neurônios também. É arrepiante pensar nisso. Foi um choque quando vimos que isso significaria um problema neurológico, como muitas doenças inflamatórias.

P. Se a carga viral é especialmente virulenta, não há órgão a salvo.

R. Todas as células do corpo são suscetíveis de ser danificadas. No cérebro nem tanto, porque os neurônios não têm muitos desses receptores.

P. Mas?

R. Essa doença é basicamente uma doença inflamatória e cardiovascular. As células dos vasos sanguíneos têm esses receptores de ancoragem. E é uma doença multissistêmica, porque afeta todos os órgãos, basicamente pela inflamação que é desencadeada. Há um ano não se sabia quase nada. Agora, trabalhamos na pesquisa da conexão cérebro-microbiota e cérebro-intestino, e descobrimos que a covid-19 tem um papel muito significativo, porque há mudanças da microbiota associadas à inflamação no início da doença. Tentamos identificar bactérias que possam ser preditoras da gravidade, que ajudem a prever como a covid-19 evoluirá a longo prazo.

P. O que são esses preditores?

R. A microbiota é nossa flora intestinal. São bactérias. Dependendo da diversidade de sua microbiota, você é mais saudável ou não. Está muito associada a doenças, inclusive com doenças do sistema nervoso. A covid-19 tem uma fase muito inflamatória que faz com que a microbiota mude e, dependendo das bactérias que sobrevivem ou não, podemos prever, mais ou menos, como a doença se desenvolverá.

P. A flora é um indicador de nossa saúde futura.

R. Exatamente. Com muitas doenças, existe uma relação direta. Por exemplo, fizemos um estudo sobre os jogadores de futebol americano. Não existem biomarcadores para as concussões cerebrais, e esses garotos levam pancadas durante toda a temporada, mas nos scanners cerebrais aparece tudo perfeito. O que fizemos foi identificar mudanças na microbiota depois de um golpe na cabeça.

P. E existem mudanças.

R. Existem. É possível associar quando há uma concussão ou uma lesão cerebral. Você pode não ver nada em um exame cerebral, não há biomarcadores no sangue ou eles não são suficientemente sensíveis, mas há mudanças na flora bacteriana.

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P. Os danos causados pelos golpes nessas pessoas podem ser previstos a partir das mudanças em sua microbiota.

R. Sim, pode ser um biomarcador da gravidade do dano. Podemos detectar em uma pessoa a inflamação nesse nível e realizar diferentes tipos de reabilitação. Por exemplo, para os jogadores de futebol americano, com esses danos contínuos, seria recomendável que descansassem até diminuir essa inflamação. Isso ou algum tipo de tratamento, como administrar um probiótico que possa substituir essa flora bacteriana que foi alterada.

P. Essa é a ideia no nível terapêutico, mas acima de tudo é um elemento para o diagnóstico.

R. Acaba de sair um estudo da Inglaterra em jogadores de rúgbi em que foram detectadas mudanças de RNA da saliva após uma contusão. Ainda assim, é muito difícil diagnosticar alguém que sofreu golpes repetidos na cabeça, principalmente praticando esportes de contato. Esses golpes na cabeça estão muito relacionados, sobretudo depois dos 50 anos, quando ex-jogadores têm episódios de depressão, ansiedade, cometem atos violentos, suicidam-se, desenvolvem Parkinson ou Alzheimer precoce... E isso se deve ao acúmulo de inflamação crônica que nunca é limpada do sistema nem detectada quando estão jogando. O cérebro parece normal porque não há bons marcadores dessas lesões cerebrais. Nosso trabalho é encontrá-los no intestino.

P. Qual é a conexão entre a microbiota e o cérebro?

R. Há várias vias. Nos intestinos, há cerca de 500 milhões de neurônios que formam o sistema nervoso entérico. Esses neurônios se conectam com o nervo vago, que por sua vez conecta os órgãos periféricos ao cérebro. Há uma conexão nervosa muito rápida; as alterações de inflamação na barriga ou nos intestinos vão diretamente para o sistema nervoso. Há outra via mais lenta, a dos metabólitos e neurotransmissores, substâncias que essas bactérias secretam no sangue e também enviam sinais ao cérebro.

