Moro QUEBROU o Brasil - Le Monde
Leia a íntegra da reportagem que demonstra como Moro quebrou o Brasil e trabalhou para os Estados Unidos

247 - Na edição de sábado (10), o jornal francês Le Monde destacou como a Operação Lava Jato, chefiada pelo procurador Deltan Dallagnol e orientada pelo ex-juiz Sergio Moro, declarado pelo Supremo Tribunal Federal como parcial, agiu para destruir o Brasil e beneficiar os Estados Unidos.
Lea a reportagem na íntegra:
No Brasil, o naufrágio da operação anticorrupção “Lava Jato”
INVESTIGAÇÃO Um magistrado considerado "tendencioso", às vezes ilegal e à sombra dos Estados Unidos: a maior operação anticorrupção da história do Brasil tornou-se seu maior escândalo jurídico. Meses de investigação foram necessários para que o "Le Monde" traçasse o outro lado dessa cena.
Por Gaspard Estrada e Nicolas Bourcier
Existe algo podre no Reino do Brasil. Todo o país é atingido por uma série de crises simultâneas, uma espécie de tempestade perfeita – recessão econômica, desastres ambientais, polarização extrema da vida política, Covid-19... A isso deve ser adicionado o naufrágio do sistema judicial. Um trovão adicional em um céu já pesado, mas carregado de esperança há sete anos, quando um jovem magistrado chamado Sergio Moro lançou, em 17 de março de 2014, uma vasta operação anticorrupção chamada “Lava Jato”, envolvendo a gigante do petróleo Petrobras, construtoras e um número expressivo de lideranças políticas.
De uma só tacada, dizia-se, o requerente e sua equipe de investigadores, apoiados pelo judiciário e pela mídia, iam limpar e salvar o Brasil, finalmente! Foram emitidos 1.450 mandados de prisão, apresentadas 533 denúncias e 174 pessoas foram condenadas. Nada menos que 12 chefes ou ex-chefes de Estado brasileiros, peruanos, salvadorenhos e panamenhos foram implicados. E a colossal soma de 4,3 bilhões de reais (610 milhões de euros) foi recuperada dos cofres públicos de Brasília. Até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, adorado pela maioria de opinião, não resistiu à onda, e foi parar atrás das grades.
E então, de repente, quase nada. Em menos de dois meses, a extensa investigação desmoronou como uma explosão. No início de fevereiro, o Ministério Público Federal deixou estourar o anúncio do fim do “Lava Jato” , desmontando-a com uma frieza que não se conhecia sequer a principal equipe de promotores. Em seguida, um juiz do Supremo Tribunal Federal ordenou a anulação das acusações contra Lula. Quinze dias depois, em 23 de março, foi a vez da mais alta corte brasileira decidir que o juiz Moro foi “tendencioso” durante sua investigação.
Irregularidades e confusões
A maior investigação anticorrupção do mundo, como a chamou um magistrado sênior, tornou-se o maior escândalo jurídico da história do país. Depois de mais de sete anos de processos, o próprio cerne da Justiça brasileira acaba de se retrair tanto na substância quanto na forma, abrindo um abismo de questionamentos sobre seus métodos, seus meios e suas escolhas.
É certo que o site de notícias The Intercept – criado por Glenn Greenwald, jornalista americano radicado no Rio de Janeiro e o bilionário do Vale do Silício Pierre Omidyar – não parou, nos últimos dois anos, de apontar irregularidades e equívocos à investigação. Cento e oito artigos publicados até o momento, por sua vez, levantaram o véu sobre as mensagens comprometedoras trocadas entre promotores e o juiz Moro, lançando luz sobre os vínculos mantidos, às vezes fora de qualquer quadro legal, por investigadores brasileiros com agentes do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ), ou mesmo sublinhou o viés político de alguns integrantes da “Lava Jato”, obcecados com a ideia de bloquear o Partido dos Trabalhadores (PT).
A independente Agência Publica, agência de jornalismo investigativo, fundada em São Paulo por repórteres mulheres, também mostrou como o processo foi marcado por irregularidades e inúmeras confusões. Após essas revelações deslumbrantes, no entanto, permanece um forte gosto pelo inacabado, a sensação de um julgamento fracassado e uma bagunça ontológica para uma investigação que queria ser um modelo de seu tipo.
Para compreender essas voltas e reviravoltas sucessivas, temos que voltar às origens desta novela político-jurídica. Estabelecer o arcabouço e distinguir como seus principais atores encontraram subsídios e arcabouço jurídico com juristas e personalidades influentes, primeiro no Brasil, depois com agentes de uma administração norte-americana que desejam continuar seu trabalho de aproximação com seu grande vizinho do sul.
Quando assumiu a Presidência da República em 2003, Lula sabia que era esperado na virada, principalmente no combate à corrupção.
Meses de investigação, entrevistas e pesquisas foram necessários para que o Le Monde desenhasse o outro lado dessa cena. Se algumas áreas permanecem nas sombras, alguns episódios de Lava Jato evidenciam cumplicidades vergonhosas. Outros, ao contrário, revelam como certos juízes e investigadores têm por vezes aproveitado a sua independência – muito real – a serviço de um projeto político, embarcando numa corrida louca, estabelecendo os motivos, os meios e os desmentidos. “Foi como uma bola atirada em um jogo de boliche”, admite, em condição de anonimato, um ex-assessor próximo ao governo Obama, responsável por questões jurídicas em relação à América do Sul. Um “jogo” que virou armadilha.
Quando assumiu a Presidência da República em 2003, Lula sabia que era esperado que mudasse. Principalmente no que diz respeito ao combate à corrupção, antigo demônio da vida política brasileira e um de seus principais argumentos de campanha. Assim, confiou ao seu novo ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, a tarefa de reformar o sistema judiciário, aceitando a nomeação como chefe de acusação de um procurador nomeado pelos seus pares, enquanto os seus antecessores costumavam escolher quem fosse mais complacente com o poder.
Uma das primeiras traduções concretas desse compromisso é a criação de cursos dedicados ao combate à lavagem de dinheiro e ao crime organizado. Sergio Moro seria um dos primeiros juízes indicados para presidir esses tribunais. Ao mesmo tempo, uma estratégia nacional de luta contra a lavagem de dinheiro e a corrupção foi posta em prática com o objetivo assumido de “facilitar as trocas informais” dentro da administração, e tornar mais eficiente o exame dos casos.
O jovem magistrado radicado em Curitiba, responsável à época do caso Banestado, investigação sobre lavagem de dinheiro em banco público regional, está entre os mais fervorosos adeptos dessa estratégia, que permite obter com mais rapidez o fornecimento de impostos e ativos informações e compartilhá-las com várias autoridades, inclusive estrangeiras.
Medo do terrorismo
É verdade que, no mundo da cooperação judiciária internacional, a luta contra a corrupção, a lavagem de dinheiro e o terrorismo ocupa um lugar especial. Após os ataques de 11 de setembro, os Estados Unidos estavam procurando por todos os meios neutralizar ataques futuros, em particular visando as redes financeiras dessas organizações. Porém, no Brasil, a inteligência americana estava preocupada com a presença, na tríplice fronteira entre Argentina, Paraguai e Brasil, de possíveis células do Hezbollah, entidade apoiada pelo Irã e colocada por muito tempo na lista negra americana.
O governo Bush busca então aumentar a ação contraterrorista de Brasília que, na época, polidamente se recusa a fazê-lo. Para contornar a frieza das autoridades brasileiras – que consideram que o risco terrorista é deliberadamente exagerado pelos Estados Unidos – a embaixada americana em Brasília estava tentando criar uma rede de especialistas locais, capazes de defender as posições americanas “sem parecer peões” de Washington, para usar a frase do embaixador Clifford Sobel em um telegrama diplomático americano que o Le Monde pôde consultar.
Sergio Moro, que estava então colaborando ativamente com as autoridades americanas no caso Banestado, é então abordado para participar de um programa de relacionamento financiado pelo Departamento de Estado. Ele aceita. Foi organizada então uma viagem aos Estados Unidos em 2007, durante a qual fez uma série de contatos dentro do FBI, do DoJ e do Departamento de Estado, ou seja, relações exteriores.
Em dois anos, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília formou uma rede de magistrados e advogados convencidos da relevância do uso das técnicas americanas.
A Embaixada dos Estados Unidos está procurando aumentar sua vantagem. No desejo de estruturar uma rede alinhada às suas orientações no meio jurídico brasileiro, cria nela o cargo de assessor jurídico ou assessor jurídico residente. A escolha recaiu sobre Karine Moreno-Taxman, procuradora especializada na luta contra a lavagem de dinheiro e o terrorismo.
