FATOS, OPINIÕES e nossos VIESES COGNITIVOS

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Guru de Will Smith e Gwyneth Paltrow, ex-monge JAY_SHETTY lança livro no Brasil e fala sobre 'falsa positividade' _ OPOSIÇÃO ao "O SEGREDO"?
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O Rio é um desperdício de felicidade
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Morrendo pela boca _ Gabeira 
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Embates entre Executivo e Judiciário se multiplicam na América Latina e preocupam juristas e ONGs
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"Deep water":
CRIMES de ÓDIO em praia PARADISÍACA 
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"Apesar de você":
O hino de Chico Buarque que a ditadura censurou após levar drible do poeta
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____________________ EPA : 
em nova carta, "militares da ativa" ADVERTEM Macron sobre AMEAÇAS à 'SOBREVIVÊNCIA' da França
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ANGELA OLINTO ( 59 ! ) _ astrofísica brasileira é eleita para a Academia Nacional de Ciências, nos EUA, e desenvolve missão com a NASA
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Mais de 2 MIL imigrantes desembarcam na ilha iltaliana de LAMPEDUSA em apenas 24 horas
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O Rio é um desperdício de felicidade

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Lagoa Rodrigo de Freitas

Aconteceu no mesmo momento em que a polícia estava matando 27 pessoas na favela do Jacarezinho.

Eu tenho uma amiga em Los Angeles e desenvolvi com ela, também adepta de corridas matutinas, uma brincadeira de trocarmos fotos, em tempo real, dos cenários por onde estamos praticando nossos exercícios.

Naquela quinta-feira pela manhã, enviei a foto de uma mulher esguia, em trajes coloridos, praticando boxe com seu personal num deck boiando sobre as águas da Lagoa. Iluminada pelo sol suave de outono, emoldurada pela copa frondosa de uma árvore, a cena parecia comercial de sucrilhos. Se eu abrisse um pouco mais o quadro o Cristo Redentor estaria ali em cima, abraçando o casal e a natureza diretamente do Corcovado. Dispensei. Achei que já havia deslumbramento suficiente.

Em resposta, logo em seguida a minha amiga mandou de Palm Springs a foto da fachada do casarão onde Elvis Presley morou. “Sempre acelero quando corro por aqui”, dizia a legenda, “deve estar cheio de fantasmas”.

Reconheço um certo sadismo, de índole carinhosamente benigna, em promover esse confronto de imagens quando você tem a seu favor um cenário imprensado entre uma floresta tropical e uma lagoa ao pé de montanhas. Fica difícil receber algo mais bonito como resposta.

Nessa troca de fotos eu só deixei de informar à minha amiga um detalhe de bastidor. Antes de sacar o celular do bolso e disparar o clique daquela cena exuberante, tive o cuidado de olhar para o lado esquerdo, o direito, para frente e para trás, tudo na necessidade tão carioca de me precaver e não ser assaltado novamente, como aconteceu em dezembro, por um cara agarrado a uma faca.

Os medos da amiga de Los Angeles são os fantasmas da imaginação, a pouco provável aparição do roqueiro gordo ainda se empanturrando de sanduíches e barbitúricos. Os meus são reais.

Naquela quinta-feira, uma segunda foto dela, das palmeiras da 19th Street vistas da esquina bem asfaltada com a Arizona Avenue, foi respondida com o skyline do Morro Dois Irmãos ao lado da Pedra da Gávea. Dessa vez, já sentado num quiosque e tomando uma água de coco, eu acabara de ver o noticiário online – e na legenda da minha foto soneguei a informação de que, a 10kms daquele visual divino, a chacina estava em curso.

Viver no Rio é se espantar o tempo todo com a proximidade desse céu e inferno, a frustração cotidiana de se imaginar a dois passos do paraíso, e, sorry, não ser bem assim. O cenário é de real valor, sobre a cultura não resta a menor dúvida e o pessoal está sempre disposto a festejar – mas, como dizia o poeta da Rua Conselheiro Lafayette, hoje à beira-mar sentado e com os óculos de vez em quando roubados, por aqui “é sempre no passado aquele orgasmo”.

O Rio é um desperdício diário de felicidade, um partido alto que vai seguindo genial, cabrochas lindas revirando os olhos no meio da quadra, até que lá do fundo do coro um gaiato grita o breque do “porém, ah, porém”. É duro equilibrar tanta euforia e depressão. A cidade é um truque fácil para ficar bem na foto e matar de inveja quem quer que esteja do outro lado do aplicativo. Difícil é acertar o enquadramento para que, aos pés do Cristo, 29 cadáveres não entrem na cena e, muito além de Los Angeles, muito além de qualquer imaginação, assombrem o mundo.

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Entre_aspas ________________  Washington Olivetto

A primeira frase realmente boa e eficaz que escrevi na vida não foi para um anúncio, foi para um cartão que acompanhava umas flores que mandei para uma moça.

Eu estava começando na publicidade e ela, no jornalismo. Ela era linda, inteligente e talentosa, mas tinha um grande defeito: um namorado italiano, bonitão, bem vestido, 18 anos mais velho que eu, que desfilava pelas ruas de São Paulo com uma Ferrari Dino vermelha.

Uma competição entre mim e ele era mais ou menos como uma disputa do Corinthians sub-20 com a Juventus de Turim, do Cristiano Ronaldo.

Mas, como a moça tinha se encantado com o fato de eu ter ganhado um Leão de Bronze no Festival do Cinema Publicitário de Veneza, com o primeiro comercial que escrevi na vida, resolvi tentar.

Comprei um maço de flores do campo e mandei para ela acompanhado de um cartão que dizia: “As próximas, a gente rouba juntos”. Ela adorou o cartão, e o impossível aconteceu: tomei a namorada do italiano bonitão.

Anos depois, já publicitário conhecido, fiz uma palestra com o tema “o cartão é mais importante do que as flores”, em que eu dizia que o negócio da persuasão na publicidade era igualzinho à vida real.

Dois rapazes podiam comprar as mesmas flores, para a mesma moça, na mesma floricultura; mas aquele que escrevesse o melhor cartão agradaria mais.

Desde menino, sempre gostei de frases e, certamente por isso, acabei virando publicitário, uma atividade em que frases inesquecíveis são fundamentais. Gosto de todos os tipos de frases, desde que bem pensadas.

Podem ser afetadas como as de Oscar Wilde: “Chamamos de ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando”.

Verdadeiras como as de Nélson Rodrigues: “A liberdade é mais importante que o pão”.

Poéticas como as de Mário Quintana: “A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem”.

Autocríticas como as de Tim Maia: “Comecei uma dieta, cortei a bebida e as comidas pesadas e, em 14 dias, perdi duas semanas”.

Pretensiosas como as de Salvador Dalí: “Às vezes penso que um dia morrerei por uma overdose de satisfação”.

Sinceras como as de Tom Jobim: “Viver no Rio é uma merda, mas é bom. Viver em Nova York é bom, mas é uma merda”.

Precisas como as de Millôr Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”.

Autoanalíticas como as de Raul Seixas: “A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal”.

Cínicas como as do príncipe Philip: “Quando você encontrar um homem abrindo a porta do carro para sua esposa, pode ter certeza de que ou o carro é novo, ou a esposa é nova”.

Políticas e comportamentais como as de Winston Churchill: “A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra, a pessoa só pode ser morta uma vez, mas, na política, diversas vezes”; “se Hitler invadisse o inferno, eu faria uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns”; “não há mal nenhum em mudar de opinião, contanto que seja para melhor”; “estou sempre disposto a aprender, mas nem sempre gosto que me ensinem”.

Churchill foi, sem dúvida, o político que melhores frases disse e escreveu em todos os tempos. Tanto sobre a política quanto sobre a vida, coisas que, na verdade, são uma coisa só. Existem inúmeros livros com as frases dele. Lendo qualquer um, dá para perceber como são medíocres as frases da maioria dos governantes brasileiros.

Alguns até conseguem dizer coisas que um dia serão lembradas, mas apenas por ser ridículas ou descabidas. Coisas do tipo “não vão me fazer desistir porque sou imbrochável”, ou “se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”.

Evito ler e ouvir o que dizem esses personagens, normalmente, repetindo sandices na tentativa de encantar seus eleitores cativos para uma próxima eleição.

Quando, por acaso, sou atingido por mensagens de algum deles, coloco em prática uma das frases famosas de Groucho Marx: “Nunca me esqueço de um rosto, mas, no seu caso, ficarei feliz em abrir uma exceção”.

Washington Olivetto - assinatura

Por Washington Olivetto

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Morrendo pela boca

Pode ser que eu esteja maluco. Morreu há muitos anos o amigo Chico Nélson, que me socorria nesses momentos de dúvida e dizia: “Tranquilo, você está lúcido”.

