Os principais FENÔMENOS do SISTEMA_INTERNACIONAL e a ESTRUTURA do sistema - Samuel Pinheiro Guimarães
8888
Os principais FENÔMENOS do SISTEMA_INTERNACIONAL e a ESTRUTURA do sistema - Samuel Pinheiro Guimarães
O Twitter NÃO perdoa quem NÃO É extremista
Cancelamento de exposição HOMOERÓTICA levanta debate sobre CENSURA nas artes
Qual vacina para Covid você conseguiu tomar?
Acadêmicos e advogados pedem ao STF afastamento de Bolsonaro por INCAPACIDADE MENTAL
Sardenberg fala de Bolsonaro e ignora Lula ao comentar Datafolha na Globo (vídeo)
Quadro político se agrava, mas desfecho é imprevisível - Roberto Moraes
Paulo Guedes é o ícone da “economia que mata”
A LIBERDADE nunca bateu na nossa porta: 133 anos de FALSA ABOLIÇÃO
Exposição que marcaria data da ABOLIÇÃO é CENSURADA em Santa Catarina
"Existe responsável", diz Mônica Martelli sobre morte de Paulo Gustavo
Os principais fenômenos do sistema internacional e a estrutura do sistema - Samuel Pinheiro Guimarães
Por Samuel Pinheiro Guimarães

“Fale suavemente e carregue um porrete grande”. Theodore Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos, (1901-1909)
“Finalmente o mundo reconhece a América como Salvador do mundo”. Woodrow Wilson, Presidente dos Estados Unidos, (1913-1921)
1. Em artigo anterior, foram apresentados alguns aspectos do fenômeno político mais importante desta e das próximas décadas que é a firme disposição dos Estados Unidos da América de manter sua hegemonia face à ascensão e competição chinesa.
2. No presente artigo serão descritos alguns aspectos e fenômenos do sistema internacional em que se dá a competição e o confronto entre a República Popular da China/RPC e os EUA e, de forma sucinta, algumas das visões sobre a forma como se organiza o sistema internacional.
* * *
O contexto do confronto e da disputa
3. O confronto entre a China e os Estados Unidos ocorre em um sistema internacional em que os principais fenômenos que interagem são:
a. a Pandemia e a retração econômica;
b. a geração de tensões pelo complexo industrial-militar americano;
c. o aquecimento global, a mudança climática, e as migrações;
d. a globalização e as cadeias globais de valor;
e. a financeirização da economia;
f. a adoção, parcial, de políticas de mercado na China;
g. a concentração de renda e de riqueza e a disseminação da pobreza;
h. o acelerado desenvolvimento tecnológico e a automação;
i. o desemprego, conjuntural e estrutural, e a precarização do trabalho;
j. a emergência de movimentos e de Governos de ultradireita;
k. o negacionismo científico.
4. A Pandemia do Coronavírus Covid-19 vem se mostrando resistente às políticas de contenção de sua propagação, as quais tem importantes efeitos econômicos, e de combate e controle pela vacinação em grande escala.
5. A propagação da Pandemia do Covid-19 foi favorecida pelos seguintes fatores:
a. a posição inicial de alguns Governos, em especial os de Donald Trump e de Boris Johnson, foi de grande importância. No caso do primeiro por se tratar da maior economia e potência política do mundo, com muitos vínculos com todos os países, e, no caso do segundo, pela sua imagem e liderança na Commonwealth. Esses Governos, em primeiro lugar, negaram a própria existência e importância da Pandemia e, em segundo lugar, indicaram medicamentos ineficazes e condenados pelos especialistas, como a cloroquina;
b. a relutância e a dificuldade de muitos Governos de implantarem medidas de contenção da propagação do Covid-19 como o uso de máscaras, o isolamento social, o lockdown e a vacinação, devido à resistência de setores das populações a essas medidas;
c. a utilização política, pelo Governo dos Estados Unidos, da Pandemia ao acusar a China de ser a origem do vírus que chamou de “chinavírus” e de fazer sua disseminação proposital;
d. a resistência de certos grupos sociais a tomar vacinas, por razões religiosas ou por preconceito e ignorância;
e. o constante surgimento de novas variantes do Coronavírus, de efeitos ainda pouco conhecidos, em diferentes países e continentes;
f. o ataque do Governo Trump à Organização Mundial de Saúde, que acusou de parcialidade e da qual se retirou, e a suas recomendações científicas para combate ao Coronavírus;
g. a recusa dos países desenvolvidos de aceitarem a quebra de patentes de vacinas, proposta pela Índia e África do Sul na Organização Mundial do Comércio/OMC;
h. a dificuldade dos países subdesenvolvidos em combater a Pandemia da qual tendem a ser as principais vítimas sanitárias e econômicas;
i. o aumento do desemprego, a redução da atividade econômica e do comércio em escala mundial.
6. Os impactos econômicos, políticos e sociais da Pandemia são de tal natureza que têm provocado especulações ousadas sobre o futuro da economia mundial, do sistema político e da sociedade.
7. Alguns analistas e estudiosos consideram que o capitalismo sofrerá profundas modificações e se tornará mais solidário; outros, que a Pandemia teria acelerado as transformações tecnológicas no campo da transformação digital e da automação e que haveria após Pandemia uma redução significativa de participação do trabalho na economia e que o lucro se geraria principalmente no setor financeiro pelas transações financeiras onde o dinheiro geraria dinheiro.
8. A Pandemia, do ponto de vista político, contribuiu, no Governo Trump, para uma política americana de ataque às organizações multilaterais, em especial à Organização Mundial de Saúde/OMS e à Organização Mundial do Comércio/OMC, e ao Acordo do Clima de Paris, que não é uma organização mas sim um esquema multilateral de países. Esta política de rejeição do multilateralismo foi revertida pelo Governo democrata de Joe Biden, desde seu primeiro dia.
9. Ainda no campo político, a Pandemia teria criado, de início, uma melhor imagem de eficiência da China do que a do Governo americano de Trump no combate ao Covid e gerado maior prestígio para a China, inclusive nos países subdesenvolvidos e na própria Europa. Esta “vitória” de imagem foi revertida, com êxito, pelo Governo Biden com a execução do programa de vacinação em larga escala de toda a população americana até o dia 4 de julho, no valor de 1,5 trilhão de dólares.
10. Porém, nada indica no campo político que deverá ocorrer uma alteração profunda da estrutura do sistema internacional em que hoje de um lado se encontra o Império Americano, com sua Metrópole, os Estados Unidos da América e suas Províncias (que são Estados nacionais), de diversos tipos e importância, e de outro lado, como Estados Adversários, a Rússia e a China. Império e Adversários se enfrentam no “mundo ideal” cujo centro é o sistema das Nações Unidas com suas agências e conferências e no “mundo real”, das agências de subversão e de espionagem onde “vale tudo”. Este sistema político, que sofreu abalo no Governo Trump, com sua simpatia pela Rússia e pela sua declarada guerra à China, foi revertido a seu modo tradicional pelo Governo Biden que considera a Rússia como sua maior adversária e a China como sua maior competidora.
11. Neste sistema houve uma ruptura de uma regra implícita de não interferência no sistema político doméstico americano (com a ação russa e os hackers e cyberattacks chineses) já que a interferência americana na política doméstica da Rússia e da China (casos de Xijiang, Tibete e Hong Kong) sempre foi e continua a ser um instrumento considerado legitimo pelo Império, com o argumento de defesa dos Direitos Humanos.
12. As necessidades de bens físicos da humanidade, alimentos e manufaturas, (e de bens imateriais, como os serviços) permanecem e se ampliam em quantidade e qualidade (novos bens, novas características). Assim, a atividade fora do setor financeiro permanece e cresce. A automação pode reduzir o emprego, a necessidade e emprego de mão-de-obra, porém ai se verifica a dificuldade em obter o lucro, pois a redução do número de consumidores ocorre e robôs não são consumidores.
13. Por outro lado, no setor financeiro, nas transações financeiras, (não nos investimentos de entidades financeiras nos setores “produtivos” físicos) o que ocorre são transferências de propriedade de valores entre indivíduos e não lucro propriamente.
14. As políticas de controle da Pandemia afetaram de forma significativa os métodos de organização do trabalho, em especial de escritório, com grande difusão do trabalho à distância, considerado lucrativo pelas empresas devido à redução de custos; o sistema de educação com a adoção de programas e técnicas de ensino à distância; os modos de divertimento; e causaram a redução da convivência familiar e social, com consequências psíquicas importantes.
15. Há estudiosos que, às vezes com entusiasmo, comentam que essas modificações de comportamento social e de organização do trabalho permanecerão após o fim da Pandemia, transformando a sociedade e a organização espacial das cidades, afirmação que ignora as tendências gregárias dos seres humanos, que se têm manifestado mesmo nos piores momentos da Pandemia, em que indivíduos se reúnem, sem precaução de uso de máscara ou de manter distância, arriscando a própria vida e a de amigos e familiares.
16. As tensões geradas pelo complexo industrial-militar têm sua “causa” no orçamento militar (ostensivo) americano que é superior à soma dos orçamentos militares dos dez países seguintes. O orçamento americano é de US$ 740 bilhões e o segundo maior orçamento é o da China, no valor de US$ 209 bilhões.
17. O complexo industrial-militar americano foi denunciado pelo Presidente Dwight D. Eisenhower, Comandante das Forças Aliadas na Segunda Guerra Mundial, General e herói, como uma ameaça à democracia americana, em seu discurso de despedida, em 1961.
18. Este complexo é formado pelas indústrias que produzem todo tipo de material para a montagem desde as armas mais sofisticadas, como aviões de combate, porta aviões, submarinos, entre essas indústrias a de reatores nucleares, a de equipamentos eletrônicos, de ótica, etc. até as indústrias de bens individuais, como uniformes, botas etc.
19. A existência e a “vitalidade” do complexo industrial militar depende das encomendas governamentais e, portanto, da dimensão do orçamento e esta, por sua vez, depende da existência de “ameaças” aos Estados Unidos e ao sistema do Império do qual os EUA são a Metrópole e beneficiários.
20. É necessário conferir credibilidade a essas “ameaças”, insistir que são poderosas, intratáveis, obstinadas, malévolas. Nesta tarefa desempenha um papel importante a contratação de ex-altos chefes militares para cargos de direção nessas empresas fornecedoras e a nomeação de civis, altos dirigentes dessas empresas, para exercer cargos no sistema burocrático/tecnocrático de Defesa, em uma prática que chamam de “revolving door” (porta giratória), o que significa a passagem do setor civil para o militar e vice-versa.