P. Seu laboratório trabalha nisso.

R. É um dos nossos principais campos de trabalho. Há outros relacionados com as vacinas, ou com o que chamamos de drug delivery, entrega de medicamentos. As vacinas de RNA foram feitas com nanopartículas, e em nosso laboratório as utilizamos para proteger o cérebro e lhe administrar tratamentos anti-inflamatórios, protegê-lo desses danos e fazer com que se recupere mais rápido.

P. É um avanço.

R. O problema dos danos cerebrais é que os medicamentos não chegam aonde têm de chegar, porque não há bons vetores. Uma das vitórias deste ano pandêmico é que essas nanopartículas conseguem fazer com que as vacinas cheguem às células-alvo de forma eficaz e não haja rejeição pelo organismo. Com o que aprendemos com esses mecanismos de entrega de medicamentos por meio de nanopartículas, estamos realizando estudos para tratar o cérebro.

P. Que outros danos cerebrais o vírus pode causar durante e depois da doença?

R. No nível agudo, é uma bomba. É a chamada tempestade de citocinas, uma resposta inflamatória que depende de cada pessoa e pode ser brutal. No cérebro, danifica a capa que protege os neurônios. Não se sabe por que há tanta variabilidade e suscetibilidade em diferentes pessoas na resposta ao vírus e na gravidade da covid-19. Um dos trabalhos que acabo de publicar com pesquisadoras da Suécia, de Nova York, do México, de Boston e de Atlanta enumera mais de 50 efeitos da covid-19 persistentes a longo prazo, meses depois que a pessoa se recupera da doença em sua fase aguda.

P. Neurológicos.

R. Não todos, mas a grande maioria. O mais importante é a fadiga crônica, que afeta até 60% dos que demoram para se recuperar da covid-19, mas no nível neurológico sabemos que há dor de cabeça, anosmia, distúrbios de atenção ou perda de memória, curiosamente.

P. Curiosamente?

R. Digo curiosamente porque em pessoas idosas com demência ou Alzheimer que sobreviveram à covid-19, acelerou-se muito a demência ou o Alzheimer. E, com base em outras doenças virais, sabemos que essa inflamação crônica causada pela covid-19 pode propiciar o desenvolvimento de Alzheimer, Parkinson ou outras doenças neurodegenerativas no futuro. É muito factível que a porcentagem de pessoas com Alzheimer aumente nos próximos anos. É uma hipótese com bastante fundamento porque já aconteceu isso com outras doenças virais. De qualquer forma, o agravamento de doenças neurodegenerativas preexistentes após ter covid-19 é um fato comprovado.

P. Contra isso, ainda não se pode fazer nada.

R. São doenças que primeiro é preciso detectar e não há, além disso, uma cura para o Alzheimer. Curiosamente, também aumentaram, em cerca de 3%, os acidentes vasculares cerebrais e os danos cerebrovasculares sem que houvesse condições preexistentes de risco. E 1,4% dos pacientes hospitalizados por covid-19 têm um derrame cerebral. Há um estudo importante do hospital de Albacete, na Espanha, sobre isso. Nossa meta-análise, depois de analisar 18.000 trabalhos sobre covid-19, também nos forneceu esse dado, e daí calculamos as porcentagens.

P. Três por cento é uma porcentagem muito alta.

R. O AVC é uma questão preocupante, assim como o estresse pós-traumático, mas aí é preciso diferenciar se tem relação com outras doenças associadas à fadiga pandêmica, como ansiedade, depressão e doenças psiquiátricas, ou se é um efeito direto de ter tido covid-19. Isso ainda não foi determinado, mas os problemas de sono, depressão e ansiedade também são efeitos neurológicos da infecção viral.

P. A longo prazo.

R. O que é o mais preocupante.

P. Por quê?

R. Porque a pessoa tem a doença e durante o tempo de internação pode ocorrer de tudo, mas quando ela vai para casa começa a sofrer esses problemas meses depois. Até mesmo jovens que passaram a covid-19 sem sintomas. Há casos de pessoas que passaram pela covid-19 como um simples resfriado e, meses depois, tiveram dor de cabeça, tontura, fadiga, dor muscular... Muita gente não associa isso com a covid-19, e esse é um problema no nível clínico, porque o médico também não associa. Por isso, é importante criar unidades pós-covid-19 nos hospitais. Quando tudo isto passar, nossa preocupação será a covid-19 persistente por meses ou anos.

