Eva Wilma: Defendeu a linha de frente nas manifestações CONTRA a DITADURA do regime militar. ___________________________________ Mas e a BETE MENDES ? * ___________________________________________________________ GUERRA PELA ETERNIDADE: o Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista Autor Benjamin Teitelbaum

GUERRA PELA ETERNIDADE _____________________ o Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista ________________________________  Autor Benjamin Teitelbaum R$ 66 (248 págs.)

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Após reclamar de barulho, homem é morto no quintal de casa, em Niterói (RJ)

Eva Wilma: Adeus doçura. Defendeu a linha de frente nas manifestações CONTRA a DITADURA do regime militar. _______________ E a BETE MENDES?

BETE MENDES(1949): foi torturada por ULSTRA em 1970 (Meu Pé de LaranjaLima - TUPY) no DOI-Codi, em São Paulo.
INOCENTADA pela Justiça Militar. 
CASADA com Denis Carvalho 1970-1975.

Contraponto otimista para o apocalipse ambiental

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Esquerda precisa superar jogo infantil sobre Bolsonaro e impeachment de Dilma (Joel Jovem Pan)

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NÃO é possível DISSOCIAR golpe contra Dilma, Lava Jato e eleição de Bolsonaro _________________ 'DIREITA MODERADA', em que Joel Pinheiro da Fonseca se inclui, é INCAPAZ de fazer AUTOCRÍTICA de suas ações recentes

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Apesar de seu governo CATASTRÓFICO, Bolsonaro está MAIS FORTE que no INÍCIO do mandato ______ VITÓRIA de ALIADOS para o comando da CÂMARA e do SENADO mostra que presidente NAVEGA com COMPETÊNCIA nas águas POLUÍDAS da alta política

Eva Wilma foi minha PRIMEIRA NAMORADA 

No drama com Whindersson, Luísa Sonza responde pelo crime de ser mulher

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Após reclamar de barulho, homem é morto no quintal de casa, em Niterói (RJ)

Polícia investiga crime, que ocorreu no início da manhã deste sábado (15)

Rio de Janeiro

A Polícia do Rio de Janeiro investiga a morte de um homem após discussão com traficantes em Niterói, na região metropolitana da capital.

O fotógrafo Thiago Freitas de Souza, 32, foi baleado na cabeça depois de reclamar que o barulho na vizinhança atrapalhava o sono de sua filha de cinco anos.

Foto mostra  Thiago Freitas de Souza, que foi assassinado na manhã deste sábado (15), na Favela Santo Cristo, em Niterói (RJ)
Thiago Freitas de Souza, que foi assassinado na manhã deste sábado (15), na Favela Santo Cristo, em Niterói (RJ) - Arquivo pessoal

A discussão começou por volta das 6h deste sábado (15), em uma região conhecida como Morro do Santo Cristo, na zona norte da cidade. 

A esposa da vítima já havia feito uma primeira reclamação, mas o barulho continuou.

Thiago saiu para reforçar o pedido e foi baleado.

Sua esposa contou à polícia que ouviu o disparo e, ao sair de casa, encontrou o marido caído no quintal.

Ele chegou a ser levado ao hospital e operado, mas não resistiu.

A Polícia Militar diz que policiais do 12º BPM (Batalhão de Polícia Militar) foram ao hospital verificar a entrada de homem com ferimentos provocados por arma de fogo e encaminharam a ocorrência para a Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo.

A Polícia Civil diz que instaurou inquérito para esclarecer a morte.

"Diligências estão sendo realizadas e a investigação está em andamento", afirmou, em nota.

A região convive com uma disputa entre facções rivais pelo controle do tráfico de drogas. 

A plataforma Fogo Cruzado registrou troca de tiros na região na quarta (12) e neste sábado, moradores publicaram em redes sociais vídeo com novo tiroteio.

A filha do casal havia completado cinco anos na última segunda (10). ​

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Eva Wilma: Adeus doçura - Cacilda

Lenise Pinheiro

Morre a estrela de cinema, teatro e televisão. Querida por artistas e técnicos deixa a força do seu sorriso na memória dos filhos, fãs, amigos e familiares, que enlutados, lamentam a perda de tão prestimosa companheira.

Nascida em 1933, inicia carreira artística no ballet clássico, e a partir do envolvimento com a dança passa a atuar no Teatro de Arena, palco de inúmeras montagens de caráter político. Defendeu a linha de frente nas manifestações contra a ditadura do regime militar. Atuou como protagonista de inúmeros sucessos nos palcos.

Trabalhos relevantes onde espalhou muita alegria entre os colegas de ofício por mais de setenta anos de carreira. Deixa muita saudade.

Instada a declamar trecho de Antígona para uma plateia lotada saiu-se com essa:

– “Há sempre duas faces da mesma moeda. Cara é um herói, coroa um tirano. Ambição mudou de traje, a guerra de veículo, o poder de método. O mundo girou muito, o homem mudou pouco. Mas repetir uma história é a nossa profissão, é a nossa forma de luta, assim vamos contar de novo e de maneira bem clara, que eis nossa razão. Ainda não acreditamos que no final o bem sempre triunfa, mas começamos a crer emocionados que no fim o mal nem sempre vence. O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”!

Brava!!!

Em distanciamento social, durante a pandemia, se apresentou ao vivo. Com muita lucidez se posicionou a favor da ciência, declamou poemas, entoou canções. Encantou. Hoje, encantou-se!

Teve pneumonia mas a contaminação por Covid-19 foi descartada. Depois de algumas internações, diagnosticada recentemente com câncer de ovário, morre em São Paulo, sua terra natal.

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A marca da tortura - ISTOÉ Independente

Apoio de Mourão ao coronel Ustra, famigerado servidor da Ditadura, faz ressurgir notícias das violências sofridas pela atriz e ex-deputada Bete Mendes

Crédito: Luciana Whitaker/Folhapress

Repressão (Crédito: Luciana Whitaker/Folhapress)

O elogio do vice-presidente Hamilton Mourão ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, mais notório torturador da ditadura, teve pelo menos um efeito simbólico para a memória coletiva: fez ressurgir com força nas redes sociais uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, em 2012. Nele, a atriz e ex-deputada Bete Mendes relata a experiência de dor e sofrimento que teve nas mãos de Ustra e sua estupefação ao encontrá-lo trabalhando normalmente como adido militar na Embaixada do Brasil em Montevidéu, no Uruguai, para onde ele viajou, em 1985, na comitiva oficial do presidente José Sarney.

Pau-de-Arara

CRUELDADE Elogiado com frequência por membros do governo, Ustra foi um homem impiedoso e despótico: Bete Mendes foi uma de suas vítimas (Crédito:Sérgio Lima/Folhapress)

Bete Mendes foi torturada em 1970 no DOI-Codi, em São Paulo. Seu relato é tocante e mostra a fúria aniquiladora de Ustra. “Fui sequestrada. presa e torturada nas dependências do DOI-Codi do II Exército, onde o major Brilhante Ustra (dr. Tibiriçá) comandava sessões de choque elétrico, pau-de-arara, afogamento, além do tradicional “amaciamento”, na base dos ‘simples’ tapas, alternado com tortura psicológica. Tive sorte, reconheço, senhor ministro: depois de tudo, fui julgada e considerada inocente em todas as instâncias da Justiça Militar, que, por isso, me absolveu; e aqueles inocentes, como eu, cujos corpos eu vi, e que estão nas listas de desaparecidos?”, disse em uma carta que enviou para o então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves. Em entrevista, Mourão disse que Ustra “respeitava os direitos humanos dos seus subordinados”. Só de seus subordinados. Talvez nem deles.

