ASSASSINOS NO PODER

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A CHACINA de Jacarezinho e o crime organizado no poder - Robson Sávio Reis Souza
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Na CHACINA do Jacarezinho, o verdadeiro alvo são as garantias democráticas
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CHACINA do Jacarezinho:
CRIMINALIZAÇÃO da POBREZA é a política de segurança do governo Bolsonaro
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"Tudo bandido": o general está certo
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O Brasil diante do Massacre do Jacarezinho: Será que chegou a hora de Davi?
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O assassinato do Brasil - Alvaro Penteado Crósta 
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Jacarezinho - O controle social através de um mandado de execução - Ricardo Nêggo Tom
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Israel x Palestina
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A chacina de Jacarezinho e o crime organizado no poder - Robson Sávio Reis Souza

Por Robson Sávio Reis Souza

Chacina do Jacarezinho

Por Robson Sávio Reis Souza 

É emblemático o que ocorreu em Jacarezinho: mais uma entre tantas operações policiais desastradas, mortíferas e ao arrepio da lei? Ou, considerando as alianças táticas e estratégicas entre grupos políticos do Rio e do Planalto Central, a sinalização (simbólica) de um projeto de poder que se impõe pela violência e pelo terror? 

Uma análise da carnificina do Jacarezinho dentro do contexto da violência   institucional sistêmica do Rio, aparentemente aponta para um fenômeno restrito à política de insegurança pública daquele estado.  Afinal, somente em 2021, o Instituto Fogo Cruzado já registrou 30 chacinas — casos em em que três ou mais pessoas foram mortas a tiros em uma mesma situação — na região metropolitana do Rio. 

Mas, há outros elementos que podem ser considerados nesse caso específico.  

Portanto, propomos ir além de uma análise dessa operação policial. Queremos discutir sobre arranjos políticos que usam da violência, do medo e do terror, objetivando o controle do poder político e estatal. 

O uso do argumento de combate ao crime para justificar as chacinas é um indicador do estado de terror, antessala do estado autoritário.  

Por outro  lado, como lembrou certa feita o sociólogo e fundador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Paulo Sérgio Pinheiro (em entrevista ao UOL,  em 2018), "quando falam em crime organizado na favela, é uma piada, porque os organizadores não estão lá. Aqueles são pés de chinelo intermediários; os traficantes moram na Barra ou em Miami". 

Neste artigo apresento duas hipóteses interrelacionadas: (a) o (verdadeiro) crime organizado comanda o estado do Rio de Janeiro e (b) esse experimento de ocupação e domínio do crime é um "laboratório" arquitetado por grupos políticos para o que pretende executar em relação ao estado brasileiro.  

Quando observamos o Rio, verificamos, histórica e empiricamente, a construção de um projeto de poder do crime organizado que foi imiscuindo-se nas instituições daquele estado nos últimos anos. 

O "laboratório carioca" do crime no controle do estado se concretiza numa coalizão, não necessariamente  coesa, mas com intereses comuns, conectando os poderes político, econômico e religioso (representado nesse caso pelas igrejas-lavanderia do dinheiro sujo de diversas fontes do crime,  contravenção, drogas, sonegação,  etc) com grupos policiais e milicianos. 

É importante esclarecer que, apesar do uso corriqueiro, o conceito de crime organizado indica o controle do poder do estado por organizações criminosas.  

Quando analisamos o Rio de Janeiro, observamos que o aparato estatal está cada vez mais dominado por prepostos (agentes públicos) de várias dessas organizações.  

As relações cada vez mais estreitas entre esses poderosos criminosos que lucram com os tráficos de drogas e de armas e o jogo do bicho; as conexões desses grupos com empresas (inclusive igrejas, que lavam o dinheiro sujo e corrompem agentes públicos) e com vários setores das polícias;  as múltiplas relações das milícias com as polícias e outros agentes públicos no domínio de territórios (dado que as milícias já controlam mais de 50% do estado) e por fim, como essas redes criminosas foram se infiltrando no aparelho estatal (com a eleição de seus representantes em cargos nos poderes executivo e legislativo nos municípios e no estado e, através de outros mecanismos adentrando em setores do poder judiciário e do MP) sinalizam que o estado do Rio de Janeiro já estaria dominado pelo crime organizado. 

A chacina de Jacarezinho, neste contexto, indicaria essa conexão entre os poderes político, militar (polícias) e econômico (empresas) com as organizações criminosas (milícias, jogo do bicho, grandes traficantes de drogas e de armas) à medida que tal operação de agentes públicos demonstra todo o desdém às regras constitucionais, democráticas e republicanas e aposta na produção do terror e do extermínio como política de segurança (estratégia claramente utilizada por organizações criminosas). Por isso,  a certeza da impunidade dos perpetradores da violência institucional, sendo respaldados verbal ou implicitamente pelos representantes dos poderes públicos daquele estado.  

O que ocorreu em Jacarezinho seria a parte visível de um iceberg cuja extensão muito maior estaria relacionada ao controle do estado de direito por grupos criminosos. 

A operação policial autorizada pelo chefe do Executivo estadual e chancelada pelo MP violou, entre outras, a cláusula pétrea da Constituição Federal de 1988, referente à garantia da proteção à dignidade humana pelo Estado, pois colocou em risco a vida de milhares de pessoas e provocou uma carnificina totalmente evitável. 

Ademais, afrontou uma ordem do STF (ADPF 635) que determinou a suspensão de operações policiais durante a pandemia (dado que tais operações, sem efetividade - como apontam inúmeras pesquisas e especialistas em segurança pública -, se constituem numa política de  extermínio de negros e pobres periféricos, sem impactos positivos às políticas de enfrentamento às drogas). 

Usando da letal e ineficaz estratégia da guerra às drogas (que mata os bagrinhos - facilmente substituíveis - para proteger os tubarões do mercado das drogas e crimes conexos), o estado optou, novamente, pela política que combina "caça ao inimigo interno" seletivamente escolhido (método herdado da ditadura) com a estratégia bélica e panfletária de tirar do foco as mazelas da política de segurança pública daquele estado (que funciona como escudo do crime no poder). 

E mais, sinalizou que   no Rio há um estado paralelo com suas próprias leis.

Porém, ao chamarmos  a atenção para esse eventual projeto de poder do grupo político que domina aquele estado levantamos outra hipótese: o Rio serviria como um ensaio para outro projeto de poder autoritário,  militarizado, miliciano e fundamentalista que se projeta no plano nacional? 

