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Backup ILIMITADO do GOOGLE FOTOS acaba AMANHÃ; veja alternativas
Patrícia Abravanel, do SBT, defende Rafa Kalimann e Caio Castro e pede "compreensão" da comunidade LGBTQI+
Brasil registra 64% a mais mortes que o esperado; covid impactou os números
Professora é presa por racismo em bar no Rio; 'Como dói', lamenta garçonete
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Backup ilimitado do Google Fotos acaba amanhã; veja alternativas
De Tilt*, em São Paulo
31/05/2021 11h46
Atualizada em 31/05/2021 16h09
E o dia chegou. A partir desta terça-feira (1º) o Google Fotos não terá mais a opção de armazenamento ilimitado gratuito. Agora, o Google vai oferecer apenas 15 GB de espaço para backup gratuitamente, distribuídos entre arquivos do Google Fotos, Google Drive e do Gmail.
As pessoas que precisarem de mais armazenamento terão que pagar a assinatura do Google One: partir de R$ 6,99 por mês ou R$ 69,99 ao ano (para 100 GB de armazenamento).
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O plano mais caro é o de 2 TB, que custa R$ 34,99 por mês. Ou é possível pagar R$ 349,99 por ano.
Exceções
Os internautas que tiverem imagens de alta qualidade salvas no Google Fotos não serão afetados pela mudança. Esse volume de arquivos não será descontado dos 15 GB de armazenamento gratuito.
Donos dos celulares do Google — Pixel 5 ou modelos anteriores — também vão continuar com a opção de backup ilimitado de graça.
Plataformas de fotos alternativas
Se não está em seus planos ter que investir dinheiro para fazer o backup de suas fotos e vídeos — ou gastar o menos possível—, Tilt preparou uma lista com plataformas alternativas ao Google Fotos.
Assim como serviço de armazenamento do Google, cada uma delas trabalha com uma cota de espaço gratuita e planos de pagamento para armazenamento extra. Dependendo da quantidade de arquivos que você tiver, pode ser útil distribuí-los entre as plataformas
Dropbox
A plataforma oferece diversas opções de plano. A gratuita envolve 2 GB de capacidade de armazenamento e funciona de maneira similar ao Google Drive.
Se quiser mais espaço, é possível escolher entre os planos pagos: Plus, Family e Business (para empresas). O primeiro oferece 2 TB de espaço de armazenamento por US$ 9,99 por mês no pacote anual.
O segundo também trabalha com 2 TB e custa US$ 16,99 por mês, também no pacote anual. No entanto, ele pode ser compartilhado com até seis usuários.
O terceiro começa a partir de US$ 16,58 mensais com 3 TB de espaço.
Flickr
É a plataforma de fotos queridinha dos anos 2000 e foi adquirida no ano passado pela SmugMug. Ela ainda permite hospedar mil itens de mídia, com um limite de arquivo de 200 MB para fotos e 1 GB de arquivo para vídeos, no plano gratuito.
Quem quiser pagar a assinatura Pro do serviço, que oferece armazenamento ilimitado, pode escolher entre três planos: mensal, anual e de três meses. Eles saem por US$ 7,99 por mês, US$ 5,99 por mês e US$ 21,99 a cada três meses, respectivamente.
iCloud
Além dos serviços de armazenamento em nuvem, alguns fabricantes de celulares também salvam os arquivos dos usuários nos seus servidores. Quem é usuário da Apple tem à disposição 5 GB gratuitos do iCloud para armazenar mídias.
Se eles não forem suficientes, é possível contratar mais espaço pagando, por mês, R$ 3,50 pelo plano de 50 GB.
Para ter acesso a 200 GB, o valor é R$ 10,90 mensais. Há ainda a opção de R$ 34,90 por mês para ter 2 TB.
Opinião: Mauricio Stycer - É melhor ver tesouros do Baú do SBT do que o atual Programa Silvio Santos

Mauricio Stycer
Colunista do UOL
31/05/2021 07h01
No lugar de reprisar edições mais ou menos recentes do "Programa Silvio Santos", como tem feito há mais de um ano, neste domingo (30) o SBT decidiu abrir o baú. Por quatro horas, o espectador reviu quadros clássicos da atração, como "Show do Milhão", "Porta da Esperança" e "Show de Calouros".
Muita gente sonhava com isso, e o SBT resistia. Neste domingo ficou claro um dos motivos: esses quadros do passado mostram um "Programa Silvio Santos" bem melhor do que o atual.
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Na interação com Xuxa, em 1989, ou com Sandy & Junior, na década de 1990, com o elenco da "Casa dos Artistas", em 2001, e até mesmo com a turma do "Pânico", em 2007, Silvio Santos parecia muito mais leve, feliz e satisfeito do que nos últimos anos. Sem falar do antológico episódio do "Topa Tudo por Dinheiro", com o grupo Raça Negra e o fã mirim, que foi levado a escolher se preferia ganhar uma foto dos artistas ou R$ 1.000.
Imagino que o SBT tenha dificuldades em matéria de direitos autorais para reprisar muitos dos tesouros do seu baú. Mas o programa deste domingo mostrou que a emissora deveria investir mais neste resgate. Um canal online, exclusivamente dedicado a estes grandes momentos do passado, seria um sucesso, aposto.
AVISO: Saio de férias por um período mais longo, para desenvolver um projeto, e retorno com a coluna em setembro. Até a volta.
Patrícia Abravanel, do SBT, defende Rafa Kalimann e Caio Castro e pede "compreensão" da comunidade LGBTQI+

247 - A apresentadora do SBT Patrícia Abravanel defendeu os atores Rafa Kalimann e Caio Castro, que vêm sendo fortemente criticados nas redes após compartilharem um vídeo do pastor Cláudio Duarte, que se posiciona contra o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo.
Segundo a apresentadora, os atores apenas não foram "educados" de uma certa maneira. Ela ainda ironizou a sigla do movimento LGBTQI+:
"Não acho que o Caio Castro e a Rafa são preconceituosos ou homofóbicos. Acho que eles realmente foram educados de uma outra maneira. Assim como 'LGDBTYH, não sei' querem o respeito, acredito que eles têm que ser um pouco mais compreensivos com aqueles que hoje ainda não entendem direito e estão se abrindo para isso".
Os outros apresentadores que participavam do programa assentiram.