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Opinião: Mente Natural - Contraponto otimista para o apocalipse ambiental

Os peixes dominam as águas do planeta com sua espantosa variedade de formas e comportamentos. O peixe-palhaço vive em uma relação simbiótica com a anêmona. O limo no corpo do peixe impede que as células urticantes da anêmona o machuquem - Caters News Agency
Os peixes dominam as águas do planeta com sua espantosa variedade de formas e comportamentos. O peixe-palhaço vive em uma relação simbiótica com a anêmona. O limo no corpo do peixe impede que as células urticantes da anêmona o machuquem Imagem: Caters News Agency
Emersom Karma Konchog

16/05/2021 06h00

Para quem está mais informado sobre o atual desastre ambiental, e o que (não) está sendo feito para resolver isso, é bem comum a sensação paralisante de que perdemos. Não encontrando os sinais concretos de uma mudança sistêmica, sobra apenas o velho discurso desenvolvimentista e exploratório, agora anunciado com gravatas verdes.

O primeiro passo da derrota de fato é pensar ou reconhecer isso, e a ênfase exclusiva na realidade brutal da destruição pode acabar forçando essa ideia de que não haveria mais muito o que fazer. Mas como seria o mundo caso realmente efetivássemos as mudanças mais profundas? Talvez a própria falta desse tipo de visão esteja estreitando nossas perspectivas.

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Na verdade, essa situação se aplica mais à Europa e EUA, onde o silêncio climático é menos gritante, e as sociedades realmente estão acordando para a tragédia ambiental. No Brasil, em geral, ainda nem começamos a contemplar de fato o que significa continuar poluindo e destruindo em escala massiva, e como isso já está prejudicando nossas vidas. Já nos EUA, por exemplo, 67% da população se sente ansiosa, ou pelo menos bastante preocupada, com os efeitos desastrosos das mudanças climáticas, que já se tornaram uma realidade ameaçadora.

Entre muitos cientistas, a atual era geológica é chamada de "Antropoceno", ou seja, a era dos humanos — isso porque a principal força que está moldando a face do planeta somos nós. Para saber como é essa face basta olhar em volta. Além da 6ª extinção em massa e do aumento da temperatura global, e suas graves consequências, recentemente foi descoberto que as mudanças climáticas já alteraram até o eixo de rotação do planeta e a espessura da estratosfera.

Parece haver um tipo de fatalismo associado a ideia do Antropoceno. Esse é o nosso destino? Como não se afetar diante de tamanha desolação?

Mas a autodestruição não é necessariamente nossa natureza. No mundo natural, um dos princípios dominantes é o da simbiose, a vida em comum com benefício mútuo. Para termos um contraponto ao Antropoceno, pelo menos conceitual, surgiu o termo "Simbioceno", que tenta nos dar um vislumbre de como seria uma civilização humana em simbiose com a Terra. A ideia é do ecofilósofo australiano Glenn A. Albrecht, bastante influente entre movimentos regenerativos por estar criando um novo vocabulário para lidarmos não apenas com os dilemas existenciais de nossa autodestruição, mas também com a possível transição.

Foi ele quem cunhou, entre outras, a palavra "solastalgia", que define uma nova emoção bastante comum hoje: a saudade que sentimos de nosso lar mesmo estando em casa, pois o ambiente foi destruído.

Simbiose

A ideia é que precisamos sair do Antropoceno o mais rápido possível: ou fazemos a transição para o Simbioceno, e nos reconectamos ao mundo natural, ou então... extinção. É um meme formidável pois ao mesmo tempo que não negligencia os problemas mais profundos, no fundo, é otimista.

O conceito de uma civilização simbiótica se liga intimamente com os processos fundamentais da vida. Em termos evolutivos, a vida como a conhecemos se deve a processos de simbiose, conforme as descobertas revolucionárias da bióloga estadunidense Lynn Margulis. Por exemplo, há um bilhão de anos, micro-organismos fotossintéticos iniciaram um processo de mutualismo com vegetais, resultando na capacidade das plantas de armazenarem energia solar: fotossíntese. Até partes fundamentais de nossas próprias células se devem a processos simbióticos entre organismos, iniciados há centenas de milhões de anos.

A urgência de uma relação mútua de benefício e cuidado — não apenas com o mundo natural, mas com as outras pessoas e até conosco mesmos — se torna óbvia quando olhamos nosso padrão de produção e consumo: somos a única espécie que retira massivamente da natureza e devolve, quase que exclusivamente, contaminação multiplicada. Assim, não surpreende o atual nível de degradação em que nos encontramos.

Auto-organização

Uma das implicações de uma relação simbiótica com a natureza é aprendermos com ela. A vida se baseia em sistemas auto-organizados, uns dentro dos outros. Nos anos 70, o escritor inglês Arthur Koestler criou o conceito de "holon", um tipo de círculo que contem outros círculos, ao mesmo tempo que está contido em um círculo maior, estendendo-se infinitamente tanto para dentro quanto para fora.

Cada organismo vivo é um holon, assim como seus componentes menores. E ele também está inserido em holons maiores, como biomas, comunidades etc. A relação entre os holons é auto-organizada. Não é preciso uma entidade central ou governante para gerir os processos.

Baseado nesse modelo, que é o da própria vida, foi criado um sistema de organização chamado
holacracia,e sem hierarquias de cima para baixo. É nisso que se baseia também o modelo descentralizado de novas mobilizações socioambientais como o Extinction Rebellion.

Além da ação em relação à emergência ambiental, o movimento defende também a
organização política da sociedade em assembleias cidadãs, como uma possível solução para a atual falência da política partidária como conhecemos. A ideia é mais simples do que parece: do mesmo modo como a vida se auto-organiza de forma eficaz, se realmente estivermos em simbiose com a natureza, também podemos fazer isso nós mesmos, de modo a sustentar e promover a vida. Não precisamos de alguém nos organizando para isso.

Nova ética

A transição em direção ao Simbioceno implica também uma nova dimensão moral. A ideia da biosfera, ou Gaia, como um sistema auto-organizado vivo do qual somos apenas uma parte, exige atitudes éticas baseadas na própria natureza. Como não somos separados da vida, não podemos prejudicar a vida.

A tão sonhada compaixão imparcial pode então ser ancorado em princípios naturais, se libertando de ideais filosóficos ou doutrinas espirituais e, assim, realmente tendo um apelo humano universal.
Obviamente que todas essas ideias implicam nos engajarmos ativamente em direção a essas mudanças, não basta apenas termos conceitos que soam bem. Mas tudo isso já existe na prática: sempre houve comunidades vivendo assim, como os povos originários, entre outros. No entanto, é algo que não apenas está mal distribuído, mas também costuma ser ativamente atacado e destruído.

Essa possível transição regenerativa é mais uma questão de reconhecimento, proteção e amplificação do que de criar algo do zero. E a organização da sociedade para demandar essas mudanças é uma parte fundamental do processo, como os novos movimentos ambientais estão demonstrando.

Não é por acaso que eles são formados em grande parte por jovens, com uma nova mentalidade, que assim já estão sendo chamados de "Geração S" — "S" de Simbioceno.

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Joel Pinheiro da Fonseca: Esquerda precisa superar jogo infantil sobre Bolsonaro e impeachment de Dilma

Joel Pinheiro da Fonseca rebate crítica a seu artigo sobre queda da petista e eleição de 2018

Joel Pinheiro da Fonseca

Economista, mestre em filosofia pela USP e colunista da Folha

[resumo] Prosseguindo o debate com o professor Luis Felipe Miguel a respeito do impeachment de Dilma Rousseff, que completa 5 anos, autor argumenta que a esquerda constrói uma narrativa simples e maniqueísta para atribuir à “direita moderada” uma suposta ruptura do pacto democrático e a vitória de Bolsonaro, fechando os olhos para a crise no governo do PT e para a multidão que foi às ruas contra o partido.

Rotular é o jeito mais fácil de não argumentar. No Brasil, então, é uma verdadeira arte: encontre os rótulos adequados, adjetivos e qualificações carregados de avaliação moral implícita, e já está comunicado para seu público quem é o bem e quem é o mal. Resta só contar a história.

