Paulopes
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A ala mais científica do movimento se desprendeu, pelo menos em público, das pretensões metafísicas, passando a atuar na parapsicologia.
No Brasil, porém, as coisas aconteceram de forma bem diferente: aqui, quando o espiritualismo se fragmentou, um aspecto — denominado “espiritismo”, “kardecismo” ou “espiritismo kardecista” — suplantou todos os outros e foi abraçado por membros relevantes das elites intelectuais e profissionais, incluindo médicos, advogados, juízes, políticos.
O espiritualismo se tornou, assim, o principal nexo da pseudociência brasileira, incorporando ufologia, parapsicologia, cura pela fé e todos os tipos de medicamentos alternativos “magnéticos” e “baseados em energia”.
O kardecismo leva o nome de Allan Kardec, pseudônimo do escritor e educador francês Hippolyte Rivail (1804-1869), que escreveu extensivamente sobre o assunto, construindo uma “doutrina espírita” própria, incluindo sucessivas reencarnações e progressão da alma.
As ideias de Kardec foram influenciadas pelo magnetismo animal” dos mesmeristas do século XVIII e pelas supostas conversas do teólogo sueco Emanuel Swedenborg (1668-1772) com espíritos de outros planetas.
As ideias de Kardec não impressionaram a maioria dos espiritualistas de seu tempo — o médium escocês DD Home (1833-1886), uma verdadeira “estrela do rock” da cena espiritualista vitoriana, descreveu-as como “delírios” e “fantasias”, mas elas se enraizaram no Brasil e passou por um processo de sincretismo bem brasileiro, de fusão de doutrinas diversas em quimeras ideológicas muito ágeis.
Por exemplo, um dos principais proponentes do kardecismo brasileiro, o médico Bezerra de Menezes (1831-1900) deixou um trato psiquiátrico póstumo, “A Loucura sob um novo prisma”, dizendo que transtornos mentais que ocorrem sem lesão cerebral perceptível deveriam ser atribuído à interferência espiritual.
O livro termina com uma carta supostamente escrita pelo fantasma de Samuel Hahnemann (1775-1779), o criador da homeopatia.
Como resultado, no final do século XIX era comum médiuns e espíritas, em transe, prescreverem medicação homeopática.
Durante o século XX, o kardecismo se conectou à ufologia (considerando haver manifestações de espíritos extraterrestres), à homeopatia, à acupuntura, à cura pela fé, à transferência de "energia" positiva a doentes pelas mãos, à cirurgia psíquica, à parapsicologia (o livro canônico sobre a investigação dos poltergeists no Brasil, de Hernani Guimarães Andrade (1913-2003) é uma obra espírita), e até à jurisprudência.
A disseminação desse tipo de crença sobrenatural vai tão longe que há um debate animado em faculdades de Direito e tribunais sobre a admissibilidade de material "psíquico", ou seja, cartas escritas por um médium enquanto possuído por uma pessoa morta, como prova em julgamentos de homicídio: pelo menos um assassino acusado foi absolvido pelo júri depois que a vítima testemunhou em seu nome, desde o Grande Além .
Quando a ditadura militar (1964-1985) chegou ao fim e o país elaborou uma nova Constituição democrática, os espíritas estavam na vanguarda do esforço para institucionalizar a medicina alternativa no sistema de saúde.
Os líderes espíritas reivindicaram “uma Nova Epistemologia para uma Nova República”, e o I Congresso Internacional de Terapias Alternativas, realizado em São Paulo em fevereiro de 1985, foi um Congresso espírita de fato.
Se o Brasil queria liberdade política, por que não liberdade epistêmica? Então, agora, 36 anos depois, temos 29 terapias complementares e alternativas pagas com recursos do governo.
O problema com a liberdade epistêmica é que não podemos votar para decidir se um antibiótico funciona ou não, temos que testá-lo em laboratórios clínicos. E se os testes mostrarem que o antibiótico funciona, não importa como você se sinta a respeito dele ou se não acredita nele: ele funcionará de qualquer maneira.
Quando o método científico é criticado por não ser um método perfeito, podemos fazer uma comparação útil com a democracia: sabemos que a democracia não é perfeita, pois às vezes são eleitos governos autoritários ou incompetentes, mas é o melhor sistema que temos até agora. Da mesma forma, a ciência é o melhor sistema que temos para testar hipóteses e desenvolver tecnologias e terapias que realmente funcionem.
No entanto, o sentimento geral de liberdade em nossa jovem democracia brasileira na década de 1980 pode ter dado origem a um ambiente onde, como diz Isaac Asimov : “O anti-intelectualismo tem sido um fio constante em nossa vida política e cultural, alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento.”
