ÓDIO ___ é FEIO, é PECADO, deus NÃO gosta...!

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Sobre sentir ÓDIO 
Bolsonaro criou o bolsonarismo ou o bolsonarismo criou Bolsonaro?
Augustus Nicodemus, 66: Bolsonarista em 2018 e 2022

Sobre sentir ódio - Carlos Hortmann

Bolsonaro recebeu ódio porque planta ódio: um raciocínio equivocado

Por Carlos Hortmann 

Confesso ao leitor/a que tinha preparado outro artigo para esse mês. Todavia, a situação brasileira me impõe trazer essa reflexão e também porque o presidente Lula da Silva tem dito várias vezes: “eu não sinto ódio”.

Algo importante que pretendo ressaltar de princípio: não estou a tratar ou a falar de sentir ódio em geral ou abstratamente (por qualquer pessoa), mas de um ódio determinado e específico, portanto, o ódio de classe – como afeto e elemento mobilizador/transformador. Muitos poderão ficar espantados com a minha afirmação, mas peço-vos, gentilmente, que respirem e tentem continuar o texto.

Acredito que a maioria de nós já ouviu a seguinte frase desde à tenra idade: “você não pode sentir ódio porque é feio ou deus não gosta”. Tal ditado aponta para uma cosmovisão “cristã” de mundo presente na formação social brasileira, contudo, o modo como essa perspetiva vazia de ódio é instrumentalizada enquanto ideologia, no sentido de controlo e dominação de classe, tem por finalidade construir um imaginário de que é pecado, “anormal” ou ruim as pessoas sentirem ódio, principalmente se for pela classe dominante** (burguesa monopolista).

Gostaria de pontuar algo: vivemos numa sociedade em que o conflito não é a excecionalidade, mas a regra. Apresento-vos dois exemplos. A lógica do patronado é pagar salários cada vez menores aos trabalhadores/as para acumularem (lucrarem) cada vez mais, como consequência nós trabalhadores/as temos menos condições objetivas e básicas de vida. Isto é, passamos a não termos soberania/segurança alimentar, um teto digno para viver (sem o medo de ser despejado); a ter que escolher entre pagar a conta de luz ou comprar comida – no último ano 19 milhões de brasileiros foram atingidos pela fome. Outra oposição é entre os proprietários de grandes empresas (os capitalistas) e nós trabalhadores/as que resta, apenas, vender a nossa força de trabalho em troca de um salário para sobreviver; e esses proprietários farão de tudo para não perderem o poder e controlo sobre a propriedade dos meios de produção (de riqueza em geral), que é de onde eles retiram a mais-valia (“lucros”), fruto do nosso trabalho. Em resumo, a forma como produzimos riquezas no capitalismo é coletiva, porém, a apropriação dessa riqueza é privada – e isto é uma construção histórica, ou seja, não é algo natural. Teria muito a refletir sobre tais antagonismos e sua complexidade, todavia, quero apenas sinalizá-los, visto que a nossa sociedade estrutura-se a partir de variados conflitos fundados na desigualdade (material/economica/social) e é decisivo para compreender o porquê do ódio ser um afeto integrante da nossa sociabilidade e não algo estranho como a ideologia nos fazer querer acreditar.

Os que realmente são movidos pelo ódio são os burgueses** (donos de bancos/mercado financeiro, grandes empresas monopolistas/transnacionais, fazendeiros/agronegócio e afins). Eles odeiam a nós trabalhadores/as, pobres, negros, mulheres, indígenas, LGBTQI+ entre outros, e a expressão mais visível e sem-cinismo desse ódio é o Bolsonaro e o bolsonarismo. A sutil diferença do bolsonarismo e a classe dominante é que, esta última, tem no cinismo uma forma de ocultação desse ódio de classe, ódio esse que por vezes é vocalizado por meio de alguns dos seus intelectuais orgânicos (defensores do “teto de gasto” por exemplo) ou jornalistas papagaios nos grandes meios de comunicação de massa (TV, Jornal, Revista e Youtube). Portanto, a distinção entre o bolsonarismo fascista e a burguesia brasileira, especialmente a da Faria-Lima é de forma e não de conteúdo. A indiferença de Bolsonaro, dos Militares e da Burguesia diante das mais de 330 mil mortes pela Covid-19, das milhões de pessoas desempregas e sem qualquer condição de colocar comida no prato é movido por um ódio contra classe trabalhadora pobre e na sua maioria negra.

Nesse contexto me entristece muito as falas do presidente Lula quando diz não sentir ódio por: aqueles que golpearam a presidenta Dilma Rousseff; aqueles que lhe perseguiram e o prenderam (injustamente) na masmorra de Curitiba; que “mataram” (indiretamente) a sua falecida companheira Marisa Letícia; aqueles que não permitiram despedir-se o seu querido irmão Vavá e pelo constrangimento de ir no velório do seu neto, cercado por aparato de guerra. Companheiro Lula, ao você repetir esse discurso que soa como música para burguesia brasileira está em certa medida tirando um instrumento de luta, transformação e mobilização importante para a classe trabalhadora: o ódio de classe que mobiliza para a luta! Se você diz não sentir ódio, não nos tire esse afeto fundamental no processo de formação de consciência de classe. Lula, a burguesia te odeia, você ajudou eles acumularem dinheiro como nunca e depois te prenderam. Você não é um deles, você pertence ao nosso lado da barricada da luta de classe. O Brasil pós-golpe de 2016 voltou ao regime de autocracia burguesa e a partir de 2018 parece caminhar para um regime neofascista. Não será com “lulinha paz e amor” e flores que derrotaremos o fascismo, o neoliberalismo e o capitalismo.