21. Ademais, participam do complexo institutos de pesquisa integrados por acadêmicos que produzem estudos que demonstram a existência de “ameaças” militares, econômicas e políticas de certos Estados “malévolos” aos Estados Unidos e a sua hegemonia.
22. As empresas que participam do complexo industrial-militar necessitam obter apoio no Congresso americano para a votação do orçamento militar. O sistema americano de eleição bienal para a Casa de Representantes e o sistema distrital fazem com que os Representantes se preocupem com a situação de emprego em seus Estados e as empresas ao instalar fábricas no território de diversos Estados procuram e obtém o apoio de Representantes de diferentes Estados da União na votação do orçamento militar.
23. Os Estados Unidos são os maiores exportadores de armas do mundo, em geral de segunda ou mais antiga geração, cuja aquisição, financiam aos países compradores e essas vendas de armas estimulam tensões regionais, em especial no Oriente Próximo.
24. O aquecimento global e a mudança climática resultam do efeito cumulativo, que ocorre desde o início da Revolução Industrial, dia após dia, das emissões de gases de efeito estufa, devidas principalmente ao uso, pela indústria e pelo sistema de transportes, de combustíveis fósseis, quais sejam carvão, petróleo e gás natural, para gerar energia que aumentam a temperatura média da Terra.
25. Apesar do entusiasmo com o desenvolvimento e crescente uso de tecnologias de geração de energia renovável, as previsões de consumo futuro de combustíveis fósseis e, portanto, de emissão de gases não são otimistas. Há grave apreensão de cientistas e os estudos do International Panel of Climate Change/IPCC indicam que o aumento dos índices de temperatura média global é alarmante, e se aproximam do limiar de irreversibilidade que é estimado em 3° acima dos níveis anteriores à Revolução Industrial. As políticas ambientais dos grandes países emissores, históricos e atuais, são insuficientes para conter a emissão de gases e às vezes negam a origem antropogênica do aquecimento global, como ocorreu durante o Governo Trump. Enquanto isto ocorre o gradual degelo das calotas polares e das regiões de montanha e catástrofes climáticas, a intervalos de tempos cada vez mais curtos, atingem principalmente os países e os indivíduos mais pobres. A volta dos Estados Unidos ao Acordo de Paris e os compromissos assumidos pelo Governo Biden são fatos políticos auspiciosos, inclusive porque induziram outros países a aumentar seus compromissos de redução de emissões.
26. O agravamento da crise ambiental e suas consequências transnacionais pode dar origem a movimentos migratórios ainda mais amplos de populações de países subdesenvolvidos, vítimas da pobreza e de conflitos, em direção aos países desenvolvidos o que explica, em parte, a preocupação de alguns dos governos de países desenvolvidos com a questão climática devido às consequências das migrações “subdesenvolvidas” não brancas, não cristãs, para suas sociedades em termos de aumento da xenofobia e fortalecimento dos movimentos de direita.
27. A globalização na área da produção é o fenômeno pelo qual as megaempresas instalam unidades produtivas fora do território de sua sede nacional, em locais no exterior onde a mão-de-obra é mais barata, a tributação menor e os regulamentos em especial ambientais mais flexíveis. Desses locais as megaempresas exportam, em especial para os mercados consumidores de alto nível de renda, os seus produtos que são vendidos a preços muito superiores aos custos de produção. Seus lucros são assim não só maiores, mas extraordinários.
28. As cadeias globais de valor são constituídas pelos “elos” entre as unidades de produção que vão desde aquelas unidades em que se verifica a extração ou produção inicial de matérias primas até a etapa de produção final de um bem, unidades situadas em diferentes economias nacionais.
29. Assim, a título de exemplo e de forma muito simplificada, já que há variações para cada produto, na cadeia de produção de um veículo, a extração de minério de ferro no Brasil seria o primeiro “elo” da cadeia global de valor de produção do veículo; seguido pelo “elo” de transformação do minério de ferro em aço em outro país; depois viria o “elo” de produção de partes de veículo em um terceiro país; e, finalmente, o “elo” da cadeia em que se faz a montagem final do veículo. O Brasil faz parte de cadeias globais de valor de produção de vários bens porém muitas vezes no Brasil se encontram os “elos” menos lucrativos dessas cadeias que é a produção de bens primários. Todavia, em outros casos, como na produção de aviões, a Embraer era o “elo” final e mais lucrativo de uma cadeia global de valor. É no elo final da produção dos bens industriais mais sofisticados que se encontram os “elos” mais lucrativos das cadeias globais de valor.
30. A globalização na área das finanças é a interligação imediata, permanente, através de meios eletrônicos, dos mercados de capitais e das Bolsas de Valores que se encontram em diferentes países. Essa interligação permite operações, em distintos mercados, de títulos financeiros, de contratos sobre commodities e sobre moedas, de títulos de dívida pública dos países e de todo o tipo de valor, em que ocorrem vastas operações especulativas e grandes e desestabilizadores movimentos de capital.
31. A globalização, na esfera dos indivíduos, é a possibilidade, através da Internet, de manter contato instantâneo com pessoas conhecidas e desconhecidas em todos os países; a circulação constante de notícias de todo tipo sobre todas as sociedades; a possibilidade de acesso imediato, em sua própria casa, e em qualquer lugar, a informações sobre todos os temas de todos os países; é a facilidade de viajar. Em sua face negativa, a globalização, com a Internet, é utilizada por indivíduos e por organizações criminosas para a prática de crimes nacionais e transnacionais (tráfico de drogas, de órgãos, de mulheres, pedofilia, etc).
32. A financeirização, que em grande medida é responsável pelo lento crescimento da produção, decorre, em primeiro lugar, do controle de empresas produtivas (industriais, comerciais, de serviços) por instituições financeiras (bancos, fundos de investimentos, fundos multimercados, fundos de pensão). Em segundo lugar, do investimento, por empresas produtivas, no mercado de capitais, fazendo com que parte das receitas totais das empresas passe a ser proveniente do setor financeiro o que torna essas empresas produtivas também rentistas e especuladoras. A economia passa a ser movida em parte pela busca, pelos gestores das empresas produtivas, de lucro financeiro a curto prazo e de oportunidades de especulação.
33. Há gigantescos fundos de investimento, como o Blackrock (7.5 trilhões de dólares), o Vanguard (6.2 trilhões), e o State Street (3 trilhões), que são proprietários de grande número de ações das maiores empresas do mundo, que estão listadas no Standard and Poor’s 500 - SP500. A Standard and Poor’s é uma das três maiores agências de classificação de risco do mundo. Sua credibilidade foi abalada (mas não definitivamente) quando classificou o Banco Lehman Brothers com a nota A até o dia em que o Lehman Brothers quebrou, 15 de setembro de 2008, detonando a crise financeira global. Esses fundos, através do controle que exercem sobre as diretorias de grandes empresas, influenciam suas políticas de investimento e pressionam pela recompra de ações dessas próprias empresas no mercado e pela ampla distribuição de dividendos (o que beneficia os fundos) de preferência à realização de investimentos de ampliação da produção.
34. A adoção parcial de políticas de mercado na China, e a consequente emergência de grandes empresas privadas, cria vínculos econômicos, comerciais e ideológicos entre os empresários dos setores privados da China e empresários dos países desenvolvidos, que procuram influir sobre a política econômica da RPC.
35. Na China há enormes conglomerados privados. De acordo com a Fortune Global 500, a China, em 2019, com 124 mega companhias tinha ultrapassado os EUA com suas 121 empresas, seguidos pelo Japão com 53, na lista de maiores empresas do mundo, de acordo com o faturamento. Segundo a Revista Forbes, há no mundo 2.095 bilionários, sendo 614 americanos e 456 chineses. Todavia, em cada grande conglomerado privado chinês há uma comissão do Partido Comunista encarregada de acompanhar as atividades da empresa e sua compatibilidade com os objetivos do planejamento do Estado, definidos pelo Partido.
36. A globalização, a financeirização, a automação e políticas de revogação de direitos trabalhistas que acarretam a precarização do trabalho têm agravado a concentração de renda (e de riqueza) e a disseminação e persistência da pobreza e da insegurança psíquica. 1% da população mundial se apropria de 20% da renda global enquanto os 50% mais pobres da população mundial recebem 9%.
37. Os salários médios reais dos trabalhadores nos Estados Unidos, centro da economia mundial, estão estagnados há 20 anos enquanto o nível de renda dos mais altos segmentos de sua força de trabalho aumentou de forma espantosa depois da crise financeira de 2008 e mesmo durante a Pandemia do Coronavírus em 2020. Relatório da Union des Banques Suisses/UBS sobre 2.000 bilionários que, em conjunto, representam 98% da riqueza total do grupo, mostra que suas fortunas cresceram mais de 25% nos primeiros meses da Pandemia, chegando a 10 trilhões de dólares em julho de 2020. A emergência de grandes fortunas e a concentração de renda ocorrem também na China e em países subdesenvolvidos, neste último caso com consequências ainda mais graves.
38. A queda da renda da massa de trabalhadores (e dos desempregados) reduz o consumo e, para “compensar” esta redução, o sistema financeiro aumenta a oferta de crédito para consumo, o que provoca falências individuais e gerais, como ocorreu na crise de 2008 em decorrência inicial da venda nos Estados Unidos de hipotecas a indivíduos cognominados “ninja”: o acrônimo de no income, no job, no assets.
39. O desenvolvimento tecnológico e da pesquisa básica se encontram no centro da estratégia dos grandes Estados na disputa econômica (e política) internacional.
40. As políticas tecnológicas desses Estados selecionam campos prioritários como energia renovável, cibernética, espaço, novos materiais, nanotecnologia, computação quântica, inteligência artificial, controle do espectro eletromagnético.
41. Os principais requisitos de êxito dos programas tecnológicos em campos altamente avançados são:
a. grande disponibilidade, de forma contínua, de recursos devido aos custos elevados dos equipamentos e de recrutamento de cientistas e à própria dimensão e extrema sofisticação das instalações;
b. capacidade de atrair talentos científicos de terceiros países;
c. capacidade de construir plantas-modelo para testar as inovações tecnológicas a serem introduzidas nas linhas de produção;
d. capacidade de fazer adotar as inovações surgidas do programa de desenvolvimento tecnológico no maior número de países para recuperar custos e “fidelizar” os sistemas produtivos desses países.