P. Livres da covid-19, mas com sequelas que permaneciam invisíveis. Em que porcentagem?

R. Os estudos preliminares dizem que entre 10% e 30% das pessoas que sofreram covid-19 têm sequelas.

P. Que tipo de sequelas?

R. Têm algumas dificuldades para se recuperar, principalmente respiratórias e cardíacas, que são as mais importantes. Não está claro por que isso ocorre, mas tem repercussão na economia: as pessoas estão cansadas em seus trabalhos, têm dificuldade para respirar, fadiga profunda, não rendem como antes. É um problema social; não é que precisem ir ao hospital, mas não deixa de ser um problema de saúde pública. A covid-19 persistente também pode afetar meninos e meninas, assim como seu rendimento na escola, mesmo que tenham passado a covid-19 sem sintomas.

P. Há alguma parte do cérebro especialmente vulnerável à covid-19?

R. Não há muitos estudos de autópsias. Foram encontradas células danificadas no hipocampo e também no córtex. São regiões relacionadas, dependendo de quais áreas, com a perda de memória, com a função motora ou com o brain fog, a névoa mental, os estados de confusão. Normalmente é passageiro, mas pode ser doloroso sofrer isso porque é uma doença debilitante.

P. Quando uma pessoa teve covid-19 meses antes, é possível verificar em sua microbiota se ela terá sequelas do vírus?

R. Estamos tentando descobrir. Os problemas intestinais são um dos primeiros sintomas da covid-19. O que sabemos depois de anos de estudo da microbiota, principalmente nos últimos 20 anos em que aprendemos a sequenciar e identificar as bactérias, é que é muito difícil restaurá-la. Quando há uma disbiose bacteriana [mudanças de bactérias] que afeta os lactobacilos, etc., e estes diminuem muito, não adianta tomar um comprimido com um probiótico e pronto. É difícil criar um ambiente colonizador para as bactérias boas. Qualquer alteração por uma doença, como o câncer ou a covid-19, altera essas bactérias e é difícil restaurar a flora benéfica.

P. Existem tratamentos.

R. Mas nada muito eficaz. Tem de haver uma colonização de bactérias novas, e isso não é fácil. O mais importante é a dieta, com alimentos saudáveis, naturais e não processados, vitamina D e ácidos graxos ômega 3, mas também podem ser usados probióticos, administrados para suprir deficiências concretas, ou antibióticos específicos contra uma bactéria nociva. É necessária uma análise de sequenciamento do microbioma de cada pessoa para verificar com exatidão as deficiências na composição bacteriana e determinar o possível tratamento a seguir. Um abuso de probióticos poderia causar uma disbiose maior, e seria pior.

P. O que é um probiótico?

R. Os probióticos são as bactérias que produzem algum benefício para a saúde. Probiótico é o mesmo que bactéria. Tomar um probiótico é tomar um lactobacilo ou uma bifidobactéria, por exemplo. O kefir é um iogurte com probiótico, porque tem bactérias vivas. Depois, há os prebióticos, que, coloquialmente, são a comida das bactérias boas e estimulam o crescimento de uma classe de bactérias benéficas. Por exemplo, a fibra pode ser um prebiótico. Temos um estudo em colaboração com um hospital em Buenos Aires no que eles usam um prebiótico, os taninos, procedentes da cortiça da castanheira ou do carvalho. É um componente vegetal que pode funcionar contra algumas doenças inflamatórias e está sendo testado em pacientes de covid-19. Ainda estamos vendo que tipo de alteração esses taninos provocam na flora intestinal dos pacientes, mas eles já notaram que têm menos inflamação durante o período de internação. Vamos ver se há mudanças a longo prazo.

P. Li uma entrevista sua de 2018 para o jornal espanhol El Progreso. Falava sobre os probióticos para vítimas de danos cerebrais.

R. Sim.

P. Uma frase sua naquela ocasião: “Um transplante fecal com as bactérias adequadas? Sim, seria uma questão de prevenir o AVC com a ingestão de um comprimido feito com transplantes fecais, depois de ser sintetizado o DNA de bactérias de pessoas saudáveis. A administração dessa medicação em humanos poderia durar um ano ou dois”.

R. Estamos realizando estudos com camundongos que têm a microbiota muito alterada, como os animais velhos, por exemplo. Pode-se transferir a flora bacteriana de um animal jovem para um animal velho e se vê que isso reduz a inflamação. Muitos processos relacionados ao envelhecimento mediados por bactérias podem ser recuperados. Fizemos isso com probióticos e continuamos pesquisando nessa linha. Isso também pode ser aplicado ao AVC com a mesma finalidade de reduzir a inflamação e reparar o dano, e esperamos que possa ter uma aplicação clínica e breve.

