PANDEMIA _ Mirian Leitão
Miriam Leitão aponta Bolsonaro como um genocida que tem empresários, generais e pastores como cúmplices
Bolsonaro é o comandante supremo da morte no Brasil

247 – "O tempo deixará ainda mais claro o que já é inegável hoje.
Grande parte das mortes que temos sofrido no Brasil é responsabilidade direta do presidente da República.
Ele agiu intensa e deliberadamente para que o vírus se espalhasse.
Ele tem sido incansável nas mentiras, no estímulo à exposição ao risco, na criação de conflitos políticos.
Ele nunca deixou de sabotar os esforços de proteção da vida de qualquer gestor público, nas três esferas administrativas.
Ainda hoje, mais de um ano de pandemia.
Ainda hoje, mais de 350 mil mortos.
Faltam oxigênio, remédios, vagas nos hospitais, vacinas.
Mas Bolsonaro protege o vírus e as suas mutações.
Bolsonaro é o comandante supremo da morte no Brasil", escreve a jornalista, em sua coluna.
"O presidente não faz seu trabalho sozinho.
Tem colaboradores.
Os médicos que validaram o charlatanismo,
os generais que apoiam um governo que ameaça a segurança nacional,
os empresários que o aplaudem,
os ministros subservientes às suas decisões criminosas,
os pastores que usam a palavra de Deus em vão,
os políticos que tergiversam,
os juízes que distorcem a interpretação das leis", aponta.
"E quando o país já está cercado de medos e mortes, o presidente ainda tira do armário o fantasma do autoritarismo e NOS AMEAÇA com a MORTE CÍVICA.
Esses dois anos têm sido de luta pela vida e pela democracia", diz ainda Miriam, que atuou no golpe de 2016, com a farsa das "pedaladas fiscais".
Bolsonaro, nossas mortes são culpa sua | Míriam Leitão - O Globo
Por Míriam Leitão
O tempo deixará ainda mais claro o que já é inegável hoje.
Grande parte das mortes que temos sofrido no Brasil é responsabilidade direta do presidente da República.
Ele agiu intensa e deliberadamente para que o vírus se espalhasse.
Ele tem sido incansável nas mentiras, no estímulo à exposição ao risco, na criação de conflitos políticos.
Ele nunca deixou de sabotar os esforços de proteção da vida de qualquer gestor público, nas três esferas administrativas.
Ainda hoje, mais de um ano de pandemia.
Ainda hoje, mais de 350 mil mortos.
Faltam oxigênio, remédios, vagas nos hospitais, vacinas.
Mas Bolsonaro protege o vírus e as suas mutações.
Bolsonaro é o comandante supremo da morte no Brasil.
Alguém pode achar exagero, afinal é o vírus que mata e não o presidente.
Líderes poupam vidas com suas decisões.
Ele não.
Todos os seus atos, todas as suas palavras, desde o desembarque do coronavírus no Brasil, tiveram o ÚNICO RESULTADO de FORTALECER o INIMIGO.
É a bala que mata ou quem apertou o gatilho?
A lista das culpas de Bolsonaro nesta pandemia é exaustiva e nem é preciso refazê-la.
A leitora e o leitor sabem, viram, sofreram, se indignaram.
A verdade é conhecida.
Ela é uma só. Bolsonaro é culpado.
O presidente não faz seu trabalho sozinho.
Tem colaboradores.
Os médicos que validaram o charlatanismo,
os generais que apoiam um governo que ameaça a segurança nacional,
os empresários que o aplaudem,
os ministros subservientes às suas decisões criminosas,
os pastores que usam a palavra de Deus em vão,
os políticos que tergiversam,
os juízes que distorcem a interpretação das leis.
Contra o presidente e os colaboracionistas existe também muita gente.
A resistência tem na liderança os médicos, enfermeiros, cientistas, comandantes na guerra pela vida.
A resistência é feita por quem diz NÃO a Bolsonaro, em qualquer área, em qualquer parte do país, dentro e fora do governo.
Na cultura, nas artes, no jornalismo, na educação, nas redes sociais, nas florestas, nas rotinas domésticas, nos laboratórios, nas lutas políticas.
Quem trabalhou pela vacina está na resistência.
O Brasil virou um grande cemitério que enterra até durante a noite.
É trágico, é indescritível.
Entre a vida e a morte não há meio termo, meio tom, vacilação, dúvida.