Nada me impressiona mais na sequência de bobagens diárias de Bolsonaro do que esta pergunta: “Sera que não estamos enfrentando uma nova guerra?”.

O presidente da República é, pela Constituição, o comandante das Forças Armadas. Se ele se volta para nós e pergunta se estamos enfrentando uma guerra, deixa-nos tão inseguros quanto os passageiros de um avião questionados por um piloto ao aterrissar: “Será que estamos com o trem de pouso acionado?”.

O contexto da pergunta é claro: o presidente duvida da origem do coronavírus. Essa é uma dúvida que circulou no ano passado, com inúmeras reportagens investigativas sobre o laboratório de Wuhan de onde o vírus poderia ter escapado.

Nenhuma delas foi convincente. A Austrália duvidou do papel da China e pediu oficialmente uma investigação. Você pode ou não concordar com a medida, mas é muito mais sério do que ficar reclamando pelos cantos, como faz a família Bolsonaro.

A OMS constatou em Wuhan que a hipótese de o vírus ter escapado do laboratório é improvável, fortalecendo a ideia de uma transmissão por animais.

A China é um país com grande crescimento material e uma visão estratégica de longo alcance. É um absurdo imaginar que disseminaria um vírus em sua própria população, correndo um risco gigantesco, apenas para atingir os outros.

Essa é uma tese de gente que acha que o Partido Democrata americano é composto de pedófilos que se reúnem no porão de uma pizzaria.

Apesar de admirar a riqueza e a cultura tradicional da China, não creio que possa ser qualificado de um maldito comunista. Pelo contrário. Quando deputado, participei de uma coalizão internacional pelo Tibete livre. Convidei o Dalai Lama para falar no Congresso brasileiro, briguei com o Itamaraty quando, sob pressão da China, hesitou em conceder o visto de entrada ao líder religioso.

É possível e necessário discordar da política de grandes potências, EUA ou China, desde que se parta de convicção profunda, assumindo as consequências dessa discordância.

É inadmissível um presidente da República difundir fake news e teorias da conspiração contra a China, sem nem assumir que está falando do país.

É possível que a Austrália sofra alguma retaliação comercial por se opor à China abertamente. No caso brasileiro, o elemento covardia talvez seja uma agravante porque Bolsonaro fala de um vírus, fala de um país que cresceu após a pandemia, mas não assume que se referia à China.

No momento em que está acossado pela CPI, essas referências ao coronavírus como se fosse um ato de guerra dos chineses mostram como Bolsonaro realiza profundamente aquilo que denuncia em seus opositores: a politização da pandemia.

É um movimento patético, porque Bolsonaro é acusado de um negacionismo que contribuiu com a morte de muita gente. Nesse caso, rigorosamente não importa se o vírus foi ou não difundido pelos chineses nessa fantástica guerra; o que importa é se ele mata ou não.

A ideia de ignorar o vírus e tocar a economia como se nada estivesse acontecendo é uma leitura bárbara da teoria de imunidade de rebanho. É um tipo de estratégia a ser realizada pela vacinação e por outras medidas de segurança, jamais pela exposição à morte de milhares de pessoas.

A política internacional tornou-se mais complexa com a ascensão da China e o relativo declínio dos Estados Unidos. Nossa vida cotidiana foi atropelada pela pandemia.

Nunca foi necessária tanta habilidade de um estadista para posicionar o Brasil no mundo e, simultaneamente, conduzir uma política interna de proteção da vida.

Bolsonaro jamais se interessou pela política internacional, jamais se interessou por salvar vidas, mas apenas por tocar a economia e salvar seu mandato.

Homem errado no lugar errado é a grande causa de nosso sofrimento.

Fernando Gabeira - assinatura

Por Fernando Gabeira

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Fatos, opiniões e nossos vieses cognitivos

Por Antônio Gois

Dois terços dos jovens brasileiros de 15 anos que fizeram o Pisa (exame internacional da OCDE) têm dificuldade de diferenciar fatos de opinião na leitura de um texto. É um dado preocupante num mundo em que, como nunca, somos expostos diariamente a um excesso de informações falsas ou de baixa qualidade. O problema não é exclusivo do Brasil. Na média da OCDE (organização que congrega, em sua maioria, nações ricas), metade dos estudantes apresentaram mesma dificuldade.

Esses dados fazem parte de um novo relatório do Pisa, divulgado na semana passada. A pesquisa também investigou se estudantes tiveram oportunidade de aprender na escola algumas questões essenciais para a cidadania na era digital. Por exemplo, 46% dos brasileiros e 55% na média da OCDE disseram que foram ensinados sobre como detectar se uma informação é subjetiva ou enviesada. Ter tido essa oportunidade foi o fator mais correlacionado à capacidade de diferenciar fatos de opinião.

A comparação das respostas dos jovens brasileiros com os de outros 79 países mostra outros pontos de atenção. Por exemplo, 52% dos estudantes daqui disseram que tiveram aulas sobre como decidir se uma informação na Internet é confiável, o terceiro menor percentual entre todas as nações comparadas. A oportunidade de reflexão na escola sobre as consequências de tornar uma informação pública em redes sociais foi citada por 49% dos brasileiros, o quinto menor percentual.

O mais preocupante não é a posição do Brasil frente a outros países, mas o fato de que essas e outras habilidades ainda não estarem sendo devidamente trabalhadas, apesar de os jovens, aos 15 anos de idade, já fazerem uso intensivo das redes sociais. São os nativos (talvez cativos) digitais.

Não há dúvida de que deveríamos trabalhar melhor essas habilidades, que fazem parte da Base Nacional Comum Curricular. Mas aqui cabe uma nota de realismo para quem espera que as escolas, sozinhas, deem conta de um problema que é de toda a sociedade: o principal alimento da indústria de desinformação não é a falta de conhecimento ou treinamento para identificar notícias falsas.

Num dos mais citados estudos sobre vieses cognitivos, os pesquisadores Dan Kahan, Erica Dawson, Ellen Peters e Paul Slovic pediram que adultos americanos interpretassem os resultados de um experimento científico. Os participantes fizeram um teste de matemática e responderam a um questionário para identificar sua ideologia política, e depois foram divididos em quatro grupos com as mesmas características. Dois receberam números com resultados (fictícios) de testes sobre o uso de uma nova pomada de pele. Os outros dois foram apresentados aos mesmíssimos números, mas relativos a um tema polêmico: o impacto da proibição de porte de armas nas taxas de criminalidade em diferentes cidades. 

Motivated numeracy and enlightened self-government. Behavioural Public Policy, 1

No caso dos adultos que analisaram os dados do teste com a pomada, não houve surpresa: quanto melhor o desempenho em matemática, maior a taxa de acerto na simples interpretação dos números. No entanto, quando o assunto foi o porte de armas, o conhecimento em matemática foi praticamente inútil e as pessoas chegaram às conclusões que mais se alinhavam ao seu posicionamento político, mesmo quando os números claramente refutavam suas teses.

Ensinar nas escolas como identificar notícias falsas ou enviesadas é fundamental. Mas precisamos também, jovens e adultos, ter mais consciência sobre nossos vieses e, sobretudo, compartilhar valores éticos e democráticos, de tolerância e respeito. Há muito a caminhar.

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'Fui abusada na infância e escravizada aos 14 anos', diz Malu Mello, chef de celebridades

Ela deu a volta por cima, tem um catering que leva seu nome, com clientes como Marina Ruy Barbosa e Preta Gil, e é destaque na gastronomia do Rio
Em depoimento a Marcia Disitzer
10/05/2021 - 04:30
Malu Mello Foto: Leo Martins / Leo Martins/gência O Globo
Malu Mello Foto: Leo Martins / Leo Martins/gência O Globo

"Venho de uma família muito humilde. Nasci na roça, em Paty do Alferes. Meu pai era agricultor e minha mãe, dona de casa. Sou a caçula de oito irmãos. Onde nasci, não tinha TV, telefone nem asfalto. Água, só a de poço. Vivíamos distantes de tudo. Desde criança, me dei conta de que só sairia daquela realidade por meio do estudo. Dos 7 aos 13 anos, fui abusada sexualmente por um parente. E ele não foi o único: também fui molestada por um vizinho e até por um juiz, que se aproveitou da inocência de uma criança que nunca tinha tido uma boneca. Ele veio com um ursinho de pelúcia, sentou-me no seu colo e me fez sentir seu pênis ereto. Não sabia o que aquilo significava, mas não ficava confortável. Os abusos se agravaram porque, naquela fase, meu pai precisou realizar uma cirurgia de coluna num hospital na capital. Minha mãe teve que acompanhá-lo e nós ficamos sozinhos, sendo ‘olhados’ por conhecidos. Só consegui falar sobre esse assunto aos 30 anos, num retiro espiritual. Dói muito até hoje. 

