O TERCEIRO governo LULA

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Biden não é Roosevelt - Plínio de Arruda Sampaio Jr.

O terceiro governo Lula

“Isso é um absurdo”: como pouco a pouco percebemos que o Brasil está morto

Jean Wyllys diz que Ciro é "coronel mentiroso" e Tico Santa Cruz inventa que acusação seria "xenofobia"

Paul Krugman: Aprendendo a viver com a baixa fertilidade nacional

Paul Krugman: Os republicanos continuam em guerra contra os trabalhadores

Estúdio rejeitou sequência de 300 centrada em romance gay, diz Zack Snyder

89MPE pede 'medidas urgentes de proteção' para vereadora Benny Briolly

Ronaldo Giovanelli NÃO PAGA condomínio e tem apartamento LEILOADO

Thaís Oyama - Bolsonaro quer só pretexto para decreto; fala de Braga Netto é luz vermelha

É possível reduzir os riscos em atos de rua na pandemia

A ilusão americana

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Biden não é Roosevelt - Plínio de Arruda Sampaio Jr.

Por Plínio de Arruda Sampaio Jr.

Joe Biden

Por Plínio de Arruda Sampaio Jr. 

Pressionado pela crise política, social e sanitária colossal, pela crescente dificuldade de conter a emergência da China no cenário econômico internacional e pela urgência de deter o desastre ambiental que ameaça o planeta, Joe Biden apresenta-se como o homem providencial para deter a escalada da barbárie capitalista. Para tanto, promete resgatar o papel do Estado norte-americano como artífice do desenvolvimento capitalista, agente da coesão social interna e guardião incontestável do mundo livre. A distância entre o que se fala e o que se faz é abismal.

Para além da propaganda oficial, que procura caracterizá-lo como a antítese de Reagan, uma inesperada reencarnação de Franklin Roosevelt, o balanço dos primeiros 100 dias de seu governo não deixa margem para grandes ilusões.

A diversidade identitária no comando dos postos estratégicos serve apenas para camuflar o rigoroso controle do grande capital monopolista e financeiro sobre o Estado. Os negros, latinos, mulheres e lgbts que compõem a alta hierarquia do governo Biden vieram diretamente dos quadros das grandes corporações ou são vinculados a centros de estudos e consultorias estratégicas financiadas pelo grande capital. Chama a atenção o grande contingente de auxiliares oriundos do Conselho de Relações Exteriores, também conhecido como “Wall Street Think Tank” (A cabeça pensante de Wall Street), dentre os quais destaca-se a figura da vice-presidente, Kamala Harris. Em poucas palavras, o alto comando de Biden foi treinado para procurar soluções para os problemas do neoliberalismo por dentro do próprio neoliberalismo.[i]

Para além da retórica progressista para agradar a base eleitoral e da preocupação em diferenciar-se de Trump, o novo presidente dos Estados Unidos, em suas primeiras iniciativas, limitou-se basicamente a: mudar a política sanitária, incentivando o distanciamento social e a vacinação em massa da população; restaurar a política externa do governo Obama, reposicionando os Estados Unidos nos foros internacionais multilaterais e revitalizando as ações ofensivas ao redor do mundo; e reforçar a política de gasto público para mitigar os efeitos devastadores da crise econômica, aumentando a dose do receituário de política fiscal e monetária do FMI, que já vinha sendo aplicado pela administração Trump.

Até o momento, a promessa de aumentar a tributação sobre as grandes riquezas, as medidas de ajuda às famílias americanas e o plano de investimentos em infraestrutura ­– projetos que compõem seu programa de “Reconstruir Melhor” – não passam de belas intenções. Quando examinadas com objetividade, as três iniciativas revelam-se bem mais modestas e convencionais do que o alardeado pelos que imaginam a administração Biden como uma ruptura com o neoliberalismo e o início da transição para um capitalismo edulcorado e ecológico.

A lei proposta pelos democratas para aumentar o imposto de renda de quem ganha mais de US$ 400 milhões por ano apenas revoga as reduções indiscriminadas dos anos Trump, recompondo o que existia no fim do governo Obama. A elevação da tributação sobre ganhos de capital na bolsa de valores e outras medidas direcionadas a eliminar os aberrantes privilégios fiscais do 1% mais rico, medidas que de fato representariam uma significativa inovação, dependem da improvável aprovação da oligarquia que controla o Congresso Nacional.[ii]

O projeto de auxílio às famílias – Plano para as Famílias Americanas –, orçado em US$ 1,8 trilhão, a ser gastos ao longo de 10 anos, não vai além de uma política assistencialista – no estilo Bolsa Família e PROUNI. A baixa prioridade dada às famílias pobres fica patente quando se constata que os gastos anuais com elas representariam menos de 1% do PIB – quatro vezes menor que o orçamento do Pentágono em 2021. Ao invés de enfrentar as causas da pobreza – a progressiva degradação do mercado de trabalho que aumenta o desemprego estrutural e rebaixa sistematicamente os salários –, a estratégia é administrar a pobreza, em claro reconhecimento da impotência para eliminá-la.[iii]

Por fim, os investimentos na recuperação da infraestrutura revelam-se muito aquém do necessário para recompor a cambaleante competitividade internacional dos Estados Unidos e dar início à transição para uma economia verde – seus dois objetivos primordiais. As despesas de cerca de US$ 2,3 trilhões ao longo de oito anos previstas no Plano Americano de Trabalho, o que equivale a um gasto médio anual de US$ 290 bilhões (cerca de 1,2% do PIB), apenas atenuariam a velocidade da decadência, mas não poderiam evitá-la e muito menos deter a aceleração do aquecimento global. Na verdade, tanto o declínio do império norte-americano como a escalada da crise ambiental são efeitos inexoráveis da lógica perversa da arbitragem salarial e depredação da natureza em escala global, impulsionada pelas grandes corporações que comandam o governo Biden.[iv]

O abandono do neoliberalismo sanitário de Trump e o reforço das medidas emergenciais de combate à recessão tiveram um impacto imediato na vida dos norte-americanos. Nos 100 primeiros dias do governo Biden, sob o efeito da política de vacinação em massa, as infecções diárias por coronavírus foram divididas por cinco, e os óbitos, por mais de quatro. O relativo controle sobre a epidemia de coronavírus veio acompanhado de uma vigorosa recuperação econômica. Turbinado pela injeção adicional de US$ 1,9 trilhão na economia, o nível de atividade do primeiro trimestre registrou expansão de 2,6% em comparação ao trimestre anterior, convalidando a expectativa do FMI de uma expansão anual do PIB da ordem de 6,4%.

A reversão da recessão suaviza o impacto brutal da crise capitalista sobre a vida dos trabalhadores, mas seria uma ilusão imaginar que o ativismo fiscal e monetário da política econômica de Biden poderia impulsionar um novo ciclo de expansão capitalista, como se alardeia em muitos círculos saudosistas. A euforia dos anos vinte, após o fim da recessão provocada pela gripe espanhola, não se repetirá. O contexto histórico é outro.[v]

Sem liquidar o excedente absoluto de capital e sem abrir novas frentes de inovação e difusão do progresso técnico, não há como contrabalançar a tendência decrescente da taxa de lucro e desbloquear a destruição criadora que impulsiona o desenvolvimento capitalista. E mesmo que houvesse um ciclo de crescimento sustentável, não haveria nenhuma razão para supor a possibilidade de uma relação virtuosa entre acumulação de capital, geração de emprego e aumento de salário.[vi]

O capitalismo do século XXI não é o do século XX. Sem colocar em xeque a causa do problema – a livre circulação do capital em escala transnacional – é impossível evitar seus efeitos deletérios. Globalização dos negócios, instabilidade econômica, rebaixamento do nível tradicional de vida dos trabalhadores, desigualdade social, crise da democracia liberal, recrudescimento das rivalidades nacionais, acirramento da luta de classes e depredação do meio ambiente são processos inerentes ao capitalismo de nosso tempo.

Não há solução nacional para a crise que abala a economia mundial e não há liderança internacional capaz de articular uma política econômica minimamente coordenada para sua superação. O capitalismo de nosso tempo, como dizia o filósofo húngaro István Mészáros, tampa um buraco cavando outro maior ainda. Sem uma insurreição dos trabalhadores contra a ordem burguesa e um programa político que vá além do capital, colocando a urgência de mudanças radicais no modo de viver e produzir, não será possível evitar a escalada da barbárie capitalista.

Notas

[i] Para uma análise detalhada da formação acadêmica e articulação ideológica dos trinta principais quadros de comando do governo Biden, ver artigo de Laurence H. Shoup, “The Council on Foreign Relations, the Biden Team, and Key Policy Outcomes”, no Monthly Review, May 2021. (https://monthlyreview.org/2021/05/01/the-council-on-foreign-relations-the-biden-team-and-key-policy-outcomes/).

[ii] O exame sintético da proposta tributária do governo Biden encontra-se em Sam Pizzigati, “President Biden’s Tax-the-Rich-Plan: Just how Bold?”, 29 de abril, 2021. (https://inequality.org/great-divide/president-bidens-tax-the-rich-plan-just-how-bold/).

[iii] O Plano Famílias Americanas de Biden encontra-se detalhado em https://en.wikipedia.org/wiki/American_Families_Plan

[iv] A proposta de Biden de transição para uma economia verde é comparada com a que havia sido formulada por Bernie Sanders em https://newleftreview.org/sidecar/posts/whose-green-new-deal

[v] A diferença entre a situação econômica nos anos vinte do século XX e a atual é examinada por Michael Roberts em seu artigo “The roaring twenties repeated?”, de 18/04/2021. In: (https://thenextrecession.wordpress.com/2017/03/09/learning-from-the-great-depression/)

[vi] Os danos provocados pela crise do coronavírus e a gravidade de seus efeitos de médio e longo prazos sobre o mercado de trabalho são reconhecidos pelo próprio FMI em seu último relatório World Economic Outlook: Managing Divergent Recoveries, April 2021, especialmente capítulos 2 e 3.

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O terceiro governo Lula - Julian Rodrigues

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Por Julian Rodrigues 

Bolsonaro está em seu pior momento, mas segue na ofensiva – mesmo sangrando na CPI. Não deixa de mobilizar cotidianamente sua base neofascista. Evitar a tentação do wishful thinking. Nada indica que Bolsonaro sofrerá impeachment, muito menos que não estará no segundo turno nas eleições de 2022. Por outro lado, fica cada vez mais nítido que não há espaço para terceiras vias. Está dada a polarização entre a extrema-direita e a esquerda.