Nesse ambiente, a medicina alternativa floresceu. Endossada pela opinião pública e pelo sentimento religioso, ela rapidamente ganhou reconhecimento oficial como medicamento, sem contestação por várias décadas.
Poucos questionaram a presença da medicina alternativa no sistema público de saúde, e logo terapias alternativas foram introduzidas nas escolas médicas e na rede privada de saúde. Falar contra a medicina alternativa era considerado “cientificismo” e desrespeito à sabedoria do “povo”.
Essa mentalidade tem um forte impacto sobre como uma sociedade reage à medicina baseada em evidências. Não é de admirar que o Brasil tenha sido o centro de curas milagrosas durante a pandemia.
O pensamento mágico se estende da homeopatia à cloroquina, ivermectina, nitazoxanida e todos os tipos de 'curas' falsas atualmente endossadas e promovidas pelo nosso Ministério da Saúde.
Os argumentos são os mesmos endossados pela “democracia epistêmica” dos anos 80: a valorização da evidência anedótica, a inversão do ônus da prova exigindo que os cientistas provem que esses tratamentos não funcionam, o mau uso de velha argumentação segundo a qual “a ausência de evidência não é evidência de ausência”.
Nossa história com o espiritismo e a medicina alternativa mostra que temos um longo caminho a percorrer se quisermos promover a alfabetização científica.
Não se trata apenas de explicar como a ciência funciona, mas de compreender décadas de hábitos culturais e crenças religiosas que se misturaram com a ciência e a medicina e, pior, a religião disfarçada de ciência. O excepcionalismo epistêmico da ciência existe por uma razão: as terapias baseadas na ciência podem funcionar.
> Este artigo foi publicado originalmente The Skeptic com o título Kardecism: the fringe spiritualist doctrine which became the soul of pseudoscience in Brazil. Natalia Pasternak é microbiolista e o jornalista Carlos Orsi é o editor da revista Questão de Ciência. A pintura que ilustra o texto é Hypnotic Séance (1887), de Richard Bergh, e se encontra no museu National Museum.
No ano de 2013, no auge do ativismo ateísta brasileiro da primeira metade da década de 2010, o professor Marcos Afonso, palestrante no II Encontro Nacional dos Ateus – Edição Rio Branco/Acre, afirmou que o ateu que fica preso apenas na discussão sobre evidências, sem levar em conta o todo social no qual está inserido, é apenas um cartesiano.
Marcos Afonso chamava atenção naquele momento para a necessidade de os ateus desempenharem uma função propositiva nas realidades sociais em que estão inseridos.
Penso que essa reflexão é central quando se indaga sobre a existência e a atuação de um ativismo ateísta, o qual, de 2013 para o tempo presente, conheceu um sensível declínio no Brasil.
Uma das características que se encontra nas sociedades contemporâneas é a organização de grupos em prol de um ativismo que busca o atendimento de demandas sociais e políticas. Em um primeiro momento, parece não fazer muito sentido falar em ativismo ateísta, pois se falaria de uma população que é definida apenas por não acreditar em Deus.
Contudo, como destaco a partir de minhas pesquisas sobre história do ateísmo, a descrença em Deus é um componente de uma circunstância mais ampla que envolve ateus e ateias.
É possível verificar que em sociedades marcadamente religiosas, atitudes de desconfiança e hostilidade historicamente foram direcionadas para quem manifestava dúvidas ou rejeitava a existência de um mundo religioso.
Nesse sentido, um dos primeiros passos que um ativismo ateísta pode dar é o de combater o preconceito e os estereótipos depreciativos criados em torno dos ateus e ateias, como a ideia de que ateu não possui moral.
A denúncia e crítica ao preconceito direcionado ao ateísmo se insere, no meu ponto de vista, a defesa do respeito as pessoas manifestarem, sem sofrer represália, sua descrença religiosa e sua visão de mundo alternativa aquela baseada na ideia de existir um Deus.
"[O descrente] não é um cara que eu quero ao meu lado. Eu quero um cara temente [a Deus]."
O youtuber concordou com Rasmussen, ressaltando não querer dizer que todo "ateu é filho da puta", mas, acrescentou, se não acreditasse em Deus não teria motivo para "fazer o bem às pessoas".
Rasmussen reforçou: "[Não crer em Deus seria] ruim para você e perigoso para os outros".
Na área de comentários do vídeo, Jonathan Guimarães escreveu: "Na minha humilde opinião, quem precisa crer em algo superior pra ter moral não entende realmente a liberdade da decisão de fazer o bem, porque precisa se subordinar a algo que julga maior que ele. Essa pessoa realmente é um potencial perigo, porque basta que seu superior ordene e ele irá odiar e fazer o mal a qualquer um".