A virada do Jornal Nacional: ampla cobertura a favor das manifestações e contra a repressão - Mauro Lopes
Por Mauro Lopes

Por Mauro Lopes
A edição do Jornal Nacional desta segunda-feira (31) foi um primor de jornalismo. Sim, é preciso que se diga. Caceteamos a Globo -justamente- quando ela esconde o que importa e pratica uma cobertura dos fatos a partir das lentes ideológicas dos Marinho e contra o povo. Mas, contra os fatos, é melhor não brigarmos. Na noite de ontem, houve uma mudança de qualidade.
Vejamos:
- Reportagem de mais de 1 minuto sobre as manifestações do sábado. A cobertura parte da declaração alucinada de Bolsonaro de que teria havido “pouca gente nessa manifestação da esquerda do último fim de semana”. Na sequência, William Bonner contestou a assertiva bolsonariana e afirmou: “Mas na verdade, as manifestações não foram pequenas”. A partir daí, foi um desfile de belas imagens do sábado em várias capitais do país. Bonner, enfático, disse que os protestos “reuniram milhares de pessoas em 26 estados e no Distrito Federal”. E encerrou laudando a mobilização: “As quase 500 mil vítimas da Covid foram homenageadas em camisetas e cartazes”. Ao contrário do que asseguraram muitos intelectuais de esquerda e jornalistas que eram contrários às manifestações, não houve na cobertura da Globo uma palavra sequer sobre “aglomeração da esquerda” ou um ataque ao que seria uma “contradição da esquerda” que critica as aglomerações de Bolsonaro e agora vai às ruas. Nada. A cobertura foi totalmente favorável. Se quiser comprovar, assista aqui.
- Outra reportagem, com mais de 3 minutos, cuidou de colher as repercussões no Congresso. A chamada de Renata Vasconcellos foi significativa: “No meio político, a semana começou sob impacto das manifestações do sábado contra o presidente Bolsonaro”. Foram ouvidos dois parlamentares bolsonaristas e dois da oposição (Randolfe Rodrigues e Humberto Costa). O tom foi claramente amistoso em relação aos protestos. Veja aqui.
- Mas não foi só: outra reportagem, de mais de 4 minutos (um tempo grandioso para os padrões do Jornal Nacional) sobre a repressão da PM à manifestação de Recife. Toda a cobertura foi em defesa do caráter pacífico dos protestos e de denúncia da repressão. O ataque à vereadora Liana Cirne Lins, líder do PT na Câmara de Vereadores da cidade e comentarista na TV 247 foi destaque, com direito a entrevista com ela. Assista aqui.
- Houve mais: uma reportagem de 47 segundos sobre a prisão pela PM em Goiás do professor Arquidones Bites, que tem em seu carro uma faixa com a inscrição “Fora Bolsonaro genocida!”. Foi uma denúncia contra a ação que tentou -sem sucesso- enquadrar o professor na Lei de Segurança Nacional. No fim, algo impensável tempos atrás: Bonner leu a nota da direção estadual do PT sobre a prisão ilegal. Assista aqui.
- Calma: a Globo não aderiu ao socialismo nem abandonou a defesa dos interesses do grande capital. No mesmo Jornal Nacional, uma reportagem em defesa da privatização da Eletrobrás, aqui.
O tom da análise de setores da esquerda sobre a cobertura das mídias conservadoras em geral e da Globo em particular sobre o sábado talvez tenha sido enviesada pelas manchetes das edições impressas de O Globo e de O Estado de S.Paulo.
Como apontou mestre Moisés Mendes num artigo aqui no 247 nesta segunda-feira, as esquerdas precisam deixar de dar importância para algo que é cada dia mais irrelevante, os jornais impressos, e concentrar sua análise nos sites, portais, blogs, redes sociais TVs e rádios e, neles, a cobertura do que aconteceu no sábado. E, nas mídias eletrônicas da imprensa conservadora, anotou, Moisés Mendes, “foram e continuam sendo razoáveis, todos com fotos nas capas e textos informativos e análises”.
Pontifica mestre Mendes: “O que precisa acontecer é uma mudança na cabeça das esquerdas mais veteranas em relação à imprensa das corporações. As esquerdas precisam se livrar do fetiche do jornalão impresso. (...) Os jornais impressos hoje são apenas isso: tradição. São tão relevantes quanto as carruagens”.
Façamos isso: olhemos para o que importa. Por mais que tenha perdido audiência ao longo dos anos, o Jornal Nacional é ainda a mídia de maior repercussão e referência no país.
E o Jornal Nacional mudou nesta segunda. Isso significa uma virada editorial? Veremos. Mas ninguém anda sem dar o primeiro passo.
Cada um interpreta como quiser, mas o fato é esse: mudou;
E eu prefiro ter o Jornal Nacional ao lado das lutas pela democracia e contra Bolsonaro do que do outro lado. Eu sei e nós sabemos, para estabelecer uma relação que não me parece despropositada, o quanto é melhor ter Gilmar Mendes ao nosso lado em algumas batalhas do que tê-lo como inimigo. O mesmo vale para o Jornal Nacional.
Quais as razões para a mudança de Gilmar Mendes e do Jornal Nacional? Aberta a temporada para as interpretações.
O choque presidencial iraniano - Pepe Escobar

Por Pepe Escobar, para o Asia Times
Tradução de Regina de Aquino, para o 247. Revisão: Ricardo Silveira
Quando o Ministério do Interior do Irã divulgou na terça-feira a lista final de candidatos aprovados pelo Conselho de Guardiões de 12 membros para concorrer à presidência na próxima eleição de 18 de junho, o inferno reinou em Teerã por pelo menos 24 horas.
Uma lista "não oficial" dos 7 candidatos às eleições presidenciais já estava circulando e causando grande agitação, mas ainda não confirmada como definitiva.
O que se falava na cidade era que a lista barrou muitas pessoas importantes. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad estava de fora. O mesmo aconteceu com Ali Larijani – um ex-presidente do Parlamento e até mesmo o atual vice-presidente iraniano, Es’haq Jahangiri, que deveria ser o principal reformista da disputa!
A agência de notícias Fars deu o furo da história na segunda-feira, anunciando os sete finalistas. Eles acertaram tudo – desde a eliminação de Ahmadinejad, Larijani e Jahangiri até o fato de nenhuma candidata ter sido aprovada.
A Fars é muito próxima do IRGC. Então, o que aconteceu faz todo o sentido. Inclusive os rumores que circulavam em Teerã, de que o presidente Rouhani entrou em pânico, chamando o aiatolá Khamenei para uma revisão da lista!
