Negacionismo Esquerdista
"Negacionismo" de esquerda: militares e genocídio - Jones Manoel
Por Jones Manoel

Por Jones Manoel, originalmente publicado no Blog da Boitempo
Enquanto escrevo estas linhas, o Brasil já ultrapassou, em números oficiais, mais de 300 mil mortes. Em números reais, podemos já estar perto de 500 mil mortes. Não é coincidência que o governo liberal-fascista de Bolsonaro tenha cortado em 90% o orçamento do IBGE, inviabilizando na prática o próximo censo nacional. Nada melhor para esconder um genocídio do que ocultar os dados e desmontar o principal órgão de pesquisa demográfica do país.
A matança não terminou no Brasil e já se articula um grande pacto pelo “esquecimento nacional”. O Brasil, como diria Carlos Nelson Coutinho, é o país por excelência das transições pactuadas pelo alto. Ao proclamar o fim da escravidão, a elite dirigente decretou que não existia mais um problema racial no Brasil e que não tínhamos que remoer a história do escravismo, mas andar para frente – para materializar o esquecimento, uma moquantidade infindável de documentos referentes à escravidão foi queimada.
O fim da ditadura do Estado Novo também expressou um grande pacto de conciliação e esquecimento nacional. Filinto Müller e companhia limitada nunca foram punidos pelas atrocidades cometidas contra comunistas, anarquistas, sindicalistas e outros tantos que, por um motivo ou outro, entraram em contradição com o varguismo.
Sobre a ditadura empresarial-militar de 1964 não preciso escrever. É fato conhecido que a “anistia ampla, geral e irrestrita” deixou intocados os torturadores, assassinos e criminosos da ditadura, assim como seus patrocinadores e patrões: nenhuma entidade patronal, burguês, monopólio de mídia, clero da alta burocracia da Igreja Católica ou conspirador dos Estados Unidos fantasiado de diplomata foi punido ou responsabilizado politicamente. Os militares não só saíram da ditadura pela porta da frente, como o Estado montado durante 1964-1985, ao menos nos seus órgãos de repressão, vigilância e controle, foi, no essencial, mantido. No lugar da caça aos comunistas, entrou a guerra ao crime, aos traficantes, às drogas etc. A máquina de moer gente e a guerra ao inimigo interno prosseguem.
Os militares não só seguiram tranquilos, dormindo o sono dos canalhas que não terão o mesmo destino de Mussolini, como passaram a confraternizar com amplos setores das esquerdas brasileiras. Não faltaram “filhotes da ditadura” passeando de mãos dadas com seus antigos inimigos – os que eles não conseguiram matar no passado, é claro. Delfim Netto, tzar econômico dos milicos, até hoje um orgulhoso de ter sua assinatura no AI-5, passou a circular serelepe nos espaços de esquerda como se nada tivesse acontecido. Paulo Maluf e semelhantes, como José Sarney e Antonio Carlos Magalhães, viraram “companheiros” e assim seguiu o grande pacto de esquecimento.
Agora, seguindo a tradição brasileira, vemos a costura de um novo pacto. De olho em 2022, babando para se aliar com quem até outro dia desses era chamado de “golpista”, vários nomes e setores da esquerda brasileira preparam terreno para o grande pacto de esquecimento do século XXI. A operação é simples no seu cinismo: transformar Bolsonaro numa entidade mítica, etérea, pairando sobre o ar. O fascista na presidência é o único, junto com sua família, responsável pelo genocídio em curso. Todo processo que levou à formação do governo liberal-fascista deve ser esquecido. Todos os atores políticos que se lambuzaram no governo – e não falo de leite condensado – devem ser acolhidos, e não pense em falar da responsabilidade da burguesia e da Embaixada de Washington na tragédia que abate nosso país.
A blindagem dos atores políticos responsáveis pelo genocídio guarda um lugar especial para o Partido Fardado: os militares, com mais se 7 mil cargos no governo, formando o governo mais militarizado da história brasileira, devem ser poupados de toda e qualquer responsabilidade pela matança em marcha. Como fazê-lo? É simples, operar abertamente um discurso “negacionista”. Nenhuma prova, mas muitas convicções – é a fórmula nacional do sucesso.
Vejamos alguns exemplos. Tarso Genro, ex-prefeito, governador, ministro e destacado quadro do PT, publicou em janeiro desse ano um artigo no Sul21 chamado “O culpado da mortandade não é o Exército. É Bolsonaro e seus políticos liberais e fascistas”. A lógica de argumento de Genro é curiosa. Deixando de lado as reflexões sobre cultura nacional, Trump, história dos EUA e afins, ele começa a debater a questão militar dizendo “penso que os militares do país – na sua ampla maioria – não querem que o país seja – no futuro – o que é o Rio de Janeiro hoje. Este é o meu ponto de partida”. Tarso se refere aos grupos milicianos do Rio de Janeiro. Que os militares, ciosos da hierarquia, não queiram uma estrutura miliciana nas Forças Armadas é um truísmo. Agora, que eles tenham alguma oposição ao projeto político expresso no Rio de Janeiro, lógica implícita no raciocínio de Tarso, não é demonstrado. Tarso apenas “pensa”.
Em seguida, comenta do golpe de 2016. Afirma que “pode ter tido a simpatia de uma parte das forças militares do país”, mas “não foi promovido por nenhuma delas”. Qual é o argumento para sustentar essa afirmação? Não temos. O argumento é uma projeção tático-estratégica que substitui a análise “mas não é correto colocar todas as instituições no mesmo saco”. Note o elemento retórico: o debate não é equalizar o papel de todas as instituições no impedimento, mas debater o papel dos militares. Seguimos.
Para Tarso Genro, responsabilizar em alguma medida os militares pelo genocídio em curso seria igual a obscurecer o conjunto de forças e atores políticos que deu vida ao bolsonarismo e não responder a essa pergunta central: “conseguiu sobreviver como governante de uma nação, sem qualquer respeito à moralidade republicana e se fez o projeto das suas classes dominantes, emprestando a sua face ao corpo político neoliberal do país?”. Tarso não se pergunta se a presença de mais de 7 mil militares no Governo, contando até pouco tempo com um general da ativa no ministério da Saúde (General Pazuello), tem relação com essa sobrevivência.
Tarso também não pergunta se cumpriram algum papel, na relação Governo-Congresso-STF, as ameaças abertas de militares, como as do General Heleno e do ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva (que alguns querem esquecer, mas que sobrevoou com helicóptero da FAB a praça dos três poderes durante atos da extrema-direita pedindo fechamento do Congresso e STF). O fato do novo ministro da Defesa, General Braga Netto, ter sido ministro da Casa Civil – portanto, articulador político do governo – também não faz Genro questionar a relação dos militares com a “sobrevivência” de Bolsonaro (Braga Netto que, no Governo Temer, foi interventor no Rio de Janeiro durante o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes).