Malu e Marina Foto: Reprodução do Instagram
Malu e Marina Foto: Reprodução do Instagram

Quando fiz 14, surgiu a chance de ir para o Rio, trabalhar na casa de um casal de advogados. Minha função seria tomar conta dos filhos pequenos. Não hesitei em partir, queria escapar dos abusos. Porém, quando cheguei lá, vivi em condições análogas à escravidão. Acordava às 4h30, servia o café, colocava e tirava a mesa, fazia o almoço, lavava roupa, levava e buscava as crianças no colégio, cozinhava o jantar. À noite, estudava. Dormia à 1h da manhã e no, dia seguinte, começava tudo de novo. Recebia menos do que um salário mínimo e não tinha folgas nem aos finais de semana. No colégio, fiz amizade com um rapaz chamado Bruno, que me chamou para ir morar com a família dele, na favela. Fui embora sem olhar para trás. A casa tinha apenas um cômodo, mas muita solidariedade. Fiquei lá por um tempo até voltar para minha cidade, onde me formei no Normal. Já cozinhava desde criança, mas comecei a fazer bolo e empadão para pagar a formatura.

Aos 18 anos, engravidei de Maria Victória do meu primeiro namorado. Depois, me casei (com outro namorado), tive minha segunda filha, Maria Clara, e me separei. Entre altos e baixos, me formei em Administração. E, graças aos doces e bolos, pude quitá-la. Aos 23, deixei as meninas com minha mãe e fui para o Rio. Trabalhei com corretagem até que, em 2011, abracei meu sonho: estudar Gastronomia. Estagiei na cozinha de grandes chefs, como Felipe Bronze, e fiz curso de culinária francesa com Laurent Suaudeau. Hoje, aos 37, tenho um catering, em que atendo famosos como Marina Ruy Barbosa e Petra Gil, crio marmitas personalizadas e dou consultoria para restaurantes, como o Le Vélo Montagne. Levo uma vida boa ao lado das minhas filhas. A cozinha me conecta com a minha família: sem minhas raízes, erros e acertos, não teria chegado até aqui.”

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Mais de 2 mil imigrantes desembarcam na ilha iltaliana de Lampedusa em apenas 24 horas

Ao todo, mais de 12 mil pessoas chegaram ao local ilegalmente em 2021
O Globo e Agências internacionais
10/05/2021 - 07:45 / Atualizado em 10/05/2021 - 11:58
Imigrantes desembarcam na ilha de Lampedusa, na Itália. Mais de 2 mil chegaram em apenas 24h Foto: Mauro Buccarello / REUTERS
Imigrantes desembarcam na ilha de Lampedusa, na Itália. Mais de 2 mil chegaram em apenas 24h Foto: Mauro Buccarello / REUTERS

LAMPEDUSA — Em apenas 24 horas, 2.128 imigrantes chegaram em barcos à ilha de Lampedusa, no Sul da Itália. A Guarda Costeira resgatou pessoas em 20 embarcações, muitas delas superlotadas e sem segurança. Segundo a agência de notícias italiana ANSA, apenas entre a noite de domingo e a madrugada desta segunda-feira 635 pessoas desembarcaram no local.

O grupo é formado majoritariamente por homens, mas há também mulheres e crianças. Todos foram testados para a Covid-19 e transferidos para navios de quarentena. O desembarque indica a retomada de um fluxo migratório entre o Norte da África e a Itália que havia sido reduzido nos dois últimos anos, depois que os países europeus passaram a pagar a Líbia para interceptar os barcos de imigrantes no mar antes que chegassem a águas internacionais.

Imigrantes que chegam na ilha de Lampedusa fazem teste de Covid-19 e são levados para navio de quarentena Foto: Mauro Buccarello / REUTERS
Imigrantes que chegam na ilha de Lampedusa fazem teste de Covid-19 e são levados para navio de quarentena Foto: Mauro Buccarello / REUTERS

Segundo a imprensa local, autoridades tentam definir medidas a serem tomadas.

O senador Matteo Salvini, líder da Liga, de ultradireita, argumenta que é urgente uma reunião com o primeiro-ministro, Mario Draghi para decidir o que fazer com os recém-chegadosi. Salvini aguarda julgamento por ter ordenado bloqueio de um navio com mais de 100 migrantes a bordo que pretendia desembarcar em Lampedusa em agosto de 2019, quando ele era ministro do Interior. Promotores na Sicília o acusam de detenção ilegal, o que pode levar a uma pena de até 15 anos de prisão.

A líder do partido Irmãos de Itália, também de extrema direita, Giorgia Meloni, defende que os imigrantes sejam impedidos de desembarcar depois da quarentena e que um "bloqueio naval" impeça a chegada de outros. Meloni comanda a única legenda que ficou de fora do governo de união nacional formado por Draghi em fevereiro, depois da queda do primeiro-ministro Giuseppe Conte.

Já o prefeito de Lampedusa, Totò Martello, argumenta que "O 'bloqueio naval é um absurdo tão óbvio que nem merece comentários". Ele justifica: É iirresponsável voltar a fomentar o ódio social colocando 'italianos contra os imigrantes'”.

Lampedusa se tornou um dos principais portos para quem pretende entrar na Europa. De acordo com o Ministério do Interior, até esta segunda-feira mais de 12 mil imigrantes desembarcaram na ilha apenas em 2021. O número é três vezes maior do que o registrado no mesmo período em 2020. As nacionalidades predominantes são tunisianos (1.512), marfinenses (1.243) e bengalis (1.216). São 1.373 menores desacompanhados no total.

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Embates entre Executivo e Judiciário se multiplicam na América Latina e preocupam juristas e ONGs

Na Argentina, governo acusou Corte Suprema de "golpe institucional" após decisão que derrubou decreto presidencial sobre restrições na pandemia; tensão entre Poderes é elevada no Brasil, El Salvador, México e Peru
Janaína Figueiredo
10/05/2021 - 05:30 / Atualizado em 10/05/2021 - 11:45
O presidente da Argentina, Alberto Fernández, ao lado de sua vice, Cristina Kirchner Foto: ESTEBAN COLLAZO / AFP
O presidente da Argentina, Alberto Fernández, ao lado de sua vice, Cristina Kirchner Foto: ESTEBAN COLLAZO / AFP

Depois da decisão da Assembleia Nacional de El Salvador, de maioria governista, de destituir todos os juízes da Câmara Constitucional da Corte Suprema de Justiça e o procurador-geral, o governo da Argentina redobrou na semana passada os ataques à Corte Suprema de Justiça, que deu aval ao funcionamento presencial das escolas da cidade de Buenos Aires, derrubando um ponto central de recente decreto do presidente Alberto Fernández e se alinhando com a política sanitária do prefeito opositor Horacio Rodríguez Larreta. Para a vice-presidente argentina, Cristina Kirchner, a ação da Corte foi um “golpe institucional”.

Os embates entre os Poderes Executivo e Judiciário em países da região, entre eles o Brasil, preocupam juristas e organizações como a Human Rights Watch (HRW), que observam uma tendência autoritária de governos eleitos. Na visão de José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas da HRW, “não se trata de casos isolados. Pouco a pouco, está se impondo um discurso autoritário, de caudilhos que tentam convencer as sociedades de que devem ter a última palavra”. 

 — Estão sendo desafiados princípios básicos da democracia nos últimos três séculos, entre eles o da separação de Poderes — enfatiza Vivanco, em entrevista ao GLOBO.

 Depois de anunciada a decisão do Supremo argentino sobre as escolas, Fernández afirmou que a resolução refletia a “decrepitude” da Justiça.

— A Justiça causou muito dano, o Estado de Direito precisa de uma institucionalidade adequada. Escolham o candidato a presidente que quiserem, mas não usem as sentenças para favorecer seus candidatos — declarou Fernández, em referência à suposta tendência da corte em favor do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019). 

Já Cristina, que enfrenta oito processos por suposta corrupção e nos últimos meses intensificou sua ofensiva contra os tribunais, escreveu em sua conta no Twitter que “está muito claro que os golpes contra as instituições democráticas eleitas pelo voto popular já não são como antes”. 

A Associação de Magistrados e Funcionários da Justiça Nacional, o Colégio de Advogados e a ONG Seremos Justiça divulgaram comunicados repudiando a atitude da Casa Rosada. O presidente da Associação de Magistrados, Marcelo Gallo Tagle, disse sentir “profunda preocupação pela sucessão e o estilo de declarações das mais altas autoridades políticas da nação”. 

Na opinião de Daniel Sabsay, professor de Direito Constitucional da Universidade Nacional de Buenos Aires, “pela primeira a Corte Suprema tratou de atos de um governo em exercício, de forma constitucional, porque a sociedade está farta desse tipo de decretos e a palavra do presidente perdeu autoridade”.

— A cidade de Buenos Aires é autônoma, está em nossa Constituição. Várias câmaras inferiores deram razão ao chefe de governo portenho, e a corte simplesmente deu a última palavra — explica Sabsay.