Não por acaso, autoridades no Planalto Central aplaudiram a chacina de Jacarezinho, a sinalizarem às possíveis conexões entre os dois projetos (de poder), não obstante o repúdio nacional (daqueles que prezam pelo estado democrático de direito) e internacional do massacre promovido por agentes do Estado. 

O Brasil que não implementou uma justiça de transição após a ditadura vê,  no presente, grupos saudosistas do passado autoritário investirem novamente contra a ordem democrática, na certeza da complacência e impunidade das instituições republicanas.   

Esperamos que a história não se repita nem  como tragédia, nem como farsa.

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Na chacina do Jacarezinho, o verdadeiro alvo são as garantias democráticas - Paulo Moreira Leite

Por Paulo Moreira Leite

Manifestação contra Chacina do Jacarezinho

Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

É pura ingenuidade encarar a chacina da favela do Jacarezinho como mais uma crônica sobre a criminosa violência policial em atividade permanente  nos porões do Estado.  

Num país onde valores ligados aos direitos humanos e às liberdades individuais tornaram-se alvo prioritário  do  governo Bolsonaro, as raízes de uma operação que produziu 28 cadáveres na manhã da última quinta-feira foram identificadas em rápidas  linhas por uma reportagem da BBC News Brasil. 

Referindo-se aos comentários ouvidos na entrevista coletiva realizada logo após a operação, quando o país começava a tomar conhecimento da mais grave tragédia produzida pela polícia do Rio de Janeiro em qualquer época, a BBC informou:  

"Os representantes da polícia civil criticaram em diversos momentos da coletiva o que chamaram de "ativismo judicial" que, segundo eles, tem impedido a presença do Estado, através da polícia, nas comunidades. Questionados mais de uma vez se estavam se referindo ao STF, os policiais disseram que não iriam nomear nenhuma pessoa ou instituição." (BBC News Brasil, 6 de maio). 

Ainda que o termo "ativismo judicial" seja parte do esforço ideológico para banalizar a postura de setores do Judiciário, inclusive da maioria do STF, para conter abusos policiais estimulados pelo bolsonarismo, a chacina nada tem de banal. 

Marco histórico nas denúncias de violência contra a população das favelas do Rio de Janeiro, reproduziu uma tragédia conhecida e diagnosticada num país incapaz de zelar pela vigência de uma democracia sem distinção de classe social ou raça, garantindo o princípio de que toda pessoa tem direito a que "sua causa seja julgada por um tribunal independente e imparcial, " como assegura o artigo 10 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

Embora o vice-presidente Hamilton Mourão tenha tentado animar um manjado  circo autoritário típico dessas ocasiões, usando os termos "é tudo bandido" e "narco-guerrilhas" para se referir às 27 vítimas civis da polícia fluminense, os registros oficiais indicam outra situação. Só três vítimas eram alvo de mandado de prisão, e pelo menos 21 sequer eram investigados, ao menos oficialmente (Estado de S. Paulo, 8/5/2021). 

Num país onde a Constituição estabelece, no artigo 5,  parágrafo III, o princípio de que "ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante", apenas nos primeiros três meses de 2021 a ação policial no Rio de Janeiro já contabiliza 453 mortes -- ou 25 cadáveres a cada cinco dias -- numa escalada que tomou impulso no início do ano passado,  nos primeiros meses da pandemia. 

"Na contramão de crimes como homicídios e roubos, as mortes por policiais no Rio de Janeiro sofreram um forte aumento em abril, quando o estado já estava sob medidas de isolamento social motivadas pelo novo coronavírus. Foram 177 óbitos em decorrência de intervenções de agentes públicos, 43% a mais do que no mesmo mês no ano passado e o equivalente a uma morte a cada quatro horas. Quando se considera o acumulado do quadrimestre, são 606 óbitos e um crescimento de 8%". (Folha de S. Paulo, 26/05/2020).                                                                   

É compreensível que, num Estado ainda governado por Wilson Witzel, onde a orientação "atirar na cabecinha" fora assumida como política de Estado, transformando garantias democráticas elementares em palavreado vazio, a justa indignação diante de crimes cometidos pela polícia tenha ido parar no Supremo. 

Em agosto de 2020 Edson Fachin assinou uma liminar onde suspendia a realização de operações policiais. Embora a violência cotidiana das operações estimulasse  clamores por sua proibição pura e simples, a decisão do ministro, que seria aprovada por maioria de 9 a 2 no STF, ficaram no meio do caminho.  

As operações seguiram autorizadas, mas deixaram de constituir atividade de rotina, como acontecia até ali, e só poderiam ocorrer quando se demonstrasse que havia absoluta necessidade. Para começar, o acompanhamento do Ministério Publico estadual tornou-se obrigatório. 

A reconstituição dos debates travados na época ajuda a esclarecer as preocupações que mobilizavam a maioria dos STF. 

Fachin lembrou episódios lamentáveis do passado, quando duas chacinas ocorridas na favela Brasília, no Complexo do Alemão, levaram o país a ser denunciado e condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2017, que elaborou uma lista de providências por parte das autoridades brasileiras.  

Também falou de casos recentes, como uma operação no mesmo Complexo do Alemão, que produziu 13 mortos e levou a interrupção da energia elétrica por um dia inteiro,  impedindo a distribuição de alimentos e ajuda humanitária a uma população sob quarentena. Referindo-se a uma postura de tolerância das autoridades frente a violência policial, Fachin advertiu:  "São, portanto, extremamente rígidos os critérios que autorizam o uso legítimo de força armada por agentes de Estado. Esses critérios não podem ser relativizados, nem excepcionados", disse o ministro, que ainda lembrou a execução de um menino de 14 anos, em São Gonçalo. 

"Nada justifica que uma criança de 14 anos de idade seja alvejada mais de 70 vezes", afirmou. “O fato é indicativo, por si só, de que, mantido o atual quadro normativo, nada será feito para diminuir a letalidade policial, um estado de coisas que em nada respeita a Constituição", acrescentou. 

A crítica às operações era tão acentuada, naquele momento, que Gilmar Mendes achou melhor esclarecer, mais uma vez, que elas não seriam extintas -- mas  deveriam ser autorizadas exclusivamente em casos de extrema necessidade, e mesmo assim controladas com maior severidade, justificando-se como "cautela frente a situação de exceção vivenciada atualmente". 

Aberta por Alexandre de Moraes, a divergência teve a utilidade de tornar ainda mais clara a natureza do debate que produziu a decisão da maioria, contrariada de modo frontal pela operação no Jacarezinho. 

