O COLAPSO DA DEMOCRACIA
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Estados (des)Unidos
Paul Krugman: A BANALIDADE do COLAPSO da DEMOCRACIA. ___________ Experiência DEMOCRÁTICA nos EUA pode estar se APROXIMANDO do FIM
Bial e Ronaldo: treze anos se passaram e a transfobia permanece
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Opinião - Hélio Schwartsman: Estados (des)Unidos
A tendência é que os estados se tornem cada vez menos unidos.
Votos têm consequências duradouras. Donald Trump já se foi, mas, com as três indicações de juízes para a Suprema Corte que ele teve oportunidade de fazer, deixou uma sólida maioria conservadora no tribunal. E a corte decidiu na semana passada que vai reavaliar a questão do aborto.
Os magistrados vão julgar a constitucionalidade de uma lei do estado do Mississippi que praticamente bane abortos para fetos com mais de 15 semanas. A perspectiva é que a corte relativize ou mesmo reverta o célebre precedente Roe vs. Wade, de 1973, pelo qual se estabeleceu que o aborto é um direito constitucional da mulher.
Já sentindo o cheiro de mudança no ar, o governador do Texas sancionou dias depois um projeto de lei que bane a maior parte dos procedimentos para fetos com mais de seis semanas. Como a maioria das mulheres só descobre a gravidez com mais de seis semanas de gestação, a norma na prática inviabiliza o aborto a pedido (sem razões médicas).
O interessante é que, mesmo que a Suprema Corte pegue pesado e anule inteiramente Roe vs Wade, o aborto continuará sendo um direito para a maioria das americanas. Na maior parte dos estados, não há a menor chance de as legislaturas aprovarem leis restritivas.
As exceções se concentram em estados do sul e do meio-oeste. Eles são mais conservadores, mas é importante frisar que esse conservadorismo vem sendo multiplicado nos legislativos locais por anos e anos de gerrymandering (o redesenho de distritos eleitorais de forma a favorecer o partido no poder).
O resultado, no final das contas, deverá ser o aprofundamento da cisão ideológico-espiritual que cada vez mais caracteriza os EUA. As diferenças entre liberais e conservadores já não se darão apenas no modo de ver questões como aborto, eutanásia, drogas, armas etc., mas também na maneira de regulá-las e vivê-las. A tendência é que os estados se tornem cada vez menos unidos.

Opinião: Marina Mathey - Bial e Ronaldo: treze anos se passaram e a transfobia permanece

Marina Mathey
26/05/2021 06h00
Pretendia essa semana completar uma trilogia de textos sobre afeto aqui nessa coluna, porém a transfobia tanto não nos dá descanso que me sinto obrigada a falar hoje sobre o episódio do programa "Conversa com Bial" que foi ao ar no dia 20/05, última quinta-feira, onde o apresentador entrevistou o ex-jogador de futebol Ronaldo Fenômeno. É extremamente revoltante e inadmissível - como disse também a cantora Linn da Quebrada sobre o caso, no twitter - assistir ao episódio do programa e ver que treze anos se passaram desde que Ronaldo virou manchete mundial por ter se envolvido com três travestis e pelo visto nada mudou, pelo menos não para o ex-jogador e para o apresentador, no que diz respeito às transfobias enraizadas em seus pensamentos e comportamentos.
Eu tinha quinze anos na época do acontecido e me lembro muito bem do quanto me incomodou assistir ao show de horrores que a mídia e o próprio ex-jogador construíram a partir do fato dele ter convidado três travestis profissionais do sexo para viverem uma noite juntes. Matérias e mais matérias, entrevista no programa Fantástico, da Globo, uma tremenda mobilização e especulação sobre o ocorrido como se fosse o problema mais sério que a nossa sociedade enfrentava no momento, ou pior, o bafão mais vergonhoso, de um ocó que saiu com travestis e depois, com a maior cara lavada, disse que não sabia que eram travas, as moças, que pensou que fossem cisgêneras - aqui traduzo com minhas próprias palavras, pois ele mesmo desconhece, pelo visto, tal nomenclatura - e que se envergonhava profundamente por esse "equívoco".
Construirei esse texto me recusando a tratar as travestis no masculino, como todos os meios de comunicação fizeram em 2008. Além do absurdo da situação, era vergonhoso assistir como a imprensa tratava essas travestis e expunham seus nomes mortos - que, para quem não sabe, são nossos nomes de antes da transição de gênero- e as inúmeras matérias que insistiam em criminalizar essas corpas, alegando extorsão da parte delas em relação ao Ronaldo para não levar a situação à imprensa, ao mesmo tempo que uma delas alegava que o ex-jogador não queria pagar o preço combinado previamente pelo programa.
