NOVOS ANOS LOUCOS

*
'Não errei nada':
Jair tem razão, sua sabotagem ao combate à covid funciona
*
Dez vezes em que Paulo Guedes provou ser o mais bolsonarista dos ministros
*
Brasil chega a 400 mil mortos nesta quinta-feira, 'GRANDE DIA' para a NECROPOLÍTICA
*
Dias cobra Anvisa e afirma:
precisa alertar os 62 países que usam Sputnik
*
Covid na Índia:
TRÊS EFEITOS para o BRASIL do descontrole da pandemia no país asiático
*

Caminhamos para NOVOS ANOS LOUCOS de HEDONISMO pós-covid-19?

Especialistas apontam que viveremos uma explosão na ciência, arquitetura, consumo, hedonismo. E alertam para o perigo de maiores desigualdades econômicas, sanitárias e digitais


Duas mulheres bailam no terraço do Hotel Sherman, em Chicago, em 1926.GEORGE RINHART / EL PAÍS

BERNA GONZÁLEZ HARBOUR

Ampliemos o foco. Hoje nos espantamos com as interrupções de vacinas que acreditávamos infalíveis, com os procedimentos para demissões e alterações nos contratos de trabalho, as máscaras, as distâncias, o cansaço e mil outras coisas que poderíamos pôr nesta lista. Que estamos cheios de colocar nessa lista. Mas vamos nos afastar alguns anos do momento atual e tentar nos situar em 2030, por exemplo, para olhar para trás, para a década que mal está começando. É um exercício. E talvez nem tudo seja tão voraz quanto pensamos.

O sonho do ‘home office’ vira pesadelo na pandemia

Os paralelismos com a década equivalente do século XX tornaram irresistível a proclamação de uma espécie de repetição do fenômeno dos loucos anos 20, imortalizados em O Grande Gatsby, romance de Scott Fitzgerald que não teve muita sorte no filme estrelado por Leonardo DiCaprio em 2013. Não importa. Serve para que compreendamos um ícone daqueles anos em que, após a Primeira Guerra Mundial e uma pandemia de gripe que custou milhões de vidas, o Ocidente mergulhou num mundo vibrante de oportunidades, de crescimento espetacular na bolsa de valores, de consumo, de hedonismo, excessos, esperança e vitalidade, embora tenha acabado como acabou. Hoje, graças à ciência e às vacinas, também esperamos sair de uma pandemia que parou o relógio da economia e de nossas vidas. As projeções econômicas já indicam boas perspectivas de crescimento: 6% em 2021 e 4,4% em 2022 em âmbito global, segundo os prognósticos do FMI.

O dinheiro guardado pelas famílias em forma de poupança —108,8 bilhões de euros (717 bilhões de reais) só na Espanha, segundo o INE— começará a fluir assim que for possível novamente nos socializarmos. Espera-se que um aumento nos gastos e no consumo venha acompanhado de um novo estado de espírito mais ansioso, no qual os relacionamentos, o lazer compartilhado, as viagens, a moda e o prazer voltem a tomar ímpeto. A indústria está pronta, segundo especialistas, para um salto tecnológico que, além do mais, vai trazer mudanças surpreendentes nesta década. Também para um cuidado com o meio ambiente que passa por outra forma de comer, voar, nos aquecermos ou escolher um veículo. Anos loucos estão chegando em termos de mudanças, sim, mas também um sério perigo de dualidade, pois as brechas que já são profundas estão se alargando e enviam enormes sinais de alerta sobre o capitalismo como o conhecemos.

Poderíamos abordar este assunto com o otimismo de cientistas, especialistas em tecnologia e peritos que celebram as oportunidades que estão prestes a surgir e que a pandemia acelerou; ou com o pessimismo ou realismo dos filósofos, analistas sociais, com os dados que nos lembram a nossa habitual incapacidade de calcular limites. Provavelmente tudo é verdade, como foram louquíssimos os anos vinte do XX em avanços muito positivos, e nem por isso se evitou o crash de 1929. Vejamos tudo isso.

A disseminação da eletricidade permitiu o surgimento dos primeiros aparelhos eletrodomésticos que tornavam a vida mais fácil; carros de combustão ou caminhões deram amplo impulso à movimentação da população e o transporte de mercadorias; as linhas de montagem multiplicaram a produção; o rádio invadiu as residências e transmitiu tanto a música mais contagiante como o rápido aumento das ações na bolsa de valores, o que incentivou a especulação. Aquilo acabou como acabou, sim, mas desta vez pelo menos já sabemos disso.


Centro de pesquisa em nanotecnologia em Troisk (Rússia).VALERY SHARIFULIN / VALERY SHARIFULIN/TASS

Como na época, hoje estão chegando mudanças vertiginosas, também aceleradas graças ao trabalho remoto que a pandemia fez avançar sete anos, segundo levantamento da consultoria McKinsey com base em entrevistas com executivos. “Nestes anos 20, vai ser consolidada a quarta revolução industrial, pela nanotecnologia, a biotecnologia, a engenharia genética e a inteligência artificial”, diz Nuria Oliver, doutora em Inteligência Artificial pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). “A própria vacina é resultado desses avanços, e se várias foram conseguidas ao mesmo tempo, é graças a esta quarta revolução industrial, que continuará avançando e transformando a sociedade. Por isso é uma revolução industrial.”

Uma geladeira ou máquina de lavar não parecem uma revolução, e, no entanto, foram. Enquanto elas permitiam economizar tempo na compra de alimentos frescos ou na limpeza das roupas, os caminhões percorriam o Ocidente para transportar produtos em massa. Hoje são os dados, a nuvem e a inteligência artificial que nos trarão saltos impressionantes: medicina e fármacos personalizados, telemedicina, implantes cocleares, retinais ou de estimulação cerebral que nos levarão a terrenos novos na ética, como a possibilidade de ouvir mais frequências ou aumentar nossa memória, diz Oliver. É assim que teremos mudado em uma década: educação sob demanda e mais horizontal, direção de carros sem motorista, e isto sem falar nos veículos que deixam de vez os combustíveis fósseis para trás. “Nem híbrido nem elétrico, é preciso ir ao hidrogênio, muito mais compatível com os recursos que temos no planeta”, diz Margarita del Val, provavelmente a virologista mais conhecida da Espanha, do Centro Molecular Severo Ochoa e do CSIC.

Equipe médica trata um paciente com telemedicina em um hospital em Aachen (Alemanha), em janeiro último.
Equipe médica trata um paciente com telemedicina em um hospital em Aachen (Alemanha), em janeiro último.INA FASSBENDER / AFP VIA GETTY IMAGES

Os loucos anos 20 do século XX, diz Del Val, foram “uma fuga para a frente porque não se aprendeu com a pandemia. E agora temos que aprender com ela, não sobre como se aplica uma injeção num braço, mas sobre o valor da pesquisa”. A cientista acredita que a chamada gripe espanhola foi um fracasso: “Não está registrada, não tem literatura nem arte, e é importante que haja um legado”. Virão mais pandemias, garante, e se conseguirmos transferir a energia científica coletiva da qual ela se admira e que possibilitou essas vacinas para a prevenção, poderemos enfrentá-las melhor. “É preciso contratar engenheiros de computação e colocá-los para administrar a saúde pública, há tamanha quantidade de dados que se soubéssemos ordená-los saberíamos exatamente quantos coágulos sanguíneos existem todos os dias em cada lugar, por gênero, por idade, por exemplo.”

