Pular para o conteúdo principal

■ SANTA PATUSCADA 247 ...! ■

NEGANDO o próprio NEGACIONISMO 

Com 439 mil mortos, MC Gui faz balada de (seu_próprio)_aniversário com CENTENAS de CONVIDADOS

Pazuello responsabiliza CONSELHO_FEDERAL_de_MEDICINA ______________ pelo uso da cloroquina

 

8888 __________________________________

*

Randolfe Rodrigues propõe o uso de delações premiadas para evitar que CPI da Pandemia termine em pizza

247 – Após vários depoimentos em que integrantes ou ex-integrantes do governo Bolsonaro mentiram impunemente na CPI da Pandemia, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da comissão, propõe uma tese polêmica: o uso de delações premiadas pelos senadores. "Nos últimos anos, as delações premiadas ocuparam como um meteoro o noticiário brasileiro, com velocidade e resplandecência no início, mas também com a fugacidade de um melancólico final que não resistiu a equívocos na Operação Lava Jato", escreve o senador, em artigo publicado nesta quinta-feira na Folha de S. Paulo. "Com o declínio das delações, pode haver a impressão enganosa de que a corrupção se arrefeceu em Brasília. Ledo engano: o que morreu foi o ímpeto de investigar. Este está morto e sepultado."

"A nova criminalidade organizada, do 'bolsolão', das milícias digitais (e físicas!) e dos respiradores superfaturados que asfixiaram os brasileiros escalou patamares: agora está assentada sobre mais de 430 mil cadáveres. O Brasil, além de saqueado, se converteu num cemitério a céu aberto", prossegue o senador. "Apesar das novas facetas, as dificuldades para o enfrentamento de organizações criminosas seguem essencialmente as mesmas: o pacto de silêncio de seus próceres, sua capacidade de reação articulada e, finalmente, de criar 'variantes' imunes aos órgãos de controle. Nesse contexto, o melhor remédio, apesar de seu amargor, segue sendo a delação premiada: perdem-se os anéis, mas se salvam os dedos."

"Com a delação, há muito fujão de pijama, abandonado em casa, que poderia converter seu rancor em serviço à Justiça, mas receia abrir o bico por temer a prisão", diz ainda Randolfe. "Negociar penas mais brandas para esses, apesar de seus crimes, pode ser o divisor de águas na nossa capacidade de punir quem está no topo e blindado pelo pacto de silêncio." 

"Eu, como vice-presidente da CPI da Pandemia, não aceito servir pizza, mas estou disposto a ouvir aqueles que tenham a colaborar com provas e com a identificação dos demais componentes desta organização macabra que se apossou do país. Está lançada a discussão jurídica sobre o tema e, como dizem na internet, “fica a dica” para quem está vendo a água bater na cintura e não quer terminar num abraço de afogados", finaliza Randolfe.

*

Com 439 mil mortos, MC Gui faz balada de (seu) aniversário com centenas de convidados (vídeo)

247 - Ignorando a pandemia, o funkeiro Mc Gui fez questão de comemorar o seu aniversário de 23 anos com uma festa nesta quarta-feira (19). 

Ele foi fotografado com amigos e convidados, que compartilharam os momentos nas redes sociais revelando uma aglomeração de pessoas em um local fechado, com direito a bandas. 

Os vídeos que ganharam as redes sociais mostram convidados sem máscaras e falta de distanciamento social.

Nos últimos anos, ele foi já foi cancelado algumas vezes. Em 2019, foi acusado de praticar bullying com uma criança na Disney, após postar uma série de stories rindo de uma menina que estava fantasiada no parque. No começo deste ano, o cantor foi flagrado em um cassino ilegal, durante a fase mais crítica da pandemia de Covid-19 no país.

*

Omar Aziz acusa Pazuello de ter feito população de Manaus de "cobaia"

247 - Em depoimento concedido à CPI da Covid-19 no Senado nesta quinta-feira (20), o ex-ministro Eduardo Pazuello foi questionado sobre o aplicativo “TrateCov”, uma plataforma do Ministério da Saúde que prescrevia cloroquina para pacientes com Covid e que foi implantado em Manaus como “experimentação” do governo federal em pacientes com o vírus. 

Sem confessar que o medicamento foi aplicado de forma irresponsável pelo governo, na cruzada em defesa da cloroquina estabelecida por Jair Bolsonaro, o ex-ministro disse que a  iniciativa foi “uma calculadora para facilitar o diagnóstico”. 

Após a fala de Pazuello, o senador Omar Aziz (PSD), que preside a CPI,  voltou a dizer que o povo de Manaus “foi usado como cobaia” com essa iniciativa.

Presente na sessão, Flávio Bolsonaro (Republicanos), que não integra a comissão, reagiu:

“Não é cobaia. É uma tentativa de melhorar o atendimento.”

“Cobaia, sim. Então, por que em Manaus, senador Flávio?”, perguntou Aziz, presidente da CPI.

Após tentar várias vezes justificar as falas de Pazuello, o senador foi chamado de "intérprete" pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania). 

*

Post do 247 _________________ sem PÉ nem CABEÇA : ______ Brasil teria OITO MIL vacinados se comprasse vacinas da Pfizer em 2020

247 - Um estudo realizado pelo instituto Infrotracker, da Universidade de São Paulo, mostrou que OITO MILHÕES de brasileiros, o que corresponde a 40% da população, já estariam imunizados com a primeira dose da vacina contra a Covid-19 caso o governo Bolsonaro tivesse efetuado a compra do imunizante em 2020 e não recusado a oferta da Pfizer conforme disse em depoimento à CPI da Covid na semana passada,  o CEO da farmacêutica na América Latina, Carlos Murillo.

Caso o governo Bolsonaro não tivesse recusado três cartas com ofertas de vacinas da Pfizer em agosto, setembro e novembro do ano passado e uma em fevereiro deste ano, o Brasil teria o seguinte cronograma segundo o estudo: 

  • 01,5 milhão de doses em dezembro de 2020; 
  • 03,0 milhões no primeiro trimestre 2021; 
  • 14,0 milhões no segundo trimestre 2021; 
  • 26,5 milhões no terceiro trimestre 2021; 
  • 25,0 milhões no quarto trimestre 2021.
  • 70,0 milhões _ TOTAL

Segundo reportagem do portal UOL, levando em consideração os dados acima, AO TODO, seriam 11,9_milhões de doses da vacina da Pfizer.

Até a última terça-feira (18), 39,3 milhões de pessoas que já receberam ao menos uma dose de vacina contra a Covid-19, assim, se o contrato tivesse sido fechado ainda no ano passado, o país registraria 47,4 milhões (TOTAL:_86,7_milhões) de pessoas com uma dose de vacina — isso representaria um aumento de 21 pontos percentuais de pessoas parcialmente vacinadas (que chegaria a 39,1%). 

*
*

Roberto Jefferson posta vídeo em que aparece armado para lutar contra o 'gaysismo' e 'comunismo'

Roberto Jefferson

247 - O presidente PTB, Roberto Jefferson, publicou um novo vídeo em suas redes sociais em que aparece armado e pregando o uso de armas de fogo como um “rugido de liberdade” e até contra “agentes do estado”. 

“Esse é o rugido da liberdade. Não é ao estado que compete a defesa da sua prole, da sua família, da sua casa, do seu patrimônio, que você construiu com o suor do seu rosto”, afirma Jefferson no vídeo. 

“A arma é um instrumento até contra agentes do estado. Esse estado que está no mundo opressor, comunista, ateu, marxista, hedonista, imoral, satanista, que quer destruir todos os valores cristãos para uma sociedade de baderna, sexo solto, abusando de crianças, fazendo gaysismo, fazendo apassivamento, droga, aborto. Pra esse estado, nós vamos precisar desses instrumentos”, diz ele em outro trecho do vídeo. 

Em um outro momento, ele evoca um dos lemas de Jair Bolsonaro ao afirmar que “não compete ao estado a defesa dos seus valores, dos nossos valores: Deus, família, pátria, vida e liberdade”.

*

Promessas e desafios do novo governo dos Estados Unidos - Paulo Nogueira Batista Jr

Por Paulo Nogueira Batista Jr

Joe Biden

Por Paulo Nogueira Batista Jr.

Em que sentido se pode dizer que Joe Biden representa uma ruptura, ou pelo menos uma descontinuidade, na história e na vida político-econômica americanas? Antecipando em três ou quatro frases o argumento que pretendo desenvolver aqui, diria que a descontinuidade parece maior no plano doméstico do que no plano internacional. No plano interno, a descontinuidade é realmente imensa - o que se tem é uma mistura de hiperkeynesianismo com social-democracia (no sentido europeu) – uma ruptura em relação às tradições americanas, especialmente dos últimos 40 anos. No plano internacional, o que Biden propõe é, essencialmente, um retorno ao padrão pré-Trump, guardando do seu antecessor certos objetivos, mas não os métodos. Se tudo der certo para Biden, o governo Trump aparecerá como um desvio, infeliz, pouco inteligente, que enfraqueceu os Estados Unidos. 

Hiperkeynesianismo e social-democracia desembarcam nos EUA 

O hiperkeynesianismo de Biden se expressa, como é sabido, em uma política fiscal agressiva, que implica acentuada ampliação do gasto, inclusive social, e do investimento público. Ampliação que se sobrepõe à política fiscal expansionista já praticada por Trump em resposta à pandemia de 2020. O discurso de 100 dias de Biden no Congresso, cuja leitura recomendo vivamente, explicou a sua política em detalhe. Ressalto apenas um ponto: o plano de completar o welfare state americano. O estado de bem-estar sempre foi mais incompleto nos EUA do que, por exemplo, nos países europeus avançados ou no Canadá. O que Biden propõe, essencialmente, é recuperar esse atraso.  

Repare, leitor, que esse atraso tem raízes profundas. Como notou o historiador econômico Adam Tooze, “se há um único fator que explica porque os EUA não tiveram um estado de bem-estar abrangente, esse fator é o racismo”. Welfare nos EUA era código para raça, e para dependência dos negros em especial, observa ele. Certíssimo. O racismo americano é uma grande realidade. E, acrescento, a eleição de Obama em 2008 foi um acidente de percurso, que não teria ocorrido sem a desastrosa crise financeira iniciada em 2007 e o fracasso do governo republicano de George W. Bush em antecipá-la e enfrentar os seus primeiros efeitos.

Biden quer romper com a herança nefasta do racismo. No discurso de 100 dias, ele disse com todas as letras que “supremacia branca é terrorismo” e relatou de maneira comovente o seu diálogo de um ano atrás com a filha pequena de George Floyd: “Ela é um tiquinho de gente”, contou Biden, “e tive que me ajoelhar para falar com ela e olhá-la nos olhos. Ela me olhou e disse: ‘Meu papai mudou o mundo’. Bem, depois da condenação do assassino de George Floyd, nós podemos ver como ela estava certa – se, se tivermos a coragem de agir como Congresso. Nós todos vimos o joelho da injustiça no pescoço dos americanos negros. Agora temos a oportunidade de fazer progresso real”. 

Mas o imperialismo continua 

Tudo isso é muito bonito e eu mesmo me emocionei. Fica, entretanto, faltando o reconhecimento pelos americanos de que essa mesma supremacia branca, esse mesmo racismo domina no plano internacional e sufoca, ou tenta sufocar, o desenvolvimento dos países emergentes e em desenvolvimento. 

Não quero, leitor, fazer retórica barata, batida, mas cabe a pergunta: onde fica o imperialismo dos EUA com Biden? É aqui que a descontinuidade de Biden com o passado é menos clara. E, convenhamos, nem seria de esperar que fosse diferente. Biden foi eleito presidente dos Estados Unidos, para cuidar dos interesses americanos – só levará em conta os interesses de outros países se isso for conveniente do ponto de vista dos EUA. Humanidade, volto a lembrar, não existe do ponto de vista político. 

Para responder à indagação sobre o imperialismo americano, parece necessário dar uns passos atrás. Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo viveu sob a hegemonia dos EUA e seus aliados europeus. O eixo Atlântico Norte, sob comando americano, mandava e desmandava. Nem sempre prevalecia, claro, mas constituiu o principal polo de poder. Com o colapso do bloco soviético e da própria União Soviética no final da década de 1980 e início da década de 1990, essa hegemonia se consolidou. 

Os Estados Unidos tiveram o seu “momento unipolar” e a retórica internacional dos americanos, dos europeus e dos seus satélites passou a ser dominada pelo suposto triunfo da “globalização neoliberal”.

Choques que abalaram a hegemonia americana

Biden assume a presidência dos EUA num momento em que seu país vive sob o impacto de uma sucessão de choques que abalaram profundamente a hegemonia americana e a “globalização neoliberal”. Destacaria os seguintes:

  1. A ascensão dos países de economia emergente no século 21. A China é o caso mais celebrado, mas não é só ela. Lembro ao leitor brasileiro que até a nossa crise de 2015, ainda não superada, o Brasil figurava destacadamente nesse grupo de países.
  2. A crise financeira do Atlântico Norte, no período 2007-2009, que exigiu forte intervenção do Estado – macroeconômica e no sistema financeiro. Essa crise abalou não só as convicções de que o sistema financeiro poderia funcionar com regulação light, mas solapou a confiança do mundo inteiro (ou pelo menos da parte do mundo que pensa um pouco) nas teses econômico-financeiras propagadas por americanos e europeus. O impacto foi tanto maior porque os emergentes, notadamente a China, mas também o Brasil, experimentaram uma crise mais leve em 2008-2009 e uma recuperação mais rápida do que a maioria das economias do Atlântico Norte.
  3. A eleição de Trump e de outros nacionalistas de direita na Europa. Trump é nacionalista como Biden (e como todos os presidentes dos EUA, diga-se de passagem) mas se mostrou frontalmente contrário à “globalização neoliberal”. Mas não o fez de forma inteligente. Rasgou as fantasias retóricas de que se valem sempre os americanos e acabou fragilizando a posição do seu país. Nunca compreendeu o valor da hipocrisia – a hipocrisia que, como dizia La Rochefoucauld, é a homenagem do vício à virtude (frase que eu já citei umas quinhentas vezes).
  4. A pandemia de 2020-2021 que, mais uma vez, e agora de forma mais intensa, levou a uma monumental intervenção estabilizadora e antirrecessão do Estado na economia, pelas vias monetária e fiscal, e no socorro às famílias e empresas mais afetadas. 

Em resumo, Biden já assume com a “globalização neoliberal” em frangalhos. O seu plano de governo é uma tentativa de dar resposta a tudo isso. Mas – e aqui vem o fundamental – uma resposta que preserve, ou recupere, a hegemonia americana. Os EUA enfrentam com a China o maior desafio à sua hegemonia desde a Segunda Guerra Mundial. A União Soviética era um rival político-militar, mas não econômico. O Japão foi um rival econômico, mas não político-militar. A China é as duas coisas ao mesmo tempo. Não por acaso, Biden, assim como seus antecessores, está focado em fazer face a esse desafio. E, por enquanto, parece prometer mais nesse terreno do que Trump ou Obama.