Nas atuais circunstâncias, os Sete Magníficos que estarão concorrendo são Ebrahim Raeisi, Saeed Jalili, Mohsen Rezaei, Alireza Zakani, Seyyed Amir-Hossein, Ghazizadeh-Hashemi, Albdolnasser Hemmati e Mohsen Mehr-Alizadeh.
O líder indiscutível da matilha é Raeisi, chefe do Judiciário desde 2019. Ele é tecnicamente um Principlista – um conservador da Revolução Islâmica, em termos iranianos – mas diz que concorrerá como independente. Digamos que seja um “linha-dura suave”.
Entre os demais, o único relativamente conhecido fora do Irã é Jalili, também um Principlista e ex-negociador nuclear top na função de secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional de 2007 a 2013.
Ao menos em tese, sobram dois reformistas: Mehr-Alizadeh e Hemmati, o atual presidente do Banco Central. Mas eles não têm apelo nacional.
Então, parece que já está consagrado o Raeisi, um burocrata relativamente inexpressivo sem o perfil de um linha-dura do IRGC, conhecido por sua luta anticorrupção, além da preocupação com os pobres e oprimidos. Na política externa, o fato crucial é que talvez ele siga os ditames cruciais do IRGC.
Raeisi já está divulgando que “negociou discretamente” para assegurar a qualificação de mais candidatos, “para tornar o cenário eleitoral mais competitivo e participativo”. O problema é que nenhum candidato tem o poder de influenciar as obscuras decisões do Conselho de Guardiões, composto de 12 membros, exclusivamente clérigos: apenas Aiatolá Khamenei.
O Conselho de Guardiões declarou enigmaticamente que apenas 40 dos 592 candidatos haviam apresentado "todos os documentos necessários" para o QG eleitoral do Ministério do Interior. Não houve explicação sobre o conteúdo desses “documentos”.
Abbas-Ali Kadkhodaee, o porta-voz do Conselho, descartou a politicagem: as decisões foram tomadas com base na “lei eleitoral”. Portanto, ninguém pode contestá-los – exceto Khamenei! Ele ressaltou que o Conselho “não havia sido informado” de qualquer ação pelo Líder.
O fim da era reformista
O vice-presidente Jahangiri, que teria sido o porta-estandarte reformista, não pegou leve: numa declaração vigorosa, disse: “O Conselho naturalmente arca com a decisão e sua base jurídica e com as consequências políticas e sociais decorrentes."
Mais crucial ainda para o establishment de Teerã, ele destacou uma "séria ameaça" ao sistema: "Espero que o aspecto republicano de nossas instituições, a participação efetiva do povo na determinação de seu próprio destino, os interesses nacionais e o futuro do Irã não sejam sacrificados por expedientes políticos imediatos.”
Assessores do ex-presidente Ahmadinejad – ainda muito popular em âmbito nacional – me disseram que ainda ponderam sobre as opções que têm: “É uma decepção muito grande, mas esperada. Um grande erro, que vai levar à raiva e desconfiança entre as pessoas comuns e, afinal, a uma reação.”
O professor Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, observou: "Ainda há alguma incerteza sobre os candidatos." Ele ainda não está fazendo uma avaliação completa pois não tem certeza se, sobretudo, o veto de Larijani "será a palavra final".
Mesmo que os Sete Magníficos agora estejam livres para começar a fazer campanha, o sentimento geral é que a era Rouhani-Zarif parece ter acabado, não com um alarido, mas com um gemido.
Nas negociações do JCPOA em Viena, o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, continua se pronunciando como um realista ao enfatizar que “não estou confiante de que seria possível concluir as negociações, mas há uma possibilidade”. Isso exigiria “decisões políticas”, em referência direta a Washington.
Todos em Viena sabem que o acordado até agora no renascimento do JCPOA foi a parte fácil. O verdadeiro problema são as centenas de sanções restantes que devem ser canceladas pelo Congresso dos EUA – e não é o que vai acontecer.
Além disso, os americanos continuam a insistir que Teerã deve primeiro retomar os compromissos nucleares que suspendeu – seguindo seus direitos legais de retaliação, conforme definido pelo Artigo 26 do JCPOA. A linha vermelha de Teerã é clara: foi Washington que abandonou o JCPOA, então cabe aos EUA remover primeiro todas as sanções, “de forma prática e verificável”.
Teerã reiterou várias vezes que sairá de Viena no final de maio se não houver acordo. O IRGC não dá a mínima: eles já estão em modo pós-JCPOA. Focado no acordo estratégico Irã-China. Focado em uma integração mais ampla da Eurásia ao lado da Rússia e da China. E contando com o candidato perfeito colocado para se tornar o próximo presidente iraniano!
Não se trata de genocídio, mas de crime contra a humanidade - José Roberto Batochio
Por José Roberto Batochio

Na candente retórica da política não configura crime qualificar o presidente da República de genocida em razão de sua estratégia de amistosa convivência com o coronavírus. Tampouco é crime desejar a sua morte, pois a causa supralegal do “direito à perversão” isenta de punição quem deseja o falecimento de outrem, desde que não faça preparativos para tanto e, por óbvio, muito menos atue para consumar o ato. Ainda que recorrente como palavra polissêmica nas manifestações populares, a imputação leiga de genocídio estiliza a legítima crítica pública sem encontrar adequação técnica no Direito Internacional, mas é indubitável que, à luz da boa doutrina, tal conduta mais se identificaria com a que vem definida como crime contra a humanidade.
Criados pelo jurista polonês Raphael Lemkin, em 1943, com a união das palavras grega génos (família, tribo, raça) e latina caedere (matar) a partir dos episódios de extermínio de armênios e judeus, os termos genocídio/genocida foram introduzidos no Direito pelo Estatuto de Roma, tratado que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional (TPI), em 1998, do qual o Brasil se tornou signatário pelo decreto de número 4.388/2002.
O artigo 6.º define o crime de genocídio como “qualquer um dos atos que a seguir se enumeram, praticado com intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, enquanto tal: a) Homicídio de membros do grupo; b) Ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo; c) Sujeição intencional do grupo a condições de vida com vista a provocar a sua destruição física, total ou parcial; d) Imposição de medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo; e) Transferência, à força, de crianças do grupo para outro grupo”.