Enganam-se os que subestimam o bolsonarismo. Trata-se de um movimento político. Aliança tenebrosa entre o “partido militar”, milícias, fundamentalistas religiosos, direitistas de todos tipos. Enlaçados com o mercado financeiro, ruralistas, neoliberais de diversas cepas.

Ocorre que a candidatura Lula – nesse contexto de destruição – tende a se tornar, na prática, uma plataforma de união nacional contra o fascismo. Isso pode parecer positivo – mas carrega inúmeros riscos.

Em primeiro lugar: um terceiro governo Lula terá sido fruto de mobilizações sociais, de imensa frustração popular com o liberalismo e o neofascismo. 2022 não será 2002. O próprio Bolsonaro já avisou que a volta de Lula é o desfazimento do que ele promoveu. Não tem espaço para acenos ao grande capital.

Fim do teto dos gastos, reversão das privatizações, das reformas trabalhista e da previdência. Pressupostos do programa Lula. Será preciso remontar toda estrutura do governo federal, mudar a política econômica expandindo a base monetária, injetar recursos para gerar emprego e renda. Anunciar um novo país. E um novo modelo.

Estado, Estado, Estado. Governo, governo, governo. Políticas sociais. SUS. Renda básica. Girar tudo.

Os 100 dias: um plano ousado de reconstrução e reconfiguração do Estado e das políticas públicas. Avançar em todas as áreas ao mesmo tempo. Um governo radicalmente feminista e antirracista. Que faça a disputa ideológica e cultural: humanista, democrático, a favor da diversidade, do meio ambiente, da pluralidade, da educação e da ciência.

Vai ser preciso remontar a Petrobrás, sim – assim como retomar o protagonismo brasileiro na política externa. E vai ser preciso enfrentar o conservadorismo como um todo. Mudar a política de drogas e reorganizar as polícias. Cessar a matança e o encarceramento da juventude preta-periférica. Como canta Chico Buarque: “maconha só se comprava na tabacaria; drogas na drogaria”. Agricultura familiar financiada pelo governo federal pode produzir maconha orgânica, não só para consumo interno, mas também para exportação.

Tributar os ricos. Diminuir a força dos bancos, dos banqueiros e dos rentistas. Fazer uma bela reforma tributária. Colocar os tubarões para pagar impostos sobre suas fortunas, seus lucros e dividendos, suas terras improdutivas.

Reorganizar, democratizar e regular a mídia. Da Globo ao Google. Nenhuma democracia é possível sem uma forte legislação que coloque limites rígidos sobre os monopólios capitalistas na área de comunicação.

Reindustrialização e transição ecológica. Não temos “vocação natural” para ser uma grande fazenda, exportadora de produtos primários. Reconstruir a indústria brasileira passa por investimentos em ciência e tecnologia – no processo de descarbonização.

Novas cadeias produtivas industriais deverão estar conectadas com o futuro verde. Menos automóveis e mais transporte sobre trilhos, por exemplo. Investir no complexo industrial da saúde é um bom começo.

Não vai dar só para desfazer as maldades de Temer e Bolsonaro. Nem apenas repetir o que fizemos antes. Será preciso colocar a reforma agrária e o fortalecimento da agricultura familiar no centro das nossas políticas. Fazer do SUS o maior programa de saúde do mundo, retomando a ênfase na prevenção, chamando de volta os médicos cubanos, investindo na qualificação e valorização dos profissionais.

Resgatar do desmonte nossas universidades e toda rede pública de ciência e tecnologia. Reconstruir o Ministério da Cultura – apostando nessa explosão das manifestações periféricas e jovens e pretas, retomar os pontos de cultura, como Gilberto Gil já nos ensinava lá em 2003.

Nenhuma ilusão “republicana” desta vez.

Nossa democracia rarefeita é de um país da periferia capitalista. Não tem “Estado neutro”, nem instituições democráticas. Sistema de justiça e Forças Armadas são parte do aparato de poder das classes dominantes. Quem ganha a eleição tem legitimidade popular para dirigir e reconfigurar as instituições do Estado.

Justiça de transição. Os genocidas devem ser investigados, julgados, condenados. Crimes contra a humanidade são imprescritíveis. Nesse novo governo Lula se garantirão as condições para a constituição do “Tribunal de Manaus”. O Estado brasileiro haverá de processar os genocidas e reparar as famílias vítimas da estratégia institucional de propagação do vírus realizada por Bolsonaro.

Resumindo: Bolsonaro não está a derreter e o bolsonarismo é uma praga a ser enfrentada por muito tempo ainda. A campanha Lula 2022 precisa ser um amplo movimento político-cultural. Será preciso muita luta. Criar as condições para um governo de esquerda. Lula está com força para atrair a centro-direita sem negociar o programa.

Precisamos de um novo governo Lula que além da reconstrução do país, avance na democratização radical – nas reformas estruturais. Sem qualquer ilusão ou expectativa sobre a grande burguesia.

Lula presidente!

Vamos voltar à democracia e avançar na luta socialista.

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“Isso é um absurdo”: como pouco a pouco percebemos que o Brasil está morto - Tiago Basílio Donoso

Por Tiago Basílio Donoso

O absurdo se inicia conosco. É parte de nossa relação com o mundo. Os abismos que nos cercam não seriam abismos sem alguém encarando seu limiar. Sem a vertigem, o abismo está descaracterizado, e aqui a velha máxima quase irônica de que um raio sem alguém para vê-lo de fato nunca cai é verdadeira. Assim fica mais fácil entender o paradoxo da nossa responsabilidade, sem ignorar que o absurdo existe, fora de nós, mas apenas porque o apreendemos.

Estes são tempos absurdos. Mas, o que significa dizê-lo? Se remontarmos à origem da palavra, temos aquilo que é tornado surdo, mudo, destoante. Foi associada depois à falta de razão e ao ilógico. Mas, se nos ativermos ao desenrolar recente de seu significado, algo vem à tona.

As palavras se modificam e têm vida orgânica, como que tomada emprestada de nosso aparelho fônico, de nossas vermelhas cordas vocais. Assim como qualquer vida, envelhece e por vezes morre - capaz, porém, de renascer de repente ainda com o mesmo corpo fonético. Recentemente, falávamos de “absurdo” como um adjetivo espantoso. Fomos, aos poucos, elevando a palavra ao conjunto das palavras positivas. Se disséssemos sobre um filme que era “absurdo”, provavelmente o elogiávamos.

Algo semelhante aconteceu com a palavra “absolutamente”. Poderia, em princípio, se referir tanto à ênfase de algo positivo ou negativo. “Você gosta de arroz? - Absolutamente!”, e não sabíamos a resposta, de tão evidente. O “absoluto” era arrastado de sua totalidade para pertencer momentaneamente ao “sim”, momentaneamente ao “não”, sem nunca abandonar sua força de quase coisa, do tão abstrato que se torna físico, de algo quase maior que a palavra. Passou-se o tempo e o vocábulo a substituir “absoluto” foi, ironicamente, o vocábulo “absurdo”. Algo em si significativo sobre os novos tempos.

A depender de nossos gestos, a palavra se deslocava do positivo fixo ao negativo fixo. “Alguém fez alguma coisa errada” - absurdo. “Alguém escalou um prédio apenas com as mãos” - absurdo. Creio que houve uma lenta migração etimológica, do sentido negativo de nossos mais velhos ao sentido positivo dos mais jovens. De repente, ansiávamos pelo ilógico, pelo sensacional, pelo destoante.

Acreditamos por um tempo que essa nossa ânsia pelo absurdo era uma ânsia pelo irracional divertido. Pelo absurdo do Programa do Ratinho, do Jackass, o absurdo cômico dos desenhos animados, dos Casos de Família. Esperávamos uma onda de nonsense. Certa ironia, de referenciais perdidos, apostava no absurdo enquanto ridículo. E foi então que fomos pegos de surpresa.

De uma hora para a outra, o Programa do Ratinho tornou-se poder. Tiririca foi seu prefaciador, nosso voto uma paródia do “creio, porque é absurdo”. Acreditávamos na perfeita equivalência entre absurdo e ridículo, em seu caráter levemente cômico e no fundo inofensivo. E então, dos fundos vertiginosos da palavra, de sua estranha vida orgânica, regressou à superfície o sentido original. O irracional não era divertido - era monstruoso. Como pudemos esquecer esse ensinamento? A falta de sentido deu lugar ao sentido da pura força, do puro poder, da opressão justificada em si mesma - na falta de algo racional ou coletivo que lhe obstasse o caminho. Foi assim que parte significativa do Brasil votou na Rede Vida! (kitsch até no nome, como se depois de dizer “Rede Vida!” se seguisse um kkkkk delirante) e recebeu a destruição que a piada apenas enunciava.

Agora, a violência acompanha a ridícula gargalhada mal encenada. O mesmo momentâneo figurante que se senta no banco de praça de Carlos Alberto da Nóbrega vai ao Rio de Janeiro e sai com uma bagagem de 29 cadáveres, carregados como porcos em lençóis. As piadas sexistas, racistas, brutais, que soavam aos desatentos como absurdo inofensivo - algo sem força, inconsequente porque sem consequência - alcançam o poder e escorrem pelos buracos e frestas hierárquicas, pelas rachaduras das inúmeras secretarias, e ameaçam erodir a argamassa da nossa utopia: sua constituição escrita, essa que faz força sísifica contra a verdadeira constituição escravocrata e brutal do país.

Não devemos abandonar o absurdo - até porque ele não nos abandonaria com esse gesto. Ele faz parte de nosso terror, de nosso mistério, de nosso humor - sem o absurdo não há sequer conhecimento. Mas é preciso compreendê-lo melhor. Não ignorar seu teor de morte e aquilo em que se transformou. Quando não rimos mais da infâmia - quando por covardia consentíamos com o inaceitável - quando não deixamos passar o que destoa e desafina de nosso princípio utópico, do mundo onde queremos viver, então deslocamos um pouco o absurdo de volta a sua verdadeira função.

