Suprema Corte Expansão
Opinião: Kennedy Alencar - Que religião é essa?
Live do Dia da MENTIRA mostra a VERDADE sobre quem é Bolsonaro
Esquizofrenia da comunicação mostra confusão mental e Bolsonaro isolado
JOE BIDEN cria COMISSÃO para estudar AMPLIAÇÃO das cadeiras da SUPREMA CORTE, hoje controlada por conservadores
DERROTA surge no horizonte e BOLSONARO tenta ganhar no GRITO
Caçulinha cospe na mãe; segue exemplo de papai Bolsonaro, que cospe no povo
Biden cria comissão para estudar AMPLIAÇÃO das cadeiras da SUPREMA CORTE, hoje controlada por conservadores

WASHINGTON — O presidente americano, Joe Biden, assinou nesta sexta um decreto executivo para a criação de uma comissão que analisará por 180 dias a ampliação do número de cadeiras da Suprema Corte.
Ele cumpre, assim, sua promessa de campanha de estabelecer uma comissão bipartidária para avaliar o tema, que inclui outras mudanças como a imposição de limites para o mandato dos juízes, no lugar do sistema atual de cargos vitalícios.
A comissão, de 36 membros, será encarregada de examinar a história do tribunal, as mudanças anteriores no processo de nomeação de juízes e as possíveis consequências da alteração do tamanho da corte mais alta do país.
O presidente agiu sob pressão de ativistas que pediam por mais cadeiras para alterar o equilíbrio ideológico do tribunal, depois que o então presidente Donald Trump nomeou três juízes durante seu mandato de quatro anos.
O resultado é um tribunal com uma inclinação conservadora, na proporção de 6 para 3, após as escolhas de Trump, que incluem a nomeação da juíza Amy Coney Barrett, confirmada para substituir a juíza Ruth Bader Ginsberg poucos dias antes da eleição presidencial do ano passado, em um processo controvertido.
Além dela, Trump também nomeou os juízes Brett Kavanaugh e Neil Gorsuch.
O painel será liderado por Bob Bauer, que atuou como advogado da Casa Branca durante os governos de Barack Obama, e Cristina Rodriguez, professora da Escola de Direito de Yale que atuou como procuradora-geral adjunta do Gabinete de Assessoria Jurídica de Obama.
Ativistas, no entanto, podem ficar desapontados com a comissão.
Pessoas familiarizadas com o presidente disseram que o grupo evitará fazer recomendações a Biden ou aos legisladores.
Em vez disso, o painel de acadêmicos, advogados, cientistas políticos e ex-juízes produzirá um artigo de pesquisa projetado para ser uma análise confiável da questão.
O objetivo, disseram, não é chegar a uma resposta, mas fornecer a Biden, aos membros do Congresso e ao público uma avaliação dos riscos e benefícios de fazer mudanças no tribunal.
Em sua ordem executiva, Biden instruiu a comissão a realizar audiências públicas sobre o assunto e a aceitar depoimentos e apresentações de outros especialistas jurídicos, organizações e membros do público que desejem opinar.
Os progressistas dizem que os republicanos ganharam injustamente uma vantagem no tribunal ao bloquearem a nomeação do juiz Merrick Garland por Obama, no início de 2016, sob alegação de que era ano eleitoral e caberia ao próximo presidente propor um nome.
Para a substituição de Bader Ginsburg, no entanto, os republicanos não seguiram a mesma regra a apenas poucos dias das eleições.
Os progressistas veem o aumento de cadeiras do tribunal, o estabelecimento de limites aos mandatos ou outras mudanças como forma de compensar o poder de qualquer presidente para influenciar sua composição.
Os conservadores, por outro lado, denunciaram o esforço como um "empacotamento do tribunal", semelhante a um esforço fracassado do presidente Franklin Roosevelt na década de 1930.
Uma tentativa de Biden de aumentar o número de juízes exigiria a aprovação do Congresso e seria recebida por uma feroz oposição.