Rastrear bactérias resistentes a antibióticos, monitorar o que circula, lubrificar a produção de vacinas para todos os coronavírus que surgirem serão pontos de destaque nesta década se houver investimento sustentado, porque isso não se improvisa como um hospital de campanha.

Até agora, as possíveis invenções da década: a mineração de dados e a inteligência artificial no papel dos antigos motores de combustão que mudaram vidas há um século. Mas qual ser á o charleston desta época, além das coreografias domésticas que circulam no TikTok? Qual o futurismo, o jazz ou a moda que marcam com ousadia esta era? O Tratado de Versalhes, que pôs fim à Primeira Guerra, foi celebrado ao som da Original Dixieland Jazz Band, um ritmo que ganhou força naquela década em que se tornou “música festiva, lúdica e dançante”, assim como o tango se espalhou, “por seus componentes muito sensuais, carnais, e também dançantes”, lembra Fernando Neira, especialista em música. As pessoas queriam dançar, se divertir, e Josephine Baker conseguiu, por exemplo, dançar com suas saias de banana como um ícone do explícito, da diversão, de dar tudo como se não houvesse amanhã. “Agora posso antever novamente uma cultura do hedonismo, da evasão, de um certo conteúdo sensual, principalmente depois da música muito torturada que se criou no confinamento”, diz Neira.

Duas bailarinas praticam uma coreografia para a rede social TikTok em abril de 2020.
Duas bailarinas praticam uma coreografia para a rede social TikTok em abril de 2020.

Para Luis Vidal, arquiteto de grande projeção internacional, a década vai ser a mais trepidante que conhecemos porque, diz ele, viveremos em 10 anos o equivalente aos últimos 100. E ele dá cinco motivos: porque a pandemia já está causando mudanças em nossas cidades; pelo meio ambiente, que definirá a agenda; pela inteligência artificial, que irá acelerar nossas sociedades; por recursos financeiros que nunca foram investidos de forma tão global e transversal em todos os setores; e pela revolução social. “Temos a oportunidade de melhorar substancialmente a forma como a sociedade habita, ocupa e usa o planeta.” A arquitetura, ele argumenta, visa, em última instância, melhorar a qualidade de vida das pessoas, e é isso que fará.

O mesmo otimismo se respira no mundo da moda, que pode preparar-se para uma nova explosão diante da fome de luxo despertada após a escuridão da pandemia e o tédio do moletom, segundo preconizou Anna Wintour, editora da Vogue e guru do setor. Isabel Berz, diretora do Centro de Pesquisa e Educação do Instituto Europeu de Design, acredita que a incerteza gerada criou o espaço perfeito para a reinvenção. “Na moda estamos sem compradores há duas temporadas, estruturas caíram e ainda assim a criatividade ilimitada está sendo potencializada, um renascimento do empreendedorismo espontâneo, uma relação de um com outro, de pessoa a pessoa, graças ao Instagram. Viveremos um grande momento para a criação de autor, a autenticidade, a relação direta e sem intermediários, em contrapartida a um sistema de produção industrial.”

As compras online, que explodiram na pandemia, não só não recuarão, mesmo que a mobilidade retorne, mas irão evoluir para um novo formato mais inclusivo, que Sophie Hackford, pesquisadora e especialista em tendências, em Oxford, descreve como um universo mais próximo dos videogames do que os websites atuais: “A nova internet desta década oferecerá experiências mais ricas e cinematográficas que deixarão o 2D para trás. Tomando como modelo os videogames de grande orçamento, vamos passar o tempo em incríveis mundos virtuais fazendo compras, curtindo com amigos, nos reunindo ou em consultas médicas. Serão novos parques temáticos onde comprar, trabalhar e passar o tempo, e não em páginas planas da web. Poderemos sentir os dados, cheirá-los, ouvi-los. Será uma década pós-pixel em que viveremos dentro da máquina e sem olhar para ela. O mundo se transformará em um computador. E a pandemia o acelerou”.

Jovens jogando videogame em Osaka (outubro de 2020).
Jovens jogando videogame em Osaka (outubro de 2020). BUDDHIKA WEERASINGHE / BLOOMBERG

A aceleração é um motor indiscutível. Carlos Sallé, engenheiro industrial e especialista em meio ambiente, ressalta que é também o motor da conscientização. “A pandemia foi um despertar, acelerou a consciência de que não resolveremos os problemas mundiais se não estivermos todos nisso. Que é preciso colocar o ser humano no centro.” Sallé constatou avanços consideráveis em mobilidade, como as pesquisas em hidrogênio, em baterias elétricas para aviões, biocombustíveis, a ampliação do uso de bicicletas, carros compartilhados e carros elétricos, a limitação que a França fará em voos curtos, como a Noruega já fez, bem como nos fertilizantes, cimento não poluente ou carne artificial que ajuda a baixar esse “altíssimo nível de proteína que não tínhamos antes da Segunda Guerra”.

Mas vamos olhar também para os obstáculos. Vejamos as ameaças neste exercício de prospecção em que não devemos fazer esforços excessivos para vislumbrar o que pode ser o nosso particular 1929: a desigualdade, o desemprego, a dívida pública elevada, as brechas digitais, sanitárias e educacionais, e a própria desconfiança num sistema que já nos falhou muitas vezes e não desperta esperança. “O diferente nessa crise é que ela se sobrepõe a outras crises”, lembra Txetxu Ausín, doutor em Filosofia e pesquisador do CSIC. “E assim como nos anos 20 do século XX havia otimismo, confiança e grandes esperanças em um capitalismo em desenvolvimento máximo, agora temos grandes incertezas, a ideia de progresso e crescimento é questionada.”

Jovens jogando videogame em Osaka (outubro de 2020).
Jovens jogando videogame em Osaka (outubro de 2020). NICOLAS TUCAT / AFP VIA GETTY IMAGES

O sistema enfrenta seus limites, reflete Ausín, marcados pela crise climática e ecológica ou pela sobrevivência do próprio planeta. E a segurança se rompeu, até mesmo na ciência. “Os felizes anos 20 deram lugar aos sombrios anos 30, e essa incerteza e medo estão causando uma polarização exacerbada, a busca de soluções simples para problemas complexos.” É um terreno fértil perfeito para o populismo e a simplificação que também triunfaram depois de 1929 na forma do fascismo e do totalitarismo, observa Ausín. Cuidado.

O alerta que Txetxu Ausín lança está sobre a mesa. E encontra resposta em um grande conhecedor da economia como Emilio Ontiveros, que percebe que os Governos ou instituições como o FMI finalmente entenderam que “a economia não está a serviço de nenhuma ideologia, mas a serviço de minimizar os danos”, e que percebe nas empresas que não basta mais ganhar dinheiro, mas que isso tem que ser compatível com limitar os danos ao planeta e as desigualdades.

“O sistema entendeu que os excessos são perniciosos para a sobrevivência do próprio sistema. Demoraram para perceber isso, mas a lição funcionou”, diz Ontiveros. “E não porque o sistema se tornou uma irmã de caridade, é claro. Mas porque viu as orelhas do lobo.” O economista constata avanços como a flexibilização das empresas graças ao trabalho remoto ou o debate sobre a obsolescência da idade de aposentadoria.

