DISCURSO da ESTUPIDEZ

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O FENÔMENO comovente descoberto por médico que acompanha pessoas PRÓXIMAS à MORTE
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'NÃO existe mais GRUPO de RISCO para a Covid-19'
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Roberto Carlos estrelou 'um dos mais ousados filmes brasileiros'

Como assistir, em casa, à trilogia de longas do Rei, que começa com o inovador ‘Em ritmo de aventura’
Marcelo Janot
18/04/2021 - 04:44
Cena do filme "Roberto Carlos em ritmo de aventura" Foto: Reprodução
Cena do filme "Roberto Carlos em ritmo de aventura" Foto: Reprodução

A estreia de Roberto Carlos no cinema foi aos 17 anos. Ele aparece alguns segundos na chanchada “Alegria de viver” e tocando na banda de Cauby Peixoto em “Minha sogra é da polícia”. Dez anos depois, já era um ídolo nacional, o Rei que comandava o programa de TV “Jovem Guarda” nas tardes de domingo. Inspirado pelos filmes dos Beatles, o diretor e produtor Roberto Farias teve a ideia de levar Roberto Carlos de volta às telas, só que como protagonista.

“Roberto Carlos em ritmo de aventura” (1968) buscava captar a irreverência anárquica de “Os Reis do Iê-Iê-Iê” (1964) e “Help” (1965), ambos com os quatro rapazes de Liverpool. Mas foi muito além. O escritor Paulo Mendes Campos assina com Farias um roteiro que capta o espírito libertário característico dos cinemas novos que nos anos 60 desafiaram o estatuto da imagem. Incompreendido à época, merece ser reconhecido como um dos melhores e mais ousados filmes brasileiros de todos os tempos. A narrativa, fincada na metalinguagem e recheada de elementos psicodélicos, só encontra paralelo no gênero de aventura musical em outro filme delirante do mesmo ano: “Os Monkees estão de volta”, de Bob Rafelson, uma das pedras fundamentais da Nova Hollywood.

A grande diferença para o filme dos Monkees, concebido como um “lado B” do fenômeno televisivo, é que o de Farias tinha objetivo comercial. Roberto Carlos já zelava por sua imagem perante as fãs e impôs uma série de condições em relação ao seu personagem, como não poder beijar nem amar uma mulher, e tampouco sofrer. E, claro, tinha de aparecer cantando.

A forma encontrada para driblar as limitações foi fazer um filme em que Roberto Carlos interpreta a si mesmo e leva à loucura o diretor Roberto (Reginaldo Faria), que está rodando um filme protagonizado por ele. A cena inicial, uma perseguição automobilística na Estrada do Corcovado, em que RC foge de bandidos armados, termina com a ação interrompida para que o Rei se queixe com o diretor. É quando percebemos que há um filme dentro do filme, que irá se desdobrar de forma surpreendente.

“Em ritmo de aventura” traz proezas técnicas admiráveis numa época sem efeitos digitais, como o helicóptero que passa por dentro do Túnel do Pasmado antes de sobrevoar a cidade. O Rei vai parar até no espaço a bordo de um foguete da NASA. Tudo era possível — e sobretudo divertido.

O fim dos anos 60 e início dos 70 foi a época em que RC lançou seus melhores discos, o que torna os filmes da trilogia um deleite para os ouvidos. Farias parecia ter plena consciência disso quando concebeu “Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa” (1970). As canções colocam em segundo plano a trama rocambolesca filmada no Rio, no Japão e em Israel. Com quase 3 milhões de espectadores, foi o recordista nacional de bilheteria no ano.

A liderança no ranking foi mantida no ano seguinte com “Roberto Carlos a 300 km por hora”. Dessa vez Roberto é o humilde mecânico Lalo, que não seguiu o conselho da música de seu intérprete: se apaixonou loucamente não pela namoradinha de um amigo, mas pela do patrão, um piloto de corridas (Raul Cortez). O filme vende a imagem de um Roberto Carlos profundamente romântico como a linda música “De tanto amor”, a única que ele aparece cantando. Se a intenção, além de faturar com a bilheteria e o merchandising, era valorizar o Roberto Carlos ator, ele e Erasmo Carlos têm desempenhos convincentes. Foi a última aventura de uma breve e vitoriosa carreira cinematográfica.

Onde assistir

A trilogia está disponível no Now. Amanhã, o Canal Brasil exibe os três: “Roberto Carlos em ritmo de aventura” (15h15), “Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa” (16h55) e . “Roberto Carlos a 300km por hora” (18h30).

Mais do Rei na telinha

Especiais de Natal

]Tão tradicionais quanto a rabanada e o peru de Natal, os especiais de fim de ano de Roberto Carlos para a TV Globo foram ao ar pela primeira vez em 1974, sob a direção de Augusto Cesar Vannucci. Vários estão disponíveis no Globoplay, entre eles o de 1977, que faz uma analogia entre o craque Roberto e o escrete canarinho que disputaria a Copa do Mundo no ano seguinte. O programa intercala imagens do show com conversas com Rivellino e com o Rei Pelé (com quem faz um dueto) e tem até uma performance musical em meio às ruínas de Machu Picchu, no Peru. Globoplay.

‘101 canções que tocaram o Brasil’

Na série em que Nelson Motta apresenta a história da MPB por meio de canções, Roberto Carlos é destaque no episódio “Nada será como antes”. O jornalista relembra os curiosos bastidores (como a implicância com a palavra “ronco”) da criação de “Detalhes”, parceria com Erasmo e carro-chefe do antológico disco de 1971. CurtaOn.

‘Uma noite em 67’

O documentário de Renato Terra e Ricardo Calil, lançado em 2010, aborda a final do Festival da Música Popular Brasileira de 1967. Roberto Carlos, já famoso na época por causa da Jovem Guarda, surpreendeu ao interpretar o samba “Maria, carnaval e cinzas”, de Luiz Carlos Paraná, que acabou terminando em quinto lugar. Em entrevista para o doc, Roberto fala de sua faceta “sambista”. CurtaOn.

