A COESÃO do CONDOMÍNIO de PODER BOLSONARISTA e a URGÊNCIA da frente AMPLA
A coesão do condomínio de poder bolsonarista e a urgência da frente ampla
Judas e o Messias Negro, expressão da radicalização nos EUA
Lukashenko ordena pouso de avião comercial para prender opositor na Bielorrússia
'Não quero que me venda': o drama do comércio de meninas indígenas no México
JULIETTE, FIUK, BILL e LUCAS ficam de fora de grupo de ex-'BBB's
Queda de cabine de teleférico deixa 14 mortos na Itália
Bob Dylan completa 80 anos como personagem em constante reinvenção de si mesmo
Abdias do Nascimento: 'O genocídio do povo negro foi uma constante em toda a construção do Brasil'
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A coesão do condomínio de poder bolsonarista e a urgência da frente ampla - Daniel Samam
Por Daniel Samam
Todas as pesquisas apontam para a disputa entre Lula e Bolsonaro em 2022. A pesquisa Exame/Ideia, publicada na última sexta-feira (21), indica que Lula teria 45% das intenções de voto contra 37% de Bolsonaro em um eventual segundo turno se as eleições fossem hoje.
Por região, Lula vence Bolsonaro no Sudeste (47% x 38%), e no Nordeste (50% x 35%). A situação se inverte, com Bolsonaro em primeiro lugar, no Norte (64% x 25%), no Sul (45% x 26%), e no Centro-Oeste (42% x 34%). A região Sudeste concentra a maior parte do eleitorado brasileiro, por isso Lula tem uma vantagem no total de votos.
Na avaliação de 54% dos brasileiros, o presidente Jair Bolsonaro não merece ser reeleito para mais quatro anos de mandato. A mesma pergunta em relação ao ex-presidente Lula, este número cai para 50%. A rejeição a Bolsonaro também é alta quando os eleitores são questionados em quem eles não votariam de jeito nenhum. Entre os entrevistados, 39% disseram que não dariam mais uma chance ao atual presidente. Lula aparece com 36%. Ou seja, polarização total.
Ainda não há clareza sobre o derretimento da base de Bolsonaro. E a falta de clareza às vezes gera ilusão. A ponto de ter quem aposte no presidente fora do 2º turno. Caso didático de pensamento positivo, ou para os que gostam de utilizar a expressão em inglês, wishful thinking. A máquina da presidência da república é fortíssima.
Ele, mesmo nos piores momentos, nunca desceu do patamar de 25% de apoio, piso altíssimo. Ano que vem, é provável que teremos algum crescimento econômico - apesar do cenário ainda ser ruim - e a maioria da população estará vacinada, mesmo com o inaceitável e criminoso atraso.
Daí, sobre a aprovação de Bolsonaro, segundo a pesquisa Exame/Ideia ela nitidamente parou de piorar e estabilizou nos 50% de ruim/péssimo nos 22% de regular e nos 25% de ótimo/bom. Esses números praticamente garantem o presidente no segundo turno de 2022. Em resumo, o bolsonarismo segue vivo e perigoso.
Daí, na política, penso que o condomínio de poder bolsonarista segue muito coeso. Para além da ala radical e odienta, os conservadores que compõem a base do governo no Congresso têm tomado a dianteira na defesa de narrativas do combate à pandemia, sobretudo na CPI. Vejam, o depoimento do general Pazuello simbolizou isso, a meu ver. Inclusive, acho que o general foi subestimado pelos senadores de oposição. Ele respondeu a quase tudo, se enrolou algumas vezes, é verdade, mas defendeu a narrativa e cumpriu sua principal tarefa: blindar o presidente.
Outro dado dessa coesão se deu na Câmara. Na aprovação da MP da privatização da Eletrobrás, a base do governo conseguiu colocar os liberais e as esquerdas no mesmo lado do ringue, contra os absurdos contidos na Medida Provisória do governo federal. Mesmo assim, a base parlamentar que compõe este condomínio de poder bolsonarista aprovou a MP que permite a venda de uma empresa estatal estratégica como é a Eletrobrás.
O próprio orçamento paralelo do governo que está sendo tratado por um viés moralista da corrupção pura e simples, quando na verdade, o "bolsolão" nada mais é do que a organização da campanha presidencial de 2022 e, de quebra, vitaminando e consolidando este condomínio de poder no Congresso.
Não vai ser simples derrotar o bolsonarismo em 2022. E, em ganhando, há o outro problema, que é assumir e governar. Pra ganhar, assumir e levar é preciso juntar gente, passar por cima de divergências, agrupar e fazer acordos e alianças para o 1º e 2º turnos. E entende-se por acordo e aliança, quando feitos com quem pensa diferente. Não tem saída, pessoal. É frente ampla pra ganhar e frente amplíssima para assumir e governar.
Judas e o Messias Negro, expressão da radicalização nos EUA - Juca Simonard
Por Juca Simonard

Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah) é um filme lançado em fevereiro de 2021 e dirigido por Shaka King. Retrata o esquema do FBI para assassinar Fred Hampton (Daniel Kaluuya), líder dos Panteras Negras de Illinois. O roteiro, escrito por King em parceria com Will Berson, conta a história da traição de William O’Neal (Lakeith Stanfield), informante do FBI, aos Panteras Negras no final da década de 1960.
Com a crise do regime imperialista norte-americano, assolado pela polarização política e o crescimento da luta do povo negro, temas como o enfrentamento do negro à extrema-direita – Infiltrado na Klan (2018, Spike Lee) – e a opressão da população negra – Corra! (2017, Jordan Peele), também com a participação de Kaluuya – têm voltado ao cinema norte-americano.
Radicalização da luta do negro
A diferença de “Judas e o Messias Negro” para as produções anteriores, entretanto, é que o filme expressa com muito mais clareza a radicalização política nos Estados Unidos atual. Um resultado das mobilizações enérgicas que tomaram conta dos EUA em 2020 e 2021 contra o extermínio da população negra pelo Estado policial. Neste sentido, em apoio aos atuais protestos, Shaka King buscou recordar a luta do povo negro na década de 1960, quando o centro do imperialismo mundial foi assolado por um amplo movimento de características revolucionárias.
A radicalização atual foi transmitida para outra época, o fim dos anos 1960, após a morte de Martin Luther King Jr., Malcolm X e as manifestações de 1968. Já no início do filme isto é representado com filmagens reais da época mostrando a radicalização política daquele período.
Da mesma forma, um dos primeiros discursos de Hampton também mostra a atualidade do longa-metragem. O líder dos Panteras Negros em Chicago destaca a luta revolucionária contra a política reformista do movimento negro. Ainda, percebe-se o desagrado do dirigente negro com as políticas identitárias, do “Black Pride” (Orgulho Negro), que não por acaso surgiram justamente neste período da História.
A radicalização é expressa a todo momento no filme, tanto através dos enfrentamentos armados entre os Panteras Negras e a polícia, quanto pela representação de mobilizações de massas da época, passando pelas ideias transmitidas pelos personagens. Vale destacar, por exemplo, a cena em que o infiltrado William O’Neal conhece o militante Mark Clark, que revela ter saído do NAACP para se juntar aos Panteras Negras pela insuficiência do movimento negro reformista e pequeno-burguês.
Política fascista do Estado
“Judas e O Messias Negro”, ainda mais, reforça o caráter fascista do Estado capitalista e da polícia norte-americana. De um ponto de vista mais geral, retrata a intensa repressão policial aos Panteras Negras que se seguiu ao refluxo do movimento de 1968 e a prisão e exílio dos principais dirigentes do partido, como Bobby Seale, Huey Newton e Eldridge Cleaver. É justamente neste momento que Hampton aparece com o principal porta-voz da organização revolucionária, fazendo dele um alvo a ser abatido pela polícia.
O filme mostra diversos aspectos da repressão estatal contra as forças combativas do povo: falsificação, política de aniquilamento e encarceramento, farsa judicial para prender lideranças com base em justificativas fajutas, tortura, entre outras coisas.
Ao contrário do que busca apresentar a imprensa burguesa, através de seus malabarismo tradicionais, o filme não é uma mera denúncia do racismo policial, que nem mesmo é o foco da produção. Além de fazer um apelo à luta revolucionária, a obra de King revela a polícia como uma organização fascista para reprimir a luta e aniquilar os insurgentes. No auge da repressão retratada pelo filme, cenas mostram militantes sendo assassinados um por um, foragidos, exilados, presos, etc.
A polícia invade e queima a sede da organização, assassina um militante negro no leito do hospital, brutaliza mulheres grávidas e assim por diante. Inclusive, nos letreiros finais do filme, o diretor mostra a intensidade da repressão, revelando que alguns militantes dos Panteras Negras estão presos até hoje.
Para dizimar a organização, a polícia se utiliza de métodos inescrupulosos. O infiltrado William O’Neal é um criminoso comum, um assaltante de carros, que é pego, torturado e chantageado pela polícia para fazer o trabalho sujo de delatar os planos dos Panteras Negras.
Em muitos momentos, O’Neal é retratado como uma espécie de mercenário, um alpinista social, sem escrúpulos, mas esta característica vai se enfraquecendo à medida em que o infiltrado vai convivendo com a organização. O mercenário do início é contraposto a um indivíduo confuso, sem convicções no que faz, remoído por ter feito um acordo com o diabo, do qual ele não consegue se afastar nem mesmo após ter terminado o trabalho sujo – ao qual ele foi chantageado a fazer – e que vai acompanhá-lo até o fim de sua vida.
Enfim, são amplos os métodos para o Estado capitalista esmagar os insurgentes, e o filme deixa isso muito claro. Os discursos de J.Edgar Hoover (Martin Sheen), chefe do FBI, contra o surgimento de um “messias negro” são reais e estão presentes no Programa de Contrainteligência do FBI, que colocou como principal inimigo do regime o movimento nacionalista negro.
Neste sentido também, o filme demonstra a farsa do discurso “contra a polarização” da burguesia. O agente do FBI Roy Mitchell (Jesse Plemons), em determinado momento, justifica ao informante a política para destroçar os Panteras Negras, argumentando que eles são o outro lado da moeda da Ku Klux Klan (organização fascista branca). Sendo que, na realidade, o inimigo do Estado não são os fascistas, mas os revolucionários. Até porque, como mostra o filme, os próprios agentes da polícia são extremamente racistas, ao estilo da KKK.
Organização dos Panteras Negras
Outro ponto que chama atenção no filme é a organização política e social dos Panteras Negras. Primeiro, revelando que o partido não tinha a política sectária que uma parte do movimento negro tinha na época, contra o branco em geral. A política, atualmente reproduzida pelos identitários, coloca o branco em contraposição ao negro, desconsiderando a luta de classes.
Já a política dos Panteras Negras é de unificar o movimento com organizações de trabalhadores brancos, grupos porto-riquenhos e gangues negras para levar um luta conjunta contra o Estado capitalista, carrasco de todos estes setores.
Segundo, mostrando como os Panteras Negras eram extremamente organizados, realizando cursos teóricos de formação política dos militantes, realizando cantinas populares para alimentar a população dos bairros negros, enfim, amparando com programas sociais as classes populares jogadas na pobreza pelos capitalistas.
O filme mostra um partido de militantes disciplinados, ao estilo militar para travar uma guerra contra a burguesia; que vão às ruas vendendo jornais para conversar com o povo; que sobrevive através do trabalho coletivo e popular, como nas cenas de reconstrução da sede queimada pela polícia; que tem grande participação feminina; finalmente, uma organização que acredita no lema “Onde há povo, há poder”.
Por estes motivos, é um filme que surpreende.
*O Diário Causa Operária está com nova formatação e agora tem um blogue específico para o CineClube Luis Buñuel, formado a partir do programa que é transmitido toda sexta-feira na Causa Operária TV e em seu canal.
Aproveite e assista o último programa sobre "O cinema e o terrorismo estatal como sistema de dominação", trazendo discussões sobre os filmes Judas e o Messias Negro, Marighella, Tropa de Elite, Dirty Harry e Carandiru :