Não podem nos retirar o ímpeto de odiarmos aqueles que nos oprimem e exploram, nos empobrecem, destroem a natureza e nos arrancam sangue e suor, para que eles (burgueses) continuem a usufruir da boa vida, enquanto nos sobra o pauperismo e a barbárie. As milhões de vítimas da covid-19 são fruto de um sistema que pratica assassinato social de forma sistemática: capitalismo. Basta lembramos quem foi a primeira vítima da covid-19 no Brasil, uma empregada doméstica, negra e periférica. Ela pegou a doença da sua patroa que estava a fazer turismo pela Itália. O que quero dizer é que as doenças são biológicas, mas sobreviver a elas ou não são socialmente determinadas, no sentido das condições materiais que temos para resistir.

Companheiros e companheiras, vocês não precisam sentir medo de odiar aqueles que fazem mal para humanidade. O ódio é um afeto “normalizado” e constitutivo da nossa sociedade, mas os defensores do status quo querem nos reprimir tal sentimento por saberem que ele é um instrumento mobilizador e transformador, principalmente, para aqueles que desejam construir Outro modo de vida, em que as nossas reais diferenças possam existir e que as desigualdades económicas e sociais sejam abolidas: socialismo rumo ao comunismo.

Parafraseando. Que o ódio de classe não nos amargure ou entristeça, mas que nos radicalize, nos mobilize e nos alimente a esperança de que um outro mundo podemos construir coletivamente. Mundo esse que ninguém morra por não ter o que comer; por ser obrigado a sair de casa para trabalhar e ser infetado pela covid-19; que não precisemos destruir a natureza em nome do lucro; que as mulheres não tenham que atravessar a rua para não serem violentadas e agredidas pelo machismo; e os/as negros/as possam andar sem o medo de serem alvos suspeitos por um dos aparatos estatais defensores dos interesses da classe dominante: polícia.

Enquanto finalizava esse texto vi uma informação que “Brasil ganhou 20 novos bilionários no ano de pandemia” (https://gq.globo.com/Lifestyle/Poder/noticia/2021/04/brasil-20-novos-bilionarios-panemia.html) no mesmo ano em que mais de 50% população ficou sem emprego e 19 milhões de pessoas não têm condições de comer. Que a indiferença e a desesperança não nos provoque imobilismo e apatia, mas que ódio de classe e a esse mundo de exploração e barbárie nos leve para uma revolução.

** Uma observação. Toda vez que utilizar classe dominante ou burguesa não estou a me referir ao senhor/a que tem uma padaria no bairro ou algumas lojas na sua cidade. Num diálogo crítico que tentei estabelecer com Stoppa (https://www.brasil247.com/blog/vacinacao-e-as-falacias-de-stoppa) argumentei no seguinte sentido: “O empresário-capitalista é aquele que toma uma decisão e impacta na totalidade de um segmento produtivo ou de um país.”

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Bolsonaro criou o bolsonarismo ou o bolsonarismo criou Bolsonaro? - Rogério Maestri

Por Rogério Maestri

Para entendermos a resiliência do governo Bolsonaro, é importante a determinação do que é causa e do que é efeito, pois adiantando um pouco o raciocínio se Bolsonaro tivesse criado o bolsonarismo no momento que esse falhasse totalmente em todas as suas tarefas o movimento que leva o seu nome desapareceria perdendo toda a sua base política. 

Para explicar o que é o bolsonarismo temos que enquadrá-lo corretamente numa determinada posição política no caso o fascismo, mas precisamos antes de tudo utilizar o exemplo de Bolsonaro para desmistificar falácias que são contadas sobre o fascismo, sendo uma tarefa difícil pois a origem e o desenvolvimento do fascismo ficam encoberta por explicações quase que mágicas que tentam encobrir essa forma de governo para não mostrar a sua verdadeira face. 

Um exemplo de uma distorção da explicação do que venha ser o fascismo é o texto conhecido por muitos e citado em abundância de um grande intelectual italiano que escreveu uma espécie de manual de identificação do fascismo, o texto denominado: “O Ur fascismo ou O fascismo Eterno” de Humberto Eco. 

Esse intelectual italiano, por razões que no momento não vem ao caso, coloca 15 características do fascismo que presentes num governo poderiam numa combinação ser definidas como fascismo, mesmo que duas ou três características não estivessem presentes, porém sem chamar muito a atenção em nenhuma das características citadas não estão incluídas características econômicas dos regimes fascistas. 

Humberto Eco simplesmente ignora que o fascismo é gerado em sistemas capitalistas em crise e que exatamente devida a origem da sua existência todos os governos fascistas, desde os canônicos o Italiano e o Alemão, bem como os periféricos como o Franquismo e o Salazarismo, em todos esses e mais outros não tão conhecidos uma característica é constante e presente, a adesão ao modo de produção capitalista e o mais importante, essa adesão sempre beneficiando não o pequeno produtor mas sempre a grande burguesia do país, que poderemos chamar de oligarquia. 

As características citadas pelo trabalho de Eco, como ele mesmo deixa claro no seu texto, não são todas necessariamente existentes nos regimes que ele considera regimes fascistas. Para exemplificar melhor a falha da lista de características do Fascismo adotada por Humberto Eco, colocarei de forma abreviada para ficar claro a sua falha. 

  1. Culto da tradição. 
  2. Recusa da modernidade. 
  3. Culto da ação pela ação. 
  4. Não aceitação de críticas. 
  5. Racista por definição. 
  6. Provém da frustração individual ou social. 
  7. Apelo à xenofobia. 
  8. Sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. 
  9. Não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. 
  10. O líder conquista o poder pela força baseando-se na debilidade das massas que merecem um “dominador”. 
  11. Culto ao heroísmo ligado ao culto da morte. 
  12. Transfere sua vontade de poder para questões sexuais, origem do machismo. 
  13. Os indivíduos não têm direitos e “o povo” é uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. 
  14. O fascismo fala a “novilíngua” com um léxico pobre e em uma sintaxe elementar. 