Formado em biologia, o suposto protetor dos animais acumulou em 15 anos, até 2017, oito processos por crimes ambientais.
Um dos crimes teria sido ele ter contratado em 2014 pescadores para abater uma fêmea grávida de boto rosa durante uma gravação para denunciar a matança da espécie desse animal no Amazonas. Ele nega a acusação.
Saiba por que o espiritismo kardecista é a alma da pseudociência no Brasil
NATÁLIA PASTERNAK / CARLOS ORSI | THE SKEPTIC As origens do espiritualismo moderno, a crença de que os mortos podem falar com os vivos por meio de pessoas especialmente dotadas chamadas 'canalizadores' ou 'médiuns', remontam à cidade de Hydesville, Nova York, em 1848, quando dois adolescentes, Maggie e Kate Fox, começaram a se comunicar com um fantasma.
Décadas depois, as duas irmãs, em várias ocasiões, confessaram a fraude e, com pouca ou nenhuma repercussão, denunciaram o movimento que haviam iniciado involuntariamente.
Localizada inicialmente na encruzilhada entre religião e ciência — muitas vezes vista como uma fonte de validação científica e empírica para princípios de sistemas religiosos e metafísicos, como a sobrevivência da personalidade após a morte corporal —, o espiritualismo, pelo menos em países de língua inglesa, fragmentou-se em cultos religiosos populistas ou em atrações de circo, atraindo multidões, não muito diferente do negócio de cura pela fé, e igualmente explorado por operadores obscuros.
Décadas depois, as duas irmãs, em várias ocasiões, confessaram a fraude e, com pouca ou nenhuma repercussão, denunciaram o movimento que haviam iniciado involuntariamente.
Localizada inicialmente na encruzilhada entre religião e ciência — muitas vezes vista como uma fonte de validação científica e empírica para princípios de sistemas religiosos e metafísicos, como a sobrevivência da personalidade após a morte corporal —, o espiritualismo, pelo menos em países de língua inglesa, fragmentou-se em cultos religiosos populistas ou em atrações de circo, atraindo multidões, não muito diferente do negócio de cura pela fé, e igualmente explorado por operadores obscuros.
No Brasil, porém, as coisas aconteceram de forma bem diferente: aqui, quando o espiritualismo se fragmentou, um aspecto — denominado “espiritismo”, “kardecismo” ou “espiritismo kardecista” — suplantou todos os outros e foi abraçado por membros relevantes das elites intelectuais e profissionais, incluindo médicos, advogados, juízes, políticos.
O espiritualismo se tornou, assim, o principal nexo da pseudociência brasileira, incorporando ufologia, parapsicologia, cura pela fé e todos os tipos de medicamentos alternativos “magnéticos” e “baseados em energia”.
O kardecismo leva o nome de Allan Kardec, pseudônimo do escritor e educador francês Hippolyte Rivail (1804-1869), que escreveu extensivamente sobre o assunto, construindo uma “doutrina espírita” própria, incluindo sucessivas reencarnações e progressão da alma.
As ideias de Kardec foram influenciadas pelo magnetismo animal” dos mesmeristas do século XVIII e pelas supostas conversas do teólogo sueco Emanuel Swedenborg (1668-1772) com espíritos de outros planetas.
As ideias de Kardec não impressionaram a maioria dos espiritualistas de seu tempo — o médium escocês DD Home (1833-1886), uma verdadeira “estrela do rock” da cena espiritualista vitoriana, descreveu-as como “delírios” e “fantasias”, mas elas se enraizaram no Brasil e passou por um processo de sincretismo bem brasileiro, de fusão de doutrinas diversas em quimeras ideológicas muito ágeis.
O livro termina com uma carta supostamente escrita pelo fantasma de Samuel Hahnemann (1775-1779), o criador da homeopatia.
Como resultado, no final do século XIX era comum médiuns e espíritas, em transe, prescreverem medicação homeopática.
Durante o século XX, o kardecismo se conectou à ufologia (considerando haver manifestações de espíritos extraterrestres), à homeopatia, à acupuntura, à cura pela fé, à transferência de "energia" positiva a doentes pelas mãos, à cirurgia psíquica, à parapsicologia (o livro canônico sobre a investigação dos poltergeists no Brasil, de Hernani Guimarães Andrade (1913-2003) é uma obra espírita), e até à jurisprudência.
