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Análise: Leonardo Sakamoto - Bolsonaro ataca lei contra o trabalho escravo no Dia do Trabalhador


Leonardo Sakamoto
Colunista do UOL
01/05/2021 14h11
O presidente Jair Bolsonaro atacou, neste Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador, uma emenda constitucional criada, em 2014, para combater o trabalho escravo contemporâneo. Ela prevê a expropriação de imóveis rurais e urbanos flagrados com esse tipo de crime. Ironicamente, ele votou a favor da emenda, quando era deputado federal, em 2004.
"Quando o momento se fizer oportuno, melhor, juntamente com a [ministra da Agricultura] Tereza Cristina, que está do meu lado aqui, nós devemos sim rever a emenda constitucional 81, de 2014, que tornou vulnerável a questão da propriedade privada. É uma emenda que não foi regulamentada e com toda certeza não será regulamentada em nosso governo. Nós precisamos alterar isso que foi feito em 2014, tornando vulnerável a questão da propriedade privada", afirmou em um pronunciamento, em vídeo, para empresários do agronegócio.
Passa, dessa forma, uma mensagem sobre ao lado de quem ele prefere estar. E não é do trabalhador pobre, muito menos do agricultor e do pecuarista que operam dentro da lei e, por isso, sofrem concorrência desleal e dumping social de quem escraviza e corta custos ilegalmente.
Bolsonaro não conseguiria revogar, pelo menos não neste governo, a emenda constitucional. A promulgação da PEC do Trabalho Escravo, que deu origem à emenda constitucional, em 2014, repercutiu em todo o mundo como um sinal de que o Brasil não tolera escravidão contemporânea.
Limar o texto representaria um indicador ao contrário, levando fundos de investimento trilionários a reverem seus investimentos do Brasil e manchando lá fora a imagem dos nossos produtos, principalmente os de origem agropecuária e extrativista. Isso sem contar que parlamentares seriam duramente criticados por apologia ao trabalho escravo. Com isso, o governo não conseguiria 308 deputados federais e 49 senadores para endossarem a ideia.
Bolsonaro sabe disso, mas quis fazer um aceno a uma parte de sua base.
O problema é que apenas uma parcela pequena e arcaica do agronegócio ainda ataca medidas como essa, de efeito dissuasivo, voltadas ao combate ao trabalho escravo. Nesse sentido, ele faz um desfavor a quem opera dentro da lei ao apresentar essa pauta como se fosse de extremo interesse dos produtores rurais que participam da 86ª edição da Expozebu, em Uberaba (MG), alvo do pronunciamento deste sábado. A imagem que fica é como se ele estivesse prestando conta de um pedido deles.
Bolsonaro votou a favor da emenda constitucional em 2004
O presidente afirmou, em live, na noite de 12 de novembro do ano passado, que, enquanto deputado federal, votou contra o confisco de propriedades rurais e urbanas de quem utilizou trabalho escravo. Contudo, os registros da Câmara dos Deputados mostram que ele votou a favor da proposta no primeiro turno, em 2004, e estava ausente no segundo, em 2012.
A emenda alterou o artigo 243 da Constituição Federal, que já previa o confisco em caso de cultivo ilegal de plantas psicotrópicas, como maconha, acrescentando o trabalho escravo.
Bolsonaro votou a favor da matéria no primeiro turno em 11 de agosto de 2004. Ela corria na Câmara sob a numeração de PEC 438/2001. Naquele dia, todos os partidos e bancadas recomendaram a aprovação da emenda e 326 deputados votaram a favor. Mesmo com a orientação, dez parlamentares se posicionaram contra, a maioria ruralistas, e oito se abstiveram.
A chamada PEC do Trabalho Escravo levaria oito anos para ser analisada e aprovada em segundo turno na Câmara, em 22 de maio de 2012. O presidente sugeriu, na live de 12 de novembro, que na segunda votação, deputados teriam entendido o teor do texto e votado contra. Na verdade, ela teve uma aceitação ainda maior: foram 360 favoráveis, 29 contrários e 25 abstenções.