Assim faz o artigo do professor Luis Felipe Miguel publicado na Ilustríssima em 8/5. Constrói uma narrativa simples e maniqueísta para jogar no colo da direita moderada brasileira (que não seria sequer moderada, mas radical) a eleição de Bolsonaro, seu suposto filho bastardo.

Foi essa direita —e sua aliada, a mídia— que cooptou os protestos de junho de 2013, que não aceitou a derrota nas urnas em 2014, que rompeu o consenso democrático, fez os protestos pelo impeachment e inventou a Lava Jato. A direita quer negar direitos, recusa a justiça social e mesmo a solidariedade. Em um verdadeiro primor de objetividade analítica, Miguel chega a caracterizá-la de “antipovo”.

É fácil jogar o jogo da responsabilidade. Eu também sei jogar. Se fosse entrar nele, diria que o próprio PT pariu Bolsonaro. Primeiro com a corrupção numa escala que chocou o Brasil. Segundo com a pose incessante de superioridade moral, e mesmo de monopólio da virtude, que jogava todo mundo que discordava de sua agenda no campo dos “antipovo”, polarizando o Brasil desde pelo menos 2010.

Foi a dissonância do discurso intolerante vindo de uma “goela muito aberta” pela corrupção (para usar a expressão de Emílio Odebrecht) que engendrou o ódio cego de tantos milhões de brasileiros pelo PT. Por fim, o partido promoveu uma farsa em 2018 com a falsa candidatura de Lula e com o real candidato, Fernando Haddad, inexpressivo, indo se consultar com seu mentor na prisão. O bebê é seu!

Jogar esse jogo, contudo, é perda de tempo. Primeiro porque, como argumentei anteriormente, os rumos da história são incertos. E segundo porque esse jogo nos fixa na percepção enganosa de que a história se faz entre as narrativas de elites opostas (seja a “direita moderadas” ou o PT), ignorando um ator que facilmente é esquecido justo pela esquerda, que gosta de se ver como seu intérprete oficial: o povo.

Na narrativa de Luis Felipe Miguel, o impeachment foi obra de uma decisão da direita de romper o pacto democrático que vigorava desde a redemocratização. Primeiro é preciso apontar que isso está factualmente errado. O impeachment de Dilma foi o segundo desde a redemocratização. Ou seja, não foi rompimento coisa nenhuma, e sim continuidade com nossa tradição democrática e constitucional, que inclui a possibilidade de retirar um presidente impopular que cometa crime de responsabilidade, como foi o caso de Collor e de Dilma.

O objetivo do “golpe” teria sido, ainda segundo Miguel, “impedir que o campo popular continuasse a ser admitido como interlocutor legítimo do jogo político”. Será? Segundo pesquisa Datafolha de março de 2016, 68% da população era favorável ao impeachment. A popularidade do governo estava ainda pior. Na mesma época, Dilma amargava 10% de aprovação. As multidões nas ruas assustavam e pressionavam o Congresso.

É no mínimo curioso que o suposto “campo popular”, acuado, tivesse tão pouco… povo! Custa a Miguel reconhecer que a queda de Dilma não apenas não contrariou como teve a adesão entusiasmada do “campo popular”.

No artigo de Miguel, sobram atores responsáveis pelos eventos de 2013 a 2018: a mídia, o PSDB, a Fiesp, a direita moderada, a burguesia. Só faltou o povo.

A questão é que o povo real, empírico, de carne e osso, sempre múltiplo, nem sempre deseja as mesmas coisas que seus porta-vozes da esquerda iluminada postulam. Ele tem uma autonomia própria para além das elites de direita ou esquerda que buscam domá-lo. Com as redes sociais, essa autonomia só aumentou.

E assim voltamos a 2013. Não houve um aliciamento da direita por obra da malvada mídia. A mídia já não tinha esse poder. Basta lembrar que jornalistas, especialmente da rede Globo, foram vaiados e atacados pela multidão, assim como representantes de todo e qualquer partido.

Com os fatos incontestes da crise econômica (14 milhões de desempregados e a recessão mais profunda jamais registrada em nossa história) e da corrupção do PT e aliados, era bem compreensível que grande parte do povo quisesse varrer os petistas do mapa em 2016.

Somem-se a isso os crimes de responsabilidade concretos —as pedaladas e a criatividade contábil que só aprofundaram a crise fiscal, e que Miguel nem sequer tenta defender— e temos todos os elementos para o impeachment.

Não foi uma pequena elite de direita que tramou e efetuou o impeachment. Ele foi demandado por uma maioria barulhenta da população, que não raro rejeitava também os cabeças dos partidos de centro-direita, que o apoiaram com alguma relutância (com a consciência de que poderiam facilitar a volta do PT).

Esses líderes não contavam com amor popular. Basta lembrar que Geraldo Alckmin e Aécio Neves chegaram a ser vaiados numa manifestação anti-Dilma, e que a popularidade de Temer, em seus melhores momentos, jamais superou os 10%.

O mesmo povo apoiou majoritariamente as greves dos caminhoneiros que colocaram o governo Temer de joelhos. Bolsonaro nadou de braçada. Por fim, nas urnas em 2018, embora contasse com diversos candidatos (Alckmin, Amoêdo, Meirelles), a direita moderada também perdeu feio.

Volto ao ponto central do meu artigo original: temos um forte sentimento antissistema, uma insatisfação profunda com a vida institucional brasileira e com a política como ela é feita. Bolsonaro foi capaz de encarnar esse sentimento.

De minha parte, tenho a consciência tranquila —sim, esta consciência supostamente extremista, antipovo, que nega a solidariedade e ainda quer criminalizar a esquerda— por ter apontado e combatido o movimento pró-Bolsonaro desde 2016, quando ele já exaltava Ustra e antagonizava com Jean Wyllys na Câmara.

Já fui mais radical pró-mercado, mas a vida intelectual é constante transformação. Ao longo desse processo, aprendi muito com autores e interlocutores de todos os vieses, inclusive de esquerda. E sei que o ponto de partida para qualquer troca é não bloquear a discussão desde o início, acusando as motivações alheias, verdadeiro cacoete marxista.

Grande parte da esquerda brasileira ainda está presa ao jogo infantil de tentar colar todo mundo que não compactuou com o PT no campo filobolsonarista. É confortável atribuir as piores intenções para não ter que discutir a realidade.

Houve o petrolão? É um avanço prender políticos e empresários corruptos? É preciso resolver o desequilíbrio fiscal brasileiro? E enfrentar as causas de nossa pouca produtividade no plano global? Não adianta vir com os rótulos de “antipovo” e “contra direitos”. Ou talvez pensem que quebrar o país, estourar o desemprego, derrubar nossa produtividade, fazer controle político de preços e maquiar números, isso sim, seja ser pró-povo!

Esse primarismo mata o debate no Brasil. Não é à toa que, hoje, a oposição eficaz ao governo Bolsonaro venha justamente da centro-direita, no Congresso e nos governos estaduais. Teto de gastos ou expansão fiscal, mercado de trabalho mais rígido ou mais flexível, abertura ou fechamento comercial, direito penal mais garantista ou mais duro com a corrupção; todos são plenamente defensáveis dentro de uma estrutura democrática. Não há que se condenar a priori as supostas motivações (e portanto a legitimidade) de cada um.

Felizmente, parece que o surto que elegeu Bolsonaro começa a enfraquecer. Lula, por outro lado, se fortalece. A pergunta é: seu projeto de poder continuará fechado nesse solipsismo esquerdista ou voltará ao pragmatismo do diálogo de seu primeiro governo?

Vale lembrar que o Bolsa Família foi elaborado em colaboração pragmática com economistas supostamente “neoliberais”, “antipovo” —Marcos Lisboa, Ricardo Paes de Barro e outros—, contra os desejos de quadros históricos do partido. Foi o maior sucesso do PT.