A disseminação desse tipo de crença sobrenatural vai tão longe que há um debate animado em faculdades de Direito e tribunais sobre a admissibilidade de material "psíquico", ou seja, cartas escritas por um médium enquanto possuído por uma pessoa morta, como prova em julgamentos de homicídio: pelo menos um assassino acusado foi absolvido pelo júri depois que a vítima testemunhou em seu nome, desde o Grande Além .
Quando a ditadura militar (1964-1985) chegou ao fim e o país elaborou uma nova Constituição democrática, os espíritas estavam na vanguarda do esforço para institucionalizar a medicina alternativa no sistema de saúde.
Os líderes espíritas reivindicaram “uma Nova Epistemologia para uma Nova República”, e o I Congresso Internacional de Terapias Alternativas, realizado em São Paulo em fevereiro de 1985, foi um Congresso espírita de fato.
Se o Brasil queria liberdade política, por que não liberdade epistêmica? Então, agora, 36 anos depois, temos 29 terapias complementares e alternativas pagas com recursos do governo.
Quando o método científico é criticado por não ser um método perfeito, podemos fazer uma comparação útil com a democracia: sabemos que a democracia não é perfeita, pois às vezes são eleitos governos autoritários ou incompetentes, mas é o melhor sistema que temos até agora. Da mesma forma, a ciência é o melhor sistema que temos para testar hipóteses e desenvolver tecnologias e terapias que realmente funcionem.
No entanto, o sentimento geral de liberdade em nossa jovem democracia brasileira na década de 1980 pode ter dado origem a um ambiente onde, como diz Isaac Asimov : “O anti-intelectualismo tem sido um fio constante em nossa vida política e cultural, alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento.”
Nesse ambiente, a medicina alternativa floresceu. Endossada pela opinião pública e pelo sentimento religioso, ela rapidamente ganhou reconhecimento oficial como medicamento, sem contestação por várias décadas.
Poucos questionaram a presença da medicina alternativa no sistema público de saúde, e logo terapias alternativas foram introduzidas nas escolas médicas e na rede privada de saúde. Falar contra a medicina alternativa era considerado “cientificismo” e desrespeito à sabedoria do “povo”.
Essa mentalidade tem um forte impacto sobre como uma sociedade reage à medicina baseada em evidências. Não é de admirar que o Brasil tenha sido o centro de curas milagrosas durante a pandemia.
O pensamento mágico se estende da homeopatia à cloroquina, ivermectina, nitazoxanida e todos os tipos de 'curas' falsas atualmente endossadas e promovidas pelo nosso Ministério da Saúde.
Os argumentos são os mesmos endossados pela “democracia epistêmica” dos anos 80: a valorização da evidência anedótica, a inversão do ônus da prova exigindo que os cientistas provem que esses tratamentos não funcionam, o mau uso de velha argumentação segundo a qual “a ausência de evidência não é evidência de ausência”.
Nossa história com o espiritismo e a medicina alternativa mostra que temos um longo caminho a percorrer se quisermos promover a alfabetização científica.
Não se trata apenas de explicar como a ciência funciona, mas de compreender décadas de hábitos culturais e crenças religiosas que se misturaram com a ciência e a medicina e, pior, a religião disfarçada de ciência. O excepcionalismo epistêmico da ciência existe por uma razão: as terapias baseadas na ciência podem funcionar.
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| Brasil tem tradição de pessoas que falam com espíritos, como Zé Arigo e João de Deus |
> Este artigo foi publicado originalmente The Skeptic com o título Kardecism: the fringe spiritualist doctrine which became the soul of pseudoscience in Brazil. Natalia Pasternak é microbiolista e o jornalista Carlos Orsi é o editor da revista Questão de Ciência. A pintura que ilustra o texto é Hypnotic Séance (1887), de Richard Bergh, e se encontra no museu National Museum.
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Secularização orgânica que ocorre nos Estados Unidos é força progressista do bem
PHIL ZUCKERMAN A secularização da sociedade dos Estados Unidos — o declínio da fé, prática e filiação religiosas — continua em um ritmo dramático e sem precedentes históricos. Embora muitos possam considerar tal desenvolvimento como motivo de preocupação, tal preocupação não se justifica. Essa crescente secularização na América é, na verdade, uma coisa boa, para ser bem recebida e abraçada.
Este declínio na afiliação religiosa se alinha de perto com muitas tendências de secularização semelhantes. Por exemplo, no início dos anos 1970, apenas um em cada 20 americanos alegava "nenhuma" como sua religião, mas hoje está mais perto de um em cada três.
No mesmo período, a frequência semanal à igreja diminuiu e a porcentagem de americanos que nunca frequentaram serviços religiosos aumentou de 9% para 30%.