‘Tim Maia: vale o que vier’ e ‘Minha fama de mau’

 A minissérie em dois episódios sobre Tim Maia reaproveita material do filme ficcional lançado em 2014 e acrescenta cenas documentais, como apresentações raras de Roberto Carlos na TV no início da carreira, e depoimentos do próprio Rei gravados para a série. Já em “Minha fama de mau” (2019), cinebiografia de Erasmo Carlos focada no período da Jovem Guarda, Roberto Carlos tem papel de destaque. Ele é vivido pelo ator Gabriel Leone, numa boa interpretação que não tenta imitar a todo custo os trejeitos do Rei. Globoplay. (M. J.)

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Obra de Roberto Carlos sintetiza a alma de um Brasil conservador, sentimental e contraditório

♪ ANÁLISE – Roberto Carlos chega hoje aos 80 anos com obra indestrutível na memória musical brasileira. Poucos compositores no Brasil e no mundo são donos de cancioneiro do qual se pode tirar – sem esforço – 80 músicas cantaroláveis pelo público. No caso de Roberto, um público que viveu nos anos 1960, 1970 e 1980 – décadas em que os lançamentos dos álbuns anuais do cantor mobilizavam a audiência nacional.

Antes da pandemia, os shows feitos em ginásios lotados pelo Brasil e em vários países atestaram que, mesmo sem a evidência obtida nos áureos tempos, o artista continua popular e segue conectado com o público que lhe permanece fiel. Um feito, já que poucos cantores atravessam seis décadas de carreira em plena atividade, sob os holofotes, com casas cheias.

Se a tradição de lançamentos de álbuns anuais com repertório inédito foi encerrada em 1997, a agenda de shows continuou movimentada até a paralisação do universo pop mediante a proibição de espetáculos com público presencial.

Para muitos, Roberto Carlos ainda é o Rei. Como então explicar o que soa inexplicável à luz da razão? Em ensaio de 1979, o compositor José Miguel Wisnik já acusou o despreparo da crítica musical para analisar Roberto Carlos.

A sentença fazia sentido naquela época, em que, mesmo enfileirando sucessos nas paradas, ou talvez por isso mesmo, Roberto Carlos tinha a obra minimizada pelas elites culturais, nichos dos críticos. Talvez ainda faça sentido hoje, 19 de abril de 2021, dia do 80º aniversário do artista de origem capixaba e dimensão internacional.

Roberto Carlos, em foto de 1961, ano do renegado primeiro álbum, 'Louco por você' — Foto: Arquivo Nacional
2 de 3 Roberto Carlos, em foto de 1961, ano do renegado primeiro álbum, 'Louco por você' — Foto: Arquivo Nacional

Roberto Carlos, em foto de 1961, ano do renegado primeiro álbum, 'Louco por você' — Foto: Arquivo Nacional

É difícil falar de Roberto Carlos sem falar dos vícios e virtudes do Brasil. Porque, se é possível explicar Roberto Carlos, talvez seja pela análise da obra, síntese da alma de um Brasil tão conservador quanto sentimental. Um Brasil tão moralista quanto impregnado de sensualidade. Um Brasil de fé professada em cultos de diversos credos, mas oficialmente católico. Um Brasil em tese liberal que pode se posicionar a favor de retrocessos. Um Brasil contraditório.

As canções de Roberto tocam o coração do povo – e aí talvez resida parte do desprezo destinado a essas canções pelas elites culturais de um Brasil rachado pelo apartheid social. Com alta dose de preconceito social, houve quem tenha chegado a caracterizar, ao discorrer sobre disco dos anos 1970, o público consumidor da música de Roberto Carlos como “Zé ninguém”.

Em um Brasil que nega cotidianamente a chance de todo mundo ser alguém, um grande cantor popular como Roberto Carlos talvez represente uma ameaça às soberanias das elites culturais. Porque ele está aí, firme e forte, entronizado na preferência popular do brasileiro que o acompanhou na segunda metade do século XX.

Nos anos 1960, Roberto Carlos simbolizou a rebeldia juvenil propagada por rocks de motores alavancados por automóveis possantes, dirigidos na alta velocidade das paixões primaveris. No reino do iê-iê-iê, Roberto comandou de agosto de 1965 a janeiro de 1968 a Jovem Guarda, movimento pop pretensamente contestador, mas desde o início encampado pelo sistema.

O então Rei da juventude ajudou a mudar o comportamento de jovens tachados de “alienados” por ouvirem rock e a música pop exportada para o Brasil pelo mundo então dominado pelos Beatles.

Mesmo no reinado da rebeldia juvenil, os códigos da moralidade jamais foram aviltados por Roberto, encarnação do bom moço de olhar invariavelmente triste estampado nas capas dos discos. Sem a fama de mau alimentada por Erasmo Carlos, parceiro na composição da maior parte da grande obra, Roberto personificava o amante apaixonado que, sensível, sofria por amor.

Finda a Jovem Guarda, Roberto orquestrou transição inteligente para o mundo adulto. A partir de 1969, o cantor flertou com o soul e o funk em momentos inspirados da discografia, mas, acima de tudo, investiu nas baladas românticas, tônica da discografia dos anos 1970.

Nesta década, o romantismo do repertório de Roberto Carlos ficou progressivamente mais sensual – mas sem jamais afrontar a moral e bons costumes defendidos pelos súditos, conservadores como o Rei que idolatram com inabalável fervor – e passou a conviver com manifestações da fé católica, com canções em defesas do meio ambiente e com algumas incursões pelo repertório de compositores associados a MPB, sobretudo do simpatizante Caetano Veloso.

Sim, os discos de Roberto pareceram seguir uma fórmula a partir de 1971 – ano do álbum definidor da imagem adulta do artista – mas nem por isso deixaram de apresentar grandes canções. Apontar decadência nessa fase da obra do cantor é a maior injustiça praticada contra a obra fonográfica de Roberto na década de 1970.