42. O hiato entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos e a dependência econômica desses últimos em relação aos primeiros tendem a se aprofundar assim como a se diferenciar radicalmente o estilo, níveis de vida e a gama de bens de consumo de suas classes de renda média e elevada.
43. A transformação digital, conceito mais amplo do que automação, é a substituição da força de trabalho em qualquer setor por máquinas comandadas por sistemas digitais (sensores, contadores, softwares, sistemas de acionamento mecânico, etc.) nas linhas de produção e a crescente substituição da força de trabalho, inclusive “intelectual”, por sistemas computadorizados.
44. A automação industrial será cada vez mais articulada pela Internet englobando os diversos elos das cadeias produtivas. A possibilidade de acionar, em tempo real, o funcionamento de cadeias inteiras através de sistemas eletrônicos, permitirá otimizar a eficiência e a produtividade. Este novo padrão de manufatura se beneficiará de avanços na robótica e na impressão em 3D. As máquinas em 3D ganharão capacidade cognitiva com base na Inteligência Artificial.
45. A tecnologia 5G terá grande impacto:
· na manufatura, em que novos modelos de produção estarão baseados na troca de informações entre objetos conectados, inclusive nas cidades “inteligentes”;
· no setor automotivo, onde haverá veículos autônomos e cooperativos;
· no setor de energia, com uma distribuição mais eficiente e sustentável;
· no setor de entretenimento, com conteúdo gerado por usuários;
· no setor de saúde, com serviços individualizados e virtuais, e cirurgias realizadas à distância por robôs;
· no setor de educação.
46. A escassez de mão-de-obra, apesar do desemprego, em relação ao capital assim como as características físicas dos processos de produção fazem com que os investimentos em pesquisa tecnológica nos países desenvolvidos deem ênfase à substituição de mão-de-obra por máquinas, com o objetivo de aumentar a produtividade (o lucro).
47. O maquinário “antigo” que vem a ser substituído por uma nova geração de máquinas mais eficientes nas linhas de produção, é “exportado” e instalado nas unidades de produção das megaempresas em países subdesenvolvidos, o que mantem o parque industrial dos países periféricos sempre defasado tecnologicamente e, portanto, não-competitivo, no mercado mundial. Esta circunstância torna imprescindível nos países subdesenvolvidos políticas em relação ao investimento industrial estrangeiro que estimulem os investimentos estrangeiros a utilizar tecnologia competitiva em nível mundial.
48. A crescente substituição da força de trabalho por máquinas acrescenta a situações de desemprego conjuntural um crescente número de trabalhadores desempregados estruturais devido à dificuldade de realocação de mão-de-obra, em especial a mais idosa, de atividades que foram automatizadas para outras. Dai surgem algumas, ainda que não todas, das propostas de renda mínima universal para garantir a demanda por bens gerados pela “nova” oferta. As consequências psíquicas para uma população em permanente desemprego que passa a viver de transferências governamentais são difíceis de avaliar com precisão mas dificilmente serão positivas tendo em vista a inexistência de hábitos “satisfatórios” de lazer para preencher o tempo “sem trabalho regular permanente”.
49. A questão é ainda mais grave nos países subdesenvolvidos, devido ao baixo nível de qualificação profissional e cultural de grande parte de sua população e ao fetiche da modernidade tecnológica na sociedade subdesenvolvida. Assim, o próprio Estado subdesenvolvido, em cuja economia há abundância de mão-de-obra, se deslumbra com a ideia de automação, de uso de máquinas, e a estimula como sinal de “modernidade”, o que contribui para eliminar empregos.
50. Aos fenômenos de transformação digital, de automação e de desemprego conjuntural e estrutural se soma a crescente precarização do trabalho devido às políticas de governos neo-liberais que, em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, investem contra os direitos dos trabalhadores, em termos de sindicalização, de horários de trabalho, de previdência, de assistência do Estado, e impondo contratos e condições de trabalho “flexíveis”.
51. A emergência e a militância violenta de movimentos de ultradireita, são financiadas por bilionários, como os irmãos americanos Charles e David ( falecido em 2019) Koch cuja fortuna conjunta seria superior a 100 bilhões de dólares, com negócios em 60 países e mais de 100 mil empregados. Os Koch financiaram e financiam as campanhas de candidatos políticos conservadores, as atividades de centros de estudo e cátedras universitárias que têm como objetivo demonstrar a incapacidade do Estado de regular a atividade econômica e de redistribuir renda; e impedir qualquer tentativa do Congresso americano de impor limite ao enriquecimento e de ampliar a ação social do Estado.
52. Esses movimentos de ultradireita afetam de modo importante o sistema político dos países desenvolvidos e dos países em desenvolvimento. O uso das técnicas de identificação de “perfis” de eleitores, de manipulação de notícias, de divulgação maciça de notícias falsas (fake news), de impulsionamento de mensagens por robôs visa alterar os processos eleitorais em favor de candidatos de direita. A Internet foi utilizada por esses movimentos de direita para influenciar eleições, o que teria ocorrido nos Estados Unidos com Donald Trump, no Reino Unido com o BREXIT e no Brasil nas eleições de 2018. A empresa pioneira nesta utilização teria sido a Cambridge Analytica, com a cooperação de megaempresas como Google e Facebook, que teriam fornecido dados pessoais para definir “perfis” de eleitores e organizar propaganda dirigida e personalizada para “grupos afins”, inclusive com intenso uso de robôs.
53. A emergência da ultradireita é acompanhada de uma atitude anti-ciência, de um renovar de preconceitos, como a crença religiosa no criacionismo e no terraplanismo que, no Brasil, teria cerca de 20% de seguidores, e da defesa militante de medidas legislativas de retrocesso social e cultural como a educação na família (homeschooling), promovido por organizações e seitas religiosas, muitas vezes neopentecostais, em relação a direitos de mulheres, de negros e de outras minorias, estimuladas e apoiadas por dirigentes políticos de direita.
Visões sobre o sistema internacional
54. Antes de examinar as origens e as causas da grave situação política, econômica e social do Brasil e as perspectivas de sua evolução no contexto da competição e do confronto entre a República Popular da China e os Estados Unidos da América, é importante passar uma vista d’olhos sobre algumas possíveis visões de como se organiza o mundo.
55. É a partir de uma visão do mundo que se pode definir uma estratégia interna e externa para o Brasil, estratégia que será tanto mais eficiente quanto mais próxima da realidade a visão do mundo adotada.
56. Há diversas visões sobre o funcionamento do sistema internacional, onde os fenômenos acima apresentados interagem, e sobre os principais atores desse sistema. A apresentação aqui feita é sumária e não faz jus às nuances e à sofisticada apresentação de seus defensores.
57. A primeira visão afirma que o sistema internacional é um sistema de relações entre Estados nacionais já que, apesar da existência de outros atores, os Estados são os principais e fundamentais atores do sistema, devido a suas características:
a. os Estados têm reconhecimento internacional, conferido pela Carta das Nações Unidas, tratado que estabeleceu os princípios das relações internacionais, aceitos por todos os Estados;
b. cada Estado é soberano em seu território, definido por fronteiras reconhecidas pelos demais Estados, onde vige a lei de seu sistema político e não a de outros Estados, por mais poderosos que estes sejam;
c. a crescente intensidade e complexidade das relações entre Estados, organizações, empresas e indivíduos que agem em diferentes territórios torna necessários, para regular seus direitos e deveres, acordos entre os Estados que são as únicas entidades capazes de incorporar o que tiver sido acertado nesses acordos a seu ordenamento jurídico interno e fazer cumprir os compromissos assumidos;
d. nenhum dos outros atores que participam do sistema internacional possui esses atributos.
58. Uma segunda visão diz que, além dos Estados, o sistema internacional moderno, que emergiu nos Séculos XV e XVI, em especial após a Descoberta das Américas, tem sido organizado por Impérios, que exercem sua hegemonia (e seu Poder) sobre uma grande extensão territorial e população, dependendo do nível econômico e tecnológico de cada época.
59. Um Império é a organização política, militar e econômica de vastos territórios por um Estado mais poderoso que se é sua Metrópole. Este Estado é o construtor e beneficiário desse sistema imperial.
60. Os Impérios, desde a Antiguidade até os tempos modernos, sempre tiveram como seu objetivo a organização da produção nos territórios, conquistados pela força ou submetidos pela influência econômica, política e ideológica, e a construção de mecanismos para transferir bens acumulados e bens neles produzidos para a Metrópole, isto é, para benefício das classes hegemônicas de suas Metrópoles e, marginalmente, das demais classes sociais.
61. Os Impérios lutam entre si e contra outros Estados pela posse de territórios onde há recursos importantes ou que são fontes de renda para as Metrópoles ou por territórios que são estratégicos para a proteção das vias de comércio ou de passagem militar entre a Metrópole e suas Províncias ou para a proteção dos territórios do Império.
62. Uma terceira visão afirma que o motor do sistema internacional é a luta política e ideológica entre, de um lado, as sociedades e Estados que são organizados de acordo com uma visão e modelo capitalista da economia e democrática liberal do Estado e, de outro lado, como seus opositores, as sociedades e Estados que são organizados de acordo com uma visão e modelo comunista/socialista da economia e uma visão autoritária do sistema político. Este seria o embate fundamental que permearia e se refletiria em todas as manifestações das demais visões do sistema internacional e em cada disputa internacional específica.
63. Uma quarta visão considera que o sistema mundial é formado por unidades políticas independentes, os Estados, que se relacionam em um “sistema-mundo” capitalista. Neste sistema-mundo não haveria um centro político, como nos antigos e novos impérios, mas sim um centro capitalista, uma semi-periferia e uma periferia. O centro capitalista, de elevado desenvolvimento econômico e tecnológico, produz bens complexos; a periferia fornece matérias primas e mão-de-obra para o centro e para os Estados da semi-periferia, obedecendo a uma divisão internacional do trabalho. As unidades que integram a economia-mundo capitalista apresentam grandes diferenças de nível de desenvolvimento econômico e social, e de poder político e militar, mas não existe um Império.
64. Uma quinta visão considera que o sistema internacional tende a ser multipolar (com períodos de unipolaridade) em um processo em que grandes Estados organizam em torno de si Estados menos poderosos política, econômica e militarmente, formando polos. Nesses polos não haveria necessariamente processos de exploração dos Estados menos poderosos pelos grandes Estados. Assim, as relações internacionais seriam entre polos, entre grupos de Estados. Daí a concepção defendida em certos círculos acadêmicos e diplomáticos periféricos da importância para os Estados periféricos da estratégia de construção política de um mundo multipolar.