Em 1976, quase 40% dos americanos disseram acreditar que a Bíblia era a verdadeira palavra de Deus, que deve ser interpretada literalmente. Hoje, apenas cerca de um quarto dos americanos acredita que, com um pouco mais de decreto, a Bíblia é simplesmente uma coleção de fábulas, histórias e contos morais escritos por homens. E a porcentagem de americanos que acreditam com segurança na existência de Deus, sem dúvida, diminuiu de 63% em 1990 para 53% hoje.
Temores de que esse aumento da irreligião possa resultar na deterioração da fibra moral de nossa nação — e ameaçar nossas liberdades e liberdades — são compreensíveis.
Essas preocupações têm mérito histórico: a ex-União Soviética era um país comunista profundamente enraizado no ateísmo e foi um dos regimes mais corruptos e sangrentos do século XX. Outros regimes autoritários ateus, como a ex-Albânia e o Camboja, eram igualmente tortuosos e cruéis.
Mas o problema é o seguinte — todas essas ditaduras sem Deus que tentaram destruir a religião à força, perseguindo os fiéis, oprimindo ativamente as instituições religiosas e criando um culto demagógico com seus governantes brutamontes. Essa secularização coerciva é, de fato, algo a temer.
No entanto, existe outro tipo alternativo de secularização, aquele que surge organicamente, em meio a sociedades livres e abertas onde os direitos humanos, incluindo a liberdade religiosa, são defendidos e respeitados.
Muitas sociedades se qualificam para este rótulo — incluindo aquelas no Japão, Escandinávia, Reino Unido, República Tcheca, Austrália, Canadá e Uruguai, entre muitos outros.
Nesses lugares, a religião não é ativamente reprimida, nem os governos promovem a secularização. E, no entanto, ocorre simplesmente porque as pessoas que vivem nessas sociedades perdem o interesse em todo o empreendimento religioso.
A secularização orgânica pode ocorrer por vários motivos. Acontece quando os membros de uma sociedade se tornam mais educados, mais prósperos e vivem vidas mais seguras, protegidas e pacíficas; quando as sociedades experimentam aumentos no isolamento social; quando as pessoas têm melhores cuidados de saúde; quando mais mulheres têm empregos remunerados; quando mais pessoas esperam mais para se casar e ter filhos. Tudo isso, especialmente em combinação, pode diminuir a religiosidade.
Outro fator importante é a onipresença da internet, que fornece janelas abertas para visões de mundo alternativas e diferentes culturas que podem corroer a convicção religiosa — e permite que os céticos em ascensão e os livres-pensadores nascentes se encontrem, apoiem e encorajem uns aos outros.
Nos Estados Unidos, esses fatores são agravados por fortes reações contra a direita religiosa, a aliança evangélico-republicana, a agenda anti-gay da religião conservadora e os escândalos de abuso sexual da Igreja Católica. Isso resultou em “os ventos da secularização ... girando como nunca antes”, disse recentemente Ryan P. Burge, um cientista político.
Deixando de lado o medo do autoritarismo ateísta, alguns podem se preocupar com o desaparecimento das organizações religiosas por fazerem tanto bem. Eles se envolvem em uma enorme quantidade de trabalho de caridade que inclui a realização de campanhas de alimentos e a instalação de cozinhas populares e abrigos para moradores de rua. No entanto, essa caridade bem-vinda é, em última análise, uma resposta altruísta aos sintomas, não uma cura estrutural para as causas profundas.
É por isso que democracias altamente seculares fazem um trabalho muito melhor na redução da pobreza e dos sem-teto, empregando soluções decididamente seculares, como responder com políticas sociais racionais e estratégias econômicas sábias, e estabelecer instituições mais responsivas. Moradia a preços acessíveis e assistência médica subsidiada fazem um trabalho muito melhor em aliviar o sofrimento dos pobres e doentes do que instituições de caridade baseadas na fé.
A secularidade está altamente correlacionada com uma série de orientações morais que irão melhorar significativamente nossa nação. Por exemplo, pessoas seculares — quando comparadas a seus pares religiosos — são muito mais propensas a entender e respeitar o método científico, o que resulta em sua maior disposição para se vacinar, por exemplo, e aderir a recomendações de saúde com base empírica, uma orientação racional que salva vidas.
Pessoas seculares também são mais favoráveis de educação sexual, o que reduz a gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis.
A pesquisa mostra que as pessoas seculares são mais propensas a apoiar os direitos reprodutivos das mulheres , saúde universal, direitos dos homossexuais, proteção ambiental, morte com dignidade, legislação de segurança de armas e tratamento do abuso de drogas como um problema médico em vez de criminal — tudo o que servirá para aumentar a dignidade, liberdade e bem-estar na América.