Força, companheiro Biden! 

Compreendo perfeitamente que China e Rússia não vejam com bons olhos o governo Biden. Trump com suas trapalhadas era um adversário provavelmente mais fácil para eles. O caso do Brasil é diferente.

O grande teste político para Biden será chegar às eleições de meio de mandato para o Congresso, em fins de 2022, com resultados a apresentar em termos econômicos e sociais e de política externa, ampliando se possível sua maioria nas duas casas. Em termos macroeconômicos, o desafio será promover crescimento rápido e geração de empregos sem perder o controle da inflação – um desafio não trivial, mas que parece alcançável. Em 2021, parece provável que a economia cresça a taxas “chinesas” com inflação baixa e razoavelmente controlada. A incógnita é o que acontece com a inflação a partir de 2022, tendo em vista a dimensão do impulso fiscal proporcionado em 2020 e, sobretudo, 2021, combinado com política monetária ultra expansionista.

Uma economia aquecida com criação de empregos e inflação controlada apontaria para um grande sucesso de Biden nos seus dois anos iniciais. Mas se ele vier a perder o controle do Congresso para o Partido Republicano, ainda dominado por Trump, vira rapidamente um lame duck, como foi Obama. 

O Brasil, que importou nas eleições de 2018, uma versão, talvez piorada, do modelo Trump, não poderá ver um eventual fracasso de Biden com bons olhos.

***Uma versão resumida deste artigo foi publicada na revista “Carta Capital” em 14 de maio de 2021.

*

A empáfia do mentiroso - Eric Nepomuceno

Eduardo Pazuello e a CPI da Covid

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

Não foi preciso acompanhar o depoimento do general da ativa do Exército brasileiro Eduardo Pazuello até o fim para comprovar duas coisas.

A primeira: a exemplo de todos os militares da sua geração, formados durante a ditadura, Pazuello é de uma empáfia sem limites. Mais que saber, ele tem a certeza radical de que são seres superiores à humanidade em geral e aos brasileiros em particular.

A segunda: escudado nessa empáfia, Pazuello mentiu com uma facilidade comparável apenas à de seu chefe máximo, Jair Messias. A diferença é que enquanto um mente em meio aos surtos psiquiátricos que padece de maneira incessante, o general em questão mente com seriedade, ênfase e um ar de indignação.  

As perguntas secas e diretas tiveram como resposta frases longas, vagas, contraditórias. Diz agora que não fez o que deixou de fazer porque não sabia ao certo o que deveria ser feito. Cada vez que foi confrontado diretamente, falou em ilações, desviou, enfim, acovardou-se.  

Foi desmentido enfaticamente. E continuou mentindo. O que não entendi é qual a razão de ele não ter sido advertido com mais veemência sobre o risco de ouvir voz da prisão por tanta mentira.

Os integrantes governistas da CPI do Genocídio bem que tentaram sair em defesa do mentiroso. Missão impossível. Nem mesmo a estúpida – como sempre, aliás – intervenção do senador Flávio Bolsonaro conseguiu desviar o rumo da presença especialmente absurda de Pazuello.

De nada valeu o intenso treinamento recebido pelo general da ativa do Exército brasileiro. Esqueceu da recomendação de frases curtas e conclusivas, e se estendeu longamente nas mentiras, complicando sua situação cada vez mais. Aliás, ao menos um detalhe do tal treinamento funcionou: ele tentou, o tempo todo, tirar Jair Messias do lugar que efetivamente lhe cabe, ou seja, o de Genocida. Não conseguiu mais do que complicar o presidente. Mas aí seria querer demais.

O dia trouxe outro problema para Jair Messias: seu ministro do Meio-Ambiente, Ricardo Salles, virou alvo de uma portentosa operação da Polícia Federal. Suspeito de participar de um esquema de proteção a desmatadores, a origem da denúncia esteve fora do alcance de Jair Messias: veio dos Estados Unidos, reforçada por denúncias levantadas na Europa.

A pergunta é simples: a troco de quê Salles liberou madeira absolutamente ilegal, que tinha sido apreendida pela própria Polícia Federal, para ser mandada ao exterior?

Salles é fartamente conhecido como, além de ser absolutamente eficaz na política destruidora radical de Jair Messias e filhos, alguém que justificaria perfeitamente o título de um filme de 2013 dirigido por Julia Rezende: “Meu passado me condena”.

Pois agora, além dos antecedentes, corre o tremendo risco de ver que também seu presente pode servir de condenação.

A cada dia que passa a CPI do Genocídio complica mais e mais, expõe mais e mais os crimes de Jair Messias.

E como se fosse pouco, agora Salles põe gasolina no fogo... 

*

Bolsonaro perde de vez bandeira anticorrupção - Helena Chagas

Por Helena Chagas

Ministro Ricardo Salles

Por Helena Chagas, do Jornalistas pela Democracia

A operação da Polícia Federal que, na manhã desta quarta, fez ações de busca e apreensão em endereços do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, decretou a quebra de seus sigilos bancário e fiscal e afastou um punhado de auxiliares dele sob acusação de corrupção ligada à exportação de madeira ilegal, já teve um claro desdobramento político: tirou de vez das mãos de Jair Bolsonaro a bandeira anticorrupção nas eleições de 2022. 

Um de seus ministros prediletos, que vem sendo protegido por Bolsonaro contra as mais diversas pressões por sua demissão, Salles está sendo investigado em pleno exercício do cargo. Seu gabinete, em Brasília, foi objeto de busca e apreensão.

E não dá para alegar fundamento político na apuração, que não parece ter a ver com o confronto entre o ministro e o ex-superintendente da PF no Amazonas, Alexandre Saraiva, afastado do cargo depois de acusá-lo de proteger madeireiros e desmatadores. É um caso de colaboração entre as polícias brasileira e dos EUA, iniciado em janeiro a partir de fatos referentes à exportação de madeira extraída ilegalmente para os Estados Unidos.   

Politicamente, o episódio é uma das pontas de um triplo desgaste para o Planalto no mesmo dia, com a ida do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello à CPI da Covid no Senado e a repercussão do depoimento em que, na véspera, o ex-chanceler Ernesto Araújo responsabilizou todo mundo – menos ele – pelas ações junto a outros países para compra de cloroquina. 

O conjunto da obra leva alguns a embarcar em teorias conspiratórias e supor que a ação da PF tenha sido planejada para desviar o foco e os holofotes do depoimento de Pazuello. Se foi, foi um tiro no pé. Ter o seu ministro do Meio Ambiente envolvido num “grave esquema de facilitação ao contrabando de produtos florestais”, segundo palavras do ministro do STF Alexandre Moraes, pode ser, para Bolsonaro, tão ruim como ver sua atuação na pandemia esquadrinhada pela CPI.

Já nas primeiras horas da manhã de hoje, aliados do presidente da República lamentavam sua resistência em manter Salles no governo esse tempo todo, mesmo após uma sequência de desgastantes episódios envolvendo o ministro e a clara oposição internacional à sua gestão. Bolsonaro podia ter passado sem essa – dizem. Ninguém se arrisca, porém, a prever o que vai acontecer com a cabeça de Salles. 

*

Ernesto Araújo se acovardou para tentar falsificar sua própria história - Ricardo Bruno

Por Ricardo Bruno

Ernesto Araújo

Há dois Ernestos, como definiu a senadora Kátia Abreu com clareza merediana : um, debochado, provocativo, negacionista, discípulo do atraso e porta-voz das trevas onde pululam Olavo de Carvalho e outros fanáticos. Por dois anos e três meses, os brasileiros conviveram com este nocivo personagem no Ministério das Relações Exteriores. Nesta terca-feira (18), em depoimento na  CPI, o País se viu diante de um Ernesto subitamente transmutado; o antes impositivo falastrão, dono de insultos abusivos  e acusações levianas, media as palavras, escandindo frases com visível cuidado diplomático.

   Confrontado minimamente pelos senadores, não raro, gaguejava num comportamento avesso ao do ministro ensimesmado em preconceitos ideológicos obtusos. Ernesto não parecia Ernesto; na encenação, incorporou predicados que não lhe pertencem. Foi moderado; abandonou a retórica de confronto para adotar o equilíbrio e a ponderação - princípios dos ensinamentos do Barão do Rio Branco. Nada fazia lembrar o Ernesto ministro.

Seu depoimento misturou desfaçatez e cinismo numa simbiose deplorável que, no barato, afrontou a razão. Apesar das evidências contrárias, o ex-chanceler negou que tenha insultado a China, maior parceira comercial do Brasil e fabricante dos insumos das duas principais vacinas utilizadas no País. A insistência como renegava o passado irritou o presidente Omar Aziz, que pediu para que parasse de contar historinha. 

O mais relevante de tudo que disse, ou do que não disse, foi a admissão de ter feito gestões pela compra de cloroquina no mercado internacional, por solicitação do Ministério da Saúde e autorizado pelo presidente Jair Bolsonaro.  Neste momento,  implicou Pazuello e Bolsonaro como responsáveis pelo desatino de gastar recursos e esforços para adquirir um medicamento inadequado, contraindicado a pacientes com covid. Ao invés de negociar a compra de   vacinas, o e ex-chanceler ocupou-se de tratativas sobre medicamentos inócuos, num balé irresponsável de movimentos internacionais improdutivos.

A moderação súbita não permitiu, contudo, que ele reconhecesse o  papel da Venezuela na crise de Manaus, com a doação de oxigênio para salvar a vida de brasileiros abandonados pelo Governo Federal. Instado a responder se agradeceu às autoridades do país de Nicolas Maduro, o ex-ministro se mostrou contrafeito, incomodado pela possibilidade de rendição pública à atitude altruísta e humanitária do país vizinho. 

O senhor negociou com as autoridades da Venezuela? O senhor agradeceu a ajuda”, quis saber o senador Randolfe Rodrigues.

Em visível desconforto, retrucou laconicamente, em voz baixa, como se quisesse esconder a própria palavra, envergonhado talvez da atitude: “Não, não”, sussurrou.

Coube a Omar Aziz, definir com clareza a extensão das consequências da omissão  do governo brasileiro.

- O oxigênio veio da Venezuela de caminhão. Se um avião da FAB tivesse ido buscar, muitas vidas teriam sido salvas – lembrou, diante de um Ernesto em absoluto silêncio, ato interpretado como confissão passiva de sua inação por razões puramente ideológicas, mesmo estando em risco a vida de brasileiros.

Ernesto Araújo não foi exatamente um depoente. A rigor, foi apenas protagonista de uma contrafação da história recente da diplomacia brasileira. O ex-chanceler visto na CPI fazia enorme esforço para se mostrar diferente do imbecilóide das frases de efeito  que animavam as reuniões do bolsonarismo raíz. Posto em ambiente lúcido, onde não havia espaço para tergiversações da realidade, se acovardou, num esforço para falsificar sua própria história. A máscara, que usava com desconforto, serviu-lhe de escudo não apenas para o vírus, mas, fundamentalmente, para ocultar a personalidade nociva do homem esteve à frente do estratégico Ministério das Relações Exteriores.

*

Primeira lição chilena - Paulo Moreira Leite

Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Os números finais da apuração chilena têm grande utilidade para países vizinhos que, como o Brasil, procuram exemplos e caminhos que podem ser úteis a seu próprio esforço para reconstruir o regime democrático e retomar um projeto de  desenvolvimento capaz de beneficiar a maioria da população. 

Não há dúvida de que o governo Sebastián Pinera, herdeiro civil da ditadura de Augusto Pinochet, que impôs uma tirania de 17 anos ao país a partir do golpe de 1973, foi o grande derrotado nas urnas.  

Conseguiu 37 assentos num plenário de 155 vagas da Constituinte. Não só ficou longe da maioria, o que já era esperado, mas não conseguiu reunir sequer um terço dos votos, posição que lhe daria poder de veto em função de uma regra que exige maioria de 2/3 para se aprovar qualquer alteração na ordem legal vigente. 

Repudiada pela grande maioria do país, a direita chilena tinha como projeto uma estratégia puramente defensiva, de quem pretendia construir uma fortaleza para interceptar mudanças há muito ansiadas pela maioria dos chilenos. 

Mas a apuração também mostrou que a chamada centro esquerda, de onde sairam três presidentes que governaram o país após o fim da ditadura, não se encontra em  situação muito diferente. Conseguiu 25 cadeiras, desempenho longe do confortável. 

A Frente Ampla, que reune comunistas e outras correntes mais à esquerda, ficou com 28 assentos.   Embora uns e outros possam dar as mãos para propor e tentar mudanças consideradas relevantes, esta  unidade também estará longe da maioria numérica de dois terços.  

Tanto aqueles que tem interesse em preservar uma herança marcada pela influência de Augusto Pinochet, como aqueles que tentarão fazer mudanças, serão obrigados a buscar apoio entre os independentes -- expressão que designa um total de 65 eleitos, de todas as matizes que se possa imaginar e mesmo fora da imaginação política convencional. 

Heterogenea e em grande parte desconhecida,  a nova força da política chilena emergiu de uma fatia específica do eleitorado. 

Não só abomina a herança de Pinochet, mas mantém a devida distância a política de Concertação que elegeu três presidentes de centro esquerda após o fim da ditadura, como Eduardo Frei, Ricardo Lagos e Michele Bachelet.  

Há quatro décadas, quando as sociedades humanas viviam outro período histórico, a vitória de Salvador Allende tornou-se o centro das atenções de lideranças e militantes latino-americanos. 

Na época, Santiago tornou-se o destino de visitas prolongadas de uma juventude de vários países do Continente, que ali enxergavam uma alternativa às ditaduras sufocantes instaladas em seus próprios países.  

É cedo para saber se o mesmo efeito irá se produzir em 2021 mas já convém prestar atenção ao que se passa naquele país. 

Produto de uma mobilização de caráter insurrecional, a energia política que reescreveu a  história chilena a partir da luta nas ruas de 2019 trouxe um espírito combativo e uma recusa a programas de conciliação pelo alto que não foram capazes de oferecer respostas à altura a questão central da sociedade chilena de nossos dias -- a desigualdade. 

Este é o enigma a ser decifrado pelo Chile no próximo período. A eleição criou um novo momento político e abriu alternativas, que não podem ser exageradas nem minimizadas.  

Alguma dúvida? 

(Quem assistiu a entrevista da socióloga Laís Abramo no Boa Noite 247 sabe a importância de sua contribuição para a elaboração deste texto. Deixo aqui meus agradecimentos).

*

Bye, bye, Pinochet! - Emir Sader

"Nova Constituição Agora"
Ad

Foi um longo processo desde o fim da ditadura de Pinochet até estas eleições. Foi uma longa transição, que restabeleceu a democracia política no Chile, mas manteve a constituição imposta em pleno estado de sítio – mesmo modificando-a em vários aspectos – e a política econômica neoliberal.