Até 1982, era fácil identificar algumas boas músicas em cada álbum do artista. Não raro, havia uma ou duas grandes canções. O declínio na composição desse cancioneiro ficou evidente somente a partir da segunda metade dos anos 1980 e foi amplificado nos irregulares álbuns da década seguinte. Ainda assim, sempre houve, aqui e ali, lampejos da inspiração singular de outrora.

Roberto Carlos tem carreira pautada pela extrema coerência no trato de temas como amor, sexo e religião — Foto: Zé Paulo Cardeal / TV Globo
3 de 3 Roberto Carlos tem carreira pautada pela extrema coerência no trato de temas como amor, sexo e religião — Foto: Zé Paulo Cardeal / TV Globo

Roberto Carlos tem carreira pautada pela extrema coerência no trato de temas como amor, sexo e religião — Foto: Zé Paulo Cardeal / TV Globo

Sem se abalar com os ataques, justos ou injustos, Roberto Carlos seguiu impávido pela estrada que pavimentou com extrema coerência ao tratar de temas como amor, sexo e religião. O conservadorismo tão denunciado pelos detratores talvez tenha sido o combustível que impediu o cantor de perder a direção nessa estrada.

Mesmo tendo perdido a conexão com as gerações do Brasil do século XXI, Roberto Carlos é a voz de um Brasil que se acomoda no berço das tradições. Voz excepcional, diga-se, pois, não fosse o grande compositor que é, Roberto Carlos poderia ter se firmado somente como cantor de afinação e emissão exemplares.

E o fato é que qualquer (tentativa de) explicação soa pequena diante da grandeza da obra de Roberto Carlos. Talvez esse cancioneiro dialogue com o inconsciente coletivo do Brasil, talvez a força resida tão somente no poder aliciante de melodias letradas com versos entendidos por gente de todas as classes sociais.

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Após perder os pais para a Covid-19, médica grávida morre por causa da doença, no Paraná

Depois de perder os pais, Carmela Louro Caneppa não resistiu e morreu vítima da Covid-19 — Foto: Arquivo Pessoal/Foto Autorizada
1 de 1 Depois de perder os pais, Carmela Louro Caneppa não resistiu e morreu vítima da Covid-19 — Foto: Arquivo Pessoal/Foto Autorizada

A gestão municipal informou ainda que, em um mês, a profissional perdeu o pai, que também é médico, além da mãe, que trabalhava como professora.

Familiares e amigos homenagearam a médica com um cortejo fúnebre pela cidade. O sepultamento foi feito em uma cerimônia restrita, em Planalto, também no sudoeste do estado.

Carmela deixa esposo e um filho de dois anos de idade.

Coronavírus no Paraná

O Paraná tem 901.401 casos confirmados e 20.218 mortes provocadas pela Covid-19, segundo boletim da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) publicado neste domingo.

O estado somou 1.236 novos casos e 51 óbitos, na comparação com sábado, conforme o levantamento.

Ao todo, 2.488 pacientes diagnosticados com Covid-19 estão internados. Outras 2.728 pessoas estão hospitalizadas com suspeita da doença.

Os leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para adulto exclusivos para a doença no Sistema Único de Saúde (SUS) estão 95% ocupados, no estado.

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O fenômeno comovente descoberto por médico que acompanha pessoas próximas à morte

Quando a morte se aproxima, podemos encontrar conforto e reconciliação em nossos sonhos, diz um médico de cuidados paliativos que estudou as experiências de pacientes terminais.

TOPO

Por BBC

Quando a morte se aproxima, é possível ressuscitar relacionamentos, reviver amores passados ​​e obter perdão — Foto: Getty Images
1 de 4 Quando a morte se aproxima, é possível ressuscitar relacionamentos, reviver amores passados ​​e obter perdão — Foto: Getty Images

Quando a morte se aproxima, é possível ressuscitar relacionamentos, reviver amores passados ​​e obter perdão — Foto: Getty Images

Um dos elementos mais devastadores da pandemia do Covid-19 tem sido a incapacidade de cuidar pessoalmente de entes queridos que ficam doentes.

Repetidas vezes, familiares relataram como a morte de pessoas próximas foi mais devastadora porque foram incapazes de segurar sua mão para oferecer uma presença familiar e reconfortante em seus últimos dias e horas.

Alguns tiveram que se despedir pela tela de um smartphone segurado por um profissional de saúde. Outros recorreram ao uso de walkie-talkies ou a acenos pela janela.

Como você pode superar a dor e a culpa avassaladoras que surgem quando você pensa em um ente querido morrendo sozinho?

Não tenho uma resposta para essa pergunta. Mas o trabalho de um médico de cuidados paliativos chamado Christopher Kerr, com quem escrevi o livro Death Is But a Dream: Finding Hope and Meaning at Life's End ("A morte é apenas um sonho: encontrando esperança e sentido no fim da vida", em tradução livre), pode oferecer algum conforto.

Visitantes inesperados

No início de sua carreira, Kerr foi incumbido, como todos os médicos, de se ater aos cuidados físicos de seus pacientes.

Mas ele logo percebeu um fenômeno com o qual enfermeiras experientes já estavam acostumadas.

À medida que os pacientes se aproximavam da morte, muitos tinham sonhos e visões de entes queridos falecidos que voltavam para confortá-los em seus últimos dias.

Mas ao ver a paz e o conforto que essas experiências de fim de vida pareciam proporcionar a seus pacientes, Kerr decidiu parar e escutar.

Os médicos são treinados para interpretar esses eventos como alucinações delirantes ou induzidas por drogas que podem justificar mais medicação ou sedação completa.

Muitos lares de idosos fecharam as portas para visitantes durante a pandemia — Foto: Getty Images
2 de 4 Muitos lares de idosos fecharam as portas para visitantes durante a pandemia — Foto: Getty Images

Muitos lares de idosos fecharam as portas para visitantes durante a pandemia — Foto: Getty Images

Um dia, em 2005, uma paciente terminal chamada Mary teve uma dessas visões: ela começou a mover os braços como se estivesse embalando um bebê, ninando seu filho que havia morrido ainda criança décadas antes.