A secularização orgânica que estamos experimentando nos Estados Unidos é uma força progressiva para o bem, associada a melhores direitos humanos, mais proteções para o planeta Terra e uma maior propensão sociocultural para tornar esta vida o mais justa e justa possível — no aqui e agora — ao invés de uma recompensa celestial em que cada vez menos acreditamos.
> Esse texto foi publicado originalmente no Los Angeles Times com o título Op-Ed: Why America’s record godlessness is good news for the nation. Phil Zuckerman é reitor associado do Pitzer College e autor de Society Without God: What the Least Religious Nations Can Tell Us about Contentment.
Moral vem da evolução, não de Deus, diz livro de Phil Zuckerman
As sociedades democráticas que experimentaram os maiores graus de secularização estão entre as mais saudáveis, ricas e seguras do mundo, desfrutando de índices relativamente baixos de crimes violentos e altos níveis de bem-estar e felicidade. Claramente, uma perda rápida da religião não resulta em ruína social.
Pela primeira vez desde que o Gallup começou a rastrear os números em 1937, os americanos que são membros de uma igreja, sinagoga ou mesquita não são a maioria, de acordo com um relatório do Gallup divulgado esta semana. Compare os atuais 47% com 1945, quando mais de 75% dos americanos pertenciam a uma congregação religiosa.
Pela primeira vez desde que o Gallup começou a rastrear os números em 1937, os americanos que são membros de uma igreja, sinagoga ou mesquita não são a maioria, de acordo com um relatório do Gallup divulgado esta semana. Compare os atuais 47% com 1945, quando mais de 75% dos americanos pertenciam a uma congregação religiosa.
No mesmo período, a frequência semanal à igreja diminuiu e a porcentagem de americanos que nunca frequentaram serviços religiosos aumentou de 9% para 30%.
Em 1976, quase 40% dos americanos disseram acreditar que a Bíblia era a verdadeira palavra de Deus, que deve ser interpretada literalmente. Hoje, apenas cerca de um quarto dos americanos acredita que, com um pouco mais de decreto, a Bíblia é simplesmente uma coleção de fábulas, histórias e contos morais escritos por homens. E a porcentagem de americanos que acreditam com segurança na existência de Deus, sem dúvida, diminuiu de 63% em 1990 para 53% hoje.
Temores de que esse aumento da irreligião possa resultar na deterioração da fibra moral de nossa nação — e ameaçar nossas liberdades e liberdades — são compreensíveis.
Essas preocupações têm mérito histórico: a ex-União Soviética era um país comunista profundamente enraizado no ateísmo e foi um dos regimes mais corruptos e sangrentos do século XX. Outros regimes autoritários ateus, como a ex-Albânia e o Camboja, eram igualmente tortuosos e cruéis.
Mas o problema é o seguinte — todas essas ditaduras sem Deus que tentaram destruir a religião à força, perseguindo os fiéis, oprimindo ativamente as instituições religiosas e criando um culto demagógico com seus governantes brutamontes. Essa secularização coerciva é, de fato, algo a temer.
Muitas sociedades se qualificam para este rótulo — incluindo aquelas no Japão, Escandinávia, Reino Unido, República Tcheca, Austrália, Canadá e Uruguai, entre muitos outros.
Nesses lugares, a religião não é ativamente reprimida, nem os governos promovem a secularização. E, no entanto, ocorre simplesmente porque as pessoas que vivem nessas sociedades perdem o interesse em todo o empreendimento religioso.
A secularização orgânica pode ocorrer por vários motivos. Acontece quando os membros de uma sociedade se tornam mais educados, mais prósperos e vivem vidas mais seguras, protegidas e pacíficas; quando as sociedades experimentam aumentos no isolamento social; quando as pessoas têm melhores cuidados de saúde; quando mais mulheres têm empregos remunerados; quando mais pessoas esperam mais para se casar e ter filhos. Tudo isso, especialmente em combinação, pode diminuir a religiosidade.
Outro fator importante é a onipresença da internet, que fornece janelas abertas para visões de mundo alternativas e diferentes culturas que podem corroer a convicção religiosa — e permite que os céticos em ascensão e os livres-pensadores nascentes se encontrem, apoiem e encorajem uns aos outros.
Nos Estados Unidos, esses fatores são agravados por fortes reações contra a direita religiosa, a aliança evangélico-republicana, a agenda anti-gay da religião conservadora e os escândalos de abuso sexual da Igreja Católica. Isso resultou em “os ventos da secularização ... girando como nunca antes”, disse recentemente Ryan P. Burge, um cientista político.