Lukashenko ordena pouso de avião comercial para prender opositor na Bielorrússia

MOSCOU — Um jovem blogueiro e ativista crítico do presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, foi preso neste domingo depois que seu voo, que saiu da Grécia com destino à Lituânia, foi obrigado a realizar um pouso de emergência no aeroporto de Minsk, a capital bielorrussa. A mudança de rota da aeronave comercial foi ordenada por Lukashenko, segundo um comunicado do serviço de notícias da Presidência da Bielorússia citado pelo New York Times.
O jornalista e ativista Roman Protasevich, de 26 anos, havia sido posto em uma lista de procurados após grandes protestos de rua em 2020, que ocorreram depois que Lukashenko, no poder desde 1994, foi declarado vencedor da sexta eleição consecutiva para a Presidência, em um pleito que seus opositores afirmam ter sido fraudado — a União Europeia não reconheceu o resultado.
A aeronave da Ryanair, que voava de Atenas para Vilna, a capital lituana, estava a poucos minutos de entrar em espaço aéreo lituano quando mudou de direção e foi escoltada até Minsk por um MiG-29, um avião de combate, porque supostamente havia explosivos a bordo, de acordo com um rastreador de voos na internet e a agência de notícias oficial BelTA. No entanto, nenhuma bomba foi encontrada.
Um comunicado do serviço de notícias da Presidência da Bielorrússia confirmou que Lukashenko pediu pessoalmente que um caça escoltasse a aeronave até Minsk. Segundo o texto, o presidente deu uma "ordem inequívoca" para "fazer o avião dar meia volta e pousar".
O avião ficou por sete horas em Minsk, e, após a prisão do jornalista, partiu em direção a Vilna. A primeira-ministra da Lituânia, Ingrida Simonyte, foi ao aeroporto esperar os passageiros.
O episódio levou o presidente da Lituânia, Gitanas Nauseda, a condenar as ações da Bielorrússia, exigindo a libertação de Protasevich e pedindo uma resposta internacional.
— Peço aos aliados da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e da UE que reajam imediatamente à ameaça representada à aviação civil internacional pelo regime da Bielorrússia. A comunidade internacional deve tomar medidas imediatas para que isso não se repita.
Asta Skaisgiryte, assessora do presidente da Lituânia, disse que a operação para forçar o pouso do avião que transportava 170 passageiros de 12 países parece ter sido planejada com antecedência. Segundo ela, os serviços de inteligência bielorrussos sabiam quem estava a bordo da aeronave, e o ativista morava em Vilna desde novembro.
O episódio gerou condenação internacional, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, dizendo que a ação da Bielorrússia foi "um sequestro" e "totalmente inaceitável". A Alemanha cobrou uma explicação imediata e o primeiro-ministro da Polônia chamou o ocorrido de "ato repreensível de terrorismo de Estado". Já o primeiro-ministro da Grécia, Kyriakos Mitsotakis, classificou o desvio do avião comercial como "sem precedentes e chocante".
A Ryanair afirmou que nenhum explosivo ou qualquer outro tipo de equipamento perigoso foi encontrado após ter sido notificada de uma possível ameaça à segurança do voo pelo controle de tráfego aéreo da Bielorrússia.
Em comunicado, a empresa informou que uma inspeção de segurança foi realizada por autoridades locais nos passageiros, pedindo desculpas pelo atraso "que estava fora do controle da Ryanair".
Uma das principais opositoras de Lukashenko, a ex-candidata presidencial Svetlana Tsikhanouskaya — que também está exilada na Lituânia — condenou o ocorrido e pediu uma investigação: "O regime forçou o desembarque do avião da Ryanair em Minsk para prender o jornalista e ativista Roman Pratasevich. Ele enfrenta pena de morte na Bielorrússia. Exigimos a libertação imediata de Roman, uma investigação da Organização da Aviação Civil Internacional e sanções contra a Bielorrússia", escreveu Tsikhanouskaya no Twitter.
Protasevich é um dos fundadores do serviço de notícias opositor Nexta, um canal do Telegram que se tornou uma das principais fontes de notícias sobre manifestações na Bielorrússia. Ele também atua na coordenação dos protestos.
Lukashenko empreendeu uma violenta repressão aos protestos de 2020 após sua contestada reeleição. Cerca de 35 mil pessoas foram detidas desde agosto, segundo grupos de direitos humanos. Dezenas receberam sentenças de prisão, e as autoridades dizem que mais de mil processos criminais foram abertos.
A UE não reconhece o resultado do pleito e considera que o governo de Lukashenko carece de "legitimidade democrática". Segundo organizações internacionais de monitoramento, a Bielorrússia não tem eleições livres desde os anos 1990.
O dia em que Israel começou a morrer
“Lançar uma bomba é mais uma confirmação do que uma refutação”, escreveu Jorge Luís Borges. “É como dar razão ao adversário, mas de um modo terrível”.
A frase de Borges se instala na minha cabeça enquanto, na segurança do meu escritório, vejo pela televisão as bombas israelenses derrubando prédios na faixa de Gaza — gritos, nuvens de poeira, crianças soterradas. Um jornalista comenta que já foram mortas mais crianças do que combatentes do Hamas.
Vivi num país em guerra civil, escutando justificações para atos injustificáveis. Os argumentos de quem comete esses crimes são sempre os mesmos: 1) ele começou primeiro. 2) ele fez pior.
Eu, que durante todos esses anos de guerra civil nunca apoiei nem um lado nem outro — estive sempre do lado das crianças mortas —, passava horas me esforçando por mostrar o óbvio: 1) não interessa quem começou. 2) se, para combater um inimigo, você tiver de executar crimes idênticos, é porque já se transformou nele.
Dois inimigos podem não concordar em nada, mas estão de acordo no fundamental: em fazer a guerra. Ora, não há nada que aproxime tanto quanto a partilha da crueldade. É por isso que antigos combatentes gostam de se reencontrar e conviver, depois que a guerra termina. Estive — como jornalista — em alguns destes convívios. Ouvi muitos ex-militares recordando com saudade o tempo das lutas. Não raras vezes, tais convívios terminam por estender-se também aos antigos inimigos. No fim, acabam todos à mesma mesa, comendo e bebendo, recordando com alegria como se matavam uns aos outros.
Os pacifistas, esses sim, são o inimigo eterno dos beligerantes. Sem surpresa, quando uma guerra deflagra, aqueles que se opõe a ela costumam ser os primeiros a enfrentar o pelotão de fuzilamento. Para as partes em confronto, o pacifista é muito pior do que o inimigo, porque é inimigo da própria guerra.
Assim, estou consciente da pouca utilidade de argumentar contra uma guerra enquanto ela decorre. Não consigo, contudo, permanecer em silêncio diante daquilo que está ocorrendo na Faixa de Gaza. Primeiro, em razão da desigualdade de meios — que é, como quem diz, da desigualdade de mortos. Depois, porque quanto mais olho para Israel, nos dias de hoje, mais eu vejo a África do Sul do tempo do apartheid. Também os bôeres — descendentes de huguenotes holandeses e franceses expulsos da Europa — acreditavam na ideia de que Deus lhes oferecera o extremo sul da África como refúgio e terra santa. Armados dessa crença, expulsaram os povos nativos das suas terras, inventaram uma língua e um desígnio, alteraram a toponímia dos lugares, e criaram uma democracia onde só eles tinham direitos. O apartheid acabou caindo, e os descendentes desses bôeres estão agora expiando os pecados dos pais.
A 19 de julho de 2018, o Knesset aprovou uma lei consagrando Israel como uma “nação judaica”, e o hebreu como única língua oficial; isto, num país que tem 20% de cidadãos árabes. Foi nesse dia que Israel começou a morrer. Regimes assentes no ódio e em políticas de apartheid e exclusão dificilmente perduram. O ódio é fraca argamassa.
Juliette, Fiuk e mais dois ficam de fora de grupo de ex-'BBB's - Patrícia Kogut, O Globo

Juliette, Fiuk, Bil e Lucas ficaram de fora do grupo que os ex-participantes do "BBB" montaram num aplicativo de mensagens. O nome escolhido foi "Manutenção externa", em referência ao aviso que aparecia nos televisores da casa quando a equipe precisava fazer arrumações do lado de fora.
A informação foi revelada durante uma entrevista de Kerline Cardoso, a primeira eliminada do programa, no canal de Matheus Mazzafera no YouTube. Depois que ela contou que todos se falam no grupo do app, ele quis saber quem não foi incluído. Diante do silêncio da influenciadora, Mazzafera entrou em contato com Thaís Braz, que, então, entregou os nomes de Juliette e Fiuk. Depois, Kerline acabou acrescentando que Bil e Lucas também não fazem parte.
Kerline ainda comentou sua relação com Lucas. Os dois brigaram na casa, e esse foi um dos motivos da eliminação dela. A influenciadora conta que tentou entrar em contato com ele, mas não conseguiu:
- Para ele não é interessante conversar comigo. O que eu vou agregar a ele? (Falta de) Tentativa não foi. A gente mora no mesmo prédio. E ele teve a oportunidade de falar comigo no "BBB dia 101". Mandei inúmeras mensagens. A minha assessoria inclusive tentou entrar em contato com a assessoria dele. Eu não tenho nada contra ele, ele sabe disso muito bem. Eu queria que a gente ficasse numa boa. Mas para ele não foi interessante.
Veja no vídeo abaixo:
Queda de cabine de teleférico deixa 14 mortos na Itália