Para Kerr, isso não parecia declínio cognitivo. E se, ele se perguntou, as percepções dos próprios pacientes no fim da vida fossem importantes para o seu bem-estar de forma que não devessem interessar apenas a enfermeiros, capelães e assistentes sociais?

Como seria o atendimento médico se todos os médicos também parassem e escutassem?

O início do projeto

Assim, ao ver pacientes terminais chamarem seus entes queridos, muitos dos quais não viam, tocavam ou ouviam havia décadas, ele começou a coletar e registrar testemunhos daqueles que estavam morrendo.

Ao longo de 10 anos, Kerr e sua equipe de pesquisa registraram as experiências de fim de vida de 1,4 mil pacientes e famílias.

O que ele descobriu o espantou. Mais de 80% de seus pacientes, independentemente da classe social, origem ou faixa etária, tiveram experiências no fim da vida que pareciam envolver mais do que sonhos estranhos. Eram vívidos, significativos e transformadores. E sempre aumentavam em frequência perto da morte.

Eles incluíam visões de mães, pais e parentes há muito tempo perdidos, assim como animais de estimação mortos voltando para confortar seus antigos donos.

Tratava-se de ressuscitar relacionamentos, reviver amores passados ​​e obter perdão. Muitas vezes traziam tranquilidade e apoio, paz e aceitação.

Tecelão de sonhos

A primeira vez que ouvi falar sobre a pesquisa de Kerr foi em um estábulo.

Eu estava ocupada limpando a baia do meu cavalo. Os estábulos ficavam na propriedade de Kerr, por isso frequentemente conversávamos sobre seu trabalho com os sonhos e visões de seus pacientes terminais.

Ele me contou sobre sua palestra no TEDx sobre o assunto, assim como sobre o projeto do livro em que estava escrevendo.

Não pude deixar de me emocionar com o trabalho desse médico e cientista.

Quando ele revelou que não estava avançando muito na escrita, me ofereci para ajudar. Ele hesitou a princípio. Eu era uma professora de inglês especialista em desconstruir as histórias que outros escreveram, não em escrevê-las.

O agente dele estava preocupado com a possibilidade de eu não ser capaz de escrever de forma acessível ao público, algo pelo qual os acadêmicos não são exatamente conhecidos. Insisti, e o resto é história.

Foi essa colaboração que me tornou uma escritora.

Para muitas crianças com doenças terminais, pensar em seus animais de estimação proporciona conforto e alívio — Foto: Getty Images
3 de 4 Para muitas crianças com doenças terminais, pensar em seus animais de estimação proporciona conforto e alívio — Foto: Getty Images

Para muitas crianças com doenças terminais, pensar em seus animais de estimação proporciona conforto e alívio — Foto: Getty Images

Fui encarregada de incutir mais humanidade na notável intervenção médica que esta pesquisa científica representava, para dar um rosto humano aos dados estatísticos que já haviam sido publicados em revistas médicas.

As comoventes histórias dos encontros de Kerr com seus pacientes e famílias confirmaram como, nas palavras do escritor renascentista francês Michel de Montaigne, "aquele que ensina os homens a morrer, ao mesmo tempo os ensina a viver".

Fiquei sabendo sobre Robert, que se via diante da perda de Barbara, sua esposa de 60 anos, e estava tomado por sentimentos conflitantes de culpa, desespero e fé.

Um dia, ele inexplicavelmente a viu pegando o bebê que haviam perdido décadas atrás, em um breve período de sonhos lúcidos que lembravam a experiência de Mary anos antes.

Robert ficou impressionado com a atitude calma e o sorriso de felicidade da esposa.

Foi um momento de pura plenitude, transformando sua experiência no processo da morte.

Barbara estava vivendo sua partida como uma época de amor reconquistado, e vê-la reconfortada deu a Robert um pouco de paz em meio à perda irremediável.

Muitos pacientes com covid-19 morreram sem poder receber a visita de familiares em hospitais durante a pandemia — Foto: Getty Images
4 de 4 Muitos pacientes com covid-19 morreram sem poder receber a visita de familiares em hospitais durante a pandemia — Foto: Getty Images

Muitos pacientes com covid-19 morreram sem poder receber a visita de familiares em hospitais durante a pandemia — Foto: Getty Images

Para os casais mais velhos de que Kerr cuidava, ser separado pela morte após décadas de união era simplesmente imensurável.

Os sonhos e visões recorrentes de Joan ajudaram a curar a ferida profunda deixada pela morte de seu marido meses antes.

Ela o chamava durante a noite e sinalizava sua presença durante o dia, inclusive em momentos de lucidez plena e articulada.

Para sua filha Lisa, esses eventos significavam que o vínculo de seus pais era indestrutível. Os sonhos e visões de sua mãe antes de morrer ajudaram Lisa em sua jornada rumo à aceitação, um elemento-chave no processamento da perda.

Quando as crianças estão morrendo, geralmente são seus amados animais de estimação falecidos que aparecem.

Jessica, de 13 anos, que estava morrendo de câncer nos ossos, começou a ter visões de seu antigo cachorro, Shadow. Sua presença a tranquilizou.

"Vou ficar bem", disse ela a Kerr em uma de suas últimas visitas.

Para a mãe de Jessica, Kristen, essas visões — e a tranquilidade resultante de Jessica — ajudaram a iniciar o processo ao qual ela vinha resistindo: deixá-la partir.

Isolados mas não sozinhos

O sistema de saúde é difícil de mudar. No entanto, Kerr espera ajudar os pacientes e seus entes queridos a resgatar o processo da morte — de uma abordagem clínica para uma que seja apreciada como uma experiência humana única e rica.

Os sonhos e visões anteriores à morte ajudam a preencher o vazio que, de outra forma, poderia ser criado pela dúvida e pelo medo que a morte evoca.