Os crimes contra a humanidade estão conceituados no artigo 7.º, em que se tipificam as iniciativas de ataque sistemático e generalizado a populações civis, sem distinção de características físicas ou culturais, entre eles “atos desumanos de caráter semelhante, que causem intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental”.
Nessa barbárie se enquadraria a performance do presidente – suficiente para levá-lo às barras do TPI, a exemplo do general croata Ante Gotovina, do ditador líbio Muamar Kadafi e do ex-ministro queniano William Samoei Ruto. Os “atos desumanos” do presidente do Brasil estão demonstrados em entrevistas, lives, memes e outras manifestações tão trágicas quanto sarcásticas, para sustentar uma política sanitária na qual especialistas identificam, antes de descaso com a saúde pública, uma campanha pró-vírus. Não se trata apenas de manifestações pessoais, mas de atos oficiais – como demonstrou um levantamento de 3.049 normas federais para a covid-19, analisadas pelo Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário da Universidade de São Paulo e pela Conectas Direitos Humanos.
O incremento descontrolado do coronavírus se deu por ações e omissões. Como um mecenas da doença, o presidente não equipou o serviço de saúde para o combate à pandemia e boicotou medidas recomendadas pelas organizações internacionais, como o confinamento, o uso de máscara e a restrição a aglomerações, tanto quanto deixou de adquirir vacinas em tempo hábil, e ainda pôs em dúvida a eficácia de imunizantes, ao mesmo tempo que, como um taumaturgo desastrado, tentou sobressair com a receita de remédios ineficazes, a buscar um quiproquó diversionista de “tratamento precoce” – contradição terapêutica e semântica. Que mais poderia fazer, se, como justificou, “não é coveiro?”
A coreografia de abre-alas da pandemia, apregoando laissez-faire, laissez-aller, laissez-passer, ou deixai fazer, deixai ir, deixai passar, foi incentivo para a população viver e trabalhar como se o perigo fosse uma “gripezinha” que segrega um agente infeccioso só maléfico para os predestinados à morte, aos portadores de comorbidades e, no linguajar chulo, aos “maricas”. A degenerada epidemiologia do Planalto consistiu em deixar a natureza seguir seu curso, o vírus abater os que, em darwinismo imunológico, não adaptassem o organismo à resistência ao mal, enquanto a maioria ficaria naturalmente refratária, e sobreviesse a chamada imunidade de rebanho – ao custo, quem sabe, de alguns milhões de vidas. De quebra, a economia não sofreria tanto e a reeleição do messias estaria assegurada.
O conjunto da obra aponta para o crime contra a humanidade. Advogados brasileiros já protocolaram pedido de investigação no Tribunal Penal Internacional. Embora lento, pois segue o rito do indispensável devido processo legal, com audiências de instrução e amplo direito de defesa, o inquérito do TPI pode declarar a infâmia de uma administração que elegeu a morte como opção preferencial.
Tudo considerado, porém, não se pode negar que “#genocida” tem força de palavra de ordem e internacionaliza o problema, ao correr o mundo como motivo já invocado para intervenção estrangeira no Brasil.
A fratura da classe dominante - Valério Arcary
Por Valério Arcary

Por Valério Arcary
“Estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota” (Sun Tsu).
Existem três avaliações diferentes na esquerda sobre as decisões do STF sobre a anulação das condenações de Lula. O tema tem grande importância, porque é central na interpretação do novo momento na conjuntura. Lula encabeça a preferência em todas as pesquisas de opinião disponíveis. Mantidas as atuais condições, o que é, evidentemente, imprevisível, Lula estaria em um segundo turno contra Bolsonaro.
É imprevisível porque ninguém pode saber qual será a conjuntura em meados de 2022. Qual será o desenlace da CPI da pandemia no Senado? Qual será a evolução do governo Bolsonaro e, talvez, até o seu destino? Qual será o contexto da pandemia daqui a um ano? Qual será a situação econômica? Como vão evoluir as taxas de desemprego? Qual será a taxa de inflação? Qual será a evolução do salário médio? Quais serão os impactos sociais das privatizações da Eletrobrás, Correios, Cedae/RJ previstas para o segundo semestre de 2021, se não forem detidas? E o mais importante, qual será a relação social e política de forças?
Estas e muitas outras variáveis, hoje, impensáveis, porque “merdas acontecem” exigem máxima prudência. Mas não diminui a necessidade de retirar lições da campanha Lula Livre, porque foi a maior vitória democrática dos últimos cinco anos, e quem diminuiu seu significado está, totalmente, equivocado.
A primeira é ingênua e circular: vencemos porque a causa era justa e a justiça foi feita. Muitas causas justas não são reconhecidas pela justiça. Não devemos ter nem ilusões, nem muitas expectativas na justiça. Lembremos que o impeachment de Dilma Rousseff foi referendado pela justiça. Julgamentos políticos se decidem em função de interesses políticos, ou seja, a luta pelo poder.
Esta interpretação remete, portanto, o desenlace da votação da incompetência da 13ª Vara de Curitiba e a suspeição de Moro à força da campanha nacional e internacional. Ao talento da defesa jurídica pelos advogados de Lula. À unidade conseguida na maioria da esquerda para a organização dos Encontros e, sobretudo, da Vigília em frente ao prédio da Polícia Federal. À atividade incansável da rede de juristas organizados na ABJD, à adesão de grandes artistas populares que influenciaram o mundo da cultura, à solidariedade da ala mais à esquerda da Igreja Católica, que abriu as portas do Vaticano, além de outros religiosos.
Remete, também, à estabilidade na formação do Comitê Lula Livre Nacional e sua capilaridade em muitas cidades, a regularidade dos boletins de informação, a qualidade dos materiais de agitação e propaganda, a iniciativa dos Festivais, a persistência dos mutirões, as atividades de rua e, também, a força do compromisso do próprio Lula que perseverou, destemidamente. Há muitos grãos de verdade neste balanço, mas ele é unilateral. Em sua versão mais extrema desconsidera a divisão entre as forças sociais hostis ou até inimigas, uma versão ilusória de voluntarismo.
A segunda é aquela que argumenta que uma fração da classe dominante passou a defender a liberdade de Lula, como resposta a uma nova situação política precipitada pela crise sanitária, econômica, social e política ao longo do último ano, em função dos desastres do governo de extrema-direita. O isolamento de Bolsonaro acabou favorecendo Lula. A pressão burguesa sobre o STF responderia, preventivamente, à preocupação diante do perigo de uma explosão social, ou à necessidade de contar com Lula e com o PT para preservar a estabilidade institucional em caso de um impeachment.