Esperança ou pessimismo? Anos loucos ou uma arma nas têmporas do próprio sistema? As soluções já estão escritas, destacam todos: nos objetivos ante as mudanças climáticas, a Agenda 2030, no investimento na ciência, na educação e no uso adequado da tecnologia e da robótica. Esta década tecnológica não precisa ser um pesadelo. “Não é uma força inevitável que estamos obrigados a absorver. Não precisamos caminhar como sonâmbulos para um futuro indesejável”, diz a pesquisadora de Oxford Sophie Hackford.

A questão é que entre a euforia, o charleston que vier, a moda deslumbrante e a promiscuidade social que ansiamos após o confinamento não imitemos Gatsby quando ele disse, enquanto apontava para as estrelas no céu: “Minha vida tem que ser assim, sempre em ascensão”. Olhar sempre ao redor, e não só para cima, nos poupará desgostos.

*

Falta de 2ª dose revolta idosos no RJ: 'Vão esperar a gente morrer?'

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

29/04/2021 04h00

Eram 5h desta segunda-feira (26) quando o vendedor ambulante Wanderley Cunha do Carmo, 68, conseguiu um lugar na fila para receber a segunda dose da vacina contra a covid-19 em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Mas deixou o local sem ser imunizado.

Com o estoque do imunizante CoronaVac zerado e sem previsão para a chegada de novos lotes, ao menos dez cidades do estado do Rio suspenderam a segunda aplicação. Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, estima que a situação esteja regularizada até a próxima semana.

Bolsonaro critica CPI da Covid e diz que pretende ser último a tomar vacina

Idosos sem 2ª dose na Baixada

28.abr.2021 - Wanderley Cunha do Carmo, de 68 anos, não conseguiu tomar a 2ª dose da vacina contra a covid-19 em um posto de Duque de Caxias (RJ), na Baixada Fluminense - Herculano Barreto Filho/UOL
1 / 6

28.abr.2021 - Wanderley Cunha do Carmo, de 68 anos, não conseguiu tomar a 2ª dose da vacina contra a covid-19 em um posto de Duque de Caxias (RJ), na Baixada Fluminense

Herculano Barreto Filho/UOL
28.abr.2021 - Diva de Souza, de 75 anos, recebeu apenas a 1ª dose da vacina em Duque de Caxias (RJ) - Herculano Barreto Filho/UOL
2 / 6

28.abr.2021 - Diva de Souza, de 75 anos, recebeu apenas a 1ª dose da vacina em Duque de Caxias (RJ)

Herculano Barreto Filho/UOL
28.abr.2021 - Veículos fazem fila em posto de vacinação de Nova Iguaçu (RJ). Sem a CoronaVac, só estão sendo aplicadas doses da Oxford/AstraZeneca - Herculano Barreto Filho/UOL
3 / 6

28.abr.2021 - Veículos fazem fila em posto de vacinação de Nova Iguaçu (RJ). Sem a CoronaVac, só estão sendo aplicadas doses da Oxford/AstraZeneca

Herculano Barreto Filho/UOL
28.abr.2021 - Lúcia das Neves Lima, 67, foi a um posto de vacinação em Nova Iguaçu (RJ), onde obteve a confirmação de que não há a 2ª dose da vacina contra a covid-19 - Herculano Barreto Filho/UOL
4 / 6

28.abr.2021 - Lúcia das Neves Lima, 67, foi a um posto de vacinação em Nova Iguaçu (RJ), onde obteve a confirmação de que não há a 2ª dose da vacina contra a covid-19

Herculano Barreto Filho/UOL
28.abr.2021 - Com a carteira de vacinação em mãos e sem perspectiva para a 2ª dose: professora Fátima Regina Revoredo da Silva buscou informações em um posto de vacinação de Nova Iguaçu (RJ) - Herculano Barreto Filho/UOL
5 / 6

28.abr.2021 - Com a carteira de vacinação em mãos e sem perspectiva para a 2ª dose: professora Fátima Regina Revoredo da Silva buscou informações em um posto de vacinação de Nova Iguaçu (RJ)

Herculano Barreto Filho/UOL
28.abr.2021 - José Manoel de Carvalho, de 67 anos, foi a um posto de vacinação em Nova Iguaçu (RJ) para buscar informações sobre a 2ª dose da vacina contra a covid-19 - Herculano Barreto Filho/UOL
6 / 6

28.abr.2021 - José Manoel de Carvalho, de 67 anos, foi a um posto de vacinação em Nova Iguaçu (RJ) para buscar informações sobre a 2ª dose da vacina contra a covid-19

Herculano Barreto Filho/UOL

Na praça de Imbariê, distrito de Duque de Caxias, um dos pontos de imunização, havia apenas incerteza. Carmo, que estava no local, retirou de um saco plástico o comprovante de vacinação, mostrando seu nome completo e data de nascimento. No verso, havia uma rasura na data prevista para a segunda dose, inicialmente prevista para 16 de abril.

Como dão a primeira dose sem ter a segunda garantida? A moça [enfermeira] falou que eu vou ter que esperar a minha vez. Mas já faz mais de um mês que tomei a vacina. Esqueceram da gente? Eu só queria que alguém me desse uma resposta, já não aguento mais. Estão esperando a gente morrer?

Wanderley Cunha do Carmo, vendedor ambulante

A doméstica Diva de Souza, 75, procurou o local de vacinação na praça Imbariê para a segunda dose há uma semana. "Mas não teve jeito. O rapaz [enfermeiro] disse que estava em falta", lamentou.

O aposentado Rogério dos Santos, 64, relembra da aplicação da primeira dose, quando chegou às 3h40 de 11 de abril à fila formada na praça de Imbariê. Com a senha 118, disse ter sido vacinado às 8h20.

De lá para cá, Santos viveu a expectativa da dose que completaria a imunização, prevista para domingo passado (25). "No momento, sei que não tem a segunda dose. Mas tenho que tomar logo, para ficar mais tranquilo e poder levar uma vida mais saudável", disse.

Frustração e medo

Ontem à tarde, uma pequena fila de carros se formou em frente ao centro olímpico de Nova Iguaçu, um dos 22 pontos de vacinação em funcionamento nesse município da Baixada Fluminense. "Vocês estão aplicando a segunda dose?", perguntou a aposentada Lúcia das Neves Lima, 67.

Ela deixou o local após ser informada por uma enfermeira de que estavam sendo aplicadas apenas a primeira dose da Oxford/AstraZeneca para mulheres de 58 anos com comorbidades e profissionais de educação com a mesma idade.

"Estão dizendo que não tem [a segunda dose]. Fiquei frustrado, porque estava com a expectativa dessa imunização. Pelo jeito, vou esperar mais um pouco", lamentou o aposentado José Manoel de Carvalho, 67, que foi de carro ao local.

A professora Fátima Regina Revoredo da Silva, 67, foi ao local no banco traseiro do veículo conduzido por sua filha. Com o comprovante de vacinação em mãos, ela trazia também a esperança de receber a segunda dose.