Com apoio de  Luiz Fux, Alexandre de Moraes argumentou que a decisão de Fachin implicava numa interferência na formulação das políticas de segurança pública, alegando que essa função ia além das atribuições do Judiciário e constituía prerrogativa do Executivo.  

A decisão, por larga margem, deixou claro que a maioria do plenário reconheceu a prioridade de afirmar a urgência constitucional de conter uma máquina azeitada para ceifar cinco vidas por dia. 

Ao produzir a maior chacina da história do Rio de Janeiro, não há dúvida de que a operação no Jacarezinho passou à margem da decisão de agosto de 2020. 

Se Fachin agiu corretamente ao determinar que o Ministério Público apresente explicações sobre um crime terrível, o próximo desafio é conhecido. 

Consiste em enfrentar a tradição de impunidade e acobertamento que marca as investigações sobre chacinas no Rio de Janeiro -- e desta vez pretende desafiar a autoridade do Supremo. 

A defesa do morticínio, assim, irá transformar-se no novo ponto de honra do bolsonarismo.

Procurando recuperar o imenso terreno perdido na disputa política para 2022, o plano é atingir a democracia. 

Alguma dúvida?

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Chacina do Jacarezinho: criminalização da pobreza é a política de segurança do governo Bolsonaro - Milton Alves

Por Milton Alves

Por Milton Alves

A escalada genocida comandada pelo governo Bolsonaro contra o povo pobre que habita as favelas e bairros nas periferias das regiões metropolitanas do país provocou a morte de quase 30 pessoas na última quinta-feira (6), na comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro.

Além das ações policiais truculentas em todo o país em nome do combate ao tráfico de drogas, as comunidades pobres são também as mais afetadas pelo descaso e o negacionismo do governo Bolsonaro diante da pandemia de Covid-19. É um ciclo de mortes que se cruzam: As vítimas fatais da violência policial e os milhares de mortos pela pandemia.

O continuado ciclo de mortes que atinge a população pobre, preta – e seletivamente localizada – é uma marca dos governos autoritários. Vale lembrar ainda a chacina de Paraisópolis, zona sul paulistana, ocorrida em dezembro de 2019, que segue sem punição para o comando da PM, protegido pelo governo de João Doria (PSDB).

A chegada da extrema direita ao governo federal impulsionou a política de criminalização da pobreza e do extermínio em nome de um pretenso combate à criminalidade.

O que ocorreu no Jacarezinho é um exemplo nefasto dessa política. A chacina foi comandada por policiais civis, uma expedição punitiva que executou dezenas de seres humanos de forma ilegal e criminosa. Até o momento, a Polícia Civil é incapaz de identificar os mortos, o que pode ser um sério indício de que a maioria dos executados não tem relação alguma com o narcotráfico.

A ação criminosa dos policiais foi um desafio aberto ao próprio Supremo Tribunal Federal (STF), que proibiu operações armadas das forças de segurança durante a pandemia nas comunidades cariocas. O caso demanda uma investigação rigorosa e com a participação de entidades da sociedade civil, medida indispensável para conter o corporativismo policial e a proteção aos autores da chacina.

A “política de abate” conduzida pelo atual governador carioca, a mesma de Wilson Witzel do “tiro na cabecinha”, tem a marca da seletividade geográfica: As operações policiais que resultaram em mortes, nos últimos meses, foram realizadas em comunidades pobres, que contam com a atuação de narcotraficantes. Nas áreas sob controle das milícias, o verdadeiro e milionário crime organizado hoje no Rio, nenhuma morte ocorreu em decorrência de operações de cerco e aniquilamento da PM e das demais forças de segurança.

No discurso ao grande público, o governo da extrema direita promete mais acesso ao armamento individual para a classe média, a repressão do Bope e das milícias para os pobres e a segurança especializada, privada, para os mais ricos e privilegiados – ilhados em seus exclusivos condomínios de luxo e refinados resorts urbanos.

Um sistema policial repressivo, em aliança com a milícia paramilitar, é o modelo que vem sendo instituído na prática no país – e que opera a sua legitimação institucional com o aparelhamento político das forças de segurança pelo bolsonarismo e os estímulos oficiais do presidente Jair Bolsonaro. Uma ação governamental autoritária e demagógica que fomenta a violência contra a pobreza para obter o apoio político de setores mais reacionários e conservadores da sociedade.

A questão da segurança pública é complexa, de difícil resolução, e tem uma relação direta com a própria natureza do regime capitalista, gerador de exclusão estrutural e concentração de riqueza -, mas a esquerda precisa enfrentar o tema com coragem, propor medidas e disputar politicamente com a narrativa da extrema direita bolsonarista.

Temas como a defesa intransigente dos direitos humanos, a reforma urgente do sistema penal, o fim da política de encarceramento em massa, a ampla descriminalização de todas as drogas, o combate duro aos bandos milicianos, mais investimentos sociais nas comunidades pobres e a reformulação da doutrina das forças de segurança são alguns dos desafios para a construção de uma política de segurança pública nacionalmente estruturada, humanista e integral.

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Israel x Palestina - Paulo Sérgio Pinheiro

O muro de separação que isola territórios palestinos

Por Paulo Sérgio Pinheiro 

Na missa do domingo de Bom Pastor, o padre Júlio Lancelotti observou que não se pode dizer que Israel vacinou toda sua população, simplesmente porque não foram vacinados todos os palestinos. De fato, o governo israelense, embora tenha imunizado a maioria de seus cidadãos, inclusive aqueles que vivem em assentamentos ilegais, não forneceu vacinas para a vasta maioria dos quase 5 milhões de palestinos na Cisjordânia, ocupada há mais de 50 anos e na Faixa de Gaza, sob bloqueio.

Human Rigths Watch (HRW), organização não governamental internacional de direitos humanos e sua representação no Brasil, nossa parceira, acabam de publicar o relatório “Um limite ultrapassado: autoridades israelenses e os crimes de apartheid e perseguição”, de 213 páginas. Muito provavelmente, a celebração compulsiva de Israel pela mídia vai impor um obsequioso silêncio de rigueur contra qualquer alegação de violação de direitos humanos por Israel, ou colocar a pecha de seletividade – o que, no caso, será difícil. A HRW tem investigado, durante mais de quarenta anos de atuação, em inúmeros relatórios crimes contra humanidade, nas mais diferentes regiões do globo, inclusive em outros países no Oriente Médio.