Desde 2008, esta especialista desenvolve um programa denominado “Projeto Pontes” que, a fim de apoiar as necessidades das autoridades judiciárias brasileiras, organiza cursos de formação que lhes permitem se apropriar dos métodos de trabalho americanos (grupos de trabalho anticorrupção) , a sua doutrina jurídica (as delações premiadas, em particular), bem como a sua vontade de partilhar informação de forma “informal”, isto é, fora dos tratados bilaterais de cooperação judiciária.
A embaixada passa então a aumentar o número de seminários e reuniões com juízes, promotores e altos funcionários especializados, com foco nos aspectos operacionais da luta contra a corrupção. Sergio Moro participa como palestrante. No espaço de dois anos, o trabalho de Karine Moreno-Taxman dá frutos: a embaixada constitui uma rede de magistrados e advogados convencidos da relevância do uso das técnicas americanas.
Em novembro de 2009, o assessor jurídico da embaixada é convidado a falar na conferência anual de policiais federais brasileiros. O encontro estava sendo realizado em Fortaleza, uma cidade litorânea e sem charme do Nordeste do Brasil, onde cerca de 500 profissionais da manutenção da ordem, da segurança e do direito são convidados a debater o tema “luta contra a impunidade”.
“Em um caso de corrupção, é preciso correr atrás do 'rei' de forma sistemática e constante para derrubá-lo”, afirma o assessor jurídico da embaixada dos Estados Unidos em Brasília
Sergio Moro está lá, presente desde a primeira hora do congresso. É ele mesmo quem abre os debates, pouco antes de passar a palavra ao deputado norte-americano. O juiz de Curitiba se lança citando o ex-presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, depois ataca desordenadamente os crimes do colarinho branco, a ineficiência e as falhas de uma justiça brasileira doente, segundo ele, de um sistema de “recursos infinitos” muito favorável aos advogados de defesa. Ele defende a reforma do Código Penal, destacando que as discussões nessa direção estão ocorrendo paralelamente no Congresso de Brasília. Aplausos na sala.
Na frente da platéia, a senhora Moreno-Taxman está sentada. Ela fala em um tom muito menos seco e sério do que seu antecessor, mas tão direto: “Em um caso de corrupção” – ela diz – “você tem que correr atrás do ‘rei’ de uma maneira sistemática e constante para derrubá-lo”. E é mais explícita: “Para que o Judiciário possa condenar alguém por corrupção, é necessário que o povo odeie essa pessoa”. Finalmente: “A empresa deve sentir que realmente abusou de sua posição e exigir sua condenação”. Mais uma vez aplausos do público.
O nome do presidente Lula, enredado no escândalo do “Mensalão”, caso de suborno e compra de votos no Congresso, revelado em 2005, não é citado em nenhum momento. Mesmo que ele esteja presente na mente de todos, ninguém imagina então que este se tornará o “rei” designado pela senhora Moreno-Taxman. No entanto, é isso que vai acontecer.
Espionagem ilegal
Por enquanto, o governo petista não vê nada chegando. Três meses depois da reunião de Fortaleza, em vez de fazer uma reforma política para acabar com o financiamento ilegal de campanhas eleitorais, o partido prefere fazer promessas à opinião pública apresentando um projeto de lei anticorrupção. Espera, assim, responder às críticas recorrentes desde que o PT assumiu o poder e ganhar influência na cena internacional ao cumprir, em particular, os padrões da OCDE, onde o grupo de trabalho contra a corrupção (Grupo de Trabalho da OCDE sobre Suborno em Transações Comerciais Internacionais), fortemente influenciada pelos Estados Unidos, está pressionando o Brasil a reformar sua legislação nessa área.
Sergio Moro, por sua vez, se posiciona publicamente no sentido de endurecer as penas previstas no projeto de lei e garantir a adoção das confissões premiadas como instrumento jurídico válido. Aquele que agora se tornou uma das figuras do debate brasileiro sobre questões de lavagem de dinheiro usa métodos que beiram a legalidade – usurpação das prerrogativas do Ministério Público, instrução de ordens preventivas de prisão apesar da oposição de autoridades superiores, escuta telefônica de advogados ou personalidades com parlamentares imunidade – e com isso desperta a desconfiança de alguns dos magistrados.
“Os crimes ligados ao poder são por natureza, tendo em vista a posição de seus autores, difíceis de comprovar por meio de provas diretas”, daí “a maior elasticidade na aceitação de provas por parte do Ministério Público”
O magistrado de Curitiba é, porém, nomeado, no início de 2012, desembargador assistente de Rosa Weber, recém-eleita juíza do Supremo Tribunal Federal. Esta última, especialista em direito do trabalho, pretendia ter um perito em direito penal que a pudesse apoiar no julgamento final do “Mensalao”. Sergio Moro escreverá assim em parte a polêmica decisão da juiza neste caso. “Os crimes ligados ao poder são por natureza, tendo em vista a posição de seus autores, difíceis de comprovar por meio de provas diretas”. Portanto, especifica o texto: “a maior elasticidade na aceitação de provas por parte da acusação”. Um precedente que será levado ao pé da letra pelo juiz e pelos promotores de “Lava Jato” à época da denúncia e condenação de Lula.
O processo foi iniciado em 2013. Os parlamentares brasileiros, que debatem o projeto de lei anticorrupção há três anos, decidiram votar em meados de abril. Para ficarem bem em relação ao grupo de trabalho da OCDE, eles incluem a maioria dos mecanismos previstos em uma lei americana, que está começando a ser falada no meio empresarial: a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA).
Criada em 1977 a partir de Watergate, o objetivo principal dessa lei era combater atos de corrupção de empresas americanas no exterior, impondo-lhes sanções financeiras. Até o final da Guerra Fria, isso raramente era aplicado. Tudo mudou na década de 1990. O governo Clinton começou a reformar a FCPA, o que iria acompanhar a adoção de uma convenção anticorrupção dentro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a fim de “multilateralizar os efeitos”, de acordo com um telegrama da embaixada americana.
É o critério de competência da lei que detona: qualquer empresa que tenha qualquer ligação com os Estados Unidos e que tenha pago um funcionário estrangeiro para fins de corrupção pode ser objeto de uma acusação. Qualquer vínculo é entendido como o trânsito de fundos por uma conta bancária americana, ou a transmissão de um e-mail cujo servidor esteja localizado em solo americano.
Na verdade, praticamente todas as empresas ao redor do mundo estão expostas à lei, incluindo aquelas que competem com empresas dos Estados Unidos por grandes contratos, como venda de armas e equipamentos, construção e serviços financeiros. Esse desenvolvimento levará a um aumento das penalidades vinculadas à implementação da FCPA: de alguns milhões de dólares na década de 1990, passamos a vários bilhões na década de 2010. E, neste contexto, a América Latina em geral e o Brasil em particular será de interesse para os promotores do DoJ.
Violações das regras de procedimento
Estes últimos, que dependem do poder executivo, embora sejam considerados “autônomos” do resto da administração americana, sabem que a próxima implementação da lei anticorrupção brasileira lhes permitirá sancionar as empresas brasileiras nos termos da lei FCPA. Em novembro de 2013, por ocasião da Conferência da FCPA, o encontro anual de personalidades do mundo jurídico americano, o procurador-geral adjunto do DoJ, James Cole, anunciou que o chefe da unidade da FCPA dos Estados Unidos faria uma viagem ao Brasil na esteira, com o objetivo de "treinar promotores brasileiros" no uso da lei.
Poucos meses antes, Sergio Moro retomou um antigo caso de lavagem de dinheiro, ligado ao “Mensalão”, que deixava de lado desde 2009. Diz respeito às relações de vários intermediários desonestos (Carlos Chater e Alberto Youssef), com José Janene, membro do Partido Progressista (partido de direita que apoia a coligação governamental). O juiz curitibano está interessado nos investimentos dos dois empresários na empresa Dunel Indústria, feitos por meio das contas bancárias de um posto de gasolina chamado “Posto da Torre”, em Brasília. A pedido do senhor Moro, Chater é grampeado de julho a dezembro de 2013: trata-se de saber se esses investimentos servem para mascarar possíveis atos de lavagem de dinheiro em favor do senhor Janene.
É fazendo a ligação entre a Dunel Indústria, com sede no Estado do Paraná, e o posto de abastecimento, por onde passam grandes somas, inclusive para determinados executivos da Petrobras, que Sergio Moro afirma sua competência para julgar o caso. Manipulação curiosa: a maior parte dos atos de lavagem de dinheiro e corrupção de MM. Chater e Youssef acontecem em São Paulo. De acordo com o processo penal brasileiro, isso deveria ter levado um juiz daquela jurisdição a tratar do caso – e não Sergio Moro. Mas o magistrado de Curitiba entendeu os meandros do judiciário brasileiro. Ele sabe que, ao ocultar a localização dessas empresas de fachada, poderá manter o controle da investigação. Desde que os tribunais superiores o permitam. E é isso que vai acontecer.