Em algum momento durante a destruição política recente o país deu um salto para dentro do abismo. O tão exaltado humor brasileiro - a piada dentro da tragédia - se tornou ele próprio trágico. Perdemos, por exemplo, a vida de um humorista verdadeiro, como nós à mercê de um torturador que graceja. Quando Bolsonaro diz “Já falei que sou imorrível, imbrochável e também incomível”, e todos riem enquanto alguém grita ao fundo “abençoadôoo”, percebemos o que há de terror no nonsense, na falta de sentido - achávamos que era engraçado porque não era nada, e agora sabemos que é em realidade a ameaça constante do Nada, da morte.

A função do absurdo é a vertigem. O aviso visceral do limite. Podemos utilizar essa vertigem e fazer rir - quando apontamos o limite da linguagem, ou algum limite social. Podemos alterar limites esdrúxulos ao rirmos de alguns tigres de papel que se postam como terríveis, como o faz o Choque de Cultura. Mas não podemos transformar o absurdo em algo em si positivo, porque assim arrebentamos os limites necessários junto aos limites equivocados. Tanto no pré-golpe de 1964, quando a CIA documentadamente aliciou comediantes para desestruturar a democracia, como no Brasil recente, a pergunta idiota de “qual é o limite do humor?” mostra sua verdadeira face, o recurso de fazer o que de outro modo seria inaceitável - como o bullying, a ofensa que só é aceita porque pode ser confundida com brincadeira. Começa-se rindo e depois se está seriamente fascinado pelo Nada, pela pavorosa promessa de poder que está contida em destruir algo.

Agora, estamos à beira do precipício. Quem quiser pular, que pule - mas as intenções de voto da extrema direita declinam lentamente, de modo relutante, como quando por condescendência desfazemos aos poucos e sem naturalidade um sorriso forçado (este um dos motivos pelos quais não entendemos muito bem as estatísticas, já que espelham um movimento em si antinatural). Nós, o povo brasileiro, agora sabemos que é possível vender a alma por um sorriso. Aprendemos que hoje por trás do absurdo esconde-se a crua lei do mais poderoso - e não do mais forte. O país não tem escolha: ou salta para o horror, ou recomeça o lento labor de se estabelecer limites. Muitos de nós já aprendemos, e ficaremos aqui, apontando nosso dedo para uma verdade vertiginosa - a de outro mundo, anunciado, com seu sorriso próprio - porém infelizmente ainda absurdo, impossível.

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Jean Wyllys diz que Ciro é "coronel mentiroso" e Tico Santa Cruz inventa que acusação seria "xenofobia"

O ex-deputado federal Jean Wyllys (PSOL) e o vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, protagonizaram cenas de bate boca nas redes sociais nesta terça-feira (18)

Tico Santa Cruz, Ciro Gomes e Jean Wyllys
Tico Santa Cruz, Ciro Gomes e Jean Wyllys (Foto: Reprodução | Reuters)

247 - O ex-deputado federal Jean Wyllys (PSOL) e o vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, protagonizaram cenas de bate-boca nas redes sociais por conta de Ciro Gomes nesta terça-feira (18). 

Tudo começou quando Wyllys rebateu um comentário de Ciro dizendo que Lula “é o maior corrupto da história brasileira”. “Disse o coronel mais mentiroso da história brasileira (Já que ele se dá o direito de dar declaração que quer para aparecer, a gente tem todo o direito de responder usando o mesmo expediente; porém, se eu fosse, botava uma melancia no pescoço: daria mais resultado)”, disse Wyllys.

Na sequência, Tico Santa Cruz encontrou xenofobia na argumentação de Wyllys.  “Por que você chama o @cirogomes de Coronel? Ele é dono de alguma Tv, Rádio, veículo de comunicação ou algo do tipo? Porque pode soar meio xenófobo esse termo e acho que xenofobia não combina com você querido Jean! Faça suas críticas sem usar esse termo”, escreveu o cantor.

Wyllys então rebateu: “Tico, ‘xenofobia’? Não fode, cara! Por favor, seja honesto nos argumentos. Melhor você assumir que é cabo-eleitoral dos Ferreira Gomes do que vir com esse papo de “xenofobia”, banalizando inclusive o que é ‘xenofobia’. Poupem-me. Só quero saber do que pode dar certo!”.

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Paul Krugman: Aprendendo a viver com a baixa fertilidade nacional

Uma economia com a população estabilizada precisa de políticas públicas diferentes daquelas da geração baby-boom

The New York Times

Na semana passada o Bureau de Estatísticas do Trabalho divulgou uma inflação muito mais alta do que quase todo mundo previa, e os inflacionistas —pessoas que sempre preveem aumentos de preços disparados, e sempre estão erradas— aproveitaram a notícia como prova de que desta vez o lobo é real.

Os mercados financeiros, porém, levaram a coisa com tranquilidade. As ações caíram após o relatório, mas logo compensaram a maior parte das perdas. O rendimento dos títulos aumentou ligeiramente com a notícia, depois terminou a semana exatamente onde começou —extremamente baixo.

Por que tão pouca reação à notícia da inflação? Parte da resposta, supostamente, foi que quando os investidores tiveram tempo para digerir os detalhes perceberam que havia poucos sinais de aumento da inflação subjacente; esta era uma pequena bolha refletindo provavelmente aumentos isolados dos preços de carros usados e quartos de hotel.

Pedestres caminham na Times Square, em Nova York - Wang Ying - 10.nov.2020/Xinhua

Além disso, porém, está o que eu creio ser a percepção de que enquanto alcançamos um sucesso dramático, quase milagroso, em derrotar a Covid-19, quando a pandemia passar nós provavelmente estaremos em um ambiente de baixas taxas de juros sustentadas em consequência da fraca demanda por investimentos. E o maior motivo para esse ambiente de taxas baixas é a forte queda da fertilidade, o que implica crescimento lento ou negativo no número de americanos na idade ativa mais proveitosa.

Esse não é um assunto novo. O relatório do censo no mês passado mostrando o menor crescimento da população dos Estados Unidos desde os anos 1930 só confirmou o que todo mundo que estuda o assunto já sabia. E os EUA chegam relativamente atrasados a essa festa. A população em idade ativa do Japão vem diminuindo desde meados dos anos 1990. A zona do euro está em queda desde 2009. Até a China começa a parecer com o Japão, um legado de sua política do filho único.

A população estagnada ou em declínio é um grande problema econômico? Não precisa ser. Na verdade, em um mundo de recursos limitados e grandes problemas ambientais há argumentos a favor de uma redução da pressão populacional. Mas precisamos pensar nas políticas de modo diferente em uma economia com população estabilizada do que pensávamos no tempo em que a geração baby-boom amadureceu e rapidamente inchou a força de trabalho potencial.

Está bem, deixe-me admitir que há um problema real: uma população que envelhece significa menos trabalhadores ativos por aposentado, o que levanta alguns problemas fiscais. Mas esse problema é muitas vezes exagerado. Lembre-se de todo o pânico sobre como a Seguridade Social não conseguiria sobreviver ao peso dos aposentados da geração do pós-guerra? Bem, muitos deles já se aposentaram; em 2025, a maior parte do crescimento no número de beneficiários por trabalhador causado pela aposentadoria dessa geração já terá ocorrido. Mas não há crise.

Há, entretanto, uma questão diferente com o baixo crescimento da população. Para manter o pleno emprego, uma economia de mercado precisa convencer as empresas a investir todo o dinheiro que as famílias querem poupar. Mas grande parte da demanda por investimentos é conduzida pelo crescimento populacional, conforme novas famílias precisam de novas casas, novos trabalhadores demandam a construção de novos prédios de escritórios e fábricas, e assim por diante.

Então o baixo crescimento da população pode causar uma fraqueza de gastos persistente, fenômeno diagnosticado em 1938 pelo economista Alvin Hansen, que estranhamente o chamou de "estagnação secular". O termo e conceito foram reanimados recentemente por Larry Summers, e nessa questão acho que ele tem razão.

A estagnação secular pode ser um problema, porque se as taxas de juros são muito baixas mesmo em bons tempos não há muito espaço para o Fed cortar as taxas durante as recessões. Mas um mundo com taxas de juros baixas também pode oferecer grandes oportunidades em políticas —se nos dispusermos a pensar com clareza.

Pois o que estamos vendo aqui é um mundo inundado de poupança sem ter para onde ir: as famílias estão ávidas para emprestar dinheiro, mas as empresas não veem boas oportunidades de investimento. (Bitcoins não contam.)

Bem, por que não colocar o dinheiro para trabalhar para o bem público? Por que não emprestar barato e usar os fundos para reconstruir nossa infraestrutura em ruínas, investir na saúde e na educação de nossas crianças, e mais? Isso seria bom para nossa sociedade, bom para o futuro e também forneceria um amortecedor contra futuras recessões.

E o peso da dívida?, você pergunta. Bem, a dívida federal como porcentagem do PIB é o dobro da que era em 1990, mas os pagamentos de juros sobre a dívida são apenas a metade, aproximadamente. É isso o que fazem os baixos custos dos empréstimos —em geral um subproduto da estagnação demográfica.

Então, as propostas do governo Biden para a infraestrutura e a família são o tipo de coisa que eu tenho em mente? Elas são um passo gratificante na direção certa. Mas não são tão ambiciosas quanto são retratadas em geral, e no meu entender são responsáveis demais do ponto de vista fiscal —o governo está excessivamente preocupado com pagar por seus planos.

O fato é que, gostem ou não, nós vamos viver por muito tempo com um crescimento populacional lento. E precisamos começar a pensar em políticas econômicas levando em conta essa realidade.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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Paul Krugman: Os republicanos continuam em guerra contra os trabalhadores

Os tempos estão bons? Puna o desempregado; estão ruins? Puna o desempregado também

Será que o Partido Republicano, que defende os interesses das grandes empresas e buscou manter os salários baixos desde o fim do século 19, de repente se tornou populista?

Alguns de seus astros em ascensão gostariam que as pessoas acreditassem nisso. Por exemplo, depois da eleição de 2020, o senador Josh Hawley declarou que “devemos ser um partido da classe trabalhadora e não um partido de Wall Street”.

Mas embora os republicanos tenham recentemente atacado determinadas empresas, sua briga com as grandes companhias parece se referir a questões não econômicas. Muito os incomoda que parte das corporações americanas tenham se posicionado, ainda que moderadamente, em favor da igualdade social e contra a supressão de eleitores.