Os que respiram mal, os que mal respiram exigem que falemos por eles.
Neste momento exato milhares de pessoas contaminadas estão contando os dias e as horas dessa doença terrível, olhando para seus sintomas, com medo de piorar e ter que ir para uma fila onde se morre antes do fim.
Bolsonaro é culpado de necrofilia.
O necrófilo ama a morte.
A definição nos foi entregue por Celso de Mello.
Ela é exata.
Descreve a distorção mental e moral do governante.
Ele faz isso por gosto e sadismo, mas se escuda em um argumento supostamente racional.
O de que quanto mais rápido o vírus se propagar, mais brasileiros estarão com anticorpos, mais cedo teremos o que ele define como imunidade de rebanho.
Ele e seu rebanho repetem uma mentira científica e médica.
Bolsonaro é culpado das mortes porque subestimou o vírus, divulgou mentiras, estimulou contágio, produziu conflitos federativos, combateu medidas protetivas, omitiu-se, adiou decisões, subverteu o dever do cargo que ocupa.
Tentou inutilmente minar a credibilidade das vacinas.
E quando o país já está cercado de medos e mortes, o presidente ainda tira do armário o fantasma do autoritarismo e nos ameaça com a morte cívica.
Esses dois anos têm sido de luta pela vida e pela democracia.
Bolsonaro não muda.
Ele finge mudar para permanecer o mesmo.
Ele tem usado todos os poderes da Presidência como armas contra o país.
Quanto mais rápido acabar este governo, mais vidas pouparemos.
Quanto mais ordens do governo forem revogadas, mais chances o país terá.
Eu poderia escrever sobre alguns eventos ou conversas de bastidores.
Artimanhas e articulações.
Números da economia, porcentagens, oscilações do mercado financeiro.
Há muitos fatos e dados e eles são a matéria-prima do jornalismo.
Mas há um fato maior que todos os outros.
Drummond escreveu poemas no meio da Segunda Guerra Mundial que nos ajudam a ver o que é o mais relevante em momentos extremos.
“Chegou o tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.”
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)
TERRA EM TRANSE
O capitão Jair e o Dr. Jairinho têm algo em comum: gostariam de virar a página.
O primeiro é presidente do Brasil.
Como a responsabilidade pelo caos pandêmico não sai de seu colo, ele explora tentativas cada vez mais bizarras de virar a página, de varrer a realidade fúnebre do país nem que seja aprofundando ao extremo o precipício.
A mortandade que o capitão semeia é coletiva.
Já o Dr. Jairinho prefere semear terror individual.
Por espancamento.
Foi preso com a mulher esta semana pelo assassinato do enteado Henry, de 4 anos.
Vereador carioca no quinto mandato e habituado a trafegar nas paralelas, Jairo Souza Santos Junior procurou varrer a realidade de seu crime ainda no hospital — pediu, ao arrepio da lei, que o corpo do menino não fosse encaminhado para o Instituto Médico Legal.
Pretendia encaminhá-lo a um legista particular para, em suas próprias palavras, “poder virar a página logo”.
Felizmente, NÃO foi atendido.
Mais tarde, segundo relato do devastado pai biológico da criança, o vereador teria se dirigido a ele em termos ainda mais crus:
Frieza insaciável existe.
Jair e Jairinho têm em comum uma desumanidade doentia.
Ela parece não ter fim neste Brasil em transe, resignado a chorar.
É natural chorar pelo menino Henry mesmo sem tê-lo conhecido, pois os elementos conhecidos do caso geram empatia universal:
o horror e medo de uma criança brutalizada até desfalecer, a animalidade de um padrasto espancador, a frieza criminosa da mãe.
Como não querer escancarar os braços para proteger o miudinho indefeso?
Mais complexa é a subtração diária de vidas brasileiras levadas pela Covid-19, esse matador silencioso, invisível, não humano.
Mesmo quando tentamos individualizar alguma morte anônima igualmente cruel, o pranto não vem fácil em meio aos outros 350 mil que já se foram.
Tome-se o caso da menina de 4 anos, mesma idade de Henry, cujo corpo foi encontrado no Hospital Materno Infantil de Brasília por vigilantes da instituição.
Segundo o portal “Metrópoles”, o corpo sem vida estava há mais de 24 horas numa salinha sem ventilação na entrada da emergência pediátrica, à vista de pacientes que por ali passassem.
