SEQUELAS e SEQUELADOS no BOLSONAQUISTÃO
Não-essencial, eu? Como pandemia REFORÇOU nosso RESSENTIMENTO mais DOENTIO. Não íamos sair MELHORES disso tudo?
SILÊNCIO sobre 'rachadinhas' prova que a luta NUNCA foi contra CORRUPÇÃO
Brasil é 4º país que mais se afastou da democracia em 2020. Polônia (Hungria, Turquia, Índia - autocracias)
Eduquem seus filhos. Eles podem ser o Rodrigo Constantino de amanhã
Sequelas do negacionismo serão profundas mesmo no pós-pandemia


Matheus Pichonelli
Colunista do UOL
24/03/2021 04h00
Na cidadezinha para onde os pais de um grande amigo se mudaram no começo da pandemia, circula como alma penada um morador que nos últimos meses ganhou o apelido de Trintinha.
Não procure o significado no dicionário. Trintinha é uma derivação semântica do algarismo 30. É uma referência ao índice de eleitores dispostos a aceitar, obedecer, apoiar e divulgar tudo o que faz ou fala o presidente da República.
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Na descrição das pesquisas de opinião, o Trintinha tem 100% de aproveitamento no check list. Ele já minimizou a gravidade do coronavírus, já defendeu que a histeria em relação à doença mataria mais do que o vírus em si, já disse que não era cobaia da "vachina do Doria", já promoveu aglomeração, já bateu no peito pra dizer que tem histórico de atleta, já desafiou todo mundo que encontra paramentado com máscaras e álcool em gel a enfrentar a situação como homem, não como maricas. Enfim, fechou invicto o Grand Slam da cartilha bolsonarista em tempos de crise.
De um tempo pra cá, ele até admite a gravidade da doença e a possibilidade de se imunizar, mas essa não é nem de longe a sua nova obsessão. A nova obsessão é convencer os familiares, amigos e vizinhos que de nada adianta restringir a circulação de pessoas para conter o morticínio; para ele, o vírus é capaz de passar por baixo das nossas portas e invadir nossas narinas quer queiram ou não os confinados. Ele, como o presidente, vê muito exagero no noticiário, diz que hospitais sempre estiveram lotados e as filas só têm a exposição que têm agora porque os gestores estaduais e municipais querem usar a pandemia para receber repasses e engordar os próprios bolsos.
Quem convive com o Trintinha está preocupado com as sequelas do seu negacionismo. Acham que elas podem perdurar por muitos anos, caso sobreviva à pandemia. Entre os prejuízos à sua saúde social está a visão turva, a perda de tato e, principalmente, o isolamento forçado de quem ganhou a fama de espalha-roda — expressão comum naquela região do país que significa "dispersa que o mala chegou".
Curioso é que até pouco tempo o Trintinha era o tipo conhecido de todos. Não era exatamente um sujeito antipático. À distância, parecia só meio desocupado, meio folclórico, e às vezes, não sempre, testava a paciência dos interlocutores com histórias fantásticas relacionadas à viagem do homem à Lua ("nunca aconteceu, posso provar"), às propriedades miraculosas do orégano para curar sarna, ao satanismo incrustrado nas letras dos Beatles, às relações perigosas entre o síndico e confrarias secretas e outros delírios conspiratórios.
O Trintinha é, antes de tudo, um sujeito contrariado e desconfiado que encontrou em 2018 a representação de toda a sua paranoia (não fossem os governos anteriores, ele jura que a uma hora dessas estaria na capa da Forbes, e não mandando correntes o dia inteiro por WhatsApp). Fato é que, em 2018, ele finalmente encontrou alguém para ouvir e compartilhar as teorias no grupo "Melhor Jair Se Acostumando". Foi lá que ele se realizou como homem.
O coitado nunca fez mal a ninguém, diziam os que não se negavam a dar a ele o que no fim era a maior das queixas: o déficit de atenção. Não deixava de ser um trabalho de cunho social, para o qual a companheira e os filhos, sobrecarregadas pelo sujeito entediado em casa, seriam eternamente gratos.
Só que, de um ano pra cá, quando a pandemia deixou de ser um medo distante e passou a vitimar amigos, familiares e vizinhos, a conversa do Trintinha deixou de ser uma mera amolação. Passou a gerar revolta.
Quanto menos adeptos às suas teorias, mais agressividade ganhavam as suas pregações. Aos poucos, os conhecidos iam se conscientizando — pela própria experiência — da necessidade de ficar em casa e restringir o contato social, mas a obsessão do Trintinha era alugar uma van e fazer acampamento na porta da casa do João Doria, em São Paulo, com alguns amigos que conheceu no grupo. O mote era reconquistar, como os cruzados da Idade Média, a liberdade de ir e vir, salvando a nação das garras da tirania sanitária. Para isso precisava de adeptos, como quem sobe no caixote no centro da cidade e passa a gritar, para quem não quer ouvir, que o fim está próximo.
O Trintinha já havia cotado o preço do deslocamento, disponibilizado barracas e até jingle contra o tirano de calça apertada. Sem a aderência imaginada, e prestes a desistir da empreitada em uma vizinhança em quarentena, o patriota dobrou a aposta. Agora, não pode ver ninguém sair de casa para esticar as pernas que já cola, gruda e pergunta se o interlocutor tem cinco minutos para ouvir a palavra do Messias.
Às negativas ele responde, entre perdigotos livres do uso opressivo de máscara, se eles não pensavam nos pequenos comerciantes da cidade ou na onda de saques e arrastões que estavam por vir. Um princípio de bate-boca por pouco não virou vias de fato quando alguém o mandou sossegar porque em breve, quando tudo passasse, a quadra de bocha seria aberta e ele teria o que fazer — há quem veja nesta interdição temporária a origem de toda a revolta do Trintinha.
Fato é que, enquanto se ancora no argumento de que ele é livre para pensar e agir como quiser, e enfrentar a tal da pandemia (sempre agora com o prefixo "tal"), o Trintinha escancara um pouco da nossa falência como sociedade. Aquela que confunde direito de se sabotar ao direito de sabotar os esforços de quem preferiu se cuidar, ouvir o que os especialistas têm a dizer, restringir a circulação, o contato social e não cair no conto dos curandeiros de ocasião.
Se antes havia uma aura inofensiva nas andanças e pregações do Trintinha, hoje, quando ele pergunta a alguém que perdeu pessoas próximas até quando vamos chorar, lamentar e nos isolar, o raio de distanciamento de sua figura e suas ideias se amplia como uma corrente tóxica.
Com o tato social afetado pelo negacionismo, o Trintinha não percebeu o momento em que deixou de ser o cidadão falastrão e virou um sujeito inconveniente a caminho de se tornar radioativo, daqueles que ninguém quer o contato e, menos ainda, a amizade. Talvez seja pedir demais que ele reparasse como as pessoas já alteram o trajeto e mudam de calçada para fugir daquele encontro. O nome disso é desprezo, e ele pode ser avassalador para a vida em sociedade.
Já não se trata de dar ouvidos a quem defende mudança no currículo escolar por ver perversão até no extintor da escola; os estragos, neste caso, não eram tão visíveis no curto prazo como agora.
No caso do terraplanismo sanitário, quanto mais a tragédia nacional se confirma, com a marca dos 300 mil mortos em um ano, mais ela ganha materialidade nos círculos próximos, onde todos os dias nos despedimos ou vemos alguém se despedir de alguém. Consequentemente, mais irresponsável e cretino fica o esforço para dizer que nada disso é grave quando ele nos afeta direta e imediatamente.
Fica difícil dissociar a tragédia nacional das pequenas grandes correias de transmissão do negacionismo-mor. Pela má fé ou pela ignorância, eles apostaram alto na própria convicção e agora colhem a erosão dos laços sociais, familiares e afetivos. Quase um terço do país, o Trintinha reunido ainda é uma multidão, embora cada vez menos aceito pelos outros 70%.
Naquela cidade afastada dos grandes centros, as feridas que o embate negacionista produziram são o legado de um caminho sem volta de degradação.
Opinião: Matheus Pichonelli - Silêncio sobre 'rachadinhas' prova que a luta nunca foi contra corrupção

Matheus Pichonelli
Colunista do UOL
17/03/2021 04h00
Por curiosidade, fui ao Twitter de um jornalista que, durante anos, foi comentarista de política da principal emissora do país — e hoje se destaca como porta-voz extraoficial do governo Bolsonaro. Lá, o antes aguerrido defensor da lisura e do combate à corrupção demonstrava indignação com uma decisão da Justiça de barrar tratamento precoce contra a covid-19 em Porto Alegre. Também parabenizava uma deputada bolsonarista investigada por espalhar fake news e chamada por ele de "minha representante", pela vaga na CCJ na Câmara. Sobre o caso das rachadinhas, didaticamente radiografado pelo UOL naquele mesmo dia, deu nem um pio.
Outro patriota dublê de jornalista mostrou os dentes em sua única postagem no dia. Mas não sobre as investigações. "Quem está em lockdown mental não enxerga mesmo ninguém na rua", filosofou.
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Outro ainda estava preocupado não com as contas e a matemática, mas com o português e o juridiquês castiço de Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal.
Já um comentarista que comparava mortes por covid ao número de pessoas engasgadas com a própria comida estava mobilizado demais pelo impeachment de Alexandre de Moraes, do STF, e com tempo de menos para falar da pauta anticorrupção.
Seu colega que castigaria a filha dependendo das circunstâncias em que ela fosse estuprada estava in-dig-na-do, mas era com o silêncio da grande imprensa a respeito da grande manifestação patriótica de domingo, em defesa de seu ídolo Jair Bolsonaro — uma mobilização que teve até buzinaço em frente a um hospital lotado de pacientes com covid.
Fico imaginando o que diriam os influencers de camisa verde-amarela se soubessem que alguma liderança do campo progressista (não precisa ser o Lula, tá?) havia sido citado em uma apuração que:
- Mostrou que a ex-mulher do sujeito ficou com R$ 54 mil da conta de uma assessora parlamentar;
- Que uma ex-chefe de gabinete do filho deputado pagava o aluguel do sobrinho;
- Que assessores do gabinete do pai e de outro filho sacaram a maior parte dos salários (mais de R$ 1 milhão em duas casas legislativas) em dinheiro vivo, para supostamente dificultar o rastreamento das notas.
Às transações, que eram investigadas pelo Ministério Público antes de as provas serem anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça, somam-se as notícias sobre funcionários que batiam ponto em Brasília enquanto trabalhavam como personal trainer no Rio ou vendendo açaí na praia. Somam-se também as andanças do ex-assessor, ex-amigo e ex-faz-tudo encontrado no sítio do advogado da família — e que, meses atrás, descreveu a investigação como "uma pica do tamanho de um cometa pra enterrar" no grupo. E o fato de que o ex-faz-tudo era amigo e mantinha contato com um fugitivo que empregou a mãe e a esposa nos gabinetes da família antes de ser morto em uma troca de tiros com a polícia na Bahia.
Isso sem contar a mansão, em Brasília, para onde o primogênito se mudou. Um casarão que jamais teria conseguido pagar só com os salários de senador. (Seria ele, então, o verdadeiro dono da Friboi?)
Em outros tempos, as revelações teriam no mínimo constrangido aquele tio aposentado com PhD em Datena que de um dia para o outro botou a bermuda, o chinelo Rider e camisa amarela para sair às ruas combatendo o crime. Ele, então, se autointitulou "O Brasil". Em 2018, o patriota que bota até bandeirinha na sacada — mas aparentemente despreza tudo o que é produzido em seu país — se converteu em uma multidão reunida por WhatsApp. Só que o inimigo agora é outro.
Este cidadão, empoderado e estimulado pelo jornalismo chapa-verde-amarela, trava hoje uma luta linguística em que suspeito que veste vermelho é sempre bandido, mas o suspeito que desdenha da morte e apoia tortura é "mito".
Para ele, transparência e pedidos de apuração nos olhos de quem deu sentido para sua vida é pimenta. Qualquer exercício de ligar os pontos feito pelo jornalismo profissional é parte de uma grande conspiração com o vírus, a China, o governo de São Paulo, os tucanos, os petistas, os comunistas, os artistas, os adeptos da mamadeira com formatos estranhos, as viúvas da lei Rouanet e os ditadores do lockdown. Tudo para impedir que seu mito faça o que tem que fazer — sem as amarras do Congresso, do STF e do pacto federativo.
Quem quiser entender o fascínio que Bolsonaro provoca em quem não quer (e tem raiva de quem quer) entender os caminhos do dinheiro dos gabinetes em seu tempo de deputado precisa se desprender do argumento fajuto disfarçado de "combate à corrupção".
Na polifonia de quem foi às ruas no domingo passado para demonstrar apoio ao capitão, era até difícil entender qual era a pauta, afinal. Mas ao fundo, era possível ouvir a voz de comando pipocar como tiro: "muita frescura", "vamos parar de mimimi", "vão chorar até quando?", "entre nos hospitais e mande vídeos para a gente", "não sou coveiro", "sou Messias, mas não faço milagre".
É estranho que no rescaldo da crise política detonada pela Lava Jato na segunda metade da década passada alguém tenha, no desespero, depositado em um deputado com 30 anos de mandato e nenhum projeto de relevância as esperanças de renovação e respeito ao dinheiro público. Era o que ele prometia, afinal. E é compreensível que quem votou por esse viés esteja hoje decepcionado — e repense a decisão para 2022. Podem começar fazendo as contas do quanto foi gasto em cloroquina, viagem em busca do spray sagrado, estadia e salário de ministros e equipes incapazes de implementar um plano e conter o morticínio na pandemia.
Aos demais que já rasgaram a fantasia e ainda batem palma, resta ao menos admitir que a luta nunca foi contra a corrupção. Bolsonaro deu a eles apenas vazão à própria perversidade — e eles não estão dispostos a guardar os destroços de volta à caixa já aberta e escancarada.
Só isso explica as carreatas e os buzinaços em frente a hospitais no momento em que 280 mil compatriotas já perderam suas vidas numa pandemia minimizada desde os primeiros sintomas.
Para quem, em outros tempos, já pediu intervenção militar e declarou que "somos milhões de Cunhas", ninguém poderá estranhar se, nas próximas manifestações a favor de tudo isso que está aí, aparecerem cartazes do tipo "Morreu foi pouco" ou "Rachadinha, sim; comunismo, não".
Ocupadas por quem não liga para nada disso, as ruas são hoje o maior retrato da perversidade.
Opinião: Matheus Pichonelli - Síndrome dos não-essenciais: lockdown reforçou ressentimento mais doentio