O que não os incomoda é o fato de que muitas empresas pagam pouco ou nada em impostos, e remuneram mal seus trabalhadores. Quanto a essas questões, o Partido Republicano continua a ser como sempre foi: a favor de cortes de impostos que beneficiam as empresas e os ricos, e contra qualquer coisa que possa melhorar a vida dos trabalhadores comuns.

O presidente dos EUA, Joe Biden, em discurso no Salão Leste da Casa Branca, em Washington - Kevin Lamarque - 10.mai.21/Reuters

O exemplo mais recente: o esforço republicano para pôr fim aos benefícios-desemprego expandidos que apoiaram milhões de famílias americanas ao longo da pandemia, mesmo que o desemprego continue muito elevado.

Múltiplos estados controlados pelos republicanos agiram para tesourar o suplemento mensal US$ 300 (R$ 1.571) oferecido sob o American Rescue Plan (Plano de Resgate Americano, em tradução livre), mesmo que isso signifique a rejeição de seus governos por um dinheiro recebido sem custos, que os ajuda a estimular suas economias –o suplemento é coberto em sua íntegra pelo governo federal.

E quem vem pressionando por um corte na assistência aos desempregados. A Câmara de Comércio dos Estados Unidos, veja só. Mas o Partido Republicano não havia se tornado inimigo das corporações e defensor da classe trabalhadora?

Antes que eu trate das questões substantivas, aqui, é importante estar ciente do contexto histórico –a saber, que os republicanos sempre se opuseram à ajuda aos desempregados, não importa em que situação a economia esteja.

Em 2011, com a economia ainda em profunda depressão como consequência da crise financeira de 2008, a liderança republicana atacou os benefícios-desemprego que, segundo ela, encorajavam as pessoas a “ficar em casa e assistir televisão”.

E na metade do ano passado, quando uma alta nos contágios pelo coronavírus forçou boa parte do país a voltar ao lockdown, o senador Lindsey Graham declarou que expandir os benefícios aos desempregados “só vai passar por sobre nossos cadáveres”.

Menciono esses exemplos do passado para que os leitores se convençam de que o ataque que vem surgindo contra os desempregados não é uma resposta em boa-fé a qualquer coisa que esteja de fato acontecendo na economia.

Isto posto, existe algum argumento para afirmar que os benefícios relativamente generosos estão prejudicando a recuperação econômica, por desencorajar os americanos de aceitar os empregos disponíveis?

Até o relatório sobre o emprego da semana passada, havia um acordo generalizado entre os pesquisadores econômicos no sentido de que os benefícios expandidos adotados durante a pandemia não estavam reduzindo o emprego significativamente.

Notavelmente, o vencimento do benefício de US$ 600 (R$ 3.143) por semana introduzido em março de 2020 não conduziu a uma alta geral no nível de emprego; especialmente nos estados de baixo patamar salarial, nos quais os benefícios deveriam ter criado forte incentivo a rejeitar ofertas de emprego, o nível de emprego não subiu mais do que nos estados de salários altos, quando o benefício expirou.

Na sexta-feira (7), porém, o Escritório de Estatísticas do Trabalho do governo americano anunciou que a economia dos Estados Unidos criou apenas 266 mil empregos novos em abril, muito abaixo do consenso das expectativas, que era da ordem de um milhão de empregos.

Isso foi prova de que a economia realmente está sendo desestimulada porque estamos “pagando as pessoas para não trabalharem?” Não. Para começar, jamais devemos dar importância demasiada aos números de um mês isolado, especialmente em uma economia ainda distorcida pela pandemia. Por exemplo, o número baixo reportado passou por “ajuste sazonal”.

A economia, na verdade, criou mais de um milhão de postos de trabalho; no entanto, o departamento responsável pelos cálculos ponderou os números, para baixo, porque a economia normalmente cria muitos empregos novos no segundo trimestre. Essa é uma prática comum, e estatisticamente correta –mas estamos vivendo um segundo trimestre normal?

Além disso, se os benefícios-desemprego estão impedindo o crescimento do emprego, veríamos o pior desempenho nos setores de baixo salário em que os benefícios são altos com relação ao salário médio.

Mas o padrão real foi o oposto: grande avanço do emprego nos setores de baixo salário, como lazer e hospitalidade, e perda de empregos em setores de remuneração elevada como os serviços profissionais.

Não quero dar importância demasiada a isso, porque há outras coisas acontecendo enquanto a vida volta gradualmente ao normal –ainda que os números do emprego retratem a situação na metade de abril, cedo demais para refletir o forte progresso conquistado recentemente contra a expansão do contágio pelo coronavírus.

Mas de qualquer forma, os números do emprego não justificam a história de que o problema está no benefícios-desemprego.

O que aconteceu de fato, então? Não sabemos. Talvez tenha sido uma aberração estatística, talvez diversos fatores, que variam da escassez de chips à falta de creches, tenham ajudado a frear o crescimento do emprego.

O sensato é esperar alguns meses por novas indicações, e não correr para suspender uma ajuda que se tornou essencial para milhões de famílias.

Punir os desempregados é o que os republicanos fazem, sempre que podem, não importa quais sejam as circunstâncias econômicas. O Partido Republicano, apesar de estar tentando fazer uma nova pose, continua sendo o partido das grandes empresas.

*

Estúdio rejeitou sequência de 300 centrada em romance gay, diz Zack Snyder

Gerard Butler em cena de "300", de Zack Snyder: continuação rejeitada pelo estúdio - Reprodução
Gerard Butler em cena de '300', de Zack Snyder: continuação rejeitada pelo estúdio Imagem: Reprodução

De Splash, em São Paulo

18/05/2021 08h36

Um terceiro capítulo da saga "300" quase aconteceu este ano. 

Zack Snyder contou recentemente ao podcast The Fourth Wall que a Warner Bros. entrou em contato com ele para escrever um novo longa da franquia, mas acabou não gostando do que o diretor entregou.

Quando me sentei para escrever o filme, acabei escrevendo algo diferente. 

Estava abordando Alexandre, o Grande, e o filme acabou se tornando uma história sobre a relação entre ele e Heféstion. Se tornou uma história de amor."Zack Snyder sobre terceiro '300'

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De acordo com Snyder, o estúdio decidiu que sua visão "não se encaixava" como o terceiro capítulo da franquia "300".

"Eu achei que o roteiro ficou bom.

Ele se chama 'Blood and Ashes' [Sangue e Cinzas, em tradução livre], e é uma linda história de amor e guerra. 

Eu adoraria filmá-la, mas a Warner disse não... Eles não são grandes fãs meus", ironizou o diretor.

A relação de Snyder com a Warner azedou desde que o diretor teve que se afastar da produção de "Liga da Justiça" por uma tragédia familiar, e o estúdio chamou Joss Whedon para refilmar partes importantes do filme

No fim, a visão de Snyder foi restaurada com uma edição especial do longa.

O diretor Zack Snyder - GettyImages - GettyImages
O diretor Zack Snyder Imagem: GettyImages

Alexandre e Heféstion

O conquistador Alexandre, o Grande, teve no amigo de infância Heféstion o seu maior parceiro durante a vida. 

Muitos estudiosos da época e contemporâneos interpretam a profunda conexão entre os dois, que seguiram juntos na vida adulta (Heféstion era comandante da cavalaria de Alexandre), como uma relação amorosa.

No filme "Alexandre", de 2004, o papel de Heféstion é interpretado por Jared Leto — embora o diretor Oliver Stone deixe a natureza sexual da relação dele com o seu Alexandre (Colin Farrell) nas entrelinhas.

Jared Leto e Colin Farrell como Heféstion e Alexandre, respectivamente, em 'Alexandre' (2004) - Reprodução - Reprodução
Jared Leto e Colin Farrell como Heféstion e Alexandre, respectivamente, em 'Alexandre' (2004) Imagem: Reprodução
*Da AFP, em Paris

17/05/2021 22h16

O telescópio Desi, que permitirá elaborar um mapa em 3D com uma precisão única, iniciou suas observações nos Estados Unidos, anunciaram nesta segunda-feira os responsáveis pelo projeto internacional, que busca uma melhor compreensão da expansão do Universo.

Instalado no deserto do Arizona, o instrumento espectroscópico Desi irá apontar por cinco anos seus 5 mil "olhos" de fibra ótica para o céu noturno, a fim de capturar e analisar a luz emitida por 35 milhões de galáxias em diferentes épocas do Universo. Esses dados devem permitir aos cientistas compreender a força misteriosa chamada "energia escura", responsabilizada pela aceleração da expansão do Cosmos, explicou o Berkley Lab, que supervisiona o programa.

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Devido à expansão do Universo, as galáxias se distanciam umas das outras e, quanto mais se afastam, mais a luz que emitem se desloca para as grandes longitudes de onda do espectro observado, ou seja, para o vermelho, indicou a Comissão de Energia Atômica francesa (CEA), que participa da missão astronômica.

Ao analisar a radiação energética das galáxias, o Desi poderá medir o deslocamento para o vermelho ligado à velocidade do distanciamento e, dessa forma, ter informações sobre a sua distância da Terra. Os pesquisadores também poderão criar um mapa do Universo em 3D com "detalhes sem precedentes, ao multiplicarem por 10 o número de espectros de galáxias identificadas", acrescentou o órgão público francês. O Desi é capaz de coletar "5.000 espectros de galáxias em 20 minutos", apontou Christophe Yeche, cosmólogo da CEA.

Com o mapa do Universo, os pesquisadores esperam compreender melhor a natureza e influência da energia escura. Esse componente invisível do Cosmos se comporta como uma força repulsiva que explicaria por que, há bilhões de anos, a expansão do Universo se acelerou.

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MPE pede 'medidas urgentes de proteção' para vereadora Benny Briolly

MPE pede adoção de medidas urgentes para garantir a proteção da vereadora trans Benny Briolly, possibilitando volta ao Brasil - Divulgação/Instituto Marielle Franco.
MPE pede adoção de medidas urgentes para garantir a proteção da vereadora trans Benny Briolly, possibilitando volta ao Brasil Imagem: Divulgação/Instituto Marielle Franco.

Do UOL, em São Paulo

18/05/2021 10h57

Atualizada em 18/05/2021 10h57

O MPE (Ministério Público Federal Eleitoral) pediu a adoção de medidas urgentes para garantir a segurança da vereadora Benny Briolly (PSOL). Primeira trans eleita para o cargo em Niterói (RJ), ela anunciou que estava saindo do Brasil após ser vítima de transfobia e ameaças de morte.