Eles ajudam os pacientes terminais a se reunirem com aqueles que amaram e perderam, aqueles que os protegeram, os apoiaram e trouxeram paz.

Eles curam velhas feridas, restauram a dignidade e recuperam o amor. Conhecer essa realidade paradoxal também ajuda os familiares a lidar com o luto.

Com hospitais e asilos ainda fechados para visitantes devido à pandemia de covid-19, pode ser útil saber que os pacientes terminais raramente falam sobre estar sozinhos. Eles falam sobre ser amados e voltar a ficar juntos.

Nada substitui poder abraçar nossos entes queridos em seus últimos momentos, mas pode ser um consolo saber que eles se sentem confortados.

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Mergulhado no 'discurso da estupidez', Brasil está se acostumando à multiplicação das mortes, diz psicanalista

Para Mauro Mendes, a estupidez tem caracterizado um posicionamento de algumas pessoas diante da vida no mundo contemporâneo.

TOPO

Por BBC

8 de junho - Artistas se apresentam com balões vermelhos em homenagem aos mortos pela Covid-19, em Brasília — Foto: Adriano Machado/Reuters
1 de 4 8 de junho - Artistas se apresentam com balões vermelhos em homenagem aos mortos pela Covid-19, em Brasília — Foto: Adriano Machado/Reuters

8 de junho - Artistas se apresentam com balões vermelhos em homenagem aos mortos pela Covid-19, em Brasília — Foto: Adriano Machado/Reuters

Após mais de 369 mil mortos por Covid-19 e uma população fadigada pelas medidas de isolamento social, seria possível supor que a urgência de uma vacina contra o novo coronavírus fosse unânime entre os brasileiros.

No entanto, posições antivacina, embora minoritárias no país, são compartilhadas pelo presidente da República e por cidadãos, em um contexto de negacionismo da pandemia e desapreço pela ciência.

Em 1913, antes mesmo de vivenciar os horrores da gripe espanhola, Sigmund Freud escrevera que não havia "nada mais caro na vida que a doença - e a estupidez".

Definida por dicionários como uma ausência de discernimento, a estupidez tem caracterizado um posicionamento específico de algumas pessoas diante da vida, argumenta o psicanalista Mauro Mendes Dias em seu livro O discurso da estupidez (editora Iluminuras).

O autor identifica a vigência, hoje, de relações entre pessoas e com o mundo baseadas em uma substituição da verdade pela crença.

Segundo ele, a estupidez é local e, ao mesmo tempo, internacional.

VÍDEO: Entenda como o coronavírus age no corpo humano
Toque duplo para avançar

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Esse discurso, que é sem rosto e sem palavras, fica visível por meio das vociferações, conceito psicanalítico criado para designar os gritos marcados pelo ódio e que visam a impedir qualquer possibilidade de diálogo. Alguns minutos de interação nas redes sociais oferecem farta amostragem de uma comunicação cada vez mais vociferante.

Em entrevista à BBC News Brasil, Mendes Dias, que é diretor do Instituto Vox de Pesquisa em Psicanálise, explica que a maior ênfase do discurso da estupidez "reduz a complexidade, a inteligência e a reflexão".

Mendes Dias observou isso com a entrada do ex-premiê Silvio Berlusconi na política italiana, ainda nos anos 1990, inserindo naquela cena o mundo do marketing e da mídia. "Quando a política se torna um espetáculo, trata-se de transformar a complexidade da realidade, de agradar o público e a opinião pública, e não do compromisso político. Então, o discurso da estupidez propiciou o advento de líderes estúpidos", diz o psicanalista.

"Mas isso não é feito iludindo as pessoas de forma grosseira. Tem que ser construída uma outra realidade", prossegue. Nessa outra realidade, que deixa tudo definido e decidido para que os sujeitos simplesmente sigam, sem precisar fazer escolhas, as fake news e os absurdos são fundamentais para a "transformação da política em um espetáculo grosseiro".

"Nesse sentido, não é por acaso que os líderes estúpidos, principalmente aqueles que ascenderam na Europa, elegeram o imigrante como o grande problema. Ou nos EUA, em que se pensou que um muro na fronteira com o México ou acusar a China de querer roubar a economia mundial iria resolver todas as questões do país. Quem quer resolver um problema com seriedade não pode achar que botar um muro vai zerar os conflitos de um país."

"O que há de cativante no discurso de estupidez é que ele soube bem mobilizar essa espécie de paixão que habita a coletividade, que é poder ficar cega e surda pra tudo aquilo que importa", argumenta Dias.

Segundo o autor, esses são exemplos de o quanto se abre mão do pensamento crítico. "O estúpido quer prometer absurdos e cultivar uma espécie de adoração da morte; trata-se, o tempo todo, de destruir. Seja uma ilusão de mudança, seja tudo aquilo que representa o patrimônio da humanidade, no sentido ecológico ou cultural."

A principal tese do livro é a de que no discurso da estupidez, em seu propósito de instalação de uma nova realidade, a crença é colocada no lugar da verdade. Mas ele faz uma ressalva: "Não é uma questão de religião, é uma questão de seitas."

Na prática, a crença em um absurdo tem caráter cativante porque retira a necessidade de se lidar com a complexidade que é viver. "Se a gente se orientar pelos princípios das seitas, pra que viver de maneira virtuosa, estudando, ou lendo, se daqui a pouco tudo vai acabar?"

A aderência às ideias absurdas não decorre de ignorância, baixa escolaridade ou condição socioeconômica, explica Dias. A ligação à crença passa por questões mais complexas, como a sexualidade.

"Não por acaso a vigência dos líderes estúpidos cobra sempre o preço da eliminação das diferenças. Uma vez que os líderes estúpidos surgem na cena política, eles apregoam uma moral heteronormativa combativa da diversidade sexual e encontram um apoio significativo nas diferente 'igrejas' que proliferam nesse país e que fazem questão de colaborar com a estupidez ao identificar essa diversidade sexual com o demônio."