Plano de governo do candidato Bolsonaro já criticava essa lei
Não é a primeira vez que o presidente critica a emenda. Em outras ocasiões, ele já havia dito que ela cria um problema sério para a família dos proprietários que podem perder o imóvel, mas sem demonstrar a mesma solidariedade com os trabalhadores escravizados.
Em seu programa de governo, o então candidato Jair Bolsonaro propôs revogar a emenda, que é considerada a principal legislação aprovada, nos últimos anos, para o combate à escravidão.
A promulgação da 81/2014 ocorreu após dois turnos de votação no Senado Federal e 19 anos de trâmite desde que a ideia foi apresentada pela primeira vez no Congresso. Até agora, contudo, ainda não foi regulamentada. As propriedades confiscadas seriam, pela emenda, destinadas à reforma agrária e ao uso habitacional urbano.
A regulamentação é importante porque vai estabelecer qual o devido processo legal para o perdimento das propriedades. Pelos debates realizados no Congresso, o mais provável é que comece após condenação judicial com trânsito em julgado e não afete quem alugava ou arrendava imóveis e não tinha conhecimento das atividades de seus inquilinos. Ou seja, não seria a decisão final de um auditor fiscal, mas contaria com uma decisão judicial de última instância.
O Ministério Público do Trabalho já vem pedindo sua aplicação em casos, como no Estado de São Paulo, mesmo sem a regulamentação.
Trabalho escravo hoje no Brasil
De 1995, quando o Brasil reconheceu diante das Nações Unidas a persistência do trabalho escravo em seu território e o governo federal criou o sistema nacional de verificação de denúncias, até o final do ano passado, cerca de 56 mil trabalhadores foram resgatados segundo dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério da Economia.
De acordo com o artigo 149 do Código Penal, quatro elementos podem definir escravidão contemporânea por aqui: trabalho forçado (que envolve cerceamento do direito de ir e vir), servidão por dívida (um cativeiro atrelado a dívidas, muitas vezes fraudulentas), condições degradantes (trabalho que nega a dignidade humana, colocando em risco a saúde e a vida) ou jornada exaustiva (levar ao trabalhador ao completo esgotamento dado à intensidade da exploração, também colocando em risco sua saúde e vida).
Trabalhadores têm sido encontrados em fazendas de gado, soja, algodão, cana, café, frutas, erva-mate, batatas, sisal, na derrubada de mata nativa, na produção de carvão para a siderurgia, na extração de caulim e de minérios, na construção civil, em oficinas de costura, em bordéis. A pecuária bovina é a principal atividade econômica flagrada com trabalho escravo desde 1995.
Ex-ator mirim de 'A Viagem' posa para ensaio sensual de salto e maquiagem
Colaboração para o UOL, em São Paulo
30/04/2021 08h19
Quem acompanhou a novela "A Viagem", certamente se lembra do personagem Dudu, interpretado por Daniel Ávila. Vinte e seis anos depois da exibição original da novela, o ator chamou a atenção com um ensaio ousado.
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De salto alto, maquiagem e bumbum à mostra, o ex-ator mirim, hoje aos 36 anos, exaltou o glamour. "Glamour: substantivo masculino, charme pessoal; encanto; magnetismo", escreveu ele em um dos cliques no Instagram.
Depois do sucesso na trama espírita, em que foi filho de Antonio Fagundes, o ator emplacou mais alguns papéis em novelas como "O Profeta" e "Floribella", antes de voltar ao circuito independente.
Em entrevista à Quem no início do ano, Ávila deixou claro que as consequências da carreira como ator mirim motivaram seu afastamento da televisão, contando ter sofrido bullying por seu trabalho.
"Eu tinha toda uma vivência diferente das crianças da minha idade. Convivia com adultos no meu trabalho, viajava muito... Além disso, eu era dois anos mais novo que os meus amigos, tinha cabelo grande [...] Era bullying direto."