Só que o pavor da menina com suspeita de Covid-19, sua solidão e asfixia antes de morrer são mais difíceis de imaginar.
Permaneceu anônima, exceto para quem a perdeu.
Tinha razão o dramaturgo e romancista Max Frisch quando escreveu que, mais cedo ou mais tarde, todo mundo inventa uma história que acredita ser sua vida.
Nesse sentido — e apenas nesse sentido —, Jair Bolsonaro não é diferente do resto do mundo.
Para manter sua vida ficcional vedada, ele precisaria “virar a página” de sua responsabilidade na tragédia brasileira.
Não vai conseguir.
Basta responder a uma pergunta de simplicidade cristalina que aponta a responsabilidade única do presidente da República no abandono do país:
qual o único brasileiro que poderia ter mudado o curso da voracidade do vírus?
A resposta independe das complexas deliberações do Judiciário e das tortuosidades do Legislativo.
Ela se fundamenta no senso comum.
Desde o início da pandemia, a parte dos brasileiros EM CONDIÇÃO de OPTAR pelo ILUMINISMO entendeu a SERIEDADE do perigo, adotou medidas protetivas individuais, assumiu sua responsabilidade coletiva.
Sempre se manteve decidida a não compactuar com o obscurantismo.
Para que o combate à Covid-19 tivesse alguma chance de êxito ou racionalidade, teria bastado convencer o outro Brasil.
Esse outro Brasil em estado de mitomania, aguerrido, porém fiel, teria seguido com disciplina religiosa qualquer ordem de distanciamento, uso de máscara ou confinamento emanada da boca do seu líder.
Tamanho poder e privilégio SOMENTE O PRESIDENTE TINHA, com tudo à disposição — cadeia nacional de rádio e TV diária, se quisesse, redes sociais, confiança cega de seguidores.
Nenhum ministro da Saúde, nenhuma sumidade científica, nenhum acadêmico, celebridade ou vencedor do “BBB” teria, sozinho (nem em conjunto), eficácia semelhante.
O presidente da República preferiu incentivar o DESCARRILAMENTO de VIDAS.
Muito acima das lambanças generalizadas deste Brasil esgarçado, a responsabilidade de Bolsonaro é única.
Apenas ele, sem precisar de mais ninguém, dado que o governo o seguiria, teve a chance de evitar o naufrágio.
Nem sequer tentou.
Optou pela morte.
Delicatessen dos tempos dos czares que virou ponto turístico fecha as portas em Moscou

Uma das lojas mais famosas de Moscou fechará as portas neste domingo. A Yeliseyevsky, espécie de mercadinho gourmet, foi fundada há cerca de 120 anos, durante o tempo dos czares, passou por todo o período da União Soviética e, nos últimos anos, se converteu num inusitado atrativo turístico na capital russa. E, mesmo assim, não resistiu aos prejuízos causados pela pandemia.
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Localizada na Tverskaya, uma das principais avenidas moscovitas desde o período imperial, a delicatessen sempre chamou a atenção pela decoração luxuosa, como a de um palácio do século XIX, com detalhes bem trabalhados, pintados de dourado, pinturas nas paredes e balcões e mostruários imponentes. Pode-se dizer que é uma versão russa do Confeitaria Colombo, por exemplo.
Em suas prateleiras, moradores e turistas costumavam encontrar as melhores marcas dos produtos russos, de caviar a leite, de bebidas a embutidos. No local, funcionava havia também um pequeno salão para chá e lanches.
Todo esse glamour imperial, que resistiu à Revolução Russa e à crise econômica pós-dissolução da União Soviética, não sobreviveu à pandemia e, segundo o jornal russo "Moscow Times", a um imbróglio envolvendo os administradores da loja e o proprietário do imóvel, no caso, a prefeitura de Moscou.
A rede de supermercados Aliye Parusa, que assumiu o estabelecimento em 2005, chegou a tentar comprar o ponto, mas as duas partes não chegaram a um acordo quanto ao valor. O caso chegou a parar na justiça, que estabeleceu um valor de mercado mais próximo ao que a empresa havia oferecido, mas que não chegava à metade do que era pedido pela administração da capital federal.

Uma crise financeira da Aliye Parusa, que em 2019 fechou todas as suas lojas, exceto a Yeliseyevsky, piorou ainda mais a negociação. E foi agravada com a pandemia, quando o movimento despencou, sobretudo com a ausência dos turistas.