Se olharem com cuidado as características citadas por Humberto Eco em nenhum ponto está citado como o regime capitalista sendo a base econômica, a intransigente perseguição a esquerda, a perda dos direitos trabalhistas dos trabalhadores, a formação de uma casta burocrática dirigente que não precisa ser eficiente, mas sim vinculado ao partido único e outras características que mostram a origem do fascismo como uma solução para um sistema liberal falimentar, sendo esse substituído por um regime de partido único. Para compreender os erros do texto de Humberto Eco, não se deve procurar o que ele errou, mas sim o que ele ignorou. 

Várias das características do fascismo previsto por Eco são encontradas no governo Bolsonaro, mas com uma diferença fundamental dos regimes fascistas canônicos, são mais cópias farsescas do que uma realidade encontrada nos verdadeiros fascismos. Essas farsas são originárias de uma característica que não coloquei até aqui, que é a existência de um líder (Duce, Führer), com características pessoais que são negadas por toda a oposição ao fascismo e não estão presentes em Bolsonaro, tais como, inteligência, perseverança, capacidade de liderança e carisma. 

Fica claro que a diferença principal de Bolsonaro para qualquer líder fascista é que o líder cria o movimento e não o inverso. Mas cabe perguntar, como é gerado a existência do bolsonarismo? A resposta está exatamente nas características que Humberto Eco se nega a colocar, a verdadeira razão da existência de um governo fascista. 

A razão principal de um governo fascista, é a necessidade de sua existência para combater a crise que é criada no capitalista. 

Poderíamos dizer que tanto o fascismo italiano como o nazismo alemão, não foi o Duce ou o Führer que levaram ao fascismo, mas foi a necessidade das oligarquias de derrotar forças de esquerda com capacidade de assumir o poder ou mesmo se manter no governo, logo procuraram com cuidado aqueles líderes que serviriam a oligarquia. No caso do fascismo italiano a concepção do regime foi desenvolvida por Mussolini, por aproximações sucessivas e abraçada pelo grande capital, já Hitler era um dos diversos líderes fascistas que estavam a disposição na época (como os irmãos Strasser) devido a sua capacidade de oratória e o carisma de Adolf Hitler. 

Agora, como podemos interpretar o que é o bolsonarismo? Podemos dizer que Bolsonaro foi uma improvisação da oligarquia que na falta de um melhor o adotaram como um líder mambembe de um neofascismo incompleto. 

Essa interpretação é importante, pois revela que na ausência de um Bolsonaro, a oligarquia pode procurar alguém que o substitua. O problema principal, que como todos os líderes reais de regimes fascistas, Bolsonaro não permite a criação de um substituto. 

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Lottenberg não me representa - Mauro Nadvorny

Por Mauro Nadvorny

Existe algo de podre na Conib (Confederação Israelita Brasileira). Quando o seu presidente, no dia da lembrança dos mortos e heróis do holocausto, atende convite para jantar com Bolsonaro, o fedor é insuportável.

A mensagem que Claudio Lottenberg passou para a sociedade é diferente de seus pares. Enquanto cada um é mencionado como empresário dono deste, ou daquele negócio, Lottenberg foi relacionado por toda a mídia como presidente da Conib. Para bom entendedor, os judeus representados por ele, foram aclamar as presunções negacionistas do genocida com relação a pandemia e os futuros caminhos para o Brasil.

Como disse Napoleão Bonaparte, "Do sublime ao ridículo, é só um passo". Lottenberg se achou digno de uma honra negada ao papagaio da Havan, mas para nós judeus ele foi mais um dos ridículos apoiadores de um presidente inepto que segue menosprezando a ciência e todos as recomendações da OMS para estancar a incrível média de mortes diárias no Brasil em consequência do Covid. 

Os antissemitas de plantão já se alvoroçaram para apontar que os judeus não só elegeram Bolsonaro, como continuam dando a ele o apoio necessário para se manter no poder. Em suas ilações a prova de suas teorias conspiratórias fica estampada nas manchetes dos jornais com as palmas de Lottenberg ao seu anfitrião. A instituição nacional representativa dos judeus ovacionou Bolsonaro.

Somos muitos judeus contra Bolsonaro. Antes das eleições tentamos de todas as formas fazer tudo ao nosso alcance para impedir sua eleição. Com o grupo Judeus Contra Bolsonaro, estivemos presentes ao lado da sociedade que lutou contra aquele que vomitava ódio com suas mensagens racistas, homofóbicas e misóginas. Logo depois de consumada sua vitória, passamos a nos chamar Resistência Democrática Judaica e outros inúmeros grupos judaicos foram criados para resistirem ao nefasto. Não passa um dia sem que sigamos enviando nossas mensagens de repúdio a tudo que este governo fascista representa.

Os judeus não apoiaram Bolsonaro, o correto seria dizer que judeus apoiaram Bolsonaro, os Negros não apoiaram Bolsonaro, Negros apoiaram Bolsonaro, os LGBTs não apoiaram Bolsonaro, LGTBs apoiaram Bolsonaro, as Mulheres não apoiaram Bolsonaro, Mulheres apoiaram Bolsonaro. 

O dia do jantar foi o mesmo dia em que nós judeus relembramos os mortos e os heróis do Holocausto. Em Israel, precisamente as 10:00 h da manhã, as sirenes que avisam ataques de mísseis tocam durante dois minutos. O país inteiro para literalmente. Nas ruas, nas casas, no comércio, nas estradas, nas rádios, nas TVs, todos permanecem de pé em silencio reverenciando este acontecimento marcante da nossa história. Nunca vamos esquecer.

Lottenberg tinha a seu dispor a desculpa pronta para não ir a este encontro. Optou por se fazer presente e junto com os demais, prestou seu apoio as sandices de um fascista. Sim, um judeu, presidente da Conib, menosprezou a memória de 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas, em troca de uma refeição grátis entre empresários que não ligam para os mais de 4000 brasileiros que morrem diariamente vítimas do desleixo do seu mito.

