Com vacinação LENTA e isolamento BAIXO, cientistas preveem TERCEIRA ONDA de Covid-19 no país

Kátia Abreu enquadra Ernesto Araújo e sua “memória seletiva”

Militares dizem que não vão "levar desaforo pra casa" de Renan no depoimento de Pazuello nesta quarta

Florestan manda recado aos militares: "desaforo são as 437 mil mortes pela incompetência de um governo militarizado"

Ernesto Araújo admite que não pediu, não auxiliou e nem agradeceu pelo oxigênio da Venezuela para o Amazonas

Haddad: "CPI provou que genocídio foi causado por um bando de psicopatas idiotas"

Queremos almejar a interceptação NÃO apenas da transmissão do Sars-CoV-2, mas de um CICLO_PERVERSO de ausência de empatia

Aqui a morte é tanta

União entre Warner e Discovery aponta ‘caminho sem volta’ do streaming, dizem analistas

Do 'QAnon' à antivacina: um mapeamento do conspiracionismo na Europa

Eva Wilma: A verdadeira história da foto de atrizes em passeata contra a censura, em 1968

Enfermeira que cuidou de Boris Johnson se demite em protesto contra governo

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Kátia Abreu enquadra Ernesto Araújo e sua “memória seletiva”

Senadora Kátia Abreu (PP-TO) e o ex-chanceler Ernesto Araújo

247 - A senadora Kátia Abreu (PP-TO) enquadrou o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que mentiu nesta terça-feira (18) em depoimento na CPI da Covid ao negar conflitos diplomáticos com a China. Segundo a parlamentar, a gestão de Araújo foi uma "bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional". 

"O senhor não colocou o Brasil como pária, e sim na posição de irrelevância", disse. "O senhor ajudou a atacar (a China), humilhando... é um negacionista compulsivo, omisso", acrescentou.

De acordo com a senadora, "há um Ernesto que fala conosco e outro Ernesto nas redes". "Estou confusa", afirmou. "Por que o preconceito com vacinas?", questionou Kátia, que também criticou o fato de o ex-chanceler ter intermediado a compra de cloroquina. "Esse medicamento foi condenado no sentido de não ser útil", disse.

A senadora continuou. "O senhor criticou nossa proximidade com a China, com os Brics... o senhor é muito ousado. Isso colaborou para a compra de vacinas", ironizou. 

Quando foi ministro, Araújo usou termos "comunavírus", "vírus ideológico" e apontou ameaça de "pesadelo comunista" em artigo publicado em seu blog pessoal em abril de 2020 ao se referir à China. E negou ter sido ofensivo com o país asiático

"Como isso não é ataque?", continuou Kátia Abreu. "Você estava para defender os brasileiros e não a sua posição ideológica. O senhor atacava fortemente a China. Vocês não eram parceiro do governo americano, e sim do Trump. O senhor não entendeu que não somos amigos de presidente, e sim das nações", afirmou. 

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Militares dizem que não vão "levar desaforo pra casa" de Renan no depoimento de Pazuello nesta quarta

247 - O depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello à CPI da Covid, marcado para esta quarta-feira (19), tem causado apreensão entre os integrantes das Forças Armadas pelo receio de que o general seja ridicularizado pelos senadores e acabe expondo a instituição. De acordo com reportagem da coluna da jornalista Bela Megale, de O Globo, membros da cúpula militar já alertaram que a instituição não “irá levar desaforos para casa” vindos do relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL). 

O temor dos militares é que os ataques contra a gestão de Pazuello – que é general da ativa – à frente da pasta da Saúde acabem por manchar a imagem das Forças Armadas. A avaliação é que uma situação do gênero poderá “jogar lenha na fogueira” das alas militares mais radicais. 

Na semana passada, Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) ajudaram a insuflar os ânimos ao chamarem Renan de “vagabundo” por defender a prisão do ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten durante seu depoimento ao colegiado. 

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Florestan manda recado aos militares: "desaforo são as 437 mil mortes pela incompetência de um governo militarizado"

247 - "Membros da cúpula das Forças Armadas dizem que não vão aceitar desaforo de Renan no depoimento de Pazuello. Desaforo é o país contabilizar 437 mil mortos pela incompetência de um governo militarizado que teve no comando da Saúde um general que perdeu a guerra e bateu em retirada", postou o jornalista Florestan Fernandes Júnior em suas redes sociais. Saiba mais:

O depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello à CPI da Covid, marcado para esta quarta-feira (19), tem causado apreensão entre os integrantes das Forças Armadas pelo receio de que o general seja ridicularizado pelos senadores e acabe expondo a instituição. De acordo com reportagem da coluna da jornalista Bela Megale, de O Globo, membros da cúpula militar já alertaram que a instituição não “irá levar desaforos para casa” vindos do relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL). 

O temor dos militares é que os ataques contra a gestão de Pazuello – que é general da ativa – à frente da pasta da Saúde acabem por manchar a imagem das Forças Armadas. A avaliação é que uma situação do gênero poderá “jogar lenha na fogueira” das alas militares mais radicais. 

Na semana passada, Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) ajudaram a insuflar os ânimos ao chamarem Renan de “vagabundo” por defender a prisão do ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten durante seu depoimento ao colegiado. 

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Ernesto Araújo admite que não pediu, não auxiliou e nem agradeceu pelo oxigênio da Venezuela para o Amazonas

Ex-chanceler Ernesto Araújo

247 - O ex-chanceler Ernesto Araújo admitiu, em seu depoimento à CPI da Covid, nesta terça-feira (18), que não manteve nenhum contato com o governo da Venezuela durante a crise da falta de oxigênio hospitalar no Amazonas que matou dezenas de pacientes internados com Covid-19 por sufocamento no início de 2021. Ainda segundo ele, também não houve nenhum tipo de agradecimento mesmo após mesmo após o país vizinho destinar o insumo para atender os hospitais de Manaus. 

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), disse que bastaria uma ligação do ex-chanceler para que um avião oficial partisse do Brasil rumo à Venezuela para buscar o insumo. "Bastava uma ligação que teríamos salvado vidas”, disse Aziz. Devido à falta de transporte aéreo,, o material foi transportado por via terrestre, o que levou dias até que o produto fosse efetivamente entregue às unidades de saúde. “O Ministério das Relações Exteriores não fez contato com o governo venezuelano por razões ideológicas”, afirmou. 

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) reforçou a fala de Aziz ao destacar que a diplomacia brasileira sempre foi reconhecida como competente  e apartidária, mas que o Brasil fez uma opção ideológica. “Em plena pandemia, o governo brasileiro mandou os representantes da Venezuela saíssem do Brasil, no mês de maio, dando um prazo. O ex-chanceler precisa responder isso. Até porque em janeiro morreram mais de 3 mil pessoas no Amazonas por falta de oxigênio", destacou Braga. 

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Haddad: "CPI provou que genocídio foi causado por um bando de psicopatas idiotas"

247 - "A CPI deixou claro como um bando de psicopatas idiotas promoveu o maior genocídio dos últimos cem anos no Brasil. Ela deveria ter sido instalada meses atrás. Teríamos salvado muito gente", escreveu o ex-prefeito Fernando Haddad, em seu twitter. Saiba mais em reportagem da Reuters: 

Por Maria Carolina Marcello (Reuters) - A presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Kátia Abreu (PP-TO), afirmou nesta terça-feira que o ex-chanceler Ernesto Araújo é um "negacionista compulsivo" e foi omisso enquanto esteve à frente da pasta, e pediu que a CPI da Covid aprove pedido ao Itamaraty para que compartilhe toda a troca de correspondências da diplomacia brasileira com outros ministérios e também com embaixadas sobre a pandemia.

Em discurso duro e com muitas críticas a Araújo durante depoimento do ex-chanceler, a senadora pontuou que a intenção da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado é identificar os responsáveis dentro do governo federal pelas mortes no país.

"Eu gostaria de pedir, se for possível, a esta comissão, todas as correspondências tramitadas pelo sistema interno entre ministérios especificamente sobre vacinas a que esta comissão possa ter acesso e também as desses ministros para o presidente da República, porque, com essas comunicações em aberto... nós vamos poder identificar qual foi o ministro que mais mal influenciou o presidente (Jair Bolsonaro), qual foi o ministro que mais bem orientou o presidente", disse a senadora, referindo-se às correspondências entre o Ministério das Relações Exteriores e as pastas da Economia, Ciência e Tecnologia, Saúde e Casa Civil.

"E nós queremos toda a comunicação do MRE para as embaixadas no mundo, especialmente dos embaixadores de onde tem os laboratórios de vacinas. Nós queremos todos os ofícios, todas as mensagens relacionados à pandemia, à vacina, à cloroquina, à hidroxicloroquina, ao que tiver. Nós queremos encontrar --não é isso?-- quem são os responsáveis pela desgraça brasileira da mortandade que ocorreu", afirmou a parlamentar, acrescentando ter a convicção que essas informações poderão apontar "quem paralisou as decisões, quem fechou os olhos do presidente Bolsonaro".