Matheus Pichonelli
Colunista do UOL
06/03/2021 04h00
Está no dicionário Houaiss: tudo o que não é essencial é acessório, acidental, episódico, secundário. O contrário é absolutamente necessário. Indispensável. O que constitui a essência.
Em tempos de pandemia, a palavra entrou em disputa. Uma disputa que ganha tensão à medida que prefeitos e governadores anunciam medidas mais restritivas de circulação nas cidades, e a fila da vacina é organizada pelo viés da escassez.
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Em março do ano passado, quem foi dormir pensando estar no auge da carreira acordou, tempos depois, com a estranha sensação de não ser "prioridade". Nem para se vacinar nem para manter as portas abertas de seus negócios em caso de lockdown, como os já adotados em algumas cidades do país.
Entre o rigor científico e o lobby das categorias, as decisões sobre o que é essencial e quem deve ser tratado como prioridade criaram terreno para acelerar a produção, já em escala industrial, da matéria-prima que move nossos afetos ao longo da última década: o ressentimento.
No Brasil açoitado pela covid-19, muitos dos que esperavam sentados o fim da corrupção e a recuperação econômica em V, agora lidam com a ferida narcísica de serem relegados à prateleira dos "não-essenciais". É um golpe e tanto para quem cresceu ouvindo "você quer, você pode", "estude enquanto eles dormem", "você é especial" e outros itens da escola da meritocracia.
Num dia ele carregava o país nas costas; no outro, conclui, está amordaçado em casa, sem poder circular, graças a uma doença que ele desconfia nem ser tão grave assim. Seria um complô?
Alguns dos campeões foram para o fim da fila. E, sem a válvula da consciência coletiva, viraram uma panela de pressão com fúria até a tampa. "Como assim os presos vão receber as doses antes de mim?", ouvimos alguns deles gritar pelas redes.
A bronca não é totalmente incompreensível. Vem da confusão torta e histórica entre justiça e justiçamento; e é justamente o papel do Estado tratar os desiguais e mais vulneráveis a uma contaminação de forma...desigual.
Na gritaria, porém, todos querem se converter em item essencial. Do dono da academia ao proprietário da rede de varejo, passando pelos líderes religiosos — que acabam de criar uma emenda à lei divina segundo a qual Deus estaria em qualquer lugar do mundo em que duas ou mais pessoas estivessem reunidas em seu nome. A Bíblia não falava de igrejas e templos de aglomerações e perdigotos sagrados, mas isso é detalhe.
Fato é que quem ficou na rabeira está com raiva.
Muitos até começaram a pandemia com boa vontade. Há um ano, sacrificaram-se, sacrificaram seus negócios e se adaptaram ao novo normal. Caíram no conto de que sairíamos melhores dessa, que a quarentena iria reforçar os laços sociais, as pequenas coisas simples da vida ou os hábitos mais saudáveis.
Nada disso aconteceu e, agora, eles são acusados de serem os culpados pelo colapso da saúde coletiva.
Como ganhar esses caras?
A resposta não está no textão do Facebook. Passa por um esforço que deveria vir de cima. Especialistas são unânimes em apontar, não sem horror, a ausência de um discurso unificado e de comunicação de crise até agora no Brasil. Coisa que países-modelo como a Nova Zelândia tiraram de letra.
Aqui o cidadão comum liga o rádio ou a TV e encontra uma polifonia bizarra: o prefeito quer abrir o shopping, o governador quer fechar o boteco e o presidente diz que máscara e vacina podem causar prejuízos à saúde.
Sem um alinhamento mínimo no alto, as decisões coletivas logo abaixo entram no campo das transgressões e concessões individuais; nelas, fica difícil explicar ao pequeno comerciante à beira da falência que, veja bem, tem uma pandemia ali fora e não, não é uma questão pessoal nem política. É uma questão de sobrevivência. E que esse sacrifício, quanto maior o esforço, menos tempo levará.
Praticamente todos os estados já se preparam para as piores semanas de uma pandemia que, até agora, já matou mais de 260 mil pessoas. Uma cidade do tamanho de Ipatinga, em Minas. Nesses dias, ninguém pode se dar ao luxo de ficar sem comida, água, energia elétrica; mas pode deixar o passeio no centro da cidade ou o corte de cabelo para depois.
Não era para ser difícil entender, mas tem sido. Justamente porque quem deveria liderar os esforços tem usado suas redes para bagunçar o jogo em caixa alta. "ATIVIDADE ESSENCIAL É TODA AQUELA NECESSÁRIA PARA UM CHEFE DE FAMÍLIA LEVAR O PÃO PARA DENTRO DE CASA", escreveu Jair Bolsonaro, que na mesma semana pediu para que os brasileiros deixassem de frescura e mimimi diante do morticínio. "Vão chorar até quando?", perguntou.
O discurso que divide, deseduca e estimula a paranoia só acentua o caldo do ressentimento, como se uns fossem mais prejudicados que outros. Mais que isso, desrespeita e desprestigia quem precisa de apoio nessas horas. No caso dos médicos, esgotados em hospitais superlotados, não deve existir nada mais frustrante do que ver as orientações de obediência a protocolos e distanciamento social serem rasgadas por quem se autodeclarou especialista de WhatsApp — e sai receitando remédio e tratamento precoce sem diploma ou apreço às evidências científicas.
O resultado está nos números assombrosos de mortes e contaminações estimuladas por quem não se preparou a tempo para organizar um programa de vacinação em massa, nem se preocupou em explicar que ninguém adota lockdown sorrindo, num desejo sádico de prejudicar o seu negócio. De novo: não é sobre você. É sobre como sobreviver.
Por conta da escassez de imunizantes e dos boicotes aos esforços pelo isolamento, direitos e possibilidade de trabalhar são vistos agora como privilégios. O surto de ignorância não vem de hoje.
Como no mundo pós-guerra, as esperanças de reconciliação vão aos poucos dando lugar a mais raiva e mais ressentimento.
Em vez de solidariedade, nos estapeamos discutindo quem perdeu mais, quem deveria ter mais valor, quem está de sacanagem, quem deveria puxar a fila dos não-essenciais.
Não íamos sair melhores disso tudo?
Brasil é 4º país que mais se afastou da democracia em 2020, diz relatório - BBC News Brasil
- Mariana Sanches - @mariana_sanches
- Da BBC News Brasil em Washington

O Brasil é o quarto país que mais se afastou da democracia em 2020 em um ranking de 202 países analisados. A conclusão é do relatório Variações da Democracia (V-Dem), do instituto de mesmo nome ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia.
Publicado em março de 2021, o documento é um importante instrumento usado por investidores e pesquisadores do mundo todo e do Brasil para definir prioridades de ações globalmente.
De acordo com o índice, no qual 0 representa um regime ditatorial completo e 1, a democracia plena, o Brasil hoje registra pontuação de 0,51, uma queda de 0,28 em relação à medição de 2010, que ficou em 0,79.
A queda do país só não foi maior do que as de Polônia, Hungria e Turquia. Os dois últimos, um sob regime do direitista Viktor Orban e outro sob comando do conservador Recep Erdogan, se tornaram oficialmente autocracias, na classificação do V-Dem.
"Quase todos os indicadores que usamos mostram uma drástica queda do Brasil a partir de 2015. O único ponto em que o país não perdeu de lá pra cá foi em liberdade de associação", disse à BBC News Brasil o cientista político Staffan Lindberg, diretor do Instituto Variações da Democracia.

O índice é formulado a partir da contribuição de 3,5 mil pesquisadores e analistas, 85% deles vinculados a universidades ao redor do mundo.
O resultado de cada país advém da agregação estatística dos dados para 450 indicadores diferentes, que medem aspectos como o grau de liberdade do Judiciário e do Legislativo em relação ao Executivo, a liberdade de expressão da população, a disseminação de informações falsas por fontes oficiais, a repressão a manifestações da sociedade civil, a liberdade e independência de imprensa e a liberdade de oposição política.
Onda autocrática global
De acordo com o relatório, o mundo vive o que os pesquisadores consideram uma onda de expansão das autocracias iniciada em 1994.
Essa seria a terceira onda desde 1900 (as duas primeiras aconteceram entre os anos 1920-1940 e entre o começo dos anos 1960 e o final dos anos 1970).
Se, em 2010, 48% da população mundial vivia sob regimes considerados não democráticos, em 2020 esse percentual subiu para 68% e retornou ao patamar observado no início dos anos 1990.
No grupo do G-20 - que agrega as maiores economias do mundo -, além de Brasil e Turquia, a Índia também apresentou uma queda nos parâmetros democráticos tão significativa que deixou de ser considerada a maior democracia do mundo e passou a ser classificada como autocracia com eleições pelo V-Dem.
Segundo os pesquisadores, os processos de Índia, Turquia e Brasil, apesar de estarem em estágios diferentes, seguem um mesmo roteiro. "Primeiro, um ataque à mídia e à sociedade civil, depois o incentivo à polarização da sociedade, desrespeitando os opositores e espalhando informações falsas, para então minar as instituições formais", diz o relatório.
"Estamos muito preocupados porque percebemos que Bolsonaro tem dado claros sinais que condizem com os padrões de comportamento de outros líderes autocráticos que vimos atuar antes, como Viktor Orban. São movimentos preocupantes para a sobrevivência da democracia brasileira", afirma Lindberg.

Ainda longe da autocracia
O índice V-Dem de 2021 foi finalizado antes da recente crise do presidente brasileiro com as Forças Armadas.
Em março, foi anunciada a saída do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, o que desencadeou também a troca dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.
Em sua carta de demissão, Azevedo e Silva afirmou que "neste período (à frente da pasta), preservei as Forças Armadas como instituições de Estado", o que provocou questionamentos sobre uma possível tentativa de politização do Exército Brasileiro por Bolsonaro, que tem usado corriqueiramente a expressão "meu Exército" para se referir às Forças Armadas do país.
Antes disso, porém, o atual presidente brasileiro já atacou reiteradas vezes a imprensa, se mostrou elogioso à ditadura militar instaurada nos anos 1960 e endossou uma manifestação de apoiadores seus que pediam o fechamento do Supremo Tribunal Federal.
Pouco antes de ser empossado, Bolsonaro chegou a afirmar que mandaria seus opositores para a "ponta da praia", uma aparente referência à base da Marinha na Restinga da Marambaia, no Rio, onde presos foram torturados e mortos durante o regime ditatorial brasileiro.
"Petralhada, vai tudo vocês pra ponta da praia. Vocês não terão mais vez em nossa pátria porque eu vou cortar todas as mordomias de vocês. Vocês não terão mais ONGs para saciar a fome de mortadela. Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil", disse o então presidente eleito em 2018.

Esses aspectos contribuem para os atuais resultados do país. Outros índices também apontam para um retrocesso da democracia brasileira nos últimos anos, embora a queda seja mais branda.
A ONG Freedom House avaliou que a democracia brasileira atingia 79 pontos, em uma escala de 0 a 100, em 2017. Atualmente, o índice recuou para 74.
Para Lindberg, embora os dados sobre Brasil sejam preocupantes, o país ainda está longe de ser enquadrado como uma autocracia, como aconteceu com Turquia e Índia, e isso se deve à qualidade do sistema eleitoral brasileiro.
"Embora ainda haja algumas irregularidades de votação, um pouco de intimidação eleitoral ou de compra de voto, as eleições no Brasil seguem sendo livres e justas, e é possível trocar o comando do país por meio delas", diz Lindberg.
Segundo ele, o sistema de voto eletrônico, como o usado no Brasil, tem se mostrado seguro e confiável. Bolsonaro, no entanto, tem feito uma campanha pelo voto impresso no Brasil e dito que o país pode repetir a história das últimas eleições americanas, quando Trump alegou fraude sem provas, se não mudar o sistema eleitoral.
E se a guinada autocrática atinge grandes populações ao redor do mundo, de outro lado, os processos de democratização, embora aconteçam, se concentram em países menores, como o Sri Lanka, Tunísia e Armênia.
Para os pesquisadores, isso se deve ao fato de que esses países estão relativamente mais distantes da influência de potências autocráticas, como Rússia e China, e parecem ter conseguido encaminhar suas dinâmicas políticas internas para um sistema mais livre.