P. Como isso seria feito em humanos?

R. Isso tem sido feito em doenças gastrointestinais, porque todo o problema está aí, no intestino. E com os transplantes fecais foi observada uma recuperação de 100% das doenças crônicas. Com os danos cerebrais é preciso ser mais sofisticado, porque é necessário selecionar e limpar as bactérias no intestino das pessoas depois do dano. No nível clínico, isso é mais complicado e não há a mesma garantia de sucesso. Nesse caso, pelos dados que temos até agora, os probióticos são mais eficazes. Isso também é feito com o câncer. Vai ser uma revolução, mas ainda é preciso aprimoramento. Há bioengenheiros que estão desenvolvendo pílulas com bactérias para que você possa ingerir as bactérias de que precisa, dependendo de sua doença. É o futuro, mas é muito realista, e certamente chegará: serão desenvolvidas bactérias por bioengenharia para diagnosticar e tratar doenças inflamatórias, incluindo as relacionadas com o cérebro.

P. Isso pode prevenir um AVC, por exemplo?

R. Sim, o que acontece é que o principal papel das bactérias está relacionado à inflamação e à regulação do sistema imunológico. Essas bactérias produzem componentes tóxicos que vão para o sangue e fazem com que se formem coágulos. Tornam o sangue mais pastoso e então se formam os trombos que causam problemas cerebrovasculares. Existe uma relação entre esses produtos tóxicos das bactérias e o seu modo de vida, sua alimentação, até mesmo seu nascimento.

P. Muitos fatores.

R. Podemos dizer que cada pessoa tem um código de barras de microbiota. No futuro, com a medicina personalizada, o médico dirá quais bactérias você tem e de que tipo de medicamento precisa. Isso está ocorrendo com o câncer, a microbiota é manipulada para que os tratamentos de quimioterapia funcionem melhor. Também é um dos motivos pelos quais os tratamentos funcionam melhor em alguns pacientes do que em outros, porque eles têm microbiotas diferentes. A ideia para lutar contra as doenças neurodegenerativas é a mesma: mudar os componentes tóxicos das bactérias e reduzir a inflamação. Depois de um dano, há inflamação sistêmica e para baixá-la é necessário que haja bactérias benéficas que produzam anti-inflamatórios ou antioxidantes. Ao aumentar a diversidade bacteriana, nós nos protegemos não só contra as infecções virais, mas também contra outros problemas de saúde, incluindo a saúde mental.

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Miguel Nicolelis: “São os cientistas ‘canalhas’ que vão tirar o Brasil dessa crise infernal”

No terceiro episódio do podcast ‘Diário do front’, colunista do EL PAÍS lembra o feito do astronauta Yuri Gagarin, há 60 anos, e diz que Brasil vive sua Batalha de Stalingrado e que só a ciência pode salvá-lo

Clique acima para ouvir o terceiro episódio de 'Diário do Front'.

O que o voo orbital de Yuri Gagarin 60 anos atrás pode nos ensinar sobre o combate à pandemia de covid-19 no Brasil? Essa é a pergunta que guia o neurocientista Miguel Nicolelis no terceiro episódio do podcast Diário do front. A coluna em áudio de Nicolelis, que toma o pulso da crise sanitária no Brasil semanalmente, desta vez reflete sobre o papel da ciência nos avanços da União Soviética no século 20 que levaram ao primeiro voo na órbita da terra, em 12 de abril de 1961. “Sessenta anos depois, o mundo imerso na maior pandemia em um século, tem uma grande porta de saída dessa crise que já vitimou milhões de seres humanos. A saída continua sendo a mesma: a ciência.”

Nicolelis afirma que é a primeira vez na história das pandemias, desde os tempos dos faraós, que a ciência tem um poder transformador imediato ao desenvolver vacinas em tempo recorde. Ele lembra como a vacinação em massa contra a covid-19 mudou o curso da tragédia em países como os Estados Unidos ou Reino Unido. “Enquanto mundo usa a ciência para escapar da pandemia, no Brasil os cientistas são tachados de canalhas”, lamenta o neurocientista, citando frase de Jair Bolsonaro na semana passada ―o presidente defendia mais uma vez tratamento precoce contra a covid-19, o que não existe.