 O jurista lamenta que a vice-presidente “ataque para tentar garantir sua impunidade”.

— O maior problema de Cristina é que o governo não tem maioria parlamentar para lhe dar proteção e promover, por exemplo, uma ampliação do número de membros da Corte ou alguma outra reforma — diz Sabsay. — A Argentina é mais um exemplo de tentativa de cooptação do Judiciário na região.

A tensão entre Executivo e Judiciário tem se acentuado em vários países latino-americanos. Dirigentes de esquerda e direita questionam as decisões e posicionamentos dos mais altos tribunais de seus países. No México, o presidente de esquerda Andrés Manuel López Obrador, o AMLO, conseguiu aprovar uma reforma do Judiciário que ampliou o período de mandato do presidente da Corte Suprema, hoje seu aliado, de quatro para seis anos. A oposição considera a reforma inconstitucional.

— Cada vez que a corte faz alguma coisa que AMLO não aprova, o presidente acusa o tribunal de ser neoliberal e corrupto. Os presidentes da região têm um cardápio de ataques a serem usados contra os tribunais — ressalta Vivanco.

Segundo o diretor da HRW, governos como os de Bolsonaro, Fernández e Nayib Bukele, em El Salvador, “usam argumentos fraudulentos para questionar os que colocam pedras em seu caminho” . Para este tipo de líderes, disse Vivanco, “quem ganha uma eleição leva tudo. (Hugo) Chávez foi o grande precursor da tese”.

 — As democracias têm uma legitimidade de origem, que é o voto popular, mas também uma legitimidade que deve ser preservada no exercício do poder. Caso contrário, os presidentes viram tiranos.

Ele lembrou que, na Bolívia, 90% dos juízes são provisórios, o que torna o Judiciário dependente dos governos de turno. No Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro voltou a ameaçar o Supremo de baixar um decreto para garantir a circulação de pessoas na pandemia, desautorizando prefeitos e governadores, Vivanco acredita que “a democracia está sólida, em grande medida, pela atuação do STF frente a um governo despótico”.

Na eleição presidencial peruana, também está em debate a independência dos tribunais. Antes do primeiro turno, o candidato de extrema esquerda, Pedro Castillo, que disputará o segundo turno com Keiko Fujimori em 6 de junho, prometeu “desativar o Tribunal Constitucional” e promover a eleição popular de novos juízes e promotores.

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Em nova carta, 'militares da ativa' advertem Macron sobre ameaças à 'sobrevivência' da França

Signatários anônimos afirmam que 'guerra civil está se formando' no país devido a 'concessões' do governo ao islamismo; mais de 163 mil pessoas assinaram o texto em endosso
O Globo e AFP
10/05/2021 - 13:48 / Atualizado em 10/05/2021 - 14:44
Ministra da Defesa da França, Florence Parly, e o secretário de Estado, Gabriel Attal, durante uma visita ao campo militar de Sartory, no Oeste de Paris Foto: MARTIN BUREAU / AFP
Ministra da Defesa da França, Florence Parly, e o secretário de Estado, Gabriel Attal, durante uma visita ao campo militar de Sartory, no Oeste de Paris Foto: MARTIN BUREAU / AFP

PARIS — Menos de um mês após 20 generais da reserva publicarem uma carta aberta sugerindo uma intervenção para defender a França de uma "guerra civil iminente", um novo pronunciamento repercute no país. Em um texto divulgado na noite de domingo, um grupo anônimo de autointitulados militares da ativa afirmou que a "sobrevivência" francesa está em jogo devido às "concessões" feitas pelo governo ao islamismo. 

Ao contrário da carta de abril, a desta semana é aberta para a assinatura de cidadãos franceses que concordem com seu conteúdo. Até meio-dia de segunda, no horário de Brasília, ela já reunia o apoio de mais de 163,1 mil pessoas, segundo a revista de extrema direita Valeurs Actuelles, que publicou as duas correspondências. 

"Se estourar uma guerra civil, o Exército irá manter a ordem em seu próprio solo", diz o texto de domingo. "Ninguém deseja uma situação tão terrível (...), mas uma guerra civil está se formando na França e vocês sabem disso muito bem", dizem ao presidente Emmanuel Macron e ao seu Gabinete. Em resposta, o ministro do Interior, Gerald Darmanin, disse que falta "coragem" aos signatários anônimos. 

Segundo a Valeurs Actuelles, cerca de 2 mil militares assinaram o texto, afirmando terem "entrado recentemente na carreira" e conclamando as autoridades a agirem não pela cobertura midiática ou para se reelegerem, mas pela "sobrevivência do nosso país, do seu país": 

"Somos o que os jornais chamam de 'geração de fogo'. Homens e mulheres, soldados da ativa, de todas as Forças Armadas, de todas as patentes e sensibilidades, que amam o nosso país. Essas são nossas únicas reivindicações à fama", diz a carta. "E se não podemos, por lei, nos expressar com o rosto descoberto, é igualmente impossível ficar em silêncio."

A carta afirma que o governo "pisou na honra" dos generais signatários da primeira correspondência — a ministra da Defesa, Florence Parly, afirmou que os envolvidos serão punidos, e o chefe do Estado-Maior, François Lecointre, disse que os militares que estão na reserva poderão ser imediatamente reformados. Diante disso, os militares da ativa afirmaram que cabe a eles ter "a honra de falar a verdade" desta vez:

"No Afeganistão, no Mali, na República Centro-Africana, ou em qualquer outro lugar, muitos de nós experimentamos fogo inimigo. Alguns de nós perderam companheiros. Eles ofereceram suas vidas para destruir o islamismo ao qual vocês estão fazendo concessões em nosso solo", afirmaram.

Eles dizem ainda que serviram na Operação Sentinela, instalada após a onda de ataques terroristas de janeiro de 2015, entre eles o contra a revista satírica Charlie Hebdo. Ela pôs 10 mil soldados e 4,7 mil policiais nas ruas para proteger pontos considerados vulneráveis ao terrorismo, e foi ampliada após os ataques coordenados de novembro daquele mesmo ano, quando 130 pessoas morreram.

Neste período, afirmam ter observado com seus próprios olhos "os subúrbios abandonados e a acomodação com a criminalidade". Dizem ainda que para várias comunidades religiosas que foram instrumentalizadas, a França não significa "nada, mas sim um objeto de sarcasmo, desprezo e até ódio".

'Isso é coragem?'

À AFP, um integrante da alta cúpula das Forças Armadas disse que a carta não deve ficar sem resposta. Será, ele disse, um lembrete do respeito à hierarquia e ao código militar e da necessidade dos militares se manterem politicamente neutros:

— É possível ter convicções pessoais, mas as Forças Armadas são apolíticas e têm lealdade absoluta ao presidente eleito. Se você se sente mal, pode deixar o Exército com a consciência limpa.

Em uma entrevista ao canal BFM, Darmanin criticou o anonimato dos signatários:

— Eu acredito que quando você está no Exército, não se deve fazer esse tipo de coisa anonimamente — afirmou. — Essas pessoas são anônimas. Isso é coragem? Não revelar sua identidade?

O clima envolvendo os militares franceses está conturbado desde a publicação da carta de abril, que foi assinada por “vinte generais, 100 oficiais de alto escalão e mais de mil soldados”. O procurador-geral de Paris, Rémy Heitz, rejeitou um pedido de parlamentares de esquerda para levá-los a julgamento, afirmando que “nenhuma ofensa criminal” foi cometida.

À época, o premier Jean Castex disse que a iniciativa dos generais era "contrária a todos os nossos princípios republicanos". Ele criticou ainda o endosso de Marine Le Pen, candidata à Presidência nas eleições de 2022 pela Reunião Nacional (RN), herdeira do antigo partido de extrema direita Frente Nacional (FN).

Tirando proveito da situação, Le Pen convidou os militares signatários a "se juntarem a ela". O aceno de Le Pen, que se aproxima de Macron nas intenções de voto e levanta preocupações na base governista, marca uma campanha eleitoral que deverá ter a imigração e a segurança nacional como assuntos-chave.

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Ponte Rio-Niterói, teatro no Méier, enredo de escola de samba e rua na cidade natal: veja as propostas para homenagear Paulo Gustavo

Ator e humorista morreu na última terça-feira vítima de complicações da Covid-19
Bernardo Yoneshigue *
10/05/2021 - 13:47 / Atualizado em 10/05/2021 - 14:10
Além de enredo para carnaval de 2022, propostas buscam renomear vias e espaços públicos em homenagem ao artista Paulo Gustavo, vítima da Covid-19. Foto: Victor Pollak / TV GLOBO
Além de enredo para carnaval de 2022, propostas buscam renomear vias e espaços públicos em homenagem ao artista Paulo Gustavo, vítima da Covid-19. Foto: Victor Pollak / TV GLOBO

RIO — A morte do ator e humorista  Paulo Gustavo, vítima da Covid-19, aos 42 anos, gerou uma forte comoção pelo país e inspirou propostas de homenagens. Entre elas, estão a mudança de nomes de espaços e vias públicas — sugeridas por políticos e pela prefeitura de Niterói, sua cidade natal — e o anúncio de enredo dedicado a Paulo para o carnaval de 2022 pela escola de samba carioca São Clemente.