Sem clientes e dinheiro, se tornou caro demais manter a loja, conhecida por seus produtos caros e de alto nível, e o imóvel, que demanda uma conservação mais trabalhosa que a média.A decisão de baixar as portas, segundo o jornal russo, foi tomada num momento em que os poucos clientes já encontravam gôndolas vazias e sem as marcas de luxo com as quais estavam acostumados. Da parte da prefeitura de Moscou, ainda não há planos para a ocupação futura do imóvel.
Dos czares aos bolcheviques
Aberta em 1901 pelo comerciante Grigory Yelisev, de uma família de importadores de São Petersburgo, o Empório Yeliseyevsky (ou Eliseevsky, como também aparece grafado no alfabeto latino) logo se tornou uma referência na elite moscovita. Tanto pelo interior luxuoso, quanto pelos produtos que vendia, que iam de artigos finos russos a vinhos raros importados.
A nova loja se aproveitava do glamour que já existia naquele endereço. O prédio onde foi instalada havia pertencido à princesa Zinaida Volkonskaya, que no final do século XIX promovia concorridos encontros que reuniam nobres e figuras proeminentes do cenário cultural do império russo, como o próprio escritor Alexander Pushkin.
Com a Revolução Russa em 1917, a loja foi nacionalizada. Sob o novo nome Gastronom #1, no entanto, preservou o estilo luxuoso de seu interior e a vocação de mercado gourmet. Era o único lugar na cidade em que se podia comercializar artigos finos, como os mais diversos tipos de caviar e outras grandes variedades de produtos.
Revolta da Vacina: ‘A história se repete, é horrível ver isso na prática’

RIO - O país em crise econômica, muitos brasileiros mortos e uma campanha por vacinação em massa marcada por um embate entre governo e sociedade. Não é um retrato do Brasil de 2021, mas, sim, do que acontecia em 1904 no Rio de Janeiro, então capital federal, e com o registro trocado: ali, era a população que se rebelava contra a vacinação ampla ordenada pelo sanitarista Oswaldo Cruz, junto a uma severa reforma urbana, para tentar controlar doenças como varíola, febre amarela e peste bubônica que assolavam o país.
A Revolta da Vacina, resultado desse cenário de conflito social e político, turbinado por fake news e insatisfação popular, está fartamente registrada nos livros de história. E também no livro em quadrinhos “Revolta da Vacina” (Darkside), escrito e ilustrado pelo carioca André Diniz, que joga no turbilhão de 1904 o ambicioso protagonista Zelito.
Ao perder o irmão mais velho, o jovem decide abandonar a família em Fortaleza para tentar a sorte no Rio de Janeiro. O sonho de Zelito é se tornar desenhista de um grande jornal na capital, doa a quem doer e a contragosto do pai, que não vê futuro algum na ideia.
O livro, que já havia sido publicado numa pequena tiragem em cores e com outro título há oito anos, foi em boa parte redesenhado por Diniz (o autor mora há cinco anos em Portugal) e ganha, agora, oportuna nova edição em preto e branco, com posfácio do historiador Luiz Antônio Simas.
Pouco mais de um século após a revolta no Rio de Janeiro, vivemos uma pandemia e há uma descrença popular na ciência. Nada aprendemos ?

Não, e regredimos. Isso porque a desconfiança da época era mais fácil de ser justificada. O povo não tinha uma gota da informação que existe hoje, nem a experiência de uma vacinação em massa. Sem falar que, pouco antes, o governo havia feito uma campanha violenta contra o mosquito da febre amarela. Invadiram lares, prenderam quem se opunha e fizeram uso de força física. Em termos de saúde pública, os resultados foram muito bem-sucedidos, mas ainda era cedo para que todos tivessem essa percepção.
Tudo o que havia no momento da vacina era o trauma da truculência. Então, os medos legítimos e as fake news da época, plantadas por motivos políticos, eram mais difíceis de ser contestados. O Brasil atual é um país que já foi referência mundial em vacinação, e é surreal que as pessoas ainda hoje embarquem em boatos ou coloquem ideologia em algo que é simplesmente científico, sem deixar-se comover por centenas de milhares de mortos. O mais inusitado dessa situação toda é que eu sabia, na teoria, que “a história se repete”. O horrível é ver isso na prática.