O ex-governador chega ao ponto de dizer que “com isso quero dizer que é errado, do ponto de vista político, e injusto, do ponto de vista histórico, identificar o Exército Brasileiro com a chacina sanitária”. Quais os argumentos para afirmar isso? Não há argumentos, mas considerações tático-estratégicas para o futuro. Não se trata de analisar as coisas como elas são, mas falar o que supostamente é necessário para ações futuras. O argumento todo de Tarso é esse:
“É errado, porque ajuda a extrema direita militar a se reorganizar na ativa e é errado porque Bolsonaro não representa nem de longe a moralidade média das FFAA – nem sua vocação política que é positivista conservadora, mas não fascista –; e é errado, porque reduz a responsabilidade objetiva e subjetiva dos militares da reserva, dos políticos do entorno de Bolsonaro, das religiões do dinheiro que lhe dão sustentação e do consórcio midiático-empresarial que o elegeu presidente e ainda lhe mantém no poder.”
Destaco duas coisas. Genro pega o lugar batido do caráter positivista das Forças Armadas brasileiras, dado real, e disso nega automaticamente, sem argumentar, qualquer processo de fascistização em curso. Em segundo lugar, novamente, diz que olhar para o Partido Fardado seria igual a desresponsabilizar os monopólios de mídia, o fundamentalismo religioso etc. Mas onde está a demonstração disso? Também não temos.
Por fim, Tarso conclui seu artigo com esse argumento. Peço uma leitura atenta:
“É errado, finalmente, porque é impossível construir República e Democracia no Brasil, sem que a maioria das Forças Armadas seja conquistada para um projeto de nação, cuja soberania estará depositada – em grande parte – nas mãos destas instituições, por dentro do Estado Democrático de Direito, tenha ele características de um Estado Social, seja ele um Estado de Direito meramente liberal-democrático. Estas considerações estão em polo totalmente oposto aos ‘puxões de orelhas’, que alguns militares da ativa e da reserva querem dar em jornalistas que denunciam os seus desmandos e a total falta de integridade deste governo, atacando diretamente a liberdade de crítica e de opinião.”
O “x” da questão é revelado. Tarso considera que o único meio de “construir” a “República e Democracia” (não estão construídas? Foram destruídas quando? Os mais de 7 mil militares no governo têm responsabilidade nessa destruição?) é conquistar a “maioria das Forças Armadas”. Esse imperativo tático e estratégico impele a negar a realidade e retirar deles qualquer responsabilidade. A compreensão do hoje é subordinada a um futuro possível.
O ex-governador da Bahia e senador Jacques Wagner, em artigo recente na revista Carta Capital, apresenta uma leitura parecida com seu colega de partido. No artigo de Wagner, intitulado “A orientação maior dos militares, creio eu, segue os princípios constitucionais” , ele diz “a recente demissão do ministro da Defesa, seguida de inédita troca dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, por não compactuarem com a sanha golpista do Planalto, diz muita coisa. Reforça o caráter de Estado que caracteriza essa instituição”.
Existe uma argumentação para mostrar que a troca de comandantes das Forças Armadas foi apenas ou principalmente por não compactuarem com a “sanha golpista” do presidente? Não. Wagner, seguindo um padrão de amplos setores das esquerdas, apenas repete a narrativa divulgada pelos monopólios de mídia. No dia da “maior crise militar da história”, fontes anônimas, segundo os monopólios de mídia, sopraram nos seus ouvidos que os militares são democratas, legalistas, constitucionalistas, moderados e que Bolsonaro é a única besta-fera do governo.
O ex-governador ainda tranquiliza os que estão apreensivos e garante que prevalece a orientação constitucional entre os militares: “é natural que o clima permanente de instabilidade do atual governo provoque muitas dúvidas sobre o engajamento dos militares. Por isso, tenho repetido, e os episódios recentes fortalecem, minha crença de que a orientação maior é com os princípios constitucionais”. O também ex-governador, ministro e presidenciável pelo PDT, Ciro Gomes, seguiu a mesma linha do petista na leitura da demissão de Azevedo e Silva.
A fala de Ciro cobre os militares de elogios e chama sua participação recorde na história no governo de “equívoco” (equívoco por que? O que levou ao erro?),
“E para o povo brasileiro: nós devemos receber essa mensagem com prudência e, acima de tudo, com muito respeito. É um primeiro grande sinal de que as Forças Armadas estão se desencantando com as loucuras que Bolsonaro tem praticado no Brasil. Também é sinal que eles querem retornar o melhor respeito que sempre deveriam ter merecido se não fora a aventura, o equívoco, de terem hoje quase 4 mil militares da ativa dentro do governo.”
Com um tom muito mais comedido e ponderado, Guilherme Boulos, no seu programa no YouTube (Café com Boulos), lançou um vídeo chamado “Vai ter golpe?”, em que analisa os intentos golpistas de Bolsonaro. Segundo Boulos, os militares, como Edson Pujol, deixaram Bolsonaro irritado com a defesa da Constituição, não pegando carona em intentos golpistas. Para Boulos, “aparentemente”, os militares não vão embarcar por agora nas ações de fechamento de regime desejadas pelo fascista na presidência. Como eu disse, mesmo com um tom mais ponderado e cuidadoso, Boulos segue a tendência de Ciro Gomes e Jacques Wagner de ver na demissão de Azevedo e Silva uma resistência ou negação ao golpismo de Bolsonaro em prol da legalidade.
Por fim, Aldo Rebelo, ex-deputado, ministro e por décadas um dos principais quadros do PCdoB e hoje no Solidariedade, deu uma entrevista para o canal no YouTube da revista Carta Capital. O título do vídeo é ilustrativo: “Exército resiste ao ‘regime’ Bolsonaro. Por que?.” Na entrevista, Aldo cobre os militares de elogios: democráticos, legalistas, profissionais, dedicados e afins. O nível de elogios é tão grande que, em vários momentos, Aldo mobiliza a imagem do militar na selvagem amazônica, “cuidando dos índios”, atendendo ribeirinhos, ganhando um salário baixíssimo.
O quadro de exemplos está completo. A partir disso, podemos fazer dois apontamentos fundamentais. Pedro Marin, editor da Revista Opera e um dos autores do livro Carta no Coturno, vem chamando atenção para o novo protagonismo político dos militares e ações que precedem a ascensão de Bolsonaro à presidência. A tese que Pedro Marin sustenta, e que concordamos e seguimos, é que os militares se utilizaram de Bolsonaro no seu projeto de poder, e o líder neofascista fez o mesmo, numa comunhão de interesses. Mas, o Partido Fardado é cuidadoso com sua autonomia política e com o andamento do projeto próprio.
Quando Bolsonaro diz que pode usar o “seu exército” – e vamos supor que a narrativa dos monopólios de mídia esteja correta, e a crise militar tenha ocorrido devido a uma tentativa de decretar estado de sítio ou até mesmo um fechamento total do regime –, por qual motivo os militares diriam amém para o presidente? Uma resposta positiva iria ferir a autonomia política do projeto próprio dos militares, colocando-os na prática e publicamente como “o Exército de Bolsonaro” e em uma posição complicada: o meio fechamento de regime, com as reações, tende a caminhar para um fechamento progressivo maior – mas hoje essa remodelação do sistema político não encontra apoio na burguesia e na Embaixada de Washington – ou para um recuo e a volta da “normalidade”.