Uma coalizão entre o Partido Socialista e a Democracia Cristã foi a responsável por essa longa transição – iniciada em 1990 e concluída agora, mais de trinta anos depois. Até que, em 2019, uma série de manifestações populares nunca vistas no Chile, iniciada com protesto contra o aumento do preço dos tíquetes do metrô, sacudiu a aparente tranquilidade da vida chilena. 

Iniciado com essa reivindicação, o movimento popular desembocou na convocação de uma consulta que aprovou o chamado a uma Assembleia Constituinte, com paridade de gênero e representação dos povos indígenas. Foram agora eleitos os 155 parlamentares, que elaborarão a nova constituição chilena, que será submetida a um referendo da população, no primeiro semestre de 2022.

Os resultados estiveram à altura do terremoto das mobilizações de 2019, que só se detiveram pela chegada da pandemia. 

Primeiro resultado: derrota da direita. A frente que agrupou a todos os partidos de direita, teve menos de 1/3 dos votos, a pior votação que jamais teve. Um resultado coerente com o apoio de menos de 10% de apoio do presidente Sebastián Piñera, derrota ele também.

O segundo foi a baixa votação da centro-esquerda, a aliança entre os socialistas e os democratas cristãos. Ficou em terceiro lugar, terminando com a polarização entre eles e a direita chilena.

A grande novidade, produto direto daquelas grandes manifestações, foi a votação tanto da nova esquerda, expressa em partidos e frentes novas de partidos – a Frente Ampla, considerada a grande vitoriosa, quanto a votação do Partido Comunista e, principalmente, a votação dos independentes, que puderam se lançar como candidatos individuais. 

No seu conjunto, as forças progressistas terão cerca de 70% dos representantes da Assembleia Constituinte. Finalmente, o Chile poderá livrar-se da velha constituição pinochetista e do modelo econômico neoliberal. O fantasma do Pinochet finalmente será totalmente exorcizado. 

Foram eleitos também, pela primeira vez pelo voto direto, governadores e prefeitos de todos os lugares do Chile.

Já não bastasse todas essas emoções, o Chile terá eleições presidenciais em outubro deste ano. Em um clima ditado pelas grandes mobilizações populares e pelos debates de fundo da Assembleia Constituinte. Certamente haverá um candidato da direita, um da aliança de centro-esquerda. No campo da nova esquerda, há pré-candidatos da Frente Ampla e do Partido Comunista. Eles discutem se manterão as duas candidaturas ou se farão uma consulta no conjunto da esquerda, para decidir por um candidato único. 

Em qualquer dos dois casos, pela primeira vez o Chile poderá ter um presidente que não seja nem da direita, nem da centro-esquerda. Nestas duas últimas possibilidades, muito provavelmente no caso do centro-esquerda e certamente no caso da nova esquerda, o novo governo chileno se somará ao grupo de governos antineoliberais e progressistas da América Latina, que conta hoje com o México, a Argentina, a Bolívia e pode contar, a partir do próximo ano, também com o Brasil.

O Chile que sair de todo esse processo será um novo país, depois de uma nova constituição, que segue as orientações propostas por Salvador Allende: “Que o povo pela primeira vez entenda que não é desde cima, mas desde as próprias raízes da sua convicção, que deve nascer a Carta Fundamental que lhe dará existência como povo digno, independente e soberano.” Tanto tempo depois, Allende se vinga de Pinochet, a democracia se vinga da ditadura.

*

Finalmente, um general é interrogado por civis - Moisés Mendes

Por Moisés Mendes

Eduardo Pazuello na CPI da Covid

Por Moisés Mendes, para o Jornalistas pela Democracia

Bolsonaro conseguiu o que a Comissão da Verdade tentou desde 2014, quando da conclusão do seu relatório sobre os crimes da ditadura. Bolsonaro ofereceu um general aos interrogadores civis da CPI do Genocídio.

A Comissão da Verdade pediu a responsabilização civil e criminal de 377 autoridades apontadas por envolvimento em todo tipo de violência, das prisões arbitrárias às torturas e aos assassinatos. Dessas, 58 eram generais.

Todos eram generais da reserva e a maioria já havia morrido. Nunca foram ouvidos por ninguém. Eduardo Pazuello está bem vivo, é general da ativa.

Todos os denunciados pela Comissão da Verdade escaparam de ficar diante de investigadores, acusadores e julgadores civis, por conta das vastas proteções asseguradas pela anistia de 1979.

Pazuello é o primeiro general ainda fardado a ser interrogado, em outras circunstâncias, por gente sem farda, num grupo com o poder de investigar e identificar autores de delitos e pedir providências ao Ministério Público.

Essa é a situação de Pazuello. Um general da ativa, que ocupou postos de comando no Exército e foi ministro da Saúde, será interrogado nesta quarta-feira por um grupo de senadores que, se quiserem, pode até mandar prendê-lo.

O general estará na CPI, formalmente, na condição de testemunha das ações de governo que levaram ao genocídio da pandemia.

Um general será interrogado por ter testemunhado e também ter envolvimento direto com atividades que poderão ser enquadradas como criminosas.

Pazuello sabe muito. Sabe quem eram e são os interessados na cloroquina, não como remédio, mas como negócio. E sabe quais eram as facções mobilizadas para morder os fabricantes de vacinas.

Mordiam e faziam lobby pela cloroquina e mordiam ou tentaram morder para intermediar a negociação com vacinas.

Pazuello deve saber por que o secretário de Comunicação de Bolsonaro, Fabio Wajngarten, tentou, ao lado de Carluxo, fazer lobby para a Pfizer e por que sua tentativa não deu certo. Pazuello sabe muita coisa do que aconteceu em sua sala ou no entorno.

Os generais da ditadura poderiam (se a Justiça concordasse, mas o Supremo não concordou) ser processados, em muitos casos, como ocupantes de cargos de comando e por terem sido omissos, mas geralmente por envolvimento indireto nos crimes.

Pazuello poderá ser enquadrado por envolvimento direto com ações que resultaram no massacre da pandemia. O Exército nunca imaginou uma situação tão esdrúxula e tão constrangedora.

Os generais foram acusados pela morte e pelo desaparecimento de 434 brasileiros durante a ditadura. Pazuello está sob suspeita de participação em ações e omissões que contribuíram para a morte de mais de 400 mil pessoas.

*

CPI deve usar métodos de Ustra para inquirir Pazuello na "Cadeira do Dragão" - Luís Costa Pinto

Por Luís Costa Pinto

Eduardo Pazuello

Por Luís Costa Pinto, do Jornalistas pela Democracia

“Dá porrada no Chico Lopes. Eu até sou favorável que a CPI, no caso do Chico Lopes, tivesse pau de arara lá. Ele merecia isso: pau de arara. Funciona! Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso (sic). E o povo é favorável a isso também”.

Jair Bolsonaro, abril de 1999 à TV Bandeirantes

O dia 26 de abril de 1999 marcou a História do Parlamento brasileiro como sendo aquele em que um depoente convocado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito saíra preso da sala de oitivas da CPI. Chico Lopes, que até 12 de janeiro daquele ano fora presidente do Banco Central e caíra em desgraça ao tentar implantar um sistema de flutuação do câmbio chamado “banda hexagonal endógena”, escutou em “teje preso!” histriônico da então senadora alagoana Heloísa Helena (à época no PT). Estava diante de um impassível Antônio Carlos Magalhães, presidente do Senado e aliado do presidente da República Fernando Henrique Cardoso. Chico Lopes ofereceu o ombro para a condução de um segurança do Congresso e ficou sob custódia na sala da Polícia Legislativa por cerca de 12 horas.

O ex-presidente do Banco Central recusou-se a assinar o termo de compromisso com a verdade para com seus inquisidores na CPI dos Bancos Marka e FonteCindam. A Comissão apurava a ocorrência de um esquema de informações privilegiadas que teriam sido fornecidas às duas instituições de pequeno porte do mercado financeiro do Rio de Janeiro no curso da desvalorização do Real durante a implantação do malsucedido sistema de bandas de flutuação cambial. Entre a parvoíce e a incredulidade, o País assistia ao fim do segundo mandato de FHC, o presidente eleito pelo Real que garroteara a inflação e fora reeleito por força de um estelionato eleitoral: ter segurado a moeda nacional sobrevalorizada por tento tempo arruinara as bases do plano econômico. A prisão humilhante do homem que havia comandado o BC e que fora um dos ilustres integrantes da equipe de planejamento e execução do Real abalara de vez a credibilidade de um presidente reeleito que havia acabado de perder o futuro Ministro do Desenvolvimento, Luiz Carlos Mendonça de Barros, na esteira do escândalo dos grampos nos telefones do BNDES durante a privatização do sistema brasileiro de telefonia.

Era esse o contexto político do País quando o então deputado Jair Bolsonaro cometeu a frase em epígrafe, dando vezo aos maus bofes que lhe são característicos. Nesta quarta-feira, a partir das 9h30, quando o general Eduardo Pazuello repousar os cotovelos sobre a mesa em sentam os convocados para oitivas na CPI do Genocídio e descansar sobre eles os ombros sobre os quais carrega três estrelas do Exército Brasileiro, seremos contemporâneos de uma rara oportunidade de assistir à História transcorrer em uma espécie de looping demoníaco. Há muitos demônios a exorcizar neste caso.

Agora, graças a uma conjunção tão infeliz quanto infernal, Bolsonaro é o presidente do Brasil e foi eleito com o apoio ostensivo do Exército – braço essencial em sua atrapalhada e malsucedida tentativa de se fazer respeitar aos gritos boçais à guisa de possuir um projeto para o País e uma estratégia organizada para implantá-lo. A condução estúpida do Governo Federal no curso da pandemia por coronavírus leva-nos a testemunhar um cenário de catástrofe bíblica: ao menos 440.000 brasileiros morreram em consequência da Covid-19. Mas, estima-se uma subnotificação em 30% nessa estatística tétrica. O sistema público de saúde está em colapso e a rede privada de atendimento em saúde – planos de saúde e redes hospitalares privadas – seguem tentando tirar casquinhas financeiras da tragédia. Em razão da catástrofe sanitária e humanitária, a economia nacional está à deriva e se houver um freio à disseminação do vírus até o fim desse ano, somente em 2032 iremos recuperar os níveis de pujança econômica verificados em 2012 (ano em que o Brasil era o melhor lugar no mundo para se viver).

Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio, Eduardo e Carlos jamais esconderam ter por herói o facínora Carlos Alberto Brilhante Ustra. Sob a patente de coronel e usando o codinome “Doutor Tibiriçá”, Ustra comandou o Destacamento de Operações e Informações – Centro de Operação de Defesa Interna (Doi-Codi) do II Exército entre 1970 e 1974, auge da repressão selvagem durante a ditadura militar. Em 2008, tornou-se o primeiro militar brasileiro a ser condenado pela Justiça pela prática da ditadura. Ainda assim, mesmo reformado, continuou politicamente ativo nos clubes militares que reúnem oficiais de pijama pelo País – velhos provectos que adoram tecer loas à ditadura aos métodos criminosos usados por ela para deter uma “marcha comunista” que só os loucos e os muito mal-intencionados viam. Hamilton Mourão, vice-presidente de Bolsonaro, general da reserva (ou seja, milico de pijama) trilhou os caminhos de Ustra nos clubes militares e também confessa ter o “Doutor Tibiriçá” como um herói pessoal. Em 2018, durante entrevista à GloboNews, Mourão disse textualmente que o assassino e torturador era um ídolo para si.

“Eu fui espancada por ele, pelo Coronel Ustra, ainda no pátio do Doi-Codi. Ele me deu um safanão com as costas da mão, me jogando no chão, e gritando ‘sua terrorista’. E gritou de uma forma a chamar todos os demais agentes, também torturadores, a me agarrarem e me arrastarem para uma sala de tortura”.

“Ele levou meus filhos para uma sala, onde eu me encontrava na cadeira do dragão [instrumento de tortura utilizado na ditadura militar parecido com uma cadeira em que a pessoa era colocada sentada e tinha os pulsos amarrados e sofria choques em diversas com fios elétricos atados em diversas partes do corpo]. Eu estava nua, vomitada, urinada, e ele leva meus filhos para dentro da sala? O que é isto? Para mim, foi a pior tortura que eu passei. Meus filhos tinham quatro e cinco anos de idade. Foi a pior tortura que eu passei”, Maria Amélia Teles, jornalista, militante do PCdoB

Cadeira do Dragão: Assento que se assemelhava uma cadeira de barbearia. Recortes de folhas de zinco eram colocados em pontos estratégicos do encosto, dos braços e da parte em que repousaria a genitália dos interrogados quando eles estivessem sentados. As folhas de zinco estavam ligadas a fios elétricos conectados a interruptores com graduação de voltagem. Assim, os artesãos das sevícias dos porões militares produziam uma “cadeira elétrica caseira” usada nos interrogatórios do Doi-Codi para extrair confissões dos adversários políticos do regime militar. As roupas dos interrogados eram arrancadas e antes de sentar-se na Cadeira do Dragão ele passava por um “corredor polonês”: militares e alguns amigos que tinham prazer em assistir às sessões de tortura espancavam a vítima no caminho para o porão em que se encontrava a cadeira. O torturado estava sempre algemado e encapuzado. Ao ser obrigado a sentar, nu ou nua, tinha as pernas amarradas por trás dos pés da Cadeira do Dragão. Os braços eram crivados no zinco. O capuz era retirado. Pelas costas do “depoente” de quem se pretendia extrair uma “confissão”, com voz sádica, um militar narrava como se daria a tortura e quais as prováveis consequências dos choques. Muitas vezes, dizem diversos sobreviventes dessa Casa do Terror, o narrador era Carlos Alberto Brilhante Ustra. Pequenas descargas elétricas eram dadas durante a narrativa, para acrescer o pânico nos interrogados. Fios desencapados eram introduzidos na uretra, no prepúcio ou na vagina de homens e mulheres. Caso os sustos elétricos não surtissem efeito, punha-se um balde metálico na cabeça dos presos políticos – ele potencializava as descargas elétricas.

Trecho de reportagem do El País Brasil cuja íntegra pode ser lida clicando aqui:

“Adriano Diogo acabava de sair do banho quando seu apartamento, em São Paulo, foi invadido por militares com metralhadoras. Era março de 1973, auge de ditadura. Diogo só teve tempo de vestir uma cueca e assim foi levado pelos agentes. Encapuzado, o colocaram dentro de um carro e fizeram-no segurar nas mãos o que ele deduziu ser uma bomba. Chegando ao destino, atravessou um corredor polonês, onde apanhou de guardas enfileirados até chegar em alguém que começou a lhe bater com uma metralhadora: “Você é amigo do Minhoca [apelido de Alexandre Vanuchi, amigo de Diogo], acabei de mandar ele para a Vanguarda Popular celestial e é pra lá que vou te mandar também, seu filho da puta”, gritava seu algoz.
Aos 67 anos, Diogo se lembra de cada palavra que saiu da boca do comandante Carlos Alberto Brilhante Ustra. Até então, não sabia de quem havia apanhado, mas descobriria rapidamente. Quando Ustra o deixou, Diogo perguntou a outro guarda que estava por perto. “Onde é que eu tô?” “Aqui é a antessala do inferno”, avisou o agente, de modo sarcástico, antes de mandá-lo sentar numa cadeira de dragão. Nu, colocaram eletrodos nas suas genitálias, boca, ouvidos, e com choques elétricos ordenavam suas confissões para entregar companheiros.”