STRESA — A queda da cabine de um teleférico causou a morte de 14 pessoas neste domingo em Stresa, cidade da região italiana do Piemonte, às margens do Lago Maggiore. Segundo os serviços de resgate, entre os mortos estão um menino de nove anos e turistas alemães. Uma outra criança, de 5 anos, está hospitalizada e passa por cirurgia para fraturas múltiplas.
O acidente ocorreu por volta do meio-dia (horário local) a 100 metros da última estação do teleférico e pode ter sido provocado pelo rompimento de um cabo. A cabine com 15 pessoas caiu de uma altura de 20 metros, numa encosta íngreme, e ainda rolou diversas vezes até ser parada pelas árvores.
As primeiras imagens do acidente mostram bombeiros e policiais em torno dos restos da cabine em uma área arborizada de difícil acesso.
O teleférico, bastante popular, conecta a cidade de Stresa com o Monte Mottarone em 20 minutos, que fica a uma altura de quase 1.500 metros, e oferece uma vista espetacular dos Alpes e do Lago Maggiore.
— Vim para Stresa com amigos para subir ao topo do Mottarone porque a vista é ótima. Pegamos o teleférico uma hora antes da tragédia. Quando subimos, não notamos nada de estranho no cabo, estava tudo normal — disse Luisa Tesserin, estudante de Gênova de 27 anos, que estava passando o fim de semana no lago.
A promotoria de Milão abriu uma investigação por homicídio culposo e lesões por negligência. O teleférico esteve fechado entre 2014 e 2016 para manutenção.
O presidente italiano, Sergio Mattarella, e o primeiro-ministro, Mario Draghi, expressaram "profunda tristeza" pelo acidente.
Acidentes
O último acidente com um teleférico na Europa foi em 5 de setembro de 2005, quando um bloco de concreto de 800 quilos caiu do helicóptero que o transportava sobre um teleférico perto de Solden, no Tirol austríaco, matando nove esquiadores alemães.
Na Itália, em 3 de fevereiro de 1998, um avião militar americano arrebentou o cabo de um teleférico em Cavalese, uma estação de esqui nas montanhas Dolomitas, matando todos os 20 passageiros. Naquela cidade, em 1976, um rompimento de cabo causou a queda de uma cabine, deixando 42 mortos.
'Não quero que me venda': o drama do comércio de meninas indígenas no México

"Não quero que me venda", pediu Eloina Feliciano em vão à sua mãe. Apesar das súplicas, ela foi mais uma das meninas entregues em casamentos sob um acordo ancestral de compra e venda no estado mexicano de Guerrero.
"Não somos animais (...). Os animais são os que se vendem", conta esta indígena mixteca de 23 anos — vendida aos 14 — da comunidade Juquila Yuvinani, município de Metlatónoc, entre os mais pobres do México.
Nesta comunidade, situada entre as montanhas, algumas famílias tentam erradicar esta prática que persiste em 66 aldeias de Guerrero e que é origem de um ciclo de abusos contra as mulheres e pobreza para os homens.
Os dotes cobrados pelos pais das noivas, que só aceitam esposos desta mesma região, variam entre US$ 2 mil e US$ 18 mil dólares, segundo moradores locais.
— As meninas ficam em absoluta vulnerabilidade. Sua nova família as escraviza com tarefas domésticas e agrícolas e, às vezes, os sogros abusam sexualmente delas — denuncia Abel Barrera, antropólogo e diretor da ONG Tlachinollan.
Devido à "crescente precariedade" dessas aldeias, acrescenta ele, "a ritualidade ancestral indígena de entrega das donzelas por dote a partir de sua primeira menstruação foi diminuindo, e agora as crianças são mercantilizadas".
Dos quase 2.500 municípios mexicanos, cerca de 620 são indígenas e 420 deles são regidos por práticas e costumes tradicionais reconhecidos pela Constituição.
Em Metlatónoc, de 19 mil habitantes, 94,3% carecem de serviços básicos em suas casas, e 58,7% têm dificuldades para se alimentar, segundo o instituto nacional de estatística, INEGI.
Os indígenas representam 10,1% dos 126 milhões de mexicanos e quase 70% vivem na pobreza, de acordo com outros estudos oficiais.
'Posso fazer o que quiser com você'
"Eles te fazem sofrer pelo simples fato de terem te comprado", disse em mixteco Maurilia Julio, uma parteira de 61 anos, também vendida quando criança e que se recusou a dar o mesmo destino às suas filhas.
Maurilia amassa e coloca no forno as grandes tortilhas de milho, principal alimento de sua família. Na cabana de chão de barro onde mora, sua filha de 18 anos com um bebê nos braços e suas netas a observam.
— Muitas mulheres dizem "eu vou vender a minha filha por 110, 120 mil pesos porque quero dinheiro", e eu sinto muita tristeza ao ouvir essas coisas, porque são suas filhas — lamenta.
A casa onde mora adorna paredes feitas com tijolos de barro e esterco de animais de carga, como a maioria nesta área. As crianças vagueiam junto aos cachorros famintos rodeados de moscas.
Já segue o Celina no Instagram?@projetocelina
Junto a um rio de água cinzenta e fedorenta, uma mulher expressa sua rejeição à tradição anonimamente, porque teme represálias de seus vizinhos.
— As mulheres vendidas à força têm que satisfazer o sogro. "Eu paguei por você e posso fazer o que eu quiser", é o que eles dizem — conta esta mãe de duas adolescentes, angustiada porque seu marido poderia repetir a história com suas filhas.
Mais de 3 mil crianças e adolescentes de Guerrero com entre 9 e 17 anos tiveram filhos no ano passado, algumas delas dentro desses casamentos arranjados, segundo dados oficiais.
'Lutamos muito para pagar'
— Queremos que isso mude, mas como as pessoas dizem: "eu faço o que quiser porque tenho a minha filha e ninguém vai mandar em mim", queríamos que houvesse alguém para nos ajudar, que houvesse uma lei para impedir — comenta Víctor Moreno, de 29 anos.
Casado sob a mesma tradição, Moreno se opõe a criticá-la publicamente porque já foi forçado a emigrar para o norte do México para trabalhar e pagar o dote. Outros optam pelos Estados Unidos.
— Somos gente pobre, não temos dinheiro para comprar uma nora que se case com nossos filhos e lutamos muito para pagar — acrescenta este pai de dois meninos.
Benito Mendoza, membro da organização Yo quiero, Yo puedo (Eu Quero, Eu Posso em tradução livre), ministrou oficinas de conscientização em mixteco até que ficou sem dinheiro em fevereiro passado.
— Os pais cobram porque acreditam que devem recuperar o o que foi gasto com as mulheres durante sua criação — explica.
Virgilio Moreno, líder comunitário de 72 anos, afirmou que apenas 300 pessoas aceitaram abandonar a prática, e exige atenção das autoridades federais.
— A maioria continua vendendo suas filhas — lamenta Eloina, vendida por US$ 2 mil.
Bob Dylan completa 80 anos como personagem em constante reinvenção de si mesmo