O presidente entende, segundo funcionários da Casa Branca, que mudanças do tipo seriam "reformas para uma era inteira" que teriam implicações de longo alcance para os tribunais por décadas, não apenas durante o tempo de Biden no cargo.
— Há um reconhecimento crescente de que a Suprema Corte representa um perigo para a saúde e o bem-estar da nação e até mesmo para a própria democracia — disse Aaron Belkin, diretor do grupo Take Back the Court.
— Uma comissão de reforma judicial da Casa Branca tem uma oportunidade histórica de explicar a gravidade da ameaça e ajudar a contê-la, instando o Congresso a adicionar cadeiras, que é a única maneira de restaurar o equilíbrio do tribunal.
Biden se recusou a esclarecer sua opinião sobre o assunto e, em vez disso, em uma entrevista em outubro do ano passado, prometeu criar a comissão.
— Vou pedir a eles que, por mais de 180 dias, voltem com recomendações sobre como reformar o sistema judiciário, porque ele está saindo do controle — disse à época em entrevista a CBS.
Biden pode ter sua própria chance de indicar um juiz para a Suprema Corte este ano se Stephen Breyer se aposentar no final do mandato atual.
Breyer, de 82 anos, é o membro mais velho da Corte e o membro sênior da ala progressista de três juízes.
Grupos progressistas estão se tornando cada vez mais agressivos ao exigir que ele se afaste do cargo enquanto os democratas ainda controlam o Senado e o processo de confirmação.
Mas o juiz alertou, esta semana, que os esforços para expandir o tribunal por razões políticas podem minar a confiança do público na corte e nas decisões que ela toma em questões importantes.
— Espero que o tribunal mantenha sua autoridade.
Mas essa autoridade, como o império da lei, depende da confiança, uma confiança de que o tribunal é guiado por princípios jurídicos, não pela política.
A alteração estrutural motivada pela percepção de influência política pode apenas alimentar essa percepção, corroendo ainda mais essa confiança.
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Análise: Olga Curado - Derrota surge no horizonte e Bolsonaro tenta ganhar no grito


Olga Curado
Colunista do UOL
09/04/2021 14h03
Atualizada em 09/04/2021 14h03
O capitão reformado que só pensa naquilo - 2022 - e enxerga em cada esquina uma ameaça ao seu sonho de continuar na cadeira de presidente da República - sentiu o golpe. Sim, vai ter Comissão Parlamentar de Inquérito - a popular CPI - para investigar a gestão da pandemia pelo governo federal.
O ex-deputado federal, que sabe, como todos no Congresso, "como começa uma CPI, mas não como ela acaba", tenta revidar na retórica, ou, popularmente, ganhar no grito. Acusa o STF (Supremo Tribunal Federal) de ativismo, e, como é da lógica enviesada dele, pede que seja feita uma retaliação contra o próprio Tribunal, por meio de um impeachment de ministro da Corte.
É da natureza do negacionismo obscurantista tentar sempre minar as instituições, os pilares da democracia, por absoluta incompreensão do sistema de pesos e contrapesos, definidos em "O Espírito das Leis", de Montesquieu. O capitão desconhece o funcionamento da democracia, por alergia à leitura (sequer lê as cartas endereçadas a ele pelas lideranças produtivas do país, cobrando ações de proteção ao meio ambiente, como aconteceu ontem).
O capitão aprendeu a regra pueril e simplista segundo a qual a melhor defesa é o ataque. De tão simplório, acreditou nisso e saiu dando cotoveladas com meias palavras. Na ambiguidade da fala contra o ministro Luís Roberto Barroso, que leu a Constituição e autorizou o funcionamento da CPI que causa tanto embaraço ao capitão e seus prepostos, utilizando os pesos e contrapesos que dão equilíbrio à convivência entre os Poderes, para que o titular de um Poder não se adorne como ditador.
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, deslumbrado ocupante de uma cadeira da República, ainda que ostente o título de doutor em leis, comportou-se como um rábula, que toca de ouvido, diante do pleito dos colegas senadores que requereram a instalação da CPI, negando-lhes o direito de instalar a comissão.