Lulistas viscerais e inteligentes como Luis Felipe Miguel podem ajudar a qualificar o debate ou, viciados na ilusão da própria superioridade moral, acusar tudo e a todos que não se curvarem. Lula e Bolsonaro podem ser muito diferentes, mas o fanatismo de seus seguidores é parecido.

Enquanto culpam os adversários —o Judiciário, a CIA (ou a ONU), a elite, a imprensa—, se aliam a Renans, Liras e Sarneys para governar. Só não se esqueçam de que o povo está vendo. E não se espantem se ele não comparecer.

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LUIS FELIPE MIGUEL

Não é possível dissociar golpe contra Dilma, Lava Jato e eleição de Bolsonaro

'Direita moderada', em que Joel Pinheiro da Fonseca se inclui, é incapaz de fazer autocrítica de suas ações recentes

8.mai.2021 às 23h15
LUIS FELIPE MIGUEL

Professor da UnB (Universidade de Brasília), é coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) e autor de "O Colapso da Democracia no Brasil" (Expressão Popular), entre outros livros

[RESUMO] Em réplica a artigo de Joel Pinheiro da Fonseca, cientista político afirma que a ‘direita moderada’, à qual o colunista da Folha diz se filiar e que, agora, renega Bolsonaro, deveria fazer autocrítica e condenar a Operação Lava Jato e o golpe representado pelo impeachment de Dilma Rousseff se tivesse apreço à democracia e ao Estado de Direito

Depois que o STF carimbou sua parcialidade como juiz, Sergio Moro disse ao Brasil: “Não me arrependo de nada”. Joel Pinheiro da Fonseca evita Édith “Piá”, mas, em texto publicado na Ilustríssima, expõe o mesmo sentimento.

É significativo que, hoje, este tipo de explicação se faça necessária. O governo de Jair Bolsonaro (sem partido) se revela a cada dia mais criminoso e, para muitos à direita, é preciso renegá-lo. Ao mesmo tempo, tentam apagar a linha de continuidade entre o passado bem recente —o golpe de 2016 e a conspiração judicial conhecida como Operação Lava Jato— e a situação dramática que atravessamos hoje.

As diferenças em relação a Bolsonaro não são irrelevantes. Aqueles que se definem como direita moderada, quando não centro, condenam a insanidade no combate à pandemia, a apologia aberta da violência e, vários deles, também as demonstrações mais agressivas de racismo, sexismo e homofobia.

Porém, estão à vontade com o retrocesso nos direitos, com o desmonte do Estado social e com a redução do espaço do dissenso. Portanto, as confluências também são importantes.

O que o governo Bolsonaro mostra é que, ainda que separáveis em abstrato, na prática concreta o discurso hidrófobo e as políticas antipovo andam juntos. Mesmo que o golpe de 2016 e a Lava Jato não tenham tido o objetivo de levar o bolsonarismo ao poder, eles promoveram deliberadamente seu crescimento e o aceitaram, primeiro como instrumento, depois como parceiro menor, enfim como mal necessário. A eleição do ex-capitão não estava determinada de antemão, mas chamá-la de consequência imprevisível é simular um desconhecimento total dos fatos.

É como colocar um bêbado no volante de um automóvel. O acidente não é obrigatório, mas tampouco é imprevisível.

A narrativa do colunista da Folha tem como marco zero as manifestações populares de 2013. Adere a uma leitura simplória e mistificadora, que tem uma chave única, a “profunda desconexão entre o brasileiro médio [sic] e a classe política”. É tão equivocada quanto a de alguns círculos petistas, que entendem que as jornadas de junho teriam sido a preparação do golpe, quem sabe sob orientação da CIA.

Dois mil e treze foi um fenômeno complexo, por múltiplos motivos. Foi uma mobilização efêmera, mas que se metamorfoseou incessantemente: os primeiros protestos na cidade de São Paulo, capitaneados pelo Movimento Passe Livre, certamente foram diversos de atos posteriores, aqueles praticamente convocados pela Globo.

A mobilização se desenrolou em muitos pontos do país, sem comando centralizado e com perfis de participação diferenciados localmente. À medida que os atos cresceram, mostraram-se sem uma liderança capaz de verbalizar sua pauta. O discurso das ruas tomou a forma de uma cacofonia, que diversos agentes políticos organizados tentaram capturar e redefinir de acordo com seus interesses.

As manifestações marcaram, em primeiro lugar, a cesura entre o governo Dilma Rousseff (PT) e uma parcela de sua base social esperada (a “nova classe C”, beneficiária da modesta ascensão social permitida pelas políticas petistas). As pautas iniciais sinalizavam uma crítica pela esquerda. A reivindicação de melhores serviços socializados indicava o limite da inclusão pelo consumo, privilegiada pelo projeto lulista como forma de garantir a continuidade da apropriação privada do fundo público (e, assim, minimizar o confronto com o capital).

No entanto, os grupos à esquerda do PT, pequenos e com reduzida base social, não conseguiram dotar o movimento de uma condução à altura de seus sonhos. Acabaram, muitas vezes, apenas com a memória romantizada daquele breve momento.

A direita usou seus muitos recursos, a começar pelos meios de comunicação de massa, para ressignificar as manifestações, separar o joio dos “vândalos black blocs” do trigo dos “cidadãos de bem” e, enfim, instrumentalizá-las a seu favor. Ela percebeu que havia uma brecha a ser explorada. Subitamente, a não reeleição de Dilma, cujo governo até então mantinha altos índices de popularidade, tornava-se uma hipótese palpável.

A liderança permanecia nas mãos da direita tradicional. O objetivo não era a derrubada da presidente por um ato de força, era a vitória do então senador Aécio Neves (PSDB-MG) no ano seguinte. Os temas tornados centrais nos protestos, contudo, já eram favoráveis ao extremismo.

combate à corrupção assumia a forma do punitivismo, que anatematiza as garantias individuais como proteção de bandidos. A defesa da “meritocracia” abre a porta para a naturalização das hierarquias sociais e a recusa das políticas sociais e das ações afirmativas. A antipolítica leva à condenação do dissenso e, enfim, à criminalização da esquerda.

Ou seja, o comando está nas mãos da direita tradicional (é ela a antagonista de Dilma nas eleições de 2014, é ela que chega à Presidência com o golpe de 2016), mas são os extremistas que definem o discurso. São os movimentos de proveta surgidos após 2013, como Revoltados Online ou o MBL (Movimento Brasil Livre), do qual Fonseca se diz próximo; os olavistas e outros saudosos da ditadura militar; os cristãos ultraconservadores; os procuradores e juízes da Lava Jato e a coorte de comentaristas políticos e econômicos da grande mídia que os aplaude.

vitória de Dilma nas eleições de 2014 foi um balde de água fria. Ao se ver batida pela quarta vez seguida, a direita se desiludiu da via das urnas. Rompeu-se o consenso procedimental, aquele que diz que não há alternativa a não ser jogar o jogo democrático —e, se os resultados são frustrantes, o jeito é envidar esforços para melhorar a própria posição na próxima rodada. Esse consenso, que parecia ser uma grande conquista do regime que emergiu das ruínas da ditadura militar, mostrou-se frágil diante do revés de 2014.

Nem toda a direita embarcou de imediato no projeto de derrubar Dilma. Após a eleição, o PSDB ingressou com o pedido de cassação da chapa vitoriosa, mas a intenção era —nas imortais palavras de Aécio— encher o saco. Quando um impeachment começou a ser aventado, seu candidato a vice, o também senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), afirmou que o objetivo não era substituir a presidente, mas fazê-la sangrar.

No empresariado, uma Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) cada vez menos relevante e a serviço das malogradas ambições eleitorais de seu presidente, Paulo Skaf, esteve desde o começo comprometida com a derrubada de Dilma. Mas não os banqueiros, que até bem perto do desfecho sinalizavam que preferiam vê-la no cargo, enfraquecida e incapaz de enfrentá-los.