Segundo o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), os requerimentos devem ser votados pela comissão na quinta-feira.

No depoimento à CPI, o ex-ministro negou que sua atuação tenha trazido qualquer "percalço" à obtenção de vacinas, principalmente em relação à China, apesar de ter emitido queixas oficiais sobre o embaixador chinês no país.

Kátia Abreu foi mais uma, dentre os que já tiveram a chance de se dirigir ao ex-chanceler durante o depoimento na CPI, a afirmar que Araújo faltava com a verdade ou omitia informações.

A senadora citou reunião ministerial em que Araújo teria feito declarações polêmicas sobre a China ao ponto de o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar a retirada desse trecho da versão da reunião que foi publicizada para evitar danos aos laços entre o Brasil e o país asiático.

A parlamentar lembrou que a CPI poderia pedir a quebra do sigilo para averiguar a fala do ex-titular do Itamaraty nessa reunião.

A presidente da CRE do Senado resgatou ainda declarações de Araújo em que afirmava que o país não venderia sua alma para exportar minério de ferro e soja para a China, ou em outra ocasião, dessa vez no Fórum Econômico Mundial, em que ele afirmou que o Brasil iria fechar uma aliança com os Estados Unidos para barrar o "tecnototalitarismo", em uma outra referência à China. A parlamentar lembrou ainda artigo do ex-chanceler em que ele menciona o que chamou de "comunavírus".

"O senhor é um negacionista compulsivo, omisso! O senhor no MRE foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, para um naufrágio, bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional, da política externa brasileira. Foi isso o que o senhor fez", disse a senadora.

"Nós não estamos aqui acusando o governo federal de corrupção. Nós estamos atrás dos membros do governo federal que permitiram um número exorbitante de óbitos até agora. E uma economia que faliu ainda mais por conta de uma pandemia prolongada e mal administrada, 26 milhões de desempregados, empresas fechando, uma economia no chão, um endividamento das famílias exorbitante. Tudo é um complexo que precisa ser responsabilizado, encontrados aqueles que nos prejudicaram", defendeu a parlamentar.

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Queremos almejar a interceptação não apenas da transmissão do Sars-CoV-2, mas de um ciclo perverso de ausência de empatia | A hora da Ciência - O Globo

Profissional de saúde é consolada no Hospital Getulio Vargas, em Manaus

Não paira mais dúvida alguma, mesmo para os céticos e não letrados em dados científicos de medidas de impacto em saúde pública, sobre algo que há muito sabemos: a grande solução para viroses agudas é vacina. Os dados recentemente publicados de redução de 95% de mortes e 90% de internações pela Covid na Itália falam por si. Impacto que igualmente já observamos no Brasil nas faixas etárias mais idosas, as primeiras a serem vacinadas pela prioridade corretamente definida. Por outro lado, após este mais de ano decorrido, confirma-se, por estudos bem conduzidos e publicados nas últimas semanas, algo que também de há muito suspeitávamos, porquanto comum às doenças de transmissão respiratória: o componente ambiental é determinante, e a Covid se transmite por aerossóis. Isso ratifica a importância do uso de máscaras mesmo em pessoas vacinadas, sobretudo em ambientes fechados. Até que tenhamos alcançado uma proporção considerável da população protegida, como nos Estados Unidos, e conheçamos, pela vigilância epidemiológica e genômica, o comportamento da epidemia e seu prognóstico de controle.

Quase 200 anos após Edward Jenner testar a vacina para varíola, vivemos este extraordinário momento, com 88 ensaios clínicos de plataformas vacinais, mais de 150 pré-clínicos em desenvolvimento e quase uma dezena de vacinas aprovadas para uso humano. Cientistas, nos sentimos como os historiadores, a correlacionar causalidade nos fatos, com a diferença de que esses reconstituem um encadeamento retrospectivo dos traços documentais, e nós procuramos a demonstração e a reprodutibilidade de fenômenos naturais através de métodos e de análises causais. Assim, desde Copérnico e sua obstinada demonstração do heliocentrismo, a ciência histórica busca, mesmo nas ditas ciências da natureza, a sua especificidade e sua transcendência, como agora.

Muitos são os registros históricos sobre as pestes e epidemias dos últimos séculos. Sabemos que a maior devastação sanitária da grande Peste Negra que ceifou 30 a 50% da população europeia teve seu maior impacto e letalidade na Inglaterra. Entretanto, marca nossa iconografia Ingmar Bergman em “O sétimo selo”, filme de 1957, ao descrever o impacto da Peste Negra na Suécia em 1350, e o intenso pessimismo que assolou a população, seguido de medo e de reações ditas insensatas. Podemos reiterar que a história se resgata ciclicamente a cada epidemia? Sim, a gerar, no depois, um fato bom.

Nestas últimas semanas, ainda de tantas mortes no Brasil, anônimas e famosas, onde ficam nossa empatia, nossa esperança? Estes são dias de morrer, como se houvesse dias de viver? Morrer é parte natural da vida, porque esta é finita. Somos programados para morrer, mas temos o direito de não morrer antes do tempo e a morrer com dignidade. Assim nos diz, entre outros, a escritora Elisabeth Kübler-Ross, a propósito das doenças em geral. Eu adicionaria que, após este quase um ano e meio de nossas vidas efetivamente modificadas, queremos almejar uma cobertura vacinal suficiente e a interceptação não apenas da transmissão do Sars-CoV-2 e suas variantes, mas de um ciclo perverso que retroalimenta ineficiência e ausência de empatia.

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Com vacinação lenta e isolamento baixo, cientistas preveem terceira onda de Covid-19 no país

Universidade de Washington aponta para possibilidade de mais de 750 mil mortes até o fim de agosto se ritmo de imunização não melhorar, mesmo com queda na média móvel de óbitos
Suzana Correa*
18/05/2021 - 04:30
Rua lotada em São Paulo: além de aceleração da vacinação, epidemiologistas pedem manutenção de isolamento e uso de máscaras Foto: Edilson Dantas / 19-12-2020
Rua lotada em São Paulo: além de aceleração da vacinação, epidemiologistas pedem manutenção de isolamento e uso de máscaras Foto: Edilson Dantas / 19-12-2020

SÃO PAULO — O Brasil registrou queda de 19% na média móvel de mortes por Covid-19 nas duas últimas semanas. Em 18 das 27 unidades de federação, o índice está caindo, mostrou o boletim do consórcio da imprensa nesta segunda-feira. Apenas um estado está em viés de elevação na última quinzena, enquanto oito permaneceram em tendência estável (variação menor de 15% para mais ou para menos). Os números trazem esperança no combate à pandemia, mas projeções feitas por cientistas nos EUA e Brasil, no entanto, acenderam o alerta de especialistas sobre a possibilidade de uma terceira onda no país, com nova alta de óbitos.

— Evitá-la vai depender muito da vacinação, que já se mostra efetiva na redução de mortes e internações. Temos que vacinar 1,5 milhão de pessoas ao dia, idealmente 2 milhões. E ter cautela na flexibilização das medidas de isolamento — explica Ethel Maciel, professora da UFES e doutora pela Univesidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Sem o avanço na vacinação, o Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação da Universidade de Washington, nos EUA, que tem se destacado por suas projeções certeiras desde o início da pandemia, indica que o país poderá chegar à trágica marca de 751 mil mortes por Covid-19 até 27 de agosto. E isso em cenário que inclui o uso de máscaras por 95% da população no país.

No pior cenário projetado pelos analistas americanos, em que a variante P.1, que emergiu em Manaus e já se espalhou por 16 países latino-americanos, continue se espalhando e vacinados abandonem o uso de máscara, o país pode voltar ao patamar de 3.300 mortes diárias em torno de 21 de julho e alcançaria 941 mil mortes em 21 setembro.

Os dados do Instituto de Métricas são usados em avaliações da pandemia pela Casa Branca e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço latino-americano da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Até agora, de acordo com o consórcio de veículos de imprensa, o Brasil já perdeu 436.862 vidas para a Covid-19. E o aumento de mortes, frisam os especialistas da universidade americana, é esperado mesmo com a redução nas internações em UTIs e na média diária de óbitos, em comparação com abril, devido à previsão de aumento nas infecções e redução no uso de máscaras e distanciamento social.

Para evitar uma terceira onda devastadora, a aceleração na vacinação é uma das medidas centrais apontadas pelos especialistas. Segundo painel da Universidade de Oxford, o Brasil atingiu média diária de aplicação de 1,1 milhão de doses em 13 de abril, mas a quantidade foi caindo ao longo do mês e chegou a 429 mil doses no último dia 12 de maio. O país tem hoje cerca de 70 mil novos casos diários da doença, patamar considerado alto pelos especialistas, e apenas 9% de brasileiros vacinados com a segunda dose.