A leitura atenta do regimento interno do Senado, amparado pela letra da Constituição, não dá ao doutor Pacheco a autoridade para avaliar conveniências. A posição dele, como presidente, é uma outorga de delegação, e não um título plenipotenciário.
Num servilismo que agora é marca daqueles que são comensais do poder liderado pelo capitão, o doutor Pacheco achou "por bem" que faltava oportunidade para a investigação de responsabilidade por atos - e omissões, desmandos e incompetência - que colaboraram decisivamente para matar milhares de pessoas no país. O vírus matou, armado pela omissão, fisiologismo, incompetência e vaidade daqueles que tinham responsabilidade de agir em favor da sociedade. Agiram contra ela.
O capitão e os seus sócios no desencadeamento da maior tragédia humanitária da história brasileira - são milhares, milhares, milhares de mortos diariamente que enlutam o país - queriam o escamoteio à verdade dos fatos. E a fala do doutor Pacheco, para se sentar em cima do requerimento dos senadores, é sobre conveniência do momento. O objetivo dele é sustentar a conveniência do capitão, que não quer ver descobertas pelas investigações as suas ordens desatinadas. E não quer ver exposta ao país a incúria sabuja de um general Pazuello, que se prestou a macular a imagem do Exército brasileiro, negando a ciência, apenas para frequentar palácios.
Fica a dúvida sobre a existência de acordo firmado entre o presidente do Senado pela defesa do capitão. A palavra acordo está na moda no Congresso Nacional. O presidente da Câmara, Arthur Lira, tem repetido muito que foi feito "acordo" para a manutenção do orçamento pródigo em emendas parlamentares, cuja legalidade é contestada. Mas Lira assegura, com o fio do bigode, que não colocaria em escrutínio essa questão, mantidos os valores como estão. Há um "acordo".
Tem-se a sensação de que há muitos acordos firmados por aí. Tem-se a impressão de que há acertos feitos que ferem a transparência exigida para a prática política republicana. Quem está fazendo acordo com quem, para que, com que benefícios? O que está em jogo aqui?
Qual terá sido o acordo feito entre o Congresso Nacional, por meio dos seus chefes recentemente empossados, com o capitão e seus prepostos, para que seja preciso recorrer ao Supremo Tribunal Nacional e garantir o cumprimento de regras que asseguram o direito das minorias em instalar uma CPI? Qual terá sido o acordo feito entre a Câmara dos Deputados e o capitão para garantir o dinheiro que falta na saúde, na educação, e assegurar campanhas vistosas de parlamentares que disputam a reeleição em 2022?
Enquanto só pensam naquilo - 2022 - deputados da turma de Lira, senadores da turma do doutor Pacheco e, claro, o capitão - acham que podem ganhar no grito, ao arremedo da lei, o direito de esconderem como desgovernam o país.
Vamos enterrar os nossos mortos, vamos tratar os nossos sequelados, vamos cobrar por vacinas, vamos cobrar por insumos e medicamentos, hospitais, leitos, e por respeito.
E, sim capitão, vamos querer saber como negou aos brasileiros a oportunidade de proteção contra a pandemia, como bloqueou o direito à vida.
Não importam os acordos.
Não vai ganhar no grito.
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Opinião: Olga Curado
Caçulinha cospe na mãe; segue exemplo de papai Bolsonaro, que cospe no povo

Olga Curado
Colunista do UOL
06/04/2021 14h47
Atualizada em 06/04/2021 16h27
Filhinho de papai, o Zero 4 enche a boca de água e cospe na mãe. Que se rende à falta de modos do neném.
Exemplos são copiados com entusiasmo pela prole do capitão. A falta de modos, a rudeza, o escárnio, a ausência de discernimento, mais uma capacidade inconteste de fazer a multiplicação de pães, peixes e peixes, como no milagre bíblico.
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Os R$ 89 mil depositados na conta de Michelle, sem explicações para a fonte dos recursos, são a demonstração dessa capacidade bíblica, aliás replicada pelo filho mais velho do capitão.