Estupidez e teorias da conspiração

Tanto o Brasil quanto outros países são palco de outra modalidade de enlaçamento pela crença: as teorias da conspiração, que, segundo o psicanalista, constituem comunidades em que pessoas compartilham um certo modo do vida.

É o caso do movimento QAnon, nascido nos EUA e hoje com adeptos inclusive no Brasil. Segundo esta teoria, o ex-presidente dos EUA Donald Trump é herói em uma espécie de acerto de contas final contra poderosos supostamente pedófilos e satanistas que ocupam o governo, a imprensa e o mundo corporativo.

No início do ano, membros do grupo participaram da invasão ao Congresso americano.

Jon Schaffer entre os apoiadores de Donald Trump durante invasão ao Capitólio. — Foto: ROBERTO SCHMIDT / AFP

O psicanalista brasileiro destaca que, em teorias como essa, o absurdo confere aos sujeitos a possibilidade de atos insensatos.

"O sujeito se mantém cego e surdo, mas é mais perigoso - acabamos de ter a demonstração disso na invasão do Capitólio, em que pessoas morreram."

"Esse tipo de agrupamento humano consente à experimentação do gozo transgressivo, ou seja, você poder transformar sua vontade em lei: 'Minha vontade é que isso [a existência de uma rede de pedofilia chefiada por líderes políticos] seja verdade, o que vai me autorizar a dar uns tiros em quem eu quiser'."

Eles acreditam nisso?

Se para alguns persiste a convicção de que a Terra é plana, o coronavírus não existe ou Trump vai acabar com uma elite praticante de pedofilia, fica a pergunta: as pessoas realmente acreditam nisso que defendem ou são pessoas conscientes de que estão propondo outras realidades?

O diretor do Instituto Vox esclarece que há, por um lado, a adesão de sujeitos psicóticos ao discurso da estupidez, uma vez que eles "encontram um determinado tipo de conforto e de pacificação" porque aquela comunidade, aquele grupo de membros, não implica questões complexas que trariam dificuldades muito grandes para estes sujeitos.

No entanto, Dias adverte que qualquer um de nós pode aderir ao discurso da estupidez, por meio de motivações diferentes. Em seu livro, ele explica que a estupidez é uma condição humana que pode estar presente "em cada um dos espectros políticos e dos cidadãos".

Ele explica que alguns aderem a esse discurso porque encontram, neste momento histórico, a possibilidade de conquistar de forma mais rápida seus diferentes objetivos, incitando a redução de todas as complexidades possíveis e promovendo a destruição e a morte.

Para outros, a adesão deriva de uma espécie de necessidade de se acreditar em absurdos como forma de encontrar satisfação ou manter alguma esperança. E esta disposição ao absurdo tem relação com questões de desamparo e perspectivas de vida.

"Eu diria que praticamente a grande maioria das pessoas, em se tratando de Brasil, precisa acreditar nessas coisas. Não são loucas - essas pessoas vêm desacreditando. Mas é difícil ter que desacreditar porque elas só acreditaram por estarem no abandono total."

Este abandono se refere a uma decepção com as promessas não realizadas do sistema democrático. O bem-estar social e econômico prometido não veio, e isso alimentou as consequências que vivemos agora.

"O que a gente está criticando agora não caiu de repente em cima do meu colo nem do seu. Um terreno adubou isso."

"Nosso presidente da República estava há praticamente 30 anos dentro do Poder Legislativo, então isso não vem de agora. O difícil, eu penso, é ter de reconhecer que isso já está estava aí. Só que havia uma percepção limitada, uma banalização do nível da tolerância das pessoas. Supôs-se que os diferentes dramas humanos e as diferentes misérias iriam esperar pelas promessas democráticas, enquanto as pessoas viam o roubo e a dilapidação do patrimônio do país. Supunha-se que as pessoas iam continuar aceitando isso e que ninguém ia reagir."

'Nosso presidente da República estava há praticamente 30 anos dentro do Poder Legislativo, então isso não vem de agora', diz Mauro Mendes sobre Bolsonaro — Foto: Evaristo Sa/AFP

O resultado desse processo de anos, na avaliação de Dias, foi uma perigosa recusa da política, com desdobramentos no enfrentamento da pandemia.

"São seres verdadeiramente hediondos que estão aí na realidade social brasileira. Digo isso porque se tem uma coisa que qualifica o sentido de hediondo é você consentir que as figuras públicas não tenham nenhuma competência pra poder administrar responsabilidades da nação e, ainda assim, se mantenham lá."

"Isso significa que estamos indo galopantemente em direção à destruição, e o tipo de tratamento que está sendo dado nesse país para a potência do vírus só reafirma o que estou dizendo. Estamos nos acostumando à proliferação e a multiplicação da morte à nossa volta."

O luto na pandemia

Na medida em que o vírus continua a circular e a fazer vítimas, o processo de perda de entes queridos fica cumulativamente mais doloroso, já que velórios e enterros precisam ser limitados por conta da contaminação.

"O luto e a dor sempre andaram juntos, mas neste momento em que a dor não pode ser reduzida a partir dos rituais, ela ganha uma dominância dentro do processo de luto, sendo mais difícil de ser vivida e elaborada. Isso leva ao surgimento de quadros como estados depressivos, dificuldades de dormir, crises de ansiedade com maior frequência e irritabilidade."

"Penso que só depois que passar a quarentena e as pessoas voltarem aos convívios entre seus próximos que a gente vai conseguir ter uma ideia mais viva desses diferentes problemas que foram gerados."

Familiares choram em enterro de vítima de Covid em cemitério em Manaus — Foto: REUTERS/Bruno Kelly

Não são apenas os desafios psíquicos trazidos pelo vírus que preocupam o psicanalista, que em sua experiência supervisionou hospitais psiquiátricos, Caps (Centros de Atenção Psicossocial) e outros dispositivos.

Há ainda as planejadas investidas do governo contra os modelos de tratamento que consideram a subjetividade dos sujeitos e apostam em suas relações com o mundo, alinhados à Reforma Psiquiátrica e à Luta Antimanicomial.