No relatório em questão, examina o tratamento de Israel aos palestinos. Cerca de 6,8 milhões de israelenses judeus e número equivalente de palestinos vivem hoje entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão, uma área que abrange Israel e o Território Palestino Ocupado (TPO) – este último formado pela Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza. Na maior parte dessa área, Israel é o único poder governante; no restante, exerce autoridade primária ao lado do autogoverno palestino limitado.

Em todas essas áreas e na maioria dos aspectos da vida, as autoridades israelenses privilegiam os judeus israelenses e discriminam os palestinos, que têm sido vítimas de confiscos generalizados de terras, deslocamento forçado e amplas restrições a seus direitos civis. “Negar direitos fundamentais a milhões de palestinos, sem justificativa legítima de segurança e unicamente por serem palestinos e não judeus, não é simplesmente uma questão de ocupação abusiva”, disse Ken Roth, diretor-executivo de HRW. ”Essas políticas, que concedem aos israelenses judeus os mesmos direitos e privilégios onde quer que vivam, enquanto discriminam os palestinos em vários níveis, onde quer que vivam, refletem uma política de privilegiar um povo em detrimento de outro”. Em certas áreas, conforme documenta a HRW, essas privações são tão graves que equivalem aos crimes contra a humanidade de apartheid e de perseguição.

A Convenção Internacional sobre a supressão e a punição do crime de apartheid de 1973 e o Estatuto de Roma de 1998, do Tribunal Penal Internacional, definem o apartheid como crime contra a humanidade. Este contém três elementos principais: a intenção de manter a dominação de um grupo racial pelo outro, o contexto de opressão sistemática do grupo dominante pelo outro; e atos desumanos.

O crime contra a humanidade de perseguição, conforme definido no Estatuto de Roma e no direito internacional consuetudinário, consiste na privação grave de direitos fundamentais de um grupo racial, étnico ou outro, com propósito discriminatório.

O relatório sugere que a promotoria do Tribunal Penal Internacional (TPI) – que em fevereiro de 2021 confirmou a jurisdição da corte para a situação da Palestina – investigue e processe aqueles com sérios indícios de envolvimento naqueles crimes. Propõe que “a comunidade internacional reavalie seu engajamento com Israel e a Palestina, e adote uma abordagem centrada em direitos humanos e accountability, responsabilização”.

Todas essas recomendações receberão ouvidos moucos do governo de extrema direita brasileiro, refém dos fundamentalistas evangélicos que rechaçam qualquer crítica a Israel em nome da futura vinda do Messias em seu território. Diante disso, ao menos espera-se que as entidades brasileiras de direitos humanos, que tanto prezam a solidariedade internacional, quando é para nós, não abandonem o enfrentamento do tratamento iníquo faz mais de meio século pelas autoridades israelenses aos palestinos.

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"Tudo bandido": o general está certo - Pedro Simonard

Por Pedro Simonard

Vice-presidente da República, Hamilton Mourão

Darcy Ribeiro foi um dos intelectuais brasileiros mais importantes e respeitados mundialmente. Ao lado de sua carreira universitária, Darcy teve atuação política marcante. Foi ministro-chefe da Casa Civil e ministro da Educação do governo João Goulart, vice-governador do estado do Rio de Janeiro no primeiro governo de Leonel Brizola e senador da República eleito pelo estado do Rio de Janeiro. Há quase quarenta anos ele já alertava que ou o Brasil investia em escolas ou teria que investir muito mais em prisões. Em 1995 publicou seu último livro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, no qual definiu o Brasil escravocrata como um moinho de gastar gente.

Darcy definiu a classe dominante brasileira como “infecunda”. Ela sempre achou que o povo brasileiro era “carvão para queimar e não importa o que acontece com ele.” Essa classe dominante “ranzinza, cobiçosa não deixa o Brasil ir para frente”, acusou Darcy. Ele morreu em 1997 e não presenciou os governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro. Tivesse presenciado, com certeza teria acrescentado alguns adjetivos a mais para qualificar esta burguesia neocolonial que controla o Brasil e os títeres que ela colocou no poder para controlar os pobres e pretos brasileiros.

O Brasil continua gastando gente, agora de maneira industrial. Montou-se no país uma indústria de extermínio que utiliza várias tecnologias diferentes para executar este projeto. Gasta gente com a fome, gasta gente com o desemprego, gasta gente com pandemias, mas o método de gastança de gente mais utilizado em 521 anos é, certamente, o extermínio genocida puro e simples, a morte direta pelo aparelho repressor do Estado.

Após passar um breve período de sua história, pouco mais de 12 anos, fora do mapa da fome, Temer e Bolsonaro reincluíram o Brasil no circuito da desnutrição e da morte por inanição como projeto de governo. No Brasil contemporâneo, mais de 19 milhões passam fome e mais de 100 milhões acordam diariamente sem saber se conseguirão comer alguma coisa durante o dia.

No campo do emprego, o Brasil alcançou mais de 14 milhões de desempregados aos quais se somam mais de 33 milhões de trabalhadores informais - que não podem seguir as medidas de profilaxia e combate à covid e são obrigados a trabalhar e a se expor ao coronavírus – e mais de 5,7 milhões de desalentados, aqueles que deixaram de procurar emprego. Sem emprego ou subempregado, o consumo do trabalhador e sua família desaba e isso prejudica também sua alimentação, contribuindo para o enfraquecimento de seu sistema imunológico e o adoecimento constante, bem como prejudica seu equilíbrio psíquico-emocional. As mazelas psíquico-emocionais constituem-se em uma maneira mais sofisticada de gastar gente porque indireta, silenciosa, difícil de ser percebida por aqueles que sofrem seus efeitos. O suicídio no Brasil é a quarta maior causa das mortes entre os jovens de 15 a 29 anos, não por acaso contingente onde o percentual de desempregados é maior.

O extermínio puro e simples por métodos violentos é o mais utilizado e o preferido dos leões de chácara, os novos capitães do mato a mando da burguesia neocolonial que são membros do aparelho repressor do Estado composto pelas guardas municipais, polícias estaduais, polícia federal e forças armadas. É um extermínio direcionado à mulher, à população LGBTQI+, mas, sobretudo, aos pretos e pobres. Um extermínio genocida porque voltado preferencialmente para trabalhadores que possuem a “cor padrão”, segundo o jargão do aparelho repressivo. Um extermínio que só causa comoção e indignação nos parentes próximos das vítimas e na população diretamente atingida. A burguesia neocolonial e a classe média bem remunerada já normatizou-o e legitimou-o há muito tempo. Foram mais de 40 mil mortes violentas por ano em 2019 e 2020.