Em 1972 o jornalista Carlos Garcia, chefe da sucursal de O Estado S Paulo no Nordeste, foi preso no Recife e levado para a sede do IV Exército na capital pernambucana. Convictos de que o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, era mensageiro e líder de um movimento comunista que levantaria o País, e que a imprensa era a porta-voz da conspiração urdida em Moscou, os obtusos chefetes militares da central nordestina de tortura promoveram uma sessão de espancamento contra Garcia antes de levá-lo para o pau-de-arara. Diferente da Cadeira do Dragão, mas, artefato idealizado pelas mesmas mentes demoníacas dos porões da ditadura militar, o pau-de-arara consistia numa espécie de poleiro no qual o indivíduo do qual se queria arrancar uma confissão era amarrado nu ou nua como se fosse uma ave zonza em razão dos maus tratos. No caso de Garcia, conectaram um fio elétrico na sua uretra e a outra extremidade em um dos ouvidos. Desfigurado pela dor das agressões, cego pelo sangue pisado que fechava seus olhos, o jornalista foi obrigado a responder ao interrogatório sádico dos militares que desejavam saber como era o esquema comunista comandado pelo religioso. Garcia morreu há um mês, vítima de Covid, aos 87 anos, coberto da admiração e do respeito de uma legião de amigos.

Nesta quarta-feira, 19 de maio de 2021, o general de três estrelas Eduardo Pazuello sentará diante de uma tribunal civilizado e fruto da restauração democrática: onze senadores que integram uma Comissão Parlamentar de Inquérito e tentam decifrar como e por que o Brasil está a perder a guerra para o coronavírus. Por que a vacinação dos brasileiros é tão lenta? Por que o governo federal relutou em abraçar a compra e a produção local de vacinas, uma vez que vacinas em massa é a única saída para a vitória contra a peste que nos abala e que já matou impensáveis 440.000 brasileiros – numa cifra subestimada? Por que o Ministério da Saúde, entregue a Pazuello durante a pandemia, não atuou a favor da saúde dos brasileiros? De quem eram as ordens para que laboratórios estatais – inclusive militares – do País produzissem cloroquina e distribuíssem ivermectina, medicamentos ineficazes contra o Covid-19 e que agravam determinados quadros clínicos, em detrimento da produção de medicamentos para kits de intubação e de distribuição de oxigênio a cidades que viram sua rede de saúde colapsar? Por que o Ministério da Saúde, sob o comando do general Pazuello, não adotou regras rígidas de distanciamento social e uso de máscaras que poderiam ter reduzido em muito a disseminação do vírus letal?

Como ainda está na ativa na qualidade de integrante do Exército brasileiro, Eduardo Pazuello tem obrigação para com a sua honra de militar – se é que isto lhe restou despois da passagem inepta por esse governo incompetente e desqualificado – de falar a verdade. Não estará, certamente, submetido aos métodos abjetos, desumanos, facínoras de Carlos Alberto Brilhante Ustra, o Doutor Tibiriçá, herói da quadrilha dos Bolsonaro e do vice-presidente Hamilton Mourão. Melhor esquecer os métodos inimagináveis dos porões da ditadura e seguir com o rumo civilizado que os senadores de oposição têm dado às suas sessões inquisitoriais. Quem sabe, sem estar submetido às sevícias da Cadeira do Dragão e do pau-de-arara, Pazuello sente-se mais à vontade para revelar a verdade aoverdade ao Brasil e aos brasileiros? Merecemos.

*

Um retrato do torturador comandante Brilhante Ustra, segundo as suas vítimas

Adriano Diogo acabava de sair do banho quando seu apartamento, em São Paulo, foi invadido por militares com metralhadoras. Era março de 1973, auge de ditadura. Diogo só teve tempo de vestir uma cueca e assim foi levado pelos agentes. Encapuzado, o colocaram dentro de um carro e fizeram-no segurar nas mãos o que ele deduziu ser uma bomba. Chegando ao destino, atravessou um corredor polonês, onde apanhou de guardas enfileirados até chegar em alguém que começou a lhe bater com uma metralhadora: “Você é amigo do Minhoca [apelido de Alexandre Vanuchi, amigo de Diogo], acabei de mandar ele para a Vanguarda Popular celestial e é pra lá que vou te mandar também, seu filho da puta”, gritava seu algoz.

Protesto em frente à casa de Ustra, em 2014
Protesto em frente à casa de Ustra, em 2014F. RODRIGUES POZZEBOM / AGÊNCIA BRASIL

Aos 67 anos, Diogo se lembra de cada palavra que saiu da boca do comandante Carlos Alberto Brilhante Ustra. Até então, não sabia de quem havia apanhado, mas descobriria rapidamente. Quando Ustra o deixou, Diogo perguntou a outro guarda que estava por perto. “Onde é que eu tô?” “Aqui é a antessala do inferno”, avisou o agente, de modo sarcástico, antes de mandá-lo sentar numa cadeira de dragão. Nu, colocaram eletrodos nas suas genitálias, boca, ouvidos, e com choques elétricos ordenavam suas confissões para entregar companheiros.

Depois das torturas diárias que o aguardavam durante os meses que ficou na prisão, Diogo viria a concluir que Ustra era o líder demoníaco daquele inferno. O comandante, homenageado neste domingo por Jair Bolsonaro para dar o “sim” ao impeachment da presidenta Dilma, foi chefe de um centro de sequestro, tortura e morte na ditadura militar (1964-1985), conhecido oficialmente por DOI-CODI, que funcionou no bairro da Vila Mariana, em São Paulo.

Apelidado de Casa da Vovó entre seus comandados, o Destacamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesas Internas tinha em Ustra o cérebro da repressão quando a Governo militar resolveu endurecer com integrantes dos movimentos que resistiam à ditadura nos anos 70. Em geral, jovens universitários que acreditavam na utopia de poder combater um Estado militar para restabelecer a democracia, usurpada em 1964 pelo golpe. Diogo era um deles. Integrava a Ação Libertadora Nacional, de inspiração socialista, o que no meio de uma Guerra Fria, significava ser classificado como terrorista.

A sigla DOI-CODI, assim como o sobrenome Ustra, têm um efeito cáustico nos ouvidos das vítimas da sua tortura e das famílias que perderam de maneira cruel seus pais, mães, filhos ou simplesmente amigos. Pelo menos 50 pessoas morreram enquanto Ustra comandou o DOI (1970-1973), e há registro de mais de 300 pessoas torturadas sob suas ordens.

Quem saiu vivo, ou foi mutilado ou saiu com uma cicatriz eterna pela sádica violência aplicada sob comando de Ustra. Diogo, hoje geólogo, e presidente da Comissão da Verdade, em São Paulo, foi um dos poucos a ser torturado diretamente por Ustra, que na maior parte do tempo, se dedicava à inteligência dos processos de tortura. Dava ordens, mapeava os movimentos de militantes, estabelecia as táticas para que sua equipe pudesse capturá-los e chegar aos líderes. “A especialidade deles era violentar e torturar mulheres”, lembra Diogo, que presenciou inúmeras violações enquanto esteve ali, inclusive a tortura de sua mulher à época. Grávida e nua, passou por choques elétricos na sua frente. O bebê que carregava não resistiu. Arlete sofreu hemorragias e não pôde recorrer a apoio médico.

Crianças na sala de tortura

Mais informações

Amélia Teles, ou Amelinha, também caiu nas garras de Ustra. Foi presa junto com o marido Cesar, e o amigo Carlos Danielli. Viveram todo o roteiro do inferno no DOI CODI, conforme conta num vídeo disponível no Youtube. Militantes do PCdoB, sentiram bem mais que surras e choques elétricos. O casal de jovens de pouco mais de 20 anos, foi preso em dezembro de 1972, e apanhou seguidamente sem ter noção do tempo. Certo dia, Amelinha estava nua, sentada na cadeira de dragão, urinada e vomitada, quando viu entrar na sala de tortura seus dois filhos, Janaína de 5 anos, e Edson, 4. Ustra havia mandado buscar as duas crianças porque queria que eles testemunhassem de seus pais. “Mamãe, por que você está azul e a papai verde?”, perguntou sua filha, enquanto queria abraçar a mãe, paralisada de dor e pelos fios elétricos. A cor era fruto das torturas que desfiguraram sua tez.

As duas crianças foram levadas para a casa de um militar enquanto os pais continuaram apanhando nas mãos de agentes da ditadura comandados por Ustra. Os arquivos da ditadura mostram crianças de colo fichadas como filhos de terroristas. “Vamos matar seus filhos, menos comunistas vivos”, ouviam seus pais enquanto eram torturados. Amelinha foi espancada por Ustra enquanto ouvia: “sua terrorista!”. Viu a morte do amigo Carlos enquanto estava presa. Seu marido Cesar faleceu no ano passado.

Mortos

Diogo e a família Teles conseguiram sobreviver àqueles anos para contar os horrores que aconteciam durante a ditadura brasileira. Mas muitos não tiveram essa sorte. O jornalista Vladimir Herzog, que em 1975 era diretor da TV Cultura, foi assassinado no interior do prédio do DOI-CODI, depois de ter sido intimado a prestar depoimentos por supostas ligações com o Partido Comunista. No Instituto Vladimir Herzog é possível ler o que se passou no final de outubro de 1975, depois que Vlado, como era conhecido, se apresentou para depor. Encapuzado, foi sufocado com amoníaco e submetido a seguidas sessões de tortura.

“Naquela cela solitária, com o ouvido na janelinha, eu podia ouvir os gritos: ‘Quem são os jornalistas? Quem são os jornalistas?’ Pelo tipo de grito, pelo tipo de porrada, sabia que estava sendo feito com alguém exatamente aquilo pelo que eu tinha passado", recordaria anos depois o jornalista Sérgio Gomes, que estava preso no mesmo local em que Vlado se encontrava. “Lá pela hora do almoço há uma azáfama, uma correria. Ele foi torturado durante toda a manhã e se dá o tal silêncio. A pessoa para de ser torturada e em seguida há uma azáfama, uma correria… A gente percebe que tem alguma coisa estranha acontecendo. Tinham acabado de matar o Vlado.”

No livro A Casa da Vovó, o jornalista Marcelo Godoy faz um minucioso relato sobre o DOI-CODI a partir de relatos de ex-agentes que trabalharam com Ustra. Levou dez anos para concluir a obra (2004 a 2014), e viu o antigo comandante tentar interferir em sua apuração em alguns momentos. O velho torturador ligou para seus ex-subalternos pedindo silêncio. Muitos, no entanto, contrariaram a ordem do antigo chefe. Um deles relatou a Godoy: “Você não tem ideia do que é passar uma noite inteira vendo um homem e sabendo que no dia seguinte ele vai morrer... Todos nós carregamos um fantasma que te acompanha a vida inteira. Esse é o meu.”

Ustra contava com o apoio silencioso dos presidentes militares que mantinham um discurso de que torturas eram casos pontuais. Em 2008, a Justiça o reconheceu como torturador e, em 2012, condená-lo em primeira instância pela morte de apenas uma vítima, Luiz Eduardo da Rocha Merlino, morto em 19 de julho de 1971. “Nunca cometi torturas”, disse ele em depoimento à Comissão Nacional da Verdade em 2013. No ano seguinte, foi declarado um dos 377 agentes da repressão pela Comissão. Ustra morreu em julho de 2015 de câncer.

*

Ciro atira em si mesmo ao criticar duramente Lula - Renato Rovai

Por Renato Rovai

Renato Rovai, na Fórum

Ciro Gomes tem uma história no campo progressista bem acima da média. De 2003 a 2018 esteve na centro-esquerda e apoiou os mandatos de Lula e Dilma. Foi um guerreiro no mensalão e na luta contra o golpe de Dilma. Foi ministro de Estado e chegou a ser cogitado pra vice de Lula em 2018, podendo ter se tornado o cabeça de chapa na sequência.

Ciro associou-se ao PT ajudando a eleger e reeleger Camilo Santana, do partido, ao governo do Ceará.

Ciro foi o ministro de Integração de Lula e seu irmão, Cid, o da Educação de Dilma.

Quando diz que Lula é o maior corruptor da história moderna do Brasil, Ciro aponta para si mesmo.

Foi quando, Ciro? Depois que saiu do governo? Ou foi de 2003 a 2010, quando você estava no governo?

Mesmo assim você apoiou Dilma em 2010 e depois deixou o PSB para apoiá-la na reeleição ao invés de ficar com Eduardo Campos e Marina Silva. Que sentido faz ter feito tanto esforço já em 2014 para ficar com um corruptor?

Ou Ciro mentia para o eleitor quando apoiava Lula e seu projeto de 2003 a 2016, ou até 2018 antes de ficar de fora do 2º turno, ou mente hoje. Não existem duas verdades neste caso.

Não se pode estar por 15 anos com um corruptor e depois fazer de conta que não sabia de nada.

O que Ciro ganha com isso? Nada. Ele imagina que ao atacar Lula terá votos do bolsonarismo, mas esse segmento da população conhece essa história que acabei de contar. Sabe que ele foi unha e carne com o PT durante o período que o partido foi poder. Ciro não era um político menor. Era alguém que ajudava a tomar decisões. O eleitor de direita não será enganado com gargantadas.

Isso por um lado.

Por outro lado, Ciro se afasta do eleitor progressista que tem críticas pontuais a Lula e ao PT. Que não gostaria de votar de novo no partido num primeiro turno nessas eleições. Mas que ao mesmo tempo não está disposto a jogar a criança fora junto com a água suja da banheira. É responsável.

A conta de Ciro não fecha pra cima com declarações como essas. Pelo contrário, ele só vem caindo nas pesquisas. Ele teve 12% votos em 2018 e no último DataFolha apareceu com 6%. E o presidente do seu partido, Lupi, já sinalizou que Ciro não fala em nome do PDT quando faz esses ataques a Lula. Fala sozinho. Aliás, Ciro é um protagonista importante da recente história política brasileira, mas está trabalhando firme para ficar falando sozinho.

*

As tensões do PT e do PSOL - Aldo Fornazieri

Por Aldo Fornazieri

Presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e Guilherme Boulos, principal liderança do PSOL no País

Por mais que se diga que o centro tático do momento conjuntural seja o enfrentamento do governo Bolsonaro e todas as suas políticas nefastas, os partidos de esquerda e os partidos em geral têm como foco as eleições de 2022. A CPI da pandemia não parece ser capaz de deslocar esse centro tático. Os partidos tomam iniciativas de propor o impeachment, mas mesmo com a queda da popularidade de Bolsonaro e com 49% a favor e 46% contra o impedimento, nada indica que ele prosperará. 