65. Uma sexta visão entende que o sistema internacional se caracteriza pelo choque de civilizações. Deste choque participariam, de um lado, a civilização ocidental, judaico-cristã, desenvolvida, capitalista, democrática, individualista, que se confrontaria com civilizações de valores distintos, como a civilização árabe/muçulmana, a civilização russo/ortodoxa, com longa história de confronto com a civilização ocidental, e a antiga civilização chinesa que, sob a forma política de República Popular da China, se encontra em rápida e sustentada ascensão econômica e política desde 1978. Há civilizações, como a latino-americana e a africana, que tiveram menor importância e relevância na História e na atualidade deste “Choque de Civilizações”.
66. As civilizações não estão organizadas formalmente como tais para sua atuação internacional porém os Estados que consideram que fazem parte de uma determinada civilização tendem a se articular em organismos como a União Africana, a Liga dos Estados Árabes, a União Europeia, o G7, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE, para agirem de forma coordenada em suas ações internacionais.
67. Uma sétima visão do sistema afirma que as megacorporações multinacionais (MNCS) são maiores, e até bem maiores, do que muitos Estados em termos de dimensão de produto e do número de trabalhadores/funcionários que empregam. Ademais, têm elas âmbito geográfico de ação e influência muito maior do que a maioria dos Estados e, portanto, seriam elas atores mais importantes no sistema internacional do que a maioria dos Estados.
68. Esta visão é importante na medida que, dado o seu poder econômico (e dos países onde têm sua sede), as megacorporações influenciam as atividades do Legislativo, do Executivo e do Judiciário dos Estados, em especial daqueles menos poderosos. Exercem sua influência até sobre o Legislativo, Executivo e Judiciário da Metrópole do Império, os EUA, para que aprovem legislação, executem programas, tomem decisões judiciais, executem ações internacionais que lhes sejam favoráveis. Todavia, nenhuma empresa ou grupo de empresas multinacionais pode assumir compromissos internacionais sob a forma de acordos e em decorrência elaborar “leis” a vigorar em territórios de Estados e a força para implementá-las e punir os que as violem.
69. Uma oitava visão do sistema internacional afirma que está havendo um processo de financeirização da economia pelo qual os megabancos e fundos de investimento passaram a ser proprietários das grandes empresas produtoras de bens. Ademais, o Fundo Monetário Internacional/FMI tem forte influência sobre a política econômica e, em consequência, sobre a situação e a ação política dos Estados, em especial daqueles mais vulneráveis e subdesenvolvidos. Em consequência, os bancos (e a seu lado o FMI) teriam influência em todos os Estados e seriam os principais atores do sistema internacional, mais importantes do que os Estados. Nos Estados Unidos uma decisão da Suprema Corte eliminou as restrições para as contribuições financeiras privadas e a influência do poder econômico sobre a política se tornou, portanto, ilimitada. A título de exemplo, os 1% dos 1% dos indivíduos mais ricos dos Estados Unidos contribuíram com 40% do total das doações às campanhas dos candidatos presidenciais em 2016, Donald Trump e Hillary Clinton.
70. Todavia, da mesma forma que as megacorporações multinacionais, o que, aliás, os grandes bancos também são, estes últimos, cada um deles ou como um grupo, não têm capacidade de elaborar normas para a sociedade como um todo, e nem mesmo normas para regular ainda que seja somente o setor financeiro, a capacidade jurídica e política de implementá-las e de punir quem não as cumprir. A elaboração e a imposição de normas são feitas pelo sistema político, sobre o qual os bancos têm grande influência, mas não são dele os atores principais.
71. Uma nona visão afirma a existência e a importância de um grupo denominado Bilderberg, que é o nome do hotel na Holanda onde este grupo se reuniu em 1954 pela primeira vez. Este grupo, integrado por grandes empresários, poderosos políticos e famosos acadêmicos de 18 nações que dele participam a título pessoal, teria como seu objetivo, inicial, promover o “atlantismo”, o estreitamento das relações entre a Europa e os Estados Unidos. Afirma esta visão que o Grupo Bilderberg “dominaria” a economia e a política mundiais e se reuniria periodicamente para analisar a situação mundial, fixar objetivos, executar ações e influir sobre os Governos dos principais Estados. Este grupo, apesar do prestígio e influência de seus integrantes, não tem capacidade jurídica nem poder político para elaborar leis, nem para negociar acordos internacionais, nem para implementá-los.
72. Uma décima visão afirma que, com a derrota do comunismo em 1991, e a desintegração da União Soviética, os comunistas teriam decidido se infiltrar nos organismos culturais das sociedades democráticas e capitalistas, tais como universidades e meios de comunicação, para propagar suas ideias e assim dominar o sistema político e econômico dos países ocidentais. Este seria o “marxismo cultural”, que se teria iniciado na Escola de Frankfurt, na Alemanha.
73. Essa teoria é cara à extrema direita que se organiza através de fundações e ONGs que são financiadas, em especial por bilionários americanos, que as criam para dar combate ao “marxismo cultural”. Há um movimento que reúne diversos partidos de extrema direita, principalmente na Europa, que seria coordenado por Steve Bannon, estrategista da campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos em 2016 e próximo à família Bolsonaro, no Brasil, a qual se orienta, também, pelas opiniões de Olavo de Carvalho.
* * *
74. As classes hegemônicas surgiram em lutas de longa duração pelo domínio de territórios e neles organizaram o sistema econômico de produção, o sistema político e as estruturas administrativas/políticas de agências públicas que, em seu conjunto, hoje se denominam Estados.
75. Os Estados nacionais não são os únicos mas são os principais atores do sistema internacional em qualquer das visões acima descritas. Somente eles tem o poder soberano sobre as pessoas físicas (indivíduos) e as pessoas jurídicas (empresas, entidades) que se encontram de forma permanente ou temporária nos territórios que dominam e em seus territórios elaborar a lei, exigir seu cumprimento pelo monopólio da força que detém, e dirimir os conflitos.
Em carta aberta, generais aposentados dos EUA dizem que Biden leva país em "direção ao socialismo"

Sputnik - Militares aposentados dos EUA publicaram uma carta aberta expressando que o presidente Joe Biden está levando o país "em direção ao socialismo".A carta aberta dos ex-oficiais norte-americanos foi publicada na segunda-feira (10), segundo aponta o site Huffington Post, que afirma que a mensagem causou polêmica nos EUA e colocou militares da ativa e da reserva em modo de "alerta".
"A condição mental e física do comandante-em-chefe [Biden] não pode ser ignorada. Ele deve ser capaz de tomar rapidamente decisões precisas sobre segurança nacional envolvendo a vida e a integridade em qualquer lugar, durante o dia ou à noite", diz a carta, levantando dúvidas sobre o atual ocupante da Casa Branca.
Os autores da carta afirmam ainda que os EUA lutam pela sobrevivência como república constitucional e se encontram atualmente em profundo perigo. Além disso, o grupo ecoa a ideia de que Biden não venceu as eleições de forma justa, uma acusação levantada pelo ex-presidente Donald Trump - que foi derrotado pelo democrata nas eleições presidenciais.
Citando uma "forte guinada à esquerda", a carta alerta para um suposto conflito entre apoiadores do socialismo e do marxismo contra defensores da liberdade constitucional nos EUA.
"Sob um Congresso democrata e a atual administração, nosso país deu uma forte guinada à esquerda em direção ao socialismo e a uma forma marxista de governo tirânico que deve ser combatida agora pela eleição de candidatos ao Congresso e à Presidência que sempre agirão em defesa de nossa república constitucional. A sobrevivência de nossa nação e de suas prezadas liberdades e valores históricos está em jogo", acrescenta o texto.
Os ex-militares conclamaram os cidadãos norte-americanos a se envolverem em todos os níveis para eleger os políticos que agirão para salvar a nação e responsabilizar os que estão atualmente no comando do país.
"Nem Goebbels, na loucura do nazismo, teve tanto poder quanto Wajngarten atribuiu-se ridiculamente", diz Merval

247 – "Chega a ser patética a falha do ex-secretário de Comunicação ao garantir que nunca discutiu nenhuma campanha com o presidente Bolsonaro. Deu-se um poder que nenhum secretário de Comunicação tem, nem mesmo no menor município do país. Uma secretaria de Comunicação existe para explicar aos cidadãos a política do presidente da República, que guia as ações de um governo. Nem Goebbels, na loucura do nazismo, teve tanto poder quanto Wajngarten atribuiu-se ridiculamente", escreveu o jornalista Merval Pereira, em sua coluna no Globo.
"Que o ex-secretário de Comunicação de Bolsonaro Fabio Wajngarten mentiu na CPI da Covid, disso não há dúvida", escreveu ainda o jornalista. Ele citou como exemplo uma campanha de volta ao trabalho — “O Brasil não pode parar”—, claramente negacionista, feita pela Secom, em contraposição ao depoimento do ex-secretário, que se apresentou como um seguidor da ciência e favorável às medidas de prevenção, como o distanciamento social.
Destruição do serviço público é a base da reforma administrativa de Bolsonaro, diz Paulo Pimenta

Sputnik - O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) afirma que mudanças propostas por Guedes na reforma administrativa visam justificar a destruição do serviço público. Ao participar de uma audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados em Brasília nesta terça-feira (11), o ministro da Economia Paulo Guedes defendeu a avaliação periódica e a redução das possibilidades de estabilidade dos servidores públicos, previstas no âmbito da reforma administrativa. O projeto foi enviado pelo governo ao Congresso no ano passado e propõe mudanças nas regras para o funcionalismo público federal, de estados e municípios.
Para Guedes, a reforma, que avançou pouco na Câmara até agora, estabelece o que ele classifica como a "meritocracia" no serviço público.
"Nós queremos avaliação pela qualidade do serviço público, carreiras meritocráticas e planos de vida. Os jovens no serviço público pensando em melhorar, receber aumentos meritocráticos, conquistar estabilidade por bons serviços", disse.
Ao defender seu argumento, o ministro alegou que mais de 90% dos servidores públicos têm estabilidade no Brasil, enquanto em outros países essa cifra não chega a 5%. "Nós não queremos tanto, nós só queremos que haja avaliações para o ganho da estabilidade", afirmou.
Além disso, Guedes assinalou que se trata de uma reforma "moderada", que não atinge os atuais servidores, e prevê apenas que parte dos novos funcionários públicos sejam contratados sem estabilidade, que ficará restrita aos integrantes das chamadas carreiras típicas de Estado, como auditores fiscais e delegados da Polícia Federal, e também exclui militares e os membros de poderes, como juízes, promotores e políticos.