"Para ficar imunizada, eu preciso da segunda dose. O sentimento é de insegurança e de uma certa revolta. Há um certo descontrole dos governantes. Se tomei a primeira dose, teria que ter a segunda dose já à disposição. Agora, o jeito é redobrar os cuidados", argumentou.

O que dizem as prefeituras

A Prefeitura de Duque de Caxias informou que "aguarda a entrega de novas doses pelo Ministério da Saúde para dar continuidade ao calendário de vacinação". Gestantes, profissionais de educação da rede municipal, rodoviários e pessoas com comorbidades estão recebendo primeira dose da Oxford/AstraZeneca no município.

Em entrevista ao UOL em março, o prefeito Washington Reis (MDB) disse que não faria estoque de vacina para a aplicação da segunda dose. "Se eu priorizar os mais velhos e ficar com estoque de vacina, como fica? Lugar de vacina não é na geladeira", disse na ocasião.

Em nota, a Prefeitura de Nova Iguaçu reconheceu o problema de desabastecimento da CoronaVac e disse seguir o cronograma da Secretaria Estadual de Saúde. E, embora tenha relatado uma diferença de quase 15 mil entre primeira e segunda doses, não informou por que não foi feito um armazenamento para a segunda dose.

"Desde o mês de janeiro até o dia 25 de abril, último dia de entrega, o município recebeu 141.790 doses da vacina, sendo 78.125 primeira dose e 63.665 de segunda dose. Havendo, assim, uma diferença de 14.460 doses entre elas. As vacinas foram aplicadas de acordo com cronograma da Secretaria Estadual de Saúde. Aguardamos, portanto, as próximas entregas para prosseguir", disse a administração municipal, por nota.

*

Dias cobra Anvisa e afirma: precisa alertar os 62 países que usam Sputnik

Wellington Dias coordena o Fórum Nacional dos Governadores - Reprodução/Instagram
Wellington Dias coordena o Fórum Nacional dos Governadores Imagem: Reprodução/Instagram

28/04/2021 22h14

O governador do Piauí, Wellington Dias (PT), questionou a não recomendação da Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) para importação da vacina Sputnik V, produzida pelo instituto russo de pesquisa Gamaleya. 

O político é presidente do Consórcio Nordeste, que tem um acordo para adquirir mais 37 milhões de doses do imunizante.

À CNN Brasil, Dias pediu celeridade na análise dos documentos enviados pelos russos à Anvisa.

Brasileiros vacinados na Rússia relatam experiência com Sputnik V

Instituto Gamaleya é uma dos mais respeitados do mundo. 

Neste caso, NÃO É razoável dizer que NÃO recebeu documentação [Anvisa]. 

Eu mesmo conversei com o relator confirmando o recebimento. 

São 16 mil páginas. 

A exemplo do que entregaram no México, na Argentina, na Hungria e 62 países. 

O que aconteceu nesses países que consideraram a documentação diferente do Brasil?

Se for verdade o que diz a Anvisa, acho importante comunicar aos 62 países que estão utilizando."

No começo da semana, os cinco diretores da agência reguladora rejeitaram a aquisição e o uso da Sputnik V por parte do Brasil.

Por conta da negativa, o governador lamentou que a entrega do primeiro lote com 400 mil doses esperadas para o fim deste mês tenha de ser revisto.

"O prejuízo que a gente tem nesse atraso em relação à liberação da licença de importação é que perdemos a entrega do lote que estava previsto para abril. 

Agora vamos ter de negociar para que tenhamos um novo cronograma de entrega para maio", disse.

Paralelo ao consórcio formado por alguns estados do Nordeste, o governo federal firmou um acordo em março para importação de dez milhões de doses da vacina russa.

Semana passada, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Ricardo Lewandowski determinou que a Anvisa responda em 30 dias sobre os pedidos feitos pelos governos do Piauí e do Amapá de importação emergencial da Sputnik V. O mesmo já havia sido pedido em relação ao Ceará. O prazo conta a partir da data de formalização da solicitação de cada governo estadual.

Dificuldades na liberação da vacina se arrasta desde dezembro de 2020

Ainda no fim do ano passado, o laboratório brasileiro União Química, responsável pela produção do imunizante no país, solicitou à Anvisa para realizar a fase 3 no Brasil com a vacina. No entanto, a autarquia apontou que os critérios necessários não foram cumpridos e o pedido foi rechaçado. Após uma flexibilização nos requisitos, um segundo pedido foi feito em março., mas a análise está suspensa.

Também em entrevista à CNN, o gerente-geral de medicamentos da Anvisa, Gustavo Mendes, afirmou que a aplicação dessa vacina nas pessoas pode trazer efeitos desconhecidos.

"A gente foi muito claro em dizer que um dos aspectos principais e que repercutiu bastante foi a presença desse adenovírus replicante. A gente observou isso pelas informações prestadas pelo próprio Instituto Gamaleya. A replicação desse vírus é uma questão preocupante. Esse é um vírus modificado geneticamente, então não temos a segurança, nenhum estudo que mostre essa segurança para gente", alertou.

Medes garantiu que a análise não se deu por bases política, mas técnicas.

"Nós somos técnicos que estamos trabalhando a muito tempo nesse tipo de análise. Estamos aplicando os mesmos critérios para vacinas que a gente já aprovou, inclusive que utilizam adenovírus. Isso precisa ficar muito claro. Nossa posição é técnica, não tem aspecto político. Não inviabilizamos a vacina. Uma outra opção, além de provar a segurança desse vírus replicante, é a empresa mudar seu processo de fabricação para evitar a presença desse vírus. A gente sabe que é uma vacina que tem um princípio que faz sentido, mas precisa desses ajustes", destacou.

*

Após suspensão de vacinação, governo entregará 104 mil doses de CoronaVac

Sem insumos, a produção e entrega de novos lotes de CoronaVac ficou atrasada - IGOR DO VALE/ESTADÃO CONTEÚDO
Sem insumos, a produção e entrega de novos lotes de CoronaVac ficou atrasada Imagem: IGOR DO VALE/ESTADÃO CONTEÚDO

Do UOL, em São Paulo*

28/04/2021 22h14

O Ministério da Saúde anunciou que a partir de amanhã vai começar a enviar 104,8 mil doses de CoronaVac para os estados. O atraso na entrega de um novo lote do imunizante, como consequência da falta de insumos para sua produção, levou cidades de ao menos 11 estados do Brasil a suspenderem a vacinação contra a covid-19 esta semana.

A pasta, porém, não explicou a origem das doses de CoronaVac que serão enviadas aos estados ou o porquê de elas não terem sido distribuídas anteriormente.

Bolsonaro critica CPI da Covid e diz que pretende ser último a tomar vacina

De acordo com o ministério, as doses são destinadas para a vacinação de idosos entre 60 e 64 anos, forças de segurança e salvamento e Forças Armadas que atuam na linha de frente da pandemia. Também, estão sendo enviadas vacinas adicionais para imunização de trabalhadores da saúde de Santa Catarina.

Além disso, a partir de amanhã serão distribuídas 5,1 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca. Os imunizantes serão enviados de forma proporcional entre todos os estados e o Distrito Federal.

Cidades tiveram falta de imunizantes

A interrupção aconteceu em Alagoas, Amazonas, Espírito Santo, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Segundo o Jornal Nacional, da TV Globo, Amapá, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia também registraram suspensão da aplicação de doses.