Cláudio Struchiner, médico e professor de Matemática Aplicada da FGV, pondera que instituições brasileiras evitam realizar projeções de longo prazo como as realizadas pela Universidade de Washington devido à alta incerteza que permeia o cenário da pandemia no Brasil.

— Há muitas variáveis incertas: [ritmo de] vacinação, relação Brasil e China [fornecedora de insumos para as vacinas aplicadas aqui], novas cepas, incidentes com a vacina que interferem na sua aceitação, duração da imunidade, subnotificação, sazonalidade. Dito isso, o Instituto de Métricas é sério e experiente, e as projeções para o Brasil são, sim, plausíveis — afirma.  

Outra projeção, da Rede Análise Covid-19, que conta com uma equipe multidisciplinar de pesquisadores pelo Brasil, alerta que o país apresenta tendência a picos de casos da doença — como os observados em julho de 2020 e início de 2021. Ao pico segue-se uma queda, estabilização e, em seguida, novo aumento. Os dados atuais, de acordo com a Rede Análise Covid-19, mostram justamente que o país está no momento às vésperas de um novo aumento de casos.

Já a plataforma de dados da USP e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) projeta que o total de casos no país deve passar de cerca de 15,4 milhões em 14 de maio para 16,1 no dia 23 de maio, também cravando curva ascendente. 

O GLOBO questionou o Ministério da Saúde e perguntou quais projeções embasam as medidas da pasta, o que tem sido feito para evitar ou lidar com uma terceira onda no país, qual a posição sobre as projeções e se há previsão de reforço nos estoques de oxigênio e remédios para intubação durante essa possível terceira onda. O Ministério respondeu apenas que “não comenta sobre projeções”.

Gulnar Azevedo, pesquisadora do Instituto de Medicina Social da UERJ, diz que, apesar das quedas, "a média de mortes em cerca de 2 mil ainda é alta".

— O vírus continua circulando, e entraremos no inverno, quando o tempo mais frio favorecerá o aumento de casos do vírus — diz Azevedo.

Novo pico

Boletim do Observatório da Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz alertou, na última quinta-feira, justamente para a intensa circulação do vírus no país, apesar da "ligeira redução" nas taxas de mortalidade e na ocupação de leitos de UTI no país. "Uma terceira onda, agora, com taxas ainda tão elevadas, pode representar uma crise sanitária ainda mais grave", informa o boletim.

Leonardo Bastos, estatístico da Fiocruz, avalia que o país reúne as condições necessárias para uma nova onda da doença, devido a combinação perigosa: alto patamar de infecções e hospitalizações, número alto de cidadãos que não contraíram a doença (e, portanto, não produziram anticorpos contra a infecção), ritmo lento da vacina, redução no uso de máscaras e abertura acelerada nos estados que haviam intensificado medidas de distanciamento. Ele alerta também para a chegada de novas variantes, como a indiana, e o surgimento de cepas que possam reinfectar vacinados.

Carlos Lula, secretário de Saúde do Maranhão e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), vem cobrando o governo federal para tomar medidas de âmbito nacional a fim de conter a disseminação do vírus, a entrada de novas variantes e a continuidade da regulação do mercado de medicamentos nacionais:

— É indispensável entendermos o que aconteceu na segunda onda, com problemas no kit intubação, dificuldade de se prover oxigênio, medicação necessária e testagem insuficiente. É preciso solucionar esses entraves, intensificar as compras e já ter o estoque de precaução — diz. 

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Aqui a morte é tanta | Opinião - O Globo

Mesmo ainda sem saber de sua morte, Eva Wilma me emocionou, quando vi anteontem um vídeo em que, cerca de dois anos atrás, ela declamava de cor, sem vacilar, sentada na primeira fila da plateia, um texto de mais de dois minutos de “Antígona”, de Sófocles, no Teatro Poeira, de Andrea Beltrão e Marieta Severo. A personagem, como se sabe, é uma trágica heroína grega que enfrenta um tirano, assim como nossa atriz lutou contra a ditadura militar. “Ainda não acreditamos que no final o bem sempre triunfa, mas começamos a crer que o mal nem sempre vence.” Quando encerrou recitando “O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”, a atriz foi ovacionada. O público tinha entendido o recado, muito atual.

O vídeo me fora enviado pela minha amiga, escritora e juíza Andréa Pachá, depois de um longo papo por telefone, em que eu contava que grande parte das pessoas com quem tinha conversado ultimamente se queixava de depressão, inclusive eu. Dizia que, se o Ancelmo me entrevistasse para sua pesquisa para escolher “a palavra do ano”, não havia dúvida quanto ao meu voto. Bruno Covas ainda não tinha morrido, mas seu quadro era irreversível, e mais uma vez me veio à memória um verso do belo e pungente poema “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto: “Como aqui a morte é tanta”. Estava pensando, claro, nos milhares de brasileiros exterminados pela pandemia.

A manchete de ontem da coluna de Patrícia Kogut, baseada em pesquisas, é “Brasileiros em peso se interessam por CPI da Covid”. Ela acrescenta que está todo mundo assistindo e comentando. Amanhã, então, a audiência deverá bater o recorde, pois, palpito eu, as pessoas querem saber se Pazuello blindará o presidente, atraindo para si toda a responsabilidade dos malfeitos na pandemia, como a falta de medicamentos do kit entubação, a crise de oxigênio em Manaus e a indicação de remédios ineficazes no tratamento da Covid-19. Será interessante acompanhar os malabarismos que o general fará para se equilibrar entre o direito de ficar em silêncio garantido pelo habeas corpus e a obrigação de não mentir.

O senador Renan Calheiros, relator da CPI, declarou domingo à noite na GloboNews que a comissão está tranquila, pois nem todos perceberam que o habeas corpus só permite que o ex-ministro da Saúde fique calado em relação ao que possa incriminar a si próprio. Isso os outros depoentes farão. A ele caberá a obrigação de incriminar terceiros. Quem deve estar tenso é o presidente, arrependido de não ter protestado — ao contrário, riu satisfeito —quando o general, subserviente, disse, apontando para o capitão e garantindo: “Um manda, o outro obedece”.

Está previsto para depois de amanhã o depoimento da secretária de gestão do trabalho e da educação na saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como “Capitã Cloroquina”. Seus advogados apresentaram um pedido de habeas corpus preventivo, mas até a noite de segunda  não se sabia o resultado.

Se a moda pega...

Zuenir Ventura - assinatura

Por Zuenir Ventura

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'Não aguentou se pendurar e acabou caindo', relata modelo que estava em quarto de Kevin

Ao GLOBO, Bianca Dominguez afirmou que funkeiro não conseguiu voltar após passar as pernas pelo parapeito da varanda de hotel
Paolla Serra
18/05/2021 - 13:49 / Atualizado em 18/05/2021 - 14:52
A modelo fitness Bianca Dominguez estava no quarto de hotel na Barra de onde MC Kevin caiu Foto: Instagram / Reprodução
A modelo fitness Bianca Dominguez estava no quarto de hotel na Barra de onde MC Kevin caiu Foto: Instagram / Reprodução

RIO — A modelo fitness Bianca Dominguez, que estava no quarto 502 de um hotel na orla da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, quando o cantor Kevin Nascimento Bueno, o MC Kevin, caiu da varanda contou ao GLOBO ter presenciado o momento em que ele “não aguentou se pendurar”. Os dois estavam tendo relações sexuais no local quando o funkeiro parou porque achou que sua mulher o havia descoberto. Ele então passou as pernas pelo parapeito, desceu o corpo e ficou apoiado com as mãos na parte mais baixa da sacada. Ele estaria tentando ir para o apartamento de baixo por receio, mas acabou caindo.

— Ele não aguentou se pendurar e voltar e acabou caindo — explicou a jovem.

'Um choque muito grande'

Em seu perfil em uma rede social, Bianca disse que, no último domingo, ocorreu um dos fatos mais tristes de sua vida e que "muita coisa que saiu" nas redes sociais e na imprensa a tem abalado. "Foi um choque muito grande", ressaltou.

Ela afirmou que já depôs na polícia e está colaborando com as investigações. Pediu ainda que a memória de MC Kevin seja respeitada, assim como "a dor de todos os envolvidos nesse acidente".

Mensagem de Bianca diz que prestou depoimento e está colaborando com as investigações Foto: Reprodução
Mensagem de Bianca diz que prestou depoimento e está colaborando com as investigações Foto: Reprodução

Veja a íntegra do texto:

"É com profunda tristeza que no último domingo aconteceu um dos fatos mais tristes da minha vida. Muita coisa que saiu na imprensa ou em redes sociais nos últimos dias tem me abalado profundamente, pois tudo que aconteceu foi um choque muito grande. Tudo que eu tinha que falar falei em meu depoimento à Polícia, e estou colaborando com o que for necessário, pois o que quero nesse momento é que a verdade seja esclarecida e que respeitem a memória do Mc Kevin.  Não me sinto a vontade em falar nesse momento e peço que respeitem a dor de todos os envolvidos nesse acidente."