Nas correntes mais sectárias florescem ideias perigosas e até, curiosamente, contraditórias, senão de inspiração paranoica. Alguns sugerem que a fração mais poderosa da burguesia pressionou pela liberdade de Lula para enfraquecer Bolsonaro, outros que Lula teria interesse em preservar Bolsonaro, porque perderia favoritismo nas eleições de 2022, se Bolsonaro fosse deslocado. Há, também, um grão de verdade aqui, mas não mais do que isso. Na sua versão mais extrema esta visão flerta com teorias de conspiração.
A terceira é muito mais complexa. A campanha Lula Livre começou em condições muito adversas. Quando Lula foi preso, em abril de 2018, era impossível prever que em novembro de 2019 estaria solto e, muito menos, que em março de 2020 teria recuperado seus direitos políticos. A evolução foi muito rápida. Campanhas similares, como a luta pela liberdade de Mandela foram, incomparavelmente, mais longas e difíceis. Processos assim só podem ser explicados considerando muitos fatores.
Claro que é educativo começar a avaliação sublinhando a importância da campanha unitária da esquerda pela sua libertação. Deixou uma lição inspiradora para os perigos do futuro. Na hora das derrotas, conseguir manter a cabeça erguida é essencial. Nada substitui a firmeza e a dignidade. E ficaram muito mal diante da fotografia da história aquelas correntes e grupos de esquerda que se recusaram a defender Lula Livre.
Sem o engajamento incansável do MST na construção da campanha tudo teria sido muito mais difícil. Sem a aposta que prevaleceu no PT de que a influência de Lula permitia que a campanha tivesse uma audiência de massas não teria sido possível. Mas a unidade dos dois maiores partidos da esquerda brasileira além do PT, PSol e PCdoB foi fundamental, também. Nunca foi uma luta somente do PT. A luta pela liberdade de Lula engajou, em maior ou menor proporção, a imensa maioria da esquerda brasileira, felizmente.
Mas seria ingênuo atribuir o desenlace das votações no STF à força da campanha. Não foi possível organizar atos de massas pelo Lula Livre. Todos os atos foram, em maior ou menor medida, atos de vanguarda. Sejamos honestos: atos da militância. Ou seja, agruparam o ativismo mais consciente ou, ideologicamente, politizado, em especial, os “inoxidáveis”, a “velha guarda” da esquerda brasileira que veio dos anos oitenta e noventa.
Outros fatores pesaram muito no desenlace das votações do STF. O julgamento de Lula foi sempre, desde o início, um processo político, indivisível do golpe institucional de 2016 que deslocou Dilma Rousseff da presidência. Esse era o calcanhar de Aquiles da operação que culminou na prisão de Lula: nenhum setor importante da burguesia se posicionou contra o golpe. Um golpe semelhante ao que aconteceu em Honduras e no Paraguai. Um golpe que abriu o caminho para Bolsonaro chegar à presidência.
A perseguição política mascarada pela judicialização era uma operação muito perigosa, porque estabelecia precedente grave, a legitimação do lawfare. Quando Sérgio Moro aceitou, desavergonhadamente, o cargo de ministro da Justiça no governo de extrema-direita liderado por um neofascista como Bolsonaro, a turbulência começou, sobretudo, no exterior.
A divisão do mundo jurídico entre os denominados “garantistas” e “lavajatistas” existiu, portanto, durante todo o processo. O modelo de denúncias construídas sobre delações premiadas sem outras provas além dos testemunhos de réus interessados em anistia era um escândalo.
Mas tudo se acelerou na medida em que a manipulação realizada pela Lava-Jato foi desmascarada pela publicação pelo The Intercept da troca de mensagens entre Sergio Moro e os procuradores, e confirmada pelos arquivos da operação spoofing, Quando o centrão deixou de ser somente base de sustentação parlamentar e se incorporou, plenamente, no governo os conflitos com a operação Lava-Jato passaram a se expressar dentro do governo. Não são poucos os parlamentares do centrão, mas, também, do MDB, Democratas e até do PSDB, ninguém menos que Aécio Neves, candidato presidencial derrotado em 2014, partidos históricos da representação burguesa desde o fim da ditadura, que estavam sob investigação.
Não menos importante foi a mudança lenta da conjuntura em função da hecatombe sanitária da pandemia. O obtuso negacionismo de Bolsonaro diante da tragédia humana do contágio em massa e do colapso do SUS, desconsiderando a emergência da contratação de vacinas, defendendo remédios imaginários, denunciando a necessidade de quarentenas e, constantemente, ameaçando com o autogolpe resultou em enfraquecimento social e político. A derrota de Trump mudou o lugar do governo Bolsonaro no mundo de forma qualitativa.
Ainda que Bolsonaro mantenha apoio majoritário na “massa da burguesia”, quando consideramos os seis milhões de empresários de conjunto, o desastre em curso produziu fissuras no núcleo duro da classe dominante. Nenhum setor defende o impeachment, mas o manifesto dos 500 foi um alerta amarelo. A maioria da grande burguesia, alguns poucos milhares de bilionários, ainda aposta na preservação do regime democrático-eleitoral. As ameaças bonapartistas de Bolsonaro fraturam a classe dominante. E um regime democrático-liberal não é possível sem a esquerda na legalidade.
Vencemos, porque lutamos, mas, também, porque nossos inimigos se dividiram.
E a luta de classes nunca é em vão.
Nise Tamagotchi e a escolinha do professor Otto - Ricardo Nêggo Tom
Por Ricardo Nêggo Tom
- Muito bem! Vamos iniciar a nossa arguição de hoje com a Drª Nise Tamagotchi.
- Pois não! Presente!
- Está preparada? Estudou a matéria?
- Estou à disposição!
- Vamos falar de Biologia. Me responda, sem pestanejar, qual a diferença entre um vírus e um protozoário?
- Com relação a sua pergunta, primeiramente, eu preciso explicar que a cloroquina e a imunidade de rebanho, são indicadas nos dois casos. Eu tratei de mais de 400 amigos imaginários e todos reagiram muito bem ao tratamento.
- Acho que a senhora não entendeu a minha pergunta. Vou repetir. Qual a diferença entre um vírus e protozoário?