Para Dias, que há quase duas décadas avalia as práticas terapêuticas de pacientes nos Hospitais São João de Deus e Nossa Senhora de Fátima, em São Paulo, os fundamentos da Reforma Psiquiátrica agora sucumbem para privilegiar pequenos negócios relativos a internação psiquiátrica, por meio de clínicas utilizadas com essa finalidade.

"Trata-se do retorno de uma mentalidade redutora e punitiva, no sentido de visar a uma adaptação forçada às expectativas do meio social. Basta um pouco de experiência nesse campo para constatar a lucratividade de tais iniciativas, que contam com hiperinvestimentos nas medicações."

"Sabe-se, também, que o tempo de internação é cada vez mais reduzido, tendo em vista a falta de vagas na rede pública, aliada ao baixo valor das diárias pagas pelo SUS para manter o paciente internado. Tudo se passa como se o binômio internação/medicação fosse suficiente para abordar a complexidade das patologias mentais."

Tratamentos para o discurso da estupidez

Diagnósticos de uma época são recorrentes na Psicanálise, como demonstraram Freud e Lacan ao teorizar sobre as relações entre as pessoas, a cultura e o poder.

Dias identifica o discurso da estupidez e propõe tratamentos possíveis. Mas não se trata de uma solução, como ele explica: "(É preciso) reconhecer a culpa como um elemento que reúne as pessoas pra pensar seriamente seus erros, suas ilusões. É a necessidade de retomar projetos políticos que não fiquem tão confiantes de que as pessoas vão ficar esperando indefinidamente por soluções e que não vão reagir em nenhum momento."

Dias aponta que também é necessário reconhecer a complexidade dos afetos humanos e reconsiderar o papel decisivo do ódio tanto na subjetividade individual quanto na coletiva.

"Essa é uma crítica necessária de ser feita em relação às ideologias, praticamente as de esquerda, que sempre acreditaram no poder da união e de que as pessoas iam querer o bem e o melhor pra sua coletividade."

Ele frisa que o discurso da estupidez ensina como é possível mobilizar a paixão que as pessoas têm pela fragmentação e pela luta por interesses próprios.

Ele defende também ações práticas, como o reconhecimento de pessoas que exercem a solidariedade em comunidades.

"Esses heróis do cotidiano merecem ser reinvestidos por cada um de nós interessado em que essa realidade se modifique."

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Por Mariana Garcia, G1

 


Movimentação de profissionais de saúde para atender pacientes com Covid-19 no Pronto Atendimento São Mateus, zona leste de São Paulo (SP), nesta quinta-feira (18), onde um jovem de 22 anos morreu à espera de um leito de UTI — Foto: JOHNNY MORAIS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Movimentação de profissionais de saúde para atender pacientes com Covid-19 no Pronto Atendimento São Mateus, zona leste de São Paulo (SP), nesta quinta-feira (18), onde um jovem de 22 anos morreu à espera de um leito de UTI — Foto: JOHNNY MORAIS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Se na primeira onda de Covid-19 os idosos eram considerados o grupo de risco, após um ano de pandemia, o perfil mudou. Um levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) mostrou que, em março, 52% das internações nas unidades de terapia intensiva foram de pessoas com até 40 anos.

Segundo três especialistas ouvidas pelo G1, no atual cenário da pandemia no Brasil, é correto falar que não temos mais grupos de risco para a doença, mas sim comportamento de risco.

"Em termos de adoecimento não existe mais grupo de risco. Hoje vemos um maior número de pessoas abaixo de 60, de 50 anos, sendo internadas. Isso ocorre muito por causa da exposição maior, quer seja para trabalho, quer seja nas reuniões e encontros", explica Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), reforça que todos estão em risco.

“Precisamos comunicar essa mudança no perfil dos pacientes com Covid-19. Com as novas variantes, os jovens estão adoecendo mais, estão internando mais, com a forma mais grave da doença, mesmo sem comorbidades" - Ethel Maciel, epidemiologista

"Houve uma mudança muito grande na faixa etária. Hoje é exceção à regra eu atender pacientes acima de 75 anos. Os casos ainda existem, mas a imensa maioria dos pacientes dessa faixa acaba pegando a doença entre as doses de vacina".

Pela primeira vez, jovens são maioria nas UTIs de Covid do Brasil

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As especialistas explicam que as novas variantes promoveram uma mudança no perfil dos acometidos pela Covid-19. “Quando começaram a falar da variante na Inglaterra, eles notaram uma diferença no perfil. Pessoas mais jovens, inclusive crianças, adoecendo. Não tínhamos visto isso num primeiro momento”, diz Maciel.

Mas outros fatores podem ter colaborado para essa mudança, como o comportamento dos jovens na pandemia. "A variante pode ter sido um fator, mas quem está em contato com outras pessoas? Quem está no transporte público? Quem está trabalhando? Quem está indo para festas clandestinas? O jovem!", alerta Richtmann.

vacinação também pode ter ajudado para a alteração na faixa etária. Dados da Amib mostram que apenas 7% dos pacientes com Covid nas UTIs brasileiras em março tinham mais de 80 anos – uma queda de 42% na comparação com o acumulado dos três meses anteriores.

"Houve uma redução significativa na mortalidade nos idosos, principalmente nos que já completaram o esquema de vacinação. Ainda não zerou, porque alguns se contaminaram antes da proteção total, outros não tomaram a segunda dose ou não se vacinaram, mas mesmo assim houve uma diminuição muito expressiva da mortalidade neste grupo", explica Stucchi.

Essa redução na mortalidade dos mais velhos reflete nos mais jovens. “Já estamos vendo uma diminuição de internação e óbitos no grupo que está sendo vacinado, o que aumenta a proporção de pessoas mais jovens internadas”, completa Maciel.