Para o ministro da Economia, a reforma é uma questão de "sobrevivência financeira", inclusive para estados e municípios. Além disso, Guedes argumenta que, se nada for feito, os salários ficarão ameaçados.
"Se nada for feito, o que vai existir é uma ameaça aos atuais salários. Foi a mesma coisa da reforma da Previdência, que foi para garantir o pagamento das previdências futuras. Muitos estados estão com dificuldades, atrasaram pagamento de aposentadoria, salários. Não é uma questão de ideologia, é uma questão de sobrevivência financeira", opinou.
O titular de Economia do governo Bolsonaro também aproveitou a audiência para criticar os governos anteriores, alegando que os mesmos utilizavam a contratação de servidores como uma forma de aparelhamento do Estado.
"Nós poderíamos estar aqui [...] abrindo concurso público e botando uma porção de gente para dentro para aparelhar o Estado, para termos bastante militantes trabalhando para nós no futuro. Não estamos pensando assim. Nós queremos transformar o Estado brasileiro em um Estado servidor", afirmou o ministro.
Por fim, após quase quatro horas de audiência, a presidente da comissão, Bia Kicis (PSL-DF), encerrou a sessão de forma abrupta, sob protestos dos parlamentares da oposição, pois ainda havia vários deputados inscritos para fazerem perguntas ao ministro.
Em entrevista à Sputnik Brasil, o deputado opositor Paulo Pimenta (PT-RS) afirma que o governo Bolsonaro faz um discurso com ataques direcionados ao servidor público, como as críticas a uma suposta ineficiência por conta da estabilidade e de outros benefícios que o governo classifica como "privilégios", como estratégia para desviar a atenção da opinião pública de outras questões importantes que estão no projeto de reforma administrativa.
Pimenta ressalta que o governo quer reescrever questões fundamentais que estão na Constituição de 1988, como, por exemplo, o dispositivo que estabelece que a iniciativa privada atuará de forma suplementar e complementar, em locais onde o poder público não consiga prestar o serviço, e inverte essa lógica, dizendo que os estados, os municípios e a União atuarão de forma complementar e suplementar onde a iniciativa privada não der conta.
"Então, isso muda completamente a relação. O Estado brasileiro [...] passará a atuar de maneira subsidiária ao papel exercido pela iniciativa privada, subvertendo o papel do Estado. Por isso, o governo prefere fazer um embate com os servidores, quando, na realidade, o prejuízo maior para o cidadão chegará exatamente pela destruição da estrutura que hoje existe e que é tão importante, especialmente para aquelas pessoas que mais precisam", opina o deputado petista.
Além disso, Pimenta afirma que o discurso do governo busca estabelecer uma relação de hostilidade, de intimidação e de perseguição do servidor público como forma de legitimar a desconstrução de um serviço que tem uma história positiva, especialmente nas áreas em que a população brasileira mais necessita, como saúde, segurança e educação.
"Nós temos acompanhado inúmeras situações de servidores do Ibama, das universidades, da Receita Federal, que têm sido perseguidos simplesmente por terem uma orientação, uma opinião, que difere da opinião principal do governo. Você imagina todos esses servidores sem ter alguma garantia funcional, sem ter uma estabilidade funcional, ficando à mercê da orientação ideológica de um governo que muda a cada quatro anos", analisa.
Para conseguir seus objetivos, Pimenta avalia que o governo exerce uma pressão muito grande, utilizando "métodos absolutamente ilegais, criminosos, para estabelecer uma maioria parlamentar em troca de benesses, de recursos, de cargos, de emendas não impositivas", e, com isso, tentar aprovar agora a reforma administrativa, exatamente para se preservar para o ano que vem, que é um ano eleitoral.
"É verdade que traz desgaste para o governo fazer isso [reforma administrativa] em um ano pré-eleitoral, mas esse desgaste seria muito maior no ano da própria eleição. Então, eles vão tentar votar agora para poder ter um prazo, até o ano que vem, de outras pautas estarem na centralidade da mídia e eles se sentirem preservados. Então, todo o esforço do governo vai ser para votar agora, durante a pandemia, e o mais longe possível da eleição", analisa Pimenta.
Na opinião do deputado oposicionista, mesmo com a mobilização das comunidades, será uma disputa muito dura e muito acirrada, pois se trata de uma questão prioritária para o governo. "Evidentemente, caberá à sociedade criar mecanismos de mobilização, de constrangimento aos parlamentares, para que essa reforma não seja aprovada", conclui o parlamentar.
China reivindica mais espaço na mídia internacional

247 - A China, a segunda maior economia do mundo, o maior país em desenvolvimento com 1,4 bilhão de habitantes, quase um quinto do total mundial, com uma civilização ininterrupta de 5.000 anos, é merecedora de um lugar na cobertura mediática internacional, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying .
Ela fez essas declarações na terça-feira (11), em uma coletiva de imprensa, quando solicitada a comentar uma recente reportagem da mídia americana segundo a qual a China está criando uma alternativa à mídia noticiosa global, dominada por veículos como a BBC e CNN, e inserindo dinheiro, poder e a perspetiva chinesa em quase todos os países do mundo.
"O mundo é um lugar diverso. No setor da mídia, em vez de haver apenas a CNN e a BBC, os países deveriam ter suas próprias vozes", disse Hua, segundo o Diário do Povo.
Devido à diferença nos sistemas, os meios de comunicação em diferentes países operam de maneiras diferentes. Ao avaliar se uma organização de mídia é profissional, o mais importante a se referir é se ela segue a ética do jornalismo, a objetividade e a justiça em suas reportagens, acrescentou ela.
"Eu observei que o Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA aprovou a Lei de Competição Estratégica de 2021, que autoriza a alocação de $300 milhões para cada ano fiscal para 'conter a influência maligna do Partido Comunista Chinês globalmente'", disse Hua, enfatizando que a mídia chinesa faz a cobertura de forma objetiva e nunca inventa ou dissemina desinformação visando outros países.
Hua disse que a Agência de Notícias Xinhua é uma agência de renome mundial com quase 90 anos de história. Seguindo as regras habituais de operação, ele fornece serviço de notícias confiável e profissional a usuários globais. Sua cooperação com outras agências de notícias não é diferente da AP, Reuters, AFP, Kyodo, entre outras.
"Ninguém pode privar a mídia chinesa como a Xinhua de seu direito de intercâmbio e cooperação só porque é da China, um país socialista. Acusar a Xinhua de se envolver em intercâmbios e cooperação com outras agências apenas com base nisso consiste num viés ideológico e discriminação política ", disse.
Hua observou que é uma completa distorção dos fatos acusar a China de suprimir a mídia estrangeira e negar vistos a jornalistas norte-americanos.
Ela disse que, "após o surto de Covid-19, fizemos o que pudemos para superar as dificuldades e ajudar os correspondentes americanos na China e suas famílias retidas no exterior a regressar à China. Mesmo que os EUA se recusem a conceder a prorrogação de visto a jornalistas chineses, nós oferecemos apoio e assistência aos jornalistas americanos que trabalham na China, como a todos os jornalistas estrangeiros. Suas reportagens aqui não foram afetadas".
Ao abusar da hegemonia do discurso, os EUA lançaram um ataque de desinformação à China sob o pretexto da liberdade de mídia. Nesse sentido, os EUA estão deixando a ideologia substituir os princípios de objetividade e autenticidade, justificando sua manipulação política com a repressão da mídia chinesa por meio da difamação, disse Hua.
"Diante de mentiras e rumores difamatórios, é natural que façamos com que nossa própria voz seja ouvida", disse Hua, acrescentando que a China explicou a verdade e os fatos sobre muitas questões importantes, incluindo a Covid-19, para assegurar uma narrativa objetiva e direta na memória humanidade.
"A isso chamamos de atitude responsável de um país responsável", disse Hua.
O falso testemunho | Míriam Leitão - O Globo

Pegue-se de qualquer ponto o depoimento que o ex-secretário Fabio Wajngarten deu à CPI e é possível encontrar uma inconsistência. Foi tanta mentira e contradição que, durante a tarde, instalou-se uma discussão entre o presidente Omar Aziz e o relator Renan Calheiros. O relator queria prender. O presidente, não. Renan temia a desmoralização, Aziz disse que estava salvando a CPI. A prisão faria a Comissão Parlamentar escalar o grau de conflito. A não prisão daria a qualquer um o direito de mentir ali. Cada um dos dois tinha um ponto, não era fácil decidir. Senadores que a coluna ouviu acham que era caso de prisão. O senador Alessandro Vieira, que é suplente, quando acabou de interrogá-lo e pegar novas contradições, concluiu:
— Eu apenas reforço, e pode ser uma tendência desta comissão. Não há nisso ameaça. Há um justo alerta à testemunha. Cabe ao senhor presidente determinar se é o caso de prisão em flagrante por mentir à CPI. Essa decisão será constante. É impressionante vir aqui e agir com essa desfaçatez.
Wajngarten negou que tivesse dito à “Veja” que foi incompetência do Ministério da Saúde. A “Veja” postou o áudio em que ele dizia “incompetência, incompetência”. A senadora Leila o colocou para ser ouvido. Ele disse que fez 11 campanhas vinculadas à pandemia. O senador Humberto Costa mostrou que algumas eram para estimular as pessoas a saírem para as ruas. O senador Tasso Jereissati perguntou sobre a campanha “O Brasil não pode parar”. Ele alegou desconhecimento, dizendo que em março do ano passado estava em casa com covid. Na época, deu entrevista a Eduardo Bolsonaro dizendo que de casa continuava trabalhando e aprovando campanhas.
“Eu sou uma prova viva de que mesmo testado positivo, a vida segue normal, tenho feito calls com ministros, com a Secom, tenho aprovado campanha, tenho conversado com os criativos das agências. Então a vida segue”, disse ele ao filho do presidente. Terminou dizendo que a pandemia não era essa “agonia que uma parte da mídia anda veiculando”.
Wajngarten entrou em contradição até com o que disse durante o depoimento. Afirmou que não negociara com a Pfizer. Repetiu várias vezes para o senador Renan Calheiros que apenas fizera três contatos, para ajudar o Brasil a ter “a melhor vacina do mundo”. Depois, relatou diálogos próprios de negociação. Disse, por exemplo, que em determinado momento eles ofereceram apenas 500 mil doses:
— Eu disse a eles que isso é menos do que um bloco da Avenida Paulista e que a conversa não continuaria se eles não mudassem de postura. Vi que havia um espaço para negociação.