- Então, como eu estava dizendo, eu tenho aqui algumas cópias do documento que comprova que eu não solicitei alteração alguma na bula do KY. Inclusive, indico aos meus pacientes que façam uso do medicamento, sempre que estiverem em avançado estágio de...
- Mas do que a senhora está falando? O que o KY tem a ver com a pergunta que lhe fiz? Eu lhe perguntei a diferença entre um vírus e um protozoário...
- Com relação a sua pergunta, eu iria explicar que indiquei KY para os funcionários da Fiocruz, depois que a minha colega, a Drª Maíra, me relatou que eles trabalhavam com um pênis pendurado na porta e usavam crucifixos para fazer lavagem intestinal...
- Mas, de onde a senhora tirou esse pênis? Eu lhe fiz uma pergunta simples, que qualquer estudante secundarista saberia a resposta. Qual a diferença entre um vírus e um protozoário?
- A despeito disto, nós temos aqui um estudo feito por legionários franceses da academia de medicina de Chicago, dando conta da eficácia da hidroxicloroquina como tratamento para a ejaculação precoce e preventivo à disfunção erétil...
- Meu pai eterno! Que diabos os legionários franceses têm a ver com isso?
- Não entendi. Poderia repetir a pergunta?
- Eu lhe perguntei, qual a diferença entre um vírus e um protozoário?
- Ah, sim. Então, com relação a sua pergunta, o Canadá e os USA apresentaram resultados positivos quanto ao uso do vírus, no combate aos protozoários. Inclusive, o número de mortos por protozoários na cidade de Bacurau, é o menor entre todos os outros países do mundo...
- A senhora está bêbada?
- Com relação a sua pergunta, eu não participei dessa festa. Não tenho essa informação. Mas eu tenho aqui uma nota do ministério público federal, que eu gostaria de distribuir a todos os presentes...
- Mas, que festa? Que ministério público?
- A festa onde se discutiu a criação de um comitê de apoio ao vírus, na guerra contra os protozoários.
- A senhora está brincando comigo? Eu tenho cara de palhaço?
- Com relação a sua pergunta, não tenho essa informação. Eu o conheci agora há pouco nesta sala, onde estou a convite da vizinha da minha irmã, que é prima da tia da minha assessora de comunicação....
- Talvez, a senhora esteja um pouco confusa. Vou tentar lhe ajudar.
- Por favor! Eu agradeço...
- O mesmo remédio indicado para tratamento de um protozoário, serve para tratamento de um vírus?
- Com relação a sua pergunta, eu acho que o momento exige um somatório de forças para salvar o vírus, e não incitar a população a demonizar o mesmo. Eu tenho colaborado com isso desde o começo da pandemia. Inclusive, como conselheira técnica do presidente.
- A senhora é uma fraude! Isso não pode ser sério.
- A seriedade do meu trabalho está publicada no portal de transparência da OBS
- OBS?
- Sim. Organização Bolsonarista de Saúde.
- Vou lhe fazer outra pergunta. Essa a senhora vai saber responder. Quem lhe vendeu o diploma?
- Com relação a sua pergunta, na verdade, eu não saberia dizer. É a minha assessoria de comunicação que cuida dessas negociações.
- Chega de enrolação! A sua nota é zero! A senhora não sabe nada.
- Com relação a sua pergunta...
- Mas eu não lhe perguntei mais nada?
- Com relação a essa afirmação...
- Basta! E o salário...Bom! Disso eu não posso reclamar...
Brasil registra 64% a mais mortes que o esperado; covid impactou os números

Roberta Jansen
Do Estadão Conteúdo, em Rio de Janeiro
01/06/2021 08h30
Atualizada em 01/06/2021 08h50
O excesso de mortalidade no Brasil entre 1º de janeiro e 17 de abril deste ano foi de 211.847 mortes (ou 64% além do esperado) — mais um indicador a comprovar o impacto da pandemia de covid-19 no número de óbitos no país. O número já é bem próximo ao registrado ao longo de todo o ano passado (275.587 mortes a mais do que o esperado), mostrando o recrudescimento da doença. Para especialistas, o número elevado de mortes deve ter um impacto direto na expectativa de vida.
Os dados integram o Painel de Análise do Excesso de Mortalidade por Causas Naturais no Brasil em 2021, preparado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) em parceria com a organização global de saúde pública Vital Strategies e com a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil).
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O painel reúne dados sobre todas as mortes por causas naturais informadas no Portal de Transparência do Registro Civil (RC), levantados em parceria com a Arpen. As mortes naturais são aquelas causadas por doenças ou mau funcionamento interno do corpo e incluem óbitos por covid-19 e outras doenças respiratórias. Os números são comparados com a projeção da mortalidade estimada a partir da série histórica de óbitos, com dados reunidos pelo Sistema de Informação de Mortalidade entre 2015 e 2019.
Os dados reunidos no painel mostram ainda que o excesso de mortalidade no País até 17 de abril já representa 77% do excesso de mortalidade registrado em todo o ano de 2020. "Esta comparação dá uma dimensão do impacto da covid-19 já nos primeiros meses de 2021", afirma o assessor técnico do Conass, Fernando Avendanho.
O acompanhamento das taxas de excesso de mortalidade é recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para avaliar os reflexos da covid-19 na mortalidade em geral.
"Os dados, associados à análise do número de mortes e infecções da doença, permitem ter um quadro mais preciso sobre as consequências diretas e indiretas da pandemia, fornecendo informações para a formulação de estratégias eficazes para o enfrentamento da crise", reforça o diretor executivo da Vital Strategies no Brasil, Pedro de Paula.
Além das mortes por covid-19, o indicador de excesso de mortalidade registra também os óbitos por atraso no diagnóstico e tratamento de outras doenças, em virtude da crise sanitária e do aumento da demanda dos serviços de saúde.
"Além de captar os óbitos por covid, esse indicador também nos fornece informações sobre a mortalidade como um todo, inclusive sobre casos relacionados de forma indireta à pandemia, como o de pessoas que não vão ao hospital por medo de se contaminar, as que morrem em casa, ou as que não são atendidas por conta da sobrecarga dos serviços de saúde", explicou o epidemiologista Renato Teixeira, da Vital Strategies.
Rejuvenescimento
Os números do painel confirmam também a tendência de rejuvenescimento da pandemia e da maior vulnerabilidade dos homens já apontadas por outros indicadores. O excesso de mortes vem crescendo entre a população de até 59 anos e se mantido maior entre os homens.