No segundo caso, um ato com tendência a desmoralizar politicamente o Partido Fardado; no primeiro, uma aventura sem sólido apoio na classe dominante e no cenário internacional, comprometendo as opções de jogo político do Partido Fardado. Aliado a isso, se é verdade o discurso dos monopólios de mídia de que Bolsonaro queria operar um golpe de estado ou um semi fechamento de regime, a permanência dos milhares de militares no governo poderia ser observada como cumplicidade e ausência de antagonismo irreconciliável com um projeto golpista, mas é mostrada como compromisso democrático, legalista, constitucional. Então o mesmo militar que no jogo do dia a dia ameaçava o Congresso e o STF, torna-se um democrata ao cobrir com um manto de discurso legalista o ato político de preservar sua autonomia.
É como se dois filhos roubassem dinheiro da carteira do pai, sempre em pequenas quantidades para ele não perceber e o roubo ser permanente. Um belo dia, um dos irmãos decide roubar o cofre do pai e o outro irmão recusa participar da empreitada, dada a situação atual de roubos pequenos, mas constantes, ser confortável. Com essa recusa, só o irmão mais ambicioso é apresentado como ladrão, enquanto o segundo é visto como o baluarte da honestidade.
Cabe também dizer como a quartelização da política – termo emprestado de Pedro Marin – foi naturalizada, e a massiva participação dos militares no governo é tratada como erro, engano, equívoco e nunca como projeto. Não é preciso ser um grande especialista em questões militares para saber que os militares, da ativa ou reserva, mantêm unidade de ação e comando a partir da farda, que sua participação no governo não é o mesmo que a participação de civis. Por que tantos militares entraram e por que, mesmo com a tragédia da pandemia, permanecem? É incrível como essas perguntas não são feitas.
Para concluir esse texto, terei que recorrer a uma longa citação. Pedro Marin, em artigo de 26 de fevereiro de 2021, chamado “A ‘descoberta’ do Partido Fardado e as perguntas que não querem calar”, apresenta as perguntas fundamentais, mas evitadas por aqueles que querem negar a centralidade dos coturnos e fuzis na política brasileira. Evitar fazer as perguntas corretas, ocultando a existência do Partido Fardado, pode ser o primeiro grande sinal do próximo pacto de esquecimento nacional. Pessoalmente, não acho que Guilherme Boulos participaria desse pacto e tenho dúvidas quanto a Ciro Gomes, mas desde já afirmo que todo discurso dos militares como democratas, constitucionalistas ou sem responsabilidade central no genocídio que vivemos contribui para a próxima “anistia ampla, geral e irrestrita”.
Seguem as perguntas formuladas por Pedro Marin:
Primeiro. Em agosto de 2019 o ministro Dias Toffoli, então presidente do STF, declarou em entrevista à Veja que, durante uma “crise institucional” ocorrida em abril daquele ano, “um dos generais próximos do presidente” consultou um ministro do Supremo Tribunal, “para saber se estaria correta a sua interpretação da Constituição segundo a qual o Exército, em caso de necessidade, poderia lançar mão das tropas para garantir ‘a lei e a ordem’”. Isto é, consultou um ministro do STF sobre a constitucionalidade de um golpe. Não cala a pergunta: quem foi o “general próximo do presidente”, e com qual ministro ele falou? O senhor Toffoli certamente pode responder.
Segundo. Há algumas semanas, dias antes das eleições para a presidência da Câmara e Senado, um assessor do vice-presidente-general, Hamilton Mourão, teria trocado mensagens com deputados no sentido de articular uma possível sucessão de Mourão à presidência. O assessor declarou que fora hackeado; a vice-presidência declarou que o vazamento era inverídico e, ao fim, o vice-presidente-general disse que o assessor agira sem seu consentimento, demitindo-o. Afinal, o assessor foi hackeado? Se sim, por quem? O vazamento era falso? O assessor do vice-presidente de fato agiu por suas costas? De certo o assessor Ricardo Roesch pode nos esclarecer.
Terceiro. Em 30 de abril, o decreto que instituiu a Operação Verde Brasil na Amazônia se extinguirá. Os militares deixarão a região, restringindo sua presença a 11 municípios. A pergunta: o que os militares fizeram na Amazônia nestes últimos anos, a tão elevados custos? Se houve aumento nos índices criminais na região, nas queimadas, nas invasões, na mineração ilegal, eles não devem ser responsabilizados? Não são os generais – dentre eles, Mourão, presidente do Conselho da Amazônia – tão responsáveis quanto o inepto ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, contra o qual todas as bocas falaram em meio ao silêncio sobre os fardados?
Quarto. Os militares continuamente apontam possíveis cenários caóticos no horizonte. Como os militares se comportariam em um cenário de ampla revolta popular? O que fariam se algo similar a junho de 2013 ocorresse hoje? Se tivéssemos manifestações massivas, como no Chile, ou se grupos civis efetuassem bloqueios e atos de rua pedindo a cabeça de algum governador, como ocorreu na Bolívia com o presidente Evo Morales?
Quinto. O filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, certa feita, disse que para fechar o STF bastavam “um cabo e um soldado”. O atual vice-presidente-general, Hamilton Mourão, falou no passado, respondendo a uma pergunta sobre um golpe, em “aproximações sucessivas” caso o “problema político” não fosse resolvido. Em entrevista à DW, perguntado sobre declarações protogolpistas de Bolsonaro, disse que não se trata de “conversa perigosa”; “é perigoso quando você tem poder de fazer o que quer, mas ninguém tem poder de fazer o que quer aqui no Brasil.” Pergunta: os militares, que fundaram a República às espadadas, participaram do Golpe de Três de Novembro, fizeram a Revolução de 30 e participaram do governo Getúlio, fizeram o Estado Novo para depois golpear o presidente, e por fim estabeleceram a larga noite, em um abril de 1964, não podem fazer o que quiserem? Se sim, o que querem?
Sexto. O presidente Jair Bolsonaro agradeceu ao general Villas Bôas, um dia depois de sua posse, dizendo que o general era o responsável por ele conquistar o cargo e que o que conversaram “morreria com ele”. Já que o presidente fez esse irreversível pacto de morte, por que Villas Bôas não detalha ao público ao que ele se referia?
Sétimo. Se o Brasil vivesse algo similar à invasão ao Capitólio norte-americano pelos apoiadores de Trump, os militares defenderiam o prédio ou o atacariam? Comprometeriam-se com a legalidade ou com os invasores? E se vencesse em 2022 um candidato que não os agradasse, comprometido com uma reforma para levar os coturnos de volta à caserna, mexendo no artigo 142 da Constituição, como reagiriam?
Oitavo. Em uma entrevista de junho de 2020, em meio a mais uma “crise institucional”, o ministro-chefe-general da Secretaria do Governo, Luiz Eduardo Ramos, deu a seguinte declaração: “Fui instrutor da academia por vários anos e vi várias turmas se formarem lá, que me conhecem e eu os conheço até hoje. Esses ex-cadetes atualmente estão comandando unidades do Exército. Ou seja, eles têm tropas nas mãos. Para eles, é ultrajante e ofensivo dizer que as Forças Armadas, em particular o Exército, vão dar golpe, que as Forças Armadas vão quebrar o regime democrático. O próprio presidente nunca pregou o golpe. Agora o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda.” Pergunta: esses ex-cadetes, hoje com tropas nas mãos – fato que o general aponta tão proficuamente -, também não consideram “ultrajante e ofensivo” dizer que a ditadura militar foi… uma ditadura militar? O que é “esticar a corda”? E, se esticar, arrebenta?