Não cabe a mim aqui decidir quem estava certo ou errado em relação aos pagamentos desse michê, muito menos julgar a atitude das travas de querer mais dinheiro para não levar o caso à mídia, dado que, como pudemos assistir, elas mesmas saíram em desvantagem nessa situação toda - o que não é nenhuma novidade para nós, dada a transfobia enraizada na nossa sociedade. Me interessa analisar e evidenciar essas transfobias, sejam as existentes no acontecimento de 2008 como as presentes no encontro entre Ronaldo e Bial na última semana.
O programa recente nos mostra como ambos não evoluíram um milésimo sequer em relação aos seus entendimentos sobre pessoas trans na sociedade. Não houve revisão de seus próprios comportamentos e falas da parte de Ronaldo e, sobre Bial - que em agosto de 2020 entrevistou a cantora trans Linn da Quebrada em seu programa - vemos um descaso completo para com nossas vidas e identidades, tratando as travestis no masculino, perguntando se Ronaldo fez o que fez para "chamar a atenção", como que em um "pedido de ajuda" - onde o jogador ainda responde dizendo que precisava mesmo era de terapia naquele momento.
É perverso esse circo que se arma em relação às vidas trans. O homem cisgênero, protegido de todas as formas, sai ileso e com ares de arrependimento da situação, se colocando inclusive num papel de vítima, reiterando seu "engano" sobre a identidade das garotas como se elas fossem as culpadas desse caso. É muito comum vermos situações como essa, mesmo fora da mídia, onde homens cisgêneros procuram travestis para satisfazer seus desejos sexuais e depois se "arrependem", em um lapso de moralismo e transfobia, e as ameaçam de os enganar, tratando-as como se fossem homens se passando por mulheres, e muitos desses casos acabam, inclusive, no assassinato das mesmas - escrevi sobre esse fetiche no meu texto "Teu ódio não é erótico: o homem cis e a trava".
Há um pacto muito profundo entre homens cis para o mantenimento de seus poderes na sociedade patriarcal. Eles se protegem a qualquer custo, mesmo que para isso precisem desmoralizar qualquer indivíduo que esteja imbricado na situação que os põe em risco. Risco ilusório nesse caso, dado que seus privilégios por si só os protegem de qualquer problema que envolva travestis. Por mais que possam sair envergonhados pelo fato de se relacionar conosco - o que já é um problema, dado que não há vergonha alguma em amar ou sentir atração por travestis - nosso destino é sempre pior e mais miserável.
Não é nenhuma novidade que esses homens nos procuram na calada da noite. Não tem nada de novo, também, em vê-los nos tratando no masculino e como criaturas não-humanas, dignas de vergonha e repulsa. E é um fato que, muito provavelmente, Ronaldo não procurou travestis para satisfazer seus tesões apenas uma vez, mas somente esse caso veio à tona na grande mídia, e é o suficiente para nos revelar a podridão de seus pensamentos em relação a nós.
Pedro Bial, com sua carreira e seu posto de intelectual na sociedade brasileira, é inadmissível corroborar com esses pensamentos e falas. Qual era a necessidade de rememorar o caso de 2008 treze anos depois? E mais, trazê-lo de volta no intuito de investigar o porquê de Ronaldo Fenômeno ter vivido tal ocasião, tratando as travestis como uma vergonha em rede nacional. Você, como um comunicador, tem uma responsabilidade gigantesca para com o conteúdo de seu programa, para com os conceitos que produz e reproduz para um país inteiro, mas pelo visto eu e minhas irmãs estamos precisando aparecer por aqui para te ensinar a fazer o seu trabalho com mais respeito e profissionalismo. Respeito esse que você não teve nem mesmo em relação à Linn, sua convidada no último ano. Você não levou em consideração em momento algum a conversa que vocês travaram. Perdeu a oportunidade de revisar seus conceitos e, dada a ocasião com o ex-jogador, propor um novo olhar para o acontecido, trazendo para o público e também para Ronaldo uma reflexão que contribuísse para a nossa humanização, e não para mais uma vez nos colocar como vergonha em rede nacional.