Desde 2020, este projeto genocida de controle social dos pobres ganhou o auxílio luxuoso da pandemia de covid. O coronavírus já ceifou a vida de mais de 420 mil brasileiros devido ao projeto genocida implementado pelo governo Bolsonaro. Esta política púbica de extermínio vem sendo investigada no Senado pelos membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Genocídio. As estratégias utilizadas pelo governo para implementá-la passam pelo presidente da República e seus ministros divulgando tratamentos ineficazes, propagando informações desencontradas ou propositalmente erradas, incentivando aglomerações e o não uso de máscaras, contestando a eficácia da vacinação e da vacina e dificultando a aquisição de imunizantes e de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) para que as vacinas possam ser produzidas no Brasil. O resultado desta política é o aumento no número de mortos e infectados, a formação de novas e mais letais cepas do coronavírus e o colapso no sistema hospitalar brasileiro.

Mesmo com as restrições impostas pela pandemia, o Brasil teve uma alta de 5% nos assassinatos em 2020 em comparação com 2019, após dois anos consecutivos de queda. Aumentou o latrocínio, roubo seguido de morte, consequência direta do desemprego e da exclusão social. O crescimento de mortes violentas contou com uma significativa ajuda dos “autos de resistência” produzidos pelas polícias estaduais.

Morrem pobres de ambos os lados nesta guerra insana e sem sentido. Uma vez, durante uma aula da disciplina Ciência Política para alunos de curso de Direito, eu disse que a política pública do confronto era uma espécie de controle de natalidade dos pobres e dos negros. Matam/morrem policiais pobres e negros e matam/morrem moradores/excluídos pobres e negros. 

A chacina na favela do Jacarezinho acrescentou, até agora, mais 29 mortes às estatísticas de 2021. Mais de vinte mortes em uma ação policial sem planejamento em nada altera o cotidiano nacional. Algumas manifestações promovidas por familiares, movimentos sociais e alguns partidos políticos, declarações condenatórias da ação em alguns veículos de imprensa e só. 

A ação, sem planejamento, sem preparo, sem inteligência, ficou a cargo da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescência (DPCA) da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro. Supostamente, ela visava reprimir o aliciamento de menores pelo tráfico de drogas. Após esta ação policial este problema foi resolvido: a partir do dia 6 de maio de 2021 os menores não serão mais aliciados pelo tráfico de drogas no Jacarezinho. Maravilha! Só que não. Este tipo de ação espetaculosa é repetido com constância e não altera em nada a realidade das comunidades, só produz mais órfãos e perdas de entes queridos. 

Dados que comprovassem a efetividade desta ação policial não foram, e jamais serão, produzidos e divulgados.

Os policiais buscavam cumprir 21 mandados de prisão. Dos alvos dos mandatos, seis foram presos e outros seis, mortos. Os outros 15 mortos não constavam entre os procurados pela DPCA da PCERJ. O número de armas apreendidas durante a operação, 15 armas diversas, foi menor do que o número de executados. Se os policiais alegaram que houve reação, era de se esperar que cada executado tivesse com, ao menos, uma arma em seu poder e que o número de mortes e de armas apreendidas fosse, no mínimo, igual. Só para ressaltar que os alvos têm uma “cor padrão”, o número de rifles apreendidos em poder do amigo miliciano, vizinho do genocida, foi quase oito vez maior e a operação que os apreendeu não disparou um único tiro. Roni Lessa, além de não-preto, é amigo da rapaziada da polícia e vizinho do genocida. Isto merece um  tratamento diferenciado.

A operação, além de mal planejada, produziu uma série de distorções legais e ações criminosas. Policiais invadiram casas sem mandados de busca, pessoas foram executadas diante de familiares e menores. Policiais removeram cadáveres dos locais onde forma mortos, alterando a cena do crime, dificultando a ação da polícia técnica e a investigação do crime. Isso foi feito às claras, diante das câmeras de fotojornalistas e de cinegrafistas.

Contudo, o mais grave foi a reação, ou falta de reação, das autoridades estaduais e federais a propósito da operação.

O porta-voz da PCERJ achou tudo normal e centrou sua avaliação na morte do policial. Em um discurso afinado com o fascismo bolsonarista, o porta-voz colocou a culpa do aumento da violência no Supremo Tribunal Federal (STF) que proibiu ações policiais nas comunidades enquanto durar a pandemia.

O presidente da República nada falou, mas seus três filhos elogiaram a ação policial e parabenizaram os policiais que dela participaram. Não poderíamos esperar nada diferente de tão torpes e covardes figuras.

As instituições da República, através de seus representantes, mudas estavam e mudas permaneceram. O presidente do STF, ministro Luiz Fux, não se pronunciou a respeito, embora ações policiais durante a pandemia afrontem decisão liminar do ministro Edson Fachin, em vigor desde 5 de junho de 2020.

O senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), presidente do Senado, o deputado Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ), não se manifestaram, talvez por acharem que toda a ação se desenvolveu dentro da normalidade, de acordo com o projeto de extermínio e gastança de gente em curso desde 22 de abril de 1500.

O cantor gospel que se elegeu vice-governador do estado do Rio de Janeiro pegando carona na onda bolsonarista e que herdou a função de governador após o impeachment de Wilson Witzel, embora seu nome constasse no inquérito que afastou Witzel, demorou, mas se manifestou. Cláudio Castro declarou que a reação brutal dos “bandidos” justificou a ação da polícia. Para ele, ao invés de prender, os policiais devem agir da mesma maneira que os criminosos. Prender para quê? Executa que não irá superlotar mais os presídios.

A morte é o normal. A polícia transformou-se em uma máquina assassina de moer gente. Sua função principal deveria ser investigar e prender, se existirem provas suficientes contra o investigado. No Brasil, as polícias colocam como sua principal função o extermínio, apesar de saberem que esta prática é criminosa. Tanto sabem que uma das primeiras providências dos policiais ao término de suas ações é alterar a cena do crime para dificultar ao máximo as investigações. Desta maneira cumprem a principal função que a burguesia neocolonial lhes dá que é manter os pobres sob controle para que a extração de mais-valor e a exploração possam prosseguir segundo um grau de risco mínimo de levante e revolta popular organizada.