Ontem, o vice-procurador-geral Eleitoral, Renato Brill de Góes, determinou o envio de representação sobre os episódios de violência política e de gênero ao Ministério Público do Rio de Janeiro e Polícia Civil. No pedido, o MPE solicita a apuração dos fatos e ressalta que o órgão não tem atribuição para atuar no caso, "por não se tratar de infração penal eleitoral".

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A representação foi feita pela própria vereadora Benny Briolly ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que encaminhou o pedido ao Ministério Público Eleitoral. No documento, ela relata ter sido vítima de ameaças e discursos de ódio com caráter racista, transfóbico e misógino proferidos pelo vereador Douglas Gomes (PTC), durante sessão plenária da Câmara dos Vereadores e em suas redes sociais.

"Diante da solicitação de proteção por parte da noticiante, faz-se necessário informar o delegado-geral da Polícia Civil do Rio de Janeiro, para conhecimento e adoção urgente das medidas que entender necessárias, em especial, as de segurança para a proteção da vereadora, permitindo-se inclusive seu retorno ao país, para o pleno exercício do mandato para o qual foi legitimamente eleita", afirma o vice-PGE.

Brill de Góes também determinou o envio do procedimento ao procurador-geral de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para a apuração dos alegados crimes de racismo, transfobia, injúria e ameaça mencionados pela vereadora na representação —o vice-PGE lembra ainda que o STF (Supremo Tribunal Federal) já equiparou a transfobia, juntamente com a homofobia, ao crime de racismo.

Em entrevista a Universa, um dia após anunciar a saída do Brasil, Benny Briolly conta que, em uma das ameaças que recebeu por e-mail, a pessoa mostrou que sabia seu endereço e exigiu que ela renunciasse ao mandato senão iriam até sua casa matá-la.

Além disso, Benny recebeu comentários em suas redes sociais desejando que "a metralhadora do Ronnie Lessa" a atingisse. Ronnie Lessa é o policial militar reformado preso por suspeita de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes, em 2018.

MPE pede adoção de medidas urgentes para garantir a proteção da vereadora trans Benny Briolly, possibilitando volta ao Brasil - Divulgação/Instituto Marielle Franco.
MPE pede adoção de medidas urgentes para garantir a proteção da vereadora trans Benny Briolly, possibilitando volta ao Brasil Imagem: Divulgação/Instituto Marielle Franco.

Do UOL, em São Paulo

18/05/2021 10h57

Atualizada em 18/05/2021 10h57

O MPE (Ministério Público Federal Eleitoral) pediu a adoção de medidas urgentes para garantir a segurança da vereadora Benny Briolly (PSOL). Primeira trans eleita para o cargo em Niterói (RJ), ela anunciou que estava saindo do Brasil após ser vítima de transfobia e ameaças de morte.

Ontem, o vice-procurador-geral Eleitoral, Renato Brill de Góes, determinou o envio de representação sobre os episódios de violência política e de gênero ao Ministério Público do Rio de Janeiro e Polícia Civil. No pedido, o MPE solicita a apuração dos fatos e ressalta que o órgão não tem atribuição para atuar no caso, "por não se tratar de infração penal eleitoral".

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A representação foi feita pela própria vereadora Benny Briolly ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que encaminhou o pedido ao Ministério Público Eleitoral. No documento, ela relata ter sido vítima de ameaças e discursos de ódio com caráter racista, transfóbico e misógino proferidos pelo vereador Douglas Gomes (PTC), durante sessão plenária da Câmara dos Vereadores e em suas redes sociais.

"Diante da solicitação de proteção por parte da noticiante, faz-se necessário informar o delegado-geral da Polícia Civil do Rio de Janeiro, para conhecimento e adoção urgente das medidas que entender necessárias, em especial, as de segurança para a proteção da vereadora, permitindo-se inclusive seu retorno ao país, para o pleno exercício do mandato para o qual foi legitimamente eleita", afirma o vice-PGE.

Brill de Góes também determinou o envio do procedimento ao procurador-geral de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para a apuração dos alegados crimes de racismo, transfobia, injúria e ameaça mencionados pela vereadora na representação —o vice-PGE lembra ainda que o STF (Supremo Tribunal Federal) já equiparou a transfobia, juntamente com a homofobia, ao crime de racismo.

Em entrevista a Universa, um dia após anunciar a saída do Brasil, Benny Briolly conta que, em uma das ameaças que recebeu por e-mail, a pessoa mostrou que sabia seu endereço e exigiu que ela renunciasse ao mandato senão iriam até sua casa matá-la.

Além disso, Benny recebeu comentários em suas redes sociais desejando que "a metralhadora do Ronnie Lessa" a atingisse. Ronnie Lessa é o policial militar reformado preso por suspeita de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes, em 2018.

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Rogério Gentile - Ronaldo Giovanelli não paga condomínio e tem apartamento leiloado

Ronaldo Giovanelli - Reprodução/TV Band
Ronaldo Giovanelli Imagem: Reprodução/TV Band
Rogério Gentile

Colunista do UOL

18/05/2021 10h09

A Justiça de São Paulo leiloou um apartamento duplex de Ronaldo Giovanelli, ex-goleiro do Corinthians. O imóvel, uma cobertura de 145,5 m², fica no Tatuapé, na zona leste de São Paulo.

Ronaldo, de acordo com o processo aberto pelo edifício Onix, deixou de pagar 86 parcelas do condomínio entre novembro de 2011 e março de 2019, o que soma uma dívida de cerca de R$ 169 mil (em valores de maio de 2019).

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O apartamento, no qual moram os pais de Ronaldo, foi avaliado pela perícia em R$ 950 mil, mas acabou arrematado por R$ 613,6 mil.

O valor arrecadado será utilizado para o pagamento da dívida com o condomínio. O que sobrar será devolvido ao ex-atleta.

Ronaldo, hoje comentarista esportivo da Band, entrou com recurso pedindo a anulação do leilão. Alegou que parte da dívida já prescreveu, não podendo mais ser cobrada. Disse também não ter recebido os boletos de condomínio ao logo dos meses e que houve ilegalidades nas assembleias nas quais houve reajuste dos valores cobrados.

Ronaldo questiona ainda a perícia que avaliou o apartamento em R$ 950 mil. Segundo ele, o valor correto seria de R$ 1,5 milhão.

O ex-atleta pediu que uma liminar seja dada com urgência já que a entrega do apartamento ao vencedor do leilão terá "efeitos devastadores e irreparáveis na vida da sua família".

"Não há como dar razão a um condômino que possui o imóvel desde 17 de abril de 1991, e, ao ser cobrado judicialmente, argumenta que não pagou por não receber boletos ou por falta de convocação de assembleias!", afirmou a defesa do edifício à Justiça.

Segundo o condomínio, os boletos foram enviados normalmente e estavam à disposição de Ronaldo na administradora. "A única coisa irregular e reprovável é a ausência de pagamento."

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Thaís Oyama - Bolsonaro quer só pretexto para decreto; fala de Braga Netto é luz vermelha

Bolsonaro na manifestação do agro contra a CPI da Covid e o STF - Reprodução/Twitter
Bolsonaro na manifestação do agro contra a CPI da Covid e o STF Imagem: Reprodução/Twitter
Thaís Oyama

Colunista do UOL

18/05/2021 08h12

O presidente Jair Bolsonaro, ele mesmo confirmou, já tem pronto um decreto federal que impede governadores e prefeitos de adotarem medidas restritivas no combate à pandemia, como o confinamento social e o fechamento do comércio.

Volta e meia ameaça baixá-lo e diz que, para a execução da medida, contará com a ajuda do "seu" Exército. Os militares irão às ruas garantir a "liberdade" e o "direito de ir e vir" dos brasileiros, afirma.

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Ocorre que não há no momento nenhum estado no país em que brasileiros estejam trancafiados em casa ou onde o comércio esteja de portas cerradas por força de lei municipal ou estadual. O que há são governos que limitaram os horários para o funcionamento de lojas, bares e restaurantes, como o de São Paulo; ou que impuseram restrições à locomoção das pessoas no período noturno, como o da Bahia e o do Ceará.

Na prática, portanto, o decreto que o presidente sacode no ar a cada vez que o Supremo Tribunal Federal (STF) toma uma decisão que o desagrada terá pouco ou nenhum efeito.

O que Bolsonaro pretende, então, com o tal decreto?

"Endurecer", diz um militar envolvido no governo.

Ou, em outras palavras, "puxar a corda também do lado de cá" - já que, no entendimento desse militar, e também de Bolsonaro, quem esticou a corda primeiro foi o STF.

Mas por que o decreto do presidente faria a corda esticar para o lado dele?

Porque, no entender do Palácio do Planalto, alguns governadores, notadamente os de esquerda, recorrerão ao STF assim que Bolsonaro baixar o ato discricionário.

Isso acontecendo, é certo que o Supremo decidirá em favor dos adversários do presidente (já no ano passado o tribunal reconheceu a autonomia dos estados e municípios para decidir sobre medidas de combate à pandemia).

Desse modo, com governadores e STF alinhados contra o decreto de Bolsonaro, estará criado o circo para o ex-capitão fazer o que deseja: tocar fogo nele, dando uma demonstração de força com a ajuda do "seu" Exército.

Bolsonaro só não saiu ainda de tocha na mão porque aguarda um bom pretexto para isso e porque sabia não dispor do apoio das Forças Armadas para qualquer aventura de inspiração golpista.

No sábado, porém, um episódio indicou que algo mudou — senão no âmbito das Forças, ao menos no ministério responsável pela sua direção.

Bolsonaro participou ao lado de vários ministros da manifestação de produtores rurais na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Em determinado momento, puxou para o palco o general Walter Braga Netto.

"Vamos ver aqui e ouvir uma coisa rara", anunciou.

Braga Netto, ministro da Defesa, subiu ao palanque e, depois de saudar o chefe e acenar para os manifestantes, discursou:

"O agro é a força desse país e as Forças Armadas estão aqui para proteger os senhores, para que os senhores possam produzir com segurança. A liberdade é o nosso bem maior e fundamental."

Diante do general, e bem à vista dele, estava um carro de som com uma faixa em que se lia: "Eu autorizo" (uma alusão ao decreto que o presidente ameaça baixar; também eram visíveis cartazes pedindo "intervenção militar").