“Não encontrei Deus no universo, mas Einstein sim, na perfeição e na beleza de suas leis”
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Eduardo Battaner López (Burgos, 1945) não tem procurado Deus na física, mas físicos que o fizeram ao longo da história e aqueles que negaram sua existência —algo que, como dizia Paul Dirac, é um dos problemas fundamentais desta ciência. Battaner, astrofísico formado na Espanha e no prestigioso Instituto Max Planck da Alemanha, é professor emérito da Universidade de Granada e publicou Los Físicos y Dios (sem edição em português), que analisa a relação desses buscadores de respostas ao longo da história.
Pergunta. Por que Los Físicos y Dios?
Resposta. Os grandes pesquisadores têm trabalhado nesse horizonte que divide o conhecido e o desconhecido. Portanto, têm o privilégio de observar a natureza como isso nunca antes havia sido feito. Sua interpretação da natureza tem implicações na filosofia e na teologia. Por isso, muita gente quer saber qual era o pensamento religioso dos grandes cientistas e, portanto, dos grandes físicos. Mas é preciso dizer que neste livro não há nenhuma intenção de propaganda doutrinária. Não se defende nenhuma posição religiosa concreta. Nem se defende o teísmo ou o ateísmo. Fala-se da atitude dos físicos diante da ideia de Deus com base em suas próprias palavras. Este livro tem apenas um enfoque histórico.
P. Por que essa preocupação entre os físicos?
R. Porque essa é uma preocupação de todas as pessoas, e é dos físicos porque são pessoas. Mas seu ponto de vista tem um interesse adicional porque seu ofício é conhecer o universo. Os físicos hoje trabalham prescindindo de suas crenças particulares. Inclusive os mais religiosos não misturam sua ciência e sua fé. Nem sempre foi assim. Por exemplo, [Johannes] Kepler era um místico que, baseando-se na noção de que somos feitos à imagem e semelhança, acreditava que podia compreender o mundo. É um método científico inaceitável hoje, mas que o levou a estabelecer leis de grande precisão. Kepler julgava ter a responsabilidade de interpretar a criação.
P. Michel Mayor, descobridor do primeiro exoplaneta, diz que “não há lugar para Deus no universo”. Em sua tarefa como astrofísico, o senhor o encontrou?
R. Não encontrei Deus no universo, mas no livro não pretendo expor minhas próprias ideias, e sim a dos grandes físicos. Entre eles —e, em particular, entre os astrofísicos— há uma grande disparidade de crenças. Existem crentes, agnósticos e ateus. Nem todos pensam como Mayor. Por exemplo, [Albert] Einstein encontrou Deus no universo, na perfeição e na beleza de suas leis.
P. Mas o senhor questiona que os físicos de hoje se amparem na não resposta como resposta.
R. É verdade que hoje os cientistas têm uma espécie de pudor ao confessar suas crenças. Não sei por quê. Não costumam responder. Isso contrasta com os físicos de outros tempos, que revelavam suas crenças sem hesitar. Por que não dizer? Outra coisa são os agnósticos que não se pronunciam porque não encontram a resposta ou acreditam que não haja.
P. Há um sentido físico na evolução do universo?
R. O universo evolui de uma forma bastante conhecida e previsível matematicamente (se excluirmos os primeiros instantes). Há um sentido físico. O que não quer dizer que haja um propósito.
P. Por que muda a relação da física com Deus?
R. Ao longo da história observamos, de fato, uma evolução. Os cientistas islâmicos da Idade Média tomavam como certa a existência de Deus. E, se algum deles não acreditava, calava-se. A partir do Renascimento, começa a diversidade de opiniões. E hoje há muitas posturas diferentes. Por quê? Certamente por causa do avanço prodigioso da ciência e da dissolução da censura.
P. A física é compatível com Deus?
R. Completamente. Houve grandes físicos crentes, inclusive devotos e ermitãos. Um bom exemplo pode ser o de [Georges] Lemaître, pai da teoria do Big Bang, que era sacerdote jesuíta e um dos melhores físicos de todos os tempos.
P. A fé limita o método científico?
R. Historicamente, sim. Por exemplo, algumas ordens religiosas tiveram grandes interesses científicos, mas a proibição do heliocentrismo limitava seu progresso. No século XVIII, porém, essa limitação desapareceu. Hoje a resposta é contundentemente não. Existem muitos físicos crentes, embora não misturem suas equações diferenciais com sua fé.
P. A física continuará procurando Deus?
R. A física não procura Deus. Os físicos, enquanto homens, sim. Mas em nosso cérebro, e somente temos um, a questão sobre a existência de Deus está à espreita.
P. Qual é a finalidade da física?
R. Como astrofísico, considero que seja compreender o princípio, a evolução e o final do universo. O físico busca a unificação de todas as forças. É um velho sonho no qual embarcaram nomes da estatura de [Michael] Faraday e Einstein. Procura-se a teoria de tudo. Procura-se uma equação que explique tudo.
P. Essa equação poderia ser Deus?
R. Haverá alguns físicos que veem assim e outros que não. Mas a pergunta da existência de Deus não será resolvida pela ciência. Perguntas como a que se fazia Gottfried Leibniz (“Por que há algo em vez de nada?”) ficarão sem resposta no contexto da física, acredito.
P. Que físico conjugou melhor a ideia de Deus e a ciência?
R. Albert Einstein tinha uma ideia de Deus não vinculada a nenhuma igreja ou fé estabelecida. Não acreditava num Deus que premiasse os bons e castigasse os maus ou que prometesse a imortalidade. Mas ele acreditava num Deus que havia criado o universo. Ficou surpreso ao poder escrever as equações do universo em meia folha de papel. Não era ateu, nem agnóstico nem panteísta. Ele assim o expressou. Com seu senso de humor característico, chamava Deus de “O Velho”.

'Tem final feliz?' Na fronteira entre o SEXO e a MASSAGEM em São Paulo
Tiago Dias
Do TAB
01/04/2021 04h01
Num dia com agenda cheia, Mauro Guimarães segue um ritual. Acorda cedo, toma um café bem reforçado e parte para a limpeza energética: acende um palo santo e troca as pedras pretas energizantes repousadas numa cama de sal grosso nos quatro cantos da sala. Tudo para que as energias negativas não se acumulem no pequeno apartamento no edifício Copan, no centro de São Paulo.
Descalço e vestido de branco, ele afasta os móveis da sala, abre uma maca e estende por cima uma canga de praia com estampa do calçadão de Copacabana. Pega o celular e digita no YouTube "música xamânica". O som etéreo de uma flauta toma o ambiente, iluminado apenas por um pequeno abajur. Tão logo o ritual é concluído, a campainha toca.
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O cliente da vez tem 20 e poucos anos. Deixa o tênis na entrada, tira a máscara e passa os olhos por toda a casa. Assim como muitos que entram naquele espaço, o rosto não esconde o acanhamento. "Eles sempre chegam tímidos e às vezes já com o 'negócio' duro'", Mauro me diz, mais tarde. Para quebrar o gelo, ele dá um abraço apertado e engata uma conversa descontraída sobre trabalho, pandemia e casamento.
Tudo fora combinado por WhatsApp horas antes. Na tabela dos serviços ali prestados, o rapaz escolhe uma massagem relaxante, um pouco de técnicas tântricas e "um final feliz". Ele então tira toda a roupa e deita de bruços sobre a maca. Mauro esfrega as mãos para a energia fluir, lambuza os dedos com um óleo essencial e começa a massagear as plantas dos pés, em busca dos chacras abertos. "Vamos relaxar agora", orienta com a voz grossa.
As mãos sobem pela perna, panturrilhas, glúteos e costas. Mauro então tira a camiseta e faz uma massagem com o próprio corpo. Nada é falado, mas o som da flauta se mistura a sussurros e gemidos. É chegada a hora da massagem lingam, que significa "bastão de sustentação" em sânscrito. Não é eufemismo. A técnica é utilizada especialmente no pênis. "É como amassar um pão", diz Mauro. "Serve para seu corpo expulsar energia. É um orgasmo seco." O que rola nos 20 minutos finais nada tem a ver com o que é ensinado nos cursos de massoterapia ou de tantra: Mauro e o cliente começam a transar. "A massagem é terapêutica, mas, para muitos deles, o sexo também é", Mauro resume.
Acabada a relação, o massagista coloca uma mão na cabeça do rapaz e mantém a outra no peito ainda ofegante. Em seguida, elas deslizam pelo corpo como se puxasse a energia acumulada para os pés. "Pronto", diz, suado.
O feedback veio por mensagem: o cliente disse que chegou em casa "flutuando", mas com ânsia de vômito. Mauro explica que é normal, e que ele mesmo passou mal na madrugada. "As energias entram no corpo como processo de cura e essa troca foi muito forte dessa vez", diz.

Craque de atendimento
O mato-grossense Mauro tem 47 anos e há 10 trabalha como massoterapeuta profissional. Foi a escolha que fez após tentar a vida como figurante em novelas como "A Favorita" (Rede Globo) e "Os Mutantes" (TV Record) e fazer bicos como garçom. "Sou craque em atender clientes", ele diz, com sorriso escondido pela máscara preta com o símbolo da Audi.
Os primeiros três anos na profissão foram levados a sério. Mantinha duas salas de estética e oferecia massagens relaxantes e depilação para homens e mulheres — "mas todos me perguntavam na hora o que rolava a mais no final", conta. Um dia, cedeu às investidas de um rapaz. "É aquele ditado: ou eu fazia ou a pessoa que estava na mesma área ia topar e eu ia perder o cliente", diz.
Com os cabelos penteados para trás e tufos de pelos do peito à mostra na regata cavada, ele conta que viu o fluxo de caixa aumentar e decidiu deixar os serviços de estética de lado. A pandemia diminuiu a frequência de atendimento, mas, num dia bom, ele diz atender até dez clientes, o que lhe rende quase R$ 10 mil por mês. Louros colhidos pelo profissionalismo, mas mais pelos músculos definidos. "Os homens têm um fetiche e, em São Paulo, o que vale é o corpo, não importa o que você faça", diz.
Os amigos massoterapeutas que antes o criticavam pela "finalização" hoje pedem dicas. Ele reconhece a especialização. "Sou profissional da massagem, amo que eu faço, mas hoje sou basicamente um puto."

Em busca do final feliz
Há tempos o sexo tem servido como bônus em muitos serviços de estética e bem-estar. Há até cabeleireiros e barbeiros que atendem como vieram ao mundo com a promessa de um novo visual — e outro "trato" depois do corte.
Na massagem, isso não é nada novo, mas cada vez mais, massoterapeutas e garotos de programa oferecem momentos de relaxamento para homens em aplicativos de paquera, pegação e em sites pornôs.
O produtor de conteúdo Guilherme*, 34, é um desses clientes. Ele conta que procurou por um "final feliz" quando terminou o casamento. "Eu achava que um profissional do sexo comum soava impessoal. Pra mim, pega num outro lugar de excitação. Na massagem, mesmo pagando, e com o foco de gozar no final, o contato e a relação não me soavam dessa forma", diz.
Nos últimos meses, decidiu buscar massoterapeutas sem nenhuma abordagem erótica em clínicas especializadas. Na última sessão, porém, se surpreendeu. "Comentei que estava com a autoestima meio abalada, me cuidando pouco, e no meio da massagem percebi uma aproximação mais íntima dele", diz. "Fiquei muito nervoso, não esperava aquilo num lugar sério, não estava ali pra isso", diz.
Técnica mais difundida entre esses profissionais, o tantra é um conjunto de conhecimentos de origem oriental. A massagem não é a única abordagem terapêutica, há também meditações e outros estímulos sensoriais, mas as portas, sobretudo no Ocidente, foram abertas na esteira da popularização do Kama Sutra (texto indiano sobre comportamento sexual), e pelo trabalho do psicanalista Wilhelm Reich na chamada terapia do orgasmo — o que o fez ser preso nos Estados Unidos por suspeita de promover atividades sexuais ilícitas.
O psicoterapeuta tântrico Julio Filgueira afirma que o sexo é uma das abordagens possíveis, e que não vê com maus olhos o uso dessas ferramentas por profissionais do sexo, mas é categórico: "Massagem tântrica não é sexo".
Filgueira é coordenador-geral da Abratantra (Associação Brasileira de Terapeutas Tântricas e Tântricos), a primeira do tipo no Brasil, que busca criar um código de conduta numa ocupação que nunca foi regulamentada. As orientações são claras: não há nudez do terapeuta e todo atendimento deve ser feito com luvas, seguindo um protocolo de relação "impessoal". A organização não incentiva atendimentos durante a pandemia. "Mas o fenômeno existe e está dado", ele observa.
"O que a gente mais ouve, quando nos consultam, é se tem 'final feliz' ou não. Para nós, isso é uma fronteira que não pode ser ultrapassada, sob pena de que o próprio profissional não se dê conta que a pessoa está numa condição de fragilidade psíquica, e que é muito simples manipular a coisa."