Eu como judeu, me sinto envergonhado e compelido a pedir desculpas para a sociedade brasileira pela presença do presidente da Conib neste famigerado jantar. Ele deixou de representar os judeus brasileiros quando adentrou naquela sala. Lottenberg esteve lá como líder da ala fascista da sociedade judaica, como representante de si mesmo e da falta de valores éticos e morais presentes naquele ambiente. Sua atitude não coaduna com o judaísmo, muito menos com nossa posição de resistência a tudo que este governo abjeto representa. 

Imaginemos que estamos em 1939 e o país fosse a Alemanha. Fosse Lottenberg presidente da Conia (Confederação Israelita Alemã). O Chefe de Estado tivesse chamado empresários e o presidente da Conia para um jantar. Pelo que dizem algumas lideranças judaicas ele deveria atender o convite, afinal os judeus não tinham acesso a ele.  O Chefe de Estado da Alemanha se chamava Adolf Hitler. Tem gente que nunca vai aprender com a história.

Que Lottenberg tenha a mínima decência de renunciar ao cargo de Presidente da Conib e pedir desculpas pela atitude ultrajante que cometeu.

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200 anos de Baudelaire, o poeta maldito que modernizou a poesia

Há 200 anos nascia em Paris Charles Baudelaire, um dos grandes nomes da literatura mundial, considerado um dos precursores do simbolismo e fundador da poesia moderna. Ele é principalmente conhecido pela obra “As Flores do Mal”

Charles Baudelaire, um dos grandes nomes da literatura mundial.
Charles Baudelaire, um dos grandes nomes da literatura mundial. (Foto: Étienne Carjat / Domaine public)

Por Patricia Moribe, RFI - Charles-Pierre Baudelaire nasceu em 9 de abril de 1821, em Paris. Um dos primeiros tradutores de Edgar Allan Poe para o francês, ele também foi jornalista, crítico e poeta. Mas, sobretudo, um boêmio, um dandy, frequentador do bas-fond parisiense da época.

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Baudelaire torrou a herança do pai, mudava constantemente de endereço, fugindo de credores. Ele traduziu a vida mundana e metropolitana de Paris em versos, falando do tédio, da morte, do erotismo e decadência. O poeta manteve um longo e intermitente romance com a atriz e dançarina haitiana Jeanne Duval, inspiração para vários poemas.

A publicação de “As Flores do Mal”, em 1857, lhe valeu um processo por ultraje à moral pública. Os exemplares foram recolhidos, autor e editoras foram multados, e seis poemas foram censurados. Baudelaire morreu de sífilis em Paris, em 31 de agosto de 1867.

“Baudelaire foi um teórico da modernidade, alguém que pensou a modernidade, que tratou poeticamente temas modernos: as transformações urbanas, a experiência das multidões, a questão da prostituição no século 19 e a marginalização de certas populações com o crescimento da cidade, com a modernidade”, explica a poeta e tradutora Patricia Lavelle, professora de teoria literária na PUC-RIO, com doutorado na França.

Poeta de alegoria e metáforas

A poesia de Baudelaire “é moderna também pelo modo como ela trata os materiais linguísticos, como vai tratar a própria forma lírica, ironizando o uso de certas estratégias líricas”, acrescenta. “Baudelaire é um poeta da alegoria, do acúmulo de metáforas, um poeta que vai usar a própria historicidade do material linguístico como ferramenta para um fazer poético, que estava realmente a frente de seu tempo”.

Como exemplo, Lavelle cita o soneto “A uma passante”, onde “Baudelaire descreve a situação de um encontro amoroso impossível, porque nasce do cintilar do desejo, num olhar cruzado, no meio da multidão. É a experiência da multidão anônima, dentro da grande cidade. O poema coloca em cena essa multidão sem descrevê-la, simplesmente apresentando ao leitor essa experiência erótica do instante em que um olhar se cruza com um outro olhar, e imediatamente esses olhares se perdem na multidão”.

“Baudelaire pode também ser considerado um poeta moderno pela forma dos versos”, explica Patricia Lavelle. “É um poeta que acrescenta pequenos saltos, pequenas tensões, mesmo na estrutura dos versos tradicionais, criando efeitos rítmicos interessantes. Mas ele também é o poeta do poema em prosa, que são pequenas narrativas, e que tensiona justamente essa relação entre o verso e a prosa.”

A especialista destaca ainda que Baudelaire ironizou a própria figura do poeta: “Ele conta a história de um poeta que, ao atravessar uma rua movimentada, deixa cair no chão a sua aura, referência aos que teriam a fraqueza de recolher do chão essa aura, para colocar na cabeça novamente”. Baudelaire abre mão da aura de poeta e coloca em cena esse abandono, explica Patricia.

A polêmica de “Flores do Mal”

Com “Flores do Mal”, Baudelaire teve de retirar uma série de poemas do livro, que tinham como temática a homossexualidade feminina, e de uma maneira mais geral, a questão do desejo feminino. “Vemos já uma temática provocadora na época, antecipando questões que seriam discutidas e debatidas mais adiante. Mas no século 19 eram motivo de escândalo”, relata.

Baudelaire tornou-se uma forte referência no mundo das artes. “Ele foi lido por poetas como Mallarmé e Valéry. Os simbolistas franceses fizeram de Baudelaire uma espécie de símbolo. Ele foi lido mais tarde também. No Brasil, por exemplo, podemos encontrar traços importantes da leitura do Baudelaire numa poeta como Ana Cristina César, que, como Baudelaire, trabalha com o endereçamento ao leitor, de maneira provocadora”, analisa Lavelle.