Bem-sucedido, o Zero qualquer coisa, dono de mansão em Brasília, comprada com soldo de senador, fez o milagre da multiplicação dos chocolates e, graças a seu talento, ocupa casarão com 1.100 metros quadrados. Enquanto isso, as investigações sobre o crime de peculato - nome carinhosamente chamado de rachadinha - esfria.
O exemplo dos pais, forma mais eficaz de educar filhos, mostra que a crença é fundamentada. Renanzinho, o tal do cuspe na mãe, por exemplo, confirma o talento da família para bons negócios e boas relações.
Ganhou de presente, ano passado, um carrinho elétrico estimado em R$ 90 mil, de empresários que também, magicamente, tiveram acesso a ministro de estado, em audiência presenciada pelo caçulinha.
São exemplos que constroem hábitos, daí vícios. Demonstrações públicas de falta de respeito - em nome de uma espontaneidade sem limite - são apenas a expressão do tosco, do rude, da falta de educação. São também o reflexo de uma conduta em que o outro pouco importa. Aprendido com papai.
A tal espontaneidade que pretende ser uma marca do populista capitão reformado tem apenas o mérito e a função de esconder a ausência de repertório e capacidade intelectual. Daí ser preciso criar imagens factoides para tentar desmentir o que parece explícito: o isolamento político do capitão, dentro do se próprio governo. Posa no sopão com um Braga Netto promovido para o Ministério da Defesa - onde teve que aceitar as regras da corporação - ainda que tivesse a vontade de puxar um pouco o saco do capitão.

E que não fiquem dúvidas. A foto compartilhada pelos generais - as duas visitas ao general tuiteiro Villas Bôas, com um general Pujol que deixava o comando do Exército e o general Paulo Sérgio, que chega - mostra que a corporação tem regras. Numa cadeira, sentando-se, um distensionado Pujol mostra que se sente com o dever cumprido - pernas esticadas, e um outro, de prontidão, o Paulo Sérgio está pronto para a ação - sentado quase em continência. Não tem a postura de quem vai arregar na defesa da sua conduta, obediente à ciência na proteção da tropa.

Na posse secreta promovida pelo capitão, mais um sinal de quem se esconde, a pretexto de aglomeração que não lidera; os fatos também transbordam. No discurso de posse, o novo ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto Franco França, refere-se ao estapafúrdio Araújo numa única linha. E anuncia a rendição à história da diplomacia brasileira: a construção de pontes. Uma resposta oportuna à crise de imagem do Brasil no exterior, em que o país é ridicularizado e temido pela ameaça que representa ao mundo, fruto das escolhas de um presidente deslocado da realidade e com pouca, ou nenhuma, capacidade de compreender a tragédia brasileira - a pandemia da qual é um dos artífices.
Enquanto o filho cospe na mãe, o capitão cospe no povo. É preciso mantê-lo dentro do cercadinho, para que o exemplo não seja seguido por seus outros filhos.
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Opinião: Kennedy Alencar - Que religião é essa?


Kennedy Alencar
Colunista do UOL
06/04/2021 16h50
Certos temas têm de ser enfrentados na sua plenitude. É falso dizer que não se trata de um debate religioso manter o fechamento de igrejas e templos para missas e cultos no auge da pandemia de coronavírus no Brasil.
Esta não deve ser apenas uma discussão jurídica ou sanitária. Do ponto de vista sanitário, tem de fechar porque as pessoas se infectam, adoecem e morrem ao se aglomerar. É consenso entre os especialistas que missas e cultos presenciais são bons para o coronavírus e perigosos para as pessoas.
Juridicamente, é certo apoiar governadores e prefeitos que querem igrejas e templos fechados em benefício da saúde pública. Apesar do grau de impopularidade da medida, é a coisa politicamente correta a ser feita neste momento.
Mas este também é um debate sobre religiosidade.