As esquerdas e os movimentos populares ensaiam uma retomada das mobilizações no final do mês. Será um teste para averiguar seu poder de convocação. Convém lembrar que, desde 2015, o poder de convocação e de mobilização vem se mostrando débil. Para que o impeachment se coloque como uma possibilidade factível algumas condições são necessárias: grandes mobilizações, queda ainda maior da popularidade de Bolsonaro, agravamento das condições de governabilidade no enfrentamento da pandemia e agravamento da crise social e econômica. 

A pesquisa Datafolha, que dá 41% para Lula, 23% para Bolsonaro, 7% para Moro e 6% para Ciro, reforça a hipótese que defendi no último artigo (Bolsonaro: Derrota no primeiro turno ou impeachment 03/05/21), que indica a possibilidade de um segundo turno sem Bolsonaro. A deterioração do apoio ao presidente subsidia esta hipótese. Claro, em 2022 a pandemia deverá arrefecer e a economia estará melhor. Mas o governo não tem tempo suficiente para se recuperar significativamente. E Bolsonaro não deixará de ter um enorme passivo. 

Com as eleições se colocando na ordem do dia dos partidos prematuramente, observa-se um aumento das tensões no interior do PT e do PSOL. No PT, os movimentos de Lula e da direção se dirigem rumo ao centro. O encontro entre Lula e Sarney é a evidência maior desse caminho. A aproximação com o PSD e outros líderes do MDB também reforça essa sinalização. Nada foi dito do encontro entre os dois ex-presidentes. A boa política sugere que deveriam ter emitido uma nota pública conjunta após a reunião. 

A política de Lula e da direção do partido está clara: montar uma aliança que vai da esquerda ao centro para vencer as eleições. Esta estratégia tem sua lógica e sua razão de ser. Considera-se que a tarefa central consiste em impedir nova vitória de Bolsonaro e, depois, reconstruir o desmanche do atual governo, reconstruir o Brasil com condições adequadas de governabilidade. Além disso, buscar alianças com setores de centro visaria impedir que uma eventual candidatura de centro-direita hegemonizasse esse campo político. 

Esta política, porém, vem sendo criticada pelas correntes e dirigentes mais à esquerda. A esquerda preconiza uma frente democrática popular, que seja capaz de enfrentar o neoliberalismo, o capital financeiro, o oligopólio da mídia e de garantir a retomada do emprego e da industrialização, entre outras reformas democráticas. Sugere que a aliança ao centro seria uma espécie de repetição da experiência dos governos petistas, que foi importante, mas limitada. Quais são as razões da esquerda petista? Não enganar-se novamente com os setores de centro, conquistar o poder para fazer as mudanças estruturais para além de políticas sociais, fim da conciliação com grupos dominantes. Propõe uma política de conflito com o setor financeiro e com o agronegócio. Em síntese: política de desenvolvimento econômico comandada pelo Estado e autonomia política à classe trabalhadora, tirando-a da condição de ponto de apoio a setores da elite. 

As tensões surgiram também no PSOL: a maioria da direção partidária e o grupo de Guilherme Boulos inclinam-se a fazer uma aliança com o PT e Lula. Este setor parece também avaliar que a principal tarefa consiste em derrotar Bolsonaro e a extrema-direita. Mas, para viabilizar a aliança, o PT teria que fazer concessões. Por exemplo, as mais importantes: Boulos candidato ao governo de São Paulo e, provavelmente, Freixo no Rio de Janeiro. O presidente do partido, Juliano Medeiros, publicou um artigo chamando a volta às ruas, mas sem explicitar uma centralidade tática.

A ala esquerda do PSOL, porém, defende uma candidatura própria. Um manifesto assinado por seis dos dez deputados federais do partido e por mais de três mil militantes indica a candidatura do deputado Glauber Braga e defende quatro eixos programáticos: derrotar o rentismo e o neoliberalismo, derrotar o modelo concentrador de terras e destruição ambiental, em defesa do serviço público com controle popular e mais direitos. 

Tanto as duas alas do PT, quanto as duas do PSOL têm suas razões e desrazões. Lula e a maioria da direção do partido estão certos em querer vencer as eleições. O problema é que não dizem no que e como aprofundariam o programa de mudanças. Governariam cedendo aos aliados de centro? 

A ala esquerda petista, também está certa em defender uma radicalização programática e mudanças estruturais. Os treze anos de governos petistas, sem dúvida, melhoraram o Brasil, mas não o mudaram estruturalmente. Esta é a questão de fundo que a ala esquerda procura resolver e que os moderados não respondem. Mas a ala esquerda teria que responder a seguinte questão: como garantir a governabilidade radicalizando o programa de reformas.

O PSOL vem se fortalecendo aos poucos, afirmando sua autonomia política disputando eleições com candidaturas próprias. Talvez seja um crescimento demasiadamente lento. O partido não administrou nenhuma prefeitura de envergadura, com exceção de Belém. Parece que a direção do partido e Boulos entendem que é preciso acelerar o crescimento buscando vencer em centros maiores de poder. A aliança com Lula poderia ensejar este caminho.

Já a ala esquerda do PSOL vê perda de autonomia política e programática se for feita uma aliança com Lula, ainda mais se ele atrair setores de centro. O risco seria a descaracterização do projeto do PSOL. A preocupação faz sentido. A autonomia política e programática é uma questão decisiva para vencer e mudar. Mas para isto é preciso ter força organizada. A ala esquerda não consegue mostrar claramente uma estratégia de crescimento do partido. 

O problema de fundo, tanto do PT quanto do PSOL, no entanto, parece ser a aposta prioritária na estratégia institucional, eleitoral. Ambos os partidos vêm negligenciando o problema da organização popular e da constituição de força social e política organizada, tanto para sustentar reformas pela via da política institucional, quanto para conquistar direitos e aprofundar a democracia e mudanças via a mobilização popular. 

A experiência dos governos petistas mostra que sem força organizada as mudanças não se sustentam. Não só são derrotadas, mas podem ocorrer graves retrocessos, como este que estamos vivendo. Os partidos de esquerda têm o dever de realizar publicamente o debate sobre os caminhos estratégicos para que a opinião pública progressista, de esquerda e democrática possa contribuir nas escolhas que visam interferir nos destinos do Brasil e do povo nos próximos anos. 

*

O vírus mais contagiante - Maria Rita Kehl

Por Maria Rita Kehl 

Seria bom escrever que o vírus mais contagiante é o da esperança. Ou o da solidariedade universal. Talvez até seja verdade – haja vista a melhora no ânimo das esquerdas desde o momento em que Lula despontou como candidato apto a derrotar Bolsonaro em todas as pesquisas.

Só que não. Mais contagiante que a esperança, que a alegria, que o desejo ou o amor, é o vírus da violência – com sua gama de cepas variantes a provocar vários tipos de sofrimento físico e mental: medo, angústia, desespero, traumas. E mortes, mortes, mortes. A intensidade dos sintomas depende do CEP do infectado: favelas, periferias e prisões revelam altos índices de contaminação, somados a baixos índices de imunidade. A polícia brasileira, militarizada desde o período da Ditadura de 1964-85 e nunca mais desmilitarizada age como se estivesse em uma guerra.[1] Fique tranquilo, leitor de classe média, o inimigo não é você. Nem eu. É a população pobre.

Desde que senti urgência em escrever sobre o aumento exponencial da brutalidade num Brasil que nunca foi exemplo de respeito aos Direitos Humanos, venho procrastinando. O tema, angustiante para todos nós, vinha bloqueando meu texto. Pensei pela primeira vez nesse artigo dia 8 de março, quando li a notícia do assassinato do menino Henry Borel. O menino de oito anos sofria frequentes surras do padrasto, o vereador carioca Doutor Jairinho. A mãe não reagia porque também era espancada pelo companheiro – mas tampouco tentou fugir de casa com o filho. A funcionária da casa relatou à polícia que, no dia do crime, tinha visto Henry “apavorado”. Se a mãe não fez nada imaginem o medo, mas também e a coragem da babá que delatou – ainda que não tenha conseguido impedir – o assassinato da criança.

A perspectiva de escrever sobre o martírio da criança me paralisou durante dois meses.

Pouco mais de um mês após o assassinato de Henry, no dia 16 de abril, Kaio Guilherme da Silva Baraúna, também de oito anos, foi atingido na cabeça por “bala perdida”, durante uma festa em Vila Aliança. Kaio morreu no dia seguinte.

Nenhuma bala é perdida. Em primeiro lugar, elas não se “perdem” nos Jardins (SP). Nem em Ipanema. Costumam se desencaminhar do suposto alvo “correto” quando são disparadas pelos cantos mais vulneráveis e abandonados das grandes cidades. Além da bala, quem costuma “se perder” frequentemente das vistas da justiça e das testemunhas é o responsável pelo tiro. Sobretudo quando veste a farda que o designa como responsável por preservar a segurança da população.

O adolescente João Pedro, de 14 anos, também foi morto a tiros pela polícia do Rio durante uma festa em sua escola. Me parece que ninguém mais pergunta se a PM tinha mandato para entrar atirando na Vila Aliança. Provavelmente não – e daí? Mandato é burocracia requerida apenas para agir nos bairros da Zona Sul.

Oito dias depois do assassinato de Kaio, no dia 24 de abril, mãe e madrasta de Ketelen Vitória espancaram e torturaram com chicote e pedaços de fio elétrico a criança de seis anos. Ketelen agonizou, sem socorro, até o amanhecer. Seu corpo foi jogado num matagal, de uma altura de sete metros.

Aos quatro anos de idade, a menina Maria Clara foi assassinada pela mãe e pelo padrasto que mentiram, no hospital, que a causa da morte teria sido um engasgo com miolo de pão. Maria Clara teve traumatismo craniano e apresentava hematomas pelo corpo todo. Parece que o padrasto não participou do crime – mas preferiu não interferir.

No dia 4 e maio um rapaz de dezoito anos, Fabiano Kepper Mai, invadiu portando um facão uma escola infantil em Santa Catarina e matou uma professora, um agente educacional e três crianças com menos de dois anos. É possível que Fabiano seja doente mental: mas o eventual laudo de esquizofrenia, ou de paranoia, não basta para entendermos por que seu sofrimento psíquico produziu justamente este sintoma: assassinar gente.

Um psicótico é, com frequência, extremamente sensível ao ambiente social em que vive. Bem, isso pode se aplicar a qualquer um de nós. A questão é que o psicótico interpreta à sua maneira os mandatos que circulam na sociedade: estes que nos afetam, nos angustiam e amedrontam, mas que também nos enchem de raiva e indignação. Nem todos os psicóticos – é vital que se diga – respondem com fúria quando são afetados por incitações à violência. Alguns reagem a isso com atos de extrema gentileza. Outros se investem da convicção de que sua missão na terra seja a agir como anjos da paz: espalhar o bem, proteger os indefesos, salvar crianças maltratadas. Há também os que vivem assustados e sofrem com fantasias paranoicas. “Paranoico é quem se sabe perseguido”, diz o verso de Aldir Blanc em parceria musical com João Bosco. São minoria os que reagem ao ambiente violento com mais violência.

Então tivemos Jacarezinho. A orgia da PM. A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro.[2] O Rio, onde muitas comunidades começaram e cresceram em morros situados na chamada “Zona Sul”, tem um longo histórico de violência policial contra os pobres. Jacarezinho é na Zona Norte: o pretexto da invasão não foi o de proteger a burguesia carioca da suposta bandidagem. A polícia chegou atirando, tanto faz em quem. Preto pobre é tudo igual. Matou vinte e sete moradores (um agente policial foi morto).

Os depoimentos dos sobreviventes, parentes e amigos das vítimas, estão nos jornais. A cor da pele é a mesma dos moços torturados e executados pela PM de Salvador, acusados de roubar carne em um supermercado. Acusados de passar fome. Acusados de passar fome desesperada. Acusados de desamparo. Acusados de ser vítimas de descaso do Estado. Acusados de serem, no dizer do compositor Itamar Assumpção, “iscas de polícia”.

Nada disso é novo no Brasil. A novidade, desde a redemocratização, é que as execuções policiais nesse momento de nossa história têm o DNA do presidente. O mesmo que homenageou, em uma sessão da Comissão da Verdade na câmara dos Deputados, o pior torturador da Ditadura Militar: Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O mesmo que, em campanha, imitava armas com o polegar e o indicador, como uma criança que brinca de cowboy; e para mostrar que não estava brincando, depois de eleito costuma posar para fotos ostentando fuzis. O mesmo que ameaça de estupro uma deputada da oposição para depois afirmar que só não fará isso porque ela é “feia”.

O mesmo que celebra a devastação da Amazônia e do Pantanal incentivada por seu desprezo pelas populações originárias, pelas reservas ambientais, pelas as águas dos rios que haverão de secar, pelas mudanças climáticas (coisa de “comunista”), e pelo país que supostamente governa. O mesmo que rompe, sem sofrer as consequências diante de uma Câmara dos Deputados venal, todos os limites do decoro imposto por sua posição ao mandar a oposição “tomar no cu” no caso do escândalo das latas de leite condensado. Pelo visto até aqui, com raras exceções, a oposição obedeceu. Não se falou mais no assunto.

Banalização da maldade

Só que muito antes da eleição de 2018 o Brasil já era violento: contra os negros, contra os índios, contra os pobres. O que mudou nos últimos três anos é que todas as manifestações de maldade se banalizaram. Uso propositalmente o conceito de “banalidade”, mas atribuo a ele um sentido um pouco diferente daquele criado pela filósofa Hannah Arendt, diante do julgamento do carrasco Eichmann em Jerusalém. Arendt empregou a expressão “banalidade do mal” para se referir à ausência de implicação subjetiva daquele que mandou milhares de pessoas morrer nas câmaras de gás sob a alegação de ter cumprido ordens.

No caso brasileiro, o mandatário responsável pela explosão de violência que o país atravessa não “cumpre ordens” de ninguém, assim como não respeita ninguém além dos filhos e de um grupo cada vez menor de bajuladores. O mal se banaliza na fala de Bolsonaro a cada vez que ele diz – “e daí?” para os efeitos da violência que ele próprio promove. A cada vez que diz “não sou coveiro”! em vez de lamentar a mortandade que, por culpa de seu desleixo em relação as vacinas, hoje coloca o Brasil no topo dos países mais afetados pela Covid 19.

São frágeis os recursos subjetivos que nos separam dos piores psicopatas. O inconsciente, essa espécie de depositário de nossas memórias esquecidas, de nossas fantasias infantis, de nossos desejos inconfessáveis, é a mesma instância psíquica que abriga vestígios da violência que o laço social nos força, desde a infância, a conter. Quem já presenciou uma birra infantil incontida foi capaz de perceber quanta fúria existe na criança que esperneia, que se joga no chão, que as vezes diz “eu te odeio!” ao adulto que frustrou um desejo seu. A sorte dos pais e educadores é que a criança não tem força de fazer contra nós o que sua raiva e sua frustração incitam. Crescer é, por um lado, conquistar permissão e capacidade para fazer o que até então os pais consideravam arriscado ou além de suas capacidades. Por outro lado, desenvolver recursos para barrar as manifestações de seu ódio e substituir a birra pela argumentação.