É permitido tocar
"Hoje o tantra está banalizado", diz o pernambucano Cristiano Lima, 34. "Em todo beco ou aplicativo tem massagista." De barba e corpo malhado, ele mantém há dois anos o Estúdio Lingam, anexo a seu apartamento no bairro da Bela Vista, no centro de São Paulo, com uma proposta erótica em que usa elementos do tantra, da massagem body to body (corpo a corpo) e técnicas aprendidas durante uma experiência em Londres, numa agência que usava a massagem para atender casais endinheirados.
Na época, ele era um mero cleaner (faxineiro) quando ouviu do dono da agência que "aquele corpo" tinha potencial. "O físico conta muito. Na proposta do mercado, o cliente vai escolher o gordo ou o malhado?", ele me pergunta. "A eroticidade é basicamente trazer você para aquele padrão de beleza."
Esse contato acontece numa sala decorada apenas com uma estátua do buda, algumas plumas e pequenas velas dentro de copos d'água. A maioria dos clientes são homens casados, entre 40 e 80 anos. Todos buscam discrição. "Meu público-alvo esteticamente não me interessa, mas eu me excito também. Não é apetite sexual, é a conexão para que você execute bem a técnica."
Não há um dia em que ele não receba contatos perguntando se tem "algo a mais" no pacote. Nestes casos, ele tenta convencer que tem uma proposta melhor. "É como se eu conduzisse a própria pessoa a fazer sexo com ela mesma, eu sou apenas um condutor. Às vezes, me sinto um Superman", diz.

Nu e no comando, Cristiano diz que o toque é permitido e incentivado, mas sem beijo, penetração ou sexo oral. Quando isso acontece, ele interrompe o processo: "Você quebrou as regras. A sessão acabou". Não que ele não tenha tido relação sexual com algum cliente que o interessava. "Mas aí a gente marcou um café depois, não usamos aquele espaço e aquele ritual. Não tem fundamento."
Há quase dois meses em São Paulo, Mauro recusou ofertas para trabalhar como cabeleireiro e massoterapeuta em uma clínica. Preferiu investir no seu combo relaxante — que ele também divulga no site OnlyFans.
Para ele, o apelo está na dificuldade de muitos homens não se tocarem e investigarem o próprio corpo. "Eles querem experimentar a pegada forte de um homem másculo no corpo deles. Eles têm tanto prazer que muitos não conseguem nem terminar a parte da massagem ou já querem pular para a parte final", observa.
Após garantir um bom desfecho para os clientes, Mauro diz ficar com o corpo destruído por sugar tantas energias diferentes. "Mas fazer o quê? Todo mundo quer relaxar no final."
Fui estuprado mais de 30 vezes, diz vítima de 'agente de modelos' turco

Paulo Sampaio
Colunista do TAB
15/04/2021 04h01
Até o final de 2018, o destino não havia contemplado Matheus Magalhães com nada que o empolgasse. Filho de uma diarista, terceiro de quatro irmãos — cada um de um pai —, ele estava com 18 anos e via seu sonho de cursar artes cênicas e/ou brilhar como modelo de passarela jazer em uma franquia do restaurante Pollo Loko, na qual era encarregado de serviços gerais. Ajudava na cozinha, limpava os banheiros e, quando o salão estava cheio, dava um apoio aos garçons.
Antes das 10h e depois das 18h, fora do horário do expediente, passava boa parte do tempo "fazendo contatos" nas redes sociais.
Em outubro daquele ano, aceitou o convite de um amigo de Facebook para bater um papo na cafeteria Starbucks do Shopping Metrô Tucuruvi, na zona norte de São Paulo. Homossexual e surdo, como Matheus, o homem dizia ser turco, chamar-se Fábio e ter 35 anos. Estava acompanhado de um casal de evangélicos surdos e mudos, que ele apresentou como seus sócios em um banco de investimentos. Citou um irmão que era proprietário de uma agência de modelos em Dubai, nos Emirados Árabes.
Aprisionado em uma rotina árida, consumido pela desesperança, Matheus vislumbrou ali o passaporte para uma carreira de sucesso. Não havia espaço para desconfiar da conversa do turco. "Tentei alertar meu filho, mas ele é cabeça dura. Queria ir em busca da felicidade, de novas emoções, eu não tive como segurá-lo", lembra Imaculada "Malu" Magalhães, 45, mãe de Matheus.

Quatro meses depois, em fevereiro de 2019, o aspirante a modelo embarcava com Fábio para Dubai, com escala em Istambul. O jovem nascido em Iguape, a 200 km de São Paulo, e criado no Mandaqui, na zona norte, afirma hoje que a viagem foi uma experiência transformadora em sua vida — não necessariamente empolgante.
"Em quase três meses de tortura, fui estuprado mais de 30 vezes", diz Matheus, que mede 1,83 m, pesa 53 kg e tem uma compleição física franzina. Lânguido, pele alva, ele conta que só começou a falar aos dez anos — o que parece surpreendente, pela fluência que apresenta agora. "Os fonoaudiólogos acham incrível a rapidez com com que evoluí, depois que comecei a falar", diz. Nos raros momentos em que não se entende o que ele diz, Matheus explica que tem "sotaque". "Eu falo como gringo", ri. Em uma praça do Mandaqui, próxima da casa em que vive com o irmão mais novo e a mãe, ele conta como sobreviveu ao cárcere, à violência sexual e ao pânico. "Sinto que ainda vai levar tempo até que eu consiga me livrar das sequelas."
De repente, no check-in
O embarque em Cumbica, em 8 de fevereiro de 2019, trouxe a primeira revelação. No passaporte, o nome do "agente de modelos" agora era Omer Duman. Inexperiente em relação aos costumes turcos, Matheus acreditou que poderia ser a versão traduzida, ou "muçulmana", de "Fábio". "Em março [de 2021], eles me informaram na Polícia Federal que essa identidade [do documento] pode não ser a verdadeira, e que ainda não dava para saber quantas ele teria falsificado. Disseram que a divulgação do documento ajudaria na investigação."
O voo transcorreu com relativa tranquilidade, sem nada que antecipasse o que estava por vir. Assim que chegou ao hotel, em Istambul, exausto por causa do jet-lag, Matheus apagou. Ao despertar, nova surpresa. Seu passaporte e os únicos R$ 500 que levara na viagem haviam sido "confiscados". Fábio-Duman deu a desculpa de que os guardara como medida de segurança. "Para você não perder", disse. Em um gesto de carinho, aproximou-se do jovem, deu a ele uma "aliança de noivado" e o acariciou, sussurrando para que baixasse a calça. "Eu disse que faria qualquer coisa, mas aquilo não", lembra Matheus. Ao mesmo tempo em que elogiava a beleza do jovem, Omer o aterrorizava. "Ele dizia que, se eu não o deixasse 'fazer aquilo', me mataria. E também que acionaria os contatos dele no Brasil para dar fim a toda a minha família." Desde então, Matheus passou a ser violentado quase todos os dias.

Um mudo falante
Se até desembarcar em seu país, Omer Duman se dizia surdo e mudo e se comunicava em libras (língua brasileira de sinais), em Istambul ele passou a falar fluentemente, em alto e bom som. Menos de uma semana depois da chegada, levou Matheus para a província de Antalia, um balneário turístico a 700 km ao sul. Eles se hospedaram no apartamento de um casal da comunidade de surdos-mudos (parece um padrão), que Duman dizia ser seu parceiro nos negócios. Lá, apresentou o jovem como seu filho.
Omer Once (um homônimo) morava em um prédio habitado por toda a família da mulher, Ezgmi — a irmã dela, Ikbal, o cunhado, Mustafa, e os pais delas. Os dois hóspedes dormiam num sofá-cama instalado na sala; as refeições eram feitas no andar de baixo, onde moravam os pais de Ezgmi e Ikbal. Enquanto tudo só piorava, Matheus procurava esconder uma crise violenta de ansiedade. "Eu estava paralisado de medo, mas não podia demonstrar. Para fugir daquela situação, passava um tempão no banheiro. Ligava o chuveiro e ficava ali", conta.
Sua mãe, com quem falava diariamente pelo aplicativo WhatsApp, não sabia de nada. "Ele escondia a verdade de mim, acho que com vergonha", lembra Malu.
Promessas a esmo
Em conversa pelo aplicativo com a coluna, Mustafa Koçer, hoje ex-marido de Ikbal, conta que sua cunhada (Ezgmi) tornou-se amiga de Omer Duman pelo Facebook, e a partir daí convenceu a família a recebê-lo em casa. "Ela é muito crédula, acredita em qualquer conversa. Conheceu o próprio marido (Omer Once), de quem hoje é divorciada, na Internet. Omer Duman a seduziu com a promessa de arranjar um emprego para meu cunhado no Canadá."

Uma noite, de passagem pela sala, Omer Once viu que o "pai" (Omer Duman) estava nu no sofá com o "filho". Matheus lembra: "Eles já estavam desconfiados de que havia algo estranho, e eu até pensei em me abrir com a família, mas não quis arriscar. Não sabia até que ponto ia a relação deles. Além disso o Omer [Fábio] não saía do meu lado um minuto. Me controlava o tempo todo."
As suspeitas da família acerca do visitante cresciam dia a dia, até que Omer Once teve a ideia de atrair Omer Duman para um passeio, enquanto os outros chamaram Matheus para uma conversa na cozinha. Ele acabou contando "tudo". "Eu achava que ia morrer de qualquer jeito. Estava certo que não voltaria de Dubai, para onde a gente ainda iria", lembra. Os anfitriões ficaram escandalizados com o relato.
Aproveitando a ausência de Omer Duman, Mustafá arrombou o cadeado da mala do estelionatário e revirou sua bagagem atrás do passaporte e do dinheiro de Matheus. Na volta do passeio, Duman foi confrontado pela família. "Eu estava muito alterado, berrava, e no fim o expulsei de casa", lembra Mustafá. Ele diz que ainda tentou localizar Omer Duman, para denunciá-lo, mas o perdeu de vista.
Final infeliz
Além de acolher Matheus por mais alguns dias, a família de Ezgmi e Ikbal bancou a passagem dele de volta para o Brasil e até hoje mantém contato. Apesar do desfecho relativamente apaziguador, o final da história está longe de ser feliz. Desde que desembarcou em São Paulo, Matheus tenta administrar as sequelas físicas e emocionais da trágica experiência. "Os exames para HIV e infecções sexualmente transmissíveis deram negativo", diz. Contudo, ele passou a tomar antidepressivos, para aplacar crises alternantes de depressão e ansiedade.
Quem prescreveu o medicamento foi o psiquiatra Wladimir Costa e Silva, 44, de Divinópolis (MG), que Matheus conheceu em um aplicativo de relacionamento. Os dois passaram um tempo juntos, mas o namoro não prosperou. "Tenho convicção, como médico, de que não é ético misturar o pessoal e o profissional, mas nesse caso, pela dificuldade de acesso dele, achei que o estaria ajudando", diz Wladimir.
A perspectiva de tornar-se ator e modelo voltou à estaca zero. Apesar de ter feito fotos e manter contato com algumas agências, Matheus ainda não recebeu convites de trabalho. Desde antes de ir para a Turquia, anuncia serviços de massagem em um site de acompanhantes. Diz que não conheceu Omer por ali, e sim pelas redes sociais. "Eu sei que muita gente vai me culpar, a partir dessa informação, mas o preconceito dessas pessoas não muda a violência da história."
Em 2019, enquanto aguardava algum convite publicitário, empregou-se como auxiliar administrativo em uma empresa de logística. Desde agosto de 2020, por causa da instabilidade emocional, está em licença médica não-remunerada. Wladimir assinou o atestado, com o diagnóstico de "depressão e transtorno de estresse pós-traumático". "Em determinado momento, ele passou a apresentar um comportamento dissociado da realidade. A mente opta por um modo econômico, de redução do campo da consciência, e deixa de registrar tudo o que acontece. Ele falou várias vezes em por fim à própria vida, o que me pareceu preocupante", diz o médico.