A pesquisadora fala da influência de Baudelaire em seu trabalho: “Eu mesma, como poeta, de uma certa maneira, trago do Baudelaire a questão da alegoria, o uso desses materiais linguísticos já gastos e a ironização disso para compor textos, que falam a partir de outros textos, que se inscrevem então na tradição, brincando com ela e juntando as ruínas”.

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“Internet quebrou o cartel da mídia e a ‘verdade’ da Globo acabou”, diz Felipe Nunes, diretor da Quaest

“Os jornalistas continuam tendo um papel super importante. É que o monopólio acabou. É que o único mecanismo acabou. É que a verdade que era dada pela TV Globo acabou. E isso é importante para o processo democrático e é também um processo de democratização dos meios de comunicação”, afirmou Felipe Nunes

(Foto: Reprodução)

247 - Em entrevista ao Boa Noite, da TV 247, Felipe Nunes, Ph.D. em Ciência Política pela University of California Los Angeles (UCLA), professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em estratégia e comunicação política e diretor da Quaest Consultoria e Pesquisa, apontou a influência das redes sociais no processo de escolha do eleitor. Segundo ele, houve no mundo um processo de quebra do cartel de comunicação e da mediação do debate com a internet e as redes sociais. “Antes, as pessoas iam utilizar o seu tempo naquela maquininha chamada televisão. Essa lógica mudou. Cresceu enormemente o número de acessos de informação das pessoas, de modo que o eleitor pode acessar a informação de acordo com o seu interesse. Ele pode escolher o canal, ele pode escolher o mediador do debate que lhe interesse”, explica.

Felipe enfatiza que esse processo foi muito importante para o atual cenário ”porque os diversos grupos que existem na internet criaram os seus mecanismos de comunicação, alguns legítimos outros menos - até porque tem gente produzindo fake news o tempo todo”.

E acrescenta: “O fato é que com essa quebra do cartel, o eleitor passou a ter a possibilidade muito maior de ter critério, de ter crítica na hora de se informar. Ou seja, o que a Globo diz não é mais 'verdade' só porque foi a Globo que disse. Existem outros canais que informam e desinformam”.

O professor salienta que os jornalistas continuam tendo um papel importante nesse processo de mediação. “É que o monopólio acabou. É que o único mecanismo acabou. É que a verdade que era dada pela TV Globo acabou. E isso é importante para o processo democrático e é também um processo de democratização dos meios de comunicação”, completou.

*Descrição de chapéuCORONAVÍRUS  STF

Templo aberto é direito constitucional, mas tem igreja que só liga para dízimo, diz pastor

Autor de livro sobre Bíblia e dinheiro, ex-chanceler do Mackenzie critica lockdown e neopentecostais

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RIO DE JANEIRO

Manter as igrejas abertas durante a pandemia é um direito constitucional que só poderia ser revogado com um estado de sítio, e a decisão por fechá-las para brecar a Covid-19 "não pode ser uma coisa saindo da cabeça de governadores e prefeitos", diz o reverendo Augustus Nicodemus Lopes, 66.

Mas nem todas as denominações evangélicas têm "preocupação cívica" ao pleitear que templos funcionem no auge da crise, lamenta o pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Recife e ex-chanceler da Universidade Mackenzie, também presbiteriana.

"Elas estão preocupadas porque têm um sistema de arrecadação que depende do [culto] presencial. Para não serem estranguladas financeiramente, vão dizer o que for necessário para defender igrejas abertas."

Entrelaçar finanças e fé é sempre sensível, mas necessário diante da convulsão econômica que se segue à sanitária, diz Nicodemus. O paraibano lança, pela editora Mundo Cristão, "O Que a Bíblia Fala Sobre Dinheiro", e dá um spoiler à Folha: ela "fala mais de dinheiro do que de amor".

Nesta entrevista, o pastor, um dos mais influentes das chamadas igrejas evangélicas históricas, discorre sobre lockdown, dízimo, Jair Bolsonaro e a Teologia da Prosperidade que predomina entre congregações neopentecostais, que ele prefere nem chamar de igrejas.

Reverendo Augustus Nicodemus Lopes, ex-chanceler do Mackenzie e autor de "O que a Bíblia Fala Sobre Dinheiro?" - Divulgação

Por que este tema agora?
O livro veio como resultado da minha preocupação com o que a pandemia poderia trazer, em termos financeiros. Àquela altura, todo mundo sabia que junto com um problema grave, a doença, viria outro, econômico. Quis dar uma visão geral dos recursos.

O sr. diz que a Teologia da Prosperidade, comum em igrejas neopentecostais, deixa pastores sem graça de pedir contribuição dos fiéis.
Chamo pelo nome algumas igrejas que a gente não considera como tais [ele cita no livro a Universal do Reino de Deus, a Mundial do Poder de Deus e a Internacional da Graça]. O mundo evangélico é bem complexo. Muitos pentecostais clássicos infelizmente aderiram à teologia em tempos recentes.

O que é essa teologia?
Ela enfatiza que Deus abençoa materialmente quem contribui para a igreja, mas releva o ensino bíblico que isso não acontece sempre. Crentes generosos podem ficar pobres e doentes. A teologia está certa quando diz que Deus pode nos abençoar financeiramente, mas errada quando diz que Ele é obrigado a fazê-lo se você dá o dízimo. Jesus ensinou que Deus dá o pão de cada dia, não o pudim, o supérfluo, por assim dizer. Como neopentecostais são boa parte do que chamam de evangélicos, a gente fica meio sofrido, os escândalos jogam todo mundo na vala comum.

Como igrejas históricas, como a Presbiteriana, entendem o dízimo?
Por conta dos excessos, a gente vai para outro lado, fica com medo de falar a respeito de dinheiro. Também é errado. A Bíblia fala mais de dinheiro do que de amor. Tem muita coisa sobre gestão financeira. Evangélicos dependem muitas vezes de recursos contadinhos para viver. E uma coisa que ficou fora do livro, mas que eu queria falar, é sobre o coaching cristão.