"Sofri demais e alguns bullyings até mais sérios de tomar porrada de um grupo, puxarem meu cabelo, me chamarem de viado. Isso mexeu um pouco com a minha espontaneidade, fiquei até mais gordinho", contou.
Biden, Guedes e a Casa-Grande
Guedes é exemplo extremo de 'aporofobia', aversão a pobres
Merece ampla discussão o plano do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, para a retomada pós-pandemia, especialmente pelo que propõe sobre o papel do Estado numa economia capitalista e numa sociedade profundamente desigual como a norte-americana.
Basicamente, o presidente propõe reformas de caráter progressista, que se destinam a melhorar as engrenagens do capitalismo, para que o motor econômico volte a girar sem deixar para trás multidões de desesperados revirando lixo para não morrer de fome.
Biden quer criar empregos para a classe média e trabalhadores com menor qualificação, aumentar o valor do salário mínimo, ampliar a educação pública e melhorar o acesso à saúde, que, segundo ele, deve ser um direito, não um privilégio.
A questão é saber quem vai pagar a conta dos investimentos do Estado. Biden quer elevar a carga tributária das empresas e daqueles que ocupam, digamos, o topo da cadeia alimentar e que engordaram suas fortunas ainda mais durante a pandemia. Ele enunciou seu argumento de forma até singela: "É hora de pagarem a sua parte justa".

No Brasil, porém, falar em aumento de carga tributária dos mais ricos (inclusive no âmbito de uma reforma sobre o tema) é um debate interditado, sobretudo em parte da grande mídia, que deveria amplificá-lo. Esta parece domesticada pelo "mercado" e se comporta como porta-voz de Paulo Guedes em seu projeto de desossar o Estado e seu papel de indutor da mobilidade social.
Guedes é exemplo extremo de "aporofobia", expressão cunhada pela filósofa espanhola Adela Cortina para definir a aversão aos pobres e que se manifesta de diversas formas no mundo contemporâneo. A palavra vem do grego áporos (pobre) e fobéo (rejeitar).
Guedes não cansa de demonstrar ódio de classe: empregadas domésticas não podem viajar e filhos de porteiros não merecem estudar. Cada vez que abre a boca, Guedes exala o mau hálito da Casa-Grande.
A preocupante expulsão de jornalistas estrangeiros da China: 'País está se fechando'

Tamara Gil - @_tamaragil - BBC News Mundo
01/05/2021 08h01
A China é um país extremamente difícil para um jornalista, não importa que cobertura ele ou ela faça.
E a situação só está piorando: no ano passado, o país expulsou pelo menos 18 correspondentes estrangeiros. Neste mês, o jornalista da BBC John Sudworth se juntou ao grupo de jornalistas que tiveram de deixar a China continental. Ele se mudou para Taiwan em meio a assédio e perseguição pelas autoridades.
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"A China está definitivamente se fechando", avisa o analista Jeremy Goldkorn. "Parece que estamos de volta aos anos 90."
Goldkorn viveu duas décadas no país e hoje é um importante analista da China. É editor-chefe do site SupChina e cofundador do podcast Sinica, duas plataformas que explicam a China ao Ocidente quebrando estereótipos.
A BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, conversou com Goldkorn sobre o tratamento que o governo chinês confere à imprensa estrangeira, sobre o poder do Partido Comunista, os abusos contra a minoria muçulmana uigur na província de Xinjiang, onde há graves violações de direitos humanos cometido pelo governo chinês e denunciado pela imprensa, e a "diplomacia da vacina" chinesa durante a pandemia da covid-19.

BBC - A China está fechando suas portas para a imprensa estrangeira?
Jeremy Goldkorn - Em uma palavra, sim. Está dificultando sua entrada e está fazendo isso de diferentes maneiras: por exemplo, retardando o processo de concessão de um visto ou com o tipo de comportamento que afastou John Sudworth, que é um assédio direto.
Também o faz se recusando a renovar vistos, como fez com três meios de comunicação dos Estados Unidos, em retaliação a decisões americanas no ano passado.
Mas também está ficando mais difícil trabalhar na China.