No Rio de Janeiro, pelo menos 10 cidades interromperam a imunização, entre elas Duque de Caxias, Maricá, Mesquita, Nilópolis e Nova Iguaçu — as outras cinco não foram divulgadas. Nestes lugares, não há previsão de chegada de mais vacinas. Em alguns lugares, todo o estoque foi usado para aplicação da primeira dose, como orientou o Ministério da Saúde.

No Rio Grande do Sul a situação é preocupante porque mais de 260 mil pessoas já receberam a primeira dose e estão com o cronograma da segunda ameaçado. Em Canoas, a suspensão da aplicação da segunda dose teve início anteontem e deve atingir ao menos 10,2 mil pessoas.

Segundo a Prefeitura de Porto Alegre, a imunização não foi completamente interrompida, mas seguirá apenas para somente a primeira dose na população acima dos 60 anos e no mês de maio "farmácias parceiras voltam a vacinar profissionais [de saúde] após a chegada de novas doses".

Manaus afirmou que a suspensão foi feita a pedido do Ministério da Saúde e será temporária. Já a Prefeitura de Curitiba informou que 20 pontos de vacinação serão desativados a partir de amanhã, até que chegue o novo lote.

A Secretaria da Saúde de Pernambuco disse que esperava nesta semana 126 mil doses para a segunda aplicação, mas que só recebeu 28 mil, o que impede de concluir o esquema vacinal de quase 100 mil de pessoas. Maceió diz ter recebido só um terço das doses previstas para a semana.

Na Paraíba, após 63 cidades suspenderem a oferta da dose de reforço, a Justiça determinou que o Ministério da Saúde enviasse 75 mil doses antecipadamente para retomar a campanha. Natal e Mossoró (RN) interromperam a aplicação da 2ª dose. Levantamento da Secretaria da Saúde potiguar aponta que 56,8 mil pessoas já com a dose atrasada.

Em São Paulo, Cajamar parou com a segunda aplicação semana passada e informou que entrará em contato com as pessoas que estavam agendadas para remarcar a imunização quando receber nova remessa. Guarapari (ES) esgotou todo o estoque de vacinas ontem e anunciou que a aplicação de 2ª dose está suspensa a partir de hoje.

*Com Estadão Conteúdo

*

Brasil chega a 400 mil mortos nesta quinta-feira, 'GRANDE DIA' para a NECROPOLÍTICA 

Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters
Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

28/04/2021 20h21

Mantendo o ritmo de óbitos registrados diariamente, o Brasil vai ultrapassar as 400 mil mortes nesta quinta (29). Com os 3.019 óbitos desta quarta, já chegamos a 398.343. O alto patamar é o resultado mais palpável da estratégia de Jair Bolsonaro de espalhar o vírus para atingir imunidade de rebanho e acelerar o fim da pandemia.

A imunidade coletiva não veio e, segundo especialistas, nem chegará do jeito que o presidente pensa. Mas o efeito colateral dessa estratégia assassina, as centenas de milhares de corpos, está aí - apesar de muitos bolsonaristas acharem que pedras foram sepultadas no lugar de pessoas.

Nesta quarta, faz um ano que Bolsonaro, frente a um questionamento por mortes, disse: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre". Parece até que foi hoje. Nada mudou.

Todos os dias chegam notícias de pessoas queridas que se foram por causa de uma doença evitável se tivéssemos governo. E todos os dias me pego pensando o que será, nos próximos anos, dos filhos que elas deixaram e das biografias que elas não terminaram. E todos os dias sinto uma tristeza ao lembrar que o carrasco não tomou o poder pela força, mas foi eleito, avisando a todos que a morte teria centralidade em seu governo. E todos os dias agradeço pelo fato de que ainda não perdi a capacidade de me espantar frente a uma parte da população que acredita em cloroquina, mas não em vacina.

É difícil explicar para alguns amigos jornalistas de fora do país como é viver sob um governo que persegue a morte o tempo inteiro e das mais diferentes formas.

Onde um presidente da República se diverte de jet ski quando o Brasil atinge os primeiros 10 mil mortos por covid. Onde um ministro da Economia reclama do aumento da expectativa de vida dos brasileiros, afirmando que, desse jeito, a conta pública não vai fechar. Onde um ministro do Meio Ambiente defende sem nenhum pudor que as mortes da pandemia sejam usadas como cortina de fumaça para impor o desmonte da proteção ambiental, condenando esta e as futuras gerações. Onde membros da cúpula do governo elogiam publicamente um notório torturador e assassino da ditadura, chamando-o de herói.

Fosse o presidente capaz de sentir empatia, iria à TV, nesta quinta, para pedir desculpas. Como governa um país que vive uma catástrofe humanitária, ele tem responsabilidade pelo bem-estar do povo. Mesmo que não fosse o culpado (e ele é o principal culpado), uma pessoa decente faria isso.

Nesta terça, foi no sentido oposto: "Eu não errei em nada". Sob a ótica da promoção do vírus, ele não errou mesmo. Fez tudo o que tinha planejado para sabotar o combate à covid e seguir com seu plano que se resume em "pegar, pegou, morrer, morreu, bola pra frente que tem reeleição no ano que vem".

Por isso, esta quinta será o Grande Dia de Jair. Curioso para ver como ele vai celebrar. Churrasco? Jet Ski? Bolo?

*

'E daí?' de Bolsonaro às mortes por covid CONTINUA ATUAL um ano depois

28.mai.2020 - O presidente Jair Bolsonaro fala com simpatizantes e imprensa em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília - EDU ANDRADE/FATOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
28.mai.2020 - O presidente Jair Bolsonaro fala com simpatizantes e imprensa em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília Imagem: EDU ANDRADE/FATOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

28/04/2021 07h49

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre." Questionado no dia 28 de abril de 2020 sobre o Brasil ter ultrapassado a China em número de mortos por covid-19, o presidente Jair Bolsonaro deu essa declaração que se tornou símbolo de seu desdém diante da pandemia.

Naquele momento, o país registrava 474 mortos em 24 horas, totalizando 5.017 óbitos. Agora, exatamente um ano depois, temos 3.120 mortes em 24h, com 395.324 vidas perdidas.

Sua claque recebeu a declaração com risos em frente ao Palácio do Alvorada. Após um ano, ela continua lá, rindo de tudo o que ele diz. Já Bolsonaro está mais apreensivo, irritadiço, nervoso, porque uma CPI foi instalada, nesta terça (27), para investigar suas ações e omissões durante a crise.

O presidente viria a dar outras declarações semelhantes, seja eximindo-se pela catástrofe humanitária e econômica (e terceirizando a responsabilidade a governadores e prefeitos que implementaram medidas de isolamento social), seja desdenhando cobranças para que ele combatesse o coronavírus.

"Ninguém me pressiona pra nada, eu não dou bola pra isso", disse ele, por exemplo, na manhã de 26 de dezembro do ano passado, após ser questionado por jornalistas se havia pressão pelo fato de outros países, inclusive nossos vizinhos, já terem começado a vacinar sua população e nós não.