Nono. Recentemente um minotauro descerebrado com cargo parlamentar foi preso, após proferir, de seu labirinto, alguns impropérios contra integrantes do STF, em defesa do general Villas Bôas. O general, por sua vez, confessou o que era óbvio – que a mensagem que disparara pelo Twitter às vésperas do julgamento sobre o habeas corpus do ex-presidente Lula era um “alerta”. Pergunta: é constitucional que o comandante do Exército “alerte” o Supremo Tribunal? Não cabe, no mínimo, que ele seja convocado a prestar esclarecimentos? Se o ministro Edson Fachin considera o episódio “intolerável e inaceitável”, por que o STF o tolera e o aceita?
Décimo. Por fim, prevendo que para tais perguntas não haverá respostas, proponho uma à qual não se deve nunca responder, mas à qual é necessário sempre remeter o pensamento: se os militares se comportarem hoje como se comportaram ao longo de toda a República, o que farão as organizações de esquerda? O que fará o Congresso? O que fará o Supremo? Estamos prontos para reagir, ou repetiremos o deprimente espetáculo do 1º de abril de 1964? Acima de tudo: o que podemos fazer hoje para, adiantando-se ao tempo, estarmos preparados para a tempestade?
J. Silvestre 2: vídeo mostra Bial dizendo que NÃO ocorreu golpe em 64 e a INVERTIDA que TOMOU de Jô Soares

247 - Internautas resgataram nas redes sociais um vídeo do jornalista Pedro Bial participando do extinto programa do Jô. Ele que é biografia do falecido dono da Rede Globo, Roberto Marinho, que lucrou escondendo as ações da ditadura, tentou minimizar o golpe de 64, defendendo que foi um contragolpe contra uma ameaça comunista que, segundo historiadores, foi apenas um falso pretexto para a implementação da ditatura no país.
Após a argumentação, Jô Soares rebateu Bial: “Não, Bial, foi golpe sim o que ocorreu em 1964”.
Saiba mais
O biógrafo oficial do empresário Roberto Marinho, Pedro Bial, destilou seu preconceito contra o ex-presidente Lula e disse que só o entrevistaria com um detector de mentiras, em entrevista ao Manhattan Connection. Além de autor com um livro que esconde a verdade sobre o patrão, Bial se notabilizou como apresentador do BBB, um programa de baixa qualidade cultural no País.
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Jornalista Basília Rodrigues é vítima de racismo na CNN Brasil

Alma Preta - “Se ela fosse loira e de olho azul, você não estava enchendo o saco dela”, disse uma funcionária da CNN para outra colaboradora responsável pela edição das entradas ao vivo. Segundo relatos, a jornalista Basília Rodrigues foi alvo de uma perseguição com motivação racista, o que gerou incômodo entre profissionais da emissora.
Basília é comentarista política da CNN desde março de 2020 e faz entradas ao vivo com informações dos bastidores de Brasília. Acostumada a fazer aparições em locais símbolos da capital federal, a jornalista passou a participar dos programas remotamente de sua casa, por conta do agravamento da pandemia da Covid-19.
Desde então, funcionários ouvidos pela Alma Preta relataram uma espécie de perseguição à jornalista. A edição do jornal Novo Dia chegou a reclamar da comentarista estar “descabelada”. De acordo com as fontes ouvidas, Basília mudou o cabelo de um lado para o outro, o que deixou uma parte mais volumosa. Os funcionários dizem ser comum orientar as pessoas, quando estão ao vivo, a arrumar o cabelo.
“Eu já cansei de ver esse tipo de orientação quando a pessoa está na bancada. Era a mesma coisa que deveriam ter feito: ‘Basília, quando você mexeu o seu cabelo de um lado para o outro, ele ficou fora do lugar. Só mexer ele de novo’. É um briefing e um cuidado para se ter com qualquer tipo de apresentador, e não tiveram com ela”, conta.
Nesse momento, um dos trabalhadores questionou: “Se ela fosse loira e de olho azul, você não estava enchendo o saco dela”. A pessoa responsável pelas reclamações, conhecida pela função de “fechadora”, é apontada como Tatiana Mocelin. Ela disse que apenas estava repassando as insatisfações da chefia de edição da TV. O jornal Novo Dia tem como editor-chefe Igor Peixoto, que está no cargo há 1 ano e 6 meses.
Em recentes participações ao vivo de Basília Rodrigues, os editores de imagem também optaram por ocultar a comentarista, deixar apenas a voz dela e se utilizar de imagens de apoio para ilustrar as entradas ao vivo.
“Quando a pessoa começa a falar, você a deixa em tela cheia e tira os demais participantes. O normal é colocar um pouco de imagens ilustrativas do fato na tela, reduzir um pouco o quadro e fazer uma alternância, com ora mais destaque para as imagens de ilustração, ora do jornalista. Quando ia encher a tela com a Basília, pedia para não encher a tela e deixar só as imagens de ilustração. Esse foi outro fato que chamou atenção”, detalha a fonte ouvida pela reportagem.
Incomodados, alguns funcionários comentaram “só não enxerga quem não quer”, em referência ao tratamento negativo e diferenciado dado à comentarista.
Segundo a apuração, houve também reclamações acerca das participações de Basília por conta do fundo do vídeo da sua casa, uma parede toda branca. No dia seguinte, a comentarista estava à frente de uma prateleira, o que também gerou reclamações. “Um dia reclamaram da parede branca, depois reclamaram que ela estava à frente de uma prateleira. A gente vê pessoas em um caos, com a parede repleta de coisas, e entra sem qualquer tipo de problema”, salienta um funcionário.
Em outra entrada ao vivo da comentarista, a reclamação foi de que ela “estava olhando para cima no vídeo”. Segundo os profissionais ouvidos, diversas reclamações direcionadas ao trabalho da jornalista seriam resolvidas com um pedido de ajuste ou chamada. “Nesta situação faltou um briefing”, diz um dos entrevistados.
A Alma Preta entrou em contato com a CNN para repercutir as informações coletadas. Por e-mail, a assessoria de comunicação respondeu que não tolera nenhuma discriminação e que o departamento de recursos humanos apura com rigor os casos denunciados.
“Não há qualquer fundamento em relação a não mostrar a imagem da jornalista. Quem acompanha a nossa programação é testemunha de sua presença constante”, diz o e-mail da emissora. Durante o ocorrido, o editor-chefe do jornal Novo Dia, Igor Peixoto, estava de férias. Ele e Tatiana Mocelin também foram procurados pela reportagem, mas não se pronunciaram sobre o caso.