Então, a China definitivamente está se fechando, parece que estamos de volta aos anos 1990, antes do grande fluxo de correspondentes que vieram a Pequim para as Olimpíadas. Eles estão voltando no tempo.
BBC - Você acha que a premiada reportagem de John Sudworth sobre a situação em Xinjiang foi o principal motivo da campanha de pressão das autoridades contra ele e sua família?
Goldkorn - Creio que sim.

Faz sentido, porque foi a reportagem crítica mais proeminente que ele já fez e, se você notar, nos últimos dois meses, o governo chinês redobrou uma intensa e bem financiada campanha de propaganda em Xinjiang, abrangendo jornalistas da mídia estatal e outros no Twitter a documentários caros da CGTN (o serviço de língua inglesa da rede estatal chinesa) ou um filme de propaganda que foi exibido na embaixada australiana.
Portanto, seu trabalho [de Sudworth] em Xinjiang parece ser a razão mais lógica para o aumento do assédio.
Também acho que assim que o governo chinês e, bem, seus serviços de segurança decidirem que você está na lista de inimigos da República Popular, eles vão dificultar sua vida.
Então, talvez o assédio dele e de sua família tenha sido a consequência mais direta de suas reportagens sobre Xinjiang, mas acho que em algum nível o governo chinês está tentando enviar a todos os jornalistas a mensagem de que se continuarem com o jornalismo crítico, seja de qualquer coisa, eles vão complicar sua vida.
BBC - "À medida que a repressão aumenta, a China se parece cada vez mais com a Coreia do Norte." Esse era o título de um artigo de Anna Fifield, uma ex-chefe da sucursal do Washington Post na China que cobriu as duas Coreias, sobre uma visita a Xinjiang no ano passado. A China está se tornando a Coreia do Norte em termos de mídia e censura?
Goldkorn - Sim. Mas não sei se essa comparação é realmente útil porque a Coreia do Norte é tão extrema... e está em uma situação diferente da China.
Se você ler o artigo, acho que a comparação é um pouco mais sutil (...) Se você disser que a China está se tornando a Coreia do Norte, isso provavelmente não transmite a complexidade do assunto.
Em alguns casos, por exemplo, em Xinjiang ou no Tibete, é impossível fazer jornalismo independente. O acesso a funcionários do governo agora é muito menos fácil do que era há 10, 15 ou 20 anos, então está se tornando mais uma Coreia do Norte do que era há alguns anos, mas não sei se essa comparação é muito útil.
BBC - No site SupChina e no podcast da Sinica, vocês trabalham para explicar a China ao Ocidente, rompendo julgamentos errôneos, observando que a realidade da China é sempre muito complexa. O que está faltando na cobertura sobre Xinjiang, onde há violações aos direitos humanos da minoria muçulmana uigur?
Goldkorn - Não sei, a forma como o governo chinês enxerga é que eles tinham um problema de terrorismo e mesmo que do ponto de vista ocidental, muito disso seja visto como um exagero ou uma invenção, é verdade que lá houve dois incidentes de violência generalizados: a explosão de uma bomba e o ataque em Urumqi [capital de Xinjiang] e os ataques com faca na estação ferroviária de Kunming [capital da província de Yunnan, no sul].
Ambos, quer você pense que eles foram justificados ou não - isso é uma questão totalmente diferente -, foram ataques terroristas. Eles procuraram aterrorizar a população civil.
E eu acho que não há muita discussão na mídia ocidental sobre por que o governo chinês está fazendo o que faz [em Xinjiang], e o fato de que eles estão respondendo a alguns problemas reais que eles têm. E mesmo que rejeitemos seus métodos, não há como negar que há um problema com o qual eles tiveram que lidar.
Acho que talvez isso esteja fora da cobertura.
Mas, fora isso, não acho que estamos perdendo muito na imprensa ocidental. Acho que a mídia estrangeira tem feito um trabalho muito bom: denunciando os abusos que estão ocorrendo, abusos que estão no nível de crimes contra a Humanidade. Deveriam ser divulgados e impedidos. E é função da mídia expor isso, então, nesse sentido, não acho que estamos perdendo nada.