Hospedada na Barra

Bianca estava hospedada em outro hotel na Barra desde o dia 11. Ela pegava sol nas areias da praia, próximo ao Posto 7, quando conheceu Kevin, Victor Elias Fontenelle e outros amigos dos funkeiros. O grupo bebeu e fumou maconha em um quiosque e depois os dois rapazes e a modelo subiram para o quarto, pouco antes das 18h.

Receoso de que sua mulher, a advogada Deolane Bezerra, que estava hospedada na suíte 1302 do mesmo hotel, chegasse, Kevin teria tentado passar para a varanda do apartamento de baixo. Ele caiu de uma altura de pelo menos 15 metros próximo à piscina. Socorrido por equipes do quartel do Corpo de Bombeiros do bairro, o jovem foi levado ao Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, na Zona Sul, mas não resistiu aos ferimentos.

Além da modelo, do funkeiro e da advogada, pelo menos outras cinco pessoas, entre amigos e homens que trabalham na equipe da produção de shows do artista, foram ouvidos pelo delegado Henrique Damasceno, titular da 16a DP (Barra da Tijuca). Algumas das testemunhas citaram que Kevin ingeriu outras drogas e bebida alcoólica durante o fim de semana. Um exame toxicológico no corpo do artista foi solicitado a profissionais do Instituto Médico Legal (IML). Na madrugada de domingo, ele se apresentou em uma boate na Zona Norte da cidade e depois foi a uma festa na casa de outro cantor. Uma perícia também foi feita pelo Instituto Carlos Éboli no hotel.

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MC Kevin estava fazendo sexo na varanda e caiu ao tentar pular para outro andar, diz testemunha

Funkeiro teria ficado receoso de que sua esposa, hospedada no mesmo hotel, flagrasse o encontro com outra mulher
Paolla Serra
18/05/2021 - 04:30 / Atualizado em 18/05/2021 - 09:05
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RIO — Em depoimento prestado ao delegado Henrique Damasceno, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), a modelo fitness Bianca Domingues e o funkeiro Victor Elias Fontenelle contaram que estavam no quarto 502 de um hotel na orla da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, quando o cantor Kevin Nascimento Bueno, o MC Kevin, caiu e morreu. Os dois relataram ter mantido relações sexuais no quarto e, depois, a moça teria ido com Kevin para a varanda. Receoso de que sua mulher chegasse, ele teria tentado pular para o apartamento de baixo.

Ao delegado, eles afirmaram que Mc Kevin e Vitor estavam passeando no calçadão e conheceram Bianca em um quiosque, na tarde de domingo, dia 16. Os três seguiram para a suíte. Segundo os depoimentos, um terceiro amigo, que também trabalhava na produção dos shows do cantor, tentou entrar no quarto, mas teria sido impedido por Kevin e Victor. A mulher do artista, a advogada Deolane Bezerra, que estava hospedada no quarto 1302 do mesmo hotel, procurava pelo marido através de ligações e mensagens, mas não chegou a deixar o apartamento.

Kevin caiu de uma altura de pelo menos 18 metros, próximo à piscina. Socorrido por equipes do quartel do Corpo de Bombeiros do bairro, o jovem de 23 anos foi levado ao Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, na Zona Sul, mas não resistiu aos ferimentos.

Na tarde desta segunda-feira, Bianca chegou a usar as redes sociais para afirmar que a morte de MC Kevin “foi um acidente”. Em seu perfil no Instagram, ela escreveu ter visto “tudo”, afirmou não acreditar no que estava acontecendo e pediu orações. “Não estou nada bem. Ainda estou em choque. Estou triste demais, não tem nome para isso”, disse em entrevista ao GLOBO.

No inquérito instaurado na 16ª DP já foram ouvidas pelo menos oito pessoas. Além da modelo, do amigo e da mulher da vítima, amigos e homens que trabalham na equipe da produção de shows do artista prestaram declarações como testemunhas. Algumas das pessoas citaram que o funkeiro ingeriu drogas e bebida alcoólica durante o fim de semana, e um exame toxicológico no corpo do artista foi solicitado a profissionais do Instituto Médico Legal (IML). Uma perícia também foi realizada pelo Instituto Carlos Éboli nos dois quartos do hotel e ainda na área onde o funkeiro caiu.

Na madrugada de domingo. Mc Kevin se apresentou em uma boate na Zona Norte da cidade. De lá, ele foi com cerca de dez pessoas para a casa de um amigo, também cantor de funk, na Barra da Tijuca. No início da tarde, o grupo retornou ao hotel onde estava hospedado, na orla.

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União entre Warner e Discovery aponta ‘caminho sem volta’ do streaming, dizem analistas

Segundo eles, escolha do diretor executivo mostra que o objetivo é competir com Netflix, Disney+ e Amazon
Bruno Rosa
18/05/2021 - 04:30
União entre Warner e Discovery aponta ‘caminho sem volta’ do streaming, dizem analistas Foto: DADO RUVIC / REUTERS
União entre Warner e Discovery aponta ‘caminho sem volta’ do streaming, dizem analistas Foto: DADO RUVIC / REUTERS

RIO - A operação anunciada na segunda-feira entre AT&T e Discovery reflete o caminho sem volta do streaming no mundo, avalia o advogado Rafael Pistono, do escritório PDK Advogados. E Jesper Rhode, fundador da consultoria Tr4nsform, ressalta que a escolha do diretor executivo da nova gigante de mídia — David Zaslav, hoje no comando da Discovery — mostra que o objetivo é competir com Netflix, Disney+ e Amazon. A Discovery tem presença global, com vários canais europeus, como o Eurosoport.

— Até agora, a AT&T não foi bem-sucedida na área de conteúdo. Nesse mercado, tamanho é documento. É preciso ter escala para aumentar os investimentos e poder crescer. Os investimentos das concorrentes são bem mais relevantes e estão em mais países — disse Rhode.

O analista de mídia Craig Moffett, da consultoria MoffettNathanson, disse ao site Yahoo Finance que a união entre Discovery e Warner Media “vai pressionar todas as outras” empresas de streaming de filmes.

Maio de 2014: aquisição da DirecTV

Em 2014, AT&T comprou a DirecTV por quase US$ 50 bi Foto: Reuters
Foto: Reuters

Depois de reconstituir a AT&T como uma gigante nacional de telecomunicações, o então CEO Randall Stephenson comprou a DirecTV por cerca de US$ 50 bilhões para complementar o serviço de televisão que a AT&T oferecia com acesso à internet em residências

Outubro de 2016: compra da Time Warner

Em 2016, a AT&T comprou a Time Warner Foto: DADO RUVIC / REUTERS
Foto: DADO RUVIC / REUTERS

O grupo comprou a Time Warner como uma forma ousada de desenvolver um serviço de publicidade direcionado, usando dados de visualização dos clientes. Com a empresa de mídia, a AT&T levou marcas como HBO, CNN e o estúdio Warner Bros

Novembro de 2017: intervenções do Departamento de Justiça

Montagem da AT&T e Time Warner. Empresas tiveram problemas com o Departamento de Justiça dos EUA Foto: AFP
Foto: AFP

Durante o governo de Donald Trump, o Departamento de Justiça dos EUA abriu ação para bloquear a compra da Time Warner pela AT&T, o que executivos da empresa atribuíram à rixa do presidente com a CNN. O processo retardou o negócio enquanto rivais de streaming como Netflix avançavam

Julho de 2020: Stephenson se aposenta

Randall Stephenson, presidente da AT&T, anunciou aposentadoria em 2020 Foto: AFP
Foto: AFP

O arquiteto do império de mídia e telecomunicações da AT&T deixou o cargo, cedendo lugar a John Stankey, um veterano de longa data da divisão de telecomunicações da empresa que, mais recentemente, presidiu o negócio de entretenimento.

Fevereiro de 2021: Venda da DirecTV

Em fevereiro deste ano, AT&T vende ações da DirecTV Foto: Jonathan Alcorn / Reuters
Foto: Jonathan Alcorn / Reuters

O presidente da AT&T, John Stankey, retoma a lógica de operadora de telecom e vende ações da DirecTV com uma avaliação de US$ 16 bilhões, bem menos do que pagou, para se livrar de parte de sua dívida de mais de US$ 200 bilhões

Maio de 2021: Acordo com a Discovery

AT&T separa seus ativos de mídia e decide uní-los ao Discovery Foto: Bloomberg
Foto: Bloomberg

A AT&T concordou em separar seus ativos de mídia e combiná-los com a Discovery. Os acionistas da AT&T receberão ações representando 71% da nova empresa a ser criada, que só perderá em faturamento no setor para a Disney

Ainda que a AT&T tenha decidido separar a unidade WarnerMedia para a fusão com a Discovery, Pistono ressalta que as teles estão adaptando seus negócios por conta do avanço do streaming.

A tendência, diz, é que as empresas de telecom se tornem um hub de aplicativos, dividindo receitas e clientes. Rhode concorda:

— O consumidor quer escolher o que ver e o que comprar. Por isso, as teles vão tentar compartilhar essa receita com as empresas de streaming.