Seduza a opinião pública
A partir de agosto de 2013, alguns juristas viram o perigo decorrente da implementação da nova lei anticorrupção. Uma nota premonitória, publicada pelo escritório de advocacia americano Jones Day, prevê que terá efeitos deletérios para a justiça brasileira. Alerta contra seu funcionamento “imprevisível e contraditório” devido ao seu caráter de “influência” no plano político, bem como a ausência de procedimentos de “aprovação ou controle” . Segundo o documento, “cada membro do Ministério Público é livre para iniciar o processo segundo as suas próprias convicções, com reduzida possibilidade de ser prevenido por uma autoridade superior” .
Apesar dos alertas, o governo e seus aliados seguem em frente. A presidente Dilma Rousseff, sempre nessa vontade de acariciar uma opinião pública cada vez mais crítica, decide até endurecer seus critérios de aplicabilidade. Os parlamentares acreditam que esta lei não os afetará mais do que as anteriores.
Após seis meses de investigação, o juiz de Curitiba tem informações suficientes para expedir os primeiros mandados de prisão. Em 29 de janeiro de 2014, a lei anticorrupção entra em vigor. No dia 17 de março, o grupo de trabalho “Lava Jato” é formalmente criado pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. À sua cabeceira, ele nomeia o procurador Pedro Soares, que se opõe a que Sérgio Moro receba o tratamento do caso, uma vez que os supostos crimes de Alberto Youssef ocorreram fora de Curitiba. Sua abordagem falhará. Ele será substituído por outro procurador, Deltan Dallagnol, 34, que não só será favorável a Moro no caso, mas também se tornará o principal sustentáculo do magistrado.
Para os Estados Unidos, trata-se de reduzir a influência geopolítica do Brasil na América Latina, mas também na África
Desde o nascimento, a Lava Jato atrai a atenção da mídia. A orquestração das prisões e o ritmo das acusações do Ministério Público e de Moro transformam a operação em uma verdadeira novela política e judicial fora do comum. Enquanto o Brasil se prepara para embarcar em uma campanha presidencial e legislativa, a elite política e econômica do país de repente parece tomada de medo com a ideia de ser varrida por essa cascata interminável de revelações. E a lista continua.
Ao mesmo tempo, o governo de Barack Obama viu um aumento nos protestos de países aliados, destacando-se a França, preocupada com a proliferação de sanções impostas pelo DoJ, no âmbito do combate à corrupção, visando certas bandeiras nacionais, como o Grupo Alstom. Para sinalizar seu apoio político às ações anticorrupção empreendidas por seu governo, a Casa Branca publicou uma “agenda anticorrupção global” em setembro de 2014.
Lá está escrito que a luta contra a corrupção no exterior (por meio da FCPA) pode ser usado para fins de política externa, a fim de defender os interesses de segurança nacional. Um mês depois, Leslie Caldwell, então procurador-geral adjunto do DoJ, faz um discurso na Duke University: “A luta contra a corrupção estrangeira não é um serviço que prestamos à comunidade internacional, mas sim uma ação de fiscalização necessária para proteger nossos próprios interesses de segurança nacional e a capacidade de nossas empresas americanas de competir no futuro”.
No terreno sul-americano, as gigantes brasileiras da construção Odebrecht, OAS ou Camargo Correa, em plena expansão, entraram diretamente na linha de fogo das autoridades norte-americanas. Não só porque ganham mais contratos, mas também porque participam do fortalecimento da influência geopolítica do Brasil na América Latina e na África, ao financiar, ilegalmente na maioria das vezes, as campanhas eleitorais de personalidades próximas ao PT, lideradas pelo consultor de comunicação da legenda, João Santana. Só em 2012, o estrategista eleitoral, confortavelmente financiado pela Odebrecht, organizou três campanhas presidenciais na Venezuela, República Dominicana e Angola, sem falar no município de São Paulo. Todas vencidas pelos candidatos de Santana.
Promessas de boa vontade
Diante de diversos jornalistas que integram o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), Thomas Shannon, embaixador americano estacionado em Brasília de 2010 a 2013, disse que o projeto político brasileiro para a integração econômica da América do Sul suscita sérias preocupações no Departamento de Estado. Este último “considerou o desenvolvimento da Odebrecht parte do projeto de poder do PT e da esquerda latino-americana”, afirma o diplomata.
“Se somarmos a tudo isso as péssimas relações pessoais entre Barack Obama e Lula, e um aparato petista que ainda desconfia do vizinho norte-americano, podemos dizer que tínhamos trabalho a fazer para remediar a situação. Barre” , reconhece um ex-membro do DoJ encarregado de casos latino-americanos. A tarefa será ainda mais difícil a partir das revelações do informante Edward Snowden, em agosto de 2013, sobre a espionagem da Agência de Segurança Nacional Americana (NSA) contra Dilma Rousseff, que sucedeu Lula em 2011, e a Petrobras, ainda mais frias as relações entre Brasília e Washington.
Várias alavancas de influência são ativadas. Há a FCPA e as redes de promotores e magistrados treinados em técnicas de investigação implantadas nos últimos anos. Para atingir seus objetivos, o DoJ usa uma grande isca: o compartilhamento das multas que serão impostas pelas autoridades americanas às empresas brasileiras no âmbito da FCPA.
Para prestar garantias de boa vontade às autoridades americanas, os investigadores brasileiros estão organizando a visita confidencial a Curitiba, em 6 de outubro de 2015, de dezessete membros do DoJ, do FBI e do Ministério da Segurança Interna para que este receba um explicação detalhada dos procedimentos atuais. Eles dão acesso a advogados de empresários potencialmente chamados a “colaborar” com a justiça americana, sem que o Poder Executivo brasileiro seja informado. Mas isso tem um preço: cada uma das multas impostas às empresas brasileiras pela FCPA terá que incluir uma parcela destinada a Brasília, mas também à operação “Lava Jato”. Os americanos aceitam. Com o negócio fechado, os promotores brasileiros irão pescar empresas que possam estar sob o controle do DoJ.
“Os policiais devem estar cientes de todas as ramificações políticas potenciais desses casos, já que os casos de corrupção internacional podem ter efeitos importantes que influenciam as eleições e as economias”, disse um funcionário do FBI.
Enquanto sua maioria parlamentar derrete como neve ao sol diante da proliferação de negócios, a presidente Dilma Rousseff decide convidar seu mentor, Lula, para participar do governo. Uma manobra vista como a última tentativa de salvar sua coalizão. Ao mesmo tempo, membros da Polícia Federal, por ordem dos promotores, grampearam – fora de qualquer marco legal – os telefones dos advogados de Lula (vinte e cinco defensores no total), e até mesmo do próprio presidente. Sergio Moro vai, assim, monitorar uma conversa entre este e Dilma Rousseff. Uma troca de palavras enigmáticas sobre o futuro de Lula, que o magistrado envia prontamente à Rede Globo e que selará a demissão da presidenta poucos meses depois.
Durante este período conturbado, os promotores do DoJ estão monitorando de perto a situação política no Brasil. De acordo com Leslie Backshies, então chefe da unidade internacional do FBI, que desde 2014 tem a tarefa de ajudar os investigadores de Lava Jato, “os oficiais devem estar cientes de todas as ramificações políticas potenciais desses casos, porque os casos de corrupção internacional podem ter grandes efeitos que influenciam as eleições e as economias”. O especialista esclarece: “Além de conversas regulares de negócios, os supervisores do FBI se reúnem com os advogados do DoJ trimestralmente para analisar possíveis ações judiciais e possíveis consequências”.
É, portanto, com pleno conhecimento dos fatos que estes últimos encerram sua denúncia contra a Odebrecht nos Estados Unidos. No entanto, os líderes do grupo relutam em assinar o acordo de “colaboração” proposto pelas autoridades americanas, que inclui o reconhecimento de atos de corrupção não só no Brasil, mas em todos os países onde esta gigante da construção está instalada.
Para dobrá-los, os magistrados ordenam ao banco Citibank, responsável pelas contas da subsidiária americana da empresa, que dê à Odebrecht trinta dias para encerrá-los. Em caso de recusa, os valores depositados nessas contas serão colocados em liquidação judicial, situação que excluiria o conglomerado do sistema financeiro internacional e, portanto, o colocaria em falência.
A Odebrecht concorda em "colaborar", o que permite aos promotores de Curitiba, embora não tenham competência normativa para julgar atos de corrupção ocorridos fora do Brasil, para obter as confissões premiadas dos executivos da empresa. Confissões que irão posteriormente enriquecer a acusação do DoJ sob a FCPA.