Racismo estrutural no jornalismo
A jornalista, professora e doutoranda Tatiana Oliveira recorda que Basília Rodrigues é uma jornalista renomada, que adentra espaços políticos e confronta representantes do poder executivo, legislativo e judiciário. Apesar disso, a pesquisadora acredita que a comentarista está passando por violência racial, principalmente por conta da curvatura de seu cabelo.
“O cabelo padrão é sempre liso, haja visto inclusive que as mulheres, brancas ou não, geralmente recorrem a esse recurso estético. E inúmeros relatos de mulheres negras denunciam o quanto elas são agredidas desde a infância por conta do cabelo”, pondera.
Para a professora, os comentários feitos sobre Basília - relatados por colegas de profissão - são exemplos de como o racismo estrutural se mostra em meio à imprensa. A especialista usa o raciocínio de Muniz Sodré, na obra “Claros e Escuros: identidade, povo e mídia no Brasil” para demonstrar algumas etapas comuns do racismo na imprensa.
A primeira delas é a negação, ou seja, o racismo não é apresentado como uma questão estrutural e se noticiam apenas as situações de violência racial, geralmente como casos de “suspeitas de racismo”. Outra etapa que Tatiana avalia é a estigmatização, que marca a diferença racial, ou seja: se o padrão estético da mídia brasileira é branco – apesar da maioria da população ser negra – os traços fenótipos de pessoas não brancas são inferiorizados, e o cabelo geralmente é o primeiro alvo.
A professora também explica outro fator, que é a indiferença profissional nos meios de comunicação. Ela apresenta o número reduzido de jornalistas negros nas redações e geralmente com cargos de pouca visibilidade como uma prova desse processo. Tatiana acredita, contudo, que a inclusão não é toda a resolução do problema.
“Quando os jornalistas negros estão na linha de frente acabam por cumprir um papel de representatividade e cria-se uma noção de ‘simulacro de democracia racial’, mas cabe lembrar: a ‘democracia racial’ é um mito criado para apaziguar os conflitos raciais”, avalia.
Quem é Basília Rodrigues?
Formada em Jornalismo em 2008 e pós-graduada em História, Sociedade e Cidadania pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), Basília Rodrigues foi repórter da rádio CBN por 12 anos na capital federal e é responsável por acompanhar os principais debates políticos no país.
Trabalhou por quatro anos como editora-chefe da revista brasiliense Evok (2015 a 2020) e também tem no currículo a passagem por diversos veículos de comunicação, como Correio Brasiliense, Gazeta do Povo, Congresso em Foco e Jota como repórter, além de ter atuado na TV Brasília, afiliada à RedeTV, como produtora.
Em março de 2020 e em agosto de 2018, Basília Rodrigues foi premiada com o Troféu Mulher Imprensa, na categoria repórter de rádio. Indicada duas vezes ao Prêmio Comunique-se, a jornalista ficou em primeiro lugar no Prêmio de Jornalismo da Associação Nacional dos Defensores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul, com uma reportagem especial sobre a iniciativa desses trabalhadores pelo combate ao preconceito racial em Brasília.
Aos 32 anos chegou para a CNN como comentarista política, com maior liberdade editorial. Ela tem a função de apurar notícias de cunho político em Brasília e a possibilidade de comentar os fatos.
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O rato ruge

Por Mauro Luis Iasi.
“Todo homem nasce original e morre plágio”
“Nunca tantos deveram tanto a tão porcos”
Millôr Fernandes
É inegável que o presidente miliciano sempre teve como intencionalidade a ruptura institucional, uma espécie de saudosismo do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu. Temos afirmado com certa insistência em nossas colunas que o bufão na presidência contava com certos recursos para, pelo menos, dar uma base aos seus arroubos, principalmente no suposto apoio de segmentos das forças armadas, sua base social apoiada nas milícias e nas organizações ditas religiosas, além da base eleitoral que lhe auferiu os mais de 57 milhões de votos.
No entanto, devemos lembrar que tais recursos de nada serviriam se não houvesse uma certa condescendência do grande capital monopolista para com as visíveis trapalhadas do miliciano, uma vez que sua única função no cargo era dar sequência às reformas e medidas exigidas pelo capital e o deus mercado. Uma vez que tais medidas encontravam seu caminho, o suposto presidente ia se equilibrando no cargo apesar de tudo. Nesta direção foi realizado um pacto entre os militares, STF e parlamento para evitar a instabilidade de um possível impedimento do presidente, seja por qualquer motivo entre os inúmeros à escolha (irregularidades eleitorais na chapa Jair/Mourão, atentar contra as instituições com atos antidemocráticos que o dito presidente conclamou e participou, imiscuir-se na Polícia Federal para proteger sua família e amigos criminosos, etc.).
No momento do pacto, o principal fator de instabilidade era a clara intenção que partia de um executivo doentio em acirrar os ânimos para justificar uma ruptura. No entanto, o desenvolvimento da pandemia mudou este cenário. O negacionista no maior cargo da República, ainda que tenha recuado em nome do pacto com o Parlamento e o Supremo, abençoado e tutelado pelos militares no governo, se demonstrou uma fábrica de instabilidade para dar respostas à sua base social e eleitoral ou por qualquer outro motivo. Relativizando a gravidade da doença, defendendo ilusórios e irracionais métodos de tratamento preventivo, recusando-se a um plano ordenado de isolamento social e medidas de proteção defendidas pela ciência, desdenhando a importância da vacina e de medidas logísticas adequadas para a imunização; acabou por jogar o país no caos pandêmico e suas dramáticas consequências sociais e econômicas.
A troca de ministros da Saúde e, principalmente, os motivos de tais alterações, somado à atitude do mandatário maior da República, desmascaram a face grotesca do negacionismo, do irracionalismo e do total desprezo pela vida humana. Mas, o capital e seu amigo imaginário, o mercado, não ligam para isso. Rodrigo Maia, fiel zelador do pacto, não viu nenhum motivo para impedimento. O Supremo e suas inalcançáveis razões e fundamentos jurídicos, contentou-se com a gaveta profunda para onde enviou os processos em andamento que serviram de munição para o suposto pacto que deveria manter o ensandecido presidente no cercadinho.
O que ocorreu é que o desenvolvimento da pandemia, esperado e previsto pelos especialistas, mudou este cenário. O grande capital começa a traçar cenários menos idílicos para a retomada econômica e a montanha de mortes diárias atinge aquela marca que passa a gerar “preocupações” para os donos da riqueza e do destino da nação. Não se tratava mais de sete ou dez mil, que o desprezível dono da rede de lanchonetes estava disposto a aceitar como um custo aceitável, ou mesmo os cem mil que coexistiam com lucros aceitáveis e perspectivas de retomada que a assustada economista saudava a cada edição do telejornal para desmentir na próxima edição. É interessante o que o capital pode encarar como aceitável, o que há de diferente entre os cem mil e os trezentos mil mortos, além da contabilidade macabra de pessoas enterradas a cada dia?