RIO — "Que suas músicas sejam cantadas para sempre/ E que você se mantenha jovem para sempre". Os versos de "Forever youg" traduzem a trajetória de um artista que desafia os modismos do tempo. Completando 80 anos nesta segunda, 24, Bob Dylan se mantém eterno, assim como suas músicas. A pandemia o tirou dos palcos temporariamente, mas ele continua produzindo como um garoto. O seu 39º ábum de estúdio, "Rough and Rowdy Ways", saiu em junho do ano passado e recebeu ótimas críticas.
Para compreender a perenidade do trabalho do artista, pedimos a quatro admiradores escreverem sobre suas facetas. Temos tanto o Dylan cantor e compositor, quanto o escritor vencedor do Nobel por sua originalidade poética, ou o artista plástico quase amador que expõe sua sensibilidade figurativa. Não menos importante, há ainda o personagem, que construiu sua lenda em uma constante reinvenção de si.
Like a rolling stone
A canção que transformou o cantor folk Bob Dylan em um astro de rock. Mais que um sucesso pop, tornou-se o hino de uma geração que começava a se libertar das amarras da sociedade. Em 1995, 30 anos depois de ser lançada, foi gravada pelos Rolling Stones (que não têm nenhuma relação com a letra).
Tangled up in blue
Canção cubista que Dylan lançou no disco "Blood on the tracks", de 1975. O jornal "The Telegraph" a definiu certa vez como "a letra mais deslumbrante já escrita, uma narrativa abstrata de relacionamentos feita em uma mistura amorfa de primeira e terceira pessoa, juntando passado, presente e futuro".
Jokerman
De volta ao mundo secular depois de uma conversão ao Cristianismo, Bob Dylan gravou em 1983 o álbum "Infidels", com produção de Mark Knopfler, discípulo seu e guitarrista dos Dire Straits. "Jokerman" é uma das grandes canções políticas de Dylan, mirando os populistas que engambelam a população.
Love sick
Música do disco "Time out of mind" (1997), considerado a volta de Bob Dylan aos bons tempos depois de uma conturbada década de 80, "Love sick" foi escolhida pelo artista como o número a ser apresentado na festa de Grammy de 1998. Um pedaço sombrio da personalidade de Dylan, então já bem na entrada dos tempos da velhice.
Mississippi
Canção que Bob Dylan fez nas sessões de "Time out of mind", mas só gravou depois, em 2001, no disco "Love and theft". A revista "Rolling Stone" a elegeu a 17ª melhor música da década e a descreveu como "uma canção de amor que parece resumir toda a carreira de Dylan, e um clássico que está pau a pau com 'Tangled up in blue'".
Duquesne whistle
Tá certo que, nos anos 2010, Bob Dylan lançou apenas um álbum de inéditas, "Tempest", em 2012. Mas esse aceno ao saudosismo (fala de um velho serviço de trens), meio rockabilly, que abriu os trabalhos do disco tem lá seu valor. "Ouça o apito do Duquesne / soando como se fosse varrer o meu mundo pra longe", canta ele.
Enquanto o mundo se prepara para a data, vale ficar de olhos nos tributos mundo afora (ainda que um tanto limitadas por conta da pandemia). A gravadora Low lança em junho o álbum "Uncut's Dylan Revisited" (2021), com nomes Thurnston Moore, Low e The Flaming Lips reinterpretando clássicos. A sua amiga — e também lenda musical — Patti Smith faz show neste domingo em homenagem a Dylan no Spring Festival de Nova York.
O homem que não está lá

Então o xerife Pat Garrett, com o bigode de matador e na pele do titânico ator James Coburn, entra numa taberna perdida nas planícies poeirentas do Novo México e enquanto as portas de vai e vem ainda balançam, encara o balconista e dispara:
"Qual o seu nome, garoto?"
"Alias", responde o sujeito de cabelos revoltos e nariz de águia.
"É um bom nome", admite o homem que matou o facínora.
O diálogo faz parte do crepuscular western "Pat Garrett & Billy, the Kid", de Sam Packimpah, com Kris Kristoferson no papel de Billy. O roteiro foi escrito pelo wiz kid Rudy Wurlitzer, que sugeriu que a trilha sonora fosse feita por Bob Dylan. Quando Dylan aceitou, Wurlitzer criou um personagem sob medida para o cantor. E deu-lhe aquele que, mais do que apenas “um bom nome”, era a alcunha perfeita para Dylan.
Nascido em 24 de maio de 1941, Robert Zimmerman morreu em 1958, para renascer como Alias no instante em que Bob Dylan irrompeu em cena para substitui-lo. A questão é que o Bob Dylan original – mero imitador de Woody Guthrie com uma voz improvável e repertório de segunda mão – não coube em si mesmo. E assim, certa manhã, ao despertar de sonhos inquietos, Dylan voltou a se reinventar. Aí, tomou gosto pela coisa e jamais deixou de fazê-lo. Assim, quem pronuncia seu nome deve especificar a quem está se referindo. Bob Dylan? Qual deles, cara pálida?
'Subterranean homesick blues'
As cortes muitas vezes deixam de lado o testemunho de especialistas quando o assunto é de conhecimento comum. Tanto a corte estadual quanto a federal na Califórnia citaram Dylan para explicar isso: “You don’t need a weatherman to know which way the wind blows.”
Fraude contra consumidores
Em vez apresentar qualquer documentação para apoiar sua argumentação, como provar que seus veículos estavam em outro lugar naquele momento, o réu prefere usar o apelo "It ain't me, Babe".
Discriminação sexual
O Ato de Direitos Civis de 1964 foi o ponto final em décadas de debates e manobras políticas sobre várias propostas. Foi nessa época que Dylan alertou, “Come senators, congressmen, please heed the call. Don’t stand in the doorway, don’t block up the hall.”
Direito administrativo
Demandantes não podem alegar um prejuízo para os seus interesses de visualização de ursos se eles não acreditam haver ursos na área. “If you’ve got nothing, you’ve got nothing to lose.” B. Dylan, “Like a Rolling Stone,” on “Highway 61 Revisited” (Columbia Records, 1965).
Antitruste
A seguinte letra, que coloca o status de um indíviduo no universo em contexto, pode ser facilmente aplicada ao universo legal: “You may be a state trooper, you might be a young Turk/You may be the head of some big TV network/But you’re gonna have to serve somebody.”
O querubim imberbe (com uma granada no bolso), da capa do primeiro disco? O sonhador enamorado, “cantor de protesto”, de braços dados com a namorada, trotando pelas ruas do Village, forever young? O angry young man anunciando que os tempos estão sempre mudando? O roqueiro de cabelos hirsutos, óculos e letras indevassáveis? O hippie rural criando filhos e galinhas em sua arcádia particular nas montanhas de Woodstock? O cowboy estilo Billy, the Kid batendo às portas do paraíso? O profeta com a garganta repleta de trovões antes do dilúvio de 1974? O cara-pálida pintado de Rolling Thunder, soltando furações e Hurricane? O pastor evangélico ensandecido, que encontrou Cristo em um de motel de beira de estrada? O incansável Dylan da Never Ending Tour? O crooner emulando estilhaços de Sinatra?
Bob Dylan é um e é único, mas também é todos esses aí e mais alguns. Bob Dylan é um fingidor a fingir que é dor a dor que deveras sente. Bob Dylan, como Rimbaud, é outro – um heterônimo etéreo, talvez eterno. Bob Dylan não está nem aí, mas está bem aqui, na nossa cara, há 80 anos. Mas se você decidir procurá-lo, é bom saber que Bob Dylan não estará lá.
Canções hipnóticas