O comunicado foi divulgado na véspera das festas de fim de ano de 2016. A Operação Lava Jato está na capa da mídia internacional. Sergio Moro é convidado para a lista das cem personalidades mais influentes da revista Time. O semanário New York Americas Quarterly dedica sua capa a ele. Por sua vez, os promotores do DoJ acolhem publicamente essa cooperação sem precedentes. Em conferência realizada nas instalações do Atlantic Council, em Washington, Kenneth Blanco, então procurador-geral adjunto do DoJ, declarou que “Brasil e Estados Unidos trabalharam juntos para obter provas e construir negócios” . E diz: “É difícil imaginar uma cooperação tão intensa na história recente como a que ocorreu entre o DoJ e o Ministério Público brasileiro”.
Moro e sua equipe começam 2017 com confiança. Não que tenham obtido provas contundentes contra Lula – suas conversas privadas via Telegram provam o contrário –, mas sim porque sua influência política e midiática é tal que eles vão tirar vantagem, às vezes desafiando a maioria dos princípios.
Ameaças do Exército
Quando Lula foi condenado por “corrupção passiva e lavagem de dinheiro” em 12 de julho de 2017, poucos jornalistas relataram que essas acusações foram pronunciadas “por fatos indeterminados”. O argumento é, no entanto, explicitamente declarado no documento de 238 páginas detalhando a decisão do Sr. Moro. Nos anexos à condenação, o magistrado esclarece que “nunca afirmou que os valores obtidos pela empresa OAS com os contratos com a Petrobras foram usados para pagar vantagens indevidas ao ex-presidente”.
Outra estranheza que revela o peso adquirido pela operação Lava Jato no judiciário brasileiro: a prisão do ex-presidente Lula, embora seja contrária à Constituição brasileira. O artigo 5 diz, de fato, que nenhum litigante pode ser preso antes do final do processo. No entanto, sob a intensa pressão da opinião pública conquistada pela operação Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal alterou sua jurisprudência na matéria, em 2016.
O pedido de habeas corpus dos advogados de Lula é rejeitado por seis votos contra cinco na sequência de um tweet de o comandante do Exército ameaçando a Suprema Corte de “assumir suas responsabilidades institucionais” no caso de esta decidir a favor do ex-presidente.
Poucas horas após a decisão dos juízes, Sergio Moro emite seu mandado de prisão: Lula é preso no dia 7 de abril. Ele não poderá participar da eleição presidencial de 2018. Enquanto o magistrado parece ter sido conquistado pela arrogância, a máquina infernal é lançada. Jair Bolsonaro vence a eleição presidencial com folga e nomeia aquele que eliminou Lula como chefe do Ministério da Justiça. Do lado americano, nos congratulamos por ter minado os sistemas de corrupção implantados pela Petrobras e pela Odebrecht, bem como suas capacidades de influência e projeção político-econômica na América Latina.
Para os procuradores de Curitiba, o DoJ planejou reembolsar 80% de todas as multas impostas ao grupo petrolífero pela FCPA, que eles podem administrar como entenderem. Uma fundação de direito privado deve ser criada para administrar 50% desse maná. Os membros da diretoria dessa fundação são nada menos que os próprios promotores da Lava Jato e vários líderes de ONGs, inclusive da seção brasileira da Transparência Internacional, que ao longo dos anos se tornou um dos principais guardiões. Dois procuradores da equipe, o senhor Dallagnol e Roberson Pozzobon, chegam a pensar em criar uma estrutura jurídica em nome de seus respectivos cônjuges, a fim de cobrar por serviços de consultoria na área de “anticorrupção”.
Um denunciante preso
Eleito Bolsonaro, a imprensa internacional não demora a se distanciar do “vigilante de Curitiba”. Vem sublinhar a sua inconsistência ética ao aliar-se, assim, a um presidente de extrema direita, membro, há décadas, de uma pequena formação especialmente conhecida por ter estado envolvida em inúmeros casos de corrupção.
Por sua vez, os juízes do STF não escondem o espanto ao tomarem conhecimento, em março de 2019, do conteúdo do acordo negociado em segredo entre os promotores de Lava Jato e seus congêneres do DoJ. O juiz Alexandre de Moraes decidirá suspender a criação da fundação da Lava Jato e colocará em liquidação as centenas de milhões de dólares em multas pagas pela Petrobras.
É neste contexto que a primeira revelação de The Intercept estoura. Em maio de 2019, o Sr. Greenwald recebeu de um denunciante, Walter Delgatti, 43,8 gigabytes de dados de conversas privadas, via Telegram, da equipe Lava Jato. Após verificação, três artigos são publicados em um domingo de junho. Moro e os promotores não reconhecem a veracidade das trocas. Eles afirmam não ter cometido ilegalidade, embora se recusem a entregar seus telefones para exame.
Várias semanas depois, quando o Sr. Greenwald decide oferecer acesso aos dados a vários meios de comunicação, ficamos sabendo de um comunicado à imprensa do governo que Sergio Moro foi aos Estados Unidos de 15 a 19 de julho. Aproveitou esta estadia para consultar os seus homólogos? As autoridades americanas, solicitadas pela Agência Publica, se recusarão a confirmar ou negar as informações. Mesmo assim, o Sr. Delgatti foi preso pouco tempo depois pela Polícia Federal.
Embora essas revelações não tenham afetado significativamente a popularidade do magistrado, a aura do juiz continua a se desgastar na imprensa internacional. Por sua vez, o Supremo Tribunal Federal acaba reconhecendo a inconstitucionalidade da prisão de Lula. Ele foi libertado em 8 de novembro de 2019. O ex-presidente foi absolvido de sete das onze acusações contra ele (a promotoria apelou em quatro casos). Lula ainda não foi julgado em quatro casos que os especialistas consideram menos importantes.
Sergio Moro acabou renunciando ao cargo em abril de 2020. A elite política de Brasília dá as costas e as pesquisas se invertem. Segue-se na ponta dos pés, rumo a Washington, onde reproduz o modelo das portas giratórias, esses gateways que permitem que ex-magistrados do DoJ que trabalharam em casos relacionados à FCPA revendam as informações privilegiadas obtidas durante suas investigações para grandes escritórios de advocacia e ganhem muito dinheiro.
O anúncio cai em novembro de 2020, em meio às eleições municipais no Brasil.
Ficamos sabendo que o ex-juiz de Curitiba foi recrutado pelo escritório Alvarez & Marsal.
Agência especializada em assessoria empresarial e contencioso com sede na capital federal em 15 Shet NW, em frente ao Tesouro dos Estados Unidos e a 200 metros da Casa Branca.
Danilo Gentili é o candidato babyface do lavajatismo e da negação da política - Milton Alves
Por Milton Alves

Caro leitor, pode parecer uma piada de mau gosto, mas o lavajatismo raiz da “República de Curitiba” já encontrou um candidato prá chamar de seu: Trata-se do comediante Danilo Gentili, lançado pelo ex-bolsonarista Movimento Brasil Livre (MBL).
Durante a semana, cartazes de propaganda de Gentili apareceram em Curitiba e o ex-juiz Sérgio Moro declarou no Twitter que apoiaria uma eventual candidatura de Danilo Gentili à Presidência da República. A postagem de Moro movimentou as redes sociais na sexta-feira (9).
Em crise e fragmentada, a direita tradicional – ou velha direita neoliberal – ainda patina na busca de uma candidatura para unificar a “frente ampla” da Faria Lima. O pífio desempenho nas últimas pesquisas eleitorais de Doria, Luciano Huck, Mandetta e Amoedo, animou a rapaziada do MBL, que descolou do bolsonarismo ainda em 2020, a fazer uma aposta em Gentili.
O MBL já comunicou os institutos de opinião para a inclusão do nome do comediante nas próximas rodadas de pesquisas sobre as eleições presidenciais de 2022. Em algumas pesquisas, Gentili aparece com 4% empatado com Doria e Mandetta.
O deputado estadual Arthur do Val Mamãe Falei (Patriota-SP) escreveu no Twitter que estaria trabalhando numa articulação para agregar nomes como o de Gentili, Moro, Kim Kataguiri, além dos presidenciáveis João Amoedo (Novo), Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS). “Eu não estou imaginando. Tô trabalhando para que isso aconteça”, avisou o empolgado parlamentar paulista.
No vácuo entre a anemia eleitoral da velha direita e o desgaste gradual do bolsonarismo, o MBL acredita na ressurreição da cruzada da Lava Jato contra a corrupção, o sistema político e o que restou de estrutura estatal e pública no país após o golpe de 2016. O conteúdo da mensagem da virtual candidatura do MBL-Gentili é a mesma da República de Curitiba: punitivismo judicial classista e neoliberalismo.