A divulgação da mudança do enredo da escola de Botafogo — “Ubuntu", que já tinha sido escolhido para o próximo ano — pelo "Minha vida é uma peça", em homenagem ao artista, foi feita nas redes sociais da agremiação na última sexta-feira.

— Queremos mostrar as peças de sucesso, tudo o que ele construiu ao longo dessa carreira maravilhosa. Paulo tem muito da filosofia Ubuntu (que seria o enredo), de querer o bem de todos. O enredo ficou guardado, mas a gente mudou pelo bem. A gente não poderia deixar de homenagear um artista do tamanho do Paulo — disse o presidente da escola, Renato Almeida Gomes, o Renatinho.

Em 2013, quando a São Clemente falou sobre as novelas com o enredo “Horário Nobre”, Paulo Gustavo participou do desfile em cima de um carro alegórico vestido de sua personagem mais conhecida: a Dona Hermínia.

— Ele trouxe uma felicidade enorme na escola quando desfilou conosco. Ficamos muito felizes quando ele surgiu com a roupa da personagem. A escola se encheu de alegria naquele ano em tê-lo na avenida. Não teve preço ver o Paulo na São Clemente. É uma homenagem ao talento dele — acrescentou Renatinho.

Nome da rua em que cresceu

Outra reverência vem da prefeitura da cidade onde Paulo Gustavo nasceu e trouxe para suas diversas obras. Natural de Niterói, na Região Metropolitana, o ator cresceu na Rua Coronel Moreira César, no bairro de Icaraí. O nome da via, que já era motivo de debate por ser dedicado a um militar nascido em Pindamonhangaba, São Paulo, que lutou na Revolta de Canudos, agora vai mudar.

Com a morte do ator, que retratou a cidade em obras emblemáticas como os filmes “Minha mãe é uma peça” — a Prefeitura de Niterói lançou uma consulta pública on-line, entre os dias 5 e 8 deste mês, em que cerca de 90% de mais de 30 mil moradores do município votaram a favor da troca. O nome Rua Coronel Moreira César deve passar para Rua Ator Paulo Gustavo.

— Fico feliz com este reconhecimento dos niteroienses a um artista que emanou amor, empatia e solidariedade, dentro e fora dos palcos. Na próxima semana, encaminharei mensagem executiva à Câmara de Vereadores para oficializar a mudança, que não exclui a possibilidade de outras homenagens a Paulo Gustavo em nossa cidade, como a criação do Circuito Paulo Gustavo — disse o prefeito de Niterói, Axel Grael (PDT), em sua conta no Twitter, no último domingo.

Além da renomeação da rua onde o ator cresceu, a Niterói Empresa de Lazer e Turismo (Neltur) vai criar o Circuito Turístico Cultural Paulo Gustavo, que incluirá pontos famosos da cidade exaltados nas obras do comediante, como a Ilha de Boa Viagem, o Museu de Arte Contemporânea (MAC), o calçadão de Icaraí, o Campo de São Bento, a Confeitaria Beira-Mar e a Praça do Rádio Amador.

No Campo de São Bento, também será colocada uma estátua em tamanho real do artista.

Ponte Rio-Niterói e teatro no Méier

Outros dois lugares receberam propostas de alteração de nome para o do ator Paulo Gustavo: a Ponte Rio-Niterói e o Teatro Imperator, no Centro Cultural João Nogueira, no Méier.

Assim como a rua em Niterói, a ponte que liga a capital à cidade sorriso tem um nome que gera controvérsia: Ponte Presidente Costa e Silva, em referência ao militar que governou o país durante a ditadura.

Por ser popularmente conhecida como Rio-Niterói, o nome é até desconhecido por muitos, mas o deputado federal Chico D'Angelo (PDT - RJ) lembra que já houve outros projetos para renomear a ponte, e acredita que uma homenagem ao artista Paulo Gustavo é uma boa oportunidade para isso.

— Parlamentares já propuseram alteração no nome e até o Ministério Público Federal já propôs ação, que foi negada pela Justiça Federal do Rio de Janeiro com a justificativa de que a mudança não poderia ser feita por medida jurídica, e sim pela sociedade, por meio do Legislativo — explica o deputado.

Ele explica que, apesar de o projeto de lei ter sido protocolado na quarta-feira, dia 5, ele não tem o despacho para abertura da proposta ainda, mas acredita que provavelmente passará em caráter terminativo pela Comissão de Cultura e pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).

— Mais do que homenagear um grande niteroiense, será um legado à cidadania e à resistência das artes e da cultura nesses tempos sombrios. Será uma homenagem à democracia e a todas as vítimas da Covid-19 — ressaltou o parlamentar.

No mesmo dia, outra proposta foi apresentada na Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo vereador Rafael Aloísio Freitas (Cidadania). Apoiado pelos vereadores Cesar Maia (DEM) e professor Célio Lupparelli (DEM), o Projeto de Lei 0260/2021 foi protocolado na quinta-feira, e busca renomear o Teatro Imperator, no Méier, por Teatro Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros (1978 – 2021).

Para o vereador Rafael Aloísio Freitas, o artista fez o Méier ser conhecido nacionalmente com suas obras, e deu orgulho ao morador da região por ser de onde é.

— A relação que o personagem Valdomiro Lacerda (interpretado por Paulo Gustavo) tinha com o bairro era imensa. Era Méier para lá, Méier para cá. E o Paulo começou sua carreira no teatro, ou seja, é o nome perfeito — disse o vereador, que acredita que o projeto tenha grande possibilidade de aprovação.

— Protocolamos hoje e creio que ainda este mês deverá entrar em votação e ser aprovado. Ninguém vai se opor a esta homenagem, tenho certeza.

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Astrofísica brasileira é eleita para a Academia Nacional de Ciências, nos EUA, e desenvolve missão com a NASA

Pioneira nas pesquisas sobre astropartículas, Angela Olinto, que é professora da Universidade de Chicago, também foi eleita para a Academia Americana de Artes e Ciências
Pâmela Dias
10/05/2021 - 10:18 / Atualizado em 10/05/2021 - 10:31
Angela Olinto, 59, é astrofísica e professora da Universidade de Chicago, nos EUA Foto: Divulgação
Angela Olinto, 59, é astrofísica e professora da Universidade de Chicago, nos EUA Foto: Divulgação

Quem falou que lugar de mulher é apenas na cozinha precisa aprender que elas podem e devem estar onde quiserem, inclusive fazendo ciência, como a astrofísica brasileira Angela Olinto, que acaba de ser eleita para a Academia Americana de Artes e Ciências e também para a Academia Nacional de Ciências, ambas nos Estados Unidos, onde ela é professora na Universidade de Chicago.

A paixão por entender como se formaram as galáxias, os planetas e cada partícula do espaço sideral teve início aos 16 anos, idade em que Angela ingressou na faculdade. Desde então, ela se dedica ao estudo das astropartículas, através de pesquisas sobre a estrutura das estrelas de nêutrons, origem e evolução dos campos magnéticos cósmicos e buracos negros, entre outros fenômenos. Com a carreira consolidada e um currículo com mais de 30 páginas, Angela lembra que, para subir cada degrau como cientista, precisou enfrentar e combater muitas agressões verbais, simplesmente por ser mulher.

— Na minha geração, existem poucas sortudas que não sofreram preconceito. No Brasil, sempre houve desigualdade de gênero e preconceito. Tive que desenvolver a habilidade de ignorar 90% deles e, às vezes, reagir a comentários como “lugar de mulher é na cozinha”. Conforme fui ficando mais velha, diminuíram os casos de assédio, justamente porque agora consigo provar o meu valor como astrofísica; os homens passaram a respeitar meu trabalho. Mas, às vezes, ainda ocorrem comentários machistas — relata Angela.

Apesar da luta histórica das mulheres por igualdade, a presença feminina em postos de liderança e em áreas de destaque, como a ciência, ainda é menor do que a masculina. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), globalmente, menos de 30% dos pesquisadores e cientistas são mulheres. Para ir contra esse índice e equiparar a participação feminina na área, este ano, a Academia Nacional de Ciências selecionou 120 membros, sendo 59 mulheres — o maior número já eleito em um único ano.