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Sem máscara, bispa Sônia prega a 500 fiéis em igreja reaberta hoje em SP

Sem máscara, Bispa Sônia Hernandes ministra culto na Renascer - Anahi Martinho/UOL
Sem máscara, Bispa Sônia Hernandes ministra culto na Renascer Imagem: Anahi Martinho/UOL

Anahi Martinho

Colaboração para o UOL

18/04/2021 20h19

"A despeito do excessivo aquecimento, vamos andar na fornalha. Pois Deus converteu a maldição em bênção", disse a bispa Sônia Hernandes para cerca de 500 fiéis, na manhã deste domingo (18), na Renascer Hall, na zona leste de São Paulo, sede da igreja evangélica Renascer em Cristo.

As celebrações religiosas presenciais foram liberadas pelo governo estadual na nova fase de transição do Plano São Paulo, que começou hoje. Nesta semana, os shoppings, galerias e comércio de rua também podem abrir, com horário reduzido. Tudo deve funcionar com 25% da capacidade e seguindo as medidas de segurança.

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A líder da Renascer em Cristo, porém, não usou máscara enquanto a reportagem esteve no local. Ela pregou e cantou louvores das 10h às 12h e orientou os fiéis (todos de máscara) a desligarem a "Rede Covid".

"Tem uma rede de televisão aí que deveria se chamar Rede Covid. Rede Desgraça. Falam que os hospitais estão lotados, mas peraí: que dia que hospital público não esteve lotado? Que dia que não teve fila? Que dia que não teve maca no corredor?", questionou.

Esse foi o primeiro culto do dia na Renascer Hall, que tem capacidade para 3 mil pessoas sentadas. Com assentos intercalados, as 20 fileiras da frente estavam todas ocupadas. Em certo momento, seis dançarinas fizeram uma coreografia (todas de máscara) e dez músicos se apresentaram no altar, a maioria sem máscaras.

A bispa ainda tinha outros dois cultos agendados —às 16h, sozinha, e o último com o marido, o apóstolo Estevam Hernandes. Os horários foram adiantados e encurtados para cumprir o toque de recolher, a partir das 20h. O culto das 19h, o mais popular, ficou marcado para as 18h.

"Nós não esperávamos esse público todo, não", afirmou ao UOL o bispo Vlad Romera.

Nossa expectativa era um número menor de pessoas. A gente está dentro do distanciamento, tem cabine de desinfecção, álcool em gel, e as pessoas vieram, porque hoje a maior dor delas é na alma. Nós não fazemos outra coisa que não dar apoio àqueles que não conseguem se apoiar em nada.
Vlad Romera, bispo da Renascer em Cristo

Fiéis assistem culto na igreja Renascer - Anahi Martinho/UOL - Anahi Martinho/UOL
Fiéis assistem culto na igreja Renascer Imagem: Anahi Martinho/UOL

Sobre a dispensa da máscara pela bispa Sônia e parte dos músicos, Vlad afirmou que está "tudo dentro do protocolo".

"Para ministrar, não precisa de máscara. O ministro não precisa de protocolo, nem os músicos. Na restrição passada, nós tínhamos orientação para não ter os dançarinos, não ter o coral", disse. "Voltamos a poder trabalhar como trabalhávamos anteriormente."

A assessoria de imprensa do governo do estado de São Paulo, porém, confirmou ao UOL que todos os participantes dos eventos religiosos, inclusive o ministro, padre ou pastor, devem permanecer de máscara na celebração.

Iraci Gomes de Barros, de 68 anos, saiu do culto contente. "Estava sentindo muita falta, é na igreja que o Senhor ordena bênção, é na congregação que a gente se une e se fortalece", comentou. "Vou estar presa dentro de casa, esperando o quê? Que o inimigo ande na rua espalhando mais e mais o vírus e palavras ruins, notícias horríveis? A palavra de hoje foi edificadora."

Iraci Gomes assistiu culto na Renascer Hall - Anahi Martinho/UOL - Anahi Martinho/UOL
Iraci Gomes assistiu culto na Renascer Hall Imagem: Anahi Martinho/UOL

Elizeu Silva, 38, motorista de aplicativo, assistiu apenas uma hora de culto, para diminuir o tempo de exposição. "Estar junto é muito bom, mas às vezes o pessoal acaba perdendo o senso de realidade. Eu pedi milagre na área financeira e para Deus guardar minha família. Acho que é o básico que todo brasileiro está pedindo no momento, dinheiro e saúde", disse ele, que contou que parte de uma "minoria entre os evangélicos que não apoia este governo".

"Tem muito evangélico, acho que 80%, que acredita muito no presidente. Eu faço parte dos 20%. Para eles, a palavra do líder, do pastor, do bispo, do apóstolo, vale mais do que qualquer coisa, é como se fosse Deus falando. Infelizmente é assim", desabafou.

'Nem sabia que voltava hoje'

Na paróquia Santuário São Judas Tadeu, igreja católica no Jabaquara, zona Sul de São Paulo, 176 pessoas assistiram à missa do Padre Aluísio às 16h30. O local comporta 700 pessoas sentadas. O padre permaneceu de máscara durante toda a missa e homenageou os mortos por causa da covid-19, pedindo a Deus por saúde. "Jesus disse: 'perdoa-os, Pai, pois eles não sabem o que estão fazendo'", falou no sermão.

Maria das Graças Monteiro Siqueira, 59, estava passando pelo bairro, onde foi visitar uma sobrinha, quando viu a igreja aberta. "Eu nem sabia que voltaria hoje. Fico feliz de ter o privilégio de poder assistir uma missa. Igreja é essencial. Nas paróquias que eu frequento estou vendo bastante respeito ao distanciamento, medição de temperatura, não tem motivo para ter medo", adisse.

Funcionária de uma casa de repouso, ela afirma que o local proibiu visitas no início da pandemia e só teve dois casos.

Fiéis assistem missa na paróquia São Judas Tadeu - Anahi Martinho/UOL - Anahi Martinho/UOL
Fiéis assistem missa na paróquia São Judas Tadeu Imagem: Anahi Martinho/UOL
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