A liberdade religiosa não está ameaçada. As pessoas podem continuar a exercê-la sem precisar se aglomerar numa hora de tragédia sanitária.
Que crença é essa que se sente tolhida pelo impedimento temporário de frequentar um culto presencial?
Que tipo de líder religioso quer arregimentar fiéis no pior momento da pandemia?
Só o tipo que trata a fé como mercadoria e não se importa com a vida humana. Na sua maioria, são bispos e pastores preocupados em arrecadar o dízimo sem se preocupar se seus fiéis correrão o risco de morrer.
É injusto generalizar. Mas é evangélica a maioria dos religiosos que deseja manter os templos abertos. Nesse segmento, há forte apoio ao presidente Jair Bolsonaro, que implementa uma política sanitária genocida ao adotar uma estratégia irresponsável de imunidade de rebanho.
Nas últimas décadas, cresceu no Brasil o número de bispos e pastores que transformou a fé num modo de vida, enriquecendo, sobretudo, à custa dos mais pobres. Há igrejas evangélicas que montaram verdadeiras franquias para fazer dinheiro Brasil afora. Todas as igrejas contam com imunidade tributária. Ou seja, não pagam impostos, o que é injusto com o conjunto da sociedade.
Cada vez mais enfraquecido politicamente devido ao desastre do seu governo, Bolsonaro se agarra a quem pode. No caso, ele tem tido ótima aliança com líderes de igrejas evangélicas que vão se vacinar nos Estados Unidos mas, uma vez no Brasil, pregam a aglomeração de fiéis sem imunização.
A fé de Bolsonaro está mais para fake news do que para uma religiosidade autêntica. Trata-se de um presidente que dá provas reiteradas de não se importar com a vida das pessoas, comportamento semelhante ao da parcela de bispos e pastores que quer fazer cultos presenciais quando o Brasil bate recorde de mortes por covid-19.
Uma religiosidade verdadeira e empática não agiria com a irresponsabilidade de Bolsonaro e de seus mercadores da fé. Para piorar a situação, essa gente tem no Supremo Tribunal Federal um ministro como Nunes Marques, que, no sábado, decidiu liberar missas e cultos nacionalmente.
Entre os danos que Bolsonaro causa ao Brasil, a indicação de dois ministros para o Supremo será um dos mais prejudiciais, porque terá longa duração a presença na corte de figuras sem preparo para a função. Outro malefício de Bolsonaro é usar e abusar da religiosidade para manipular politicamente eleitores.
Que ninguém se engane. Bolsonaro, Nunes Marques e esses bispos e pastores oferecem a paz dos cemitérios aos brasileiros.
O Supremo Tribunal Federal tem o dever de derrubar a decisão de Nunes Marques nesta quarta-feira. É imperativo corrigir uma irresponsabilidade negligentemente homicida de quem se submete aos cálculos eleitorais do genocida e sacrifica o interesse maior da saúde pública.
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Opinião: Olga Curado - Live do Dia da MENTIRA mostra a VERDADE sobre quem é Bolsonaro

Olga Curado
Colunista do UOL
02/04/2021 13h28
Atualizada em 06/04/2021 09h01
Em três minutos de análise da live do capitão neste 1º de abril, a imagem do autoritário, despreparado, desorganizado e egoísta. São esses os atributos que podem ser identificados quando se assiste à fala do capitão. Como desdobramento dessas qualidades, estão a infantilidade, a impaciência e a dissimulação.
Não é preciso percorrer os 58 minutos de exposição para entender do que se trata o capitão-deputado.
Reação de Bolsonaro à ordem judicial sobre CPI tem pé, mas não tem cabeça
Fico em três minutos sem analisar as mensagens, as palavras em si, mas em relação ao conjunto dos sinais da sua comunicação.
Cabelo à escovinha, úmido, como quem saiu do banho para o "programa", mostra que tem preocupação em se apresentar bem, mas os ombros levantados e ligeiramente projetados para a frente demonstram tensão e falta de segurança - possivelmente está com os pés cruzados sob a mesa, um ensaio de movimento de quem vai pular em cima do outro.