Sendo o retrato vivo da desigualdade de gênero na ciência, Angela conta que, ao cursar o doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, em 1982, foi a única mulher entre 60 homens e só teve professores do sexo masculino. Diante da desvantagem de gênero, anos depois, ao se tornar professora da Universidade de Chicago e reitora da Divisão de Ciências Físicas e Matemáticas, a missão da brasileira passou a ser aumentar a quantidade de mulheres nesses espaços de ensino. E o trabalho tem dado frutos. Apesar de não ser uma decisão unilateral, Angela já conseguiu integrar quatro mulheres ao corpo docente da universidade.

— O que a gente mais ouve é que só conseguimos entrar na academia e pesquisas de física porque somos mulheres, como uma forma de descredibilizar todo esforço e estudo que fizemos. Quando eu contrato mulheres, por exemplo, esses comentários aparecem. Uso o humor para não me estressar e também para fazer a pessoa se tocar do que disse. Geralmente, eu falo: “sim, fui ali na esquina e selecionei a primeira mulher que vi, não precisa estudar é só ser mulher” — conta a astrofísica.

Entre os doutorandos da Universidade de Chicago também há avanços. Se durante a década de 1980 o índice de alunas mulheres estava restrito a 3%, atualmente a presença delas é dez vezes maior.

Contudo, a desigualdade se acentua novamente e com mais rigor ao fazer um recorte por raça/cor. Na instituição, por exemplo, ainda não há professores e professoras negros. Entre os 30% do corpo discente feminino, é possível observar alguma representatividade negra ainda não quantificada. Contudo, em palavras da astrofísica, “para cada 100 homens há 1 mulher negra”.

Nas lutas diárias para a inclusão não apenas de mulheres, mas de outras minorias como a população LGBTQI+, Angela segue quebrando tabus e desbravando o universo. Com apoio da NASA, sua pesquisa que detalha um balão de alta pressão que viaja numa altitude de 33 km para captar raios cósmicos de alta energia pode se tornar a próxima missão espacial da agência espacial americana. A expectativa é que o primeiro balão seja lançado já em 2023; e o segundo no início da década de 2030.

— Estamos construindo um telescópio, o EUSO-SPB, para voar em 2023 e projetando uma missão espacial, a POEMMA, para o final da década. Sou privilegiada por ter seguido perguntas inspiradoras sobre o nosso universo e ter construído parcerias e colaborações brilhantes no caminho. É uma grande alegria ser reconhecida pelos meus colegas cientistas especialmente num ano tão desafiador — conclui a brasileira.

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Para além de descobrir os fenômenos que acontecem fora do planeta, toda a tecnologia desenvolvida possui utilidade para os seres humanos, especialmente na medicina. Para os telescópios que serão lançados juntos com os balões, foram desenvolvidas dois tipos de câmera que fotografam entre 1 e 50 milhões de fotos por segundo. De acordo com Angela, as ferramentas podem ser aplicadas futuramente em mapeamentos de raio-x e outros exames clínicos, para detecção de doenças. Ou seja, todos poderemos nos beneficar da pesquisa de Angela Olinto. É isso que acontece quando mulheres brilhantes desenvolvem seu potencial.

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'Deep water': crimes de ódio em praia paradisíaca

Patrícia Kogut

Cena de 'Deep water' (Foto: Divulgação/Netflix)
Cena de 'Deep water' (Foto: Divulgação/Netflix)

Um rapaz gay é assassinado em seu apartamento debruçado sobre a Bondi Beach, praia famosa de Sidney.

Ele está amarrado à cama e o corpo tem marcas de espancamento.

A detetive Tori Lustigman (Yael Stone) e seu parceiro, Nick Manning (Noah Taylor), assumem o caso.

Esse é o ponto de partida de “Deep water”, minissérie australiana em quatro episódios que chegou à Netflix.

Parece um daqueles tantos enredos policiais cuja ação é disparada por um crime.

De quebra, ainda tem o charme do inglês com a pronúncia local e as paisagens lindas. 

Mas “Deep water” é bem mais que isso. 

Embora narre uma história de ficção, a produção se inspira em acontecimentos reais. 

Nas décadas de 1970 e 1980, aquele lugar foi palco de mais de 80 mortes. 

São crimes de ódio contra gays. 

Alguns deles nunca foram totalmente elucidados.

“Deep water” é parte de um projeto maior, que inclui ainda um documentário, um podcast e um site, com o objetivo de descobrir outros possíveis ataques desse tipo em Sydney.

Voltando à ficção. 

Tori se envolve muito com o caso.

Ela tem razões pessoais para querer capturar o responsável pelo crime: 

perdeu um irmão em 1989, quando ainda era criança. 

O rapaz era gay e apanhou antes de ser atirado de um penhasco. 

Como ocorreu com outras vítimas, na época, sua morte foi registrada como “suicídio”. 

A policial quer restabelecer a verdade e pacificar uma angústia que sempre a acompanhou. 

Incansável, enfrenta o chefe, o inspetor Peel (William McInnes), que, por alguma razão misteriosa, resiste à ideia de reabrir velhos casos. 

Merece a sua atenção.

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Apesar de você': O hino de Chico Buarque que a ditadura censurou após levar drible do poeta

Chico Buarque no dia em que retornou ao Brasil após exílio na Itália, em 1970

"Apesar de você" foi um gol com direito a drible no goleiro. Lançada no finzinho de 1970, após ser aprovada pela censura do governo militar, o samba de Chico Buarque vinha sendo tocado nas rádios e cantado por artistas como Clara Nunes e Elizeth Cardoso. Em três meses, foram mais de cem mil compactos vendidos. Até que, em fevereiro de 1971, o jornalista Sebastião Nery, da "Tribuna da imprensa", escreveu que seu filho e os colegas ouviam a música como se fosse o Hino Nacional. Sem querer, ele tinha dado a deixa pra tudo começar a desandar.

Muita gente, como a própria Clara Nunes, achava que a música tratava de algum relacionamento infeliz do poeta. Certamente, foi o que pensou o censor que autorizou a letra. Mas não levou muito tempo até a sociedade mastigar a canção, uma crítica velada ao regime militar. Não faltaram indiretas de colunistas sociais e locutores de rádio. No dia 9 de janeiro de 1971, por exemplo, uma nota solta na coluna de Nina Chavs no caderno "Ela", do GLOBO, dizia "A última composição de Chico Buarque, 'Apesar de você', tem mensagem, tem mensagem".

O compacto original com 'Apesar de você' e 'Desalento', de 1970

Sebastião Nery queria elogiar o samba quando escreveu a nota na "Tribuna". Mas deu ruim, e o jornalista foi chamado para depor na delegacia. A partir daí, surgiram rumores de que a repressão vetaria o samba, lançado num compacto junto com "Desalento". No dia 12 de abril, o colunista Carlos Swann, do GLOBO, publicou: "Ninguém sabe o porquê da proibição de "Apesar de você" no show de Elizeth Cardoso no Canecão. A melodia deveria encerrar o espetáculo, sendo, entretanto, interditada". Em 30 de abril, o jornal dizia: "Chico Buarque de Holanda, que chegou ao Recife acompanhado do MPB-4, para apresentação no Geraldão, nada sabe sobre a censura de 'Apesar de Você', que continua entre as mais tocadas do país".

Uma semana depois, no dia 7 de maio, há exatos 50 anos, os veículos de comunicação receberam uma nota oficial informando sobre a proibição da faixa. "Para mim, é surpresa", comentou o próprio compositor. "Antes de gravar a música, mandei a letra para a Censura Federal de Brasília, que a liberou. Depois, tive alguns probleminhas que foram completamente resolvidos. Agora, acho bastante estranha esta atitude, se realmente ocorreu, pois a música está superconhecida e há cinco meses em cartaz".

Chico Buarque durante show no Canecão em setembro de 1971

Para não restar dúvida, um grupo de militares invadiu a fábrica da gravadora Phillips e destruiu todas as cópias ainda no estoque. Da mesma forma, os exemplares do compacto a venda nas lojas foram recolhidos e destruídos. Ainda que já fosse um sucesso, a canção foi totalmente proscrita e, mesmo nos nossos arquivos, não há sequer uma menção de seu nome até 1977, quando as regras da ditadura estavam sendo flexibilizadas, e o país caminhava para o retorno à democracia de forma "lenta, gradual e segura", conforme os planos dos militares.

Chico Buarque já estava na mira da repressão havia anos, devido a obras consideradas subversivas como a peça "Roda viva", que estreara no Rio em janeiro de 1968. No dia 26 de junho daquele ano, o artista teve a sua presença na Passeata dos Cem Mil alardeada pela imprensa. Semanas mais tarde, quando "Roda viva" estreou no Teatro Galpão, em São Paulo, no dia 19 de julho, o espaço foi invadido por cerca de 20 elementos do grupo "Comando de Caça aos Comunistas (CCC)", que, armados com cassetetes e socos-inglêses, agrediram o elenco e quebraram todo o cenário.