Sobre possíveis questionamentos das agências reguladoras da concorrência no país, Pistono acha que não haverá problemas, porque WarnerMedia e Discovery têm portfólio complementar. É diferente, explica, do que ocorreu com a união entre Disney e Fox, pois ambas tinham forte atuação na área esportiva, com ESPN e Fox Sports, respectivamente.

Isso levou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a exigir a venda do canal Fox Sports.

— Warner e Discovery atuam em nichos diferentes. É um conteúdo complementar. O consumidor vai ganhar mais opção de escolha com essa união. Por outro lado, essa nova opção vai afetar ainda mais o serviço de canais empacotados em TV por assinatura — disse Pistono.

Paula Chimenti, doutora em Administração pelo Instituto Coppead de Administração (Coppead/UFRJ), também não acredita que haverá problemas de concorrência no Brasil. Para ela, “o consumidor só se fortalece com uma nova opção”.

Paula considera ainda que o movimento de consolidação global ainda não acabou:

— É um negócio de escala. Quanto mais clientes você tem, mais barato fica o custo em tecnologia. Então, não é só ter mais conteúdo. É sobre a capacidade de conhecimento de consumidor, de entender o que ele quer e oferecer o produto correto.

*

Do 'QAnon' à antivacina: um mapeamento do conspiracionismo na Europa

Eles se consideram defensores de um 'discurso alternativo' às verdades oficiais e seguem o exemplo de americanos para expressar a sua visão conspiracionista dos assuntos candentes nas redes sociais
Da AFP
18/05/2021 - 06:00 / Atualizado em 18/05/2021 - 09:57
Manifestantes em protesto contra restrições pandêmicas em Liestal, na Suiça. Foto: STEFAN WERMUTH / AFP
Manifestantes em protesto contra restrições pandêmicas em Liestal, na Suiça. Foto: STEFAN WERMUTH / AFP

PARIS - "Não é um vírus", diz Monique Lustig segurando um guarda-chuva cheio de mensagens contra a vacinação em holandês. Na Alemanha, Hellmuth acrescenta: "Covid é uma fábula da máfia financeira internacional". "E se estivéssemos realmente num filme?", pergunta o francês Christophe Charret.

De Haia a Stuttgart, passando por Paris, todos eles afirmam estar lutando contra o "controle de mentes", contra as redes "pedófilas", contra a "plandemia" inventada por uma elite governante com planos sombrios.

Eles se consideram defensores de um "discurso alternativo" às verdades oficiais e seguem o exemplo do movimento de teoria da conspiração QAnon americano para expressar a sua visão conspiracionista dos assuntos candentes nas redes sociais.

Expulsos do Twitter e do Youtube, eles se sentem perseguidos. Optaram por plataformas secundárias para trocar informações - na sua maioria falsas - que, segundo eles, são ocultadas pelos meios de comunicação "mainstream".

Acompanhamos durante meses estes viveiros conspiratórios na Europa.

Entre eles há membros do QAnon, fundamentalistas protestantes, antivacinas, populistas de direita, terapeutas alternativos, homens de negócios, artesãos, desempregados, e até médicos.

Uma equipe heterogênea que está em plena ascensão preocupa os serviços de inteligência, que temem desestabilidades à democracia.

— A conspiração está florescendo nas redes sociais, vemos que está também organizando células clandestinas. É obviamente uma ameaça — adverte o coordenador nacional dos serviços secretos franceses, Laurent Nunez, que reconhece que as teorias de QAnon chegaram à França.

Nas redes sociais, os grupos europeus QAnon, ou ligados a eles, surgem e se juntam. Os Décodeurs da França têm mais de 30 mil assinantes no aplicativo de mensagens Telegram. Figuras da conspiração alemã como Attila Hildmann e Xavier Naidoo têm mais de 100 mil seguidores; e o britânico Charlie Ward, que difunde propagandas pró-Trump a cada quinze minutos, atingiu quase 150 mil.

— Há um coquetel molotov em marcha: o enfraquecimento do tecido socioeconômico, um forte movimento de expressão contestada em plataformas digitais, onde é fácil transmitir discursos conspiratórios, e o calendário eleitoral — afirmou uma funcionária dos serviços secretos da França.

— Estes são movimentos que surgiram há mais ou menos dez ou quinze anos. São alimentados por uma conspiração antissistema. Há uma porosidade com grupos de extrema-direita — diz um alto funcionário dos serviços secretos franceses que reconhece que o que é novo é a inclusão de "pessoas de origens bastante variadas".

Esses pensamentos podem destruir famílias que se sentem impotentes perante a adesão dos seus entes queridos. Foi isto que aconteceu a Paulo (o nome foi mudado), que contou sobre o lento tendencionamento da sua mãe "para o outro lado".

— Ela vivia em reclusão, passava um tempo incrível na internet a procura de respostas à sua raiva contra a injustiça do mundo. Ela consumia YouTube 24 horas por dia, os canais de conspiração eram a sua única janela para o mundo — diz o livreiro de 48 anos.

— O confinamento foi a cereja no bolo. A Covid foi a confirmação de todas as suas teorias sobre o fim do mundo — acrescenta ele.

Obsessão com Bill Gates

Estamos em meados de março, no pacato vilarejo de Uithoorn, no sul de Amsterdã. Lange Frans desdobra a sua fita métrica e, bem apressadamente, nos convida a entrar no seu estúdio de gravação.

— Aqui não há máscara — solta, sarcasticamente, o rapper que chegou a ser conhecido nos anos 90.

Entre duas metáforas musicais, conta, orgulhosamente, do "show clandestino", sem medidas de distanciamento social, do qual participou no dia anterior.

Já há alguns anos, seus podcasts têm sido um sucesso na Holanda. Durante duas horas, o cantor conversa com uma personalidade para dar uma visão "alternativa" sobre assuntos correntes: Covid, acidente do avião MH-370, pedofilia, OVNIs... Tem espaço para tudo.

— Siga o rastro do dinheiro — fala Lange Frans entre cartazes de Bob Dylan e guitarras.

— Tomemos o caso de Bill Gates. As pessoas devem descobrir sobre ele, que não tem nenhum diploma médico nem experiência em vacinas. A única razão pela qual recebe tanta atenção é porque tem dinheiro — diz o cantor em inglês impecável.

Um manifestante anti-lockdown usa uma máscara do magnata dos negócios norte-americano Bill Gates durante uma marcha contra as restrições do coronavírus em curso no centro de Londres, Inglaterra. Foto: NIKLAS HALLE'N / AFP
Um manifestante anti-lockdown usa uma máscara do magnata dos negócios norte-americano Bill Gates durante uma marcha contra as restrições do coronavírus em curso no centro de Londres, Inglaterra. Foto: NIKLAS HALLE'N / AFP

Para este jovem de 40 anos, cujo canal do YouTube é frequentemente suspenso, a Covid é uma "novela" e uma "gripe exagerada" de que os meios de comunicação social não param de falar.

Ceticismo

Naquele mesmo domingo, véspera das eleições parlamentares holandesas, 3 mil pessoas reuniram-se na cidade de Haia contra as restrições anti-Covid. Um carnaval vigiado de perto pela polícia.

Semanas antes, a Holanda sofreu várias noites de tumultos violentos após impor toque de recolher obrigatório.

Participaram das manifestações ativistas do populismo, pessoas que denunciam um governo mundial e defensores dos medicamentos naturais.

Estavam unidos por um denominador comum: ceticismo em relação ao discurso oficial sobre a pandemia do Covid-19.

— Não é um vírus, é uma ferramenta para uso do poder. A elite mundial se organizou. Muitos pensam que é muita loucura para ser verdade, mas trabalharam nisso por mais de 20 anos — diz a restauradora Monique Lustig.

Um pouco mais longe, Jeffrey, um estudante de 21 anos, distribui folhetos denunciando o "Grande Reset", plano do Fórum Econômico Mundial para relançar a economia depois do Covid-19, que esconde, segundo ele, o controle da liberdade e a subjugação da população.

Um manifestante segura um cartaz escrito 'coronafarsa' em frente ao Gabinete do Governo em Bratislava, Eslováquia. Foto: VLADIMIR SIMICEK / AFP
Um manifestante segura um cartaz escrito 'coronafarsa' em frente ao Gabinete do Governo em Bratislava, Eslováquia. Foto: VLADIMIR SIMICEK / AFP

Quem criou a pandemia? Cada um dá uma resposta diferente, mas geralmente citam dois avatares do capitalismo global: o organizador do Fórum Económico Mundial, Klaus Schwab, e Bill Gates.

— A elite global está se aproveitando da situação para criar uma nova sociedade. Somos milhares aqui convencidos de que não é uma pandemia — acrescenta Ard Pisa, um antigo banqueiro que se tornou defensor da medicina alternativa para curar o câncer.