Em boa parte de sua obra, você usa fatos como pano de fundo para contar histórias ficcionais, como em “Olimpo Tropical” (Jupati), “Que Deus te abandone” (Sesi) e, agora, “Revolta da Vacina”. Um pé na realidade costuma tornar tudo mais verossímil?
Acho que a melhor forma de trazer o leitor a um tema pertinente para ser discutido é fazê-lo viver o contexto da época na pele do protagonista. Isso traz uma imersão e uma empatia em relação a vidas, problemas e situações aparentemente distantes, mas muito mais próximas do que imaginamos. Já do ponto de vista autoral é maravilhoso poder contar tanto com o inusitado do mundo real quanto com a liberdade de criação de um personagem fictício.
Quanto há de André Diniz em Zelito, o personagem principal de “Revolta da Vacina”?
Meu pai era um poeta e sempre incentivou muito o meu trabalho artístico, então só isso já me diferencia bem do Zelito, que embarca numa jornada insana impulsionado pelo descrédito do pai. Acho que a maior semelhança nem é exatamente com o desenho, mas com aquela energia do jovem em querer chegar ao topo do mundo cedo demais, daí faz um monte de besteiras. E depois faz mais um monte de outras besteiras para tentar consertar as besteiras iniciais. Vou te dizer que prefiro mil vezes ter 45 anos do que voltar aos meus 15!
“Revolta da vacina”
Autor: André Diniz.
Editora: Darkside.
Páginas: 176.
Preço: R$ 59,90
20 clássicos cinquentões do cinema, agora em streaming

Há 50 anos, os espectadores se depararam com um excepcional conjunto de filmes dos mais diversos gêneros que, não por acaso, atravessaram o tempo e, nesse momento de acesso interditado ou limitado às salas de exibição, podem ser conferidos em variadas plataformas de streaming. Não é possível destacar todos os títulos, mas um breve apanhado evidencia a qualidade da produção.
‘Ânsia de amar’
As jornadas amorosas de dois amigos de personalidades contrastantes são mostradas ao longo do tempo nesse filme conduzido com apreciável contenção por Mike Nichols e apoiado no bom rendimento do elenco. No Belas Artes à la Carte.
‘As aventuras de M. Hulot no tráfego louco’
Jacques Tati retoma o personagem Hulot em filme marcado pelas gags visuais e pelo registro clownesco característicos de seu cinema. No Belas Artes à la Carte.
‘Bang bang’
Assinado por Andrea Tonacci, o filme é um legítimo representante do cinema marginal brasileiro. O termo, que desagradou alguns diretores, diz respeito a projetos de natureza experimental, marcados pela concepção radical e valorização do vigor autoral. No Looke.
‘A classe operária vai ao paraíso’
Obra emblemática de Elio Petri, que expõe as relações conflituosas dentro de uma fábrica diante do difícil cotidiano enfrentado pelos operários. O filme dividiu a Palma de Ouro no Festival de Cannes com “O caso Mattei” (1972), de Francesco Rosi, também com Gian Maria Volonté no elenco. No YouTube.
‘Como era gostoso o meu francês’
Filme singular, com humor irônico, de Nelson Pereira dos Santos sobre o convívio entre um francês e os tupinambás, que planejam devorá-lo por acreditarem se tratar de um português, no século XVI. As falas em tupi ficaram a cargo do cineasta Humberto Mauro. No Now e no YouTube.
‘Decameron’
Pier Paolo Pasolini transporta para a tela contos de Boccaccio nessa primeira parte da Trilogia da Vida – complementada por “Os Contos de Canterbury” (1972) e “As Mil e uma Noites” (1974). Imprime humor e reproduz o universo popular de Nápoles. No Youtube.
‘Dirty Harry – Perseguidor implacável’
Clint Eastwood revela carisma nessa produção, a cargo de Don Siegel, que inaugurou a franquia. Na trama, um homem avisa que matará aleatoriamente uma pessoa por dia até que receba US$ 100 mil. Na Globoplay e no Youtube.
‘Sob o domínio do medo’
Desde os primeiros minutos da projeção, um sentido de ameaça atravessa as jornadas de um matemático e sua esposa, que se estabelecem numa casa em região isolada. O trabalho de montagem acentua o efeito perturbador desse filme de Sam Peckinpah. No Youtube.
‘Encurralado
Steven Spielberg demonstra habilidade para mexer com os nervos do espectador ao mostrar a via-crúcis de um homem em seu carro, perseguido pelo motorista de um caminhão – que nem ele e nem o público conseguem ver. No Telecine, YouTube, Google Play.