Além disso, coloca-se ligeiramente à frente dos dois "parceiros de live", sentados ao lado dele, indicando que é o chefe. Uma postura típica que tem reforço numa fala recorrente de quem "quem manda aqui sou eu".
A cabeça projetada para a frente, como o queixo ligeiramente erguido, mostra, além da arrogância a vulnerabilidade, a insegurança. Como se a sua grande missão fosse a de desmentir e de desqualificar quem o contesta. Esse modelo que é impresso e se reproduz nas suas redes sociais, o "seu" exército, cuja atuação se baseia na intimidação.
A postura autoritária aparece também na maneira como apresenta os coadjuvantes do seu programa. Dá os nomes de cada um, porém, ao fazê-lo, não olha para eles e nem abre espaço para os dois fazerem quaisquer gestos, apontando com o dedo polegar - eu mando!
Numa manifestação inequívoca de autoritarismo, introduz "um dos mais novos ministros" sem lhe dar qualquer importância, num movimento de mão, como se estivesse empurrando para o lado algum objeto, revela desdém, mas que alimenta o servilismo de Roma, o tal ministro da Cidadania, que se apoia com as duas meias-mãos na mesa e mantém um sorriso beatífico de quem se sente ungido por mãos divinas a pertencer ao centro do poder.
A falta de repertório, a pobreza de vocabulário e estrutura de discurso denotam despreparo. Isso fica evidente nos primeiros três minutos da live e vai se repetindo monotonamente ao longo de quase uma hora. Ao anunciar a presença do presidente da Caixa, observa que o auxílio emergencial, uma das suas pautas, "tem tudo a ver coma Caixa também". Tem dificuldade de elaborar frases simples que contenham uma informação completa, como por exemplo: a Caixa Econômica Federal realiza os pagamentos dos beneficiários do auxílio emergencial.
O capitão-deputado tem pressa, é impaciente, quer se livrar dessas histórias de pandemia, de gente morrendo, de hospitais lotados. Nada disso o sensibiliza. Mas tem uma tarefa a cumprir e isso é representado pela mesa de "trabalho" cheia de bilhetinhos para alguém que não consegue ter uma linha de raciocínio estruturada, precisa ser alimentado pouco a pouco com informações em doses homeopáticas.
Quando inicia a sua transmissão olha para o conjunto da papelada à sua frente - dizendo que tem muita coisa importante para falar - mas está meio sem rumo - olha de um lado a outro e pega a primeira folha de papel sobre a mesa, numa ordem em que o capitão consegue entender o que vem primeiro, mas tudo apresentado de maneira telegráfica, em informação, mas contendo afirmações. São o ponto de partida para um discurso genérico. Ele não consegue elaborar raciocínios complexos ou juntar informações de maneira integrada.
E vai para a leitura, informando que "o governo federal continua liberando recursos para leitos de UTI". É interessante observar que, ao terminar de fazer a frase sucinta, joga o papel sobre a mesa, descartando, como se o assunto não tivesse a menor importância. Mostra uma certa impaciência e despreparo - sem trazer números, descrever processos, ou indicar concretamente como são realizadas ou coordenadas essas ações. Não tem paciência para os fatos. Portanto, não tem "faltado leito". Porém, para afirmar o que a realidade desmente, apela para a cumplicidade do novo-ministro Roma, olhando para ele pela primeira vez, apoiando-se no servilismo do funcionário que anui. A insegurança, mesmo com a roupagem de uma falsa convicção, aparece. Não posso mentir sozinho, diz sem falar. Que afundemos todos juntos! Reitera sem palavras.
O capitão precisa sempre de uma pequena plateia para garantir a ele mesmo um reforço de confiança. Tem o cercadinho do lado de fora do Palácio da Alvora, que o vitamina e os puxa-sacos do WhatsApp. São essenciais para que ele fale com convicção. Não possui autoconfiança, precisa de claque, de alguém abanando a cabeça e babando ovo. Muito inseguro.