O atual presidente, quando contrariado, reage como uma criança. Seria uma gracinha – se não se tratasse de um marmanjo com passagem pelo Exército (de onde foi expulso por insubordinação) e pela Câmara dos Deputados até chegar, whit a litlle help from some fake news jamais apuradas, ao posto de líder da nação. Sua maldade, explicitada em palavras e incontáveis ações, tem arruinado não apenas a economia e os rumos da democracia: tem contribuído para a deterioração desse mínimo de civilidade que a sociedade brasileira luta todos os dias para defender.

Não se quebram certos tabus impunemente. A incitação a violência por parte do principal mandatário da nação tem força para inutilizar nosso esforço cotidiano em direção à consolidação de um laço social baseado no respeito, na compreensão das diferenças e na solidariedade. A sociedade, perplexa e ferida – sim, a propagação da maldade nos fere quase tanto quanto a violência sofrida na própria pele – ainda não sabe reagir a isso.

Desencantados, atemorizados, os brasileiros têm se tornado cada vez mais propensos a crises de violência. Às vezes, uma explosão de fúria pode ser apenas a expressão mais extrema da angústia. Mas quando essa fúria se manifesta em atos de pessoas armadas que buscam um bode expiatório para algo que as frustra ou oprime, a criminalidade explode, como tem explodido nos últimos dois anos e meio.

Isso não explica por que, em tantos casos, sejam as crianças – inclusive os próprios filhos de alguns assassinos de ocasião – as vítimas da violência doméstica. O que essas pequenas vítimas representam – isto é, representavam – a ponto de se tornarem intoleráveis para seus pais, mães, padrastos de madrastas?

Representavam a ternura, a candura, a inocência. Mesmo chatinhas, como muitas vezes as crianças são, mesmo teimosas ou birrentas, as crianças ainda manifestam uma capacidade de amar e perdoar seus pais – seus piores pais – com uma grandeza que poucos preservam na vida adulta. As crianças perturbam nossos esforços para nos adaptar sem muita dor ao novo estado deteriorado em que vivemos. Não se trata, nos casos de violência contra elas, de tentativas de matar o mensageiro que nos traz más notícias. As crianças só nos trazem boas notícias. Trata-se, sim, do desejo de eliminar estes pequenos seres que nos fazem lembrar que já fomos melhores. Esses pequenos seres que continuam nos amando ainda, apesar de nossa deterioração.

Devo dizer aqui: este foi o artigo mais penoso que já me escrevi. Peço perdão aos leitores se algumas passagens lhes parecerem bruscas, incompletas ou atropeladas.

Notas

[1] A desmilitarização das polícias foi uma das recomendações feitas no relatório final da Comissão da Verdade (2012-2014), criada por empenho da presidenta Dilma Roussef para investigar os crimes cometidos por agentes do Estado contra cidadãos brasileiros.

[2] Esta observação limita-se ao Rio: em São Paulo, sempre à frente do país inteiro, tivemos os cento e onze do Carandiru.

*

O dia em que mataram 28 da gente: uma reflexão sobre a Chacina do Jacarezinho - Daniela Cabral Gontijo (Danú)

Por Daniela Cabral Gontijo (Danú)

Eu não sei o que dizer. Acabo de ler no El País que subiu para 28 o número de pessoas assassinadas pelas mãos do Estado na favela do Jacarezinho, cidade do Rio de Janeiro. Me faltam palavras. Como dar nome pra isso? Isso que não se chama defesa da infância. Isso que não se chama democracia. Nem segurança pública. Muito menos combate ao crime. Menos ainda justiça.

Passou da hora de entendermos que é inaceitável um Estado que atira em sua população. E não tem essa de “mas é bandido”. Independentemente de quem seja, simplesmente não se pode sair atirando em pessoas. E mesmo que fossem bandidos, se não aceitamos que saiam atirando nos bandidos de nossos bairros, nos bandidos do Congresso Nacional, nos bandidos desse desgoverno, por que aceitamos que façam isso nas favelas? E quem acredita mesmo que estão nas favelas os capitalistas do tráfico de drogas? Até quando vamos alimentar essa grande farsa? Passou da hora de dar um basta à desfaçatez, passou da hora de dizer hi-po-cri-sia com todas as letras. Alguém lembra dos 39 kg de droga no avião presidencial? E os 450 kg de cocaína no helicóptero do deputado Gustavo Perrella? E os 117 fuzis apreendidos na casa do vizinho do presidente da República, no Condomínio Vivendas da Barra? Quantos fuzis foram apreendidos em Jacarezinho? Não digo mais nada. Sabemos bem que os verdadeiros bandidos estão de terno e gravata e contam não somente com a conivência das instituições, mas com a conivência da mídia e de grande parte da sociedade.

Qual é mesmo o nome disso? Mas não basta dizer que se chama cinismo. Não basta denunciar com palavras. Tampouco basta dizer que se chama justiça seletiva, seletividade racial, criminalização da pobreza. Ou dizer milícias, máfias, desgoverno, “Estado profundo”. Ou mesmo dizer racismo, fascismo, terrorismo de Estado. Eu quero gritar tudo isso, eu quero as palavras escancaradas nas bocas, nas mentes, nas ruas. Mas nem eu sei mais o que dizer, eu que me apoio nas palavras pra levantar de manhã, que respiro as palavras feito oxigênio, eu não sei dizer mais nada quando o hediondo, a carnificina, o genocídio negro e indígena não param há cinco séculos e tudo parece ser palavra muito pequena. Tudo parece ser muito, muito pouco pra traduzir a brutalidade, a truculência. Tudo parece ser insuficiente frente ao absurdo total, frente à insanidade absoluta que se tornou a política de extermínio neste país, a autorização para exterminar pessoas feito baratas. Eles – os que se encontram em cima da gente – estão nadando de braçadas e nós, que lutamos com as palavras, estamos morrendo.

Mas sei que tampouco podemos prescindir das palavras, porque juntamente com as ideias que elas trazem, são elas as armas mais poderosas, o cerne da economia dos afetos, que é tudo que agencia também a necropolítica vigente. São elas o adobe, o barro fundamental com o qual traçaremos as rotas de fuga, as pontes e plantaremos as hortas e reanimaremos as fontes e as praças e construiremos qualquer coisa próxima do que se pode chamar futuro, possibilidade, coletividade, (re)existência. O que sei é que é preciso juntar essas com outras tantas palavras, com outras tantas ações, com outras tantas pessoas e grupos e movimentos para construirmos um basta mais robusto, concatenado, massivo, concreto.

Me vem a famosa poesia de Martin Niemöller sobre a indiferença: “Quando os nazistas vieram buscar os comunistas, eu me calei; eu não era um comunista [...]”. Há um genocídio em curso aqui e agora. Enquanto escrevo este texto, recebo a notícia de que garimpeiros invadiram uma Terra Indígena Yanomami. Uma nova tragédia que se anuncia. A indiferença de agora já nos custa um holocausto. Já nos custava antes, segue custando, e custará quantos mais? Como estancar o sangue? Eu não sei. Eu tenho só mais uma dúzia de palavras. Com essas é que digo que tá mais do que na hora de a gente descer as escadas para o entendimento. Digo entendimento, porque para entender não bastam palavras. E digo descer, porque é justamente essa metáfora a que ressoa em mim agora, essa da descida, em patente e sólida referência a “O dia em que o morro descer e não for carnaval”. Porque é essa a música que escuto retumbando na cabeça. Neste exato momento penso no dia em que a aldeia descer pro Planalto Central.

Mas eu não sou do morro, eu não sou da aldeia, muitas pessoas dirão. É que nós todas precisamos descer. Quem já entendeu e quer e espera e sabe que talvez seja a hora de todos os morros e todas as aldeias descerem juntas em um basta uníssono, dando cara e corpo e mais sangue pra guerra já insana, deveria parar de esperar e simplesmente descer, porque o problema não é só do morro ou da aldeia. O problema é nosso.

Tá na hora é de toda a gente descer. Entender que é gente e descer. Descer do salto de quem acha que não é gente. Descer do lugar onde pensamos que não é com a gente.

Descer do alto do muro que a gente acha que nos protege, mas que é só uma casquinha fininha de verniz que não protege mais madeira de cupim, que nem se deu conta, mas tá lá exposta, madeira de fibra fraca contando com a sorte e a bonança das circunstâncias de não ser a próxima madeira a virar pó.

Descer do alto de nossa indiferença, do alto de nossa arrogância que permite essa apatia sádica, que é na verdade uma imensa ignorância por achar que matar gente na favela não tem nada a ver com a gente. É que enquanto a gente decide onde vai traçar a linha do que é a gente e do que não é a gente, muita gente vai morrer. E do jeito que anda a coisa, não vai sobrar gente. Por isso é tão urgente descer.

Tolerar a (in)justiça seletiva é tolerar um fim lento e gradual para a gente toda. A miséria de uma parte da população será, mais cedo ou mais tarde, a miséria da gente. Na verdade, o Brasil de Bolsonaro já é a miséria de toda a gente. É uma equação óbvia. E tá mais óbvio para quem carrega uma marca das gentes indesejáveis: negras, indígenas, transexuais, sapatões, gays, com deficiência, periféricas, presas ou ex-presas, pobres, ou com qualquer outra marca subalternizável. A equação estaria mais do que óbvia para 99% das pessoas se nos déssemos conta de quem são nossos verdadeiros inimigos, e que todas estamos fragilizadas frente a eles. 99% da população é feita de gente.

Quem está em cima da gente? Quem se acha acima da gente? Talvez os dados da OXFAM que mostram que “os 5% mais ricos do país recebem por mês o mesmo que os demais 95% juntos” ajudem a responder a essas perguntas. A pandemia agravou ainda mais esse cenário, e enquanto o “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19” mostra que quase 20 milhões de pessoas passam fome, o Brasil, segundo a Revista Forbes, ganhou 20 novos bilionários. Na dúvida, siga o dinheiro, quem lucra com a miséria da gente e a quem interessa esse cenário de profunda desigualdade.

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga,

nem autoridade que compre essa briga

Ninguém sabe a força desse pessoal

Melhor é o Poder devolver a esse povo a alegria,

senão todo mundo vai sambar

no dia em que o morro descer e não for carnaval

Certamente seriam necessários alguns ajustes nesse samba extraordinário. O Poder não devolve alegria que nunca deu, mas uma coisa é certa: ou todo mundo frui de um mundo justo ou vai ser mais que justo uma metralhadora desgovernada girando pra todo lado no asfalto, no morro e no Planalto. E, quando esse momento chegar, não vai ter palavra que dê conta.

É que a conta precisa urgentemente fechar: ou tem mundo pra todo mundo ou ninguém vai mais sambar.

*

A ilusão americana - Arlindo Falco Junior

Por Arlindo Falco Junior

"Eis o que dizia o Sr. Edvarts entre as gargalhadas dos yankees e o sorriso amarelo dos mexicanos:¨A doutrina de Monroe é por certo uma boa cousa, mas, como todas as cousas antiquadas, precisa ser reformada. Essa doutrina resume-se nesta frase: A América para os americanos. Ora, eu proporia com prazer um aditamento: os americanos, sim senhor, sim, entendamo-nos, para os americanos do Norte. Comecemos por nosso caro vizinho, o México, de quem já comemos um bocado em 1848. Tomemo-lo (hilaridade). A América Central virá depois, abrindo nosso apetite para quando chegar a hora da América do Sul. Olhando para o mapa vemos que aquele continente tem a forma de um presunto. Uncle San é um bom garfo: há de devorar o presunto (aplausos e hilaridade) (...)".

Escrito em outubro de 1893, a Ilusão Americana, em pleno governo de Floriano Peixoto, por Eduardo Prado, é um libelo contra a doutrina Monroe e o imperialismo estadunidense. Repleto de fatos e dados, desanca a adesão dos militares e setores da sociedade brasileira, particularmente o governo de Floriano. Em 5 de dezembro de 1893, a polícia de São Paulo realiza a primeira apreensão de um livro desde a Proclamação da República, quatro anos antes. Eduardo Prado relataria: "O delegado entrou pela oficina e mandou ajuntar todos os exemplares do livro mandando-os amontoar na carroça. O burro e o delegado levaram o livro para a delegacia de polícia". Eduardo, ameaçado de prisão, exilou-se em Paris. O governo Floriano, representante da oligarquia cafeeira paulista ressentida, com a abolição da escravatura abominava a ideia de que seus vínculos com o governo estadunidense viessem à tona. Preferiam nas palavras de Rui Barbosa, no prefácio da segunda edição, resignar-se ao papel de afirmar: "As nossas contas com os da fraternidade americana são ainda mais sérias. Entretanto há, entre nós, nativistas, que projetam estatuas a Monroe, julgam praticar atos de republicanos, suscitando para amparo do Brasil o protetorado dos Estados Unidos".

Nestes tempos de florianismo tardio, a obra de Eduardo Prado mostrasse terrivelmente atual. O "servilismo voluntário" denunciado por ele é praticado hoje sem pejo. Bater continência para a bandeira estadunidense, as FFAA fazerem parte do Comando Sul dos EUA, são ilustrações, não caricaturas, da realidade.

O anúncio do pacote de medidas feito por J. Biden foi recebido no Brasil com desmesurado embevecimento por amplos segmentos progressistas. Em vez de analisá-lo dentro da realidade econômica americana, e suas consequências, sua interação com a economia mundial, seus reflexos no Brasil no curto e médio prazo, escoltou-o como se fosse o farol para os problemas do capitalismo contemporâneo, com o condão de alavancar uma nova era. A era do neoliberalismo, inaugurada por Reagan e Thatcher, estaria com seus dias contados. Forçoso destacar que não mereceu por parte dos exegetas o mesmo tratamento o pacote de Trump. Nenhuma palavra sobre o quantitative easing, o que se convencionou chamar de nova política monetária do Federal Reserve, que tem seus limites e graves consequências para a economia mundial, particularmente para o dólar como moeda de reserva. Não identificam seus autores, quais são seus interesses, como se um luminar anônimo a intentasse de forma alheada. Muito longe da realidade. Quem a formulou tem nome, endereço e propósitos muito claros.

Não sem consubstanciadas razões, enérgicas críticas foram endereçadas ao atual presidente por sua imiscuição desabrida em assuntos internos dos EUA, alinhando-se incondicionalmente a Trump. Parece-me que a mesma política com sinal oposto não será a melhor opção. A partir de agora teremos, ao beneplácito dos exegetas, no Brasil, aqueles que se alinham aos Partido Republicano, enquanto outros escoltam o Partido Democrata. Só que tem um pequeno porém, ambos são de outro país. Desconheço na literatura e países que assim se posicionam, a não ser é claro, vassalos de uma colônia, algo como Porto Rico. Tornamo-nos nós já o Porto Rico do Sul? Nossa boa tradição diplomática sempre imprecou tais arroubos. Colocar-se assim na sociedade brasileira é abdicar de um caminho autônomo e soberano. Não é com genuflexórios que o Brasil, ou qualquer força política se fará respeitar. É próprio dos impérios só respeitarem quem tem suas forças e desprezarem quem tintila.