É importante registrar que o dispositivo político de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol continua operando em defesa do legado da Lava Jato em Curitiba e nos demais estados da região Sul. Movimentos e grupos como “Brasil Estou Aqui”, “Laços de Apoio ao Brasil”, “Lava Togas” e “Curitiba Contra a Corrupção” constituem um núcleo político ativo da extrema-direita lavajatista. Uma estrutura de guerra subterrânea que visa impulsionar candidaturas ao Congresso Nacional, aos governos estaduais e federal em 2022.
A conjuntura política, marcada pela polarização e atravessada por uma crise sanitária e econômica-social sem precedentes, abriu um novo período de forte turbulência e de extrema volatilidade, provocando também um processo de decantação na extrema-direita e com impactos na velha direita. O rompimento de Moro com o governo Bolsonaro fez parte desse processo de fragmentação no campo conservador e das direitas.
A crise das atuais instituições de estado e a negação reacionária da política, fatores que favoreceram a vitória de Bolsonaro em 2018, podem abrir caminho para soluções do tipo Volodymyr Zelensky, um humorista que se tornou presidente da Ucrânia ou da emergência de um fenômeno político como o Movimento Cinco Estrelas (M5S) italiano, fundado pelo comediante Beppe Grillo.
Portanto, encarar somente como uma piada o esforço do MBL e da escória lavajatista é um erro, a experiência de outros países já demonstrou a possibilidade real do surgimento de um movimento reacionário de negação da política. Afinal, o lavajatismo é uma corrente de opinião de extrema direita, com base de apoio nos segmentos mais abastados da classe média.
Além disso, a volta parcial de Lula ao cenário político [o ex-presidente ainda corre o risco de interdição] precipitou os movimentos na velha direita, que tenta construir a chamada “terceira via” ao mesmo tempo contra o presidente Bolsonaro e Lula (PT), com o objetivo de preservar a aplicação da política de recolonização neoliberal do Brasil – conduzida de forma genocida e selvagem pelo governo bolsonarista.
Na próxima quarta-feira (14), no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), a sorte do país será posta em jogo novamente, gravitando entre os signos da tragédia, da comédia e da esperança.
*Ativista político e social. Autor dos livros ‘A Política Além da Notícia e a Guerra Declarada Contra Lula e o PT’ (2019), ‘A Saída é pela Esquerda’ (2020) e de ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil’ (2021) – todos pela Kotter Editorial. Escreve semanalmente em diversas mídias progressistas e de esquerda.
Stoppa: os pastores sabiam que perderiam no STF e vão usar a derrota para tentar criar o estado fundamentalista

247 - O comunicador Leonardo Stoppa, em entrevista à TV 247, afirmou que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que permitiu que estados e municípios proíbam a realização de cultos e missas presenciais durante a pandemia de Covid-19 é apenas “a ponta do iceberg”.
Para ele, os religiosos que defendem a liberação dos cultos já sabiam que seriam derrotados no Supremo e entraram com o pedido apenas como maneira de queimar ainda mais a imagem do Judiciário e dar o primeiro passo em direção à criação de um Estado fundamentalista cristão. “Nós entramos no momento mais perigoso daquilo que eu falo há cinco anos: o nascimento do Estado fundamentalista cristão no Brasil, que é exatamente a forma como os próprios Estados Unidos fazem para desestabilizar democracias no Oriente Médio, só que no Oriente Médio eles usam o Estado fundamentalista ilsâmico. Estamos vendo nascer no Brasil um Estado paralelo”.
“Os religiosos já sabiam que seriam derrotados no STF e articularam desde o início um discurso de que o STF estaria trabalhando pelo cerceamento da liberdade religiosa. E agora o discurso predominante entre os apoiadores do Bolsonaro e os religiosos fundamentalistas é que o STF votou contra Deus”, concluiu.
De faxineiro a dono de livraria: livreiro mais antigo do Rio deixa ofício após pandemia
Thais Carrança - Da BBC News Brasil em São Paulo
11/04/2021 09h33
Em seus 85 anos de história, a Livraria São José passou por seis endereços, uma guerra mundial e duas ditaduras. Considerada a mais antiga ainda em atividade do Rio de Janeiro, a livraria, no entanto, não sobreviveu à pandemia do coronavírus.
Entre fevereiro e março deste ano, fechou suas portas em definitivo.
Relacionadas

Ao assistir à série sobre sua overdose, Demi Lovato tem crise de ansiedade
Com o encerramento do negócio, também deixa o ofício o homem considerado o mais antigo livreiro em atividade no Rio de Janeiro, José Germano da Silva.
Hoje com 83 anos, Germano começou a trabalhar na loja aos 12, como faxineiro e entregador, e virou proprietário. Com quase 70 anos de livraria, enfrentou nos últimos anos uma dura redução das vendas, que caíram a zero em meio às restrições impostas pela crise sanitária.
"Já estava ruim. Quando entrou a pandemia, acabou de matar", diz Germano.
Ele mesmo é um sobrevivente: passou 39 dias neste início de ano internado com 70% dos pulmões comprometidos pela covid-19, 11 deles em um leito de UTI.
De volta à família, e reaprendendo aos poucos a andar, vive para contar a história da livraria, que vai ela mesma virar livro.
A livraria e os locais que não existem mais
Não se sabe a data ao certo, mas a Livraria São José foi criada em algum momento de 1935, tendo sido registrada no Departamento Nacional de Comércio apenas em 1939, já em plena ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas.
Seu primeiro endereço foi a Rua São José, no centro da capital fluminense.
"A Rua São José era a rua do centro do Rio de Janeiro que arregimentava o maior número de sebos, como são chamadas as livrarias de livros usados", conta Adriano Gomes Filho, pesquisador que está trabalhando na obra sobre a história da empresa.
"O lado ímpar da rua não existe mais. Foi todo demolido nos anos 1950, por conta das obras de remodelação do centro", acrescenta.
Em 1936, a livraria mudou do 35 para o número 38 da mesma rua, que seria seu endereço mais célebre. "Esse local também já não existe, foi demolido nos anos 1970."
A primeira tarde de autógrafos do Brasil
A partir de 1947, quando os empresários Carlos Ribeiro e Walter Alves da Cunha compraram a livraria, teria início sua fase áurea.
No primeiro dos "Anos Dourados", como ficou conhecida a década de 1950, além de livraria, a casa passou a ser também editora. E em 1954, Ribeiro trouxe uma inovação ao mercado editorial nacional: as tardes de autógrafos com autores.
"Por incrível que pareça, até essa época, não existia o hábito no Brasil de os escritores fazerem uma tarde ou noite de autógrafos. Havia um distanciamento entre a figura do escritor e o público", diz Gomes Filho, acrescentando que a novidade foi sugerida ao dono da livraria pela jornalista Eneida de Moraes, que participou desse tipo de evento em uma viagem a Paris, no pós-Segunda Guerra.
Eneida é descrita em um artigo do jornal paraense O Liberal como "jornalista comunista e feminista", "vanguardista revolucionária na literatura, na política e no Carnaval".
A primeira das tardes de autógrafos por ela inspiradas foi com Manuel Bandeira, que assinou exemplares da sua autobiografia Itinerário de Pasárgada - nela, o poeta do Pneumotórax conclui, cotejando versos, "que a poesia é feita de pequeninos nadas".
Festa Discos e a livraria como ponto de encontro
As tardes de autógrafos se tornaram frequentes, atraíram outros escritores e jornalistas, e levaram a São José às páginas de jornais e revistas.
Em 1956, Carlos Ribeiro se associou ao jornalista, escritor e tradutor Irineu Garcia e eles criaram juntos a gravadora Festa Discos, que passaria a lançar discos de poesia, em que os próprios autores declamavam seus versos.
O álbum de estreia tinha Carlos Drummond de Andrade de um lado e Bandeira do outro. A coleção contou ainda com nomes como Paulo Mendes de Campos, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto e Pablo Neruda.
"Até 1955, a livraria mais importante do Rio era a José Olympio, que ficava na Rua do Ouvidor", conta Gomes Filho.
Ponto de encontro dos intelectuais da época, a loja da editora de mesmo nome fechou naquele ano, quando os proprietários do imóvel onde ela estava instalada interromperam o contrato de aluguel para demolir o prédio e construir um novo.
"Quando houve o fechamento da José Olympio, a São José passou a ser a livraria mais importante do Rio de Janeiro e, não é exagero nenhum dizer, a livraria mais importante do Brasil, por conta das tardes de autógrafos, eventos de lançamento, da gravadora Festa e da edição de livros importantes", diz o pesquisador, acrescentando que, à época, o sucesso era tanto que a livraria se estendeu para os números 40 e 42 da Rua São José.