É contraditório essencialmente porque não tem recurso de organização lógica. Ainda sobre os leitos de UTI, diz que não está faltando, e se desdiz meio minuto depois, "mas se estiver faltando é falta de planejamento por parte dos interessados". Nesse sentido, reproduz um padrão recorrente, que é o de transferir responsabilidade quando há algum problema para cuja solução é cobrado, isentando-se.
É deliberadamente vago, recurso bem ao gosto do populismo: "o governo não mede esforço" para resolver a situação. Nunca demonstra concretamente os processos, ou descreve os resultados. Mantém a fala em abstrato, permitindo que, a partir daí, se criem slogans e histórias - na sua maioria fruto de imaginação paranoica - alimentando um público com perfil semelhante: despreparado, infantil, raivoso e autoritário.
O capitão-deputado por 27 anos tem o modelo mental perverso dos insensatos, dos tolos determinados, dos ignorantes, que usam uma meia informação para desmentir a realidade. Não falta seringa, comemora, lembrando que sofreu "pancada", com o Pazuello - sócio na tragédia, mas que "hoje ninguém fala que falta seringa". Sim capitão, não falta seringa porque não tem vacina. Seringas são usadas para aplicar a vacina.
A maneira do capitão-deputado se expressar, ligeirinho, às vezes tropeçando na própria língua, mostra a pressa de quem quer se livrar de um tema sobre o qual não tem conhecimento necessário, incapaz que é de analisar. Fica na pressa. Foi assim que mandou as pessoas que queriam vacina "comprar na casa da mãe". O capitão se vale do senso comum, da percepção ligeira, da obviedade e daí a impaciência quando lhe pedem explicações. Não as tem. Usa os palavrões como vocabulário de apoio.
A cena montada no Palácio da Alvorada para a live do capitão reformado revela com precisão como funciona a cabeça dele. Os papéis com os "lembretes", que são a pauta do programa, ficam enfileirados numa lógica confusa. Porque pega um que está no meio de uma sequência, indicando que os assuntos têm uma prioridade aleatória, ao gosto do chefe. Vai de pedaço em pedaço de papel, olhando aqui e ali, fazendo escolhas pontuais, porque não tem a capacidade para olhar o todo, a partir da sua complexidade, dentro de uma organização integrada.
Outro ponto importante que estrutura a imagem que pretende projetar e fortalecer é a de "coitadismo". Conta que é vítima de pancada, de massacre contra si pelos de sempre, a mídia, em especial.
Uma estratégia básica de vilões, quando são pegos com a mão no butim, é tentar se passar por vítima. Assim, cria algozes e distrai o público do que é está acontecendo. Na vitimização, o vilão conta que busca soluções, mas que é "impedido" - ele lembra que foi castrado - criando também um discurso em que os malfeitores são sempre os outros.
Mas é pura prestidigitação. O vilão não consegue esconder a sua natureza. O "não estou nem aí" - quando fala sobre leitos de UTIs é visível, ao se referir à compra de "material para entubação". Sim, o corpo fala. Com um gesto padrão de quem se "livra do problema", joga o papel em que está o lembrete sobre as ações do desgoverno dele, passa ao tema seguinte sem parar um segundo que seja para mostrar apreço, respeito por aqueles que são os personagens mais trágicos da pandemia: os doentes, os mortos, os parentes, o povo exposto à insanidade da gestão da pandemia.
Sim, o capitão deputado não está nem aí. Em apenas três minutos confirma, ao vivo e em cores: autoritarismo, despreparo, desorganização. Na contramão da realidade, usa o tempo para criar inimigos e fugir à responsabilidade. Até que a sociedade diga: capitão, não estamos mais aí para você.
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Opinião: Olga Curado - Esquizofrenia da comunicação mostra confusão mental e Bolsonaro isolado


Olga Curado
Colunista do UOL
31/03/2021 15h43
A nau do capitão está desgovernada. E ele quer que o seu desgoverno chegue como um rastilho de pólvora nos fundões do país, nas cidades, e em seu nome instale o caos. Foi o que ele fez hoje, pré-anunciando e torcendo para uma convulsão social. E reclamando que as pessoas ficam em casa como medida de precaução e preservação de contágio com o coronavírus.