Você poderia muitas coisas Bial, mas foi incompetente. E não me acanho aqui, não poupo minhas palavras, porque também como profissional da comunicação e uma pessoa que produz conhecimento sei o quanto é importante escolhermos bem nossas palavras. Precisamos denotar nitidamente quem deve passar vergonha nesse momento, e pode ter certeza que não somos nós, as travestis.
Agora, Ronaldo, tão mais fácil e belo seria se você assumisse seus desejos. Ou se realmente se "confundiu" há treze anos atrás ao chamar as travestis para uma noite de sexo, que reconhecesse o erro e não utilizasse o fato, no passado e agora, para tentar se redimir, como se tivesse cometido o maior pecado de sua vida. Demonizar nossos corpos diz mais sobre vocês, homens cisgêneros e indignos do nosso afeto, do que de nós mesmas, que ainda vivemos, enquanto população, uma marginalização massacrante.
Se é de dados que precisamos, posso reiterar que nosso país além de ser o que mais mata pessoas trans no mundo é também - olha só que curioso - o que mais assiste pornografia com pessoas trans. Também temos uma estatística de que 90% das travestis trabalham compulsoriamente na prostituição. Não pauto aqui nenhum julgamento em relação a quem escolhe a prostituição como seu trabalho, mas problematizo sim o sistema que nos impele à esse ofício compulsoriamente, sendo o único meio possível de sobrevivência, dado que para nós é muito mais difícil - quase impossível eu diria - conseguir emprego nas mais diversas áreas. Seguimos com nossa expectativa de vida na faixa dos trinta e cinco anos, enquanto pessoas cisgêneras vivem em média setenta e cinco anos. É menos da metade da expectativa de vida de vocês, e são esses discursos que também contribuem para a nossa constante marginalização e morte.
Por sorte não estamos mais em 2008. Hoje, felizmente, estamos muito mais atualizadas em nossos discursos. Nossas lutas vêm ganhando espaços de maior visibilidade e, inclusive, temos pessoas como eu mesma aqui, e tantas outras, trabalhando nos meios de comunicação e podendo alertar a vocês, mais uma vez, de que estão errando, e muito! Vocês têm acesso à informação. Vocês sabem muito bem o que estão dizendo. Vocês, inclusive, sabem muito bem o que fazem quando nos retratam assim em prol de "salvar" suas próprias peles, mas esse papo já não cola mais, e não somos mais apenas nós, pessoas trans, que temos conhecimento de como vocês têm agido no mundo. Para nos desmoralizar vai ser preciso aperfeiçoar demais a técnica de vocês, e eu duvido que consigam, a essa altura do campeonato, serem mais profissionais do que nós, a ponto de conseguirem nos despistar.
Finalizo reiterando minha profunda revolta em relação ao acontecido, mas que isso sirva de exemplo para mostrar que nós, travestis, merecemos muito mais os espaços que vocês estão ocupando e temos muito mais a contribuir positivamente com a sociedade do que vocês que estão nesses postos de poder há muito tempo. Os tempos estão mudando para quem muda junto, e podem ter certeza que pensamentos e falas ultrapassadas como essas de vocês estão fadadas, cada dia mais, ao fracasso.
Opinião - Paul Krugman: A banalidade do colapso da democracia
Experiência democrática nos EUA pode estar se aproximando do fim
A experiência democrática nos Estados Unidos pode bem estar se aproximando do fim. Não é hipérbole; isso é óbvio para qualquer pessoa que esteja acompanhando a cena política.
Os republicanos podem tomar o poder legitimamente; podem vencer por meio de esforços generalizados de supressão dos eleitores; legisladores republicanos podem simplesmente se recusar a certificar votos democratas no colégio eleitoral, e declarar Donald Trump ou seu herdeiro político vencedor.
Não importa como o processo transcorra, o Partido Republicano vai tentar garantir o controle permanente do poder e fazer tudo que pode para suprimir qualquer dissensão.
Mas como chegamos a esse ponto?

Lemos a cada dia sobre a ira da base republicana, que acredita por maioria esmagadora, com base em absolutamente nada, que a eleição de 2020 foi roubada, e sobre extremistas no Congresso que insistem que a exigência para que as pessoas usem máscaras é equivalente ao Holocausto.
Eu argumentaria, no entanto, que tomar a insanidade como foco pode prejudicar nosso entendimento sobre como tudo isso se tornou possível.
As teorias de conspiração dificilmente são novidade na vida nacional americana; Richard Hofstadter escreveu “The Paranoid Style in American Politics” (O estilo paranóico na política americana, em tradução livre) em 1964. A ira branca vem sendo uma força poderosa pelo menos desde o surgimento do movimento dos direitos civis.