Na nossa história já tivemos quem assim intencionasse. Um ribaldo pensador castrense, nativo do Ceará, que se fez politicamente na Bahia: Juracy Magalhães. Oportuno assinalar que nas letras cearenses e baianas devoto meu apreço por José de Alencar, Gregório de Matos, a boca do inferno, Castro Alves e Jorge Amado, não figurando tal abstruso aos meus prediletos.

O que é bom para os EUA invariavelmente não nos serve.

Afinal o plano Biden conseguirá resolver o dilema estadunidense? É bom para os EUA, conseguirá deter o declínio americano? A recuperação econômica tem fôlego ou enfrentará percalços incontornáveis? E para nós, quais serão os desafios? Afinal o plano Biden conseguirá resolver o dilema americano, como tão brilhantemente expôs o economista Márcio Pochmann em recente artigo?.

Em agosto de 2019, em Jackson Role, Wyoming, reuniu-se a cúpula do G7 dos banqueiros centrais, onde foi apresentado pela Black Rock, um plano denominado "Going Direct", elaborado por: Stanley Fischer, Philipp Hildebrand, Jean Boivin e Elga Bartsch.

Stanley Fischer: Fischer foi vice-presidente do Citigroup de 2002 a 2005. O Citigroup recebeu o maior resgate da história bancária global, obtendo US$ 2,5 trilhões cumulativamente em empréstimos rotativos do Fed e bilhões a mais dos contribuintes na crise financeira de 2007 a 2010. Fischer saiu do Citigroup indo servir como governador do Banco Central de Israel (Banco de Israel), de 2005 a 2013. (Ele tem dupla cidadania em Israel e nos EUA). Um ano depois, Fischer tornou-se governador do Conselho do Federal Reserve dos EUA, avançando para Vice-presidente em 16 de junho de 2014. Ele renunciou ao cargo no FED em 13 de outubro de 2017 e ingressou na BlackRock como consultor sênior em janeiro de 2019.

Philipp Hildebrand : Hildebrand foi Presidente do Conselho de Administração do Banco Nacional da Suíça de 2010, até que renunciou abruptamente no início de 2012. Houve um escândalo envolvendo sua esposa, uma ex-corretora de fundos de hedge, que negociava em moedas enquanto tinha informações privilegiadas sobre taxas de juros. Hildebrand é agora vice-presidente da BlackRock e membro do Comitê Executivo Global da empresa.

Jean Boivin: Boivin é o chefe do BlackRock Investment Institute. Ele ingressou na BlackRock em 2014. Antes de ingressar na BlackRock, Boivin foi nomeado Vice-Governador do Banco do Canadá em março de 2010, onde atuou por dois anos. Boivin deixou o Banco do Canadá em outubro de 2012 para se tornar Vice-Ministro Associado do Departamento de Finanças e para servir como Vice-Ministro de Finanças do Canadá no G-7, G-20 e no Conselho de Estabilidade Financeira.

Elga Bartsch: Bartsch chefia pesquisas econômicas e de mercado no Blackrock Investment Institute. Antes de ingressar na BlackRock, Bartsch foi Global Co-Head of Economics e Chief European Economist no Morgan Stanley em Londres. De acordo com a auditoria do governo dos programas de resgate do FED durante a crise financeira, o Morgan Stanley foi o segundo maior beneficiário dos programas de resgate do FED, atrás do Citigroup, recebendo US$ 2,04 trilhões cumulativamente em empréstimos rotativos abaixo do mercado.

Em primeiro lugar, o plano da Black Rock pede para confundir os limites entre a política fiscal dos Estados e a política monetária do Banco Central - exatamente o que o Tesouro dos EUA e o Federal Reserve estão fazendo hoje nos Estados Unidos.

Os autores escreveram no Livro Branco que "em uma recessão, a única solução é uma coordenação mais formal - e historicamente incomum - da política monetária e fiscal para fornecer estímulos eficazes". 

Agora entendemos por que, pela primeira vez na história, o Congresso dos EUA entregou US 454 bilhões de dólares em dinheiro dos contribuintes ao FED, sem nenhum debate significativo, para bancar perdas em ativos tóxicos produzidos pelos bancos de Wall Street que supervisiona. O FED planejou assumir um plano de resgate de US$ 4,54 trilhões, "indo direto" resgatar no mercado de papel comercial, fundos do mercado monetário e uma série de outros mercados.

Em segundo lugar, o plano da Black Rock explica ainda porque, pela primeira vez na história, o FED contratou a Black Rock para "ir direto" e comprar $ 750 bilhões em títulos corporativos primários e secundários e ETFs de títulos (Exchange Traded Funds), um produto do qual a BlackRock é um dos maiores fornecedores do mundo. Adicionando mais indignação, o programa administrado pela BlackRock receberá US$ 75 bilhões dos US$ 454 bilhões em dinheiro dos contribuintes para pagar as perdas em suas compras de títulos corporativos, que incluirão seus próprios ETFs, que o FED está permitindo que compre no programa.

dinheiro do helicóptero também está definido no plano da BlackRock, o que explica porque, simultaneamente com os US $ 454 bilhões que o Congresso arrecadou para o FED sob a Lei CARES, o estímulo fiscal também estava "indo direto" com cheques de US$ 1.200 e depósitos diretos para o povo estadunidense e empréstimos e subsídios do Programa de Proteção de Cheque “indo direto” para pequenas empresas.

Em terceiro lugar, também de acordo com a BlackRock: "Quaisquer medidas adicionais para estimular o crescimento econômico terão que ir além do canal da taxa de juros e 'ir direto' - [com] um banco central creditando contas do setor público ou privado diretamente com dinheiro. De uma forma ou de outra, isso significará subsidiar gastos - e tal medida seria fiscal e não monetária por definição. Isso pode ser feito diretamente por meio da política fiscal ou pela expansão do kit de ferramentas de política monetária com um instrumento de natureza fiscal, como a flexibilização do crédito por meio da compra de ações. Isso implica que um estímulo eficaz exigiria coordenação entre a política monetária e fiscal - seja implícita ou explicitamente".

Nos Estados Unidos, aproximadamente 85% do mercado de ações pertence aos 10% mais ricos dos americanos. A compra de ações, pelo FED, simplesmente expandiria e aceleraria a desigualdade de riqueza e renda que já está nos níveis mais altos desde a década de 1920 - uma época em que Wall Street também possuía grandes bancos que assim agiam.

O "Going Direct" foi chancelado pelos banqueiros do G7. Não sei o que vocês pensam, mas acho que o "indo direto" é mais condizente ao que está sendo praticado do que uma "nova política monetária". Mais direto e fiel aos fatos. Mais cruel e fidedigno. "Nova política monetária é muito para uma coisa velha. É só minha opinião. Mesmo porque abomino apropriação indébita e qualquer aventureiro pode querer adonar-se de ideias alheias que não são minhas.

Estamos em 2019, antes da pandemia e suas consequências. Por que então tal arcabouço foi gestado? Não estava tudo sob controle? Não, a coisa estava começando a desandar. Erodiram os fundamentos das medidas adotadas na crise de 2008- 2009 e os bancos enfrentavam séria crise de liquidez. A tentativa do FED em enxugar seu balanço das aquisições feitas durante a crise de 2008-2009 esbarrou na falta de liquidez dos bancos. 

Um mês depois, em 17 de setembro de 2019, o Federal Reserve dos EUA iniciaria um programa de resgate de empréstimos repo de emergência, depositando centenas de bilhões de dólares nos bancos de Wall Street. Abreviação de Repurchase Agreement, partir dessa operação, um investidor compra um determinado ativo, o vende para uma instituição financeira e firma um compromisso de recompra em uma data futura.Usando como exemplo o Federal Reserve, que utiliza o ponto de vista dos dealers para descrever as operações, esse tipo de ferramenta é utilizado quando o banco compra títulos – do Tesouro, imobiliários ou de agências de hipotecas, por exemplo – de dealers primários (instituições autorizadas a negociarem diretamente com o Fed), com o compromisso de venda no futuro. Dessa forma, a autoridade eleva a liquidez do sistema bancário, para retirá-la após um determinado período de tempo.

O que penso dessa nova política monetária? Acho-a muito boa, excepcional, pelo menos para a BlackRock. Com Larry Fink no comando como CEO, pulou de uma carteira de 7 trilhões de dólares de ativos em setembro de 2019 para mais de 9 trilhões de dólares em 2021! Se a Black Rock fosse um país só seria menor apenas que os EUA e a China. Chego a ferver de emoção por tanto esforço intelectual desinteressado...

Hoje, com o concurso da BlackRock, o FED detém 40% do PIB dos EUA em carteira de ações de empresas listadas em Wall Street. O FED adquire 120 bilhões de dólares todo mês, 80 em treasures e 40 em ações, com o auxílio luxuoso da BlackRock, que também administra os fundos de pensão federais.

Já aparecem vozes poderosas demonstrando que essa derrama de dinheiro na economia dá sinais de exaustão.

A política de sanções dos produtos chineses de Trump, com a perspectiva do retorno de empresas americanas aos EUA, está sendo um rotundo fracasso. Com o "AMERICAN FIRST" e "MAKE AMERICA GREAT AGAIN, nada de significativos retornos de empresas americanas que estão produzindo na China. A maior fábrica de carros elétricos da Tesla está em Shangai e está em expansão.

Com uma economia baseada em serviços e no consumo, as tarifas sobre produtos chineses estão sendo pagas pelo povo estadunidense. Com o dinheiro de helicóptero depositado nas contas dos contribuintes, aumentaram as importações de produtos chineses em mais de 50% suas exportações aos EUA. Todo o aumento do consumo interno é carreado para produtos oriundos do México, Canadá, China e outros.

A tão sonhada reindustrialização dos Estados Unidos não ocorreu e dificilmente ocorrerá. A não ser que reduzam o valor do dólar em +- 40% e reduzam o custo interno de produção, rebaixando os salários.

J. Biden depois de destratar Putin, chamando-o de "assassino" e incentivar as agressões da Ucrânia contra a Rússia, recua. Porque? Seria uma ofensiva fadada a um rotundo fracasso pela contra ofensiva russa. Isto teria profundas repercussões internas nos EUA. Trump na sua oposição as "guerras intermináveis" capitalizaria tal fracasso. Com mais de 100 dias de governo, a aprovação de Biden não resistiria às cobranças que fatalmente viriam.

Também a reunião do Alasca com a China levou a relação entre os países ao limite. Biden voltou-se, então, para o front interno para aprovar seu pacote. Sua retórica tem como fim recuperar parcelas do eleitorado perdidas pelos democratas desde o primeiro governo Trump. Vai conseguir aprova-lás? Num país profundamente dividido, dificilmente conseguirá fazê-lo em toda a sua extensão. A oposição republicana e mesmo segmentos do partido democrata não concordam com os aumentos de impostos propostos. Vamos acompanhar o desenlace da tramitação do pacote no Congresso.

“Trilhões em estímulos estão no sistema, é muita coisa, e acredito que o FED precisa reduzir a liquidez, pois excessos estão sendo criados”, afirmou Rick Rieder, CEO de renda fixa global e head da área de alocação global de investimentos da Black Rock. Portanto, o limite para o "Going Direct" está atingido, dificultando assim que o Tesouro consiga alocar os treasures no FED. A própria secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, afirmou que as taxas de juros poderão ter de subir no país para que um "sobreaquecimento da economia" seja evitado.

Quais são os principais riscos porque passa a economia americana

Em primeiro lugar, a inflação puxada pelo consumo e o aumento do preço das commodities. Uma inflação de 2,5% pode parecer pequena, porém é um tremor significativo na economia mundial pressionando as taxas de câmbio.

Em segundo lugar, ter uma paulatina alta na taxa de juros, encarece o serviço da dívida pelo tesouro, corroendo a margem de manobra orçamentária. E tem que satisfazer os tomadores dos treasures, que não se contentarão com taxas de 0.25% ao ano. Chegar a 3 ou 4% baterá em um patamar perigoso. As empresas zumbis, aquelas que descontada o serviço dos empréstimos, têm lucro zero, não resistiriam a esses níveis de juros. Elas perfazem 40% das empresas americanas listadas em Wall Street. Resta combinar com os tomadores dos treasures, que não o FED, qual a taxa que aceitarão. A própria situação do FED para fazer política monetária, após essa brutal injeção de liquidez, enfrenta seus limites. Um erro na dosagem provocará uma recessão. Stanley Druckenmiller, CEO da Duquesne Family Office, declarou que o FED está brincando com fogo. As ações do FED estão distorcendo as taxas de juros de longo prazo, com risco para a economia, escreveu, alertando que a venda de títulos do Tesouro dos EUA para o exterior pode refletir dúvidas sobre a solidez das políticas atuais e passadas. "Dólar perderá status de reserva, esse é meu cenário base", afirma Druckenmiller.

Em terceiro lugar, existe uma gigantesca bolha nos ativos acionários. Ao adquirir 40% do PIB em ações, o FED distorce o preço dos ativos e, se for realizar a mercado, seu valor despencará. Faz sentido econômico a PIFZER, uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo, e a EXXON, a maior petroleira do mundo, serem retiradas do S&P 500? A PIFZER ganhou rios de dinheiro com vacinas neste período. Pois foi exatamente isso que fizeram. Como âncora botaram a Tesla, que nunca havia tido lucro e as Big Tecs. "O mercado está a meio caminho de uma bolha da magnitude de 1929 ou de 2000”, diz Ray Dalio, presidente da Bridgewater, a maior firma de fundos de hedge do mundo. Ele também previu que não haveria demanda suficiente dos compradores de títulos para comprar novas dívidas do governo, o que levaria o Federal Reserve a continuar suas políticas expansionistas. O grande problema são as quantias de dinheiro que foram produzidas e colocadas no sistema", disse Dalio. Esses riscos devem "ser cuidadosamente ponderados", disse ele.

Com nuvens plúmbeas no horizonte, aceleração do processo inflacionário, margem estreita para continuar com o quantitative easing, dificuldade em encontrar tomadores para os títulos do Tesouro, Biden terá que se movimentar num terreno adverso. Os desdobramentos irão depender de como os agentes econômicos e o Congresso vão agir. A conferir...

Uma das propostas de aumento de impostos visa as empresas americanas que produzem fora e vendem seus produtos no mercado local. Ora, as tarifas sobre produtos chineses são pagas pelo consumidor americano. Esse imposto, caso seja aprovado, só encarecerá as mercadorias, e terá o mesmo fim das sanções. Ou seja, contribuirá para o aumento da inflação.