O golpe de 2016 só ocorreu graças à pressão dos grupos radicais de direita, com pouca presença parlamentar, mas com a capacidade de empurrar seus aliados mais moderados para além de seus planos iniciais. Diversos entre si, esses grupos tinham, no entanto, pontos de contato significativos, em particular um discurso de recusa à solidariedade e de negação de direitos.

Foi um golpe alimentado por um discurso regressista. Sua deflagração mostrou que, no Brasil, deixavam de vigorar os dois pilares básicos da compreensão mais minimalista de democracia: o respeito aos resultados eleitorais e o império da lei. Uma presidente legitimamente eleita foi retirada do cargo com base em pretextos frágeis. O artigo de Fonseca serve, inadvertidamente, de comprovação, ao fazer uma empolgada defesa da derrubada de Dilma, mas passando ao largo dos motivos que pretensamente embasariam um impeachment.

governo de Michel Temer (PMDB) pôs em marcha o programa que mobilizava a burguesia e a elite política tradicional: a ampliação da taxa de exploração, com o desmantelamento dos instrumentos de proteção da classe trabalhadora e a redução brutal do gasto social. Esse objetivo só se consegue com o aniquilamento da resistência popular.

O articulista não tem pudor de dizer que o período Temer “primou pela normalidade democrática”. Ele foi marcado, no entanto, pelo severo cerceamento do debate público e pela intimidação sistemática dos setores populares. Medidas tão graves como a aprovação do teto de gastos, que na prática revogava o pacto consignado na Constituição de 1988, foram aprovadas a toque de caixa, como imposição unilateral dos grupos que haviam amealhado o poder.

Este foi, em suma, o objetivo do golpe: impedir que o campo popular continuasse a ser admitido como interlocutor legítimo do jogo político.

Imaginava-se talvez, que, com a esquerda desmoralizada por anos de “lawfare” e unânime perseguição midiática, em 2018 um tucano qualquer ganharia a Presidência e o trabalho do golpe receberia uma demão de legitimidade democrática. Não foi assim. Foram necessários novos atos de força, em particular o veto à candidatura de Lula, incluindo uma participação cada vez menos discreta da cúpula militar.

Fonseca faz uma única referência ambígua a Sergio Moro —o ex-juiz está passando à condição de esqueleto a ser mantido no armário—, mas defende seu legado como se não estivesse, hoje, mais que provado o caráter desonesto do julgamento contra o ex-presidente Lula e o papel da Lava Jato na vinculação entre a derrubada de Dilma e o triunfo do bolsonarismo.

Mesmo com Lula vetado, a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) naufragou. Assim, as eleições de 2018 levaram a direita tradicional à sua hora da verdade. O segundo turno teria sido uma “escolha difícil” —ou, nas palavras mais rebuscadas que Fonseca usou na época, uma farsa extremista.

Não é surpresa, contudo, constatar que toda a direita tradicional optou por Bolsonaro. Afinal, não era razoável ter percorrido todo esse caminho —a agitação de 2013, a Lava Jato, o golpe de 2016, a destruição do Estado de Direito— para permitir um novo governo da esquerda moderada.

Bolsonaro, afinal, comprometeu-se com a continuidade do serviço do golpe. Não é à toa que o grande ausente da narrativa de Fonseca seja o ministro da Economia, Paulo Guedes, seu irmão de armas no fundamentalismo de mercado. Guedes é tosco, truculento e está em casa no governo atual, mas é também um apóstolo do livre mercado, da desigualdade e do Estado falsamente chamado de “mínimo” —pois pode ser mínimo na proteção social, mas tem que ser forte na capacidade repressiva, para manter uma ordem baseada na exclusão.

Para esse projeto, a democracia, na qual bate um coração igualitário, é sempre um problema a ser contornado. O desgosto com a democracia é coerente com a opção doutrinária de Fonseca.

Qualquer que seja o guru escolhido (Friedrich Hayek, Milton Friedman, Ludwig von Mises, Robert Nozick), o ultraliberalismo tem como marca a perene desconfiança com as regras democráticas, que colocariam em risco uma “liberdade” que, por definição, só se manifesta no jogo desregulado do mercado.

Os excessos de Bolsonaro incomodam o colunista da Folha, mas a democracia também o incomoda. Incapaz de fazer a autocrítica de suas opções no passado recente, ele permanece preso à fantasia impraticável de um governo antipovo, mas “limpinho”, capaz de exacerbar a exploração sem ampliar a repressão e sufocar a cidadania.

Não faltam motivos para condenar Bolsonaro, mas, se um deles inclui o apreço à democracia e ao Estado de Direito, não é possível deixar de condenar igualmente a Operação Lava Jato e o impeachment fraudulento da presidente Dilma Rousseff.

*
LUIS FELIPE MIGUEL

Apesar de seu governo catastrófico, Bolsonaro está mais forte que no início do mandato

Vitória de aliados para o comando da Câmara e do Senado mostra que presidente navega com competência nas águas poluídas da alta política

3.fev.2021 às 8h00
LUIS FELIPE MIGUEL

Professor da UnB (Universidade de Brasília), é coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) e autor de "O Colapso da Democracia no Brasil" (Expressão Popular), entre outros livros

[resumo] Parlamentar de trajetória medíocre, Bolsonaro contrariou as previsões de que seria um presidente fraco, tutelado por partidos ou políticos mais experientes, avalia professor. Em dois anos de mandato, ele conquistou ampla base no Congresso, esvaziou os poderes dos antes tidos como superministros, sujeitou as Forças Armadas a suas políticas, ampliou sua influência sobre a polícia e o Ministério Público e estremeceu as bases da centro-direita.

Para quem passou 28 anos como deputado do baixíssimo clero e nunca chegou à dezena de votos nas vezes em que disputou a presidência da Câmara, Jair Bolsonaro mostrou invejável profissionalismo na eleição desta segunda (1º/2) para o comando da Casa.

Elegeu Arthur Lira (PP-AL) no primeiro turno, com uma margem mais dilatada do que se anunciava (302 votos). O custo, segundo as estimativas correntes, foi de R$ 3 bilhões —valor que daria para comprar uma fábrica de leite condensado. Mas o investimento certamente compensa, pelos cálculos de Bolsonaro.

Rodrigo Maia (DEM-RJ) foi humilhado e ficou gravemente ferido o projeto de consolidar um polo de oposição de centro-direita no Congresso. O DEM, sob a liderança paroquial de ACM Neto, transita para a órbita do Planalto.

Lira inaugurou seu mandato com a manobra que tirou adversários da mesa diretora da Câmara. Diante de críticas, ​recuou e cedeu cargos à oposição para evitar o bloqueio de pautas. O banditismo aberto, à la Cunha, retorna ao centro do Legislativo. O apoio do centrão sempre é incerto, a conta sempre é renovada. São parlamentares que não se vendem, apenas se alugam.

Bolsonaro, todavia, com certeza fica satisfeito de contar, em posição tão estratégica, com alguém que não tem limites e que fala a mesma língua. Não custa lembrar que Eduardo Cunha só foi retirado do cargo por decisão do Supremo, depois que já havia cumprido seu papel e se tornara uma vulnerabilidade para o governo Temer. É difícil acreditar que Lira siga pelo mesmo caminho, sobretudo a tempo de que um eventual processo de impeachment contra Bolsonaro seja eficaz.

Não se trata apenas do impeachment. Um presidente da Câmara alinhado ao governo permite que avancem as pautas de sua conveniência. Por um lado, a agenda de Paulo Guedes, que garante o apoio das camadas burguesas e a simpatia da mídia corporativa que vocaliza seus interesses e que sustenta a ficção de divisão do bolsonarismo entre uma equipe econômica “racional”, “competente”, e uma ala caracterizada como “ideológica” ou mesmo “psiquiátrica”.

Por outro, a chamada agenda de costumes, que na verdade incide sobre direitos e liberdades, incluindo da mordaça nas instituições de ensino e limitações no direito ao aborto ao esvaziamento de normas de combate ao racismo, ao sexismo e à homofobia.