‘Ensina-me a viver'
A história de amor entre uma idosa repleta de entusiasmo, Maude, e um rapaz sombrio, Harold, apresentada nesse filme de Hal Ashby, preserva o mesmo potencial de encantamento. A atuação de Ruth Gordon é um capítulo à parte. No Prime Video.
‘A fantástica fábrica de chocolate’
Bem antes de Tim Burton apresentar a sua versão, a jornada das crianças dentro da fábrica de chocolate de Willy Wonka conquistou multidões nesse primeiro filme dirigido por Mel Stuart e protagonizado por Gene Wilder. No Looke, YouTube, Google Play.
‘Klute, o passado condena’
Filme de Alan J. Pakula que rendeu o Oscar de atriz a Jane Fonda e ganha ainda com a fotografia de Gordon Willis. No Amazon Prime, Google Play e Apple TV.
‘Laranja mecânica’
Escorado em romance de Anthony Burgess, Stanley Kubrick apresenta uma obra desestabilizadora que confronta o público com o sadismo de Alex, que pratica atos ultraviolentos até ser capturado e submetido a uma lavagem cerebral. No Looke, YouTube, Vivo Play, HBO GO.
‘Macbeth’
Adaptação tradicional de Roman Polanski para a célebre tragédia de William Shakespeare. O cineasta se vale do recurso da narração em off para os solilóquios do texto. No YouTube e no Google Play.
‘Morte em Veneza’
Luchino Visconti transporta para a tela a novela de Thomas Mann, sobre a paixão de um homem maduro (personagem inspirado em Gustav Mahler) por um adolescente, com extremo requinte, que se estende das interpretações ao padrão de produção. No Belas Artes à la Carte, YouTube, Google Play.
‘Operação França’
À frente dessa produção celebrada no Oscar, William Friedkin demonstra domínio das ferramentas cinematográficas, perceptível na ambientação da trama numa Nova York desglamourizada, na hábil realização de sequências de ação, no ritmo ágil e na trilha sonora que favorece a tensão. No Telecine.
‘Quando explode a vingança’
Western de Sergio Leone, fiel às características do cinema do diretor, com James Coburn e Rod Steiger no elenco e emoldurado pela música de Ennio Morricone. No Telecine e no Amazon Prime.
‘O sopro no coração’
Ambientado em 1954, o filme de Louis Malle descortina o comportamento dos integrantes de uma família burguesa a partir da jornada de um adolescente. A história surpreende com potencial para a polêmica ao abordar o tabu do incesto. No Telecine.
‘Um violinista no telhado’
A história de Sholem Aleichem (autor do conto original, que rendeu peça de Joseph Stern) sobre o cotidiano dos moradores do vilarejo de Anatevka – em especial, a família do leiteiro Tevye (papel de Topol) – desembarcou no cinema pelas mãos de Norman Jewison. O resultado é uma explosão de alegria. Na Apple TV.
‘007 – Os diamantes são eternos’
A abertura marcada pela perseguição ao vilão já evidencia a fidelidade às conhecidas características da franquia. Esse exemplar, dirigido por Guy Hamilton, é valorizado pela presença de Sean Connery, pelo humor do roteiro e pelos personagens coadjuvantes. No Telecine, YouTube e Google Play.
'Law & order: Organized crime': as mil vidas de um detetive incansável - Patrícia Kogut, O Globo

Em 2011, por divergências contratuais, Christopher Meloni deixou “Law & order: SVU” (aqui exibida no Universal TV). Ele estrelava a trama ao lado de Mariska Hargitay. Sua saída foi um choque para os fãs da série, uma das derivações da franquia criada por Dick Wolf e a mais longeva da TV americana. “SVU” sofreu um baque, mas seguiu até aqui sem ele e com o mesmo sucesso. O público, entretanto, nunca esqueceu esses parceiros. Olivia Benson (Mariska) e Elliott Stabler (Meloni) eram muito afinados e se entendiam pelo olhar. Embora fossem grandes amigos, havia sempre no ar uma certa tensão sexual nunca resolvida. Agora, a NBC lançou “Law & order: Organized crime” (o Universal diz que não tem perspectiva de exibição aqui). O mais novo subproduto dessa inesgotável criação de Wolf marca a volta de Stabler. E, mais ainda, reúne ele e Olivia no primeiro episódio.