Chico Buarque em meio a fileira de artistas na Passeata dos Cem Mil, em 1968

Em 13 de dezembro de 1968, o governo decretou o Ato Institucional 5 (AI-5), que na prática autorizou a prisão arbitrária, a tortura e a morte de opositores políticos. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram encarcerados. No dia 4 de janeiro de 1969, Chico partiu em viagem previamente marcada à Itália e, temendo ser preso na volta, decidiu ficar por lá mesmo.

De início, achou que poderia se manter na Europa fazendo shows em Florença, Mônaco, Saint Remo.... Mas a realidade era outra. Não havia esse mercado para a música brasileira no Velho mundo. Os convites para shows se tornaram raros. Sem condições de recusar ofertas, ele aceitou sair em turnê pela Europa, acompanhado de Toquinho, abrindo shows para a diva do jazz Josephine Baker.

Chico viveu 14 meses na Itália. Sua primeira filha com a atriz Marieta Severo, Silvia Buarque de Holanda, nasceu no país, e o casal estava "grávido" de novo quando, sem trabalho e sem grana, o compositor e sua companheira decidiram que não dava mais pra ficar na Europa. O próprio artista disse, em entrevista ao GLOBO publicada no dia 15 de julho de 1979, que "depois de dois meses eu já não tinha o que fazer por lá". Mas ele não podia retornar na surdina. Seria um prato cheio para a repressão prendê-lo sem ninguém saber, como foi com Caetano.

Chico Buarque com Marieta Severo e a filha, Silvia, na pista de pouso no Galeão

- Eles estavam muito duros na Itália, foi um período complicado nesse sentido. No Brasil, ele teria convites para shows e tinha direitos autorais a receber - afirma a jornalista Regina Zappa, biógrafa do cantor, autora de diversos livros sobre a carreira do artista carioca. - Quando decidiram que era realmente preciso voltar, Vinicius de Moraes o aconselhou a "chegar fazendo barulho". Mesmo assim, ele veio para o Brasil sabendo que não havia garantias de que ele não seria preso ao chegar.

Chico e os amigos espalharam para todo mundo a data e o horário da chegada do voo, às 8h do dia 20 de março de 1970. Quando o avião baixou no Galeão, havia uma claque de famosos, como Paulinho da Viola, Nelson Motta e Betty Faria, além de um grupo de repórteres de diferentes jornais. "Volta de Chico Buarque deu festa para a noite inteira", dizia o título da reportagem do GLOBO que descreve a recepção armada no então badalado restaurante Antonio's, no Leblon, na Zona Sul do Rio.

Chico Buarque com Vinicius de Moraes e amigos no restaurante Antonio's, em 1970

"O meu whisky é sem gelo, Manolo, já esqueceu de mim?", disse ele ao conhecido proprietário do restaurante, que brincou dizendo que até deixara a barba crescer, como promessa, e só a rasparia quando o cantor retornasse ao Brasil.

Só que o Brasil daquela época não era um país muito de festa. Estávamos nos "anos de chumbo", o período mais duro da repressão militar, cujos agentes usavam as armas garantidas no AI-5 para sufocar a repressão. Foi a época dos sequestros de embaixadores, dos assassinatos em porões da ditadura. A maior parte dos desaparecidos políticos foi presa entre 1969 e 1974. Além disso, o nacionalismo extremista alimentado pela propaganda oficial estava entranhado, o que ficava claro em adesivos de carros onde se lia "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Reunião do Conselho de Segurança após edição do AI-5, em dezembro de 1968

Foi nesse clima sombrio que Chico compôs "Apesar de você". Para pesquisadores da obra do autor, o "você" do verso-título pode ser tanto a própria ditadura quanto o general Emílio Médici, então presidente do país. O autor escreveu a letra e submeteu à censura achando que poderia muito bem não ser aprovada, mas o censor encarregado de avaliar a canção comeu mosca e não viu a mensagem escondida em versos como "Você que inventou a tristeza/Ora, tenha a fineza/De desinventar/Você vai pagar é dobrado/Cada lágrima rolada/Nesse meu penar".

Imagine o que aconteceu quando os militares se deram conta de que aquele petardo passara por debaixo das suas pernas? O militar responsável foi punido, mas não tanto quanto o próprio Chico, que passou a ser ainda mais tolhido. Ele foi chamado a depor e teve a frieza de dizer, diante da polícia política, que o "você" da letra era uma "mulher mandona, autoritária". Mas não teve jeito, o homem ficou marcado.

"De cada três músicas que faço duas são censuradas. De tanto ser censurado, está ocorrendo comigo um processo inquietante. Eu mesmo estou começando a me autocensurar. E isso é péssimo", disse o poeta antes de um show no Canecão, segundo a edição do GLOBO de 15 de setembro de 1971.

A letra de 'Cálice' com anotações e o carimbo de 'vetado' da ditadura

A partir daí, foram vários trabalhos dele censurados, como a música "Cálice", com Gilberto Gil, e a peça "Calabar: o elogio da traição", escrita com Ruy Guerra e proibida no dia da estreia, 20 de outubro de 1974, no Rio, quando o espetáculo, produzido por Fernando Torres, já estava todo pronto. Uma fortuna jogada no lixo. No mesmo ano, Chico lançou o sugestivo "Sinal fechado", um disco inteiro com músicas de outros autores, à exceção da faixa "Acorda, amor", assinada por Julinho da Adelaide, pseudônimo que inventara para despistar a repressão.

As coisas só começaram a melhorar nesse aspecto em 1977, quando até mesmo "Apesar de você" voltou a tocar em algumas rádios. No ano seguinte, a canção figurava como a última faixa do lado B do álbum "Chico Buarque". Porém, em uma entrevista publicada por Nelson Motta em sua coluna no GLOBO, o compositor disse que não ficou muito feliz ao incluir a música. Ele disse que esta e outras canções pertenciam "ao passado" e que chegara a pensar em excluir a faixa daquele LP.

Chico Buarque com a filha Silvinha na sua casa em setembro de 1971

"'Apesar de você' é um desabafo que tem um tom alegre, mas sem deixar de ter um tom de revolta. E revolta não é o tom das músicas que estou fazendo agora. Cheguei a pensar se deveria excluir, mas achei que poderia ser uma atitude pirracenta e até infantil. A gente mais nova nunca ouviu a música, que já tem oito anos e ficou marcada por ter sido lançada e proibida. Sabendo que as pessoas gostariam de ouvi-la, não me achei no direito de não gravá-la".

- Interessante pensar que "Apesar de você" é um samba que começa com um coro, como se fizesse referência a uma vontade popular, e depois entra a voz do poeta cantor, envolvido num momento duro do presente e sonhando com um futuro - analisa o pesquisador Roniere Menezes, professor de Literatura da Cefet-MG e pesquisador da obra de Chico. - Alguns especialistas criticam a ideia utópica da letra, questionando a falta de uma ação para se chegar à mudança. Outros acham que a utopia na letra deve ser vista, por si só, como uma tentativa de reconfigurar o presente. "Amanhã va ser outro dia" é uma denuncia do presente.

Chico Buarque em imagem de 1969, ano em que se exilou na Itália
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PANDEMIA _________________ a SEGUNDA_ONDA da gripe espanhola: Muito mais LETAL e CONTAGIOSA que a primeira

Soldados com gripe espanhola em hospital no Kansas, Estados Unidos

gripe espanhola matou até 50 milhões de pessoas no começo do século XX, segundo estimativas. Contudo, pode-se dizer que a doença foi apenas uma "gripezinha" se a gente analisar apenas a primeira onda daquela pandemia. Surgida num campo de treinamento de soldados no estado americano do Kansas, em março de 1918, a enfermidade se espalhou até a Costa Leste dos EUA e chegou à Europa levada por tropas do Tio Sam enviadas para lutar na Primeira Guerra Mundial. Nos primeiros meses de circulação da doença, as baixas taxas de mortalidade não causaram alarme. A segunda onda, porém, foi devastadora.
Em meados de 2020, boatos nas redes sociais diziam que a segunda onda da gripe espanhola só aconteceu porque as pessoas abandonaram as medidas de proteção necessárias para frear o contágio. O erro de informação foi usado nas redes como um argumento para ninguém baixar a guarda contra a pandemia de Covid-19, um século depois. Na verdade, não se sabe ao certo por que a segunda onda da "espanhola", a partir de agosto de 1918, foi mais contagiosa e mortal. É provável que alguma mutação tenha tornado o vírus Influenza H1N1 muito mais agressivo. 
As medidas de proteção contra a gripe de 1918 eram semelhantes aos cuidados de agora (mácaras, distanciamento e higiene), mas ainda não estavam disseminadas na primeira onda. Portanto, não foi o descuido das pessoas que abriu espaço para a doença voltar. Ainda assim, a comparação entre ambas as pandemias vem gerando reflexão, enquanto o Brasil teme um novo salto de casos de Sars-CoV-2.
Enfermaria com doentes de gripe espanhola no Rio