Mesmo que essa pauta não vingue, por resistências entre os próprios parlamentares ou por intervenção do STF, a tramitação é útil para promover a agitação nas bases militantes e fortalecer a coesão em torno do "projeto regenerador do mito".

O fato é que Bolsonaro, a despeito de todos os prognósticos negativos, está navegando com competência nas águas poluídas da “alta política” de Brasília e se encontra hoje bem mais forte do que no início do mandato —apesar de seu governo catastrófico, que produz a cada dia um país mais pobre, mais violento, mais burro e mais desrespeitado pelo resto do mundo.

Bolsonaro foi um parlamentar menos que medíocre, maneja um vocabulário limitado, ostenta uma incultura chocante, não possui curiosidade intelectual. Seu horizonte sempre foi o do pequeno meliante —negócio de pochete com lona de paraquedas do Exército, rachadinha de gabinetefuncionária fantasmaapartamento “pra comer gente”.

Na Presidência, sabe que precisa deixar Guedes contentar seus grandes eleitores com a pauta de desnacionalização da economia, desmonte do Estado e aumento da taxa de exploração. Sua vinculação real, contudo, é com a miuçalha: multas de trânsito, importação de armas, impostos de videogame. E, acima de tudo, blindar a si mesmo e aos filhos contra a Justiça.

Sua chegada à Presidência foi, é bom lembrar, uma consequência não antecipada do assalto à democracia brasileira. A extrema direita foi chamada às ruas para pedir a derrubada de Dilma Rousseff, era útil para acuar o PT e seus aliados, mas, imaginava-se, seria novamente recolhida ao canil quando se tornasse desnecessária.

O projeto era, após o interregno Temer, entregar a Presidência a algum político também de velha cepa, mas que contasse com a legitimidade da eleição popular. Faltou, no entanto, combinar com os paraguaios, isto é, os eleitores, que, teimosos, continuavam indicando voto em Lula. Foi preciso, então, afastar e prender arbitrariamente o ex-presidente.

Ainda assim, o candidato preferido não se viabilizou. Geraldo Alckmin montou uma candidatura tão forte, tão cheia de apoios, que simplesmente não decolou —foi o famoso “zepelim de chumbo”, de que falava Orestes Quércia.

Quando as opções se resumiram a duas, nossa centro-direita “civilizada” não teve dúvidas. Entre um apologista da tortura, com nexos com o crime organizado, autoritário, iliberal e de indisfarçável catinga fascista, e um professor educado e afeito ao diálogo, representante da ala mais moderada de um partido moderado de esquerda, optou em bloco por Bolsonaro.

Afinal, o ganho que o golpe de 2016 trouxera não podia ser ameaçado: bloquear a presença do campo popular como interlocutor ativo do debate político.

Era razoável pensar que, dadas as evidentes limitações cognitivas do novo supremo mandatário da nação, o governo seria tutelado por outros. Bolsonaro, então, teria menor potencial ofensivo. Usaria a faixa, posaria para as fotos, daria pitacos nos temas de tiozão do churrasco que lhe interessavam, mas a política de verdade ficaria com os adultos. Pois foi isso que não aconteceu.

Nos dois primeiros anos de mandato, ele paulatinamente ganhou soberania sobre seu próprio governo. Um dos superministros, Sergio Moro, foi eliminado com desgaste político mínimo. Bolsonaro teve sangue frio suficiente para mantê-lo ao longo do escândalo da Vaza Jato, mostrando que não se curvava a pressões, e depois empurrou-o para a demissão.

O outro superministro, Paulo Guedes, começou o governo cantando de galo; a cada duas ou três semanas ameaçava renunciar caso não fosse obedecido. Já engoliu a empáfia e se submete docilmente às ordens do chefe.

O vice, general Mourão, entendeu rapidamente que deveria ficar calado. Não só ele: Bolsonaro ampliou o comprometimento das Forças Armadas com seu governo, mas afastando a tutela que os generais queriam lhe impor. Enquadrou também os olavistas. O guru de Richmond passou de candidato a eminência parda a um apoiador digital como qualquer outro, às vezes esbravejando impropérios, às vezes mendigando favores.

Bolsonaro também acertou o passo nas negociações com o centrão e passou a dispor de uma base alargada no Congresso, ainda que instável, como toda base parlamentar venal.

Ampliou sua influência sobre as polícias, aproveitando a ambiguidade do texto constitucional sobre a hierarquia destas corporações e avançando na direção de uma meta estratégica: garantir a lealdade pessoal de corpos armados. Colocou em cargos sensíveis do Ministério Público gente disposta a protegê-lo.

Entre concessões e ameaças, chegou a um modus vivendi com o Supremo: ministros do STF vêm periodicamente a público afiançar que o presidente da República não constitui nenhuma ameaça à democracia brasileira, muito pelo contrário. Assim, Bolsonaro alcançou um objetivo para ele inegociável: os vários esqueletos que o assombravam (da rachadinha ao assassinato de Marielle Franco) estão há muito já fora dos armários, mas perderam a capacidade de atingi-lo.

A pandemia do coronavírus levou, de forma inesperada, a uma aceleração do distanciamento entre Bolsonaro e os chefes da direita mais tradicional que em 2018 se viram constrangidos a apoiá-lo. Em aposta arriscada, ele jogou tudo no negacionismo e na irracionalidade, sob aplauso do setor mais obtuso do empresariado (Havan, Madero), sacrificando as políticas de saúde em favor do fortalecimento de sua persona política.

Mostrou que entende o Brasil: um país que despreza a vida, seja por interesse ou por desespero, e que cada vez mais se espelha na violência. Graças a isso e ao auxílio emergencial aprovado contra sua vontade, mas que soube capitalizar a seu favor, manteve altos índices de aprovação popular mesmo em meio ao colapso do atendimento hospitalar e da morte de mais de 200 mil brasileiros.

É impossível calcular com exatidão quantas vidas a sabotagem às medidas de combate à pandemia já custou e ainda vai custar, da campanha contra o isolamento social e da promoção da cloroquina até a ausência de vacinação. Raras vezes na história da humanidade houve um governo tão evidentemente lesivo ao interesse de seu país e de seus habitantes.

Todavia, diante de um governo assim, as famosas instituições não foram capazes de produzir um consenso para retirá-lo do cargo. A preocupação dominante, que Maia manteve no centro de seu discurso mesmo ao cabo do traumático processo de sucessão na Câmara, é evitar a “instabilidade” que um processo de impeachment ocasionaria.

Apesar de toda a campanha de desinformação e da verdadeira lavagem cerebral promovida pelos circuitos ideológicos da extrema direita, é implausível que o agravamento das crises econômica e sanitária não eroda ainda mais o apoio popular a Bolsonaro. A preocupação principal dele, porém, parece ser outra.

Ele está consolidando seus laços com o centrão e agora inseriu uma cunha na relação entre PSDB e DEM. Já anulou Moro, agora enfraquece a candidatura de Doria e dissipa fantasias como Luciano Huck ou Mandetta. Caminha para reproduzir, em 2022, o confronto com um candidato do PT, ciente de que, na hora H, como diria Pazuello, seus desafetos na elite política conservadora, no empresariado e na mídia corporativa engolirão as mágoas, reeditarão o discurso dos “dois extremos” e marcharão a seu lado.

Há sagacidade nesse cálculo. Não muito tempo atrás, quem falasse nas raposas da política brasileira pensaria em políticos matreiros, ardilosos, gente da escola dos mineiros, como Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves ou José Maria Alkimin. Hoje, a truculência miliciana de Bolsonaro dá conta do recado. Esse também é um indício forte do quanto estamos regredindo.