Na população do sexo masculino de todas as faixas etárias, o número esperado de óbitos era de 171.132 até a semana de 11 de abril. O excesso de mortes observado, no entanto, foi de 115.843, equivalente a 68% do que havia sido inicialmente projetado.
Entre mulheres, o porcentual de excesso foi de 61%. O número de óbitos esperado era de 157.533, mas foram identificados 96.004 a mais. Entre homens com até 59 anos, o porcentual de excesso de mortalidade é de 86% e entre mulheres nesta faixa etária, de 81%.
Uma das hipóteses que podem explicar o fenômeno é o fato de homens adotarem comportamento de maior risco de contaminação por covid-19. A nova variante P.1 também tem atingido mais a população abaixo dos 60 anos.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Motoristas, domésticas e pedreiros estão entre os que mais morrem de Covid-19 em SP
Estudo indica que 37,8% das pessoas que morreram por causa da doença na capital paulista tinham emprego remunerado
Entre as atividades ocupacionais que mais registram mortes por Covid-19 na cidade de São Paulo entre março de 2020 e março deste ano estão as empregadas domésticas, pedreiros e motoristas de táxi e aplicativo, segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Pólis com base em dados da Secretaria Municipal de Saúde.
Individualmente, os aposentados respondem pelo maior grupo vítima da doença. Foram 9.925 mortes nesse período, o que corresponde a 32,2% do total. Outras 4.832 pessoas eram donas de casa (15,7%), e outros 3.391 (12,8%) morreram sem que sua atividade ocupacional fosse registrada.
Por fim, os dados indicam que 37,8% das pessoas que morreram estavam empregadas no mercado de trabalho.
Das mais de 30 mil mortes registradas, 23,6 mil (76,7%) não completaram 11 anos de estudo, ou seja, não finalizaram o ciclo de educação básica. “Considerando a escolaridade das vítimas como um indicador indireto sobre seu padrão de renda, os dados demonstram que a mortalidade de Covid-19 é maior entre trabalhadores e trabalhadoras mais pobres, que, em muitos casos, são caracterizados pela informalidade e pela impossibilidade do trabalho remoto”, escrevem os autores do estudo denominado "Trabalho, território e Covid no município de São Paulo".
Pouco mais de um quinto dos óbitos (21,6%), as pessoas que morreram vítima de Covid-19 atuavam em atividades essenciais, tais como saúde, segurança pública e transporte. Na classificação dos pesquisadores, 6,5% das mortes foram de trabalhadores não essenciais, tais como aqueles que atuam em trabalho doméstico e construção civil, e que continuaram exercendo as suas atividades.
“É importante debater o que é considerado realmente essencial, no momento de impor medidas restritivas, em uma emergência sanitária como essa”, afirmam os autores.
Os dados tabulados pelo Instituto Polis foram obtidos via Lei de Acesso à Informação. Eles trazem detalhes do PRO-AIM (Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade), um sistema municipal que faz a checagem das informações contidas nas declarações de óbito registradas na cidade. Nessas declarações, existe um campo onde é possível inserir o dado do CBO (Classificação Brasileira de Ocupações).
Ao menos 960 profissionais mortos por Covid-19 são do agrupamento transporte e tráfego. Destes, ao menos 78,7% são taxistas ou motoristas de aplicativo.
Segundo explica o arquiteto e urbanista Vitor Nisida, pesquisador do Instituto Pólis e um dos autores do estudo, não é possível saber exatamente quantos taxistas ou motoristas de aplicativo morreram, já que o CBO é de 2002, data que não existia —como ainda não existe— a classificação de motorista de aplicativo.
“O que a gente nota é que são os óbitos anotados como motoristas de praça, chofer e taxistas, aí a gente enxerga um grupo de pessoas que trabalham profissionalmente prestando esse serviço dirigindo algum carro para levar passageiros. Não tem essa identificação que os separe”, afirma Nisida.
Outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores foi a quantidade de empregadas e empregados domésticos mortos, que perfazem 2,4% do total. O grupo é composto, em sua maioria, por mulheres (90,8%) e negras (53,6%).
Trata-se de um pouco menos da metade de total de mortes registradas em todo o comércio, que reponde por 5,1%. A diferença é que o contingente de empregadas domésticas é estimado em cerca de 230 mil, enquanto o de trabalhadores do comércio, em mais de 1 milhão.
Outro segmento muito afetado foi o da construção civil. A atividade ocupacional que registrou a maior parte das mortes foi a de pedreiros, com 33% do total. Apenas 10,6% das mortes nesse segmento foram de engenheiros civis. “Em tese os engenheiros têm um nível de exposição melhor, pela formação e padrão de renda, geral ou pelo fato de ter ensino superior, mesmo assim é um número grande de mortes, com 135 óbitos”, afirmou.
Plano São Paulo
Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, responsável pele elaboração do Plano São Paulo, afirmou que a classificação das atividades considerdas essenciais foi feita a partir de estudos de vulnerabilidade e risco de contágio, embasado por trabalho científico da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).
Segundo a pasta, o plano leva em consideração dados técnicos e científicos de monitoramento da evolução da pandemia e da capacidade do sistema hospitalar.
“É respaldado por análises e pareceres do Centro de Contingência para permitir, de forma consciente e gradual, a retomada das atividades econômicas dos setores", disse.
A gestão João Doria (PSDB), afirmou, ainda, "que a classificação das atividades essenciais é definida pelo governo federal, seguindo modelos internacionais”.