A mais alta autoridade da República a manifestar-se sobre a chacina foi o vice-presidente general de pijama Hamilton Mourão. Mais um a normatizar e legitimar o extermínio, Mourão declarou que são “tudo bandido” (sic). Neste ponto nós temos que concordar e dar razão ao nosso general, afinal de contas, sua proximidade e intimidade com a famiglicia e com generais e oficiais que defendem a tortura, a ditadura militar e a quebra dos princípios democráticos devem ter desenvolvido nele certos superpoderes que permitem-lhe, com um simples olhar ou pelo olfato, identificar perigosos criminosos.

O general tem razão, repito. Presidente defensor da tortura e que deixa o povo sem vacina, vereador que chefia  gabinete do ódio, senador praticante de rachadinhas, deputado federal que passeia com recursos públicos e cria/difunde notícias falsas contra o principal parceiro econômico do Brasil, policial que altera cena de crime, que não investiga, governador que justifica carnificina, milicianos, torturadores, assassinos que recebem contracheque público, MP, Congresso, membros das instituições da República que não cumprem com seu dever e que são coniventes com irregularidades e com a criminalidade são todos bandidos ou, segundo a linguagem do popular general, são “tudo bandido”.

P.S.: Precisamos defender uma reforma constitucional que substitua o impeachment, instrumento utilizado pela burguesia neocolonial para retomar o controle do poder, pelo recall, instrumento que coloca nas mãos do povo a destituição daqueles que ele mesmo elegeu.

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O Brasil diante do Massacre do Jacarezinho: Será que chegou a hora de Davi?

Por Pedro Cláudio Cunca Bocayuva

As descrições dos brutamontes, dos Golias, são metáforas bíblicas da força bruta que perde para a justiça. As imagens e narrativas da luta contra a servidão são cheias de táticas de fuga, de estratagemas que definem a estratégia para a libertação dos cativos. No quadro atual de avanço contra o valor da vida chegamos ao limite do intolerável. Muitos perguntam o que pode acontecer? Como não cair na armadilha dos provocadores? Como reagir com sensatez dados os riscos de contaminação pelo vírus e pelo ódio? 

Como sair dos processos de horror extremo, de ignorância, de crueldade e de barbárie? Quanto tempo a razão cínica vai gerar um individualismo narcisista e, ao lado do medo, que alimenta  os donos do poder no país dominado pelos privilégios e pela perversidade, que gera genocídio e se sustenta na indiferença?

Nossa maturidade e a qualidade de nossa democracia sofrem atentados diários, assim como nossa saúde, diante de um governo que se alia ao poder devastador da pandemia. O espetáculo confuso e delirante de continuar sem usar máscara e de apelar para a ruptura do pacto institucional se espalha em manifestações caricaturais como a de buzinar diante  de hospitais, ou a de clamar pela falsa solução do apelo a uma intervenção militar, que já mostrou o risco do fracasso na qualidade de governar e no desvio de função, no passado e hoje. 

A conjuntura se agrava com a violação evidenciada em atos como o de invadir residências, criminalizar movimentos, invadir terras protegidas, saquear e destruir riquezas, privatizar patrimônio público  e atacar opositores. Armando milícias e estimulando práticas genocidas para a atuação das instituições de polícia. Ao lermos nos dicionários as definições para palavras como chacina, massacre e genocídio temos diferenças de intesidade, escala e enfase. 

Ao falarmos de acidente, trauma, caos, colapso e catástrofe temos um uso, nem sempre preciso. Mas estes significantes povoam o imaginário e as narrativas sobre a cena contemporânea, em especial no Brasil. Vivemos tempos de catástrofe, crueldade e barbárie, chegou a hora de mostrar o corpo da resistência indo do luto até luta. Indo da resistência até a busca de alternativas, necessárias e possíveis para construir políticas e modos de governar que, já se desenharam em inúmeras práticas do passado recente, que já se mostraram indispensáveis.

Repetindo, as falsas guerras e cruzadas morais que convergem para o que de fato são: violência extrema. A banalização da crueldade alimenta o moinho satânico ou a máquina de moer gente. Existe um momento em que o registro desta intensidade de violência vai tornando preciso o significado de certas palavras que precisam ser ditas , em que os fenômenos sociais antes velados se convertem em fatos sociais grotescos. 

Os acontecimentos decisivos vão abrindo a fenda, o abismo e a brecha que exigem que se pense e se tome uma atitude. Que se faça o luto e que se busque resistir, nos limites de cada um e na força do coletivo. No agir público contra o poder que se alimenta da doença e da injustiça. Sair nas ruas vai se tornando inevitável para barrar o risco de ampliar os banhos de sangue, diante do desperdício de vidas pelo aniquilamento, pelo encarceramento e pela perda de vontade. 

Nos fatos sociais, os que envolvem e afetam a vida de todas e todos, temos o registro de como o horror extremo bate na fronteira do intolerável. A dimensão ética tem de responder ao questionamento de quando agir, a partir do julgamento dos fatos desde a convicção da dignidade moral que nos define sentidos para a condição humana. Esta tomada de consciência quase sempre se relaciona com fatos mobilizadores, que se não tiverem respostas fazem a sociedade sucumbir ao poder dos crimes aberrantes, quando mesmo diante da evidência robusta das provas os operadores do crime encontram os seus agentes justificadores. 

No meio de tantas chacinas se produz um genocídio como processo, mas em algum momento se dá o Massacre, como o do Jacarezinho, que exige resposta sob pena de nos submetermos a mais um avanço na direção da servidão e do ódio. 

O Massacre do Jacarezinho é um ponto de intensidade, um evento que marca a intensidade e  o alcance de um acontecimento definidor, um divisor de águas que cobrará o seu preço no futuro do presente. O mesmo se dá em relação a uma sucessão de traumas que produziram o colapso ambiental e sanitário, bem como, ao conjunto de ações do tipo da guerra híbrida, que levaram a uma farsa judicial e institucional e a uma tutela policial e militar na cena brasileira. O que abre para a emergência de bandos armados, que tornaram ainda pior o quadro de controle miliciano e do tráfico nos territórios da cidade do Rio de Janeiro, como instrumento de extração de mais valia social e produção de sofrimento.

O fracasso se alimenta e se repete quando se trata de sustentar interesses e forças da injustiça e da desigualdade na via da segregação e do preconceito. A pergunta que se coloca é: se nos próximos dias, deste maio de 2021, poderemos barrar a lógica destrutiva, através da formação de blocos de forças democráticas, capazes de rearticular as relações entre imunidade e comunidade na via democrática e republicana?