Ao repetir o discurso presidencial de que as Forças irão "proteger a liberdade" de quem quer produzir, o ministro da Defesa — chefe imediato dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica— sugere o contrário do que o seu antecessor, Fernando Azevedo e Silva, havia deixado claro a Bolsonaro antes de ser demitido: que as Forças Armadas não se prestariam a atender interesses do governo nem se meteriam em ações inconstitucionais.

Bolsonaro está louco para baixar o seu decreto.

E o discurso relâmpago do ministro da Defesa acende uma luz vermelha no radar de quem sabe que um general na posição de Braga Netto tem o direito de falar pouco, mas não de falar à toa.

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É possível reduzir os riscos em atos de rua na pandemia

Ato do 1º de Maio

Rede Brasil Atual - Com a pandemia matando milhares de brasileiros todos os dias, deterioração das condições econômicas e a indignação crescendo com os depoimentos na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da pandemia de covid-19, cresce a discussão sobre a realização de manifestações contra o governo de Jair Bolsonaro, mesmo em meio à pandemia de covid-19. Especialistas em saúde e pesquisadores da covid-19 são categóricos: em uma situação de pandemia, não se pode falar em segurança total, mas, sim, é possível realizar manifestações com uma redução bastante significativa dos riscos, desde que sejam utilizadas máscaras de boa qualidade e haja boa organização nos atos.

O físico, pesquisador na Universidade de Vermont e membro do Observatório Covid-19BR, Vitor Mori, destaca que, qualquer atividade ao ar livre, como manifestações de rua, apresenta risco menor de transmissão da covid-19 do que em ambientes fechados. Com uso de máscaras do tipo N95 ou PFF2, esse risco continua existindo, mas é ainda menor. “Não dá para dizer que é 100% seguro, que não tem risco nenhum. Qualquer atividade que envolva um grande número de pessoas, envolve certo risco. Mas pelo fato de estar em um local ao ar livre, bem ventilado, de máscara, a chance de transmissão é muito baixa”, afirmou.

Ação necessária

A infectologista e dirigente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Juliana Salles, concorda com a avaliação de Mori e considera que o momento exige que a população reaja. “As manifestações de rua são necessárias porque não há como suportar mais esse governo que nos mata de fome e de covid-19. Para tal, é necessário que se mantenha o distanciamento, máscaras de boa qualidade e álcool gel 70%. As aglomerações devem ser evitadas, claro, a menos que extremamente necessárias, como no caso das manifestações contra as medidas de retirada de diretos e que afrontam nossa sobrevivência”, afirmou.

Questionada sobre a possibilidade de realizar manifestações em meio à pandemia de covid-19, a epidemiologista e pesquisadora Denise Garrett destacou, nas redes sociais, que a “transmissão ao ar livre, ainda mais se usando máscara, é muito rara”. Ela lembra que a análise desse tipo de situação é dinâmica, ou seja, se for uma manifestação muito lotada, o risco aumenta. Mas destacou um estudo realizado na China, em outubro do ano passado, em que foram analisados 318 surtos, envolvendo 1.245 casos de covid-19, que comprova o baixo risco de transmissão da doença em ambientes abertos.

A pesquisa, publicada no International Journal of Indoor Environment and Health, destaca principalmente que todos os 318 surtos identificados que envolveram três ou mais casos de covid-19 ocorreram em ambientes internos. “A transmissão do SARS‐CoV‐2 de indivíduos infectados para indivíduos suscetíveis é principalmente um fenômeno interno”, destacaram os pesquisadores. Os relatos de casos foram extraídos das Comissões Municipais de Saúde de 320 cidades na China.

Também no ano passado, o Bureau Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos analisou dados de manifestações do movimento antirracista #BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam) em 300 cidades e não encontrou evidências de que os casos de covid-19 aumentaram nas semanas seguintes ao início das manifestações.

Transmissão é pelo ar

Desde o início da pandemia, vários estudos comprovaram que a transmissão da covid-19 se dá principalmente por dois meios: gotículas e aerossóis emitidos ao tossir, espirrar, respirar intensamente ou falar. Enquanto as gotículas caem rapidamente ao solo – e podem ser evitadas com o distanciamento de 1,5 metros – os aerossóis são leves e se espalham, podendo permanecer muito tempo no ar em ambientes fechados. Mas ao ar livre eles se dispersam rapidamente.  

Os locais com maior risco de contaminação são restaurantes, bares, academias e igrejas. Nesses espaços, os sons do ambiente fazem com as pessoas falem mais alto – ou cantem, no caso de igrejas –, emitindo mais aerossóis. No caso das academias, a respiração mais forte durante o exercício tem efeito semelhante. Já no transporte coletivo, a lotação é o maior problema, pois leva a uma grande concentração de aerossóis e pessoas por longos períodos.

“Ao ar livre, o risco de transmissão é, principalmente, pelo contato próximo, face a face, por um tempo prolongado e sem máscara. Se você estiver ao ar livre, usando uma máscara de boa qualidade, bem ajustada ao rosto, por exemplo, a PFF2, mesmo que em alguns casos o distanciamento não seja possível, ainda assim, os riscos continuam sendo baixos. Acho que o ponto mais importante é se prestar atenção no deslocamento, no transporte coletivo, e aqueles momentos de interação, o pessoal se encontrando antes de ir ou depois de terminar, em interações sem máscara”, detalhou Mori.

Ações para manifestações na pandemia de Covid-19

No último dia 13, manifestações contra o racismo e a violência policial foram realizadas em várias cidades brasileiras. Foi praticamente universal o uso de máscaras. Bem diferente das manifestações de apoio a Bolsonaro, onde o uso da proteção é, inclusive, criticado. No próximo dia 29, entidades estudantis, professores, reitores e movimentos sociais preparam atos de rua em defesa da educação. Os protestos devem ocorrer em todas as capitais.

Como destacado pelos especialistas, com uso de máscaras do tipo PFF2 e mantendo-se o distanciamento entre os participantes, o risco de transmissão da covid-19 em manifestações é baixo. Isso demanda boa organização dos movimentos, grupos ou partidos que propuserem os atos, para evitar que haja aglomerações durante os atos. A distribuição de máscaras PFF2 ou N95 pelos organizadores pode auxiliar aqueles que não dispõem de recursos para adquirir por conta própria. Oradores devem permanecer de máscara enquanto discursam, mesmo em cima de caminhões ou trio-elétrico.

Dia e hora

O horário da manifestação também pode fazer diferença para a contaminação. Como a maior parte da população se desloca por meio de transporte coletivo, marcar o ato no horário de pico em dias úteis colocaria mais pessoas em risco, com a superlotação de ônibus, metrôs e trens. Esse ponto também deve ser considerado para a dispersão dos manifestantes. Quem puder, deve dar preferência a ir ao local do ato em transporte individual.

Os participantes devem utilizar a máscara PFF2 ou N95 já no transporte coletivo. Esse tipo de máscara pode ser utilizada por até 6 horas seguidas. Todos devem portar, pelo menos, uma máscara reserva.

Os participantes não devem realizar nenhum tipo de confraternização antes, durante ou depois das manifestações. Uma ida a um bar para beber, mesmo após o protesto, pode jogar por terra todo o cuidado tomado na manifestação.

Durante o protesto, quem precisar comer ou beber água, deve antes se afastar das concentrações, limpar as mãos com álcool 70%, para só então tirar a máscara. O ideal é retirar totalmente a máscara e não deixar a proteção somente abaixada no queixo, pois pode haver contato de áreas contaminadas da máscara com a boca. Comer ou beber junto ao vendedor, no meio da aglomeração, ou conversando, eleva muito o risco de contaminação. Se possível, leve alimentos de casa.

*

A ilusão americana - Arlindo Falco Junior

Por Arlindo Falco Junior

"Eis o que dizia o Sr. Edvarts entre as gargalhadas dos yankees e o sorriso amarelo dos mexicanos:¨A doutrina de Monroe é por certo uma boa cousa, mas, como todas as cousas antiquadas, precisa ser reformada. Essa doutrina resume-se nesta frase: A América para os americanos. Ora, eu proporia com prazer um aditamento: os americanos, sim senhor, sim, entendamo-nos, para os americanos do Norte. Comecemos por nosso caro vizinho, o México, de quem já comemos um bocado em 1848. Tomemo-lo (hilaridade). A América Central virá depois, abrindo nosso apetite para quando chegar a hora da América do Sul. Olhando para o mapa vemos que aquele continente tem a forma de um presunto. Uncle San é um bom garfo: há de devorar o presunto (aplausos e hilaridade) (...)".

Escrito em outubro de 1893, a Ilusão Americana, em pleno governo de Floriano Peixoto, por Eduardo Prado, é um libelo contra a doutrina Monroe e o imperialismo estadunidense. Repleto de fatos e dados, desanca a adesão dos militares e setores da sociedade brasileira, particularmente o governo de Floriano. Em 5 de dezembro de 1893, a polícia de São Paulo realiza a primeira apreensão de um livro desde a Proclamação da República, quatro anos antes. Eduardo Prado relataria: "O delegado entrou pela oficina e mandou ajuntar todos os exemplares do livro mandando-os amontoar na carroça. O burro e o delegado levaram o livro para a delegacia de polícia". Eduardo, ameaçado de prisão, exilou-se em Paris. O governo Floriano, representante da oligarquia cafeeira paulista ressentida, com a abolição da escravatura abominava a ideia de que seus vínculos com o governo estadunidense viessem à tona. Preferiam nas palavras de Rui Barbosa, no prefácio da segunda edição, resignar-se ao papel de afirmar: "As nossas contas com os da fraternidade americana são ainda mais sérias. Entretanto há, entre nós, nativistas, que projetam estatuas a Monroe, julgam praticar atos de republicanos, suscitando para amparo do Brasil o protetorado dos Estados Unidos".

Nestes tempos de florianismo tardio, a obra de Eduardo Prado mostrasse terrivelmente atual. O "servilismo voluntário" denunciado por ele é praticado hoje sem pejo. Bater continência para a bandeira estadunidense, as FFAA fazerem parte do Comando Sul dos EUA, são ilustrações, não caricaturas, da realidade.