— Oito milhões de crianças desaparecem todos os anos. Isto faz parte do nosso mundo, não devemos fechar os olhos, há muitos casos de pederastia que passam despercebidos — continua, abordando um dos temas favoritos dos apoiadores de QAnon.

Este número, frequentemente reportado pelas ONGs de proteção da criança, inclui. na realidade, todos os desaparecimentos denunciados, dentre os quais estão os que fogem, que na grande maioria dos casos são encontrados.

Estado profundo

A manifestação em Haia não é uma exceção na Europa. Os protestos contra as restrições antiviolência incluem sistematicamente muitos seguidores de teorias conspiratórias.

Na Dinamarca, membros do grupo "Homens de Preto" afirmam que o coronavírus é um "esquema". Em Berlim, as bandeiras de QAnon são vistas com frequência nestes comícios, que podem reunir até dez mil pessoas. Um punhado deles até tentou forçar entrada no Parlamento em agosto passado.

De acordo com um inquérito publicado em Setembro de 2020, um terço dos alemães acredita que as "potências secretas" controlam o mundo.

Os tópicos favoritos de QAnon são ingredientes básicos deste pote de conspiração.

— QAnon é um ponto de encontro para grupos de extrema-direita, pessoas que acreditam em OVNIs, pessoas que pensam que 5G será usado para controlar pessoas — explica Tom de Smedt, um investigador belga que foi autor de vários estudos sobre a ascensão do movimento na Europa.

A opinião pública tomou consciência da existência deste movimento, nascido nos Estados Unidos, durante a invasão do Capitólio em janeiro.

O seu nome vem de mensagens crípticas postadas por um certo "Q", supostamente um alto funcionário norte-americano próximo de Trump. Muito ativo nos Estados Unidos desde 2017, ele defende a ideia de que um "Estado profundo", pilotado por um punhado de elites, governa a ordem mundial.

O falso escândalo Pizzagate, em que os democratas foram acusados de estarem à frente de uma arena de pederastia, é um dos fundamentos da sua luta.

Inclusive agora, uma das suas últimas falsas notícias circulando se refere ao mesmo assunto: mais de mil crianças foram libertadas dos porões do navio "Ever given" que bloqueou o Canal do Suez, como parte de um tráfego internacional encorajado por Hillary Clinton.

'Ponto de inflexão'

— As mensagens de Q são a bíblia do conspirador — diz Christophe Charret com um sorriso.

Este homem de negócios afável e atlético que recebe a reportagem na sua casa moderna nos subúrbios de Paris define-se como um "conspirador moderado".

São quase 20h e o primeiro-ministro Jean Castex acaba de anunciar que o confinamento será prorrogado em parte da França. Mas na sala de estar de Charret, a televisão foi desligada.

Tudo está acontecendo no seu pequeno escritório, na sótão, onde se prepara para falar sobre as notícias da Aliança Humana, uma associação com 12 mil assinantes na rede Telegram que decifra assuntos correntes por meio de um prisma conspiratório.

Agentes da polícia conversam com um manifestante anti-lockdown no centro de Londres, ele estava protestando em curso contra as restrições do coronavírus. Foto: NIKLAS HALLE'N / AFP
Agentes da polícia conversam com um manifestante anti-lockdown no centro de Londres, ele estava protestando em curso contra as restrições do coronavírus. Foto: NIKLAS HALLE'N / AFP

Ao som de música digna dos filmes de Hollywood, as imagens seguem uma após a outra de modo bem acelerado: Kennedy, 11 de setembro, 5G, vacina, Donald Trump, o epidemiologista francês Didier Raoult, e, claro, Bill Gates.

— O mundo é gerido por um conglomerado financeiro-tecnológico que controla a soberania do povo. A tecnologia torna possível fazer coisas preocupantes, o controle da consciência, particularmente, não é um mito —diz Charret, atrás dele está um "Q" feito de guirlanda luminosa.

Nessa noite, em um vídeo com cerca de 30 mil visualizações, ele interveio para falar sobre as vacinas, Joe Biden, e os esforços humanitários da associação para angariar fundos para os estudantes necessitados.

— Estamos em um ponto de inflexão no mundo, dois lados estão guerreando e aqueles que seguram as rédeas não são nossos amigos. E farão tudo o que estiver ao seu alcance para não as largarem, mas há forças trabalhando para um futuro Dia D — conclui, insistindo no empenho pacífico e na rejeição da violência.

Replicagem no Telegram

Na Europa, os chamados QAnon são bastante discretos e escassos. A administração do movimento permanece profundamente americana. Mas os seus herdeiros no Velho Continente assumiram a base ideológica.

— Todos os QAnon europeus apoiam a narrativa oficial, sobretudo apoio a Trump e às ideias de extrema-direita, porém cada grupo adapta estas mensagens aos interesses locais — aponta o diretor de estratégia da empresa israelita de cibersegurança ActiveFence, Nitzan Tamari.

— Entre os tópicos sobre os quais existe consenso entre os diferentes grupos, encontramos a Covid-19 e as conspirações de vacinas que constituem a maior parte das mensagens trocadas, mas também se trata das conspirações sobre o estado profundo e a pedofilia — explica o israelita.

— QAnon é como um caranguejo ferido que se retira para dentro da sua carapaça. O Twitter fez um tremendo trabalho apagando contas — recorda o investigador Tom de Smedt.

Mas esta varredura digital não atingiu as raízes do sucesso destas teorias.

— Há um sentimento de raiva que não é de esquerda ou de direita, mas anti-elite. E esse sentimento não desapareceu — acrescenta Tom de Smedt.

Contaminação do debate público

O número de rumores que se difundem entre os grupos de Telegram espalha-se frequentemente a partir deste "núcleo duro" e acabam chegando à opinião pública.

Em janeiro, na Alemanha, em um formidável estudo de caso de propagação de fake news, milhares de mensagens denunciaram subitamente em várias redes a intenção de criar "salas de masturbação" para menores em num jardim de infância de Teltow, ao sul de Berlim.

A informação, divulgada por centenas de funcionários eleitos do partido de extrema-direita AfD, levou um deputado da maioria no poder a criticar a iniciativa. Na realidade, tudo isto resultou de um artigo de jornal local cujas citações mal interpretadas foram amplificadas exponencialmente nas redes sociais.

Na França, o documentário Hold-Up — uma confusão de quase três horas de relatos conspiratórios por médicos, deputados, investigadores e sociólogos — tem sido visto por vários milhões de pessoas.

Denominada por muitos funcionários eleitos da maioria governamental como "propaganda de complô", tornou-se uma referência para todos os céticos, independentemente da sua orientação política.

Em 2019, um estudo da Fundação Jean Jaurès mostrou que o eleitorado de Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, é de longe o mais permeável às teorias da conspiração.

A bênção dos populistas

Na Holanda, após uma campanha centrada na hostilidade,  a formação populista Fórum para a Democracia quadruplicou o seu número de assentos nas eleições legislativas.

Em Urk, uma pequena cidade no ultraprotestante "Cinturão Bíblico", onde o sarampo ainda assolou em 2019, o Fórum subiu para o terceiro lugar.

Tal como o Fórum, alguns partidos populistas europeus não abraçam oficialmente a retórica do complô, mas mantêm um discurso ambíguo e apelativo o suficiente para este eleitorado frequentemente enojado com a política.

— As pessoas aqui têm dúvidas sobre a vacina. Há razões médicas - os seus efeitos são desconhecidos - mas também religiosas. Acreditam em Deus ou na vacina? Podemos interferir com os planos de Deus? — pergunta o Reverendo Alwin Uitslag, que dá as boas-vindas à reportagem na sua casa localizada junto a uma das muitas igrejas do vilarejo.

Longe do mar, a 500 km de Urk, Christina Baum está fazendo campanha à luz do sol no estado de Baden-Württemberg, o bastião alemão de protesto contra as medidas sanitárias.

Alguns dias antes das eleições nesta região, a porta-voz regional de saúde do partido de extrema-direita alemã AfD fala aos seus apoiadores sobre o coronavírus sem máscaras ou tabus.

Um deles, Hellmuth, ataca, dizendo que se trata de "fábula da máfia financeira criminosa internacional".

Baum recusa-se a contradizer este discurso: na AfD, todas as opiniões são bem-vindas.

Calendário eleitoral

— Com o Covid, teorias de que nunca tinha ouvido falar vieram à luz. E eu acho isso impressionante. O que quer fazer com estas pessoas? Quer dizer-lhes que as isolamos completamente da sociedade? Isso não é possível. Temos de procurar o diálogo com todos — diz Baum.

— Aqueles que votam em partidos de extrema-direita têm uma maior tendência a acreditar em teorias de conspiração ligadas à Covid. Este é o caso de um em cada cinco eleitores da AfD — afirma um relatório de fevereiro de 2021 encomendado por várias ONGs, incluindo a Fundação Amadeu Antonio.

Discursos que encontram eco na França, especialmente entre os "Patriots", um pequeno partido soberanista cujo líder, Florian Philippot, denuncia todos os sábados em manifestações pelo país o "Coronaloucura".