Bob Dylan é um letrista genial. Não poucas vezes ouvi essa afirmação feita no sentido de dizer que, como compositor e intérprete, ele não seria tão bom assim. Compreendo que diante do caudal poético de suas letras, especialmente depois de reconhecidas com um Nobel, tal julgamento pareça justo, mas discordo. Acho-o superficial e preconceituoso.
Superficial porque melodia, harmonia, letra e interpretação são, no caso, indissociáveis, cada uma somando-se com perfeição à potência expressiva da outra. Preconceituoso porque se baseia na simplicidade dos acordes, na repetição e circularidade da forma e num canto cuja voz parece brotar das palavras e não o contrário. Sobre esse canto, signo do amálgama artístico, disse John Lennon: “Não precisava ouvir a letra, só o jeito como cantava, como se o meio fosse a mensagem.”
As letras de Dylan mudaram ao longo dos anos, nos temas, na poética. O letrista movimentou-se com desenvoltura e risco pelas instâncias do existir. Já o compositor devotou-se à construção de um sólido leito com margens feitas de acordes perfeitos maiores e menores destinado a dar vazão à torrente e fazê-la avançar sem perdas na paisagem. Nem mesmo às eventuais sequências inusitadas de acordes básicos encontradas em Beatles ou Radiohead ele cedeu.
Épicas, melancólicas, amorosas, políticas ou religiosas, canções hipnóticas de estribilhos gloriosos e inesquecíveis multiplicaram-se, diversificaram-se, complexificaram-se sobre essa base austera e eficaz que aspira à invisibilidade. Mas como desenvolver uma longa canção sem que a melodia se torne um fardo ou de modo que a letra leve o ouvinte às alturas e profundezas sem que a viagem se faça sentir? As palavras devem fluir numa melodia que, em notas, inflexões ou divisão rítmica, pareça acercar-se e afastar-se de si mesma, quando não reinventar-se inteira nas performances ao vivo. A voz de Dylan, cujo timbre amplifica a pungência do conjunto, garantirá a cada compasso o arrebatamento sempre renovado da expressão.
O Nobel de 2016 foi um acidente quase irrelevante para a carreira de Bob Dylan – e isso diz muito sobre ele, já que é difícil pensar outra pessoa para quem essa frase seja possível. Bem a seu modo discreto, Dylan nem foi ao jantar de gala em Estocolmo, sonho de dez em cada dez estrelas do mundo literário. Mandou um discurso e só. O prêmio mesmo foi recebido meses mais tarde, sem grande alarde.
Dylan nunca foi um sujeito do establishment literário. De todos os vencedores do Nobel de Literatura, em mais de 100 anos de premiação, talvez seja o que tem menos livros publicados. Além dos dois volumes de memórias, as Crônicas (que nome mais feliz para a autobiografia de um sujeito com ares de menestrel), resta só o pequeno Tarântula.
Um estranho aglomerado de textos vanguardistas publicado na juventude, "Tarântula" tem a marca dos anos 60: Dylan funde o gosto pela música americana, especialmente pela música negra (a primeira palavra do texto é Aretha; há um poema baseado em Leadbelly) com uma imersão no espírito rebelde da poesia ultramoderna que leu na juventude. Embora interessante, jamais lhe renderia a imortalidade.
Na verdade, Dylan serviu bem mais ao Nobel do que o contrário. A premiação de vez em quando gosta de fazer uma surpresa, até para mostrar que está viva. Um dos problemas é que com isso acaba esquecendo titãs literários como Tolstoi e Joyce. Mas as premiações midiáticas também têm seu valor.
No caso de Dylan, aparentemente uma das intenções foi dar a chancela mais importante da elite intelectual europeia a um autor de letras – e letras de música pop. Porque é evidente que Dylan não foi escolhido por seus livros, e sim pelos textos que recita há quase sessenta anos, embalados por música.
Admitir que o prêmio teve um interesse midiático não significa negar os méritos do poeta. Dylan tem um domínio impressionante da forma, sabe mexer com as sonoridades da palavra e fala de temas importantíssimos não só para a vida americana. É um poeta de mão cheia – e o Nobel nem precisava desviar do caminho para que isso ficasse claro.
Da escuta ao olhar

Imaginem, Bob Dylan vai completar 80 anos amanhã! Martha Argerich, também, no mês que vem. Aqueles que eu ouvia, ainda jovens, chegam aos oitenta. Quem, na minha geração, não se lembra de "Blowin’ in the Wind" ou de "The Times They Are a-Changin"? Ao longo dos últimos 60 anos, Dylan se tornou um dos mais populares compositores e intérpretes da América. Seu merecido sucesso é acompanhado também de uma atividade como artista plástico. Podem não ter prestado atenção, mas na época dos LPs, muita gente tinha nas mãos uma obra do artista Bob Dylan. Seus discos "Self portrait" (1970) e "Planet waves" (1974) traziam na capa obras do pintor Bob Dylan.
Embora tenha sempre desenhado e pintado, sua primeira exposição individual só se deu em 2007, em Chemnitz, Alemanha, na Kunstsammlungen. Boa parte de seu trabalho é realizado durante suas turnês, e tanto podem retratar paisagens como quartos de hotéis, mas existem aqueles de grande formato. A segunda exposição individual foi realizada de setembro de 2010 a abril de 2011, no Museu Nacional da Dinamarca: "The Brazil Series", com cerca de quarenta telas de cenas brasileiras. A capa do catálogo traz uma pintura retratando uma de nossas favelas.
Sua linguagem figurativa é tributária do expressionismo e apresenta uma investigação de linguagem no interior dessa tradição. Se se toca nesse assunto, pensa-se logo no neoexpressionismo alemão da década de 1970 e sua releitura radical das manifestações das primeiras décadas do século XX. Não esperem nenhum Baselitz ou Anselm Kiefer em Bob Dylan, trata-se de uma pesquisa menos audaciosa, pode-se dizer mesmo mais conservadora ou conformista, mas nem por isso sem significância. Nesse mesmo ano de 2011 apresenta, na Gagosian, em Nova York, "The Asia series", fruto de suas viagens pelo extremo oriente. Essa foi sua primeira exposição naquela cidade. Vale a pena conhecer a produção pictórica e gráfica desse neo-expressionista tão famoso pela sua música.
Maria Flor reflete sobre haters, relacionamentos abusivos e maternidade

Os 49 quilos, distribuídos em 1,60m de altura, e o olhar suave de Maria Flor facilmente levariam um observador a tomá-la como frágil. No entanto, é só ela abrir a boca para vir o choque. Ao contrário de muitos colegas de profissão, a atriz, de 37 anos, não teme ser criticada por suas opiniões e faz questão de se posicionar sobre temas espinhosos, como política e maternidade.

Na pandemia, usou seu perfil no Instagram para mostrar a revolta de Flor Pistola, personagem criada para externar indignação diante das notícias. Acabou enfrentando um tsunami de ódio, fake news e até ameaças de morte por causa dos comentários sobre o presidente Jair Bolsonaro.

Foi também durante a quarentena que a atriz pôs o ponto final no livro “Já não me sinto só”, romance lançado no mês passado pela editora Planeta. Entre as gravações do canal Flor e Manu, que mantém na internet com o marido, o ator Emanuel Aragão, para falar sobre relacionamento e sexualidade, e da novela “Um lugar ao sol”, próxima trama das nove da Globo, em que vai interpretar uma manicure vítima da violência doméstica, a atriz conversou com a ELA.
O GLOBO: Como surgiu a ideia de fazer o livro?
Comecei a escrevê-lo em 2017 para ser um roteiro de filme. É a história de uma mulher que termina um relacionamento de anos e se encontra perdida, sem saber como se reinventar. Quando a gente encerra uma relação, precisa virar outra pessoa. Por mais que seja duro, e às vezes a gente não se sinta incrível, é necessário perceber que consegue dar conta. A lição do livro que fica é para cima, de que você pode tudo. Só que, no meio do caminho, vi que ia dar muito trabalho transformar o projeto em filme e acabei mostrando o texto para um editor da Planeta. Ele gostou da sinopse e perguntou se queria fazer o “Já não me sinto só”. Era um desafio porque escrever exige disciplina. Só terminei agora, na pandemia.