O anúncio do pacote de medidas feito por J. Biden foi recebido no Brasil com desmesurado embevecimento por amplos segmentos progressistas. Em vez de analisá-lo dentro da realidade econômica americana, e suas consequências, sua interação com a economia mundial, seus reflexos no Brasil no curto e médio prazo, escoltou-o como se fosse o farol para os problemas do capitalismo contemporâneo, com o condão de alavancar uma nova era. A era do neoliberalismo, inaugurada por Reagan e Thatcher, estaria com seus dias contados. Forçoso destacar que não mereceu por parte dos exegetas o mesmo tratamento o pacote de Trump. Nenhuma palavra sobre o quantitative easing, o que se convencionou chamar de nova política monetária do Federal Reserve, que tem seus limites e graves consequências para a economia mundial, particularmente para o dólar como moeda de reserva. Não identificam seus autores, quais são seus interesses, como se um luminar anônimo a intentasse de forma alheada. Muito longe da realidade. Quem a formulou tem nome, endereço e propósitos muito claros.

Não sem consubstanciadas razões, enérgicas críticas foram endereçadas ao atual presidente por sua imiscuição desabrida em assuntos internos dos EUA, alinhando-se incondicionalmente a Trump. Parece-me que a mesma política com sinal oposto não será a melhor opção. A partir de agora teremos, ao beneplácito dos exegetas, no Brasil, aqueles que se alinham aos Partido Republicano, enquanto outros escoltam o Partido Democrata. Só que tem um pequeno porém, ambos são de outro país. Desconheço na literatura e países que assim se posicionam, a não ser é claro, vassalos de uma colônia, algo como Porto Rico. Tornamo-nos nós já o Porto Rico do Sul? Nossa boa tradição diplomática sempre imprecou tais arroubos. Colocar-se assim na sociedade brasileira é abdicar de um caminho autônomo e soberano. Não é com genuflexórios que o Brasil, ou qualquer força política se fará respeitar. É próprio dos impérios só respeitarem quem tem suas forças e desprezarem quem tintila.

Na nossa história já tivemos quem assim intencionasse. Um ribaldo pensador castrense, nativo do Ceará, que se fez politicamente na Bahia: Juracy Magalhães. Oportuno assinalar que nas letras cearenses e baianas devoto meu apreço por José de Alencar, Gregório de Matos, a boca do inferno, Castro Alves e Jorge Amado, não figurando tal abstruso aos meus prediletos.

O que é bom para os EUA invariavelmente não nos serve.

Afinal o plano Biden conseguirá resolver o dilema estadunidense? É bom para os EUA, conseguirá deter o declínio americano? A recuperação econômica tem fôlego ou enfrentará percalços incontornáveis? E para nós, quais serão os desafios? Afinal o plano Biden conseguirá resolver o dilema americano, como tão brilhantemente expôs o economista Márcio Pochmann em recente artigo?.

Em agosto de 2019, em Jackson Role, Wyoming, reuniu-se a cúpula do G7 dos banqueiros centrais, onde foi apresentado pela Black Rock, um plano denominado "Going Direct", elaborado por: Stanley Fischer, Philipp Hildebrand, Jean Boivin e Elga Bartsch.

Stanley Fischer: Fischer foi vice-presidente do Citigroup de 2002 a 2005. O Citigroup recebeu o maior resgate da história bancária global, obtendo US$ 2,5 trilhões cumulativamente em empréstimos rotativos do Fed e bilhões a mais dos contribuintes na crise financeira de 2007 a 2010. Fischer saiu do Citigroup indo servir como governador do Banco Central de Israel (Banco de Israel), de 2005 a 2013. (Ele tem dupla cidadania em Israel e nos EUA). Um ano depois, Fischer tornou-se governador do Conselho do Federal Reserve dos EUA, avançando para Vice-presidente em 16 de junho de 2014. Ele renunciou ao cargo no FED em 13 de outubro de 2017 e ingressou na BlackRock como consultor sênior em janeiro de 2019.

Philipp Hildebrand : Hildebrand foi Presidente do Conselho de Administração do Banco Nacional da Suíça de 2010, até que renunciou abruptamente no início de 2012. Houve um escândalo envolvendo sua esposa, uma ex-corretora de fundos de hedge, que negociava em moedas enquanto tinha informações privilegiadas sobre taxas de juros. Hildebrand é agora vice-presidente da BlackRock e membro do Comitê Executivo Global da empresa.

Jean Boivin: Boivin é o chefe do BlackRock Investment Institute. Ele ingressou na BlackRock em 2014. Antes de ingressar na BlackRock, Boivin foi nomeado Vice-Governador do Banco do Canadá em março de 2010, onde atuou por dois anos. Boivin deixou o Banco do Canadá em outubro de 2012 para se tornar Vice-Ministro Associado do Departamento de Finanças e para servir como Vice-Ministro de Finanças do Canadá no G-7, G-20 e no Conselho de Estabilidade Financeira.

Elga Bartsch: Bartsch chefia pesquisas econômicas e de mercado no Blackrock Investment Institute. Antes de ingressar na BlackRock, Bartsch foi Global Co-Head of Economics e Chief European Economist no Morgan Stanley em Londres. De acordo com a auditoria do governo dos programas de resgate do FED durante a crise financeira, o Morgan Stanley foi o segundo maior beneficiário dos programas de resgate do FED, atrás do Citigroup, recebendo US$ 2,04 trilhões cumulativamente em empréstimos rotativos abaixo do mercado.

Em primeiro lugar, o plano da Black Rock pede para confundir os limites entre a política fiscal dos Estados e a política monetária do Banco Central - exatamente o que o Tesouro dos EUA e o Federal Reserve estão fazendo hoje nos Estados Unidos.

Os autores escreveram no Livro Branco que "em uma recessão, a única solução é uma coordenação mais formal - e historicamente incomum - da política monetária e fiscal para fornecer estímulos eficazes". 

Agora entendemos por que, pela primeira vez na história, o Congresso dos EUA entregou US 454 bilhões de dólares em dinheiro dos contribuintes ao FED, sem nenhum debate significativo, para bancar perdas em ativos tóxicos produzidos pelos bancos de Wall Street que supervisiona. O FED planejou assumir um plano de resgate de US$ 4,54 trilhões, "indo direto" resgatar no mercado de papel comercial, fundos do mercado monetário e uma série de outros mercados.

Em segundo lugar, o plano da Black Rock explica ainda porque, pela primeira vez na história, o FED contratou a Black Rock para "ir direto" e comprar $ 750 bilhões em títulos corporativos primários e secundários e ETFs de títulos (Exchange Traded Funds), um produto do qual a BlackRock é um dos maiores fornecedores do mundo. Adicionando mais indignação, o programa administrado pela BlackRock receberá US$ 75 bilhões dos US$ 454 bilhões em dinheiro dos contribuintes para pagar as perdas em suas compras de títulos corporativos, que incluirão seus próprios ETFs, que o FED está permitindo que compre no programa.

dinheiro do helicóptero também está definido no plano da BlackRock, o que explica porque, simultaneamente com os US $ 454 bilhões que o Congresso arrecadou para o FED sob a Lei CARES, o estímulo fiscal também estava "indo direto" com cheques de US$ 1.200 e depósitos diretos para o povo estadunidense e empréstimos e subsídios do Programa de Proteção de Cheque “indo direto” para pequenas empresas.

Em terceiro lugar, também de acordo com a BlackRock: "Quaisquer medidas adicionais para estimular o crescimento econômico terão que ir além do canal da taxa de juros e 'ir direto' - [com] um banco central creditando contas do setor público ou privado diretamente com dinheiro. De uma forma ou de outra, isso significará subsidiar gastos - e tal medida seria fiscal e não monetária por definição. Isso pode ser feito diretamente por meio da política fiscal ou pela expansão do kit de ferramentas de política monetária com um instrumento de natureza fiscal, como a flexibilização do crédito por meio da compra de ações. Isso implica que um estímulo eficaz exigiria coordenação entre a política monetária e fiscal - seja implícita ou explicitamente".

Nos Estados Unidos, aproximadamente 85% do mercado de ações pertence aos 10% mais ricos dos americanos. A compra de ações, pelo FED, simplesmente expandiria e aceleraria a desigualdade de riqueza e renda que já está nos níveis mais altos desde a década de 1920 - uma época em que Wall Street também possuía grandes bancos que assim agiam.

O "Going Direct" foi chancelado pelos banqueiros do G7. Não sei o que vocês pensam, mas acho que o "indo direto" é mais condizente ao que está sendo praticado do que uma "nova política monetária". Mais direto e fiel aos fatos. Mais cruel e fidedigno. "Nova política monetária é muito para uma coisa velha. É só minha opinião. Mesmo porque abomino apropriação indébita e qualquer aventureiro pode querer adonar-se de ideias alheias que não são minhas.

Estamos em 2019, antes da pandemia e suas consequências. Por que então tal arcabouço foi gestado? Não estava tudo sob controle? Não, a coisa estava começando a desandar. Erodiram os fundamentos das medidas adotadas na crise de 2008- 2009 e os bancos enfrentavam séria crise de liquidez. A tentativa do FED em enxugar seu balanço das aquisições feitas durante a crise de 2008-2009 esbarrou na falta de liquidez dos bancos. 

Um mês depois, em 17 de setembro de 2019, o Federal Reserve dos EUA iniciaria um programa de resgate de empréstimos repo de emergência, depositando centenas de bilhões de dólares nos bancos de Wall Street. Abreviação de Repurchase Agreement, partir dessa operação, um investidor compra um determinado ativo, o vende para uma instituição financeira e firma um compromisso de recompra em uma data futura.Usando como exemplo o Federal Reserve, que utiliza o ponto de vista dos dealers para descrever as operações, esse tipo de ferramenta é utilizado quando o banco compra títulos – do Tesouro, imobiliários ou de agências de hipotecas, por exemplo – de dealers primários (instituições autorizadas a negociarem diretamente com o Fed), com o compromisso de venda no futuro. Dessa forma, a autoridade eleva a liquidez do sistema bancário, para retirá-la após um determinado período de tempo.

O que penso dessa nova política monetária? Acho-a muito boa, excepcional, pelo menos para a BlackRock. Com Larry Fink no comando como CEO, pulou de uma carteira de 7 trilhões de dólares de ativos em setembro de 2019 para mais de 9 trilhões de dólares em 2021! Se a Black Rock fosse um país só seria menor apenas que os EUA e a China. Chego a ferver de emoção por tanto esforço intelectual desinteressado...