Utopia capitalista da Ford na Amazônia venceu como modelo predatório

Passou da hora de impeachment de Bolsonaro começar, afirma criminalista

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Derrota de Trump prenuncia ataque inédito e violento da direita radical, diz Benjamin Teitelbaum

Sai no Brasil livro sobre o Tradicionalismo, escola que influenciou Steve Bannon e Olavo de Carvalho

Marcos Augusto Gonçalves

Editor da Ilustríssima e editorialista. Foi editor da Ilustrada, de Opinião e correspondente em Milão e em Nova York

[RESUMO] A derrota de Donald Trump NÃO deve arrefecer o radicalismo de direita nos EUA, onde grupos extremistas ganharam protagonismo político e dão sinais de que se preparam para confrontos mais violentos, avalia Benjamin Teitelbaum, autor de livro sobre o Tradicionalismo, escola filosófica que rejeita a concepção moderna de progresso e influenciou Steve Bannon e Olavo de Carvalho.

Benjamin Teitelbaum, etnógrafo e pesquisador norte-americano especializado em movimentos radicais de direita, diz estar muito preocupado com o futuro

“Temo que possamos ver algo que não vimos no Ocidente há muitos anos: 

uma direita radical ampla, que se sente encorajada, confiante na extensão de seu apelo e completamente DESCOMPROMISSADA com o processo democrático e com a pacificação e a moderação que ele traz.”

Essa movimentação extremista, que se insufla nos EUA e EM OUTROS PAÍSES, estaria dando sinais preocupantes —a invasão do Capitólio é só um deles — de que “prepara o terreno para confrontos mais violentos”.

Steve Bannon e Olavo de Carvalho antes da exibição de documentário sobre o governo de Jair Bolsonaro, em Washington - Joshua Roberts - 16.mar.19

Teitelbaum é autor de “Guerra pela Eternidade”, livro publicado em 2020 em seu país, que chega agora ao Brasil pela Editora da Unicamp. É uma incursão muito bem-documentada, ancorada em farta pesquisa e entrevistas com os personagens envolvidos, sobre o encontro do autoritarismo e do populismo de direita, no poder em diversos países, com ideólogos influenciados por teses extremistas oriundas de filosofias obscuras que pareciam condenadas ao limbo das seitas subterrâneas.

A principal delas, espécie de matriz para pregadores que se batem contra a democracia ocidental, o materialismo capitalista ou comunista e o mundo internacionalizado é o Tradicionalismo —que o autor prefere grafar assim, com T maiúsculo, para sublinhar a diferença em relação ao uso corrente do termo.

Essa escola espiritual e filosófica alternativa, que manteve um grupo eclético, ainda que minúsculo, de seguidores ao longo dos últimos cem anos, veio a se combinar com os nacionalismos autoritários emergentes, delineando “um radicalismo ideológico raro e profundo”, explica o autor.

Seus apóstolos contemporâneos, com reservas e divergências na interpretação e aceitação de alguns princípios, são nomes que passaram repentinamente a frequentar palácios e as páginas políticas, como Steve Bannon, Aleksandr Dugin e Olavo de Carvalho.

Bannon, o propagandista midiático da alt-right, comandou a campanha de Donald Trump à Presidência dos EUA e foi estrategista-mor da Casa Branca; Dugin, o profeta geopolítico da Eurásia e do mundo multipolar, é conselheiro de Putin; Olavo, guru da família Bolsonaro, responde por indicações estratégicas no governo brasileiro —como o chanceler Ernesto Araújo, seu pupilo e ex-aluno. Os três, como mostra o livro, com pormenores ricos e bizarros, se conhecem e já se dedicaram a longas conversas e debates entre si.

O patriarca do Tradicionalismo foi um francês convertido aos islamismo chamado René Guénon, que morreu em 1951, no Cairo. Aderiu ao Islã considerando que seria um entre outros caminhos válidos em busca de um objetivo maior.

Ele e seus seguidores acreditavam que existiu um dia uma religião —“a Tradição, o cerne, ou a Tradição perene”— que se perdeu, deixando fragmentos dispersos de seus valores em diferentes religiões. O pensamento de Guénon, explica Teitelbaum, é estruturado por um entendimento peculiar de tempo e sociedade. A ideia básica vem da crença do hinduísmo de que a história percorre um ciclo de quatro idades: a de ouro, a de prata, a de bronze e a sombria —que antecede o retorno ao primeiro e glorioso estágio.

A idade de ouro corresponde ao poder dos sacerdotes; a de prata, ao dos guerreiros; a de bronze, ao dos comerciantes; e a das trevas, à desordem e à eliminação da espiritualidade. As duas primeiras têm protagonistas guiados por ideais. As seguintes representam a degeneração materialista.

“Conforme o tempo passa, a condição humana e o universo como um todo pioram até um momento cataclísmico, no qual a escuridão absoluta explode em ouro absoluto, e a decadência recomeça.”

Essa concepção circular separa o Tradicionalismo do conservadorismo comum. Ela traz em si a rejeição à ideia moderna de progresso, uma vez que o caminho para superar a era das trevas é aprofundar a decadência, num processo de destruição que levará à renovação do ciclo. “O passado não deve ser superado, nem se deve escapar dele; ele é também o nosso futuro”, resume Teitelbaum no livro.

Depois de Guénon, o barão italiano Julius Evola acrescentou elementos ao pensamento Tradicionalista, acentuando sua inclinação para as políticas de extrema direita: “Além de uma hierarquia com a espiritualidade no topo e o materialismo na base, Evola propôs que a raça também ordenava os seres humanos, com os mais brancos e arianos constituindo o ideal histórico acima daqueles com a pele mais escura – semitas, africanos e outros não arianos. Entre as hierarquias que ele prestigiava estavam, ainda, as que colocavam a masculinidade acima da feminilidade, o Norte geográfico acima do Sul e até uma que prescrevia posturas corporais e olhares, segundo a qual os que olham para cima e adoram o Sol seriam mais virtuosos do que quem olha para o chão.”

Embora os governos autoritários e populistas de direita em cena não possam ser resumidos aos contornos do Tradicionalismo tal como aqui sucintamente descrito, não é difícil perceber no amálgama ideológico que compartilham alguns de seus ingredientes centrais.

As ideias de decadência espiritual do Ocidente, de dissolução das hierarquias nas sociedades de massas, de perda das características comunitárias na globalização, da reusa ao progresso e da busca de um passado mítico, que restaure o primado dos sacerdotes e dos guerreiros, podem ser discernidas no substrato doutrinário de movimentos extremistas contemporâneos —tenham alcançado o poder formal ou atuem como milícias sob peles e chifres, fantasias verde-amarelas, bandeiras separatistas ou paramentos do fundamentalismo religioso. A configuração é complexa e desafia esquemas político-ideológicos consagrados.

Não há dúvida de que a derrota de Trump nas eleições americanas pode ser vista como um triunfo da democracia, e que o governo de Joe Biden poderá ter algum efeito auspicioso no plano internacional, embora provavelmente reduzido. Na avaliação de Teitelbaum, nada mudará, por exemplo, nas relações com a Rússia e outros governantes autocráticos.

“Acho que a questão está mais aberta no caso do Brasil. Os esforços para realinhar a política externa brasileira os EUA e distanciá-la da China foram baseados, em parte, na afinidade pessoal com Trump. Trump, por outro lado, nunca pareceu especialmente interessado no Brasil. Muito do entusiasmo por Bolsonaro parecia vir de Bannon —e isso depois que ele deixou a Casa Branca”, diz. A queda do amigo americano poderia acentuar, de alguma forma, o isolamento do Brasil, que já se desenha no mundo democrático esclarecido.

“Outras nações nas quais Bolsonaro poderia encontrar afinidades pessoais e ideológicas como as que ele esperava construir com Trump —países com administrações populistas de direita como a Polônia, Hungria ou Israel— não constituem de forma alguma um bloco geopolítico. Portanto, prevê-se uma situação de crescente isolamento internacional aproximando-se de Bolsonaro” —talvez com uma retenção subterrânea das relações com a China, conduzida, se não propriamente pelo governo, pelo aparato de Estado.