A personagem se chama Maria e também é atriz. A história é autobiográfica?
Algumas partes, sim, outras são pura ficção. Usei meu nome de propósito. A minha ideia é bagunçar a cabeça do leitor e fazê-lo questionar sobre o que pode ser verdade ou não.
Sofreu preconceito por ser uma atriz que escreve?
Sofri, sim. Dei entrevistas para veículos que só cobrem literatura. E fui subestimada, sabe? Não me levaram a sério. Não achei que, quem estava conversando comigo, estava me respeitando.

Qual pergunta mais te incomodou?
Por que o seu livro tem frases tão curtas? Respondi que, independentemente de ele ter frases curtas, minha intenção era contar uma história. E isso consegui fazer. Achei uma falta de respeito. Se tivesse feito frases longas, provavelmente, iam criticar também. Você pode achar o livro uma porcaria, mas é um trabalho. Fiquei triste no dia.
Você vem travando batalhas digitais com o presidente Bolsonaro. Acha importante que pessoas públicas se posicionem?
Não sei se é importante para as pessoas públicas, sei que é importante para mim. Estava cansada de não usar a internet com aquilo que acredito, falando sobre assuntos que me incomodam, que me deixam indignada. Por isso inventei a Flor Pistola. Muita gente não entende que é uma personagem. Como ela não tem uma caracterização, confundem comigo. Mas não acho de todo ruim, não me sinto incomodada por isso. A rede social é assim: esse limite entre o que é ficção e o que é realidade. A vida das pessoas nas redes sociais não é aquilo que elas mostram. Aquele é um enquadramento do que elas decidiram mostrar do cotidiano delas. A Flor Pistola não sou eu, mas tem a indignação que eu tenho sobre alguns assuntos. Confesso que ela me salva. É tanta notícia ruim que a gente está ficando entalado. É bom colocar para fora. Esse governo não nos dá um dia de paz.

Recebe muitas críticas por fazer a Flor Pistola?
No início, muitas pessoas ficavam incomodadas com o fato de ela falar muito palavrão. Quer dizer que uma mulher não pode xingar? Se fosse um homem, isso não seria uma questão. Nossos governantes falam palavrão e todo mundo acha normal. Agora, chega uma mulher falando, é um choque. Isso é machismo, censura.
E os fãs do presidente deixam muitos comentários...
Recebo uma enxurrada de ataques. Já pegaram a minha foto e colocaram em vários perfis bolsonaristas. Você nota que tem uma organização para aquilo se espalhar com velocidade. Quando inventei a personagem, sabia que poderia ser atacada, mas não imaginava que fosse tão agressivo. Conseguiram meu celular e me mandaram um recado por aplicativo de mensagem, dizendo que sabiam onde eu morava... Fizeram, inclusive, ameaças de morte. Também inventaram que a minha produtora, a Fina Flor Filmes, fez uma captação de 10 milhões pela Lei Rouanet e que eu tinha sumido com o dinheiro.
Já se arrependeu de alguma postagem que fez?
Eu me arrependo de ter feito um comentário sobre o presidente num vídeo do Flor e Manu. Nosso canal não tem nada a ver com política. Disse que queria esfregar a cara dele no asfalto quente. Era uma figura de linguagem, mas caí nas redes bolsonaristas.
O presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, disse que apoiar o presidente é falta de caráter. Concorda?
É um absurdo, mas tenho que pensar que os apoiadores não se informam pelos mesmos meios de comunicação que eu. Quando você participa de grupos em aplicativos de mensagens de bolsonaristas, as notícias compartilhadas são surreais. Existem veículos que consertam as besteiras que o presidente fala.
Você sempre teve esse jeito indignado?
Sempre fui agitada. Hoje, tento ser mais razoável. Não xingo mais as pessoas no trânsito, por exemplo. Mentira! Outro dia, tinha um grupo de ciclistas parado num bar, bebendo, e sem máscara. Passei de carro e gritei: “Bota a máscara, porra!”.
Ainda acha sensato enfrentar a polícia para combater o racismo como fez quando namorava o ator Jonathan Haagensen?
Tive consciência do que aconteceu muito tempo depois. (Numa blitz no morro do Vidigal, onde o namorado morava, Maria Flor gritou com um policial). Quando reagi à polícia, quis defendê-lo. Queria falar que só estavam parando a gente porque éramos uma menina branca com um negro, na favela. Fui inconsequente e fiz ele passar por algo que evitou a vida toda que é parar na delegacia.
Sua personagem, na próxima novela das nove, terá um relacionamento abusivo com o marido. Já passou por algo semelhante?
Suportei ofensas e discussões que hoje em dia sei que extrapolaram o limite do respeito. Toda mulher passa por uma experiência machista na vida. Já tive namorado que me diminuiu, controlou o horário que eu chegava em casa, a minha roupa, a quantidade de bebida, com quem dançava na festa... O machismo básico que existe na sociedade.
Você pensa em ter filhos?
Martim, meu enteado de 7 anos, mora com a gente desde os 3. Então, tenho pensado muito sobre a maternidade. Sinto uma mistura difícil de explicar. Sabe aquela sensação de “Deus me livre, mas quem me dera?” É isso. Quero, mas confesso que tenho receio da transformação que um filho causa na vida de um casal. Rejeito a ideia de que mulheres são obrigadas a ser mães. Ao mesmo tempo, sinto medo de chegar aos 60 e me arrepender. Acredito que tenha que ser uma escolha. Não pode ser uma obrigação. A sociedade impõe isso. Existe cobrança em todas as fases...
Como assim?
Depois que a mulher é mãe, cobram que ela volte à forma antiga rapidamente. Isso sem mencionar o trabalho que é cuidar de um bebê e ter de achar tudo lindo. Nada na maternidade pode ser questionado. É desumano.
Quais outras cobranças te incomodam?
A gente tem ser mãe, casada, bem-sucedida, gostosa e boa de cama. Quem é que consegue dar conta dessa imagem de perfeição? Para os homens é bem mais fácil. A gente também é muito mais julgada quando o assunto é sexo.
Explique isso melhor...
A mulher tem que ser boa de cama para o marido dela. Se for solteira, não pode sair transando com quem ela sente vontade porque é tachada de promíscua. Já avançamos muito, mas o caminho é longo.
Abdias do Nascimento: 'O genocídio do povo negro foi uma constante em toda a construção do Brasil'

Abdias do Nascimento foi um gigante. Ator, escritor, artista plástico, professor universitário e parlamentar com mandatos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o paulista nascido em Franca se tornou um dos maiores ativistas do movimento negro no Brasil. Seu trabalho de denunciar o preconceito racial no país pode ser considerado uma base para a luta por igualdade até hoje. Às vésperas de se completar uma década desde a morte deste cidadão, o Blog do Acervo resgata, neste post, uma entrevista publicada pelo GLOBO em 15 de agosto de 1978.
Naquela época, Abdias do Nascimento era professor de Culturas Africanas no Novo Mundo, na Universidade de Nova York, em Buffalo, nos Estados Unidos, mas estava no Rio para lançar o livro "o genocídio do negro brasileiro". Criador de entidades como o Teatro Experimental Negro e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), o ativista tinha seu discurso marcado por críticas sociais hoje amplamente disseminadas nas redes sociais. Até porque os problemas ressaltados por ele há mais de 40 anos ainda moldam a realidade do Brasil.
Abdias do Nascimento morreu no dia 23 de maio de 2011, aos 97 anos de idade. Leia, abaixo, a entrevista, publicada na época quase como um depoimento, com apenas algumas indagações do jornalista Luiz de Miranda.