"Fora isso tudo, ela se tornou um ponto de encontro", afirma.
"Por exemplo, o Drummond trabalhava no Ministério da Educação e Cultura no centro do Rio e, invariavelmente, na hora do almoço ou no final do dia, ele podia ser encontrado na São José", conta Gomes Filho, lembrando ainda que várias eleições da Academia Brasileira de Letras foram decididas ali.

Mas veio o Golpe Militar de 1964
A época de glórias da livraria chegaria ao fim com o golpe militar de 1964.
Em 30 de abril daquele ano, um mês depois de o presidente eleito João Goulart ser removido do cargo pelos militares, Carlos Ribeiro foi detido por agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) no interior da loja.
A prisão durou apenas uma noite, mas chamou atenção porque o livreiro não mantinha ligações com partidos ou grupos políticos organizados, nem editava obras políticas.
"Provavelmente foi uma forma de pressão dos militares, já que a São José era um dos mais importantes pontos de encontro de escritores, jornalistas e intelectuais, muitos deles de esquerda e filiados ao PCB [Partido Comunista Brasileiro]", avalia Gomes Filho.
Após o golpe, essas reuniões se tornaram menos frequentes e passou a dominar o medo dos agentes infiltrados da Polícia do Exército, que andavam disfarçados pelos corredores da livraria, para ouvir a conversa dos simpatizantes da esquerda.
Em 1967, em meio a esse clima político pesado, também avança o processo de especulação imobiliária no centro do Rio de Janeiro, e Ribeiro e seu sócio vendem os sobrados da Rua São José para uma construtora.
Esses sobrados históricos foram demolidos, para dar lugar a um prédio comercial, que está lá até hoje.
A livraria se mudou para a Rua São José, 70, mas já não era a mesma, em meio ao avanço da repressão, da censura e com a edição do AI-5 (Ato Institucional nº 5), que endureceu o regime e tornou ainda mais difícil a convivência pública dos intelectuais.
De funcionários a donos
Em 1975, o sobrado da Rua São José foi novamente vendido, para a mesma empresa de engenharia que levou ao chão seu endereço mais célebre.
A livraria então se mudaria para um imóvel alugado, na Rua do Carmo, 61.
"O Carlos, que era livreiro na Rua São José desde 1921 - ele começou trabalhando na Livraria Quaresma -, com a mudança para a Rua do Carmo fica muito abatido, depressivo e triste", conta Gomes Filho.
"E aí, a livraria volta a ser só sebo e entra num processo de decadência."
As tardes de autógrafo no centro deram lugar a noites de autógrafos nas livrarias da Zona Sul.
E então Ribeiro, já muito doente, decidiu passar o negócio para três de seus funcionários:
Carlos Vieira, José Germano da Silva e Adelbino Espínola.
"Entrei na livraria em 1952, mas só fui registrado em 1954, porque em 1952 eu não tinha idade para tirar Carteira de Trabalho de Menor", conta Germano.
O faxineiro de 12 anos
Morador então da Pavuna, bairro da Zona Norte do Rio, distante cerca de 30 km do centro, Germano perdeu o pai aos 5 anos.
Seu padrasto era capataz de um grileiro, tomando conta de um canavial na região.
Contratado como faxineiro e entregador, o menino de 12 anos saía de casa às 4h da manhã, tomava o trem Maria Fumaça até a Praça da Bandeira, que atravessava para pegar o bonde até a Praça XV.
Germano virou Germano porque quando entrou para a Livraria São José, na Rua São José, já trabalhavam lá outros três Josés.
"Quando o patrão gritava 'seu José', todo mundo respondia 'eu, eu'. Aí passei a ser Germano", conta o livreiro.
Ao fim da década de 1960, o funcionário que entrou menino virou atendente do balcão.
E, ao longo da década seguinte, tomou gosto pela seção jurídica, muito prestigiada devido à proximidade da livraria com o Fórum de Justiça do Rio e a Faculdade Nacional de Direito da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Entre os clientes famosos estiveram os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) José Carlos Moreira Alves, aposentado em 2003, e Luiz Fux.
Germano lembra ainda do juiz Eliézer Rosa, da 8a. Vara Criminal do Rio ("Primeiro que o criminoso, buscava no infrator o homem, que a este era mister recuperar e restituir ao convívio social", diz um texto de elogio ao magistrado).
"Eu tinha amigos que diziam 'Poxa, Germano, você é formado em direito? Vejo você aí, conversando com juiz, com ministro, como se fosse um advogado'.
Eu dizia 'não, é que gosto de ler as orelhas dos livros'", conta o livreiro, entre risos.
A luta contra o aluguel
Com a doença de Carlos Ribeiro, seus filhos decidiram se desfazer do negócio.
Germano, Vieira e Adelbino se organizaram então para comprar a livraria.
A venda foi feita por 1 milhão de cruzeiros, com cada funcionário dando 150 mil de entrada, com dinheiro dos seus fundos de garantia.
O restante foi pago em suaves prestações mensais a perder de vista.
Carlos Ribeiro morreu em 1995, mas a São José permaneceu na Rua do Carmo, tocada por seus antigos funcionários, durante 30 anos.
Em 2004, com o aumento do aluguel, a loja se mudou novamente, para um imóvel menor, na Rua Primeiro de Março, onde funcionou até 2014.
"Então, mais uma vez, veio a questão imobiliária", conta Gomes Filho.
"O Rio de Janeiro ficou muito caro, por causa de Copa do Mundo, de Olimpíada, tudo encareceu."
Último sócio remanescente da loja, Germano então se mudou para uma sala comercial, no quarto andar de um edifício da Rua da Quitanda, contando com a venda online pelo site Estante Virtual.
"O movimento de loja é uma coisa, o de sala é outra.
Quem é que vai saber que a livraria estava no quarto andar da Rua da Quitanda? Ninguém sabia, mesmo a gente botando no site, pagando anúncio", lamenta Germano.
"Começou a ficar ruim o negócio para mim, eu ia lá de manhã, ficava até umas 16h, era eu sozinho, não vendia nada. Só gastando, pagando aluguel. Aí eu disse à minha filha:
'Melhor a gente acabar com isso aqui e eu viver da aposentadoria, porque a livraria agora não está dando mais nada'."
E então veio a pandemia
O que já estava ruim, ficou ainda pior com a crise do coronavírus. "Eu não vendi mais nada. Durante 30 dias, eu não vendi um livro", conta Germano.
E então, no começo deste ano, o livreiro caiu doente, vítima do vírus.
"Fiquei 39 dias internado, com 70% do meu pulmão tomado.
Só no CTI, eu fiquei 11 dias, entre lá e cá", lembra.
"Mas o homem lá de cima disse: 'Não, ainda não está na hora de você vir para cá, vamos deixar você sofrer mais um pouco aí embaixo'. Então eu tive alta e vim para casa."
Enquanto Germano se recuperava, coube à filha vender o acervo restante e entregar a sala da Rua da Quitanda, pondo fim à história de 85 anos da Livraria São José.
Para o pesquisador Adriano Gomes Filho, a história da Livraria São José foi uma história de sobrevivência em meio ao avanço da especulação imobiliária no Rio de Janeiro.
"Em nenhum dos endereços onde ela funcionou, sobrou o prédio original. Foi tudo demolido", diz Gomes Filho.
"Todas as mudanças de local da livraria foram relacionadas à especulação imobiliária ou ao aumento dos aluguéis.
Foi assim em 2004, quando ela sai da Rua do Carmo.
E em 2014, quando o Rio se tornou impraticável, e ela foi reduzida a uma sala comercial."
"O fim da Livraria São José tem uma carga simbólica muito grande", avalia o pesquisador.
"É o fim da última remanescente aqui no Rio de Janeiro dessas livrarias mais tradicionais.
E é uma pena, porque as novas gerações não têm ideia da importância que ela teve."
"Eu ia fazer quase 70 anos de Livraria São José", lamenta Germano.
"Minha vida toda foi ali na livraria.
Então eu tenho saudade.
Mas não posso abaixar a cabeça, não.
Tenho que ficar bem orgulhoso, porque o que eu fiz pela Livraria São José é coisa muito rara, entrar como faxineiro e chegar a dono da livraria.
E uma livraria que era mundialmente famosa.
Eu não vou dizer a você que eu não tenho saudade, claro que eu tenho."
Novo boletim médico de Paulo Gustavo diz que estado do ator é 'crítico'

Do UOL, em São Paulo
11/04/2021 17h41
Novo boletim médico do ator e humorista Paulo Gustavo, divulgado hoje (11), diz que seu quadro "apresenta sinais de gravidade".