“São os cientistas canalhas que vão tirar o Brasil dessa crise infernal”, disse o cientista. “O Brasil, se aproxima, nos próximos meses, do mesmo número de vítimas da Batalha de Stalingrado”, comparou Nicolelis, em referência à escalada de mortes pelo novo coronavírus no Brasil, cuja média diária de mortes ultrapassa 3.000, e à épica batalha da Segunda Guerra Mundial.

O acesso à coluna em áudio de Nicolelis é grátis, assim como as demais informações sobre o novo coronavírus no EL PAÍS. Compartilhe com seus amigos e familiares. Prefere no Spotify? Clique aqui ou acima. Ouça aqui no YouTube. O podcast Diario do front tem a produção-executiva de Marina Miranda e a produção e trilha sonora de Cacau Guarnieri.

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Pedro Castillo tem o dobro das intenções de voto de Keiko Fujimori no segundo turno do Peru

O candidato presidencial do Peru Livre, Pedro Castillo, em um comício de campanha em 8 de abril.
O candidato presidencial do Peru Livre, Pedro Castillo, em um comício de campanha em 8 de abril.EL COMERCIO / ZUMA PRESS / CONTACTOPHOTO / EUROPA PRESS

Três pesquisas eleitorais divulgadas nesta semana no Peru colocam o professor rural esquerdista Pedro Castillo com uma ampla vantagem sobre Keiko Fujimori, líder do conservador Força Popular. Segundo a sondagem do Instituto de Estudos Peruanos (IEP) apresentada no domingo, Castillo tem 41% das preferências, contra 21% de Fujimori, enquanto os indecisos e as menções a brancos e nulos somam 44% dos pesquisados.

Mas, na região metropolitana de Lima, que concentra 29% do eleitorado, essa diferença caiu. A filha mais velha do ex-autocrata Alberto Fujimori, acusada em março de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e obstrução da justiça, chega a 31%, superando numericamente os 29% do dirigente sindical ―uma diferença que está dentro da margem de erro da pesquisa, de 2,6 pontos. Em 6 de junho, mais de 25 milhões de peruanos, incluindo 997.000 residentes no exterior, estão autorizados a ir às urnas.

Desde que iniciou sua campanha para o segundo turno, no fim de semana passado, Castillo tem feito vários comícios para multidões no norte do país, apesar de o Peru enfrentar o pior momento da segunda onda da pandemia de covid-19, com mais de 400 mortos por dia na última semana. Em seus discursos, ele reiterou seu compromisso de “morte civil aos corruptos” e de aumentar de 3% para 10% o percentual do PIB destinado a educação e saúde. Frente às críticas de que seu plano de governo, redigido antes da pandemia, não inclui medidas contra a crise sanitária, ele indicou nesta semana que liderará um “Plano Pandemia” e voltou a prometer vacinas seguras.

Em uma entrevista à emissora peruana Radioprogramas, Vargas Llosa criticou duramente o candidato da esquerda: “Se ele estabelecer o modelo venezuelano ou cubano para o Peru, não se pode descartar um golpe militar”, afirmou. O escritor contou que Keiko Fujimori o procurou para manifestar seu compromisso de que não ficará no poder por mais de cinco anos, depois que ele pediu voto para ela em sua coluna no EL PAÍS.

Uma pesquisa da empresa Datum divulgada na semana passada mostrou que, dos 41% inclinados a votar em Castillo, 16% o consideram “a mudança que o país necessita”, ao passo que 29% desse grupo rejeitam Fujimori “por estar sendo investigada pelo Ministério Público”. Para 13%, Castillo “representa os pobres e os mais esquecidos”, e 10% optam por ele para evitar que a vitória da candidata conservadora.

Fujimori recebeu também o respaldo do ex-candidato presidencial ultraconservador Rafael López Aliaga, que anunciou que visitará as localidades onde recebeu mais votos para fustigar o candidato do Peru Livre. “Castillo tem em mim um inimigo de morte. O que este senhor quer é distribuir pobreza: tanto nos custou dar trabalho a tanta gente para que venha um selvagem e nos destrua o país”, atacou.

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Conforme a pesquisa do Instituto de Estudos Peruanos, nos níveis socioeconômicos mais altos Fujimori chega a 38% das intenções de voto. Nos mais baixos, Castillo vai a 49%.