Oferta recusável
Ao contrário do que se imaginava, Omer Duman não sumiu do mapa. Matheus conta que, pouco antes de deixar a Turquia, recebeu um telefonema de seu abusador, feito a partir do Brasil. "Ele ria na minha cara, disse que eu não me livraria tão fácil. Eu avisei que procuraria a Polícia Federal assim que desembarcasse em São Paulo. Ele desligou." Um tempo depois, Duman localizou Matheus em um aplicativo de relacionamento e mandou a foto do passaporte dele, para provar que não estava blefando. Ofereceu 20 mil euros para não ser denunciado na polícia.
"Nem por 1 milhão", afirma Matheus, que registrou queixa na delegacia de polícia da pessoa com deficiência e prestou depoimento na PF. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de SP, "a investigação preliminar apontou que havia indícios de crime de tráfico internacional de pessoas e, por isso, o caso foi encaminhado à Justiça Federal e à Polícia Federal". A assessoria da PF informa que "não comenta sobre eventuais investigações em andamento".
Jeová na causa
Pedindo para preservar sua identidade, os evangélicos que estavam com "Fábio" em seu primeiro encontro com Matheus dizem por WhatsApp que receberam ameaças de Omer, mas decidiram não prestar queixa. Acharam melhor aguardar a justiça divina. "Ele mentiu muito, infelizmente, levou nosso dinheiro, mas vai ajustar contas com Deus Jeová, que sabe o tempo certo para tudo."
Em duas horas de entrevista, Matheus pouco sorriu. Não faz um ano que ele passou a falar abertamente sobre o que aconteceu. "Eu me sentia culpado, me cobrava, e tinha muita vergonha", lembra. Pelo que conta, transformou todo o horror que viveu em tripla militância. No Instagram, onde tem cerca de 6 mil seguidores, posta textos de combate ao preconceito contra a comunidade LGBTQI+; contra pessoas com deficiência e contra a violência doméstica. "Recebo muitos ataques, mas agora eu não me deixo abater tão facilmente."
OPINIÃOLockdown em Araraquara: o dia em que a (minha) terra parou

Na frente da casa, tampas de garrafas e algumas bitucas de cigarro guardam resquícios de um universo temporariamente suspenso. Em um domingo normal, com ou sem pandemia, esse universo abriria as portas por volta das 9h — e não fecharia enquanto houvesse cliente debaixo do toldo surrado. Mas desde 15 de fevereiro os bares estão proibidos de funcionar em Araraquara, a 280 km de São Paulo.
Do início da quarentena, em março, até o último domingo (21), 171 pessoas já haviam morrido por covid-19 no município. Uma destas pessoas era da nossa família. Mais de dois terços dos óbitos foram registrados desde o fim do ano, quando a curva de contaminação explodiu, e as variantes da Inglaterra e de Manaus foram encontradas nos pacientes.
Um oceano e praticamente um continente inteiro separaram as pontas desse triângulo.
Se quisesse correr o risco de resumir (mal) a história, diria que meus pais — ambos com mais de 60 anos — estão trancados em casa pelas próximas 60 horas porque uma família de Manaus decidiu conhecer o Brasil em uma van, no fim do ano passado, e estacionou por aqui em janeiro após uma das passageiras, de 45 anos, passar mal. Em estado grave, ficou quase um mês em observação na Santa Casa da cidade.
Outros integrantes da van também manifestaram sintomas de Covid e foram internados em 11 de janeiro. Três dos passageiros, assintomáticos, precisaram dormir na van durante o período. O veículo ficou estacionado em frente à Unidade de Pronto Atendimento da Vila Xavier, onde cresci. A estadia só terminou em 22 de janeiro.
Em uma entrevista, o prefeito da cidade, Edinho Silva (PT), disse não haver ligação científica comprovada entre a van de turistas e o fato de a nova cepa brasileira, incidente no Amazonas, circular pela cidade. Mas enfatizou que ela é mais contagiosa do que as variações anteriores do vírus.
Com 100% das UTIs lotadas e o crescimento do índice de contaminação, a cidade entrou em lockdown na segunda-feira (15). Bares, lojas e restaurantes fecharam as portas. Seis dias depois, até supermercados e postos de gasolina foram proibidos de funcionar.
Se tinha uma boa hora para visitar a cidade onde nasci e vivi até os 18 anos, definitivamente não era neste fim de semana.
Em nossa defesa, ninguém veio para cá a passeio. Chegamos no sábado para uma missão: levar minha cunhada, de 17 anos, para prestar a segunda fase da Fuvest na cidade vizinha — Ribeirão Preto. O motorista titular, meu sogro, havia quebrado a canela dias antes e não podia dirigir.
A casa da minha sogra virou o ponto de embarque, de onde só saímos para pegar a estrada no dia seguinte.
O silêncio no bar ao lado, conhecido pela barulheira até altas horas, parecia contar toda a história de um vírus que há pouco mais de um ano foi identificado em Wuhan, na China, e bateu à porta de casa após atravessar o mundo e mudar a História, com H maiúsculo. Uma prova cabal de que se um morcego balança as asas do outro lado do Planeta um furacão se forma no nosso quintal.
No meio desse furacão, você sente um pouco de tudo — inclusive enjoo e ânsia de vômito pelo medo de ser flagrado circulando pela cidade sitiada, mesmo com uma inscrição de vestibular na mão. E se não for um motivo razoável para entrar e sair de casa? E se não for suficiente o argumento de que no banco de trás pode estar uma futura integrante do Supremo Tribunal Federal? (Minha cunhada quer cursar Direito. Pelas notas dos últimos anos, já ensaiamos o momento em que a chamaremos de ministra).
Até as 12h, quando o lockdown total entrou em vigor, era possível observar pelas ruas apenas o movimento de pessoas com máscara, a maioria idosos, indo e voltando para casa com sacolas na mão e o semblante de luto.
Apenas as badaladas do sino da igreja São Geraldo, no bairro onde estamos, produzia alguma familiaridade com um domingo comum. Em outros tempos, logo cedo, veríamos os atletas de fim de semana descerem a rua ao lado para o rachão no Clube 22 de Agosto. Veríamos famílias enchendo o porta-malas com esteiras e varas de pescar em mais uma manhã de calor a caminho do Náutico ou de algum pesqueiro perto daqui.
Veríamos também os ciclistas paramentados pedalando em direção a Bueno de Andrada, onde as famosas coxinhas douradas da crônica do Ignácio de Loyola Brandão se tornaram uma espécie de cálice sagrado a premiar quem completa o trajeto. (Nos condomínios que se proliferaram nos últimos anos, parques e áreas comuns foram fechadas. Em alguns, nem pedalar era permitido).
Ah, sim: em uma manhã normal de domingo, o dono do bar vizinho já estaria ouvindo os prognósticos para a rodada de fim de semana de algum cliente empolgado já na terceira garrafa.
Em vez disso havia apenas o sol, silêncio e integrantes das equipes de saúde, vestidos como astronautas, batendo nas portas de algumas casas.
O silêncio permitia ouvir até o farfalhar de folhas na calçada esvaziada. Andar pelo quarteirão é como andar pela cidade de madrugada. Uma madrugada à luz do dia. Com os carros e coletivos parados na garagem, era possível escutar com nitidez o canto de pássaros e as conversas dos vizinhos de muro.
Saímos da cidade antes do almoço. Não chegamos a ouvir a sirene da Cutrale, a gigante produtora de suco de laranja e símbolo maior da cidade, anunciando o lockdown total. Quando voltamos, apenas farmácias e hospitais tinham autorização para funcionar (algumas, ainda assim, fecharam).
Em Ribeirão, a velha-nova-realidade parecia nos levar a outro mundo, muito mais distante no espaço-tempo do que os 78 quilômetros de distância poderiam sugerir.
Tirando as máscaras, um visitante não desconfiaria que estávamos em um país em pandemia. O shopping estava lotado, e parecia uma péssima ideia esperar as cinco horas de prova em contato com tanta gente. Resolvemos dar um tempo no estacionamento coberto. Até que um veículo perdeu a direção da curva e encheu a lata do nosso carro parado. (A batida só riscou a lataria, apesar do susto. Como se diz lá na minha terra, quando chove merda não garoa).
Na volta, uma bola de fogo enorme no céu entre nuvens ajudava a lembrar por que a nossa cidade é conhecida como Morada do Sol. Como um corpo estranho, entramos na cidade sem encontrar resistência. Não havia policiamento nos locais onde circulamos até nossa casa provisória.
Aqui e ali era possível encontrar moradores de máscaras, desconfiados, conversando em frente de casa, homens sem camisa, alguns em cadeiras de praia e cachorro no colo. Vi uma mulher levando um prato de comida coberta de papel alumínio para alguém — um parente, um amigo que não abasteceu o estoque? Nunca vamos saber.
O cenário não fazia sombra à cidade que, mesmo aos domingos, vê a noite chegar com uma multidão a caminho da avenida Bento de Abreu, onde ficam as lanchonetes e carrinhos de lanche, e novos casais se formam há décadas no entorno do Teatro Municipal. Mesmo no quarteirão de casa, é estranho ver a semana terminar sem ninguém passar a mil em um Golf tunado, com funk ou sertanejo no talo.
Fica difícil não lembrar do filme e da música homônima do Raul Seixas: "O dia em que a terra parou".
Já na escuridão total, só as gotas de chuva competiam com o som da TV, onde a cidade era tema de uma extensa reportagem do Fantástico (mãe, estamos na Globo, e essa não é a boa notícia).
Quem chegasse desavisado à cidade imaginaria que ela fora evacuada antes de um bombardeio inimigo.
Em vez disso, tinha acabado de ser dragada para dentro de suas casas com um toque de recolher.
Como numa guerra, é o recuo estratégico para evitar a carnificina.
Falabella, seu Caco Antibes não saiu de cena. Apenas perdeu a graça


Matheus Pichonelli
Colunista do UOL
10/02/2021 04h00
"Sai de Baixo" foi um programa de estilo sitcom da TV Globo exibido nas noites de domingo entre 1996 e 2002. Um de seus personagens mais marcantes era Caco Antibes, o protótipo do brasileiro médio e decadente, tomado de ódio e preconceito de classe, interpretado por Miguel Falabella.
"Eu tenho horror a pobre" era seu bordão.
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Em uma entrevista publicada no Estadão, no último fim de semana, o ator e dramaturgo afirmou que seu antigo personagem "não teria como existir hoje em dia". "Ele é representativo de uma época. Idiota seria eu se quisesse repetir o Caco Antibes", disse Falabella.
Eu não poderia concordar menos.
Quando o sitcom estava no ar, Caco Antibes era o apelido de todos os parentes que causavam mal-estar à mesa quando, depois da segunda cerveja, começavam a expelir perdigotos e planos higienistas para nossa cidade. A exemplo do personagem fictício, quase nunca eram levados a sério.
Como uma risca de chão imaginária, estava claro que Caco Antibes era uma caricatura resguardada pela impotência. Falava, falava e falava absurdos porque era tudo o que podia fazer.
Por isso provocava riso.
"Sai de Baixo" foi o programa que marcou o fim dos anos 1990. E foi na década seguinte que o Brasil botou para funcionar um dos mais bem-sucedidos programas de distribuição de renda do planeta. O Bolsa Família reduziu as taxas de extrema pobreza em 25% e as de pobreza, em 15%, entre 2001 e 2017. Naquele ano, 6,6 milhões de pessoas saíram da pobreza ou da extrema pobreza. Era o equivalente à população do Maranhão, segundo dados do Ipea.
Como contrapartida, o Bolsa Família tirou do armário o espírito insepulto do personagem.
O ranço nascido ali fez explodir o discurso de ódio, manifestado nas iminentes redes sociais, a começar pelo Orkut. Chegou ao Twitter e se espalhou pela deepweb.
O que era piada virou força política.
Jair Bolsonaro, em seus tempos de deputado, dizia que o programa do governo era uma mentira. Para ele, tratava-se de um projeto para "tirar dinheiro de quem produz e dar a quem se acomoda". Ele lamentava que, no Nordeste, já não se conseguia pessoas para trabalhar por causa do programa, que se tornara uma ferramenta de "cabresto".
Na época, o futuro presidente defendia um polêmico programa de planejamento familiar para que "o cara que faz três, quatro, cinco, dez filhos" não virasse problema do Estado. "Esse cara já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada, não produz bens e serviços, não colabora com o PIB. Aqueles oito filhos vão ter que ter creche, escola, depois vão ter cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Nada."
Já candidato a presidente, Bolsonaro provocou aplausos ao calcular o peso de quilombolas em arrobas. Dizia que eles não serviam sequer para procriar.
Depois de eleito, apostou alto as fichas na imunidade de rebanho quando chegou a pandemia. Tinha a seu favor uma tese peculiar: os brasileiros, sobretudo os mais pobres, precisavam ser estudados, porque porque nadavam em esgoto e não acontecia nada com eles. Não seria diferente em contato com o coronavírus. Hoje o país soma 230 mil mortos e ele pergunta "e daí?".
A ironia é que o deputado que fazia cosplay de Caco Antibes para ganhar engajamento tem hoje a popularidade atrelada ao auxílio emergencial — e não perde chance de posar nas redes como um político de base humilde, que fala a língua do seu povo. Haja leite condensado no pão para adoçar a fantasia vestida no condomínio Vivendas da Barra.
Bolsonaro deu corpo e empoderou o espírito cacoantibeano, mas não está só. Seu Posto Ipiranga é um ministro da Economia que acredita que a maior inimiga do meio ambiente é a pobreza, que pobres são pobres porque consomem tudo e não guardam nada, e que já demonstrou alívio com o fim da farra dos governos anteriores em que até a empregada doméstica podia viajar para a Disney.
A ascensão de Bolsonaro e sua turma não é resultado de uma conversão repentina dos brasileiros à cartilha de Caco Antibes. Há muitos elementos que explicam a sua chegada ao Planalto, inclusive a implosão do sistema político e partidário a partir da Lava Jato.
Na semana passada, a divulgação de trocas de mensagens entre procuradores da força-tarefa e o então juiz Sergio Moro mostrou que a bronca dos responsáveis pelas investigações não era só pelos supostos malfeitos dos investigados.
Ex-operário nascido em Garanhuns (PE), Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que colocou em campo o Bolsa Família, era ridicularizado sistematicamente pelos investigadores no grupo do Telegram. Deltan Dallagnol o chamava de "9", em referência ao acidente de trabalho que fez o ex-presidente perder um dos dedos.
E Januário Paludo, o "pai" da equipe, dizia não ter dúvidas de que o sítio em Atibaia, alvo das investigações, era do ex-presidente porque, "além de deprimente, tinha muita roupa brega de mulher, decoração horrorosa e vinhos de boa qualidade, mas muito mal conservados."
Se fechar os olhos, é possível ouvir Caco Antibes pronunciando cada linha.
Só não dá para escutar as risadas ao fundo.
Desculpa discordar, Falabella. Mas seu personagem nunca foi tão atual nem teve tanta força política. Apenas perdeu a graça.
"Todos vamos morrer um dia' é HINO da BANALIZAÇÃO da vida