O comunicado foi publicado nas redes do marido de Gustavo, o dermatologista Thales Bretas, que reforçou que o quadro clínico "está difícil" (leia a íntegra abaixo).
Paulo Gustavo está internado com covid-19 no Rio de Janeiro desde 13 março.
O último boletim médico do ator, divulgado na noite de sexta-feira, informou que ele passou por um procedimento após ser encontrada uma nova "fístula bronco-pleural", que atrapalha a circulação de ar no organismo, e que seu quadro era estável.
No novo comunicado, a equipe médica informou que as fístulas bronco-pleurais "somaram-se a complicações hemorrágicas, mas que vêm respondendo, de certa forma satisfatória, à reposição dos fatores da coagulação deficitários".
O comunicado também tem o agradecimento da família, que pede "boas energias" pela sua recuperação.
Leia o comunicado na íntegra:
Internado desde 13 de Março, no Rio de Janeiro, com quadro de COVID-19, Paulo Gustavo segue em terapia intensiva e apresenta sinais de gravidade.
As diversas complicações pulmonares já demandaram procedimentos invasivos como broncoscopias, pleuroscopias e colocação de dispositivos intrapulmonares.
Hoje, a equipe médica esclarece que:
"Às fístulas bronco-pleurais identificadas e tratadas somaram-se a complicações hemorrágicas, mas que vêm respondendo, de certa forma satisfatória, à reposição dos fatores da coagulação deficitários.
A situação clínica do paciente é crítica e todos os profissionais têm se empenhado incessantemente pela sua recuperação.
Todos os equipamentos necessários para o suporte da vida, como a ventilação mecânica e a ECMO continuam sendo necessários".
A família do ator agradece todo o carinho e orações e pede que continuem a enviar boas energias para a recuperação de todos os que se encontram na luta contra o vírus.
RJ: Banner mostra máscara de cabeça para baixo em campanha de R$ 13 milhões
Gilvan Marques
Do UOL, em São Paulo
11/04/2021 16h41
Imagens de uma campanha promovida pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio e que incentiva a vacinação contra a covid-19 mostram o uso da máscara de proteção facial de cabeça para baixo. A gafe foi percebida inicialmente por internautas e repercutiu nas redes sociais.
A peça publicitária, que faz parte da campanha intitulada "Rio Abraça a Vacina", foi exibida nas ruas do Rio antes que a falha fosse notada. Ela é acompanhada da seguinte frase: "A vacinação no estado do Rio de Janeiro começou".
Aposta de Bolsonaro, vacinação com AstraZeneca é lenta em todo o mundo
Ao UOL, o governo do Rio de Janeiro admitiu o erro e pediu desculpas à população. Segundo a assessoria de imprensa, as peças publicitárias da primeira fase da campanha foram recolhidas na sexta-feira (9) e uma segunda fase irá para as ruas na próxima terça (13). Leia a íntegra do comunicado abaixo.
Conforme noticiou o jornalista Ruben Berta em seu blog no dia 15 de março, a campanha "Rio abraça a vacina" custou R$ 13 milhões e foi contratada a jato. A pasta deu um prazo de dois dias úteis para que empresas interessadas apresentassem suas propostas. A Propeg foi a única agência que concordou em realizar o serviço.
Em seu perfil, no Twitter, Berta relatou ainda que "originalmente, na apresentação da agência de publicidade Propeg, os personagens sequer estavam de máscara".
Nas redes sociais, o uso incorreto do acessório não passou despercebido. Uma das pessoas que criticaram a peça foi a deputada federal Jandhira Feghali (PCdoB-RJ).
"A máscara nesta propaganda parece... de cabeça pra baixo? É sério isso?! A gente precisa dizer que máscara errada atrapalha na proteção?!", escreveu ela.
Comunicado do governo do Rio na íntegra
A Comunicação da Secretaria de Estado de Saúde (SES) e a Publicidade do Governo do Estado do Rio pedem desculpas por não terem percebido esse equívoco no uso da máscara dentro do nosso maior intuito nesta campanha: incentivar as pessoas que já podem se vacinar a buscar a imunização contra a Covid-19 e a manter as medidas de proteção. As peças publicitárias da primeira fase da campanha já foram recolhidas ontem (09.04) e uma segunda fase irá para as ruas nesta terça-feira (13.04).
Análise: Opinião - Não é só lockdown: o que o caso de Araraquara ensina sobre combate à covid

Márcia Speranza e Vitor Marchetti
11/04/2021 06h00
O triste aniversário de um ano da pandemia de SARS-CoV-2 (covid-19) no Brasil permite que se esboce um balanço das ações de combate. Em março de 2020, ainda alimentávamos a esperança de que a gestão da pandemia fosse difícil, sim, mas bem-sucedida. O otimismo moderado se amparava em fatores concretos: a estrutura do Sistema único de Saúde (SUS) estabelecida a partir de 1990, o sucesso no controle da disseminação de doenças como o sarampo e a poliomielite devido à vacinação em massa e engajamento da sociedade, e a experiência de sucesso em outras epidemias de escala global, como a H1N1.
Mas com o desmonte do SUS nos últimos anos, o boicote da presidência da república às medidas mundialmente reconhecidas e a completa falta de capacidade do Ministério da Saúde em coordenar esse processo nacionalmente, o Brasil é hoje o epicentro da pandemia. São mais de 340 mil mortes, em meio a um período de números diários de casos e óbitos alarmantes e crescentes.
A pergunta que se faz é: diante dessa situação de guerra, com descontrole total da pandemia — algo inédito no mundo -, que estratégia utilizar para o enfrentamento? No interior paulista, as curvas decrescentes de casos e internações de Araraquara saltam aos olhos de quem observa diariamente esses números no estado de São Paulo. Do ponto de vista das políticas públicas, o que será que deu certo por lá?
Importante polo do agronegócio, Araraquara é também uma cidade universitária. O município de 238 mil habitantes conta com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade de Araraquara e a Faculdade de Tecnologia (Fatec).
Essa estrutura de educação e pesquisa teve papel importante no modelo de gestão estabelecido pelo prefeito Edinho Silva (PT) no começo da pandemia. A partir de março de 2020, uma série de políticas públicas coordenadas foi posta em marcha para conter o avanço da doença. Entre as principais medidas estão a abertura de um hospital de campanha, uma central de internação, centros de atendimento exclusivos para pacientes sintomáticos, parceria com a Unesp para auxílio em testagem e vacinação, programa de telemedicina para monitoramento de pacientes infectados que estão em casa, equipes médicas de consulta domiciliar, centro de inteligência de covid-19 que organiza e divulga diariamente dados sobre contaminação, disponibilidade de leitos e perfil de doentes e casos fatais, equipes de bloqueio que coloca em quarentena os infectados e familiares, rede de solidariedade com distribuição de kits de higiene pessoal e cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade, bolsa cidadania para famílias em situação de extrema vulnerabilidade (mães arrimo de família, em situação de cárcere, idosos, mulheres grávidas); apoiadores de combate ao covid-19 contratados pela prefeitura com dispensa de concurso público, para trabalho temporário por 6 meses prorrogáveis por mais 6, envolvimento da guarda municipal para auxiliar na orientação da população para que fique em casa.
Portanto, a fórmula alardeada como "de sucesso" vai muito além do recente lockdown. Restrições duras à circulação só entraram em cena quando, na última semana de janeiro de 2021, houve aumento abrupto da curva de notificação. Uma análise das amostras de pacientes infectados indicou a circulação da cepa P1 de Manaus. Os resultados encontrados foram comunicados à cidade, ao governo estadual e federal. Imediatamente houve criação de leitos e reorganização de equipes médicas. Empresas que produzem insumos hospitalares e oxigênio hospitalar e em cilindros foram contatadas para ampliação do abastecimento nas unidades de saúde.
Para conter a circulação do vírus, foi decretada a fase vermelha do plano São Paulo, mas a curva de contaminação continuou aumentando. Pesquisadores da UNESP de Araraquara e Botucatu, clínicos da cidade e e pesquisadores da Universidade de São Paulo avaliaram a situação e sugeriram restrição mais radical da circulação de pessoas no município. O modelo adotado foi similar ao utilizado em países asiáticos, com fechamento dos estabelecimentos comerciais, incluindo supermercados, e da circulação de transporte público por seis dias. Os ajustes começaram com a liberação do sistema "drive-thru" nos supermercados e, dias depois, a reabertura para evitar desabastecimento. O transporte público foi reestabelecido após 12 dias do início do fechamento.
No período, houve queda de 58% na média móvel diária dos indivíduos contaminados. As internações caíram 31%, e o número de óbitos, 40%. A testagem indicou queda de 71% no número de contaminados. No 17º dia não havia paciente aguardando leito para ser internado. Esses dados indicam sucesso do modelo de isolamento da circulação de pessoas combinado com a coordenação de diferentes áreas técnicas da gestão municipal.