O capital e seus diferentes setores, refiro-me ao capital monopolista e não a malta de supostos empreendedores descartáveis que se julgam ideologicamente mais do que de fato são para a cadeia produtiva, lucraram muito nesta época tenebrosa. Não me refiro aqui à aparência enganosa dos setores mais visíveis, como as televendas, os serviços de entrega, cursos on-line (todo mundo descobriu que podia tocar piano e era fácil, assim como praticar a marcenaria, pintura em aquarela e aplicar no mercado financeiro), mas se tais setores da distribuição e de serviços cresceram é porque mercadorias seguiam sendo produzidas, bancos continuavam financiando e cobrando dívidas. É inegável o impacto para pequenos comerciantes e outros ramos que certamente sofreram com restrições de seus pequenos e médios negócios, mas houve crescimento de lucros e aumento da riqueza e da concentração de forma significativa. Nesta fase a preocupação com o distanciamento e as medidas de prevenção são seletivas. Fique em casa, lave as mãos, use máscaras, lógico, se você não é um operário, um entregador de aplicativo, uma faxineira, um profissional da saúde ou da segurança pública, por que se for o caso, você tem que sair de sua casa, pegar uma condução lotada e fazer as coisas funcionarem.
Então, nesta faixa de mortandade, algo ali entre os cem e trezentos mil mortos, tudo ia bem. Tal sensação que o capital compartilhava com o negacionista com a faixa presidencial era que um dia a pandemia ia passar e tudo voltaria ao normal, quem morreu, morreu, quem lucrou lucrou. Como sempre, como em todos os anos ditos normais em que a sanha do capital mata milhares de trabalhadores. Em 2019 o número de acidentes de trabalho cresceu 5,45%, passando de 341.700 para 360.320 mil. Entre 2012 e 2019 a cada 49 segundos um trabalhador sofria um acidente de trabalho e a cada uma hora e três minutos um trabalhador morria em decorrência de um acidente.
Sendo assim, por que da mudança de atitude do grande capital e seus serviçais togados ou investidos de mandatos parlamentares? Creio que o fato do negacionismo presidencial passa a produzir uma instabilidade em duas frentes. A total desorganização na logística das vacinas, acentua a gravidade da pandemia e, principalmente, incide sobre a perspectiva de saída da crise sanitária. A dimensão temporal aqui tem uma importância grande. Tanto a população como os agentes econômicos podem suportar catástrofes, desde que exista uma perspectiva de retomada mais adiante. A falha grave na produção, compra e logística de vacinação, torna nebulosa a dimensão temporal e materializa as previsões de colapso. Isso prejudica a almejada retomada da normalidade econômica e gera perigosos riscos de instabilidade política e social.
Vejamos se está claro. Queimar florestas, matar índios, assassinar opositores, entregar imensas áreas urbanas para o controle de milícias, desmantelar universidades e centros de pesquisa, impor cortes orçamentários que sufocam as políticas públicas e sociais até a morte, desmontar a cultura nacional, desemprego em massa, mortes por falta de oxigênio ou UTIs lotadas, sucatear a capacidade produtiva do país e a infraestrutura pública, jogar milhares de famílias de volta à fome e à miserabilidade absoluta, pode ser aceitável, mas colocar em risco a estabilidade que permite continuar a acumulação de capitais é preocupante.
Por esta razão era necessário um ajuste no pacto. Agora deve-se incluir nas normas pactuadas (que não sabemos quais são pois o pacto é secreto) que não basta não atentar contra as instituições visando uma ruptura institucional, mas deve-se penar também no enfrentamento adequado da pandemia e de uma política de vacinação eficiente.
O operador desta linha de ação no parlamento é o chamado centrão. O executivo emplacou o presidente do Senado e da Câmara, mas estes senhores são operadores do pacto e não do presidente. Exigiram e conseguiram a troca do ministro da saúde e agora do chancelar, impuseram uma mudança ministerial e cobraram a fatura no orçamento desfigurado pelas emendas parlamentares e o cala boca ao setor militar em detrimento dos necessários investimentos e recursos para saúde, ciência e tecnologia, educação e outras áreas incômodas para os sanguessugas que nos governam.
Quanto aos militares é cedo para afirmar. É necessário separar o jogo de cena da saída do Ministro da defesa e os chefes das forças armadas em solidariedade ao ministro. O (des)governo Bolsonaro não encontra apoio homogêneo nas forças armadas e sempre apresentou contradições, agora se soma mais esta. Mas a presença militar segue forte e expressiva no governo, isto quer dizer que não creio, como alguns imaginaram esta semana, em rompimento dos militares com o governo. Ficam e continuam validando o pacto do qual são um dos principais protagonistas. O que parece claro é que já buscam alternativas para o futuro e querem se desvencilhar da responsabilidade com um governo que parece estar destinado à lata de lixo (tóxico) da história.
O presidente, desculpem pelo eufemismo, está isolado e na defensiva e foi obrigado a ceder. Ele não está em um pacto por convencimento, mas por força da ameaça de retirá-lo do cargo e sabemos que existem os meios e os motivos para tanto (só Rodrigo Maia não os via). Cedeu na carne, desde a saída de Weintraub até agora com a saída escorraçada de Araújo nas relações exteriores. Nos parece que os pontos de resistência de Bolsonaro são os pontos que são essenciais para ele, as posições que podem proteger seus filhos dos processos que fecham o cerco e que podem levá-los à prisão e a promessa de não apeá-lo do poder via impeachment.
Nestas condições, como fica intenção miliciana de ruptura? Esta não é uma questão fácil de ser respondida. Estamos em uma disjuntiva que pode ser assim respondida. Quanto mais o presidente se vê acuado e perde a gestão efetiva de seu governo, maior é a tentação de golpe e menor as condições de efetivá-lo. Isso quer dizer que a possibilidade de golpe está longe de ser descartada, mas, caso ocorra, assumirá a forma de uma aventura sem base material de sustentação ou consolidação na ordem burguesa. Dito de outra forma, os recursos que o suposto presidente da república em exercício dispunha anteriormente se deterioraram (seja no apoio militar e corpos policiais, seja nas milícias e igrejas S/As, seja na base eleitoral), principalmente, a sua funcionalidade para os interesses da burguesia monopolista, mas o que lhe sobra é suficiente para uma reação desesperada. Isto lhe dá o cacife suficiente para tentar se garantir no cargo e protelar a ofensiva contra sua família criminosa, mas seus sonhos de ser a cópia farsesca de Luís Bonaparte, que foi a farsa de Napoleão, parecem distantes.
Suas esperanças migram para 2022 e a esperança que o desgaste de sua imagem e o abandono de sua serventia para o capital não seja capaz de corroer seu potencial eleitoral para novamente ser a alternativa que resta à direita sem alternativas.
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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.
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Por Bruna Della Torre.
Ao longo da história do marxismo, o gênero foi abordado de forma recorrente como uma questão “cultural”, relegado à condição de superestrutura que a cultura muitas vezes ocupou. Em O patriarcado do salário, Silvia Federici demonstra que uma análise materialista dessa questão é, ao contrário, capaz de produzir uma revolução na interpretação de Marx e do capitalismo ao expor como o trabalho doméstico não remunerado é um elemento determinante na composição do valor da força de trabalho como um todo.