O mês de maio lembra a necessidade de avançarmos num projeto para o Brasil que vá além da abolição, capaz de contribuir para avançar o poder da cidadania por meio de novas alianças, como as que se teve contra as ditaduras de todo tipo. Tratasse de impedir que se quebre as condições mínimas para que a sociedade brasileira não passe,  mais uma vez, pelo atraso dos banhos de sangue e de dor. 

Neste quadro Davi se movimenta, pela unidade das forças moleculares de defesa da vida que não aceitam a mentira e a força bruta. Mas será preciso ter coragem, paciência e organização para garantir que este maio de 2021 seja marcado pela virada da resistência. A unidade na diversidade começa a se organizar a partir da centralidade do social e das vozes, corpos e territórios segregados, que gritam contra a naturalização dos processos mórbidos ou da pulsão de destruição. 

Maio de luto e de luta como resposta ao Massacre do Jacarezinho e a uma explosão de fome, doença e morte que nasceu do negacionismo, _ como discurso atual da legitimação da exceção e do excesso. Estamos diante de forças que colocam em prática o apelo ao fascismo sem máscara, pois Golias enlouqueceu. 

O neoliberalismo, esta doença infantil do capitalismo mundializado, começa a ensinar seu contrário o valor da vida, a importância da justiça social e o valor do conhecimento. O valor de uma política que afirme a cidadania e a responsabilidade dos governantes em unir a nação, afirmar o  primado dos direitos e se submeter a práticas republicanas sob a base da soberania popular, sem as exclusões prévias que nos lançam na lógica perversa de quem tem sede de morte.  

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O assassinato do Brasil - Alvaro Penteado Crósta

Por Alvaro Penteado Crósta

Enquanto o número de casos e de mortes por COVID19 avança sem controle pelo país, vemos o presidente da República crescer o tom em suas ameaças à democracia. Da mesma forma, aumentam os ataques de seu governo a outros países, notadamente à China.

Ao final da primeira semana de maio as mortes ultrapassaram o chocante número de 420 mil, com mais de 15 milhões de pessoas infectadas. Já a vacinação, em um país que contava há décadas com um sistema-modelo de imunização operado pelo SUS, continua avançando a passos de tartaruga. Apenas 15,7% da população recebeu até agora a 1ª. dose e 7,5% a segunda dose.

Ao analisar essa lentidão vê-se que o motivo é basicamente a insuficiência de vacinas importadas, ou do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) igualmente importado, usado na fabricação local de vacinas pelo Butantan e pela Fiocruz. Como a China é o país fornecedor da maior parte do IFA, torna-se algo absurdo e incompreensível que o presidente, seus filhos e seu ministro da economia, entre outros membros do governo, persistam nos ataques praticamente diários dirigidos à China.

Esses ataques, além de serem baseados em comprovadas mentiras, vêm solapando as relações diplomáticas e comerciais com o maior parceiro internacional do Brasil. A China, por sua vez, reage com reciprocidade, atrasando a exportação do IFA para o Brasil, o que faz com que a vacinação evolua lentamente. A China é também a principal fornecedora de outros itens utilizados na prevenção da doença, como materiais de proteção individual (máscaras cirúrgicas, luvas, aventais, entre muitos outros), e no seu tratamento, como equipamentos respiradores e medicamento usados nos procedimentos de intubação.

Assim, além de praticar internamente uma necro-política que está levando seus cidadãos à morte, o governo, em uma atitude aparentemente desconexa e absurda, pratica também uma política suicida no plano externo.

Ainda nesse mesmo plano externo, enquanto o presidente Biden anuncia que os Estados Unidos enviarão 10% do seu estoque de vacinas a outros países1, o jornal The Washington Post publica no dia 30/04 matéria cuja manchete já antevê o que se descortina para o país: “Bolsonaro insultou a maior parte do mundo. Agora o Brasil precisa da sua ajuda” 2. Não resta dúvida de que o Brasil, caso venha a ser considerado para receber parte desse estoque de vacinas, certamente estará no final da lista. 

Recorde-se ainda que Bolsonaro e seus filhos sempre prestaram subserviente apoio a Donald Trump. Ao comentar o ataque e a invasão do Congresso norte-americano por um grupo de fanáticos apoiadores de Trump quando da homologação da eleição de Joe Biden, Bolsonaro justificou aquele ato insano dizendo que havia ocorrido fraude na eleição de Biden. Não satisfeito, o presidente brasileiro delongou por várias semanas o envio de mensagem ao novo presidente eleito dos Estados Unidos, período em que continuou a prestar apoio a Donald Trump e a reafirmar a ocorrência de fraude.

Uma análise feita pela revista científica Nature no dia 04 de maio3 mostra o altíssimo custo que dois países estão pagando com vidas humanas vítimas da COVID19. Os casos analisados, não surpreendentemente, são os do Brasil e da Índia. Em ambos, destaca a revista, os respectivos dirigentes falharam em não seguir as recomendações dos cientistas, provocando desnecessariamente mortes que, somados os dois países, ultrapassam 660 mil pessoas até agora.

Isso leva à reflexão sobre as causas por detrás dos atos e discursos do presidente do Brasil, seus filhos e sua equipe de governo. Somente uma combinação dos seguintes fatores me vem à cabeça nessa reflexão.

O primeiro deles é um total e absoluto desprezo pela vida humana, já amplamente demonstrado por Bolsonaro com relação às minorias étnicas (indígenas, quilombolas), às mudanças nas leis para permitir o fácil acesso a armas de fogo, às suas declarações públicas sobre a COVID19, bem como sobre as mortes por ela causadas (“É só uma gripezinha.”, “E daí? Eu não sou coveiro!”, “Somente os maricas ficam em casa.”, entre inúmeras outras), bem como sua famigerada ligação com as milícias cariocas. Este vínculo com tais organizações criminosas é agora reforçada pelo massacre ocorrido esta semana na comunidade do Jacarezinho no Rio de Janeiro. Em mais uma ação policial, desta vez pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, 28 cidadãos foram assassinados no que já é chamado de “A chacina de Jacarezinho”, amplamente repercutida pela mídia nacional e internacional. 

Vale lembrar que o massacre de Jacarezinho foi feito em clara afronta à decisão do STF, de que operações policiais em comunidades só poderiam ser feitas em casos absolutamente excepcionais. Mais ainda, esta ação letal foi precedida de uma reunião, ocorrida no dia anterior à operação no Jacarezinho, entre Bolsonaro e Claudio Castro, governador do Rio, a quem se subordina a Polícia Civil. Merece ser lembrada a existência da guerra pela conquista de territórios em curso no Rio de Janeiro, guerra essa que tem, de um lado, bandos de traficantes e, pelo outro, as milícias cariocas, ambas igualmente assassinas.