Há canais virtuais como o Cristão Rico, que ensina a "sair das dívidas". É isso?
O chamado coaching evangélico se baseia em princípios que são fantásticos se aplicados no meio secular [como evangélicos se referem aos de fora da igreja]. Tem que seguir uma série de princípios para alcançar objetivos financeiros, e tudo bem. Mas quando se aplica isso à igreja, aí já vai ficar um pouquinho complicado. A Bíblia nos ensina a confiar em Deus, não viver ansiosos, não fazer da prosperidade a meta maior da vida. Fica difícil colocar isso dentro da equação do coaching.

O que, afinal, a Bíblia diz sobre dinheiro?
O dinheiro em si não é bom nem mau depende da nossa atitude para com ele. Não devemos fazer do dinheiro o deus da nossa vida. Jesus prega que a gente não viva ansioso com o que vai comer, beber, vestir. Deus cuida dos passarinhos, veste o lírio dos campos, não cai nenhum fio da nossa cabeça. Diz que os pagãos ficam ansiosos porque não têm um Pai. E é um alerta contra os mercadores da fé.

Quem são eles hoje?
Nas palavras do apóstolo Paulo, os que "pensam que religião é uma forma de enriquecer". Na Idade Média vendiam indulgências, relíquias, pedaços da cruz etc. Hoje, vendem objetos ungidos e oferecem bênçãos materiais em troca de ofertas e dízimos. Eles enriquecem, e os fiéis ficam pobres.

O dízimo por vezes é estigmatizado fora da igreja. Como funciona na sua?
Entendemos que contribuir faz parte da gratidão que prestamos a Deus. Sabemos que tem falsos profetas, mercenários, que utilizam da crendice do povo para arrancar até o último centavo. Mas não tem como igrejas sérias se manterem e ajudarem os pobres [sem as ofertas]. De onde vem esse dinheiro? O Estado é laico, a igreja não recebe nada do governo. Precisa de recurso para manter instalações funcionários, os pastores são assalariados.

O sr. dá 10% de seus rendimentos à igreja? Essa porcentagem está na Bíblia?
O valor de 10% (dízimo) é desde o tempos dos patriarcas, fez parte das leis cerimoniais de Israel e é praticada pelos cristãos como referência de contribuição que é regular, generosa e proporcional. Não vemos como lei, mas gratidão. E sim, contribuo com 10% dos meus proventos.

Templos devem ficar fechados, ao menos em fases críticas?
Há duas questões para separar. Quando a gente briga para manter igreja aberta dentro das regras sanitárias, é pelo direito de culto garantido pela Constituição. A única maneira de revogá-lo é o estado de sítio, e só o presidente pode declarar um, o Congresso tem que aprovar. Do jeito que está não está bom, é uma coisa que está saindo da cabeça de governadores e prefeitos. Fechar de forma arbitrária é a Constituição sendo violada. O que vem depois?

O sr. citou duas questões.
Infelizmente, muitas igrejas que querem manter o culto não fazem isso com preocupação cívica. Estão preocupadas porque têm um sistema de arrecadação que depende do [culto] presencial. Para não serem estranguladas financeiramente, vão dizer o que for necessário para defender igrejas abertas.

Acha que o lockdown é necessário agora?
Tenho dificuldades com o lockdown como medida para resolver [a pandemia] em definitivo. Minha igreja é de classe média. Quem tem sofrido muito é o pessoal de classes mais baixas. Acho que não é resposta para essa situação. Há outros aspectos.

Quais?
Há pessoas que entram em depressão, o nível de divórcio aumentou... Você é obrigado a estar em casa com sua mulher, coisa que não fazia antes. As famílias se fragmentando, pessoas em busca de ajuda profissional para saúde mental. Tem gente que vai dizer, 'é direito meu, prefiro arriscar morrer desse vírus ou eu morro sem ganhar o pão de cada dia'. O lockdown fere muito o trabalhador, a diarista. O pessoal das classes média e alta não sentem tanto. Vão fazer como você e eu: home office.

Para a economia se recuperar, há consenso de que precisamos baixar os números da pandemia. Como atingir essa meta sem medidas que surtam efeito rápido?
Lockdowns causaram o desastre na economia, não vejo como podem ser a cura dela. Talvez se tivéssemos usado desde o início lockdowns verticais e localizados, medidas sanitárias já comprovadas e educado a população para usá-las, quem sabe salvaríamos o mesmo número de pessoas sem destruir seus empregos e sanidade mental no processo.

O sr. apoiou Bolsonaro em 2018. Voltaria a fazê-lo?
Olha, votaria mais uma vez dependendo de quais seriam as opções. É o voto útil, menos ruim. Infelizmente, [o presidente] se precipita com as palavras, toma atitudes que não ajudam a população. Todo mundo reconhece que ele poderia ter sido mais prudente na condução da pandemia, até pelo próprio exemplo —ele aparece sem máscara. Poderia ter se saído melhor.

Mas ainda seria sua opção em 2022.
A questão toda é que o cristão, ele olha a agenda de costumes. [Bolsonaro] tem uma agenda conservadora, mais próxima dos evangélicos. Se aparecesse um candidato com questões relacionadas à família, certamente eu votaria. Olhando as opções que têm aí, ainda me vejo sem muitas opções.

Não vê ninguém à direita que abrace essa pauta?
Teve uma época em que a gente tinha esperança no Sérgio Moro, mas depois ficamos meio sem saber onde ele está.

Alguns pastores de peso, de Edir Macedo a Silas Malafaia, foram aliados de Lula no passado.
Nunca votei no Lula. Infelizmente, tem muitas igrejas penduradas com o fisco e que têm interesse em ficar do lado do poder. Estão devendo até a alma.