O salário patriarcal, produto de uma reforma social e política que disciplinou a classe trabalhadora e empurrou as mulheres para a esfera do trabalho reprodutivo, ocultou ao longo da história do capitalismo áreas inteiras de exploração. Ele conferiu aos homens o poder de comandar o trabalho e os corpos das mulheres, transformando a casa numa fábrica da classe trabalhadora. Federici demonstra que a subsunção real do trabalho doméstico, cujo principal instrumento foi a família, e sua ideologia, o amor, enfraquece toda a classe trabalhadora ao fragilizar socialmente as mulheres. Com isso, a “esfera privada” e a família deixam de ser percebidas como elementos externos ao capital.
Fica evidente, a partir dos ensaios reunidos no livro de Federici, que a luta feminista está no centro da luta anticapitalista. Além de nos convidar a repensar o patriarcalismo do capital e da esquerda, a alargar o conceito marxiano de trabalho e a noção de luta de classes, O patriarcado do salário reúne também contribuições fundamentais aos debates sobre tecnologia e meio ambiente. As utopias socialistas da automação e do desenvolvimento, sustentadas por autores como André Gorz e Antonio Negri, bem como pelo próprio Marx em alguns momentos, são colocadas sob escrutínio.
Já que o trabalho reprodutivo não pode ser plenamente substituído por máquinas e o império da técnica nos legou uma história de espoliação do meio ambiente e extinção de culturas, populações e saberes locais, é preciso reorientar o horizonte de lutas, expandir o imaginário político contemporâneo, construir uma nova maneira de olhar para o mundo e de promover a sua transformação. A potência crítica da obra de Silvia Federici carrega com ela a força analítica de Marx e o caráter explosivo da luta das mulheres e é a prova viva de que o marxismo feminista é um dos pontos mais altos do pensamento crítico contemporâneo.
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O patriarcado do salário, da filósofa italiana Silvia Federici, traz ao leitor uma série de artigos que abordam a relação entre marxismo e feminismo do ponto de vista da reprodução social. Retomando diversas discussões presentes nas obras de Karl Marx e Friedrich Engels, a autora aponta como a exploração de trabalhos como o doméstico e o de cuidados, exercido pelas mulheres sem remuneração, teve e tem papel central na consolidação e na sustentação do sistema capitalista.
Revisitando a crítica feminista ao marxismo e trazendo para o debate perspectivas contemporâneas sobre gênero, ecologia, política dos comuns, tecnologia e inovação, Federici reafirma a importância da linguagem, dos conceitos e do caráter emancipador do marxismo. Ao mesmo tempo, esclarece por que é preciso ir além de Marx e repensar práticas, perspectivas e ativismo a fim de superar a lógica social baseada na propriedade privada e desenvolver novas práticas de cooperação social.

O livro de Silvia Federici foi traduzido por Heci Regina Candiani, tem a orelha assinada por Bruna Della Torre e a capa de Ronaldo Alves sobre obra de Vânia Mignoni. A edição da Boitempo de O patriarcado do salário contou com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.
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Confira o debate de abertura do ciclo “Por um feminismo para os 99%”: Feminismo, comuns e ecossocialismo, com Silvia Federici e Sonia Guajajara, mediação de Bruna Della Torre (Marxismo Feminista).
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Pela primeira vez em décadas, Veja faz uma capa sem agressões a Lula

247 - A revista Veja, conhecida por ser porta-voz da direita liberal e uma das maiores entusiastas do golpe de 2016, desceu o tom e, na capa que foi às bancas nesta sexta-feira (16), publicou imagem de Lula, sem distorções de semiótica, explicando decisão do Supremo Tribunal Federal que favoreceu o ex-presidente, sem fazer juízo de valor .
“De volta no jogo- Favorecido pela decisão do STF que o confirmou como ficha-limpa, Lula intensifica sua movimentação política para sua candidatura à presidência em 2022” , diz a manchete.
A linha editorial da revista segue fazendo oposição ao governo de Jair Bolsonaro. No dia 19 de março, a manchete que estampava a capa da revista era o avanço da pandemia no Brasil e o fracasso da política econômica do atual governo, capitaneada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
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"Bolsonaro é um serial killer", diz Flávio Dino

Da Rede Brasil Atual - Nenhum governante do planeta agiu tão mal, diante da pandemia do novo coronavírus, nem pode ficar impune em razão de um desempenho tão desastrado e intencional. A avaliação sobre o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), é do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). Em entrevista nesta quinta-feira (15) ao programa Bom para Todos, da TVT, Dino falou sobre os vários crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro, a quem classificou como “serial killer”. “Ele pega os tipos penais da Lei 1.079 e percorre ‘com maestria’”, afirmou. E defende a necessidade de interromper o mandato “desatinado” do presidente da República, para parar o “ciclo de danos” promovidos por ele contra o Brasil.
“Não há dúvida que essa é uma necessidade tanto sob a ótica jurídica quanto sob a perspectiva política”, avalia o governador. “Jurídica uma vez que estão configurados crimes de responsabilidade do artigo 85 da Constituição e da Lei 1.079/50. E politicamente porque estamos vendo os efeitos terríveis, danosos, danos irreparáveis, traduzidos nessa lesão máxima no mundo do direito que é a perda do direito à vida. O perecimento de centenas de milhares de brasileiros e brasileiras, por uma doença muito grave, mas muito mal coordenada, muito mal enfrentada no nível nacional, fazendo com que tenhamos chegado a essa escalada muito triste, muito sofrida.”
Sobre as perseguições de Bolsonaro aos governadores do Nordeste, Flávio Dino fez ironia. “Ser perseguido pelo Bolsonaro é uma honraria para mim. É um selo de qualidade. Vou colocar até no meu currículo Lattes.”
Bolsonaro contra vacina
Para Dino, não fosse a ação dos governos de estado e o Brasil estaria chegando perto de um milhão de mortos. “Porque aí mesmo que não teria política sanitária alguma, nenhuma. Porque a ampliação de leitos, a busca de medicamentos, insumos, respiradores, máscaras, de luvas, agora de vacinas, sempre teve pressão dos governadores”, explica.
“Agora mesmo, se pegar a imunização, 85% das vacinas aplicadas no prazo são Sinovac/CoronaVac/Butantã, iniciativa do governador do estado de São Paulo, apoiada por todos os governadores e sabotada pelo presidente da República”, diz, lembrando que Bolsonaro mandou o ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello rasgar compromisso que havia feito com os estados um dia antes de incorporar a CoronaVac ao Plano Nacional de Imunização. “Quando os governadores disseram ‘se o governo federal não comprar do Butantan, nós vamos comprar’, aí que ele voltou atrás. Praticamente já no fim do ano. Isso mostra o papel essencial que os governadores tiveram.”
“CPI do mandato desatinado”
O governador do Maranhão acredita que esse e outros entraves de Bolsonaro no combate à pandemia serão levados à CPI da Covid. “E numa perspectiva, como eu disse, tanto jurídica quanto política, espero muito que essa abreviação, essa interrupção desse mandato desatinado ocorra, inclusive para interromper esse ciclo de danos que Bolsonaro tem causado ao país na dimensão sanitária, mas não só”, faz questão de frisar.