Vale lembrar que Bolsonaro havia se negado a comprar 70 milhões de doses da Pfizer, tentado sabotar a compra da CoronaVac pelo governo paulista, e se negado a fazer articulação para a compra de outras vacinas, além, da Oxford/AstraZeneca e do consórcio Covax Facility. Ações que custaram a vida de muita gente.

Como já escrevi aqui neste espaço, o "e daí?" do presidente é parente do "foda-se" do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, dito em fevereiro de 2020. Ele havia conclamado o presidente a não ficar "acuado" pelo Congresso Nacional (que pressionava para ficar com uma parte maior do Orçamento) e "convocar o povo às ruas". A indignação foi captada pelo áudio de uma live.

Vendo autoridades desdenhando a razão e não sendo responsabilizadas por isso, a população vai copiando. E passam a descumprir leis, regras e normas porque percebem que não valem muita coisa, mesmo. Neste momento, muitos ignoram os decretos estaduais e municipais e seguem as orientações do presidente, aglomerando-se de forma desnecessária, contaminando e se deixando contaminar, matando e morrendo. Cada um por si e Deus acima de todos.

Temos um presidente que, um ano depois, segue agindo da mesma forma, apostando no contágio amplo da população para atingir a imunidade de rebanho, mesmo que essa estratégia leve a muitas perdas.

Seja 5 mil ou 395 mil mortos, pelo menos ele é coerente. Pena que seja no desprezo à vida.

*

Dez vezes em que Paulo Guedes provou ser o mais bolsonarista dos ministros

Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

27/04/2021 21h25

Paulo Guedes cansou de dar provas de que é o mais bolsonarista dos ministros de Jair Messias, com rompantes de demofobia, dificuldade de sentir empatia e ausência de autocontrole. Mas uma parte dos formadores de opinião ainda insiste em passar pano, afirmando que ele é "técnico".

De tempos em tempos, Guedes parece se revoltar com isso. Quer mostrar ao mundo que é bolsonarista sim.

Para ajudá-lo, a coluna reuniu dez vezes em que causou orgulho ao chefe. Confira:

1) Criticou o aumento da expectativa de vida dos brasileiros

O ministro da Economia reclamou, nesta terça (27), em reunião do Conselho de Saúde Suplementar, que o aumento da expectativa de vida dos brasileiros dificulta que o governo feche as contas. "Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130. Não há capacidade de investimento para que o estado consiga acompanhar."

2) Acusou a China, nossa fornecedora de vacinas

No mesmo encontro, afirmou que o "chinês inventou o vírus" da covid-19, sem apresentar provas, ecoando as teorias conspiratórias da extrema direita, de que o coronavírus nasceu num laboratório do gigante asiático. Também reclamou que as vacinas desse país são piores que as dos Estados Unidos. Vale lembrar que, semanas atrás, o Brasil estava implorando para a China liberar mais insumos para fabricarmos imunizantes. Depois, tentou se justificar, dizendo que até tomou a CoronaVac - versão adaptada do "até tenho amigos"...

3) Afirmou que bastariam R$ 5 bilhões para acabar com o coronavírus

"Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus. Porque já existe bastante verba na Saúde, o que precisaríamos seria de um extra." A declaração foi dada por ele, em entrevista à revista Veja publicada em 13 de março de 2020. De acordo com o site de transparência do Tesouro Nacional, o governo federal gastou R$ 524 bilhões, em 2020, a maior parte com o pagamento do auxílio emergencial (R$ 293,11 bilhões).

4) Reclamou de trabalhadoras empregadas domésticas indo à Disney

"O câmbio não está nervoso, [o câmbio] mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada." Durante um evento em Brasília, no dia 12 de fevereiro de 2020, o ministro cometeu um de seus maiores sincericídios. Percebendo o absurdo transcrito acima, quis corrigir, afirmando que (antes que o acusassem daquilo que ele realmente disse), na sua opinião, "todo mundo tem que ir para a Disneylândia, conhecer um dia, mas não três, quatro vezes por ano". E sugeriu substituir por atrações nacionais - para a alegria de seu então colega de Esplanada e dono de laranjal, Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo.

5) Chamou servidores públicos de parasitas

Alguns dias antes, Paulo Guedes já havia causado celeuma ao chamar os funcionários públicos de "parasitas" do orçamento nacional, em um evento no Rio de Janeiro. "O hospedeiro [governo] está morrendo, o cara virou um parasita", afirmou, criticando a política de aumentos salariais de servidores no dia 7 de fevereiro. Generalizou o trabalho de servidores públicos, que cuidam da nossa saúde, de nossa educação, de nossa segurança. Diante da repercussão extremamente negativa, disse que sua fala foi descontextualizada (desculpa padrão...) e que reconhecia a qualidade do serviço desses trabalhadores, citando até a família e amigos.

6) Insinuou um novo AI-5 em caso de protestos de rua

"Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5." O ministro da Economia, de tempos em tempos, nos lembra o quanto é fã do modelo chileno, com uma economia neoliberal erguida sobre as fundações do governo autoritário, assassino, estuprador e torturador do general Augusto Pinochet. A declaração foi dada, no dia 25 de novembro de 2019, em uma coletiva de imprensa em Washington DC. De forma irresponsável, chamou possíveis manifestações de rua contra as reformas de "quebradeira", fazendo uma analogia ao que estava acontecendo no Chile. Vale lembrar que o país sul-americano estava em convulsão por conta da falta de serviços públicos de qualidade, das baixas aposentadorias mas, principalmente, da violência com a qual o governo Sebastián Piñera reprimiu as manifestações.

7) Criticou pobres por não pouparem (por que será, né?)

Ao defender o regime de capitalização (no qual cada um faz uma poupança para a sua própria aposentadoria), em detrimento ao de repartição (em que os trabalhadores da ativa contribuem para as pensões dos aposentados), Guedes lamentou que o Congresso Nacional tenha vetado a previsão de mudança de um para outro. E mergulhou em insensibilidade e preconceito. "Com ele, você colocaria o Brasil para crescer, aumentaria taxa de poupança, educaria financeiramente famílias mais pobres. Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo", afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo, em novembro de 2019.

8) Afirmou que são os pobres que destroem o meio ambiente

Diante do frio no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Guedes afirmou que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. Disse que [os pobres] "destroem porque estão com fome", em janeiro de 2019. Provou que vive numa realidade paralela, onde a Vale não causou duas catástrofes de lama tóxica em Brumadinho e Mariana, destruindo vidas pelo caminho. Onde não há indígenas (que detêm os maiores índices de preservação de vegetação nativa em seus territórios) sendo expulsos de suas terras em nome da expansão agropecuária, como no Mato Grosso do Sul. Onde o comportamento avarento de indústrias não impediu a redução do enxofre no combustível usado por veículos, o que causa câncer e morte nas grandes cidades.

9) Xingou a esposa do presidente da França

"O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo. Mas não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado ", disse Paulo Guedes, no evento "A Nova Economia do Brasil", no dia 5 de setembro de 2019. O que Brigitte Macron tem a ver com a Nova Economia do Brasil não sabemos, mas o machismo e a grosseria animou os seguidores fiéis do presidente, que estavam irritados com as críticas do presidente francês a Bolsonaro.