Uma candidata com imagem ruim

O cientista político Paolo Sosa comentou a este jornal que “é muito difícil que, a esta altura, Keiko Fujimori possa modificar substancialmente a percepção negativa que se tem dela e de seu partido. E isto piora com sua estratégia de estimular o temor anticomunista. Pelo contrário, a coloca numa situação beligerante que traz lembranças de seu papel como oposição desde 2016”.

O pesquisador, afiliado ao IEP, refere-se ao comportamento da bancada partidária fujimorista do Força Popular no Congresso, no início do Governo do então presidente Pedro Pablo Kuczynski. Alguns deputados fujimoristas se coordenavam com grupos corruptos da Justiça, os chamados Colarinhos Brancos do Porto, para atrapalhar as investigações por lavagem de ativos contra seus membros.

Sosa acrescenta que a alta rejeição a Fujimori (55%, segundo o Ipsos Peru) “tira a credibilidade de qualquer estratégia que ela usar para demonizar a seu adversário, incluindo o anticomunismo.

Mesmo que o medo em relação à esquerda exista em um setor da opinião pública, ele é minimizado diante da péssima reputação que o fujimorismo granjeou, não só pelo regime autoritário dos anos noventa, mas também por seu papel na crise de governabilidade recente.

Keiko Fujimori denuncia que o comunismo é caos e autoritarismo, mas essas são duas características também associadas ao seu projeto político”, afirma o cientista político.

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Biden reconhece como “genocídio” o massacre de armênios sob o Império Otomano

O presidente Joe Biden entra no Marine One em Washington.
O presidente Joe Biden entra no Marine One em Washington.TASOS KATOPODIS / AFP

O presidente dos Estados UnidosJoe Biden, reconheceu neste sábado como “genocídio” o extermínio de mais de um milhão e meio de armênios nas mãos do Império Otomano. O anúncio foi feito no 106º aniversário do início do massacre. Com essa qualificação, o democrata rompe com seus antecessores da Casa Branca, que evitaram falar em genocídio temendo prejudicar as relações entre os Estados Unidos e Turquia. O anúncio de Biden aumenta a tensão entre os dois países, agravada depois da compra de equipamento militar russo por Ancara, dos casos de violações de direitos humanos e das intervenções militares na Síria e na Líbia.

“Todos os anos, neste dia, recordamos as vidas de todos que morreram no genocídio armênio da era otomana e reiteramos o compromisso de que essa atrocidade não volte a ocorrer”, afirmou em um comunicado Biden, tornando-se o primeiro presidente na história dos Estados Unidos a classificar de genocídio o massacre de armênios entre 1915 e 1923. Em 1981, durante um comunicado sobre o Holocausto, Ronald Reagan fez uma alusão ao genocídio armênio, mas se retratou sob pressão da Turquia, parceira de Washington na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em 2019, o Congresso americano aprovou resoluções para reconhecer pela primeira vez o genocídio, mas Donald Trump —que mantinha boas relações com o presidente turco, Recep Tayyp Erdogan— não as levou em conta.

Segundo o comunicado da Casa Branca, Biden telefonou nesta sexta-feira para Erdogan, mas não mencionou o massacre do início do século XX. O presidente americano expressou seu interesse em uma “relação bilateral construtiva com áreas ampliadas de cooperação e uma gestão eficaz das divergências”. A transcrição turca da conversa telefônica indica que Erdogan manifestou suas objeções em relação ao apoio dos EUA às forças curdas na Síria, consideradas grupos terroristas por Ancara.

A Turquia, o Estado herdeiro do Império Otomano, reconheceu que muitos armênios morreram em combates com as forças turcas, mas se recusa a qualificar essas mortes como um genocídio e questiona o elevado número de vítimas. Ancara diz que eram tempos de guerra, que houve mortos dos dois lados e que os armênios mortos ficaram em torno de 300.000, mas os historiadores estimam que o total passou de um milhão e meio.

Grupos armênio-americanos, que pressionaram durante anos para que Washington qualificasse o massacre como “genocídio”, comemoraram a medida neste sábado. “A declaração do presidente Biden sobre o genocídio armênio marca um momento de importância crítica no arco da história em defesa dos direitos humanos”, afirmou Bryan Ardouny, diretor-executivo da Assembleia Armênia da América. “Ao se opor com firmeza a um século de negação, o presidente Biden traçou um novo rumo”, acrescentou em um comunicado.

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