A pasta disse que entre as medidas indicadas pelo Centro de Contingência está a de escalonamento de horário das atividades econômicas como forma de reduzir o contato entre as pessoas e manter o distanciamento social.
| Ocupação | Mortes | % |
| Aposentado | 9.925 | 32,2% |
| Dona de casa | 4.832 | 15,7% |
| Ignorada/Sem Informação | 3.931 | 12,8% |
| Comércio | 1.547 | 5,0% |
| Construção civil | 1.268 | 4,1% |
| Indústria | 1.245 | 4,0% |
| Serviços administrativos, ténicos e informacionais (escritório) | 1.244 | 4,0% |
| Transporte e tráfego | 980 | 3,2% |
| Atendimento/ relacionamento com público | 921 | 3,0% |
| Empregado/a doméstico/a | 709 | 2,3% |
| Serviços gerais/Zeladoria | 658 | 2,1% |
| Profissionais liberais | 628 | 2,0% |
| Saúde | 520 | 1,7% |
| Educação | 475 | 1,5% |
| Sem trabalho | 397 | 1,3% |
| Trabalhador de rua | 335 | 1,1% |
| Serviço de alimentação | 301 | 1,0% |
| Segurança Pública | 250 | 0,8% |
| Entregas/Logística | 199 | 0,6% |
| Outros | 179 | 0,6% |
| Agricultura | 120 | 0,4% |
| Serviço da Adm. Pública | 71 | 0,2% |
| Estudante | 61 | 0,2% |
Fonte: "Trabalho, território e Covid no município de São Paulo", Instituto Pólis
Professora é presa por racismo em bar no Rio; 'Como dói', lamenta garçonete
Daniele Dutra
Colaboração para o UOL no Rio de Janeiro
01/06/2021 09h03
Atualizada em 01/06/2021 15h31
A professora Ana Paula de Castro Batalha foi presa em flagrante na madrugada do último sábado (29) acusada de racismo contra três mulheres em um bar na Zona Norte do Rio. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, ela aparece cercada por policiais militares, admitindo ter ofendido as mulheres. O caso foi parar na 19ª DP, na Tijuca, onde foi registrado o flagrante e o boletim de ocorrência por injúria racial.
Segundo testemunhas, Ana Paula xingou e ofendeu funcionárias e outras clientes que tentaram intervir chamando de "preta", "preta suja", "negra fedida" e "ladra". Horas depois, a professora foi liberada após pagar uma fiança que equivale a dois salários mínimos, cerca de R$ 2.200.

'Me senti um lixo', diz funcionária demitida em 'BBB da vida real' no Ceará
A garçonete Rosilene Gomes de Carvalho, de 52 anos, contou ao UOL que tudo estava correndo bem naquela noite, exceto pela mesa de Ana Paula. Desde o início, relata ela, a cliente olhava para ela com desdém e perguntou com olhar de desprezo: "você trabalha aqui, queridinha?". Durante a noite, a autora do crime pediu que uma pessoa ficasse ao seu lado para fazer um atendimento exclusivo, mas o pedido foi negado.
"Expliquei que isso não seria possível pois a casa não trabalha dessa forma. Depois, ela reclamou do drink, disse que estava horrível e pediu uma água. Perguntei se seria com ou sem gás, ela disse com gás, mas fez uma recomendação: 'Gostaria que você trouxesse minha água fechada porque eu tenho medo que você cuspa nela'", narrou a funcionária do bar.
Por volta de 1h da manhã, Rosilene foi avisar que o bar estava fechando. Ana Paula disse que não queria mais nada e pediu a conta. " A conta dela e do rapaz que estava junto tinha dado em torno de R$80 e a da outra mesa foi mais de R$200. Acabei me confundindo na hora de entregar, mas antes que eu pudesse reverter a situação, ela começou a gritar, a me ofender", disse a garçonete.
Aos berros, diz a funcionária, Ana Paula começou a insultá-la: "Sua negra, você quer me roubar? Sua ladra, fedida. Você é uma merda, nem vou falar nada para o seu patrão porque você precisa desse emprego".
As testemunhas prestaram depoimento na delegacia sobre o ocorrido. Um casal de duas mulheres que estava na mesa ao lado comemorando o aniversário de uma amiga também foi ofendido quando tentou defender a funcionária: "Cala boca sua preta, sua preta sapatão, gorda fedida", disse Ana Paula, de acordo com os relatos.
O dono do estabelecimento foi até o salão, impediu que a professora fosse linchada e falou que ela sairia dali presa. Além de ter ofendido a funcionária e as clientes negras, a professora xingou outra funcionária que estava no caixa: "Você é uma paraíba, cabeça quadrada, feia".
Rosilene Gomes de Carvalho é bibliotecária formada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) há três anos e trabalha como garçonete no Baródromo desde janeiro: "Sempre trabalhei com o público e nunca fui tratada dessa forma. São palavras que dilaceram a alma, sabe? Na hora eu bloqueei, fiquei calma, mas depois eu senti. Dói, como dói, como aquelas palavras machucam. Eu senti tudo que meus ancestrais sentiram quando vieram pra cá", disse a vítima.
Todos foram prestar depoimento na delegacia. O rapaz que estava junto da professora pedia calma, falou que ela estava bêbada e que, apesar de conhecer Ana Paula há 10 anos, nunca a viu agir assim. Ele não entrou na delegacia, nem para defender e nem para acusar.
Nas redes sociais, o bar fez uma publicação sobre a situação: "Diante do ocorrido, tivemos que conter a fúria de todos presentes para que não acontecesse um linchamento. Chamamos a polícia e fomos todos para a delegacia. A delegada decretou a prisão desta pessoa! Foi em cana! CADEIA! Lamentamos muitos pelos nossos funcionários e clientes que passaram por esta experiência. Nos colocamos à disposição com nosso suporte jurídico para acompanhamento e prosseguimento no processo. Aqui não toleramos racistas, homofóbicos e xenófobos! Vão pro inferno!" diz a publicação.
Segundo o TJRJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro), o caso foi encaminhado ontem para a 5ª Vara Criminal do Rio: "Conforme a certidão que consta no auto de prisão em flagrante que chegou à Central de Custódia de Benfica no dia 29, a acusada, depois de indiciada pelo crime de injúria racial, pagou fiança na própria delegacia e foi posta em liberdade. Ela assinou termo de compromisso obrigando-se a comparecer em juízo todas as vezes que for chamada".
O UOL tenta contato com a acusada sobre o ocorrido, mas ainda não teve resposta.
Racismo x injúria racial
A Lei de Racismo, de 1989, engloba "os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional". O crime ocorre quando há uma discriminação generalizada contra um coletivo de pessoas. Exemplo disso seria impedir um grupo de acessar um local em decorrência da sua raça, etnia ou religião.
O autor de crime de racismo pode ter uma punição de 1 a 5 anos de prisão. Trata-se de crime inafiançável e não prescreve. Ou seja: no caso de quem está sendo julgado, não é possível pagar fiança; para a vítima, não há prazo para denunciar.
Já a injúria racial, como o caso investigado no Rio, consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem, de modo a atacar a dignidade de alguém de forma individual. Um exemplo de injúria racial é xingar um negro de forma pejorativa utilizando uma palavra relacionada à raça.

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