10) Bolsonaro tem que ganhar muito mais do que recebe hoje

E, claro, a relação não poderia terminar sem uma puxadinha de saco no patrão. Enquanto o cidadão comum estava fazendo milagre para comprar o arroz e o feijão, que estavam sumidos ou pela hora da morte, o ministro da Economia defendeu que o seu chefe, o presidente da República, deveria receber "muito mais do que recebe". Bolsonaro tem um salário de quase R$ 31 mil mensais, além de palácio, comida, roupa lavada, emas para brincar, helicóptero para dar carona no casamento do filho e um cartão corporativo que não discrimina os gastos ao público. "A Presidência da República, o Supremo, evidente que eles têm que receber muito mais do que recebem hoje. Pela responsabilidade do cargo, pelo peso das atribuições, pelo mérito em si para poder chegar a uma posição dessas", disse Guedes em setembro de 2020.

*

'Não errei nada': Jair tem razão, sua sabotagem ao combate à covid funciona

Parentes de vítimas em cemitério em Manaus - BBC
Parentes de vítimas em cemitério em Manaus Imagem: BBC
Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

27/04/2021 19h20

"Eu não errei em nada." Vou ter que concordar com a avaliação de Jair Bolsonaro sobre o seu desempenho diante da pandemia. Claro que não errou. Pelo contrário, fez tudo o que tinha planejado para sabotar o combate à covid-19. Para provar, temos quase 400 mil cadáveres.

O que alguns leem como negligência, omissão, ignorância e incompetência, na verdade, foi ação deliberada, consciente e planejada para contaminar o país.

Desde que o presidente abraçou a tese da imunidade de rebanho, defendida por alguns de seus conselheiros, como o ex-ministro Osmar Terra, ele vem defendendo que o melhor caminho é garantir que o vírus se espalhe o mais rápido possível e conclua seu ciclo naturalmente.

O problema é que a infecção pelo coronavírus tem um efeito colateral indesejado e irreversível: a morte.

Ao decidir qual seria a estratégia diante da doença, Bolsonaro pesou na balança que o número de mortos decorrentes desse efeito colateral da busca burra e insensível pela imunidade de rebanho seria menor que o impacto eleitoral de adotar, em nível nacional, medidas de isolamento social que deprimissem a economia.

Para Bolsonaro, 400 mil óbitos (0,2% da população) pesa menos que 14,3 milhões de desempregados (6,7%).

O que não deixa de ser irônico, uma vez que a sua estratégia tem outro efeito colateral: a prorrogacão da duração da crise. Caso as medidas como quarentenas e lockdowns fossem respeitadas, a segunda onda iria embora mais cedo, como ocorreu em outros países. Mas a sabotagem de Bolsonaro em cima dos esforços do naco racional da sociedade, de empresas, de governadores e de prefeitos faz com que o isolamento não seja perfeito, estendendo a pandemia.

Com uma pandemia mais longa, perdem-se empregos e fecham-se micro e pequenos negócios. Com isso, o Brasil está lascado, como diria o doutorando em economia Gil do Vigor.

Mesmo o atraso na retomada do auxílio emergencial neste ano, que tem cara de sacanagem de Paulo Guedes e de barbeiragem de Jair Bolsonaro é, também, sabotagem.

Claro que a equipe econômica do governo fez de tudo para empurrar com a barriga a prorrogação do benefício, atendendo aos desejos do mercado. Mas Bolsonaro se aproveitou disso. Ele sabe que ninguém vai ficar em casa, protegendo-se da covid, com seus filhos passando fome. Esse atraso manteve os trabalhadores pobres na rua.

Quando a situação ficou insustentável, o auxílio retornou no dia 6 de abril, mas com um valor irrisório. Na primeira onda, ele foi de R$ 600/R$ 1200 por domicílio, o que foi reduzido para R$ 300/R$ 600 quando ela arrefeceu no segundo semestre.

Agora, na segunda onda, mais mortal que a primeira, o valor pago tem sido de R$ 150/R$ 250/R$ 375 por domicílio - o piso é insuficiente para comprar 23% de uma cesta básica em São Paulo, de acordo com o Dieese.

A transferência desses baixos valores, que não garantem que uma família fique em casa com tranquilidade, tem levado o governo a ser acusado de sabotar o isolamento social.

O presidente continua colocando em prática seu plano: promovendo aglomerações, combatendo quarentenas, atacando o uso de máscaras, distribuindo remédios que não funcionam para que as pessoas se sintam seguras de ir às ruas.

A imunidade de rebanho não chegou, mas, além dos 400 mil mortos, a multiplicação alucinada do vírus produziu variantes agressivas por aqui.

A violenta pandemia não é fruto de erro, mas de um projeto. Mas, verdade seja dita, ele não enganou ninguém. Em 2017, em uma entrevista, disse: "sou capitão do Exército, a minha especialidade é matar, não é curar ninguém". Muitos não quiseram ouvir, outros acharam que ganhariam um bom dinheiro com ele.

*

Covid na Índia: três efeitos para o Brasil do descontrole da pandemia no país asiático

Índia tem registrado mais de 300 mil novos casos de covid-19 por dia na última semana - EPA
Índia tem registrado mais de 300 mil novos casos de covid-19 por dia na última semana Imagem: EPA

Paula Adamo Idoeta - Da BBC News Brasil em São Paulo

28/04/2021 16h35

Níveis de contaminação sem precedentes até agora no país asiático vão drenar recursos globais, movimentar a distribuição de vacinas e, potencialmente, produzir variantes ainda mais perigosas do coronavírus.

Índices nunca vistos antes de contaminação por covid-19 e cenas de desespero diante do colapso da rede de saúde colocam a Índia como novo foco da atenção global na luta contra o novo coronavírus, provocando uma onda de reações internacionais.

Nas últimas 24 horas até esta quarta-feira (28/4), a Índia registrou um recorde mundial de novos casos de covid: 360,9 mil, depois de uma semana inteira registrando mais de 300 mil novos casos por dia.

Covid: As imagens que revelam o colapso na Índia na pandemia

Também nesta quarta, o país se tornou o quarto do mundo a superar a marca dos 200 mil mortos pela doença (junto com EUA, Brasil e México), mas há indícios de que esses números sejam, na verdade, muito maiores, em um país de 1,3 bilhão de habitantes que não conta com um sistema estruturado de saúde pública.

Apenas em Nova Déli, uma investigação de uma emissora local identificou mais de mil mortes por covid-19 que não foram registradas, no intervalo de uma semana.

Repetindo o caos visto recentemente no Brasil, hospitais de diversas partes da Índia estão rejeitando pacientes por não terem mais leitos nem suprimento de oxigênio. Lá, até fogueiras estão sendo improvisadas para cremar os mortos.

As consequências do descontrole da pandemia no segundo país mais populoso do mundo vão muito além das fronteiras indianas, com reverberações em todo o planeta - e podem ser particularmente sentidas no Brasil, ainda fragilizado por uma segunda onda de covid-19 que não terminou e pelos índices insuficientes de vacinação.

A seguir, a BBC News Brasil aponta três desdobramentos diretos e curto prazo da crise indiana.

Aquece a disputa global por vacinas

A situação calamitosa na Índia é apontada como um motivo-chave da pressão sobre o presidente dos EUA, Joe Biden, para finalmente abdicar de um lote de vacinas que vinha sendo cobiçado por vários países, inclusive pelo Brasil.