Matheus Pichonelli
Colunista do TAB
03/02/2021 04h00
Na Grécia Antiga, Sócrates dizia que a vida irrefletida não valia a pena ser vivida.
Na França do século 17, Descartes concluía: "penso, logo existo".
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Rousseau, no século 18, demonstrava que "o homem nasce livre e por toda parte encontra-se acorrentado", enquanto na antiga Prússia, Immanuel Kant desconfiava da existência de dois mundos: nossos corpos e o externo.
No Brasil do século 21, o filósofo mandou bom dia no WhatsApp, vestiu a sunga e concluiu que nada importa. Vamos todos, afinal, morrer um dia.
Nos registros destes tempos na posteridade, ninguém precisará ir aos livros para entender como a filosofia dos tempos atuais moldou nossa forma de pensar e se entender diante do mundo. Bastará procurar no Google uma reportagem assinada por Maurício Businari para compreender como a máxima "vamos todos morrer um dia" ajudou a empurrar mais de 220 mil brasileiros para a morte — e, de quebra, enterrou toda a sabedoria produzida desde a chamada revolução cognitiva, quando os Homo sapiens encontraram na linguagem a expansão do universo que levou os outros hominídeos, como os irreflexivos neandertais, à extinção.
A máxima foi ouvida aos montes pelo repórter durante um passeio pela praia lotada de Santos, em um dos momentos mais tensos da pandemia de covid-19. Se já está morrendo pouca gente por causa das aglomerações, por que não aproveitar o calor do fim de semana para aglomerar ainda mais?
A resposta é mais do que uma ode ao fatalismo. É a base da nossa filosofia de vida — desconfia-se que não só no Brasil, mas por aqui é amalgamada no coração e na mente de seu presidente — que está para a produção do conhecimento como as patas do boi nelore estão para o pasto.
Neste provável retrato para a posteridade, o trabalho jornalístico pode servir como farol para, daqui alguns séculos, arqueólogos desvendarem o mistério da extinção da inteligência humana. Nas areias de Santos nem todos tinham o distintivo de desembargador para humilhar o guarda e fazê-lo engolir a multa por circular sem máscara, mas muitos estavam convictos do alinhamento automático com as ordens do rei.
Distanciamento?
"Que raio de lei é essa? Eu posso me matar no trabalho, mas aqui não posso? Quer saber? Vamos todos morrer mesmo, então eu vou é aproveitar", disse um banhista à reportagem do UOL.
"Não somos escravos. Somos um povo livre. Como diz o presidente, vamos todos morrer um dia, mas não precisamos viver presos como esses governantes querem. Existem tantas outras doenças aí! H1N1, dengue... Por que cismaram com essa covid?", filosofou outra banhista, citando um vírus influenza que, de 2009 a 2010, matou 2.098 pessoas no Brasil — uma fração perto do morticínio da doença que as autoridades teimaram em negar nesses últimos dez meses.
Houve quem comparasse, na reportagem, o vírus ao pecado. "Dizem aí que o vírus é invisível, que a gente não vê. Só que pecado também é invisível, a gente não vê. Mas Deus é quem vê e sabe de tudo. Isso é tudo mentira dos governadores para nos manterem presos. Deus sabe disso."
Pela lógica, é como se uma velha máxima fosse atualizada para o calor das praias e a fritura dos tempos atuais: se Deus existe, tudo é permitido.
As declarações colhidas pelo repórter são mais do que desculpas para ir à praia. São o crime confesso de inapetência existencial.
O discurso reverberado pelo presidente de que todos vamos morrer um dia, e este é o caminho natural diante das coisas e contra ele não podemos fazer nada, é a declaração de morte de todas as coisas. A começar pelo trabalho dos profissionais de saúde, que enquanto você lê este texto, fazem o que podem e o que não podem em algum hospital superlotado para evitar que mais uma família seja destroçada pela perda de alguém.
Levada a cabo, a máxima deixa entrever que entre nascer e morrer nada importa; nem o que se faz, nem para quem se faz, nem o que sentimos ou o quanto sofremos ou aprendemos. A vida, afinal, é só um intervalo no qual nascemos, piscamos os olhos, nos alimentamos e esperamos morrer. O resto é terra, cimento e areia.
No presidente, essas pessoas encontraram um balaio para depositar toda a incapacidade de autorreflexão, de entendimento do mundo e da dimensão do outro — basicamente, o que nos distingue dos outros animais. É o que nos impede de diferenciar o direito a fazer o que se quer da própria vida (este sim, um dilema filosófico profundo) com o direito de fazer o que quiser com a vida de alguém. Inclusive matar. Tem quem chame isso de liberdade.
De duas, uma. Na hora em que a Libitina aparece, não tem adepto do "todos vamos morrer um dia" que não se agarre até a última conta do terço e do pescoço da bisavó. A conversa, então, muda de sentido. No fundo, era só exercício de virilidade e disfarce da insegurança.
Na pior das hipóteses, porém, já nos tornamos aquelas pessoas na sala de jantar da música dos Mutantes, ocupadas demais em nascer e morrer sem que nada entre uma ponta e outra fizesse sentido para nós ou para alguém.
Se os arqueólogos do futuro quiserem entender como chegamos à completa banalização da existência na Terra, terão na máxima "vamos todos morrer um dia" a pedra filosofal do pensamento contemporâneo por onde tropeçamos todos os dias e caímos no alçapão. Ele não nos legou só a catástrofe. Legou o vazio. É lá que enterramos nossos mortos.
Da suspeita à pena de morte: o julgamento recorde de Edson e Jhordan
Colunista do UOL
16/12/2020 04h01
Para um país onde não existe pena de morte, durou pouco o julgamento de Edson e Jhordan. Suspeitos a priori, foram abordados, indiciados, denunciados e julgados em tempo recorde. Segundos? Minutos? Não se sabe ao certo quanto tempo permaneceram vivos após terem o passeio de moto por Belford Roxo, na Baixada Fluminense, interrompido pelo disparo de dois policiais de plantão.
A pena de morte começou a ser assinada com um fuzil. O primeiro projétil lançou os rapazes ao chão. Um deles foi chutado enquanto ainda estava caído. Com o cano da arma, um dos policiais ainda bateu em sua cabeça. O réu estava agachado. Ele foi algemado com a cara na parede em seguida.
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Não foi uma batalha, dessas que se desvelam no lusco-fusco de trincheiras e dos tiroteios, como nos filmes policiais. Foi um massacre.
Edson e Jhordan tiveram chance de apelar da sentença quando foram encaminhados para a viatura, espécie de segunda instância do tribunal. Não foram atendidos.
Seus corpos foram encontrados na tarde do mesmo dia a alguns quilômetros dali.
Os policiais-promotores-juízes-carrascos-executores do caso são um cabo e um soldado, detentores das patentes que, segundo o deputado Eduardo Bolsonaro, filho 03 do presidente, bastariam para fechar o Supremo Tribunal Federal. Em Belford Roxo, eram também detentores de uma Constituição particular que os isenta de relatar qualquer intercorrência aos superiores ao fim do plantão.
Os PMs dizem que, apesar dos tiros e das porradas, não foram os responsáveis pela bala final. Liberados após uma rápida consulta pelos antecedentes criminais, segundo eles, os jovens já não estavam sob custódia quando foram executados, em algum lugar fora do alcance das câmeras. Um dos policiais tem Custódio no sobrenome e foi um juiz da Central de Custódia que converteu a prisão em flagrante dos juízes-executores em preventiva.
Edson tinha 20 anos e era camelô.
Jhordan tinha 17 e já trabalhava em um lava-jato, como são conhecidos os serviços de limpeza de automóveis que se tornaram sinônimos da limpeza da classe política no Brasil, substituída por uma turma de entusiastas da morte como solução (30 mil, para começar, dizia o presidente quando deputado; 180 mil na pandemia, longe ainda de terminar) e do encarceramento desde a infância. Quanto antes prender, melhor.
Quando saiu de casa com o amigo três anos mais velho, Jhordan não sabia que se tornaria parte de uma estatística macabra em um país onde, todos os dias, ao menos duas crianças ou adolescentes são mortos pela polícia.
Entre 2017 e 2019, conforme levantamento da repórter Thaiza Pauluze, as forças que deveriam proteger seus cidadãos assassinaram 2.215 jovens. Trata-se de uma multidão de Jordans, Joões Pedros, Ágathas, Kauans, Emilys e Rebecas e tantos outros cujas dores sequer saíram nos jornais. As duas últimas estavam perigosamente no portão de casa quando foram alvejadas. Faz só duas semanas e ninguém mais se lembra.
O que é sempre noticiado como acidente, uma confusão entre fuzis e guarda-chuvas ou chuteiras de futebol, parece ter método e contexto. Tem também uma lista de perguntas que quase nunca é respondida, como mostrou o jurista Thiago Amparo em uma coluna recente e necessária.
Em 2015, as vítimas das balas oficiais até 19 anos representavam 5% do total de mortes violentas nessa faixa etária; em 2019, eram 16%. Só no Rio, 99 crianças e adolescentes foram mortos por policiais entre janeiro e junho de 2020, já durante a pandemia, quando sequer poderiam sair de casa para espalhar pânico aos adultos indefesos.
Quando um desses jovens comete algum crime, os defensores da redução da maioridade penal, para quem o destino do Estatuto da Criança e do Adolescente deveria ser a latrina, chegam a berrar por justiça.
Quem pode nos defender desses pequenos monstros?, costumamos gritar quando algum caso nos choca e ganha as manchetes.
Poucos perguntam quem pode defender as crianças dos cascudos e munições dos adultos, de farda ou não. O que fazer com eles quando regimes disciplinares e os remédios, indicados cada vez mais precocemente, já não fazem mais efeito? A ordem implícita é uma só: esfola ou mata.
Hoje candidato a candidato do centro, Sergio Moro, o ex-ministro da Justiça e novo sócio de uma consultoria responsável por levantar empresas destroçadas pela operação que um dia julgou, sorria bovinamente ao lado de Jair Bolsonaro em agosto de 2019 quando o presidente defendeu a celeridade na votação de uma PEC que previa a redução da maioridade penal no país.
Com o jogo truncado no Congresso, o jeito foi dificultar o rastreamento de munições e facilitar a distribuição de armas aos cidadãos de bem e/ou com dinheiro para adquirir um trabuco por R$ 10 mil sem pagar impostos. A medida foi barrada pelo STF, mas a guerra está longe de acabar.
A cena do tiro disparado contra Edson e Jhordan, que carregavam os nomes de dois dos maiores ídolos do esporte, um do basquete, outro do futebol, ambos negros como eles, reforça a ideia de que "Bacurau", aclamado filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, não era distopia; era anunciação.
Mas é na literatura de José J. Veiga que encontramos paralelos ainda mais evidentes desse país ainda a ser revelado. No conto "Acidente em Sumaúma", o mestre do realismo fantástico descreve a morte de um lobo preso e cercado por homens e seus cães de guarda.
Aquele lobo, descreve Veiga, era a imagem da derrota. Bastava vê-lo de língua de fora, puxando ar com urgência, a cabeça inchada de bordoadas, o corpo sangrando, o sangue endurecendo no pelo, para se compreender que ele estava nas últimas, sem despertar pena nem mesmo dos cães, que a certa altura o abandonam. Preferem assustar uma galinha perto dali. "Um pouco mais e até as pulgas estariam desembarcando dele, e então ele ficaria sozinho", descreve o narrador, que assiste à cena passivamente até acordar e se dar conta de que aquele lobo era ele.
Ele, não. Um país inteiro. Um país de meninos e lobos.
Embate de Felipe Neto com Bolsonaro prova que mundo não dá volta. Capota
Colunista do UOL
08/12/2020 04h01
Um exercício fundamental para não deixar que tudo se dilua na corrente sanguínea da normalidade é pensar o que diria alguém que ameaçou bater as botas em 2016 e só agora saiu do coma — alguém que viu o discurso de Jair Bolsonaro em seu voto como deputado federal, no processo de impeachment de Dilma Rousseff.
O personagem imaginário voltaria a dormir se descobrisse que a atração do programa de Luciana Gimenez se tornou presidente da República, e que seu maior rival é aquele apresentador engomadinho que mandava demitir os participantes de um reality show chamado "O Aprendiz" — o mesmo programa que forjou o ídolo da atração de auditório que acompanha, como novela, as tentativas de levar as eleições dos EUA para o tapetão.
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Se tivesse um filho na idade do meu, o sujeito afundaria de vez no sono profundo se fosse avisado de que, neste novo normal, aquele moleque de fala escatológica e arrogante que pintava os cabelos se tornaria uma espécie de oráculo sobre a saída da crise para a esquerda que ele malhava dia sim, outro também.
Pior seria descobrir que, se soubesse juntar lé com cré, ele concordaria com o ídolo do filho que até então provocava apenas urticária quando falava.
Até onde sei, estive acordado neste tempo todo, mas mal me lembro do tempo em que Jair Bolsonaro era uma piada de mau gosto e o Felipe Neto era alguém com muitos likes e pouca ideia do que fazia na Terra.
Mas aí veio 2020 e assim chegamos ao fim dos muito loucos anos 2010. Até o fim de dezembro, é bom não estranhar se nossa xícara nos der bom dia.
Em longa entrevista ao UOL após ser colocado em duas listas, a das pessoas mais influentes da revista Time e a de detratores do governo Bolsonaro, Felipe Neto teve chance de falar um pouco de tudo nesta segunda-feira (7). Inclusive sobre em qual das listas se vê mais bem encaixado.
Fora da persona pública, aquela que tira onda no Twitter, o Felipe real admite que não se sente seguro nem confortável em saber que é vigiado pelo governo federal. A lista de detratores, ele avalia, foi um tiro no pé para o governo, já que conseguiu angariar simpatia a nomes que não tinham tanta evidência como ele. Para sua saúde mental foi um desastre. Seus pais, por exemplo, já não dormem.
Mas é com humor que ajuda a divulgar a gravidade dos fatos para mais gente. De multidão ele entende.
Não, ninguém mais aguenta concordar com o Felipe Neto, mas até quem torce o nariz há de convir: nada de bom pode vir, de fato, dessa lista produzida pelo governo. Se não serviu pra nada, pra que a relação de inimigos? Se serviu, é a destruição da democracia.
Felipe Neto, que diz se arrepender da virulência antipetista de outros tempos (embora diga não ser petista hoje), talvez não saiba, mas emula um argumento antigo do ex-presidente Lula quando diz que não é de direita nem esquerda; é apenas um youtuber. Lula tinha uma frase parecida quando era perguntado sobre posicionamento ideológico. Mas mudava a profissão. "Sou torneiro mecânico".
Em certo momento da entrevista, Felipe Neto foi até mais específico ao se descrever como youtuber que faz vídeo sobre Minecraft —para mais à frente dizer que lá também é espaço para discutir diversidade, sem os argumentos incisivos que têm manifestado em suas redes.
Por causa desses posicionamentos, viu a extrema-direita criar uma narrativa associando-o à pedofilia por causa de uma "carta de recomendação" de um delegado. Disse também ter perdido patrocínio e se afastado de amigos influenciadores incapazes de perceber a gravidade do momento.
Para ele, figuras como Steve Bannon e Olavo de Carvalho, uma piada para qualquer um que acompanhasse seus delírios em décadas passadas, não são pessoas intrinsecamente más, mas pessoas tão seduzidas pelo discurso ideológico insano, que acreditam tão fortemente que estejam do lado certo, que não importa o que acontece no mundo real. Vão ser sempre os áulicos das teorias da conspiração — uma praga, segundo o youtuber, que ainda nos levará à guerra.
Se ela estourar, já temos o nosso profeta. É bom não duvidar.