Ao falar das cláusulas “leoninas” do contrato da Pfizer que justificariam o que ele mesmo denunciara como incompetência, ou seja, o atraso no acordo com a farmacêutica, ele disse que consultara o jurista Ives Gandra, pai, para saber o que era o contrato de adesão. E que Gandra dissera que isso jogaria toda a responsabilidade sobre o governo brasileiro, por eventuais efeitos adversos. Ao senador Alessandro Vieira, ele contou que falou sim com Ives Gandra, mas apenas “ontem” (terça-feira).
— Então, o senhor apontou que esse foi o motivo para não comprar a vacina, mas só ontem o senhor ficou sabendo disso com o Gandra? — perguntou Vieira.
— Eu não o conhecia.
O que houve foi o seguinte. Numa briga interna do governo, Wajngarte desentendeu-se com o marqueteiro do general Pazuello, conhecido como Markinhos Show. Pazuello, ao sair, insinuou que houve gente querendo “pixulé” na compra de vacinas. Wajngarten então deu a entrevista à “Veja” atacando o Ministério da Saúde. Chamado à CPI, foi com a missão de blindar o presidente e sem compromisso de dizer a verdade, apesar da obrigação legal de fazê-lo. Que ele mentiria ficou claro logo no início, quando o senador Renan Calheiros perguntou que impacto tinha, na opinião pública, aquela sucessão de falas “estapafúrdias” do presidente contra a vacina e a favor de aglomeração. Wajngarten, que se apresentara como especialista em análise de dados na área da comunicação, soltou a frase: “Não sei qual o alcance de uma fala presidencial.” Era mentira, evidentemente. O que seria um dia a favor do governo acabou virando contra pelo volume das falsidades. Por isso o senador Flávio Bolsonaro desembarcou na comissão. Para criar conflito. Foi quando chamou Renan de “vagabundo”. O depoimento foi enviado ao Ministério Público.
O Twitter não perdoa quem não é extremista
Minha conta do Twitter foi bloqueada há três semanas, e não estou sentindo a mínima falta. Foi assim: um belo dia acordei, tentei fazer login e fiquei sabendo que não podia entrar. “Detectamos uma atividade incomum em sua conta”, disse o Twitter. “Para protegê-la, por favor altere sua senha antes de entrar novamente”. O problema é que para trocar a senha é preciso fazer login, mas o Twitter não me deixa fazer login porque houve uma “atividade incomum” na conta. Tostines vende mais porque é mais fresquinho, ou é mais fresquinho porque vende mais?
No fim acabei encontrando um formulário onde precisei explicar o que havia acontecido e, na sequência, recebi uma resposta automática pelo e-mail: “Olá, estamos analisando seu recurso. Responderemos assim que possível e agradecemos a sua paciência enquanto analisamos a sua conta”.
Abri uma conta fake para poder ver a conta de verdade pelo lado de fora. Tudo calmo. A conta continua lá, intacta, com seus 200 mil seguidores, sem qualquer atividade incomum — até porque, há alguns meses, não registra praticamente atividade alguma, nem comum nem incomum.
Desisti de frequentar o Twitter no fim do ano passado, quando fui parar no hospital com uma inflamação. Não precisei ficar internada, felizmente, mas me senti muito mal e muito frágil, incapaz de lidar com a violência do cotidiano da rede.
Já me bastavam a pandemia, o isolamento social e o governo.
Eu estava sem saúde para andar naquele terreno minado e para ver os meus amigos mais atuantes sendo linchados rotineiramente. Ondas de rancor e de ressentimento vindas de todos os lados, verdadeiras tsunamis de ódio, impedem qualquer diálogo.
O Twitter estraçalha quem é politicamente incorreto, quem não é e, sobretudo, quem enxerga além da ideologia e ousa criticar políticos.
O Twitter massacra quem não pensa de acordo com as linhas previamente estabelecidas pelo partido, pela igreja, pelo governo, pela torcida do BBB, pelos robôs, pela chefia dos robôs.
Ontem mesmo todos nós rimos com os indianos que tomam banho de esterco contra a Covid, mas somos iguais. Temos um panteão de vacas sagradas que não podem ser perturbadas, e mergulhamos o cérebro e o coração no esterco das suas palavras.
-----
Eu disse lá em cima que não estou sentindo a mínima falta, mas não é bem assim. Confesso que, de novembro para cá, senti, algumas vezes, uma vaga vontade de voltar. Compartilhei meia dúzia de posts que me pareceram relevantes, mas fiquei de fora, como quem fica às margens de um rio infestado de piranhas sem coragem de molhar o pé.
A rede é fervilhante e informativa. No Twitter o número de seguidores aumenta de acordo com a atividade e o engajamento — ao contrário do Facebook, que cada vez mais sufoca o crescimento orgânico e impede a circulação das páginas (e ainda vai acabar morrendo disso).
O Twitter está vivo e, quando não há ninguém sendo esfolado, é um lugar até estimulante; mas formigueiros e lagoas cheias de crocodilos também são lugares cheios de vida, e nem por isso a gente se joga.
Cancelamento de exposição homoerótica levanta debate sobre censura nas artes

Na última semana, a dois dias de iniciar a montagem da exposição "Suaves brutalidades", que havia sido selecionada por um edital público do Banco da Amazônia, em Belém, no Pará, o artista visual Henrique Montagne Figueira foi avisado, em reunião convocada por dois gestores da instituição, que a mostra precisaria ser cancelada.
O motivo para a não realização da exposição com obras de temática LGBT, segundo os representantes do Banco da Amazônia, tem a ver com medidas de restrição relacionadas à pandemia de Covid-19, embora outros trabalhos permaneçam confirmados na agenda do espaço cultural na sede do banco, no bairro de Campina, em Belém.
"Suaves brutalidades" reuniria desenhos, fotografias, instalações, esculturas e vídeoartes sobre as relações afetivas na contemporaneidade, com ênfase nos "prazeres e violências experienciados na relação entre homens", como descrito no texto de divulgação do projeto.
Cancelamento não foi formalizado
Na ocasião em que foi chamado ao local para ouvir a informação, o artista não recebeu nenhum documento com a formalização do cancelamento. Dias antes, ele havia enviado o release sobre a mostra para o banco, que alegou, de acordo com o artista, que precisaria encaminhar o arquivo para a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), vinculada ao governo federal.
— Fui pego de surpresa. Como me disseram que o problema era a pandemia, tentei apresentar soluções para montar uma exposição virtual, mas ouvi que não havia mais interesse. Senti que estava indo para o abate naquela reunião — conta o artista. — Não posso afirmar que haja censura. Mas fica no ar a pergunta: afinal, por que não me ofereceram outras datas para que a exposição fosse montada depois?
Montagne lembra que, em março, período em que as restrições de circulação em Belém estavam mais rigorosas, no bandeiramento vermelho , outras exposições aconteceram normalmente no espaço cultural do Banco da Amazônia, instituição que tem a União como acionista majoritário. Hoje, o lockdown não segue em vigor na cidade, e as medidas de restrição foram flexibilizadas.
Procurada pelo GLOBO, a assessoria de imprensa do Banco da Amazônia negou que o cancelamento tenha sido motivado por censura a obras de cunho LGBT. "Qualquer indução nesse sentido é manifestamente equivocada", esclareceu a instituição por meio de nota, ressaltando que "repudia qualquer conduta discriminatória".
O Banco da Amazônia afirma que a Secom havia aprovado projeto, e que o órgão não influenciou a suspensão da exposição. "O caso em referência se dá unicamente diante da necessidade de adoção de medidas de restrição à circulação de pessoas em espaço restrito e atende ao esforço comum para o combate à disseminação do vírus que deflagrou o estágio de pandemia no mundo".
Artista está endividado
O artista, que esperava receber o valor do prêmio — R$ 25 mil, como consta no edital — após montar a exposição, hoje está com uma dívida de R$ 14 mil, contraída para a produção das obras, muitas delas com impressão em fine art. O banco informa que o recurso continuará retido, pois "o edital estabelece que a garantia do patrocínio e do desembolso se dará somente a partir da formalização de instrumento contratual, o que não ocorreu".
Ao lado de um advogado, Montagne formalizou uma notificação judicial solicitando um esclarecimento formal sobre o processo de cancelamento da exposição.
— O que vemos é uma postura antirepublicana. O ato tem que ser feito às claras. O evento foi cancelado numa reunião privada, e isso causa estranheza. E por que o release sobre a exposição precisou ser enviado para a Secom, se isso não estava determinado no edital? — questiona o advogado Ivan Borges Sales, à frente do caso. — O mais importante, para nós, é entender o motivo de o poder público tomar decisões sem a publicização dos critérios que embasam os julgamentos.
Caso lembra 'Queermuseu'
O episódio lembra a polêmica ao redor da exposição "Queermuseu", cancelada antes da data prevista no Santander Cultural, em Porto Alegre, em 2019, e vetada pelo poder público municipal do Rio, sob acusações de promover "pedofilia, zoofilia e blasfêmia".
A época, após as suspensões da exposição, a reação de artistas em prol da mostra resultou num financiamento coletivo recorde (mais de R$ 1 milhão). Graças a isso, a montagem foi garantida em terras cariocas, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Jardim Botânico.
Qual vacina para Covid você conseguiu tomar? | Ruth de Aquino - O Globo
Por Ruth de Aquino

Há um ano, a conversa era assim: “Você está confinado em casa? Cuidado com o elevador, as maçanetas, os sacos plásticos. Seu álcool gel é eficiente?” Três meses depois: “Sua máscara é cirúrgica e descartável ou feita em casa? Bloqueia o contágio? Experimentou soprar por dentro para ver se a vela apaga?” Seis meses depois: “Fez teste PCR, sorológico ou o rápido de farmácia?”
Agora, ninguém escapa da pergunta: “Qual vacina você tomou?” Coronavac não é aceita na Europa nem nos EUA. Astrazeneca tem efeitos colaterais e precisa de três meses até a segunda dose. Pfizer é padrão ouro, a mais eficaz e aprovada. Janssen é dose única. No mundo civilizado, a conversa evoluiu: “Vale misturar vacinas diferentes, de vírus ativo e inativo?” E já ouvimos: “Fez o exame de anticorpos neutralizantes para saber se está imunizado?”