Na segunda-feira (26/04), representantes do governo americano anunciaram que vão doar suas 60 milhões de doses do imunizante Oxford-AstraZeneca que estarão em produção pelos próximos meses (e que ainda não têm autorização para serem aplicadas nos EUA).

A partilha das doses ainda não foi definida, segundo a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki. Mas fontes próximas ao governo indiano ouvidas pela agência Reuters afirmaram que o país está na expectativa de receber a maior parte desse lote.

Tanto o Brasil quanto países como Canadá e México haviam feito pedidos aos EUA, nos últimos meses, para receber essas vacinas, mas não se sabe até o momento se ficarão com alguma parcela delas.

Ao mesmo tempo, o agravamento da situação na Índia pode levar o país asiático a repetir o que fez em março, quando barrou temporariamente parte de sua exportação de vacinas para disponibilizar mais doses para sua população. Nesta quarta, a corrida pela imunização deve aumentar: as autoridades anunciaram que todos os indianos com mais de 18 anos podem se cadastrar para receber a vacina.

Por enquanto, menos de 9% dos indianos foram imunizados com ao menos uma dose.

A Fiocruz confirmou à BBC News Brasil que ainda aguarda um lote de 8 milhões de doses vacinas da AstraZeneca sendo produzidas pela empresa indiana Instituto Serum, mas afirmou que as negociações em torno da entrega estão sendo conduzidas pelas diplomacias dos dois países.

A BBC News Brasil tentou contato com o Instituto Serum e com a assessoria de imprensa do Itamaraty, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado se essas respostas chegarem.

Mais demanda por equipamentos e medicamentos ainda escassos

Diversos países anunciaram, nos últimos dias, a entrega de suprimentos médicos para ajudar a conter o colapso indiano.

Nesta terça (27/04), chegou à Índia um carregamento de itens como cilindros de oxigênio e respiradores enviados pelo Reino Unido.

No final de semana, o governo americano anunciou que também liberaria ajuda aos indianos - desde matéria-prima para a produção de vacinas (que até recentemente estavam sob um veto de exportação imposto pelos EUA, para garantir sua produção interna de vacinas) até medicamentos, equipamentos de proteção pessoal e testes de covid-19.

"Os EUA estão trabalhando proximamente ao governo indiano para rapidamente enviar apoio e suprimentos adicionais durante este alarmante surto de covid-19", escreveu no Twitter a vice-presidente Kamala Harris.

The U.S. is working closely with the Indian government to rapidly deploy additional support and supplies during an alarming COVID-19 outbreak. As we provide assistance, we pray for the people of India?including its courageous healthcare workers.

-- Vice President Kamala Harris (@VP) April 25, 2021

Mas a ajuda até agora foi classificada como "uma gota no oceano" diante das necessidades da Índia, nas palavras de uma autoridade local de saúde ouvida pela BBC, indicando que continuará subindo a demanda internacional por produtos cuja cadeia de suprimento foi profundamente afetada pela pandemia.

Basta lembrar as dificuldades que o Brasil enfrentou recentemente para obter no mercado externo insumos para a produção do chamado "kit intubação", forçando algumas equipes hospitalares a fechar leitos ou a intubar pacientes sem poder sedá-los com medicamentos adequados - algo considerado desumano pelos próprios médicos.

O uso desses insumos continua alto no Brasil, que registrou na última semana epidemiológica mais de 400 mil casos de covid-19.

"Enquanto a gente mantiver este nível de ocupação hospitalar e de UTI no Brasil, vai ter dificuldade (em ter insumos). Quando o estoque acabou, tivemos de importar e não foi suficiente - e até regularizar isso vai demorar um pouco", explica à BBC News Brasil a médica Fátima Marinho, que foi da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde entre 2005 e 2007 e hoje integra a consultoria Vital Strategies.

Marinho sugere, portanto, que o Brasil aproveite o pequeno alívio dado pela baixa atual de casos para repor seus estoques "e se preparar para a terceira onda, porque ela virá".

A médica explica que a tragédia em curso na Índia vai, de fato, drenar recursos mundiais. "A Índia tem um parque industrial farmacêutico grande, mas uma população grande demais, em um país que não tem um Sistema Único de Saúde."

Novas variantes vão prolongar pandemia - e afetar cada vez mais jovens

Assim como aconteceu no Brasil com a variante P.1, apontada como mais infecciosa e potencialmente responsável (junto com uma gama de outros fatores) pelo fato de muito mais pessoas jovens terem adoecido mais rapidamente com quadros graves de covid-19, a Índia está lidando tanto com a variante britânica quanto com uma variante local, chamada B.1617.

E, quanto mais rapidamente o vírus infecta mais gente - como tem acontecido na Índia, com seus recordes em novos casos diários -, maiores são as chances de que ele consiga produzir aleatoriamente novas mutações, cada vez mais perigosas.

Essas potencialmente podem se espalhar com facilidade para outras partes do mundo e tornar menos eficientes os programas globais de vacinação.

"A gente espera (que da Índia venham) muitas variantes. As que forem mais eficientes em transmissão acabam se tornando dominantes. Em populações gigantes como a da Índia e grandes como a do Brasil isso é um risco enorme, porque se você não controla (a transmissão) pode acabar surgindo um vírus novo", colocando as vacinas atuais em risco, explica Fátima Marinho, da Vital Strategies.

Por isso, diz ela, vai ser cada vez mais importante não apenas testar pacientes com testes sorológicos ou PCR, mas sim analisar o genoma dos vírus das pessoas contaminadas para identificar quais são as variantes em circulação nas comunidades.

"Não basta mais o teste positivo ou negativo, mas sim trabalhar com amostras de vírus das infecções novas, para rastreamento de genoma. Se não fizermos isso vai ser um erro enorme. A OMS (Organização Mundial da Saúde) vai ter que fazer um esforço mundial para ajudar os países que não conseguem fazer por conta própria, porque é algo que afeta a todos. Não tem saída isolada da pandemia", explica Marinho.

A necessidade de conter o surgimento de novas variantes explica também o pleito de epidemiologistas em todo o mundo por uma distribuição mais igualitária das vacinas, para proteger os países mais pobres, os que ainda têm baixos índices de imunização e os que, como a América do Sul, estão se preparando para o inverno, quando o coronavírus tem ainda mais facilidade em se propagar.

"É do interesse nacional de países ricos impedir o avanço do vírus no mundo inteiro. Nenhum de nós estará seguro até que todos nós estejamos seguros. E o único jeito de controlar as variantes é controlando as infecções, e para isso precisamos vacinar em áreas onde a infecção tende a aumentar - e no momento é no Hemisfério Sul", disse à BBC News Brasil no início de abril o médico Ali Mokdad, professor do Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação da Universidade de Washington.

"Estamos preocupados com muitos países, porque o vírus está em alta circulação, haverá novas variantes, a maioria delas provavelmente escapará (da proteção do sistema imunológico), o que significa que infecções prévias não darão imunidade e as vacinas ficarão menos eficientes."

*
*
*
*
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

________________________* QUARKS, LÉPTONS e BÓSONS ________________________* COMUNISMO de DIREITA e NAZISMO de ESQUERDA. É o FIM da PICADA...! ________________________* http://www.nano-macro.com/?m=1

9