- Na primeira onda da gripe espanhola, muita gente foi contaminada, e até o rei da Espanha ficou doente. Mas, àquela altura, o vírus ainda era pouco letal, e o problema desapareceu sem gerar muito alarde - conta a historiadora Heloísa Starling, que está lançando o livro "A bailarina da morte: Gripe espanhola no Brasil" (Companhia das Letras), em parceria com a antropóloga Lilia Schwarcz. -  Talvez aquela baixa letalidade explique por que a doença não assustou o mundo logo que voltou, em agosto de 1918. Mas, na segunda onda, a gripe estava muito mais feroz e não poupava ninguém. Matou gente de todas as idades, de forma rápida. 
Foi nesse segundo golpe que a gripe espanhola chegou ao Brasil, a bordo do navio inglês Demerara, que saiu de Lisboa e atracou no porto de Recife, em setembro de 1918, antes de zarpar para Salvador e Rio. Estima-se em 35 mil mortes no país entre setembro e dezembro daquele ano. Um número baixo se comparado aos milhões de óbitos na Europa, onde os campos de batalha foram focos de disseminação.
- A segunda onda atinge a Europa levada pelos soldados americanos na "grande ofensiva" (também chamada de "ofensiva dos cem dias"), no fim da guerra. Em setembro, a doença chegou ao Brasil. Além de muito letal, provocava uma morte horrível. As pessoas ficavam azuis, sangravam, encontramos relatos médicos assustadores durante a pesquisa para o livro - conta Heloísa Starling.

Caixões insepultos no cemitério do Caju, em 1918

De acordo com a professora de História da UFMG,  assim como ocorre com a Covid-19, a gripe espanhola expôs desigualdades que muita gente não queria ver.
- A população pobre foi a que mais sofreu. Em Recife, por exemplo, foram abertas farmácias apenas no centro da cidade. Moradores da periferia que ficavam doentes percorriam longas distâncias atrás de remédios e por vezes não voltavam. Caíam na rua e eram levados para o hospital. Ou para o necrotério.
No Rio, enquanto a classe mais abastada fugia para a Região Serrana, moradores de bairros como o Méier, na Zona Norte, morriam aos montes. Relatos de escritores como Pedro Nava e Nelson Rodrigues desenham cenas alarmantes de carrocinhas apinhadas de corpos recolhidos nas portas das casas, onde eram deixados por familiares. Com algo entre 12 mil e 14 mil óbitos, a metrópole fluminense, que então era capital do Brasil, foi a mais atingida pela gripe espanhola no país. 

Multidão no Rio aguarda para comprar frango, por crer que canja de galinha combateria sintomas

Geneticamente, o coronavírus em nada se parece com o influenza que causou a pandemia de cem anos atrás. Portanto, seria uma leviandade usar a gripe espanhola para tentar prever como vai se comportar uma eventual "segunda onda" de Covid-19 no Brasil. Dito isso, ambas as doenças podem provocar sintomas semelhantes, como febre, prostração e dores na garganta. Além disso, o contágio se dava da mesma forma, pelas vias respiratórias, o que demandava os mesmos tipos de cuidado, como isolamento ou distanciamento social e higiene pessoal. 
- As formas de proteção são semelhantes, o que nos diferença daquela época é a reação. Em 1918, a sociedade brasileira buscou a ciência e não foi indiferente à morte. As pessoas ficaram em casa, reagiram de forma solidária, ajudando-se. As autoridades não fizeram pouco caso com o vírus - comenta a professora Starling. - Hoje, temos uma sociedade em que diversos setores negam as recomendações da ciência e desdenham da morte de brasileiros. Naquela época, depois que a doença se instalou, nenhum governante foi ao jornal dizer que a gripe não era importante.
Policiais em Seattle, nos EUA, usam máscaras na época da gripe espanhola
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Guru de Will Smith e Gwyneth Paltrow, ex-monge JAY_SHETTY lança livro no Brasil e fala sobre 'falsa positividade'

'Não queremos suprimir os pensamentos negativos, nem alimentá-los', diz o inglês, uma celebridade nas redes sociais
Talita Duvanel
10/05/2021 - 04:30 / Atualizado em 10/05/2021 - 07:21
Jay Shetty e Will Smith Foto: Divulgação
Jay Shetty e Will Smith Foto: Divulgação

Num papo intimista, Will Smith foi direto:

enquanto emergia como uma das maiores estrelas do cinema mundial, sua família estava “péssima”. 

Gwyneth Paltrow, sem pompa e quase sem maquiagem, contou que a melhor coisa de ganhar o Oscar foi perceber que a estatueta não vale nada. 

Tais celebridades não abriram o coração desse jeito para um grande entrevistador ou apresentador de sucesso da TV americana. 

Elas falaram com Jay Shetty, de 33 anos, o guru de autoajuda do momento, que lança agora no Brasil o livro “Pense como um monge”' (Sextante). 

A obra já vendeu um milhão de cópias no mundo e foi indicada ao British Book of the Year 2021.

O livro é a aposta off-line do ex-monge londrino que despontou neste competitivo mercado da busca pela felicidade com uma robusta estratégia digital que mistura filosofias milenares de autoconhecimento com linguagem pop. 

Seus vídeos cheios de referências para millennials (pense em montagens com efeitos especiais do guru sendo o professor de meditação do Thor, em “Vingadores”) hoje alcançam 11,6 milhões de seguidores no Facebook e 8,3 milhões no Instagram.

É dele também o podcast “On purpose” (“De propósito”, em tradução livre), em que recebe nomes como Gwyneth e Will, além de Kobe Bryant, Gisele Bündchen e outras estrelas, para bater papo sobre exercícios de respiração, autoconhecimento e atenção plena, temas que também aparecem no livro.

— Transpor as mensagens da internet para o papel foi uma das coisas mais animadoras que já fiz. 

Queria um espaço onde pudesse pegar um vídeo e desempacotá-lo em várias páginas. 

Pude desenvolver e aprofundar ideias e dar passos para que se tornem aplicáveis à vida das pessoas — conta Shetty, hoje morador de Los Angeles.

Jay Shetty, autor de 'Pense como um monge' Foto: Divulgação
Jay Shetty, autor de 'Pense como um monge' Foto: Divulgação

No livro, ele explica por que teria autoridade para falar como um monge. Shetty diz que viveu num ashram na Índia depois de ser “fisgado” por Gauranga Das, monge que deu uma palestra na faculdade onde estudava. Assim que terminou a graduação, ele deixou a Inglaterra, se mudou para perto do mestre, onde permaneceu por três anos.

— Quando estava no ashram, testava os meus limites de diversas formas. Fisicamente, me esforcei um pouco demais e fiquei doente por alguns meses. Enquanto me recuperava, um dos meus mestres falou que o objetivo que eu queria alcançar provavelmente seria mais bem feito no mundo exterior. Foi doloroso de ouvir e extremamente difícil de sair de lá — lembra Shetty, que hoje também dá cursos de coach com mensalidades a partir de US$ 675. — Por anos, mesmo antes de me tornar monge, sempre gostei da ideia de combinar sabedoria antiga com ciência moderna e compartilhar isso de um jeito novo e atraente.

Altruísmo e plágio

Uma das estratégias é sempre trazer frases “instagramáveis”. Em nossa entrevista, ele usou uma do escritor Mark Twain (“A comparação é a morte da felicidade”) ao comentar sobre como as redes sociais podem ser uma fonte de angústia ou um feedback eficaz de trabalho, a depender do quão consciente se está de si mesmo. Mas, voltando às frases, elas já lhe renderam algumas dores de cabeça.

Alguns dos posts de Shetty com pílulas de ensinamentos foram acusados de plágio. Pouco depois da denúncia, feita por uma youtuber, ele os apagou e tem sido mais cuidadoso com créditos. No livro, inclusive, há uma nota do autor dizendo ter se esforçado ao máximo para citar fontes originais, mas não respondeu nossas perguntas sobre o caso.

Na pandemia, Shetty tem usado seu canhão de mídia para ajudar a Índia, uma das regiões mais afetadas pela Covid-19 no mundo. O país que o acolheu por tanto tempo agora recebe a retribuição do ex-monge com a campanha “Help India Breathe” (“Ajude a Índia a respirar”). Até o momento, na lista de doadores estão Shawn Mendes, Ellen DeGeneres e Camila Cabello.

Shetty tem consciência de que é difícil praticar a gratidão e solidificar os propósitos em crises extremas.

— Quando as pessoas estão em profundas dificuldades, apenas perdoarem e serem gratas não ajuda. Se mentimos sobre uma falsa positividade, nosso cérebro sabe. No fim, só nos faz sentirmos piores. Por isso, é importante entender os sentimentos e as dificuldades, eles são reais. Não queremos suprimir os pensamentos negativos, nem alimentá-los.

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