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Opinião - Cristina Serra: Esquadrão da morte bolsonarista

O Brasil submerge no 'inferno furioso' da pandemia

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Nesta semana, o esquadrão da morte bolsonarista conseguiu avanços importantes no Congresso. No Senado, a esperteza de um aliado garantiu a entrada em vigor das normas que facilitarão o acesso a armas e munições. Milícias, hostes militarizadas, criminosos em geral agradecem.

A Câmara aprovou projeto de lei que implode a fila única da vacinação e rasga o princípio da solidariedade social que orientou a criação do Sistema Único de Saúde. Ao permitir que empresas privadas comprem vacinas, institucionaliza a vacina "censitária", por critério de renda, não de vulnerabilidade.

O projeto, que ainda vai ao Senado, atende à mentalidade de capatazia do empresariado, que alega a necessidade de vacinar sua mão de obra. Se tem pouca vacina, que morram os velhos, os doentes, os mais fracos. É cruel assim. É bárbaro assim. Pensamento não muito distante da facção empresarial que se reuniu com o marginal da democracia em repasto noturno: bilionários da Forbes, o dinheiro grosso dos bancos, patrões da mídia e a bolorenta Fiesp.

Vacinação ilegal em Belo Horizonte - Reproducao

A essa gente pouca importa que em algumas cidades o número de atestados de óbito já seja maior que o de certidões de nascimento e que possamos chegar ao meio milhão de mortos. Os empresários aplaudiram o genocida. Manifestaram "otimismo" e "tranquilidade" após ouvi-lo.

A falange religiosa do esquadrão, porém, sofreu derrota importante no STF. Foi inquietante assistir à pregação de André Mendonça, da AGU, a favor dos cultos presenciais em igrejas e templos. Com seus olhos vidrados e pausas teatrais, encarnou o pastor, não o representante de instituição laica. Felizmente, a Corte derrubou a pretensão de inspiração teocrática.

Decisão do ministro Barroso, contudo, acrescentou fator de imponderabilidade para os próximos dias ao determinar que o Senado instale a CPI da Covid. Enquanto isso, como disse um conselheiro da OMS, o Brasil submerge no "inferno furioso" da pandemia.

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Antes protegido da Covid, Uruguai tem recorde de casos e mortes - 6 Minutos

10/04/2021 - 07:34
  • 3 min

Durante a maior parte do ano passado, o Uruguai foi um oásis da pandemia. Enquanto argentinos ricos atravessavam a fronteira para estabelecer residência no pequeno e bem administrado país, o governo reabria escolas e escritórios e tentava não fazer alarde. O total de mortes permaneceu na casa das dezenas.

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Hoje, o Uruguai enfrenta uma das maiores taxas de infecção de Covid-19 do mundo, com dezenas de mortes semanais, escolas fechadas e uma população confusa e cansada em busca de respostas.

“Agora, estão morrendo pessoas que não deveriam ter morrido”, lamentou Raúl Correa, que liderou um protesto nesta semana de donos de ônibus escolares em frente ao gabinete do presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou. Ele culpa o desprezo das medidas de prevenção e a relutância do governo em reduzir ainda mais a mobilidade.

Seja qual for o motivo – e a mudança de padrões da pandemia em todos os continentes sugere que a humildade é um requisito analítico -, Gonzalo Moratorio, um importante virologista uruguaio, culpa a complacência, a fronteira de 1.067 km com o Brasil e a decisão do governo priorizar a economia.

“Fomos vítimas de nosso próprio sucesso. Cantamos vitória antes do tempo”, disse Moratorio, do Institut Pasteur de Montevidéu, que foi destaque na revista Nature como o “caçador do coronavírus” por suas contribuições à ciência na lista das 10 pessoas mais importantes de 2020.

Encravado entre a Argentina e o Brasil, onde a Covid mata milhares de pessoas diariamente, o Uruguai, com apenas 3,5 milhões de pessoas, se sentia seguro até outubro, quando os casos começaram a aumentar. Depois de uma breve calmaria no verão, o aumento atual ameaça sobrecarregar os hospitais, que têm 47% dos leitos de terapia intensiva ocupados por vítimas de Covid.

O Uruguai agora ocupa o primeiro lugar no mundo segundo um indicador de infecções, com 6.071 novos casos por 1 milhão de pessoas na última semana, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. Cerca de 86% das 1.275 mortes de Covid desde o início da pandemia foram registradas neste ano, com uma série de óbitos em lares de idosos nas últimas semanas, incluindo mais de 20 em um único centro. A proliferação da cepa mais contagiosa P1 do Brasil não está ajudando.

Nesta semana, o presidente Lacalle Pou estendeu restrições até o final de abril, quando o programa de vacinas do governo deve começar a mostrar os primeiros resultados. Um fervoroso defensor da liberdade pessoal – o primeiro conservador a ocupar o cargo em 15 anos -, ele disse que não transformaria seu país em um “estado policial” ao declarar um confinamento rigoroso.

“Do meu ponto de vista, as medidas são suficientes se forem cumpridas”, disse Lacalle Pou, de 47 anos, reconhecendo que o cumprimento é insuficiente.

Até agora, o agravamento da crise de saúde, a pobreza no maior nível em oito anos e a queda de 5,9% do PIB no ano passado não diminuíram seu apoio. Seu índice de aprovação subiu quatro pontos percentuais, para 58% em pesquisa realizada em março pela Equipos Consultores, embora tenha caído em relação aos 65% em março de 2020, no início de seu mandato de cinco anos.

“O contexto atual é interpretado como uma questão global e internacional com a qual temos que conviver e que não é culpa do governo”, disse em entrevista Felipe Arocena, sociólogo da Universidade da República.