O que é diferente desta vez é a aquiescência da elite republicana. A grande mentira sobre a eleição não surgiu das bases —foi promovida de cima, inicialmente por Trump em pessoa mas, o que é mais importante, é que praticamente nenhum dos políticos republicanos mais conhecidos se dispôs a contradizer as afirmações dele, e muitos se apressaram a apoiá-las.
Ou, para caracterizar as coisas de outra maneira, o problema fundamental está menos nos malucos do que nos carreiristas; menos na insanidade de Marjorie Taylor Greene do que na falta de espinha dorsal de Kevin McCarthy. E essa falta de espinha dorsal tem raízes institucionais profundas.
Os cientistas políticos perceberam há muito tempo que nossos dois grandes partidos políticos têm grandes diferenças em suas estruturas subjacentes.
O Partido Democrata é uma coalizão de grupos de interesse —sindicatos, ambientalistas, ativistas LGBTQ etc. O Partido Republicano é o veículo de um movimento coeso e monolítico. Ele é descrito muitas vezes como um movimento ideológico. Se bem que, se considerarmos as reviravoltas dos últimos anos –a adesão repentina ao protecionismo, os ataques às grandes empresas que adotaram posições progressistas—, a ideologia do movimento conservador parece menos evidente do que seu desejo de deter o poder.
De qualquer forma, a coesão dos conservadores por muito tempo tornou a vida relativamente fácil para os políticos e os governantes republicanos.
Os democratas profissionais tinham de negociar um caminho entre demandas muitas vezes contrastantes, de diversos eleitorados. Tudo que os republicanos precisavam fazer era seguir a linha do partido.
A lealdade era recompensada com assentos seguros no Legislativo e, se um republicano bem estabelecido por acaso perdesse uma eleição, o apoio de bilionários significava que existia uma rede de segurança —“a previdência dos extremistas”— na forma de postos administrativos muito bem remunerados em instituições de pesquisa financiadas pela direita, empregos na Fox News e assim por diante.
É claro que a vida fácil de um republicano profissional não era atraente para todos. O Partido Republicano há muito tempo vem sendo um lugar desconfortável para pessoas com conhecimento especializado genuíno e reputação verdadeira no mundo externo, que se veem pressionadas a endossar afirmações que sabem serem falsas.
O campo que eu conheço melhor, a economia, contém (ou costumava conter) diversos republicanos com reputações acadêmicas sólidas.
Como quase todas as demais disciplinas acadêmicas, o ramo se inclina aos democratas, mas muito menos do que acontece em outras ciências sociais ou nas ciências mais duras. No entanto, o Partido Republicano sempre preferiu obter assessoria de charlatães politicamente confiáveis.
O contraste com a equipe de Biden, aliás, é extraordinário. A esta altura, é quase impossível encontrar um especialista genuíno em política tributária, mercado de trabalho etc. —um especialista com reputação independente e que espere voltar a uma carreira não política dentro de um ou dois anos— que não tenha aceitado um posto no governo.
A situação pode ser ainda pior para um político que de fato se preocupe com políticas públicas, ainda tenha princípios e conte com um eleitorado pessoal distinto de sua afiliação partidária. Não existe espaço, entre os republicanos atuais, para o equivalente a Bernie Sanders ou Elizabeth Warren, a menos que você conte o extremamente sui generis Mitt Romney.
E a predominância de carreiristas obsequiosos é o que o torna o Partido Republicano tão vulnerável a ser tomado por autoritários.
A maioria dos republicanos do Congresso com certeza sabe que a eleição não foi roubada.
Poucos deles acreditam realmente que a invasão da sede do Congresso foi uma operação antifa disfarçada ou uma peregrinação turística inofensiva. Mas depois de décadas como uma entidade monolítica e controlada do topo, o Partido Republicano está repleto de pessoas que se dispõem a seguir a linha do partido aonde quer que ela os leve.
Por isso, se Trump ou uma figura semelhante a Trump declarar que sempre estivemos em guerra com o leste da Ásia, bem, seu partido dirá que sempre estivemos em guerra com o leste da Ásia. Se ele disser que venceu a eleição presidencial por maioria esmagadora, seus partidários repetirão que ele venceu por maioria esmagadora.
O ponto é que nem a megalomania no topo e nem a ira na base explicam por que a democracia pende por um fio nos Estados Unidos. Covardia, e não loucura, é o motivo por que o governo pelo povo pode em breve perecer em nosso mundo.
Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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