A um oceano de distância do Brasil, em Paris, há disponibilidade de Pfizer, Moderna e estou inscrita para me vacinar com a Janssen no farmacêutico da esquina, que me atende há vinte anos. A Astrazeneca encalha na França, por medo dos coágulos e excesso de opções. Daqui, ouço os lamentos de amigos no Rio, que ainda não conseguiram tomar a segunda dose da Coronavac. São vítimas de sucessivos atrasos no mapa de vacinação e saem em peregrinação atrás do imunizante, cada vez mais escasso.
É incomum no exterior esse hábito brasileiro de postar nas redes o momento da vacina - um troféu de batalha no país da cloroquina. Hoje, quando poderíamos estar ganhando de braçada dessa enfermidade terrível, a comemoração é funesta: “só” 2.545 pessoas morreram de Covid nas últimas 24 horas. São ecos de um país desgovernado, adoentado.
Na França, vivo o frisson do pré-desconfinamento. Restaurantes reabrirão 19 de maio, apenas para clientes sentados nos terraços e mesas de até seis pessoas. Lojas, museus e cinemas voltarão com restrições de público. Doze milhões de franceses viajaram de trem e carro neste feriado da Ascensão, mas de máscara e sujeitos ao toque de recolher de 19h, com multa pesada por infração. A Grã-Bretanha, mais vacinada e relaxada, já permite o “hugging”, abraços entre parentes e amigos próximos.
As perguntas mudam, o vírus traiçoeiro também muda com variantes. Testes rápidos dão falso negativo ou falso positivo. Mas falso 100%, sem necessidade de coletar nada nas narinas ou na correspondência, é o governo brasileiro. De tudo que se pergunta e se duvida, existe uma certeza que dispensa cotonete: quem manda (o presidente da República) e quem obedece, seus ministros e secretários, são negligentes, arrogantes e burros. Mentirosos. Covardes como o general da ativa mais passivo da História, Eduardo Pazuello. Um constrangimento para o Exército.
A única vacina que pode imunizar o país contra Bolsonaro, em duas doses, é o voto em 2022, primeiro e segundo turnos. A CPI da pandemia cumpre ao menos um papel. Expor as secreções de um governo vil e enfraquecer o vírus de uma extrema-direita tosca e incompetente. Esse vírus oportunista asfixia a democracia, a cultura e a vida.
Uma frase popular, atribuída sem confirmação ao republicano e abolicionista Abraham Lincoln, presidente dos EUA de 1861 a 1865, se aplica muito bem ao Brasil de hoje. “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo”. Trump descobriu isso ao não se reeleger. Esperneou, mentiu até o último segundo. Nos trópicos, Bolsonaro testemunha em pleno mandato a própria desmoralização. Sua hora vai chegar.
Acadêmicos e advogados pedem ao STF afastamento de Bolsonaro por incapacidade mental

Conjur - Um grupo de advogados e professores pediu ao Supremo Tribunal Federal, nesta quinta-feira (13/5), que o presidente Jair Bolsonaro seja submetido a exames para avaliar se ele tem condições mentais de exercer as funções de presidente. Se não for o caso, eles pedem que a Corte declare Bolsonaro incapaz e, consequentemente, o afaste da Presidência da República.
São autores da ação civil os professores de Filosofia Renato Janine Ribeiro (Universidade de São Paulo), que já foi ministro da Educação, e Roberto Romano (Universidade Estadual de Campinas); os professores de Direito Pedro Dallari (USP) e José Geraldo de Sousa Jr. (Universidade de Brasília); e os advogados Alberto Zacharias Toron, Fábio Gaspar e Alfredo Attié, presidente da Academia Paulista de Direito. Eles são representados pelos advogados Mauro de Azevedo Menezes e Roberta de Bragança Freitas Attié.
Na ação, os autores dizem que Bolsonaro não só deixa de tomar medidas para combater a epidemia de Covid-19 como estimula a população a adotar comportamentos que facilitam a contração do coronavírus e recomenda tratamentos ineficazes, como a cloroquina. Além disso, sustentam que o presidente não demonstra empatia nem sentimento de humanidade. Tanto que frequentemente minimiza os danos da epidemia.
Os professores e advogados citam psicólogos e psiquiatras que afirmam que Bolsonaro apresenta indícios de transtorno de personalidade paranoide. Tal condição faz com que a pessoa tenha "um padrão de desconfiança e suspeita difusa dos outros, de modo que suas motivações são interpretadas como malévolas", segundo o Manual Estatístico e Diagnóstico (DSM) da Associação Psiquiátrica Americana.
"No caso de Jair Bolsonaro, a fantasia é a de um complô sempre preparado contra si mesmo, levado a cabo por inimigos imaginários, cujos fundamentos ele busca fundar em apreciações pseudocientíficas da realidade, levadas a efeito por arremedos de pensadores que, em verdade, importam, servilmente, no velho comportamento colonialista brasileiro, doutrinas místicas, sob a capa de saberes filosóficos ou sociológicos. Há, nessa imaginação autodestrutiva — e que deseja destruir a sociedade brasileira, sua riqueza, sua democracia e sua soberania — a fantasia de um 'vírus chinês', que deseja controlar o mundo, um apego e uma entrega ao 'ombro amigo americano'", apontam os autores.
Segundo eles, Bolsonaro não tem os mínimos conhecimentos da realidade brasileira e internacional. Pior: o presidente "possui incapacidade de adquirir esses conhecimentos e incapacidade de escolher como auxiliares quem tenha capacidade de suprir essa incapacidade". "Ele se cerca daqueles em que possa abrigar sua autoimagem, de espelhos com os quais dialoga de modo absurdo, (...) repetindo constantes estereótipos de si e do mundo, cuja complexidade o sufoca".
O chefe de Estado e governo deve ter as funções mentais íntegras, como estabilidade emocional, autocontrole, flexibilidade, ajuizamento adequado da realidade, capacidade de discernir críticas de ataques e clareza de raciocínio, destacam os professores e advogados.
"Considerando a alta probabilidade de Jair Bolsonaro apresentar um transtorno de personalidade paranoide, e considerando os prejuízos que tal diagnóstico traz para as funções mentais mínimas para o exercício da função de tão alta responsabilidade, há mais do que razoável suspeita de que ele não seja apto para ser presidente em função de sua condição mental".
Dessa maneira, eles pedem que Jair Bolsonaro seja submetido a exames para avaliação de sua capacidade de praticar atos relativos à função de presidente da República. Se os resultados apontarem sua inaptidão para o cargo, os autores pedem o afastamento liminar de Bolsonaro. Nesse caso, os professores requerem que, ao final do processo, o Supremo declare a incapacidade do presidente.
Sardenberg fala de Bolsonaro e ignora Lula ao comentar Datafolha na Globo (vídeo)

247 - Em comentário na Globonews na noite desta quinta-feira (13), Carlos Alberto Sardenberg conseguiu ignorar o nome do ex-presidente Lula ao falar de uma pesquisa que mostra o ex-presidente liderando em disparada.
No primeiro turno, a pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta mostra Lula com 41% dos votos totais, contra 23% de Jair Bolsonaro - 18 pontos de diferença. No segundo turno, Lula aparece com 55% e Bolsonaro, 32%. Outros candidatos, como Sergio Moro, Ciro Gomes, Luciano Huck e João Doria aparecem com percentuais de 7% para baixo.
Questionado se o presidente Bolsonaro “nem corre o risco de ir para o segundo turno em 2022”, o comentarista responde: “É, essa conversa começou a aparecer a partir dessa última pesquisa, porque ele ficou com 23% na simulação de primeiro turno. 23% leva para o segundo turno porque os outros candidatos estão… a chamada terceira via estão com pontuações muito baixas”.
“Mas se a situação do presidente continuar se deteriorando, é possível que ele caia abaixo dos 20%, 23%, e aí abre espaço para o surgimento de uma outra candidatura, de um outro polo que possa chegar. Porque antes o presidente fazia 35%, 36%... e aí é difícil bater. Mas chegar aos 23% é possível. E aí a gente teria um segundo turno sem o presidente Bolsonrao”, acrescenta, ignorando completamente quem lidera a disputa.
Assista:
Quadro político se agrava, mas desfecho é imprevisível - Roberto Moraes
Por Roberto Moraes

Há mudanças substanciais no quadro político no Brasil.
A CPI trabalha com a apuração de dados crescentes das (ir)responsabilidades do desgoverno, tanto na questão das vacinas, quanto da ausência de gestão para proteção das pessoas.
O desgoverno é fruto de um clã alucinado ombreado por milícias digitais e territoriais e pelos generais do Partido Militar, mais preocupados em duplicar seus salários e que não se importam com a enorme massa de desempregados, famintos e excluídos. Estes tentam sobreviver com o minúsculo auxílio emergencial, sofrendo as dores da pandemia e da morte daqueles mais próximos e, em sua maioria, da mesma classe social.
O descontrole da base desgovernada aumenta, se torna visível, e parece refletir a percepção da população que, embora silenciosa, em sua maioria, segue tentando se proteger do vírus e destes genocidas.
É difícil prever o que haverá pela frente.
Os donos dos dinheiros no andar de cima, seguem satisfeitos com o aumento dos seus lucros e com o acesso às empresas vendidas na xepa das privatizações das estatais e concessões, onde o fluxo de dinheiro e rentabilidade, prescindem de investimentos em instalações, apenas adequações e reformas, pagas com crédito barato e subsidiado do BNDES, mesmo que quase desmontado. Esses, também não encontram o nome para o tal centro neoliberal.
A divisão de posição na população parece ter mudado de lado. Ainda na população, os sinais são de uma maioria acompanhando tudo de perto e querendo mostrar sua nova posição. Há preocupação e ansiedade, mas há mais que fios de esperança.
O Brasil, hoje é muito diferente do país de 2002, em diversos aspectos. Precisamos superar o genocídio, o desmonte do país e o atraso. É necessário mais que resistir. Sigamos em frente!
Paulo Guedes é o ícone da “economia que mata”
Por Roberto Malvezzi
Se existe alguma virtude no atual governo é que ele é absolutamente transparente nos seus propósitos, ainda que seja uma perversa transparência. Como diz Jesus sobre os mercenários em uma de suas falas: “O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10,10).