Deixando de lado o medo do autoritarismo ateísta, alguns podem se preocupar com o desaparecimento das organizações religiosas por fazerem tanto bem. Eles se envolvem em uma enorme quantidade de trabalho de caridade que inclui a realização de campanhas de alimentos e a instalação de cozinhas populares e abrigos para moradores de rua. No entanto, essa caridade bem-vinda é, em última análise, uma resposta altruísta aos sintomas, não uma cura estrutural para as causas profundas.
A secularidade está altamente correlacionada com uma série de orientações morais que irão melhorar significativamente nossa nação. Por exemplo, pessoas seculares — quando comparadas a seus pares religiosos — são muito mais propensas a entender e respeitar o método científico, o que resulta em sua maior disposição para se vacinar, por exemplo, e aderir a recomendações de saúde com base empírica, uma orientação racional que salva vidas.
Pessoas seculares também são mais favoráveis de educação sexual, o que reduz a gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis.
A pesquisa mostra que as pessoas seculares são mais propensas a apoiar os direitos reprodutivos das mulheres , saúde universal, direitos dos homossexuais, proteção ambiental, morte com dignidade, legislação de segurança de armas e tratamento do abuso de drogas como um problema médico em vez de criminal — tudo o que servirá para aumentar a dignidade, liberdade e bem-estar na América.
A secularização orgânica que estamos experimentando nos Estados Unidos é uma força progressiva para o bem, associada a melhores direitos humanos, mais proteções para o planeta Terra e uma maior propensão sociocultural para tornar esta vida o mais justa e justa possível — no aqui e agora — ao invés de uma recompensa celestial em que cada vez menos acreditamos.
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| Em alguns países, a secularização ocorre naturalmente, sem que as pessoas deem conta disso |
> Esse texto foi publicado originalmente no Los Angeles Times com o título Op-Ed: Why America’s record godlessness is good news for the nation. Phil Zuckerman é reitor associado do Pitzer College e autor de Society Without God: What the Least Religious Nations Can Tell Us about Contentment.
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Ateus precisam se unir para se opor aos religiosos e políticos que flertam com a teocracia
>RICARDO OLIVEIRA DA SILVA
Marcos Afonso chamava atenção naquele momento para a necessidade de os ateus desempenharem uma função propositiva nas realidades sociais em que estão inseridos.
Penso que essa reflexão é central quando se indaga sobre a existência e a atuação de um ativismo ateísta, o qual, de 2013 para o tempo presente, conheceu um sensível declínio no Brasil.
Uma das características que se encontra nas sociedades contemporâneas é a organização de grupos em prol de um ativismo que busca o atendimento de demandas sociais e políticas. Em um primeiro momento, parece não fazer muito sentido falar em ativismo ateísta, pois se falaria de uma população que é definida apenas por não acreditar em Deus.
É possível verificar que em sociedades marcadamente religiosas, atitudes de desconfiança e hostilidade historicamente foram direcionadas para quem manifestava dúvidas ou rejeitava a existência de um mundo religioso.
Nesse sentido, um dos primeiros passos que um ativismo ateísta pode dar é o de combater o preconceito e os estereótipos depreciativos criados em torno dos ateus e ateias, como a ideia de que ateu não possui moral.
A denúncia e crítica ao preconceito direcionado ao ateísmo se insere, no meu ponto de vista, a defesa do respeito as pessoas manifestarem, sem sofrer represália, sua descrença religiosa e sua visão de mundo alternativa aquela baseada na ideia de existir um Deus.
Por isso o tema do Estado laico é importante para o ativismo ateísta. Como parte do vocabulário político moderno, a ideia de Estado laico se refere a uma instituição que possui entre seus objetivos garantir a liberdade de crença e de descrença religiosa de forma equânime.
Ao se falar em Estado laico, o que é realçado é uma dimensão política do ativismo ateísta, que igualmente pode focar no livre-pensamento, como na promoção de uma educação que não significa eliminar o conhecimento das ideias religiosas entre a população, mas que não cerceie o conhecimento de um ensino e de valores éticos seculares.
Nos pontos que apresentei não falei que o ativismo ateísta deve “converter” pessoas ao ateísmo, pois não considero que isso deva ser o papel do ativismo ateísta.
O respeito à diversidade de crenças como base para o princípio da tolerância nas relações humanas é o que defendo como profícuo e salutar no engajamento social dos ateus e ateias.
A crítica as ideias e instituições religiosas por parte do ativismo ateísta são importantes quando o foco é destacar o papel social delas como promotores de opressão e preconceitos.