Embora esteja limitado a algumas formações políticas populistas e manifestações esporádicas, este coquetel de múltiplos discursos conspiratórios preocupa os serviços secretos europeus.

Na Alemanha, o movimento "Querdenken", que se opõe às medidas anti-Covid, está sob crescente vigilância em várias regiões devido às suas ligações com movimentos próximos da extrema-direita, cujo discurso desafia a constituição.

— Estamos trabalhando em um grupo de pessoas claramente definido que, constatamos, terem contato com extremistas. As teorias do complô podem atuar como um catalisador para a radicalização e uma porta de entrada para o extremismo — explica um oficial de inteligência em Baden-Württemberg.

Poderiam as teorias da conspiração, que se infiltraram no debate público e nas redes sociais, abrir a porta à desestabilização das nossas democracias?

— Estamos preocupados com a mudança para o ato violento destes indivíduos — diz um alto funcionário dos serviços secretos franceses que culpa "a interferência de informação do Estado russo" no caso das redes "Russia Today e Sputnik".

Telegram e VK, duas das principais redes sociais onde os plotters se retiraram, partilham os mesmos criadores: os irmãos russos Durov.

— Na Alemanha, recentemente, a atmosfera nas manifestações tornou-se muito mais agressiva — diz o responsável pela segurança pública de Stuttgart.

— Para mim, o mais perigoso não são alguns radicais, mas este tipo de onda de desconfiança crescente em relação às instituições — teme o investigador francês Sylvain Delouvée.

— O desafio é saber se a eleição (presidencial) canalizará ou não esta vontade de expressar protesto — conclui a fonte dos serviços secretos franceses.

A França e a Alemanha irão oferecer uma primeira resposta nos próximos meses.

*

Eva Wilma: A verdadeira história da foto de atrizes em passeata contra a censura, em 1968 | Blog do Acervo - O Globo

Tônia Carreiro, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Benghel e Cacilda Becker protestam contra censura, em 1968

Os termômetros no Rio marcavam temperaturas de até 41 graus naquela segunda-feira, 12 de fevereiro de 1968, quando centenas de artistas se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal com faixas e cartazes. A manifestação acontecia no dia seguinte ao início de uma greve promovida por atores, atrizes, diretores, empresários e produtores teatrais, que decidiram fechar os palcos da cidade para protestar contra a Censura Federal. O movimento foi seguido imediatamente pelos artistas de São Paulo, que cerraram as cortinas por lá também.

O foco da indignação eram a falta de critérios e o despreparo intelectual dos censores da ditadura para cortar cenas ou mesmo proibir espetáculos com base na proteção da "moralidade". As produções sofriam golpes arbitrários de pessoas sem formação cultural que implicavam com termos de "baixo calão" ou considerados subversivos à ordem e aos "bons costumes". O estopim para os protestos foi quando o governo vetou uma montagem nacional do texto "Um bonde chamado desejo", do americano Tennessee Williams, no Teatro Martins Pena, em Brasília.

Walmor Chagas, Odete Lara e outros na escada do Teatro Municipal, em fevereiro de 1968

Segundo os jornais da época, inicialmente, a censura determinara vários cortes no texto, mas, na estreia da peça, a atriz Maria Fernanda decidiu ignorar as tesouradas. Os censores haviam exigido, por exemplo, a substituição do termo "gorila" para se referir ao personagem Stanley Kowalski, um ex-militar. Chamada para se explicar no gabinete do chefe da censura, a atriz não se conteve e chamou os censores e o governo de "totalitários, ditatoriais e prepotentes". Como retaliação, o espetáculo foi proibido, e Fernanda foi impedida de atuar por 30 dias.

Revoltados, dezenas de artistas do Rio se reuniram no Teatro Princesa Isabel, no Leme, dia 11 de fevereiro de 1968, quando foi criada uma comissão para liderar o movimento. Logo em seguida, os membros da comissão, formada por personalidades como Cacilda Becker, Chico Buarque, Odete Lara e Marieta Severo, foram ao encontro do governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima, que estava inaugurando uma fonte luminosa no Largo do Machado. Mas Negrão era um opositor do regime militar e não podia ajudar.

Profissionais do teatro durante assembleia no Teatro Princesa Isabel, no Leme

No dia seguinte, os artistas começaram uma ocupação nas escadas do Municipal para colher assinaturas do público com o intuito de amenizar a censura sobre produções culturais. Ainda que o país já vivesse uma ditadura militar desde o golpe de 1964, atos daquele tipo ainda eram tolerados. Mas mesmo esse "cheiro" de liberdade estava com os dias contados. O protesto acontecia no início de um ano de muita agitação política e que terminaria com a publicação, em dezembro, do Ato Institucional de número (AI-5), que acabou com qualquer espaço para críticas ao governo.

De acordo com a edição do GLOBO do dia 12 de fevereiro de 1968, os artistas de pés fincados na entrada do Teatro Municipal chamavam atenção para as incoerências nas decisões da censura. "Um bonde chamado desejo" estivera em cartaz no Rio durante 13 anos, sem nunca ter enfrentado problemas. Eles também criticavam a proibição da peça "Senhora na boca de lixo", que havia sido liberada em Portugal, na época governado por uma ditadura com censura "mais rigorosa que a do Brasil".

Fernando Torres, com microfone, no Teatro Municipal, perto de Nelson Rodrigues (de terno)

Estavam nas escadas do Municipal famosos como Walmor Chagas, Joana Fomm e Eva Wilma. O ator e diretor John Herbert apontou a contradição da censura, que liberara "Roda viva", de Chico Buarque, para maiores de 14 anos, enquanto proibira espetáculos com textos menos críticos. Joana Fomm se colocou contra qualquer forma de censura, alegando que cabia ao público escolher o que queria ver. Já André Villon ironizou os equívocos dos censores, que para ele atuavam como "relações públicas" de produções que eram proibidas e, em seguida, liberadas. "A censura aumenta muito a curiosidade popular, causando ótima bilheteria para a peça só porque tinha sido proibida", disse.

O movimento reivindicava uma reformulação da Censura Federal. Os grevistas pediam a descentralização do aparato, para que as delegacias regionais, e não apenas o gabinete em Brasília, tomassem decisões referentes a produções culturais. Também queriam participação da classe nas definições e que fosse garantida a liberdade de criação. Ou seja, queriam trabalhar numa democracia.

Chico Buarque cumprimenta o ministro Gama e Silva após reunião sobre censura

Eles conseguiram uma audiência com o então ministro da Justiça, o jurista Luís Antonio da Gama e Silva, no dia 13 de fevereiro, da qual participaram artistas como Chico Buarque, Djanira, Nelson Rodrigues, Tonia Carreiro e Carlos Scliar. Durante o encontro, o grupo entregou a Gama e Silva uma petição com 10 mil assinaturas colhidas no Municipal. O ministro se mostrou receptivo, disse que tinha suas próprias ressalvas com a censura e prometeu rever tudo. Os artistas ficaram tão animados que até pediram a demissão do chefe da censura. Mas, antes de Gama e Silva responder, Nelson Rodrigues falou: "Cuidado, ministro, pois esse é um momento histórico". Só que aí o jurista não prometeu mais nada.

Depois da reunião, centenas de artistas partiram do Municipal em passeata até o Monumento aos Mortos na Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo. Eles andavam pela calçada, para não atrapalhar o trânsito, e cantavam o Hino Nacional. No trajeto, foram feitas as históricas fotos de Eva Wilma caminhando ao lado de Eva Todor, Tônia Carreiro, Leila Diniz, Cacilda Becker e Norma Bengell. Após a morte de Eva Wilma, aos 87 anos, no último domingo, muita gente compartilhou nas redes sociais as imagens como se fossem um momento da Passeata dos Cem Mil, que só aconteceu em junho daquele ano.

Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell

- A gente estava encerrando uma greve de três dias e três noites nas escadarias do Teatro Municipal. A gente ficava se revezando. Combinava quem ficava das 2h às 4h da madrugada e por aí vai - contou Eva Wilma no programa "Encontro com Fátima Bernardes", da Globo, em março de 2018. - Eu estava em cartaz no Rio (com a peça "Black out", no Teatro da Aliança Francesa). O encerramento foi programado dessa maneira, as atrizes na linha de frente, levando flores para o monumento no Aterro. Foram momentos de luta, de batalha

Os artistas queriam depositar uma coroa de flores no monumento, em homenagem aos "heróis" da que lutaram pela "democracia e a liberdade". Mas o oficial do Exército que fazia a guarda impediu a entrada dos manifestantes, alegando que o monumento já estava fechado. Depois de alguma discussão, Tônia Carreiro começou a pedir ao grupo que se dispersasse, mas recebeu voz de prisão do guarda, que a acusou de estar "fazendo discurso". Após apelos, o militar desistiu de levá-la para a delegacia.