O exemplo de Araraquara pode inspirar ações semelhantes no resto do país. Na situação em que estão a grande maioria dos municípios brasileiros, é urgente adotar medidas mais duras para diminuição da circulação de pessoas e reduzir a transmissão . Como ainda não há vacinação em massa, a única forma de diminuir a circulação do vírus é por isolamento social.
Não custa lembrar que quanto maior a circulação viral, maior a probabilidade de ocorrer a seleção de vírus que escapam ao controle do sistema imunológico dos indivíduos que já adquiriram anticorpos e células de defesa específicas contra o SARS-CoV-2 por infecção natural ou vacinação. Este panorama faz do Brasil um local propício para a seleção de variantes de SARS-CoV-2 com características imprevisíveis quanto à transmissão e capacidade de causar doença.
Óbvio que não basta orientar as pessoas a ficar em casa. Os gestores públicos e a sociedade devem cobrar do Governo Federal programas para auxiliar o pequeno e médio empresário e os indivíduos que fazem trabalho autônomo. São eles e elas os os mais prejudicados pela necessidade de fechamento do comércio neste período crítico da pandemia. Além disso, é imprescindível que a União retome o programa de auxílio emergencial com valores que permitam a cobertura de despesas mínimas das famílias em situação de vulnerabilidade. Nesse aspecto, o modelo de gestão de Araraquara também demonstra o sucesso do isolamento social com programas de renda mínima associado a estratégias de comunicação, que transmitem informações sobre a pandemia e sobre os cuidados individuais de acordo com as características da população.
O exemplo que vem do interior paulista mostra que existe possibilidade de o Brasil sair dessa situação sanitária caótica. Para isso, é urgente tomar decisões para restrição drástica da circulação do vírus com coordenação política. Após o controle da fase crítica, enquanto a vacinação não ocorre, os gestores municipais devem garantir realizar o monitoramento da circulação do SARS-CoV-2 de modo a evitar novos picos de contágio. É assim, novamente, que Araraquara está fazendo.
Jairinho foi a festa de irmã após morte de Henry: 'clima pesado', diz ex

Herculano Barreto Filho
Do UOL, no Rio
11/04/2021 17h34
Horas após a morte do menino Henry, o vereador Dr. Jairinho foi à festa de aniversário da irmã com os filhos mesmo em meio a um clima de tensão. O episódio foi revelado pela ex-mulher do parlamentar na sexta-feira (9), em depoimento registrado na 16ª DP (Barra), ao qual o UOL teve acesso.
No relato, Ana Carolina Ferreira Netto disse ter levado os filhos para a casa dos pais de Jairinho em Bangu, zona oeste do Rio, na noite de 8 de março. Lá, informou ter encontrado o vereador e parentes em um "clima pesado". O político e a namorada, a professora Monique Medeiros, foram presos na quinta-feira (8), por suspeita de atrapalhar as investigações e ameaçar testemunhas. Eles são investigados por envolvimento no assassinato.
Morte de Henry expõe relações de poder de Jairinho
Antes de ir para a festa de aniversário da irmã, Jairinho permaneceu a maior parte do tempo conversando com o pai, o ex-deputado estadual e policial militar da reserva Coronel Jairo, segundo relatou Ana Carolina aos investigadores. Em depoimento, também revelou ter questionado o político sobre a morte de Henry.
Ele respondeu que Monique o teria encontrado passando mal, razão pela qual o levaram ao hospital correndo, mas [Jairinho disse] que não sabia o que havia ocorrido
Trecho do depoimento de Ana Carolina, ex de Jairinho
Ana Carolina disse aos policiais ter sido informada sobre a morte de Henry pelo motorista de Jairinho, que foi ao seu consultório para buscar umas contas dos filhos dela com o parlamentar.
Procurado, André França, advogado do vereador Jairinho, disse que não teve acesso ao depoimento. "Até hoje eu não tive acesso a esse depoimento e nem ao pedido de prisão do meu cliente. Estamos pedindo formalmente essas informações, mas ainda não recebi, o que me deixa impossibilitado de comentar esse e outros casos."
Agressões após casamento
Ana Carolina ainda relatou à polícia ter sofrido agressões do ex-marido em 2013 durante uma briga em que se negou a fazer uma viagem de lua de mel. Segundo ela, o vereador desferiu contra ela chutes na canela.
Dois dias após a festa de casamento, Ana Carolina fazia as malas para a lua de mel quando recebeu uma ligação de um número restrito. Do outro lado da linha, uma mulher começou a ofendê-la e dizia que Jairinho tinha saído para se encontrar com ela.
Na mesma hora, ela relata ter ido até a garagem tirar satisfações e constatou que o vereador falava com uma mulher ao telefone. Eles então subiram para a cobertura, discutiram e, quando a empresária disse "acabou", passou a desfazer as malas da viagem. Jairinho se enfureceu e a agrediu.
Ela chegou a fazer uma denúncia na época e passou por exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal). Mas disse ter retirado a queixa quando eles reataram o relacionamento, após uma separação de seis meses.
“A homofobia é a grande unanimidade; é onipresente”, diz Jean Wyllys

247 - O ex-deputado federal Jean Wyllys, exilado no exterior, afirmou em entrevista à TV 247 que a homofobia “é a grande unanimidade”, ou seja, é o preconceito que está instalado em absolutamente todos os setores da sociedade.
Ele comparou a homofobia ao antissemitismo, mas disse que o preconceito contra a comunidade LGBT é o mais forte hoje. “A homofobia é a grande unanimidade. O antissemitismo também é muito forte, muito arraigado na alma das pessoas, mas há uma certa vergonha depois do que aconteceu na Alemanha nos anos 1930, nos campos de concentração e nas câmaras de gás do Holocausto. O antissemitismo deu uma recuada em termos de expressão aberta, mas a gente está vendo aí que há grupos neonazistas em muitos países da Europa, mas não se fala, não se ofende assim tão impunemente um judeu como se ofende a comunidade LGBT”.
“A homofobia, junto com o antissemitismo, é a grande unanimidade. A homofobia é uma coisa que está na classe A e na classe C. Ela está entre direita, esquerda e centro. A homofobia é onipresente, ela tem uma ubiquidade”, completou.
Segundo o ex-parlamentar, a extrema direita brasileira, fascista, se utilizou da “onipresença” da homofobia para alavancar o antipetismo, que permitiu a chegada de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. “A extrema direita, ao colar no PT a imagem de partido ligado à questão sexual, conseguiu fazer com que o antipetismo se tornasse quase tão ubíquo quanto a homofobia, abrindo espaço para a ascensão de políticos como Bolsonaro”, de acordo com Wyllys.
Senador Kajuru grava conversa com Bolsonaro e revela que ele quer derrubar ministros do STF

247 – O senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) gravou uma conversa bombástica que teve na noite de ontem com Jair Bolsonaro. Nela, Bolsonaro fala em fazer do limão da CPI uma limonada, pautando o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. "Senador Kajuru, que assinou pedido ao STF pela instalação da CPI da Covid, gravou sua conversa com Jair Bolsonaro. O presidente diz: 'Você tem que mudar o objetivo da CPI, tem que ser ampla. Aí você faz um excelente trabalho pelo Brasil'", postou a jornalista Malu Gaspar, em seu twitter. Ela postou ainda um resumo da conversa.
"Se não mudar, a CPI vai simplesmente ouvir o Pazuello, vai ouvir gente nossa, para fazer um relatório sacana", disse ainda Bolsonaro. Kajuru responde: "Não, aí não, isso aí eu não faço nunca não, presidente, pela minha mãe".
O presidente insiste: "A gente tem que fazer do limão uma limonada ... Por enquanto é o limão que está aí. Tem que tensionar o Supremo para botar em pauta o impeachment dos ministros."
Kajuru se justifica: "E o que eu fiz? O senhor não viu o que eu fiz não?" Ele explica que pediu o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, e apela a Bolsonaro: "Mas eu só queria que o senhor desse crédito a mim nesse ponto". Kajuru também revelou o diálogo em seu canal no Youtube.
Gleisi diz que conversa de Bolsonaro com Kajuru é escandalosa e cobra impeachment

247 - A presidenta da PT, Gleisi Hoffmann reagiu na noite deste domingo (11) à gravação da conversa entre o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) e Jair Bolsonaro na qual ambos articulam uma ofensiva para, segundo Bolsonaro, ”para botar em pauta o impeachment dos ministros [do STF]”. Ela conclama pelo impeachment imediato de Bolsonaro.




Comentários
Postar um comentário