Em geral, quando se fala em genocídio, só se pensa que os judeus sofreram essa agressão. Esquecem o que foi cometido contra os índios e principalmente contra os africanos. Enquanto o número de judeus sacrificados foi calculado em cinco ou seis milhões, o de africanos chegou a 200 milhões. Nunca houve na humanidade uma chacina dessa natureza. Essa espécie de genocídio foi uma constante em todo o processo de construção do Brasil.
Um dos instrumentos usados nesse genocídio foi o da destruição das línguagens africanas, os assassínios diretos, a miscigenação, pela maneira como foi efetuada, como uma espécie de compulsão social; a situação que obriga o negro a embranquecer para ter aceitação social e ascensão a qualquer nível em que deseje participar. Na medida em que se torna branco, ele tem mais chance de vencer. Eu não seria contra a miscigenação, se ela ocorresse em um plano de igualdade de condições. Mas ela começou com as violências sexuais praticadas contra a mulher negra pelo colonizador português. Essa linha de violentação da mulher negra continua até os dias dé hoje.
Nos tempos do Império, tínhamos muito mais negros nos círculos decisórios: Os irmãos Rebouças, deputados; o Visconde de Jequitinhonha, que foi ministro do Império. O Rebouças pedia, em certo momento, a impugnação de um determinado ministério do Imperador por não contar com negros.

Hoje, como podemos ver, a situação é bem pior. O racismo íoi institucionalizado desde a abolição da escravatura, quando aconteceu apenas uma libertação formal e pudica. Em verdade, se passou de uma escravidão legal para uma escravidão de fato. Pois ao ex-escravo não foi dado nenhum apoio para reiniciar uma nova vida. Nem mora-dia, alimentação, ou condições econômicas adequadas. O emprego, que teoricamente lhe caberia, como operário livre, passou ao imigrantoe europeu. Então, desde o começo, ele não teve a solidariedade do seu meio social, pois o trabalhador estrangeiro, tão pobre quanto ele, era beneficiado pela segregação.
Esse fato mostra um dos aspectos da extinção da raça negra que denuncio ao longo desse livro. A maioria negra originária do campo continua, até hoje, como pária, e os que tentaram a sorte nas regiões urbanas foram segregados nas favelas, alagados, porões e nas "cabeças de porco", aquelas casas coletivas. Isso constitui uma segregação residencial equivalente à dos "guetos" e do apartheid da África do Sul.
Com o abandono por parte das autoridades públicas, com a discriminação residencial e nos empregos, chegamos à discriminação nos níveis de educação. Então, a desculpa é que o negro não estuda porque não quer ou não tem meios econômicos. Mas não dizem que, para ter capacidade financeira para estudar, ele deveria ter nascido louro e de olhos azuis, de origem europeia.

Houve vários movimentos, vários quilombos, movimentos de resistência cultural. Não adianta tentar livrar a pele, é necessário salvar a integridade do corpo e da alma, a cultura, a religião, a dignidade do negro como um ser completo e não apenas como uma besta de carga.
Hoje continuamos as velhas lutas dos africanos e dos negros do passado e criamos o Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial. As bases desse movimento sãos os "centros de luta", que, por sua vez, existem em todo o lugar onde estejam negros trabalhando e atuando: numa fábrica, num templo de candomblé, numa escola de samba, numa favela, num afoxé, numa universidade. Onde houver três negros que se reúnam para não aceitar a discriminação racial. Já existe uma coordenação nacional que se organizou no Rio, Minas, Bahia, São Paulo, estando
andamento no Rio Grande do Sul, Maranhão e Pernambuco.
Esse trabalho é uma proposição que não tem uma liderança ou figura carismática, é um movimento que não visa atender às bases da realidade negra brasileira — ou seja, um movimento que vem de baixo para cima.
É o negro que está saindo do torpor, da aparente passividade imposta pelo sistema. A diferença entre o momento atual e a época do Teatro Experímerital do Negro e da Frente Negra é que os negros já estão procurando se encontrar uns com os outros dentro de um espirito de espontaneidade. Isso é fácil de entender, pois são séculos de exploração. No momento atual, é muito bom salientar a participação da mulher negra com uma lucidez e uma grande determinação para mudar a situação da sua coletividade racial. Uma dessas pessoas extraordinárias é a professora Lélia Gonzalez.

A luta do negro brasileiro é vista por Abdias corno uma luta em defesa dos direitos humanos, transcendendo os limites da nação, para situar-se no plano internacional. E a sua situação deve ser comparada á de outros países.
Os negros brasileiros estão em condições flagrantemente inferiores àquelas condições desfrutadas pelos negros norte-americanos, No Brasil se fala muito do racismo norte-americano, mas não se menciona que o negro de lá tem sua própria universidade desde o século passado, e, desde as lutas de 1960, em todas as universidades brancas há, de modo geral, de cinco a dez por cento de negros.
Aqui, a população de origem africana é de mais de 60 por cento, e lá de dez a 15 por cento. E não temos nem dois por cento de estudantes universitários. Há estados, como a Bahia e o Maranhão, onde os negros estão completamente marginalizados de qualquer nível de poder. No entanto, são 80 por cento da população. Aqui se usa um racismo sutil ou mascarado, que impossibilita a sua identificação e, automaticamente, o seu combate. Lá, eles têm alta participação nos escalões da República.

O negro no Brasil é visto, de maneira geral, como uma figura pitoresca, folclórica, bom de samba e bom de bola, e também um representante de uma malandragem que nasce quase sempre da marginalização social. Como você vê essa situação?
O papel de protagonista na área do futebol é um pouco enganoso, vem mais do grande número de negros que nela atuam. O Paulo César, que denuncia a discriminação, foi violentamente barrado na última Copa do Mundo. Ele é um tipo de cara que não pede licença ao branco para falar. Por isso, foi humílhado quando da sua não convocação. Esse não é o caso do Pelé, que sempre foi bem comportado.
Na música, o negro é o criador, o artista, mas o grande negócio quem faz são os outros, que usam e exploram o seu talento. As escolas de samba se tornaram mercadoria do turismo, perderam o caráter de criação popular dos negros. A única que está combatendo este estado de coisas é a Escola Quilombos. O racismo contra o negro vem desde que começou a colonização. É claro que o movimento internacional atual de ascensão dos negros pressiona os nossos dirigentes, que jamais quiseram admitir a existência dos negros num plano legítimo de
participação na sociedade brasileira. Eles querem o negro como um cidadão de segunda classe ou desclassificado.
O Interesse nos mercados africanos, atualmente, faz com que essas pessoas tenham de enfrentar a realidade de nossa existência, mesmo a contragosto. E, assim, já se fala na entrada de negros na diplomacia. Mas nós estamos atentos a esse fenômeno, pois não estamos reinvidicando a ascensão apenas de aiguns superdotados. Não queremos flguras simbólicas, mas verdadeiras condições para a afirmação de pessoas negras.


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