Na hipótese de desentendimentos mais agudos com a administração democrata que assume na quarta (20), especialmente na agenda ambiental, as coisas, na visão de Teitelbaum, podem se agravar. “Imagine os EUA impondo sanções pela exploração da Amazônia e o que uma economia enfraquecida no Brasil significaria para as chances eleitorais de Bolsonaro”, especula.

O fim da era Trump no poder, contudo, não deverá baixar a fervura do radicalismo de direita que, resignado em décadas passadas a seu confinamento histórico, vê-se agora empoderado, como parte relevante do jogo político “mainstream”.

“A política eleitoral e o processo democrático sempre foram prêmios de consolação para genuínos radicais de direita: como outros fanáticos ideológicos, eles entraram na política sabendo que isso implicaria em concessões e ajustes para permanecerem populares. Eles foram forçados a isso pelo fato de não existirem outras opções, pois na maioria das nações democráticas eram pequenos e marginalizados para encenar qualquer tomada revolucionária ou ganhar apelo de massa ao se apresentarem aos eleitores como realmente são.”

Agora, contudo, a situação mudou. Movimentos como a alt-right participaram da grande coalizão de apoio ao candidato que chegou ao poder na maior potência global em 2016. Ganharam “mais recepção na política e na mídia dominante do que jamais poderiam ter imaginado”.

Das dobras obscuras do sistema, ascenderam ao grande palco iluminado da política. E é desse platô que passam a se expressar. Como reagirão agora, indaga Teitelbaum, “quando acreditam que nosso sistema democrático foi manipulado contra eles e a vitória de seu candidato foi roubada?”.

Certamente não voltarão para casa, esquecer tudo e comer pipoca.

Sim, faz todo o sentido estar preocupado com o futuro.

Guerra pela Eternidade: o Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista

  • Preço R$ 66 (248 págs.)
  • Autor Benjamin Teitelbaum
  • Editora Unicamp
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Opinião: Aline Ramos - No drama com Whindersson, Luísa Sonza responde pelo crime de ser mulher

Reprodução / Instagram
Imagem: Reprodução / Instagram
Aline Ramos

Colunista do UOL

11/05/2021 07h44

Luísa Sonza já negou inúmeras vezes que tenha traído Whindersson. Entretanto, parece que alguns só acreditaram nela agora que o comediante se manifestou e disse com todas as letras que não rolou traição.

Faz um ano que Whindersson e Luísa anunciaram publicamente que o casamento deles chegou ao fim. Porém, ao que tudo indica, essa história vai perseguir os dois por muito tempo, principalmente Luísa

Marido de ex de Bolsonaro intimida brasileiro que testemunhou separação

E sabe por quê? Luísa é mulher.

Mulher não vale nada

Whindersson passou a madrugada desta terça-feira (11) rebatendo as acusações no Twitter de que foi omisso e sacana por não ter esclarecido antes os boatos de traição. Alguns fãs chegaram a falar que estavam decepcionados com a postura dele.

Só que Whindersson é o menor dos problemas nessa história. Se acreditassem no que Luísa vem dizendo, ninguém precisaria que ele confirmasse. Essa situação reforça como a palavra de uma mulher tem pouco valor, mesmo sendo uma das cantoras mais populares do Brasil.

Perigosas, ardilosas e sedutoras

A palavra de uma mulher é frequentemente questionada porque somos tratadas como perigosas, ardilosas e sedutoras desde que nascemos. Quer uma prova? Você com certeza conhece algum homem que já achou que uma mulher estava dando mole para ele quando ela estava apenas existindo. Para muitos homens, mulher é o próprio diabo.

Mais que fofoca, machismo

Luísa não apenas é uma mulher, mas uma mulher que explora a sua sexualidade em sua arte e no trabalho. E isso tem um preço alto. Acreditam tanto que ela tenha sido infiel exatamente por esse motivo. Afinal, para muita gente, uma mulher livre sexualmente é capaz de tudo e não vale nada. E é por isso que ela não é só alvo de fofocas, mas de ataques misóginos constantes.

Você responde pelo quê?

Obviamente, a situação não é fácil para o Whindersson. O término de um relacionamento pode ser doloroso para os dois, mas o peso das cobranças e acusações é desigual. Enquanto ele responde a questionamentos invasivos, Luísa responde por ser quem ela é, uma mulher.

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Eva Wilma foi minha primeira namorada | Joaquim Ferreira dos Santos - O Globo

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell na Passeata dos Cem Mil

Eva Wilma foi minha primeira namorada e eu não terei ciúme se outros tantos, neste momento em que choramos a sua morte, revelarem que também foi com ela a iniciação sentimental de cada um, aquele brotinho maroto que pelo tubo da televisão mandava uma piscadela com o aviso fundamental – o amor pode ser uma coisa leve, divertida, e se não for assim é hora de esperar um outro capítulo e tentar que assim o seja.

Eu era um garoto que dessa matéria não sabia muito além do narrado por Cely Campelo em “Estúpido cupido”, e era o que eu entendia quando via pela televisão as trapalhadas românticas de Eva Wilma com John Herbert em “Alô, doçura”. Amar não era só o derramamento de lágrimas com que se debulhava minha mãe, vítima das novelas sombrias da Rádio Nacional. Aquelas histórias da TV Tupi aproximavam de maneira inédita o amor com humor. “Dor” começava a ser uma rima exclusiva do samba-canção.

Foi no tempo do merthiolate e do mercurocromo, remédios que curavam todas as feridas do corpo, mas contra as da alma não havia emplastro ou biotômico que aplacasse os males do abandono ou da traição – e lá se ia o amor em decúbito dorsal, banhado em formicida com guaraná. Amar era uma tragédia sem fim. A Luta Democrática vendia mais quando a manchete era um crime passional, e eu estou me lembrando da felicidade de namorar Eva Wilma quando, na mesma época, a poucos quilômetros da minha casa, a Fera da Penha tacava fogo na filha do amante que a abandonara.

Feliz do país que teve a modernidade amorosa divulgada na televisão pela vivacidade serelepe de Eva Wilma, uma mulher que aos meus olhinhos infantis parecia ter no toucador toda a linha de produtos mais avançados da cosmética feminina, usar Pond’s para amaciar as mãos, Cilion para fortalecer os cílios e evidentemente não lhe faltavam os poderes de perfume embriagador do trio maravilhoso (talco, sabonete e colônia) Regina.

Eu seria desonesto se não confessasse que naqueles mesmos ano eu flertava com as certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as normalistas do Instituto de Educação, as vedetes do Carlos Machado e especialmente com Rose Rondelli, a Miss Campeonato da Rádio Mayrink Veiga. Mas era só pulsação sexual. Eva Wilma, embora bonita, seduzia por outros valores que não os da garota enxuta. Tinha um quê de esperteza no jeito de aturar o machismo do John Herbert, demonstrava em cena um it que para sempre me seria irresistível – o das mulheres que zombavam, naquele momento ainda de soslaio, com um sorrisinho no canto da boca, de uma sociedade ridiculamente patriarcal e televisamente representada pelo seriado “Papai sabe tudo”.

Em minha foto preferida Eva Wilma não está num estúdio de televisão ou num palco de teatro, mas no meio da rua, no papel de apenas mais uma mulher brasileira. É aquela em que aparece na passeata dos cem mil, em junho de 1968, e forma de mãos dadas com Leila Diniz, Norma Bengel e Tônia Carrero, uma comissão de frente do protesto contra a ditadura militar. Estão todas de minissaia, absolutamente irresistíveis e poderosas, marchando contra a caretice e a opressão. Foi uma grande atriz e, discretamente, sem discurso, na vida real afirmou a força das pautas femininas. Eva Wilma morre num momento em que os jornais vão republicar aquela foto e a atualidade das faixas contra a censura, pedindo liberdade, é de arrepiar.

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