Hoje, com o concurso da BlackRock, o FED detém 40% do PIB dos EUA em carteira de ações de empresas listadas em Wall Street. O FED adquire 120 bilhões de dólares todo mês, 80 em treasures e 40 em ações, com o auxílio luxuoso da BlackRock, que também administra os fundos de pensão federais.

Já aparecem vozes poderosas demonstrando que essa derrama de dinheiro na economia dá sinais de exaustão.

A política de sanções dos produtos chineses de Trump, com a perspectiva do retorno de empresas americanas aos EUA, está sendo um rotundo fracasso. Com o "AMERICAN FIRST" e "MAKE AMERICA GREAT AGAIN, nada de significativos retornos de empresas americanas que estão produzindo na China. A maior fábrica de carros elétricos da Tesla está em Shangai e está em expansão.

Com uma economia baseada em serviços e no consumo, as tarifas sobre produtos chineses estão sendo pagas pelo povo estadunidense. Com o dinheiro de helicóptero depositado nas contas dos contribuintes, aumentaram as importações de produtos chineses em mais de 50% suas exportações aos EUA. Todo o aumento do consumo interno é carreado para produtos oriundos do México, Canadá, China e outros.

A tão sonhada reindustrialização dos Estados Unidos não ocorreu e dificilmente ocorrerá. A não ser que reduzam o valor do dólar em +- 40% e reduzam o custo interno de produção, rebaixando os salários.

J. Biden depois de destratar Putin, chamando-o de "assassino" e incentivar as agressões da Ucrânia contra a Rússia, recua. Porque? Seria uma ofensiva fadada a um rotundo fracasso pela contra ofensiva russa. Isto teria profundas repercussões internas nos EUA. Trump na sua oposição as "guerras intermináveis" capitalizaria tal fracasso. Com mais de 100 dias de governo, a aprovação de Biden não resistiria às cobranças que fatalmente viriam.

Também a reunião do Alasca com a China levou a relação entre os países ao limite. Biden voltou-se, então, para o front interno para aprovar seu pacote. Sua retórica tem como fim recuperar parcelas do eleitorado perdidas pelos democratas desde o primeiro governo Trump. Vai conseguir aprova-lás? Num país profundamente dividido, dificilmente conseguirá fazê-lo em toda a sua extensão. A oposição republicana e mesmo segmentos do partido democrata não concordam com os aumentos de impostos propostos. Vamos acompanhar o desenlace da tramitação do pacote no Congresso.

“Trilhões em estímulos estão no sistema, é muita coisa, e acredito que o FED precisa reduzir a liquidez, pois excessos estão sendo criados”, afirmou Rick Rieder, CEO de renda fixa global e head da área de alocação global de investimentos da Black Rock. Portanto, o limite para o "Going Direct" está atingido, dificultando assim que o Tesouro consiga alocar os treasures no FED. A própria secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, afirmou que as taxas de juros poderão ter de subir no país para que um "sobreaquecimento da economia" seja evitado.

Quais são os principais riscos porque passa a economia americana

Em primeiro lugar, a inflação puxada pelo consumo e o aumento do preço das commodities. Uma inflação de 2,5% pode parecer pequena, porém é um tremor significativo na economia mundial pressionando as taxas de câmbio.

Em segundo lugar, ter uma paulatina alta na taxa de juros, encarece o serviço da dívida pelo tesouro, corroendo a margem de manobra orçamentária. E tem que satisfazer os tomadores dos treasures, que não se contentarão com taxas de 0.25% ao ano. Chegar a 3 ou 4% baterá em um patamar perigoso. As empresas zumbis, aquelas que descontada o serviço dos empréstimos, têm lucro zero, não resistiriam a esses níveis de juros. Elas perfazem 40% das empresas americanas listadas em Wall Street. Resta combinar com os tomadores dos treasures, que não o FED, qual a taxa que aceitarão. A própria situação do FED para fazer política monetária, após essa brutal injeção de liquidez, enfrenta seus limites. Um erro na dosagem provocará uma recessão. Stanley Druckenmiller, CEO da Duquesne Family Office, declarou que o FED está brincando com fogo. As ações do FED estão distorcendo as taxas de juros de longo prazo, com risco para a economia, escreveu, alertando que a venda de títulos do Tesouro dos EUA para o exterior pode refletir dúvidas sobre a solidez das políticas atuais e passadas. "Dólar perderá status de reserva, esse é meu cenário base", afirma Druckenmiller.

Em terceiro lugar, existe uma gigantesca bolha nos ativos acionários. Ao adquirir 40% do PIB em ações, o FED distorce o preço dos ativos e, se for realizar a mercado, seu valor despencará. Faz sentido econômico a PIFZER, uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo, e a EXXON, a maior petroleira do mundo, serem retiradas do S&P 500? A PIFZER ganhou rios de dinheiro com vacinas neste período. Pois foi exatamente isso que fizeram. Como âncora botaram a Tesla, que nunca havia tido lucro e as Big Tecs. "O mercado está a meio caminho de uma bolha da magnitude de 1929 ou de 2000”, diz Ray Dalio, presidente da Bridgewater, a maior firma de fundos de hedge do mundo. Ele também previu que não haveria demanda suficiente dos compradores de títulos para comprar novas dívidas do governo, o que levaria o Federal Reserve a continuar suas políticas expansionistas. O grande problema são as quantias de dinheiro que foram produzidas e colocadas no sistema", disse Dalio. Esses riscos devem "ser cuidadosamente ponderados", disse ele.

Com nuvens plúmbeas no horizonte, aceleração do processo inflacionário, margem estreita para continuar com o quantitative easing, dificuldade em encontrar tomadores para os títulos do Tesouro, Biden terá que se movimentar num terreno adverso. Os desdobramentos irão depender de como os agentes econômicos e o Congresso vão agir. A conferir...

Uma das propostas de aumento de impostos visa as empresas americanas que produzem fora e vendem seus produtos no mercado local. Ora, as tarifas sobre produtos chineses são pagas pelo consumidor americano. Esse imposto, caso seja aprovado, só encarecerá as mercadorias, e terá o mesmo fim das sanções. Ou seja, contribuirá para o aumento da inflação.

De seu pacote de infraestrutura e investimentos, quero comentar dois pontos: energia limpa, com ênfase em carros elétricos, e telecomunicações.

Binden quase perdeu as eleições em seu estado natal, a Pensilvânia, por ser contra a exploração do óleo e gás de xisto pelo método de fracking. Os EUA, através do shale oil e shale gas, tornaram-se um dos maiores produtores de petróleo, rivalizando com a Arábia Saudita e a Rússia. Aliás, a principal consequência do 11 de setembro foi catapultar o preço do barril de petróleo de US$ 30 para US$ 100, viabilizando a produção do shale oil&gas nos EUA. Bem, foi exatamente por isso que foi feito. Com característica de óleo leve, os EUA têm um enorme excedente para a exportação de gasolina e gás, e estão prestes a se tornarem o maior exportador mundial. Dar subsídios e incentivar os carros elétricos se chocará, inevitavelmente, com a indústria de oil&gas. Corre o risco de ficar sem combustíveis como está agora. Vai abrir mão de exportar gás para a Europa, motivo econômico pela qual se opõem ao Nord Stream 2, que ligará a Rússia à Alemanha? Chocar-se com a indústria de petróleo, além de ser um tiro no pé do ponto de vista econômico, será um desastre político.

Em telecomunicações, os EUA não possuem uma empresa como a Huawei, a Nokia ou a Ericsson - Trump chegou a cogitar em comprar a Nokia ou a Ericsson - assim como não tem uma empresa de ponta que produza hardware de telecom. São essas empresas que possuem a maioria das patentes que estabelecem o padrão do 5G. Os EUA têm grandes empresas produtoras de semicondutores, como Intel, Nvidia, AMD, Qualcomm, insumos chaves para as empresas produtoras de computadores, Iphones, hardware para telecom, porém nenhuma delas demonstrou interesse em investir em hardware, mesmo com todo incentivo de Trump para que fizessem. Biden vai resolver isso?

Para o Brasil, os reflexos da inflação americana já se fazem sentir nas taxas de câmbio. Se ela acelerar, nossa situação econômica, que é bastante ruim, tende a piorar. Se uma desaceleração econômica ocorrer, teremos a queda do preço das commodities, que afetará nossa balança comercial.

Vivemos um tempo de saída acelerada de empresas estrangeiras do país, aumentando nossa desindustrialização. Não interessa ao imperialismo estadunidense nosso fortalecimento. Quanto mais fracos e combalidos para eles é melhor.

Engatar nosso futuro em uma potência em franco declínio, que sequer é o nosso maior parceiro comercial, e vem retirando suas empresas daqui, como a FORD, carece de lógica econômica, posição motivada talvez por uma visão de curto prazo, exercitando fins meramente políticos. Se é para analisarmos as políticas do Biden, porque somente os EUA? Não caberia ver as contribuições de outros países? A economia não é mundial? A nova Rota da Seda, proposta e em execução da China, não deve ser cotejada em nossas reflexões?

Estamos no rebojo de uma mudança de era. A informação e o conhecimento serão precípuos de geração de valor e riqueza. A pandemia da Covid-19 potencializou a crise e as mudanças. Podemos, então, asseverar que o neoliberalismo está com seus dias contados, e que as propostas de Biden vão de encontro a sua superação? O desmonte completo perpetrado desde Reagan e Thatcher, liberou as amarras do capital financeiro nos últimos 40 anos e a financeirização tomou conta de todos os aspectos da vida da econômica mundial. Já demonstramos aqui o papel da BlackRock, que domina e coordena o FED, governo estadunidense, e vários Bancos Centrais pelo mundo afora. Mas não é a única. A The Vanguard Group com US$ 6,2 trilhões em ativos globais sob gestão, o State Street com US$ 3 trilhões, só para ficar nos mais significativos, demonstram cabalmente o tamanho que adquiriram. Somados os três temos: US $ 18,2 trilhões!! Hoje nem a maior economia do planeta consegue subsistir sem prestar vassalagem a esses senhores.

O rentismo não é um fenômeno novo, no Século XIX, a Inglaterra já apresentava o mesmo efeito. É uma característica de economias capitalistas decadentes, parte inseparável delas.

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