Bolsonaro avisou na campanha que viria para destruir (voltar 50 anos na história) e que gostaria de ver mortos ao menos os 30 mil que a “ditadura torturou, mas não matou”. Esse propósito se materializa com os fatos, como os 400 mil mortos pela Covid19, mas também a fala expressa do ministro Paulo Guedes: “De acordo com o ministro, não foi a pandemia que tirou a capacidade de atendimento do setor público, mas sim ‘o avanço na medicina’ e ‘o direito à vida’ (Globo Economia). O ministro não tem pudores de dizer que a vida de muitas pessoas é um problema para a concepção que ele tem economia.
Para o ministro as únicas vidas que valem é a dos mercadores. O resto das vidas têm que ser sacrificadas no altar dos deuses do mercado. Pensadores como Jung Mo Sung e Franz Hincklammert já devassaram a alma sanguinária e sacrificial desses deuses. Mas, esses deuses têm uma característica pavorosa, isto é, são insaciáveis.
Mas, assim como Bolsonaro não fala sozinho, mas tem milhões de pessoas ainda sustentando suas práticas e seu discurso, Paulo Guedes também não fala sozinho. Ele é o ícone da “economia que mata” segundo o dizer do Papa Francisco: “Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”. (FRANCISCO, Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 09-07-2015).
Além de Guedes, agora a Câmara dos Deputados deleta a licença ambiental e quer instalar a grilagem aberta nas terras públicas. Bolsonaro não está só, ele é o ícone dessa direita extrema e implacável.
A mídia corporativa brasileira já nem fala em mercado, mas na Faria Lima. Além do personagem histórico, o que é a Faria Lima? Uma avenida em São Paulo, que junto com a Paulista, a Rebouças e a Nove de Julho fazem o quadrado dos Jardins na capital paulista. Isso quer dizer que Paulo Guedes representa uma avenida no Brasil, os mercadores da Faria Lima, onde estão estabelecidos os escritórios do mundo financeiro e as startups. É o Brasil pensado para uma avenida.
Podemos acusar Bolsonaro, Guedes e Sales de tudo, menos de que são enganosos em seus propósitos e em suas práticas. Eles são convictos no processo de destruição que promovem. Dizem abertamente a quem servem e o que fazem. E fazem.
A liberdade nunca bateu na nossa porta: 133 anos de falsa abolição
Por Dandara Tonantzin
Três séculos de tortura, assassinato, privação de liberdades e estupros não se apagaram em 133 anos de abolição da escravatura. O genocídio continua.
A história oficial nos conta que no dia 13 de maio de 1888 a “benevolente” princesa Isabel assinou a Lei Áurea, salvando o povo negro dos horrores da escravidão. O que não consta nos livros tradicionais é que a abolição foi fruto de muita luta de nossos antepassados, que resistiram com fugas organizadas dos cativeiros, rebeliões, quilombos e lutas abolicionistas. De salvadora a princesa branca não teve nada; a lei foi assinada por pressão econômica internacional inglesa que desde 1845 proibia o tráfico negreiro.
Cerca de 4,8 milhões de africanos foram sequestrados de suas famílias e encarcerados em navios tumbeiros para o Brasil. O trajeto era desumano e a vida dos sobreviventes era rodeada de perversidade. Latifúndios eram campos de concentração onde pessoas escravizadas eram tratadas pior que animais de carga. Apesar de tanta dor, sobrevivemos e construímos esse país à sangue e suor. A contribuição que demos para a construção da pátria ainda é negada. Ainda aparecemos nos livros de história somente nas páginas que remetem ao crime da escravidão.
Somos bisnetos (as) de guerreiros e guerreiras, que saíram da escravidão sem reparação alguma, sem direitos à terra, à educação ou moradia. Sem perspectivas, o povo negro começou a habitar as periferias ao redor dos centros urbanos que se formavam. No dia 14, após a lei de abolição, o que restou para nós?
Por isso hoje não comemoramos a falsa abolição, chancelada pelo viés branco. Hoje exigimos respeito e igualdade, mesmo que tardia. A escravidão deixou marcas na nossa história. No momento em que nascia o Brasil, a escravidão era mais do que somente um modelo econômico, era um sistema político, cultural, social, que constituiu valores, que organizou geopoliticamente as cidades, determinou lugares e não lugares. O preconceito racial se enraizou de tal maneira em nossa sociedade que o racismo se tornou estrutural, presente nos discursos de ódio da internet, nas piadinhas sobre o cabelo ou traços afros, na ausência de pessoas negras em cargos de liderança e espaços de poder.
Hoje, negros são 79,1% das vítimas de intervenções policiais que resultam em morte, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2020. Somos também 66,7% dos encarcerados nas prisões brasileiras. Durante a pandemia de Covid-19 morreram 40% mais pretos e pardos do que brancos.
A chacina de Jacarezinho, no dia 06 de maio, nos lembra que os fantasmas da escravidão seguem os passos de cada pessoa negra nesse país: Na desvalorização, no medo, na perseguição, na fome, nos estigmas, na bala perdida que sempre encontra o corpo negro. Nossa cor de pele é alvo. Nossa cultura, nossos ritmos, nossa fé.
No dia 13 de maio de 2021 são milhares de mães pretas que velam seus filhos assassinados, desaparecidos, crimes que nunca tiveram justiça. Miguel Santana, Clayton da Silva Freitas Lima, Cláudia Silva Ferreira, Ray Pinto Faria, Jenifer Gomes e tantos mais. Se tornaram vítimas de sistema cruel, onde o preto é suspeito e nossas lágrimas não importam.
Temos pressa para que as coisas mudem. Já são 133 anos de um grito preso na garganta. Diferente do que canta o hino nacional, o sol da liberdade não raiou para todos (as) nós. É cansativo ainda lutarmos pela quebra das correntes do racismo.
Ocupamos espaços importes, por exemplo, sou uma mulher negra na Câmara de Vereadores de Uberlândia. Olho para o lado e vejo os herdeiros da casa grande até hoje no poder. Não toleram a nossa presença, incomodamos. Nada para o povo preto foi de graça, ou por acaso. A libertação nunca bateu na nossa porta. Tudo foi, tudo será: LUTA.
Exposição que marcaria data da abolição é censurada em Santa Catarina
Quadros de Bruno Barbi seriam expostos no Shopping Iguatemi de Florianópolis e retratam dez rostos de mulheres negras aquareladas. Artista denuncia “covarde tentativa de ocultar um racismo latente, sob a justificativa de que temas polêmicos poderiam melindrar seus clientes brancos e ricos”

247 - O artista Bruno Barbi denuncia que sua exposição “Pertencimento”, que seria exposta no Shopping Iguatemi, de Florianópolis, Santa Catarina, foi alvo de censura e teve a abertura cancelada. A inauguração aconteceria nesta quinta-feira, 13 de maio - data que marca a abolição da escravatura.
O artista chama a decisão de “ato covarde” e uma “tentativa de ocultar um racismo latente, sob a justificativa de que temas polêmicos poderiam melindrar seus clientes brancos e ricos”. Leia abaixo a íntegra de seu manifesto sobre o tema:
A exposição PERTENCIMENTO, com quadros pintados por mim e texto de apresentação escrito por Gislene Santos, com data marcada de abertura hoje, dia 13 de maio de 2021 às 10 horas da manhã no Vila Romana Shopping, antigo shopping Iguatemi, no bairro Santa Mônica em Florianópolis, sofreu um ato de CENSURA e não será realizada.
A exposição retratando 10 rostos de mulheres negras aquareladas, tem como argumento central do texto de apresentação o quão a presença Negra pode ser incômoda em espaços não reservados a ela, e aonde quer que seja que ela incomode este será o seu lugar.
Com quase uma década de arte e ativismo dedicado a luta antirracista, aprendi nesta curta trajetória de que esta arte ativista incomoda e provoca, mas sempre tende a ser melhor aceita quando não vem acompanhada de vozes negras reais. A partir deste entendimento e de que não precisamos de mais 'Princesas Izabel' e de que a arte carrega esse poder da transformação social efetiva, nada mais que eu produzo deixou de vir acompanhado de falas e demandas reais do povo negro, convidando sempre mulheres e homens negras e negros para legitimar e dar sentido aos trabalhos. A partir disso ficou cada vez mais evidente em quais lugares ela seria aceita ou não.
A série PERTENCIMENTO foi CENSURADA às vésperas de sua abertura oficial, no ato covarde de tentativa de ocultar um racismo latente, sob a justificativa de que temas polêmicos poderiam melindrar seus clientes brancos e ricos, admitindo com isso que a presença Negra dentro desse espaço é um tema polêmico e de que seus clientes não a admitem. Este manifesto denuncia e rechaça a atitude elitista, racista, irresponsável do Shopping Iguatemi. Desde sempre sabemos que estamos em uma cidade de valores ultraconservadores, colonialistas, preconceituosos e entendemos que essa exposição que não aconteceu, cumpre seu maior papel de denunciar a segregação e a discriminação pela população negra historicamente apagada da cidade é submetida sistematicamente.
Pertencimento é resistência e protesto, sobre uma política social higienista que impede toda sociedade de avançar em nome da manutenção dos privilégios de muito poucos. Não desistiremos, não a baixaremos nossas cabeças, a luta anti-racista é uma obrigação de todos e nós nos orgulhamos de estar deste lado da trincheira.
"Existe responsável", diz Mônica Martelli sobre morte de Paulo Gustavo
"Não foi uma fatalidade", disse a atriz, destacando que já existem vacinas que conferem proteção contra o coronavírus, mas o Brasil infelizmente não as tem

247 - Atriz e amiga de Paulo Gustavo, Mônica Martelli criticou duramente a vacinação da poulação brasileira contra Covid-19 em participação no programa Saia Justa, da GNT, nesta quarta-feira (12).
Mônica afirmou que a morte de Paulo Gustavo "não foi uma fatalidade", visto que já existem vacinas para garantir a proteção das pessoas contra o coronavírus. Ela ainda afirmou que "existe responsável para isso", sem citar exatamente quem.
"É muito importante a gente dizer sobre esse luto que estamos vivendo, que não é só meu, é de um país, tem uma palavra de ordem: duas doses de uma vacina que já existe. [A vacina] podia ter salvado ele e muitas outras vidas. Isso vai ser um marco de luta no luto. Essa dor que estou sentindo não é uma dor só minha", lamentou a atriz.
"Claro que tem a intensidade do sentimento, por causa da proximidade da pessoa, mas quanta gente sentiu a dor por Paulo Gustavo, que lotaram teatros e cinemas. Hoje, elas têm que se perguntar: por que no Brasil não temos vacinas suficientes? Não foi uma fatalidade. Era um homem saudável, sem comorbidade! Existe responsável para isso", completou.
Comentários
Postar um comentário