De seu pacote de infraestrutura e investimentos, quero comentar dois pontos: energia limpa, com ênfase em carros elétricos, e telecomunicações.

Binden quase perdeu as eleições em seu estado natal, a Pensilvânia, por ser contra a exploração do óleo e gás de xisto pelo método de fracking. Os EUA, através do shale oil e shale gas, tornaram-se um dos maiores produtores de petróleo, rivalizando com a Arábia Saudita e a Rússia. Aliás, a principal consequência do 11 de setembro foi catapultar o preço do barril de petróleo de US$ 30 para US$ 100, viabilizando a produção do shale oil&gas nos EUA. Bem, foi exatamente por isso que foi feito. Com característica de óleo leve, os EUA têm um enorme excedente para a exportação de gasolina e gás, e estão prestes a se tornarem o maior exportador mundial. Dar subsídios e incentivar os carros elétricos se chocará, inevitavelmente, com a indústria de oil&gas. Corre o risco de ficar sem combustíveis como está agora. Vai abrir mão de exportar gás para a Europa, motivo econômico pela qual se opõem ao Nord Stream 2, que ligará a Rússia à Alemanha? Chocar-se com a indústria de petróleo, além de ser um tiro no pé do ponto de vista econômico, será um desastre político.

Em telecomunicações, os EUA não possuem uma empresa como a Huawei, a Nokia ou a Ericsson - Trump chegou a cogitar em comprar a Nokia ou a Ericsson - assim como não tem uma empresa de ponta que produza hardware de telecom. São essas empresas que possuem a maioria das patentes que estabelecem o padrão do 5G. Os EUA têm grandes empresas produtoras de semicondutores, como Intel, Nvidia, AMD, Qualcomm, insumos chaves para as empresas produtoras de computadores, Iphones, hardware para telecom, porém nenhuma delas demonstrou interesse em investir em hardware, mesmo com todo incentivo de Trump para que fizessem. Biden vai resolver isso?

Para o Brasil, os reflexos da inflação americana já se fazem sentir nas taxas de câmbio. Se ela acelerar, nossa situação econômica, que é bastante ruim, tende a piorar. Se uma desaceleração econômica ocorrer, teremos a queda do preço das commodities, que afetará nossa balança comercial.

Vivemos um tempo de saída acelerada de empresas estrangeiras do país, aumentando nossa desindustrialização. Não interessa ao imperialismo estadunidense nosso fortalecimento. Quanto mais fracos e combalidos para eles é melhor.

Engatar nosso futuro em uma potência em franco declínio, que sequer é o nosso maior parceiro comercial, e vem retirando suas empresas daqui, como a FORD, carece de lógica econômica, posição motivada talvez por uma visão de curto prazo, exercitando fins meramente políticos. Se é para analisarmos as políticas do Biden, porque somente os EUA? Não caberia ver as contribuições de outros países? A economia não é mundial? A nova Rota da Seda, proposta e em execução da China, não deve ser cotejada em nossas reflexões?

Estamos no rebojo de uma mudança de era. A informação e o conhecimento serão precípuos de geração de valor e riqueza. A pandemia da Covid-19 potencializou a crise e as mudanças. Podemos, então, asseverar que o neoliberalismo está com seus dias contados, e que as propostas de Biden vão de encontro a sua superação? O desmonte completo perpetrado desde Reagan e Thatcher, liberou as amarras do capital financeiro nos últimos 40 anos e a financeirização tomou conta de todos os aspectos da vida da econômica mundial. Já demonstramos aqui o papel da BlackRock, que domina e coordena o FED, governo estadunidense, e vários Bancos Centrais pelo mundo afora. Mas não é a única. A The Vanguard Group com US$ 6,2 trilhões em ativos globais sob gestão, o State Street com US$ 3 trilhões, só para ficar nos mais significativos, demonstram cabalmente o tamanho que adquiriram. Somados os três temos: US $ 18,2 trilhões!! Hoje nem a maior economia do planeta consegue subsistir sem prestar vassalagem a esses senhores.

O rentismo não é um fenômeno novo, no Século XIX, a Inglaterra já apresentava o mesmo efeito. É uma característica de economias capitalistas decadentes, parte inseparável delas.

*Franklin D. Roosevelt está recebendo loas pelo NEW DEAL, encerro com ele num discurso de 27 de novembro de 1936 no Rio de Janeiro, ano que John Maynard Keynes publica sua clássica obra:  

“Estou deixando você esta noite com grande pesar. Há uma coisa, entretanto, que devo lembrar, e é que foram duas pessoas que inventaram o New Deal – o Presidente do Brasil e o Presidente dos Estados Unidos. Por isso, peço-lhe que se levante comigo e beba à saúde do meu bom amigo Presidente Vargas e à grande República do Brasil, nossa irmã Nação."

*

Negando o próprio negacionismo - André Barroso

Por André Barroso

Qual a vantagem de defender um ponto de vista e negar esse próprio ponto de vista? Mas não é negar como em uma tese, onde a contra argumentação é importante nos textos dissertativos, pois mostra o ponto de vista oposto, gerando debates sobre o tema proposto. Mas como geramos debate ontem. Ernesto Araújo, assim como Fabio Wajngarten, assumiu que podem falar qualquer coisa para se livrarem de uma repreensão pública, mesmo com vídeos na rede, textos escritos e publicados e twittes debatidos. Vitor Hugo teria dito: “ Mentir é maldade absoluta. Não é possível mentir pouco ou muito; quem mente, mente. A mentira é a própria face do demônio”.

Como disse uma amiga, adolescente gosta de namorar, mas adulto gosta mesmo é da CPI. É como um bom seriado que as sextas acabam para retornar com novos episódios na terça seguinte. E Ernesto Araújo superou personagens como FLETCHER REEDE, de O mentiroso (papel clássico de Jim Carrey), a família inteira de dissimulados, no filme de Bong Joon-Ho e aquele que achava que o final poderia ser glamoroso, Frank Abagnale; personagem de Leonardo DiCaprio em Prenda-me se for capaz. Em 116 anos do cinema mundial, o enredo escrito pelos ouvidos desse governo na CPI estaria no top 10 do gênero mentiras. E com direito a ter medo de ir ao banheiro e perder, por exemplo, a fala de Kátia Abreu.

Claro que temos ressalvas. Mas é que estamos tão carentes, no meio de uma pandemia com um governo de extrema-direita ceifando vidas, que qualquer fala bem dada é uma glória na alma. Randolfe Rodrigues mostrou que Ernesto Araújo sabotou o consórcio Covax Facility. O ex-ministro não se abalou em suas expressões faciais sobre isso. Pode ser que debaixo da máscara esteja rangendo os dentes, mas nunca saberemos. Mas o que esperar de alguém que acredita na Terra plana e que temos um vírus comunista que quer implantar a semente do comunismo na corrente sanguínea? É fácil citar dados falsos sobre China, consórcio de vacina e OMS. Falar que fizeram tudo ao alcance e se verifica que não fizeram, nem um mínimo telefonema para a Venezuela para agradecer o empenho na doação de oxigênio para a crise em Manaus.

Meu problema é que sou afeito a um gosto refinado, devido a muita leitura na juventude. Mas como a fala de Abreu e sua motosserra giratória nos representa nessa hora, independente de um respeito ao mentiroso. "O senhor foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, para o naufrágio da política externa brasileira". Foi o resumo que precisava terminar meu dia de CPI. A compulsão pela mentira, não vai desviar a conclusão dos fatos, pois as provas são robustas. Nesses casos, não adianta a tese de que não fui eu, mas meu eu lírico; quando sempre chamou a COVID de comunavírus e fala que não houve atrito com a China.

O poeta Alexander Pope disse: Errar nos torna humanos, admitir o erro e pedir perdão deveria nos tornar divinos. No entanto,  políticos da gestão Bolsonaro não aceitam o peso de seus equívocos. Achavam que esse dia nunca chegaria. Que poderiam fazer o que quisessem sem serem marcados como, no mínimo, incompetentes. Até uma determinada época, onde testaram limites, como das falas nazistas do primeiro secretário de cultura, achavam que o forte apoio de setores da população daria suporte para todas as suas medidas inconsequentes. Querem transmitir uma imagem de absoluta eficácia, sem existir e precisam da mentira para que seu público possa dar suporte nas redes sociais com a falsa ilusão de que estava sofrendo ataques injustos e que teria suporte sempre. Ledo engano.

Por que Ernesto não defende suas convicções na CPI? E para não dizerem que é uma fala de esquerda, aponto que no livro O Liberalismo Politico, de John Rawls, mostra sua teoria que admite que as pessoas, no âmbito da vida privada, tem “afetos, devoções e lealdades dos quais elas acreditam que não poderiam, ou na verdade não deveriam, afastar-se (…) As pessoas podem achar simplesmente inimaginável viver sem determinadas convicções religiosas, filosóficas e morais ou sem determinados apegos e lealdades duradouros.” Rawls ainda orienta: “Para saber se estamos seguindo a razão pública, devemos perguntar: Como veríamos nosso argumento se ele nos fosse apresentado como uma opinião da Suprema Corte?” 

Aguardemos os próximos capítulos da CPI. 

*

Fome, vírus e tiro: o Brasil cansou do Bolsonaro - Tiago Santana

Por Tiago Santana

Chega! O Brasil do desgoverno Bolsonaro chegou ao limite do que a população consegue aguentar. Não bastassem o péssimo primeiro ano de mandato, com a montagem dos ministérios recheados de amigos e militares não-técnicos e um 2020 repleto de negacionismo e falta de ação para o combate à pandemia, 2021 apresentou a pior face de um mandato que caminha a passos largos para o desmantelamento do país. 

Falta vacina, falta comida, falta tudo. As políticas públicas no Brasil, a cada dia mais, têm se retraído e o povo é quem sofre. Todo esse cenário mostra que a população chegou ao limite. Não dá mais para esperar as próximas eleições para “mostrar nas urnas” que a popularidade do pseudo-presidente caiu.

Devido à chacina no Jacarezinho, que ignorou a ADPF 635, deixou dezenas de mortos e mexeu diretamente com a vida de milhares de pessoas - inclusive crianças -, o povo no Rio de Janeiro foi para as ruas. 

Primeiro, na própria comunidade atingida, mostrando que a favela tem voz e que as atrocidades combinadas entre o governador Cláudio Castro e o Bolsonaro não passarão mais sem denúncia e luta. 

Depois, no fatídico dia 13 de maio, nas ruas do Centro da cidade, os gritos de ‘vidas negras importam’ e ‘fora Bolsonaro’ foram impulsionados pela Coalizão Negra e milhares de ativistas e políticos, como Benedita da Silva, Joel Luiz, Jota Marques, Tainá de Paula, Djeff Amadeus. 

As ruas mostraram que o povo cansou de morrer de fome, de tiro e de vírus. 

Um manifesto ditou o tom da denúncia:

“A bala da polícia seleciona,

a sentença do juiz seleciona,

a porta giratória dos bancos, seleciona,

o segurança do shopping, seleciona

os seguranças do supermercado Extra e Carrefour, selecionam,

nossa morte segue institucionalizada pelo Estado Brasileiro,

a polícia é racista, fora genocida” - manifesto falado nos 41 atos espalhados pelo Brasil.

O Brasil vive, até hoje, o que é chamado de Maafa: um processo de sequestro e cárcere físico e mental da população negra. Com o argumento de combate ao tráfico de drogas, o Estado invade as favelas e atira a esmo. A política de segurança pública tem apenas esta ação. 

No campo da intelectualidade, não vemos vozes negras sendo ampliadas e valorizadas, além de termos os nossos discursos roubados e invalidados pela mão de quem, historicamente, nos oprime. Um país que não valoriza suas raízes, não conseguirá dar bons frutos. 

E o Brasil do Bolsonaro é assim: violentador dos direitos, das oportunidades e da memória do povo que construiu e carregou o país até hoje. 

Portanto, chega! O momento de mostrarmos a força é agora, ocupando as ruas, as redes e o que mais for necessário para dizer que não aguentamos mais tanta incompetência, truculência e barbárie.

*

Pazuello responsabiliza Conselho Federal de Medicina pelo uso da cloroquina

Ex-ministro Eduardo Pazuello

247 - Em depoimento na CPI da Covid, nesta quarta-feira (19), o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello blindou Jair Bolsonaro sobre recomendações para o uso da cloroquina e responsabilizou o Conselho Federal de Medicina (CFM).

"Fizemos nota informativa seguindo o Conselho Federal de Medicina, que fez publicação dando autonomia médicos para utilizarem medicamentos", afirmou. 

"Quando começou o MS emitiu realmente uma orientação sobre o uso na fase grave. Feita pela gestão de Mandetta, que é médico. Os médicos estavam usando off label. Isso é notório. Então nós redigimos uma nota técnica", acrescentou.

De acordo com o general, "o Brasil usa a cloroquina há 50 anos". "É um antiviral e anti-inflamatório. Foi utilizada na crise do zika vírus em 2016. Em 2017, o MS criou protocolo para crise da cloroquina na crise do chikungunya", continuou.

"Ao longo da pandemia, os médicos viram isso e, sim, começaram a ver que estava sendo usada em vários países. Estamos falando de 29 países que tem protocolo para a Covid - como Índia, Rep. Tcheca, Venezuela e Cuba", complementou. 

Com o objetivo de poupar Bolsonaro, Pazuello disse que "nunca" recebeu ordens para recomendar o uso da cloroquina

O general também repetiu a narrativa de Bolsonaro, ao afirmar que o Supremo Tribunal Federal (STF) limitou as ações do governo federal para o gerenciamento da pandemia do coronavírus.

*

Iceberg três vezes maior que a cidade de São Paulo se separa na Antártica, está à deriva

Gigantesco bloco de gelo tem cerca de 170 km de comprimento por 25 km de largura e área total de 4.320 km². A capital paulista tem 1.521 km²

Iceberg se desprende da plataforma Amery, na Antártica.
Iceberg se desprende da plataforma Amery, na Antártica. (Foto: Sputnik / Aleksei Nikolsky)

247 - Um bloco de gelo batizado de A-76 se desprendeu de uma plataforma de gelo na Antártica, no Hemisfério Sul, e se tornou o maior iceberg do mundo, anunciou a Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), com base em imagens de satélite do programa europeu Copernicus. A reportagem é do portal G1. 

O iceberg tem cerca de 170 km de comprimento por 25 km de largura e uma área total de 4.320 km², está agora à deriva no Mar de Weddell, de acordo com comunicado da agência divulgado na quarta-feira (19).

O gigantesco iceberg tem uma área três vezes maior que a da cidade de São Paulo, que é de 1.521 km². 

O Mar de Weddel, onde esse bloco de gelo vai flutuar, é uma porção do oceano que fica abaixo da América do Sul.

*
*
*
*
*
*
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

________________________* QUARKS, LÉPTONS e BÓSONS ________________________* COMUNISMO de DIREITA e NAZISMO de ESQUERDA. É o FIM da PICADA...! ________________________* http://www.nano-macro.com/?m=1

9