Cartaz da peça 'Black out', com Eva Wilma, em cartaz em 1968

Os artistas voltaram da reunião dizendo que acreditavam no ministro Gama e Silva. Mas a História nos mostrou algo bem diferente do que ele dissera. O governo continou praticando e reafirmando a censura. Em julho do mesmo ano, um grupo de para-militares chamado de Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o Teatro Galpão, em São Paulo, agrediu o elenco de "Roda Viva" e depredou o espaço. Em outubro, a peça foi proibida na véspera de sua estreia em Porto Alegre. Antes que os atores deixassem a cidade, eles foram novamente agredidos por extremistas.

Ao longo de 1968, a classe artística e o movimento estudantil estreitaram sua relação em atos como os protestos após a PM assassinar o secundarista Edson Luís, no restaurante Calabouço, da UFRJ, que culminaram com a Passeata dos Cem Mil. O evento, realizado no dia 26 de junho, foi organizado por universitários e contou com a participação de músicos, artistas plásticos, profissionais do teatro e cineastas. Mas aquele ano terminou com a edição do AI-5, que atirou o país nas trevas, autorizando prisões arbitrárias, tortura e mortes de opositores políticos. Foi o período mais duro da repressão. Manifestações na rua estavam completamente banidas.

Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes, artistas e trabalhadores contra a ditadura no Centro do Rio, em 26 de junho de 1968
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Melhor filme brasileiro de todos os tempos faz 90 anos

'Limite, de Mário Peixoto, é celebrado em evento virtual da Cinemateca do MAM
Carolina Mazzi
17/05/2021 - 13:26 / Atualizado em 17/05/2021 - 18:01
 Imagem do filme "Limite", de Mario Peixoto Foto: Reprodução
Imagem do filme "Limite", de Mario Peixoto Foto: Reprodução

Em 2007, David Bowie, astro do rock que também era fã de cinema, promoveu uma mostra em Nova York com suas dez produções latino-americanas favoritas — e lá estava o brasileiro “Limite”, que chega esta segunda (17-5) aos 90 anos. 

Eleito em enquetes da Cinemateca Brasileira e da Associação Brasileira de Críticos de Cinema o melhor filme nacional de todos os tempos, o único longa dirigido por Mário Peixoto ganha homenagens na data. 

A Cinemateca do MAM organizou um evento virtual com a exibição do clássico, debates e master class, a partir de  desta segunda, e a plataforma Curta! On programou dois documentários sobre o diretor e sua obra.

O filme foi exibido pela primeira vez no antigo Cinema Capitólio, no Centro do Rio, em 17 de maio de 1931, para uma plateia de convidados que o recebeu de forma fria. 

Em cena, três náufragos (Iolanda Bernardes, Olga Breno e Raul Schnoor) em um pequeno barco à deriva no oceano aceitam o destino iminente. 

Enquanto aguardam seu trágico desfecho, dialogam sobre liberdade, traumas e a passagem do tempo. 

A obra jamais chegou ao circuito comercial, mas isso não impediu que ganhasse o status de mito, como destaca Sérgio Machado, diretor do documentário “Onde a terra acaba”, sobre a vida e a obra de Mário Peixoto disponível no Curta! On:

— Embora o público não tenha, na época, entendido, algumas pessoas comentavam sobre a genialidade e importância de “Limite”, que com os anos acabou ganhando a mística de o “maior filme já feito no Brasil, mas nunca visto”. 

O próprio Mário Peixoto, que tinha só 23 anos, acabou se isolando, frustrado pela decepção com a receptividade que o longa teve, e se tornou uma espécie de eremita, vivendo sozinho em Ilha Grande boa parte da vida.

O filme só foi recuperado nos anos 70, pelo restaurador Saulo Pereira de Mello (1948-2020), que também será homenageado.

Foi então exibido ao redor do mundo e se firmou como marco no cinema nacional e internacional, lembra o pesquisador da Cinemateca do MAM Hernani Heffner.

— É um longa inovador por toda a sua complexidade técnica — diz Heffner, sublinhando que a narrativa, a fotografia e a temática de “Limite”, abordando assuntos como a opressão às liberdades individuais, foram “revolucionárias”. 

 — É um filme mudo numa época em que o cinema sonoro já estava muito presente e faz um grande experimento também em torno da natureza brasileira, explorando a força, beleza e tristeza das paisagens de restinga, de agreste.

Ruy Gardnier, crítico de cinema do GLOBO, exalta o caráter extraordinário do longa:

— É muito singular, porque o cinema brasileiro lutava para ter padrões próximos de Europa e EUA, e aí apareceu um filme de um cineasta estreante, também poeta, com uma técnica que dominava com perfeição as sequências cinematográficas da época. 

É um longa que flui com a musicalidade das imagens de forma impressionante.

Sérgio Rizzo, também crítico de cinema do GLOBO, endossa, enfatizando que Mário Peixoto fez um filme em sintonia com as experimentações estéticas na Europa e muito à frente do relógio cultural brasileiro de então:

— Objeto cinematográfico não identificado em sua época, visto por poucos em sessões lendárias, tornou-se monumento. 

Revê-lo é sempre uma experiência nova e prazerosa, como convém a todo clássico. 

Cabe a nós celebrá-lo, com entusiasmo à altura de sua ousadia.

Desta segunda (7-5) até o dia 23, “Limite” estará disponível no canal da Cinemateca do MAM no Vimeo. 

Nesta segunda, às 19h, um debate, mediado por Heffner, tem participação do diretor Walter Salles (que financiou o restauro do filme) e Filipi Fernandes discutindo o legado do restaurador Saulo Pereira de Mello, que morreu no ano passado, vítima da Covid-19.

— “Limite” só não ficou perdido para sempre graças ao trabalho árduo de Saulo, pesquisando, preservando e restaurando essa obra — diz Heffner.

O canal Curta! programou os documentários “Mar de fogo”, curta-metragem de Joel Pizzini (hoje, às 18h), e “Onde a terra acaba”, longa de Sergio Machado (dia 23, às 21h15). Ambos já estão disponíveis no Curta! On, no Now.

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Enfermeira que cuidou de Boris Johnson se demite em protesto contra governo

Jenny McGee atendeu o primeiro-ministro britânico em abril de 2020 no Hospital St. Thomas de Londres, quando ele foi hospitalizado com Covid-19
O Globo e AFP
18/05/2021 - 14:15 / Atualizado em 18/05/2021 - 14:17
Enfermeira Jenny McGee durante entrevista para emissora TVZN Foto: Reprodução / TVZN
Enfermeira Jenny McGee durante entrevista para emissora TVZN Foto: Reprodução / TVZN

LONDRES - A enfermeira neozelandesa Jenny McGee, que atendeu Boris Johnson, em abril de 2020 no Hospital St. Thomas de Londres, quando o primeiro-ministro britânico foi hospitalizado com Covid-19, anunciou nesta terça-feira sua demissão do Serviço Nacional de Saúde (NHS, em inglês), denunciando o que chamou de falta de respeito do governo por sua profissão. O anúncio foi feito como parte de um documentário da emissora britânica Canal 4, que vai ao ar em 24 de maio, mas que teve trechos antecipados.

"Muitos enfermeiros tiveram a impressão de que o governo não foi eficaz" na gestão da pandemia, comentou ela, denunciando a "indecisão" e as "mensagens contraditórias". Agora "não estamos recebendo o respeito ou o salário que merecemos", acrescentou, referindo-se ao aumento de apenas 1% concedido em 2021 para os trabalhadores de saúde na Inglaterra, uma decisão que gerou fortes protestos.

— Isso me enoja — assegurou McGee — por isso apresentei a minha demissão — se defendeu.

Em um comunicado divulgado por meio de seu hospital, McGee explicou que havia decidido deixar o emprego após o ano "mais difícil" de sua carreira, mas que esperava voltar no futuro. Ela afirmou que vai partir em uma missão ao Caribe antes de passar férias em seu país natal.

Depois de ter recebido alta da unidade de terapia intensiva de St. Thomas, o primeiro-ministro conservador agradeceu em um vídeo a dois enfermeiros, McGee e o português Luis Pitarma, sem os quais "tudo poderia ter sido diferente", segundo Boris, que chegou a temer por sua vida.

Como McGee, muitos trabalhadores de saúde britânicos agora se sentem decepcionados com o Executivo depois de serem aplaudidos pelo público no início da pandemia e após longos meses de pressão em hospitais sobrecarregados de pacientes com Covid-19.

Um estudo recente da Associação Médica Britânica com 2.100 trabalhadores da saúde constatou que mais de um em cada cinco pretende deixar o NHS e mudar de carreira devido a um ano de estresse e exaustão.

País mais atingido da Europa pela pandemia, o Reino Unido registrou mais de 127.600 mortes pela Covid-19 e, até o momento, 4,45 milhões de casos. Ao todo, 30% da população país já foi vacinada com as duas doses do imunizante, em torno de 20,2 milhões de pessoas. Com uma dose, o número salta para 55% da população, 36,7 milhões de cidadãos.

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