“Vejamos que nós estamos no dia 15 de abril e o país não tem orçamento”, lembra. “E porque não tem orçamento, as micro e pequenas empresas estão sem nenhum apoio, não tem auxílio emergencial direito. O nível de desorganização é inacreditável. E isso também leva à perda de vidas”, avalia. Para Dino, isso revela a “falácia” da dicotomia usada pelo governo entre cuidar da saúde ou da economia. “Nem uma coisa nem outra. Essa é a situação brasileira atual.”
Sobre a possibilidade de os estados também serem investigados pela CPI, o governador do Maranhão é categórico. “Quem não deve, não teme, Quem deve, teme. Não vejo nenhum problema. Se quiser olhar os recursos federais aqui no Maranhão, vou mostrar tudo em relação ao governo do estado. O que não aceitamos é que recursos que não foram repassados para o estado sejam colocados na nossa conta por politicagem do presidente da República”, avisa.
E denuncia uma “mentira” dita por Bolsonaro. “Ele espalhou que mandou para o governo do Maranhão R$ 36 bilhões. Está muito agoniado, atormentado, cada dia mais irritado. Deve saber o motivo. Quem sabe o Pazuello conte a verdade sobre o que aconteceu lá.”
Pior do planeta
Dino considera que a pandemia é o sinal máximo do desastre que é o governo de Jair Bolsonaro. “O conjunto da obra do Bolsonaro enseja múltiplos crimes de responsabilidade. Desde o ponto de vista fiscal, essa tentativa de golpe. Coação no Judiciário, no Legislativo. Ameaças aos governadores com violação do princípio federativo. É um serial killer. Ele pega os tipos penais da Lei 1.079 e percorre com maestria. Um dos pontos altos, o que ele faz melhor na vida, é cometer crime de responsabilidade”, ironiza.
E o destaque, reforça, é a má gestão da pandemia. “Nenhum governante do planeta agiu tão mal e nenhum governante pode ficar impune em razão de um desempenho tão desastrado dolosamente, intencionalmente. Porque poderia dizer que não sabia, que errar é humano. Mas neste caso basta olhar que as ações e omissões dele têm encadeamento com os discursos dele: gripezinha, não vai matar ninguém, é uma histeria, mimimi etc”, menciona. “Em razão disso, as ações e omissões foram se produzindo. Portanto, são condutas dolosas, intencionais.”
E revela sua esperança nas instituições democráticas “Elas vão dar conta disso o mais rápido possível, ou em algum momento. Às vezes a Justiça tarda, mas eu sou daqueles que acredito que ela não falha”, afirma Dino sobre uma possível interrupção do mandato de Bolsonaro.
Impulsos de ditador
Dino se preocupa com o que classifica de “risco Capitólio” que paira sobre a democracia brasileira. “Porque todos os dias o presidente da República emite ‘convites’ nessa direção de ruptura da ordem constitucional. Hoje ele fez discurso em quartel falando do nosso Exército, protetor da liberdade. Fazendo um chamado político às Forças Armadas. E portanto um chamado de violação à Constituição Federal que corretamente coloca o poder civil acima do poder militar. Ou seja, não existe tutela militar sobre o poder civil”, explica. “E ele inverte essa equação constitucional e faz o tempo todo esse jogo. É algo que merece muita atenção. E há esse tema da tentativa vil de ‘milicianizar’ as polícias estaduais. Considero um tema que deve ser repetido e debatido à exaustão para que possamos proteger as instituições democráticas”, avalia.
“Quem conhece a história brasileira não tem o direito de minimizar essa possibilidade, porque nós sabemos quantas rupturas já houve. Portanto, a gente tem de ter vigilância. Mobilização democrática para impedir esses impulsos despóticos presentes umbilicalmente na figura de Bolsonaro”, ensina Dino.
Brasil medieval
O governador criticou também a falta de “kit intubação” em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, sem resposta ou ajuda do governo federal. “Quando começou a pandemia fiquei algum tempo esperando respiradores e insumos que o Ministério da Saúde iria mandar. Quando vi que não mandaria e consegui comprar na China, decidi não esperar mais nada do governo federal. Como se não existisse. O que vier é lucro”, avisou à sua equipe. “Quando começou lá atrás essa crise dos anestésicos eu disse: ‘comprem, comprem como se fosse passar um furacão’. E foi o que nos salvou até aqui. Temos permanentemente atualização desse estoque e nunca tivemos colapso. Essa é a razão pela qual nunca chegamos a níveis críticos”, relata.
“Mesmo não tendo aqui esse drama a mais, quero me solidarizar com o governador de São Paulo e todos os governadores e prefeitos, hospitais privados. E acima de tudo com os profissionais de saúde que estão privados dos meios para adotar as melhores práticas nos cuidados com os pacientes”, afirmou Flávio Dino sobre a omissão de Bolsonaro. “E, com muita dor, dos pacientes submetidos nesse momento a tortura, tratamento degradante. Isso está acontecendo no século 21, no Brasil. Cenas verdadeiramente medievais que a gente vê no cinema, de antes de existirem os anestésicos. Paciente sendo amarrado”, ilustra.
“Isso já era suficiente para as autoridades máximas serem responsabilizadas. E não ficar esse discurso canalha de exoneração, sempre transferindo (responsabilidade) pra alguém. Pode haver mais de um culpado, mas não há nenhuma dúvida: o presidente da República tem o dever de responder por isso. Porque ele é a maior autoridade do país e deveria ter providenciado os meios para suprir essas carências, porque ele pode”, ressalta Flávio Dino sobre Bolsonaro.
Vice de Lula
Advogado e ex-juiz federal, Flávio Dino disse acreditar que a pesquisa eleitoral que mostra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente de Bolsonaro, num eventual segundo turno nas eleições de 2022, não faria diferença no resultado do julgamento do Supremo Tribunal Federal. O STF manteve a elegibilidade de Lula e a declaração de incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgá-lo. “De modo que acho que a eleição de 2022 vai acontecer dentro da normalidade. Diferente da de 2018, que foi terrivelmente contaminada por esses desvios éticos e jurídicos que levaram a inabilitação do ex-presidente Lula na ocasião.”
Sobre uma possível composição de chama como vice de Lula, Dino lembra que isso não se trata de uma decisão pessoal. “Isso depende mais da vontade dos outros que da sua. Jamais me oferecerei para ser vice porque seria no mínimo falta de educação. Claro que seria uma honra, se fosse convidado. Mas não é algo que você acorde pensando nisso”, disse. “Sou muito pé no chão, aqui, agora, realista, com senso prático. Tanto que construo hoje uma candidatura ao Senado no próximo ano aqui pelo Maranhão”, afirma, sobre um cenário mais provável.
“Qualquer outra coisa depende de tantos acontecimentos no meio do caminho que sequer penso no assunto. Mas tento ajudar como posso, participar, opinar. E sobretudo fazer o contraste com esse desvairado que está no poder, procurando sempre mostrar como: usando os recursos públicos com seriedade, com compromisso social, com probidade, senso daquilo que realmente importa. Como você proteger o mais pobre, promover os direitos da população, você consegue bons resultados. Como, graças a Deus, temos conseguido aqui no nosso estado. Esse é o meu empenho.”
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