A trama conserva a estrutura de sempre. Há uma aventura policial curta por capítulo. E um arco dramático maior atravessa tudo. As assinaturas do showrunner estão em cada detalhe. A trilha da abertura é a clássica, mas com outro arranjo. E há uma leve variação nos dizeres da abertura (em tradução livre ela é: “Na maior cidade do país, os membros cruéis e violentos do submundo são caçados pelos detetives do Escritório de Controle do Crime Organizado. Estas são suas histórias”).
Na estreia, a ação se passa no inverno em Nova York. A neve está caindo nos cabelos de Olivia quando ela reencontra o ex-parceiro no parque. Ele conta que se mudou para Roma com a família. Agora está de volta trazido por um crime e por uma tragédia. Sua investigação envolve o tráfico de respiradores e outros equipamentos médicos que se valorizaram na pandemia. Stabler está atrás de uma quadrilha italiana com ramificações nos EUA. Acuados, os bandidos armaram uma emboscada para ele. Mas mataram sua mulher por engano. O policial ficou viúvo. Quer desbaratar a organização e vingar a desgraça pessoal.
A investigação é cheia de viradas emocionantes. “Law & order”, como sempre, não fica fora dos temas contemporâneos e há um caso de racismo. É tudo bem construído e cheio de ganchos.
Um ponto em especial chama a atenção do espectador mais atento embora jamais seja mencionado explicitamente na história. É a presença (e a ausência) das máscaras em cena. Todo o elenco principal aparece sem elas. A numerosa figuração, ao contrário, usa a proteção. Faz pensar. Num enredo que se desenrola na pandemia, as máscaras são inevitáveis. Mas atrapalham a leitura labial e nos bastidores, os atores, devidamente testados e protegidos, reclamam. A opção, portanto, foi por um pacto silencioso com o público. É como se todos estivessem com máscaras invisíveis. Mas não estão. O resultado é curioso.
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Excesso de coincidências prejudicou trama de ‘Amor de mãe’ - Patrícia Kogut, O Globo
Patrícia Kogut

Em que pesem as boas atuações e a direção competente que marcaram “Amor de mãe” até o fim, o último capítulo chamou a atenção pelo exaurimento da fórmula usada pela autora, Manuela Dias. No hospital, Thelma (Adriana Esteves) recebeu a visita de Lurdes (Regina Casé) e Vitória (Taís Araújo). Foi quando Vitória se deu conta de que foi ela quem colocou Kátia (Vera Holtz) no tráfico de crianças ao dar a ela seu filho Sandro(Humberto Carrão). Sem isso, Kátia não teria comprado Domênico e o vendido a Thelma. Esse recurso das coincidências é uma marca das histórias de Manuela. Foi usado em “Justiça”. É uma fórmula que pode dar origem a histórias muito bem contadas. Mas, quando repetida ao paroxismo numa mesma trama, cai no ridículo. Pior: promove a desconexão afetiva do espectador com o enredo. A história deixa de ser minimamente crível.
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Novelas não precisam ser realistas. Mas devem guardar algum nexo com o mundo das possibilidades. Era difícil acreditar que Thelma tivesse comprado o filho de Lurdes, com quem travou conhecimento, por um capricho do destino, no início da trama. Mas era possível. Vitória formou uma tríade com as duas também por uma dessas chances da vida. Que ela seja a origem do mal é pedir muito ao espectador. A ponto de a autora sentir a necessidade de explicar isso ao público no último capítulo. Essa foi a coincidência central, numa novela que em tudo girou em torno de coincidências num carrossel implausível. A explicação de Vitória no hospital foi o que deixou evidente, da forma mais eloquente, que toda fórmula, quando repetida sem limites, cansa.
Jaques Wagner se manifesta contra CPI da Covid

Do DCM – O senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, se manifestou contra a criação da CPI da Covid, cuja instalação foi determinada pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF.
“Não vou contestar decisão judicial. Mas sigo com a mesma posição: nossas energias, nesse momento, precisam estar voltadas para garantir vacina para toda a população. Nada é mais prioritário”, diz.
“Depois vamos atrás de responsabilizar os culpados, o que não será muito difícil, já que o presidente da República é réu confesso, insensato e insensível diante do sofrimento do povo brasileiro”.
Wagner é o único dos seis senadores petistas a não assinar o requerimento da Comissão Parlamentar de Inquérito.
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