O youtuber que até outro dia causava estresses estomacais a todo pai de família que não aguentava mais ver quartos de casarões inundados por areia ou Nutella agora é o amigo dos pais de crianças pequenas que tentam se eleger prefeitos em cidades estratégicas do país.
Neto foi uma espécie de consultor informal dos amigos Guilherme Boulos (PSOL) em São Paulo e Manuela D'Ávila (PCdoB) em Porto Alegre. Anunciou apoio, jogou videogame, participou de lives e, mesmo não admitindo, deu aquele toque amigo para ajudar os candidatos a se dissociarem de uma imagem ligada às esquerdas (que ele corretamente cita no plural): a de defensores de duas ditaduras indefensáveis.
A análise é dura, mas precisa ser minimamente ouvida por quem dialoga diariamente com uma audiência maior do que a do Jornal Nacional: militância não ganha voto, mas muitos políticos a temem, ficam atrelados a ela, e afugentam os eleitores que buscam moderação.
Nesse sentido, avalia o consultor informal (?) dos amigos, Boulos acertou em mostrar que não é um lunático que invade casas. "Não estou dizendo que precisa ser menos de esquerda. Mas a percepção do público sobre a esquerda precisa mudar. Venezuela e Cuba são os maiores argumentos que a direita tem."
A dica de amigo está nas entrelinhas: menos Fidel, mais Celtinha.
Embora diga e repita que não é cientista político, os políticos que hoje tentam se (re)conectar com o público pelas vias da comunicação digital talvez tenham algo a repensar quando veem o youtuber mais assistido do país dizer que o PSDB não é mais centro-direita e que o divórcio entre PT e PDT pode custar caro em 2022. Custou no Rio, não custou?, lembra o youtuber.
Ele ainda se arrisca a dizer que o problema dos afetos políticos contemporâneos é a esperança. No caso, a esperança em um salvador.
A solução?
"Não sei".
E quem sabe?
Questionado se passou por uma epifania de 2016 até os dias atuais, Felipe Neto diz que seu público acompanhou em tempo real seu amadurecimento. Estava na casa dos 20 quando chegou ao auge. Hoje tem 32.
De lá pra cá, rasgou as "raízes reacionárias" e se tornou um "progressista humanitário" que aprendeu a ouvir. Na verdade, aprendeu na marra descobrindo que não tinha ideia da realidade dos que errava em retratar. Para ele, não tem como se aprofundar na realidade, através da escuta e dos estudos, e não perceber o quanto essa sociedade é injusta e destrói oportunidades. Em outras palavras, a guinada à esquerda era tão inevitável como o parágrafo seguinte de um livro em direção à consciência.
Se visse Bolsonaro na frente, jura que não diria nada. Bolsonaro, afirmou, é um caso sem conserto.
Já o filho 03 do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ganhou os devidos créditos por teoria de que, para ser conservador, não é preciso estudar.
Bananinha só errou o nome, disse.
É possível, sim, ser conservador e estudioso.
Mas para ser reacionário bastam cinco vídeos raivosos no YouTube, a mesma plataforma que o levou até ali.
Exemplo disso é o ex-goleiro Marcos, que outro dia refutou a dica de um seguidor que o mandou estudar.
"Eu não, vai que viro esquerdista", respondeu o pentacampeão.
"Achei isso maravilhoso", debochou Felipe Neto, sem perceber que acabava de enviar o colunista palmeirense para o vórtice de uma realidade paralela em que o orgulho do antigo ídolo virou vergonha e a implicância com o ídolo do filho virou concordância numa estrada de tijolos amarelos que transformou boçalidade em "governo".
Se você não aguenta mais concordar com Felipe Neto, preciso concordar com você:
os roteiristas que assumiram o comando de 2016 pra cá dessa vez foram longe demais.
Obama, Dilma e a dificuldade de aceitar que novos grupos cheguem ao poder
Colunista do UOL
19/11/2020 04h00
Em seu livro "Uma Terra Prometida", recém-publicado por aqui, Barack Obama relaciona a ascensão do populismo de direita nos EUA como uma resposta ao pânico criado pela chegada do primeiro presidente negro à Casa Branca.
Adversários do Partido Republicano, bilionários patrocinadores das causas conservadoras e até emissoras de TV fizeram do ressentimento um caldo que envenenaria a política no país em seu governo. Em resumo, as antigas forças hegemônicas se reorganizaram e deram o revide com Donald Trump e suas piscadelas aos grupos supremacistas. A reação veio justamente dos que confundem privilégios com direitos e direitos com privilégios.
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O relato do ex-presidente norte-americano só não serve como alerta porque um movimento muito parecido já aconteceu por aqui após a eleição da primeira mulher à Presidência, em 2010. Mas serve como lembrete do que grupos hegemônicos são capazes de fazer quando se sentem ameaçados pela ascensão de grupos historicamente marginalizados ou afastados dos centros das decisões.
No último domingo (15), o Brasil voltou às urnas sem ainda se recuperar da ressaca que levou Jair Bolsonaro e seu grupo de meninos brigões ao Palácio do Planalto. As primeiras análises dos resultados apontam crescimento de mulheres e pessoas negras eleitas para as Câmaras e prefeituras municipais.
Diversas localidades observaram também, aqui e ali, a eleição de grupos de diversidade e de pessoas trans, casos de Erika Hilton (PSOL) e Thammy Miranda (PL), que conseguiram vagas para a Câmara de São Paulo. "É uma organização em resposta ao fascismo que o Bolsonaro e o bolsonarismo trouxeram ao Brasil", disse Erika após o resultado.
O avanço, é claro, não permite concluir que o Brasil virou o paraíso da diversidade de um dia para o outro. O próprio desempenho dos candidatos e partidos mais conservadores do campo político mostra quem são os grupos ainda dominantes em termos políticos. Mas o incômodo com a simples presença de minorias será certamente sentido —como sentiu Barack Obama ao longo de seu governo. Como sentiu Dilma Rousseff por aqui.
A presença de minorias em postos de comando incomoda porque quebra uma estrutura sobre a qual estão acomodadas as estacas da nossa formação política, social e afetiva.
Esse embate não começa nem termina em ano eleitoral. Da infância, nos anos 1990, posso lembrar como nosso prédio de classe média, construído em antigas áreas de fazenda do centro expandido da cidade, no interior paulista, ficava em polvorosa quando o vizinho negro, que morava numa das casas remanescentes de terra batida do quarteirão, aparecia para jogar bola, e de como pessoas como ele tinham o caráter sob ataque ao contestar o destino esperado para ele, e para nós, meninos brancos. Um projeto sobre quem serviria e quem seria servido num eventual encontro na vida adulta. Tudo isso se replica nos embates políticos.
Estamos em 2020 e não estamos perto de eleger uma pessoa negra para presidente*. Mas sabemos como uma mulher eleita presidente foi retratada dia sim, dia não, como uma pessoa amargurada, sem condições intelectuais, emocionais e mentais para governar. O retrato tinha sempre uma liderança fora de si ou a ponto de explodir. A pessoa mal-amada, como nos ensinaram desde crianças a nomear as mulheres que batalhavam e não estavam dispostas a nos receber em casa com doces e sorrisos ao fim do experiente.
Antes de Dilma Rousseff, diziam coisas parecidas sobre Luiza Erundina, Marta Suplicy, Benedita da Silva e outras lideranças que tiveram a ousadia de se apresentar em público com um figurino distinto daquele guardado para as primeiras-damas. Não à toa, até hoje escutam questionamentos sobre suas vidas privadas para colocar em dúvida suas competências e intenções na vida pública. O show de horrores em um debate da semana passada em Porto Alegre, que teve Manuela D'Ávila como alvo de um ex-namorado e também candidato a prefeito, é só a versão mais atualizada desse ressentimento.
De 2010 para cá, muita coisa mudou. Cada passo para frente foi seguido por alguns passos para trás. Ou mais. O deputado que ria de uma mulher torturada e fazia loas ao seu torturador hoje é o presidente da República. Um presidente que dá chilique toda vez que é contrariado —e que, nem por isso, leva alguém a questionar a capacidade de um homem, no geral, governar.
Há quem questione por que as sinalizações cada vez mais claras de despreparo não causam apreensão e revolta para além das redes. Talvez porque os marmanjos que não aceitavam serem contrariados por uma mulher no comando estejam agora pacificados.
Quando falam em "retorno da ordem" aparentam estar confortáveis numa casa planejada sob as estruturas de uma velha hierarquia, aquela que determina quem serve e quem é servido, quem sai para a luta e quem recebe os guerreiros com sorrisos, doçuras e perguntas sobre como foi nosso dia.
Nas eleições municipais, muitos e muitas que não aceitaram esse modelo de subserviência se candidataram a cargos eletivos com projetos mais conectados com a contemporaneidade, sem os puxadinhos, edículas e quarto dos fundos da estrutura anterior. As vitórias, sofridas e batalhadas desses novos modelos, pedem um alerta constante: vamos deixar que a capacidade desses grupos políticos que já mostraram força seja colocada em dúvida toda vez que precisarem se posicionar?
Identificar o que são críticas à gestão e o que são ataques tomados pelo racismo, pela misoginia e (agora) pela transfobia de quem foi criado para mandar e não ser mandado é só começo da nova história.
*Diferentemente do que escrevi anteriormente, o Brasil já teve, sim, um presidente negro, mas eleito como vice. Foi Nilo Peçanha, que assumiu o cargo após a morte de Afonso Pena. Desde a nova república, porém, pessoas brancas tem dominado tanto a lista de candidatos como de eleitos no país
Matheus Pichonelli - Eduquem seus filhos. Eles podem ser o Rodrigo Constantino de amanhã
Colunista do UOL
09/11/2020 04h00
Rodrigo Constantino foi demitido dos veículos onde divulgava sua indigência após dizer que, se sua filha fosse estuprada ao assumir o risco de sair de casa e se embriagar, ela não só ficaria de castigo como seus agressores seriam preservados de qualquer denúncia.
O raciocínio deveria constar nas aulas de educação básica para meninos nas escolas. Poderia ser pregado nas paredes ao lado de outra pérola do mesmo autor: "Onde foram parar os machos?"
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Abaixo, o alerta: "Eduquem seus filhos. Eles podem ser o Rodrigo Constantino de amanhã".
Assim como diante da fala do advogado de defesa de um homem acusado de estuprar Mari Ferrer, ninguém que conhece o tipo, desses que olham para Donald Trump e veem um modelo de virilidade, pode se dizer surpreso com o argumento do polemista profissional. Eles brotam por aí como praga.
Por esse raciocínio, mais comum do que se imagina, se uma mulher decidiu sair e beber, ela é responsável por assumir o risco —inclusive da violência que possa sofrer.
Com o homem, ocorre o contrário. Beber significa ficar fora de si. E, fora de si, ele não pode se responsabilizar pelos atos —inclusive da violência que pode produzir.
É uma conta que não fecha.
Aos meninos que me leem, pergunto: alguém já te convidou a abrir uma conta no banco no auge de uma bebedeira? Ou a sacar alguma quantia considerável do caixa eletrônico depois da quinta dose? Já te entregou a chave do carro quando sua língua enrolou pensando que agora, sim, você estaria apto a dirigir?
Não vale responder "meu pai me ensinou a não beber".
Em resumo: qual grande decisão da sua vida foi tomada sob estado alterado de embriaguez?
Poucas, não?
Então por que, quando o assunto é sexo, o que em qualquer campo é impedimento se transforma em estímulo, quase uma carta branca para destroçar a ideia de consentimento?
No país que registra um estupro a cada oito minutos, ensinar e discutir sexo, nas escolas, em casa, nos livros de referência é ainda sinônimo de "estímulo à sexualidade precoce".
Sob esse manto, permite-se que educação sexual seja uma disciplina autodidática.
Neste campo, o que acontece entre quatro paredes quase nunca é trazido à luz. É lá que as desigualdades de condições se ampliam. E a violência vem a reboque.
Um homem que bebeu demais, quando não apaga e dorme largado, incapaz de se mover, pode sempre dizer que "não sabia o que fazia" para justificar qualquer coisa que faça.
Com a uma mulher que bebe, ou que tenha sido criminosamente induzida a beber, ocorre o contrário. Se estava no local (digamos, uma balada), se sabia do risco, se estava a fim até resolver mudar de ideia, então a culpa é explícita.
"Estivesse em casa nada aconteceria", eles dizem, como se fosse possível ignorar os casos de violência contra crianças praticadas dentro dos quartos, com a roupa que for, por seus familiares.
Quando se sabota a educação sexual já na base, sabota-se um capítulo fundamental da formação humana. A que fala sobre consentimento. Está no índice das responsabilidades, das quais o homem foge como moleque ao ser confrontado com os fatos. "Eu bebi demais, não sabia o que fazia."
Nos tempos em que toda nudez ainda é castigada, beber, para uma mulher, serve como um atestado consciente e a priori dos riscos.
Isso acontece porque ainda evitamos falar sobre o assunto como adultos, inclusive às portas da vida adulta. Permitimos assim que sexo seja ainda assunto proibido nas rodas das melhores famílias ou tratado sem a devida importância nos círculos mais, digamos, liberais. "Mas é só sexo". Não é. Nunca é.
Num caso como o outro, pela acusação do pecado ou da caretice, falar sobre sexo e tudo o que envolve o ato sexual é digno apenas de censura. Passamos, assim, parte da vida com noções precárias, ou mesmo tortas, sobre prevenção, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, desejos, corpos e responsabilidade afetiva. Tudo devidamente lacrado, tampado e encarcerado sob o selo: "Educo meus filhos a não saírem de casa".
Aqui, nós, homens, somos dispensados da conversa desde muito cedo. Do moleque que embebeda a namorada para manejar estados de consciência ao sexo sem camisinha sem que ela perceba, viramos pais lamentáveis que também justificam a violência pelo pêndulo da proibição ou do castigo.
A não ser, claro, quando o filho é homem. Quando ele entra na vida adulta, ele não pode falar das dúvidas e inseguranças, tratadas à base da masculinidade alimentada por pornografia barata que o coloca sempre no centro da cena, da disposição anatômica e das decisões —a não ser quando é acusado de ter cometido um crime sem o consentimento da vítima.
Aí todas as variações entram em campo para justificar o direito inalienável de ser moleque diante da vítima sem direito a defesa, ou com o direito de defesa cerceado pelo constrangimento.
O julgamento de Mariana Ferrer é emblemático porque agrega um pouco de cada um desses elementos. Ela, por se vestir, postar fotos no Instagram ou estar num lugar em que supostamente não deveria estar, não tem estatura moral para acusar ninguém. Em vez disso, deveria se envergonhar. Não é uma filha digna nem digna para se relacionar com os filhos do doutor pai de família.
Ele, o acusado, não sabia de nada. Nem da noção básica de consentimento. Porque é só um garoto, mesmo que esteja há tempos na vida adulta, e garotos não precisam responder se têm vergonha de ter feito o que fizeram, por se vestirem como se vestem, por postarem o que postam, por estarem onde estavam ou por supostamente não entenderem que a vítima estava em estado alterado após ser dopada de modo criminoso.
De quebra, vão ter sempre a solidariedade de gente como Constantino, que aproveita a exposição e o selo de "formador de opinião" para reclamar que hoje em dia não se pode mais separar mulheres decentes de "piranhas". Nem dizer que as feministas, as primeiras a gritarem contra a relação desigual escancarada em casos assim, são "tudo recalcada, ressentida e normalmente mocreia, vadia, odeia homem, odeia união estável, casamento... odeia tudo isso".
Tem sido assim desde Adão e Eva.
Eu entendo Verônica, dona do Airbnb que Felipe alugou pra fazer uma suruba