O segundo fator é algo sobre o qual se comenta desde que Bolsonaro surgiu na vida pública há mais de três décadas, mas que parece não ser devidamente levado a sério. Trata-se do evidente quadro mental do presidente, já analisado por especialistas médicos4,5 e apontado como um caso de psicopatia grave por muitos deles. Assim, na mesma semana que é instalada pelo Congresso a CPI para investigar responsabilidades pelas mortes causadas pela COVID19, dois anúncios devem ser destacados: o da realização de um curso ministrado por psiquiatras que analisará a saúde mental do presidente6, e um discurso feito pelo deputado Fausto Pinato que, paradoxalmente, pertence à base aliada do presidente na Câmera dos Deputados, no qual ele afirmou que Bolsonaro pode ter uma doença mental grave e sugere uma interdição para tratamento médico7!

Que a chacina do Jacarezinho possa ter sido usada por Bolsonaro e seu fiel aliado Claudio Castro como uma “cortina de fumaça” para desviar o foco da CPI que ele e seus ministros tanto temem não é uma hipótese a ser desconsiderada.

Está, portanto, nas mãos, mentes e corações dos senadores e deputados o encargo de evitar que se consume o assassinato do Brasil, cometido por seu próprio presidente. 

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Jacarezinho - O controle social através de um mandado de execução - Ricardo Nêggo Tom

Por Ricardo Nêggo Tom

Essa é a primeira vez que fico sem saber por onde começar um texto. Não por desconhecer o tema, mas pelo excesso de possibilidades disponíveis para desenvolvê-lo. Excesso de possibilidades que soube ser “bem” explorado na operação realizada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro na favela do Jacarezinho, e que resultou na morte de 28 pessoas. Para tentar começar, é preciso lembrar à sociedade que nenhuma operação policial, para qualquer que seja a finalidade ou sob quaisquer condições, pode resultar na morte de 28 pessoas. Principalmente, quando ela é realizada por uma polícia investigativa e não operacional.

Seguindo o fio, gostaria de analisar as declarações do Delegado responsável pela operação e do Secretário de Polícia Civil do RJ, que tenta nos oferecer uma narrativa extraída da polpa do bolsonarismo. O primeiro, critica o que ele chama de “ativismo judicial” da esquerda, sugerindo que tal ideologia é a responsável pela proliferação do crime no país. O segundo, apela para a mais hipócrita das abstrações sociais pregadas pelas forças de segurança do estado. A defesa do cidadão de bem. Neste caso, a defesa da infância e da adolescência que estava sendo recrutada pelo tráfico de drogas daquela comunidade.

Ao tentar polarizar politicamente a discussão em torno da legalidade da operação que comandou, o delegado usa dos mesmos argumentos simplistas que o seu “mentor” intelectual, o presidente da república Jair Bolsonaro.  Se fosse inquirido a responder o porquê de as comunidades dominadas pela milícia, não sofrerem uma operação semelhante, responderia: “E o Lula?”, num lapso temporal que o seu direito penal particular classificaria de: “Jurisprudência Moroniana” Alinhar os discursos é um pacto entre o estado e suas forças de segurança. E quando o estado é fascista, essas forças tendem a servi-lo com mais fidelidade, porque foram forjadas sob um viés fascista.

O Secretário de Segurança declara que a operação foi em defesa dos direitos humanos, porque visava salvar a vida de crianças e adolescentes cujas estavam sendo roubadas pelos traficantes. Desde quando o estado se preocupa em salvar a vida de crianças pobres, pretas e periféricas? Muitas delas estão nas ruas, com fome, sem assistência e sem nenhuma perspectiva de futuro, porque o estado as ignora. E, infelizmente, o que o estado não faz, o tráfico faz por elas, oferecendo uma "oportunidade", talvez a primeira e a única de suas vidas, para que elas garantam, da pior forma possível, a própria subsistência. Essa é a triste realidade.

Será que esta sanguinária operação conseguiu acabar com o tráfico de drogas na comunidade? Será que a partir de agora, as crianças do Jacarezinho serão acompanhadas pelo Estado e terão o seu futuro assegurado pelo mesmo? Por que, então, esse mesmo estado mantém as escolas públicas propositalmente sucateadas, sem recursos e sem investimentos, quando elas poderiam ser o principal refúgio dessas crianças contra o aliciamento do crime organizado? Quer você queira ou não queira, o Estado é o principal produtor dos bandidos que agora quer exterminar. Uma declaração dada por um então deputado federal, corrobora com o que escrevo aqui.

“Não adianta nem falar em educação porque a maioria do povo não está preparada para receber educação e não vai se educar. Só o controle da natalidade pode nos salvar do caos”. Essa declaração foi dada por Jair Bolsonaro em 2008. Dez anos depois, a sociedade o elegeu presidente da república. A chacina ocorrida no Jacarezinho passa por essa declaração e por outras mais polidas que tem o mesmo significado. É melhor matar, do que educar. Por coincidência, um dia antes do massacre comandado pela Polícia Civil, o autor desta frase esteve reunido a portas fechadas com o Governador do estado. Significa alguma coisa?

Significa que, não tendo interesse no desenvolvimento social da população pobre, preta e periférica, e sabendo que ela poderá se tornar um grave problema de segurança pública, o estado usa as forças de segurança para reprimir qualquer tentativa de reação que essa população insinue esboçar, no sentido de reivindicar os seus direitos como cidadãos. O que houve no Jacarezinho foi uma demonstração de poder. E isso é um procedimento diário, só que em proporções menores do que ocorreu. E não é só bandido que está submetido a esse procedimento. São os pobres (em sua maioria negros) de um modo geral. É um manter de cabeça baixa aqueles que o estado precisa oprimir, para não perder o controle.. Parece loucura, mas o inimigo é criado para continuar justificando o controle e a opressão social. 

Defender bandido não faz parte da minha ideologia. A eles, a lei e a punição que ela manda aplicar. Mas, até onde se saiba, não há pena de morte na nossa legislação. O que nós vimos acontecer no Jacarezinho foi o cumprimento de um mandado de execução. De onde partiu a ordem, não é muito difícil deduzir. Principalmente, se considerarmos o fato de o STF ter proibido operações policiais em comunidades durante a pandemia. Quem vive às turras com o Supremo, confrontando as decisões dos ministros da corte e instigando o seu gado a atacá-los? Esquece! Deve ser apenas coincidência. 

E o genocídio continua...

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