O ex-deputado federal por 27 anos, morador dos fundos da Câmara Federal, quer agora que as pessoas voltem ao trabalho. É a resposta dele para o combate à pandemia. Ao prestar uma homenagem ao trabalho poderia dar o exemplo. Ele mesmo trabalhar.
Aqueles que hoje estão impedidos, pela inépcia do seu governo, de ir para as ruas, estão nessa condição porque o capitão ficou inerte, ficou passeando. Ele não trabalhou e, recostado indolente, estava ao lado dele um general da ativa que desmerece o Exército.
De um lado estão os que aceitam as respostas confirmadas pela ciência: máscara, distanciamento, restrição de circulação e, claro, vacina. O que há de concreto é que o capitão não concorda com nenhuma delas. Faz de conta que aceita a vacina e se vangloria de números de pessoas imunizadas, quando fez tudo para impedir que os imunizantes chegassem ao país.
O presidente do Senado, Pacheco, fala depois da primeira reunião do Comitê de coordenação de combate à pandemia. Só há duas possibilidades hoje: união ou caos. Ou seja, para um resultado que pretenda responder à ansiedade da população por medidas concretas para barrar a tragédia da Covid-19, é preciso unificação de ações e de discurso. Sem novidades em relação ao que todos pedem: leitos, medicação, centralização de distribuição de insumos, gestão mais eficiente na pandemia. E insistiu em que os governadores querem contribuir, somando-se aos agentes públicos.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, comemorou nesta segunda-feira a abertura de mais postos de trabalho formal e deu a receita para restabelecimento da atividade econômica: vacinação em massa. Portanto, parece que há convergência mínima entre algumas autoridades.
Nada disso funciona para o capitão reformado. Tem uma ideia fixa, aquela de que as pessoas querem ir trabalhar e, indo para o emprego, resgatar a economia e evitar a "convulsão social".
A opção dele é pela desconstrução. O imaturo e despreparado capitão não consegue escutar, não entende o que é dito, porque não tem repertório para realizar a escuta. A base da escuta é renunciar à autoridade total. O capitão, infantiloide, acha que o país é um brinquedo dele e dos filhos.
O capitão quis desafiar os generais. Achava que tinha um exército dele. Deu um tiro no próprio pé. Os generais mostraram que a porta de saída é serventia da casa, mas que não se rendem ao capitão expulso do Exército. Este terá que escutar o silêncio das casernas. E, talvez já sabendo disso, tentou um golpe de mão, com atrevida tentativa de sequestrar poder para si. Armou-se sorrateiramente de um requerimento, apresentado pelo preposto major, para passar por cima da Constituição e se tornar o senhor da guerra. O grito foi ensurdecedor. Não funcionou. Por enquanto.
Diante de gestos tão estapafúrdios, o Senado convocou o general Braga para explicar por que foi comprado tanto filé, salmão e outras iguarias pelo Ministério da Defesa. É um pretexto para contar também sobre a tentação do capitão em golpear a democracia. E lhe dar a oportunidade para que faça um exercício público de fé na democracia. Aguardemos.
Hoje o capitão discursou. Nervoso, cambaleante, dando um semi salto para um lado e outro, como quem procura terra firme, boca semicerrada pela raiva, acuado, cabelo na testa - sinal da pressa e dispersão -, inseguro, sem o apoio da sua plateia de ministros. Era o exemplo de um chefete que está bebendo café frio.
Mais cedo, o vice, general Mourão, fala com a imprensa. Enquanto se especula sobre as regras de ocupação dos cargos para comandar as Forças, o general reformado do exército manda um recado ao capitão: antiguidade é posto. A tentativa de subverter a ordem pode contar com o silêncio do Centrão, mas não terá a benção das Forças Armadas.
Vacina sim! Não importa a esquizofrenia do discurso.
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