Se estivermos perdendo, o problema é com o governo chinês, porque não permite que jornalistas de verdade entrem em Xinjiang para realmente noticiar o que está acontecendo.
A imagem que temos é parcial: ninguém pode ter acesso aos campos. Só podemos coletar relatos de testemunhas.
BBC - Quais seriam as consequências para o mundo e para a China, se Pequim continuar nessa trajetória de expulsão de correspondentes?
Goldkorn - A China está cada vez mais confiante de que pode lidar com as consequências.
No longo prazo, vai prejudicar a China, porque os jornalistas estrangeiros, com algumas exceções, desenvolvem uma certa simpatia pela sociedade e até pelo governo. Seus relatos não são apenas sobre as coisas ruins que estão acontecendo na China. Eles tendem a humanizar o país e as pessoas com suas experiências. Estão passando um tempo lá e veem os detalhes: que o país é muito mais do que a repressão de dissidentes, que Xinjiang é uma parte terrível do que está acontecendo, mas há muito mais.
Quanto menos cor e textura cotidiana tivermos na mídia, mais fácil será para o mundo exterior demonizar e desumanizar a China.

BBC - Por que a China está mudando sua atitude em relação à imprensa estrangeira?
Goldkorn - Acho que é por causa de uma estranha combinação de força e fraqueza, de confiança e insegurança.
Acho que, por um lado, Xi Jinping chegou ao poder em um momento em que a China, em 2012, havia superado a crise financeira global e era um dos países mais importantes do mundo, com base em qualquer índice econômico.
É um país indispensável. Qualquer país tem algum tipo de acordo com a China. Ele não é mais pobre e fraco. Estava começando a parecer um país rico e poderoso. Portanto, há um certo senso de orgulho e a possível arrogância que o acompanha.
Ao mesmo tempo, acho que Xi tem um forte sentimento de que, se o Partido Comunista não for cuidadoso, a China acabará como a União Soviética e como a Rússia, que é obviamente uma superpotência, mas em alguns aspectos não é levada a sério como país.
Apesar do orgulho e da confiança de Xi Jinping e de muitos cidadãos em relação às conquistas do país, há um profundo sentimento de insegurança sobre como as coisas podem dar errado. E isso está por trás da sensibilidade absoluta com que eles veem o que acontece na China, especialmente internamente, mas também no nível internacional.
Soma-se a isso o sentimento de que a China, de certa forma, precisa cada vez menos de outros países, mas é nesses momentos em que tanto o orgulho quanto uma espécie de paranoia convergem, o que os levam a sentir que os jornalistas estrangeiros não são realmente as pessoas de que precisam agora.
BBC - Isso também pode explicar a mudança que vimos na diplomacia chinesa no ano passado? Os chamados 'lobos guerreiros' [diplomatas que defendem a posição de Pequim com linguagem dura nas redes sociais e em outros lugares, às vezes espalhando desinformação] estão aqui para ficar?
Goldkorn - Parece que sim. E é parte do mesmo problema: o desejo do Partido Comunista de dar forma à história que está sendo contada, alimentado ao mesmo tempo pela arrogância e pela paranoia.
Pelo menos no futuro próximo, não vejo isso mudando.
BBC - Parece uma continuação da posição mais assertiva da China na arena internacional sob Xi Jinping.
Goldkorn - Certamente é.
BBC - Por muitos anos, no Ocidente, presumiu-se que a China um dia se tornaria um país democrático, mas hoje isso parece um sonho que se desvaneceu. É um mal-entendido sobre como a China se vê e como quer ser percebida no resto do mundo?
Goldkorn - Sim, acho que sim.
Muitos acadêmicos, políticos ou jornalistas talvez pensassem que, à medida que a China se tornasse mais rica e mais integrada ao mundo, se tornaria mais liberal. E não foi esse o caso.
Talvez se não fosse por Xi Jinping não seria assim. Por outro lado, no entanto, parte das guindas anti-liberais que a China deu o precede.