Por isso atualmente o tema da laicidade ganha evidência no meio ateísta, já que vivemos um contexto histórico onde o governo federal flerta e busca apoio em grupos religiosos que explicitamente se opõem ao Estado laico para auferir benefícios próprios. Inclusive o lema da campanha presidencial de Bolsonaro em 2018 foi “Deus acima de todos”.
Em 2013, quando ocorreu o Encontro Nacional de Ateus – Edição Rio Branco/Acre, o ativismo ateísta estava em ascensão. Poucos anos depois, ele perdeu força.
Divergências políticas e na forma de modelar o engajamento social foram fatores que colaboraram para esse declínio. Porém, hoje, é mais do que urgente que o meio ateísta busque dialogar entre si e com outros setores da sociedade, inclusive religiosos, para se opor aos desejos de teocracia que povoam os sonhos de conservadores religiosos e políticos.
E, parafraseando um antigo pensador do século XIX, com a consciência de que pode soar como clichê, finalizo o artigo com a sentença: “Ateus e Ateias do Brasil, uni-vos!”
Ao se falar em Estado laico, o que é realçado é uma dimensão política do ativismo ateísta, que igualmente pode focar no livre-pensamento, como na promoção de uma educação que não significa eliminar o conhecimento das ideias religiosas entre a população, mas que não cerceie o conhecimento de um ensino e de valores éticos seculares.
Nos pontos que apresentei não falei que o ativismo ateísta deve “converter” pessoas ao ateísmo, pois não considero que isso deva ser o papel do ativismo ateísta.
O respeito à diversidade de crenças como base para o princípio da tolerância nas relações humanas é o que defendo como profícuo e salutar no engajamento social dos ateus e ateias.
A crítica as ideias e instituições religiosas por parte do ativismo ateísta são importantes quando o foco é destacar o papel social delas como promotores de opressão e preconceitos.
Por isso atualmente o tema da laicidade ganha evidência no meio ateísta, já que vivemos um contexto histórico onde o governo federal flerta e busca apoio em grupos religiosos que explicitamente se opõem ao Estado laico para auferir benefícios próprios. Inclusive o lema da campanha presidencial de Bolsonaro em 2018 foi “Deus acima de todos”.
Em 2013, quando ocorreu o Encontro Nacional de Ateus – Edição Rio Branco/Acre, o ativismo ateísta estava em ascensão. Poucos anos depois, ele perdeu força.
Divergências políticas e na forma de modelar o engajamento social foram fatores que colaboraram para esse declínio. Porém, hoje, é mais do que urgente que o meio ateísta busque dialogar entre si e com outros setores da sociedade, inclusive religiosos, para se opor aos desejos de teocracia que povoam os sonhos de conservadores religiosos e políticos.
E, parafraseando um antigo pensador do século XIX, com a consciência de que pode soar como clichê, finalizo o artigo com a sentença: “Ateus e Ateias do Brasil, uni-vos!”
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Vídeo: Rasmussen afirma que o homem mais perigoso é aquele que não crê em Deus
Richard Rasmussen, que ficou conhecido como apresentador do mundo animal em emissoras de TV, mostrou em um canal no Youtube que tem preconceito contra quem não acredita em Deus.
Em uma conversa sobre sua experiência com o controvertido chá alucinógeno Ayahuasca, usado em seitas do Santo Daime para "abrir a mente", ele afirmou, ao final, que "o importante é você acreditar em alguma coisa, [porque] o homem mais perigoso é aquele que não acredita em nada".
Em uma conversa sobre sua experiência com o controvertido chá alucinógeno Ayahuasca, usado em seitas do Santo Daime para "abrir a mente", ele afirmou, ao final, que "o importante é você acreditar em alguma coisa, [porque] o homem mais perigoso é aquele que não acredita em nada".
Rasmussen reforçou: "[Não crer em Deus seria] ruim para você e perigoso para os outros".
Na área de comentários do vídeo, Jonathan Guimarães escreveu: "Na minha humilde opinião, quem precisa crer em algo superior pra ter moral não entende realmente a liberdade da decisão de fazer o bem, porque precisa se subordinar a algo que julga maior que ele. Essa pessoa realmente é um potencial perigo, porque basta que seu superior ordene e ele irá odiar e fazer o mal a qualquer um".
Formado em biologia, o suposto protetor dos animais acumulou em 15 anos, até 2017, oito processos por crimes ambientais.
Um dos crimes teria sido ele ter contratado em 2014 pescadores para abater uma fêmea grávida de boto rosa durante uma gravação para denunciar a matança da espécie desse animal no Amazonas. Ele nega a acusação.
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