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Decisões do STF sobre cultos e CPI da Covid causam revolta em redes bolsonaristas | Malu Gaspar - O Globo

Sátiras com o nome do Supremo Tribunal Federal tomaram conta dos grupos bolsonaristas em retaliação à autorização de restrições ao funcionamento de templos religiosos por governadores e prefeitos no combate à Covid-19

O dia nas redes bolsonaristas foi de fúria contra o Supremo. A liminar do ministro Luís Roberto Barroso determinando que o Senado instaure a CPI da Covid-19 incendiou os grupos, que já estavam agitados com a decisão da Corte que manteve as restrições a cultos religiosos.

"Os MINISTROS estão acometidos de doença psicopática de síndrome de poder absoluto. Querem governar o BRASIL. AUTORITÁRIOS E TIRANOS tentam se sobrepor a outros PODERES", postou uma seguidora, no final da manhã. "Preparem-se, o golpe pode estar em curso", disse outro bolsonarista. 

O vídeo em que o presidente da República aparece atacando o ministro do STF na porta do Palácio da Alvorada ajudou a manter o clima de indignação e atenuou o clima derrotista que tomou conta do bolsonarismo no fim da noite de ontem. 

No vídeo, um Bolsonaro irritado diz, em tom de ameaça, que conhece “o passado de Barroso” e cobra do ministro a abertura de processos de impeachment contra outros membros da Corte.

Junto com o vídeo, os bolsonaristas postavam mensagens como "Esse é o velho Bolsonaro de SEMPRE! Com muito orgulho, NOSSO PRESIDENTE!". Num dos vídeos, o apoiador comemorava: "Só faltou se pintar para a guerra como fazem os soldados. Mas olhe o sangue nos olhos ao desafiar Barroso".

Como sempre acontece quando algum fato tem impacto muito negativo para o presidente, memes falando em guerra e em partir para os quartéis se multiplicaram. Uma declaração do deputado federal General Girão (PSL-RN)  "é chegado o momento da decisão"  foi bastante replicada ao longo do dia. 

Além de Girão, outros personagens ganharam os chats. Um deles foi o ministro das Comunicações Fábio Faria, que afirmou no Twitter que a CPI seria uma “vitória antecipada” do presidente em 2022.

Postagens de parlamentares pedindo o impeachment de Barroso e outros ministros do Supremo  como as do senador Luiz do Carmo (MDB-GO)  foram amplamente compartilhadas. 

Em outra reação típica de momentos de crise, muitos seguidores viram na decisão de Barroso o resultado de uma conspiração com a oposição. “A nave PT-STF está voando em céu de brigadeiro e o piloto é o Zé Dirceu. Só Deus pra parar esse vôo”, disse um bolsonarista. “Só uma bala perdida para resolver”, respondeu outro.

“Um presidente ficha limpa sendo perseguido vergonhosamente”, lamentou um seguidor de Bolsonaro. “Estão falando que irão montar uma CPI da pandemia e jogar as mortes nas costas do presidente para pedir o impeachment. Já está tudo maquiado!”, denunciou uma bolsonarista. 

Por Johanns Eller

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Em sábado de Sol, cariocas burlam medidas restritivas nas praias da Zona Sul

Movimento foi abaixo do normal na Zona Sul, mas algumas pessoas insistirem em se bronzear
Lívia Nadler e Brenno Carvalho
10/04/2021 - 14:37 / Atualizado em 10/04/2021 - 17:51
Arpoador teve concentração de praieiros Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Arpoador teve concentração de praieiros Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

RIO — No segundo dia de flexibilização das medidas restritivas na cidade do Rio de Janeiro, bares, restaurantes e quiosques da Zona Sul não apresentaram um movimento de pessoas acima do que vinha sendo o normal. Mas o sábado de Sol foi um estímulo para cariocas saírem ao ar livre e se exercitarem na orla. Apesar de o número de pessoas nas ruas ficar abaixo do que era costume, houve quem insistisse em deitar para se bronzear na areia, o que ainda está proibido.

Praias, cachoeiras e parques continuam fechados no Rio, sendo proibido: atividades econômicas nas areias, incluindo o comércio de ambulante, fixo e itinerante; aulas e prática de esportes coletivos; permanência na areia, assim como em parques e cachoeiras; e estacionamento na orla, exceto para moradores, idosos, pessoas com deficiência e hóspedes de hotéis.

Durante a manhã, no Leme, a areia estava bem cheia, assim como o corredor na extremidade da orla, onde fica a estátua da escritora Clarice Lispector. Em Copacabana, o calçadão estava movimentado e a areia tinha prática de exercícios. A área mais crítica era o Arpoador, onde banhistas chegavam a sentar nas areias, sem máscara.

A orla da Zona Sul também tinha restaurantes e quiosques abertos, o que voltou a ser liberado entre 12h e 21h na última sexta-feira. Moradora de Teresópolis, a advogada Ana Paula Costa aproveitou a viagem ao Rio a trabalho para fazer turismo, esticando sua estada no final de semana. Preocupada com a contaminação em espaços fechados, ela escolheu um restaurante na Praia do Arpoador para almoçar.

— Estou sentindo que os restaurantes estão respeitando as regras, e percebi que não tem tanta gente na rua. Optei por um restaurante aberto por achar mais seguro. A questão de abrir ou não é muito complexa, porque ambientes fechados são mais perigosos para a contaminação, mas entendo que o comércio não pode ficar fechado, por conta da economia e do desemprego. É preciso que encontrem um meio termo — opinou.

Proprietário do quiosque Buenos Aires, na praia de Copacabana, Maximiliano Coronello lamentou a movimento fraco. Ele conta que em uma sexta-feira normal costuma vender de R$ 6 mil a R$ 7 mil, e ontem não passou de R$ 1.600.

— Por enquanto está muito fraco, mas acredito que na próxima semana estará melhor. Um dia abre e no outro fecha, uma semana podemos funcionar até 21h e na outra até 23h, isso gera uma insegurança e as contas para pagar continuam chegando — diz o comerciante.

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