Ana Canosa
Colunista de Universa
16/04/2021 04h00
Verônica, eu não te conheço, mas te amo. Ontem ouvi várias e várias vezes seu áudio para o Felipe, hóspede que alugou a sua casa pelo Airbnb e que, segundo o que pude perceber, no seu ponto de vista, ele devia ter avisado que tinha a intenção de fazer sexo - ele e seus 15 amigos e mais sabe-se quantas mulheres.
Concordo que é de amargar: que jovem abusado esse, que esfrega na nossa cara (e nas imagens das câmeras da sua casa), uma suruba, em plena pandemia - e nem avisa! Nem convida! Para piorar, quando confrontado, alegou que já fez sexo - sem pedir autorização para o proprietário - em banheiros químicos, na obra alheia e sabe-se lá quais outros logradouros, públicos ou privados. Se já atuou em palcos tão menos nobres, porque não se exibiria em tão nobre morada, pela qual inclusive estava pagando?
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Meu Deus, há quanto tempo Verônica, a gente não tem disposição para fazer sexo nem na cama mesmo, e esse menino esbanjando disposição, sem tempo ou lugar ruim! Quando eu penso no Felipe fazendo sexo no banheiro químico, durante sei lá o carnaval de Salvador, ou em um bloco de carnaval na Vila Madalena, o cheiro já me enjoa e o meu ciático grita. Covid não havia, mas e cólera!
A que ponto chegam os jovens destemidos, com essa bendita mania de transgredir as normas de boa educação e convívio cívico, para não falar nas sanitárias! Instinto puro, animais, desalmados. E ainda por cima maculando nossos lençóis, banheiras, mesinhas de cabeceira, pia da cozinha, piscina, jaboticabeira e deus sabe onde mais..
Verônica, eu te amo porque entendo que você mora nesse país lindo, mas com um povo maltratado, sedento para se deitar nos lençóis e ter um pingo de paz no coração.
Você não aguenta mais ser desapropriada - mesmo recebendo aluguel - desrespeitada diante da sacanagem e do regozijo alheio. Enquanto você vai ao supermercado, de máscara, óculos, face shield, passando álcool gel até escamar as mãos - pior, só as mãos - morrendo de medo de pegar covid, inconformada com a privação da sua liberdade, o Felipe tá fazendo sexo no jardim, no quarto dos seus filhos ou à beira da piscina, para comemorar o aniversário dele. Nem aí para Covid, sífilis, gonorreia ou candidíase. Tenha a santa paciência.
Mas olha Verônica, eu não sei você, mas a maioria das pessoas, sejam casadas solteiras ou tico-tico no Fubá, como diria Silvio Santos, precisam fazer sexo fora de casa, porque a casa da gente é tipo um manto sagrado do conforto, do aconchego e da proteção, e por isso mesmo o sexo tende, com o tempo a ficar morno.
Excitação mesmo, diante desse contexto de amor combinado com boleto para pagar e compras do mês, é fazer sexo na escada de incêndio do prédio, ou dentro do carro na garagem - do vizinho e com a vizinha, de preferência. Eu sei Verônica, que isso pode parecer libertinagem, mas é um impulso humano.
As pesquisas sobre fantasias sexuais apontam que fazer sexo em espaços públicos está entre as top 5 no ranking das 10 mais. Nesse sentido, se o Felipe alugou um espaço privado, que pela natureza do negócio se torna também público, ele estava no melhor dos cenários, fazendo sexo em um lugar público/privado. Inteligente ele é, convenhamos. Ademais Verônica, os solteiros estão tão desolados nessa pandemia, muitos há mais de ano sem beijar a boca de ninguém, que fazer sexo no dia de aniversário é um presente, digamos, bem razoável, quase um tributo à saúde mental, não é mesmo?
Tá, eu sei que o Felipe não é nada seu, além de inquilino, e que você ainda liberou um quarto para ele dormir e não voltar embriagado para casa, mas querida, ele é jovem e ainda olha para a cama como um motivo lúdico para ficar acordado, diferente de todos e todas nós, que desolados deitamos nas nossas camas, torcendo para não sermos acometidos pela insônia, alguns com medo da morte, outros com a dor e a saudade dos que se foram, sem contar os desesperados pela dura realidade de não ter o que comer - e aí ser obrigado a assaltar a geladeira, se é que você me entende.
Eu poderia listar dezenas de tristes motivos para a gente olhar para a cama e pedir a Deus para conseguir dormir e esquecer um tantinho do sentimento de desamparo e orfandade que vivemos nesse tempo sombrio. Sexo? Quem tem energia, humor, motivação e disposição, para fazer da cama o mobiliário, testemunha do gozo? O Felipe. O desgraçado que nos motivou uma inveja nacional.
Mas Verônica querida, embora você saiba que esse texto contém uma certa ironia, de verdade não me leve a mal e eu quero lhe dizer uma coisa. Você me arrancou gargalhadas sinceras, das minhas entranhas. Você foi a musa do meu prazer na quarta-feira, rainha absoluta da minha semana. Eu ouvi a sua voz espontânea, inconformada, enraivecida, várias e várias vezes e eu empatizei foi com essa sua capacidade de lutar pelo direito de decidir quem vai ou não fazer sexo na sua casa. Afinal, diante da cena de privação, essa liberdade ainda é sua, não é mesmo?
Embora eu pense que seja estranho limitar o sexo na casa alugada, principalmente se ele aconteceu nos locais que constavam no contrato e sem uma cláusula explicita admitindo a prática ("pacta sunt treparum" no direito romano), e eu mesma alugue casas na plataforma, torcendo para que o sexo aconteça diante dos "novos ares", respeito sua posição.
Peço ao menos que você considere que o Felipe, para além de um jovem abusado, é alguém que está fazendo sexo e, para a salvação da natureza humana, nesse momento, deve ser perdoado!











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