Aquele momento de otimismo sobre a China se abrir, para mim, terminou em 2009. Pelo menos foi quando comecei a pensar que não iria funcionar. Eu mesmo era um dos que tinham a concepção errônea de que a China se liberalizaria gradualmente.
BBC - Por que em 2009?
Goldkorn - Dois fatores: primeiro, os Jogos Olímpicos de sucesso [em Pequim, 2008].
E logo em seguida, a crise financeira global, quando se constatou que Wall Street - o sistema financeiro e econômico americano que era admirado e que, em muitos aspectos, foi estudado e imitado pelo governo chinês - não era tão forte ou tão bem-sucedido como foi planejado.
E, ao mesmo tempo, a China navegou nas águas da crise, em grande parte graças à capacidade do governo de usar essa força para resistir à tempestade e alocar os gastos de uma forma que só se pode fazer se tiver o poder centralizado.
Portanto, acho que depois de 2009, muitas pessoas - de estudantes a acadêmicos a cidadãos comuns - começaram a pensar que sua admiração anterior pelo Ocidente pode ter sido deslocada. Esse foi um ponto de virada.
BBC - Que outros mal-entendidos ou percepções equivocadas existem sobre a China no Ocidente?
Goldkorn - Acho que um dos mal-entendidos que ainda se vê é que existe um poderoso grupo de 'reformistas' dentro do Partido Comunista; que se fossem apoiados, isso permitiria que tudo fosse liberalizado.
No Ocidente superestimamos o apelo do modelo ocidental de democracia liberal e, ao mesmo tempo, subestimamos a capacidade do PCC: apesar de todos os problemas que a China tem e possa ter com o partido, eles provaram ser extremamente competentes governando o país.
BBC - Agora pergunto sobre outra ideia que tende a ser vista no Ocidente: a China busca dominar o mundo?
Goldkorn - Não acho que a China esteja planejando dominar o mundo exatamente: acho que o Partido Comunista quer fazer do mundo um lugar seguro para sua forma de governo. E assim garantir sua permanência no poder a longo prazo. Esse é o seu objetivo principal.
Mas, para tornar o mundo mais seguro para o PCC, a China precisará crescer econômica e militarmente, e é aí que não se sabe ao que isso pode levar.
Não acho que Xi Jinping seja como um vilão de quadrinhos tramando quando invadir os Estados Unidos ou quando tomar o sudeste asiático e criar uma colônia.
Não acho que a China pense como uma ex-potência colonial, mas acho que tornar o mundo mais seguro para o governo do PCC levará à dominação chinesa, especialmente na esfera econômica mundial, o que colocará muitas pessoas em uma posição incômoda.

BBC - Portanto, trata-se de sobrevivência absoluta.
Goldkorn - Essa é a minha visão, sim.
BBC - Falemos sobre a relação entre a China e os EUA. Ouvimos alertas sobre uma possível "nova Guerra Fria", por exemplo, do Secretário-Geral da ONU; enquanto outras vozes consideram que devemos ter cuidado ao descrever a relação entre as duas superpotências. Você vê como inevitável uma nova Guerra Fria?
Goldkorn - Acho que cada um tem sua própria definição de o que significa Guerra Fria. Mas em muitos aspectos essa definição obscurece a questão em vez de iluminá-la.
Porque [a situação] é muito diferente da Guerra Fria 1.0, digamos. A conexão é que ninguém está lutando diretamente, mas há uma hostilidade tremenda.
BBC - Taiwan é o maior risco de confronto entre China e Estados Unidos?
Goldkorn - Taiwan e o Mar do Sul da China, em termos gerais. São duas questões diferentes, mas intimamente relacionadas.
Acho que o risco com Taiwan é que Xi Jinping decida que agora a China está em uma posição de força e que é hora de agir. Isso seria com Taiwan, mas geralmente ambos são um perigo.
O maior risco é que, com o aumento da militarização da região, aconteça alguma coisa em que haja duas partes irritadas uma com a outra, seja a China ou os Estados Unidos, ou talvez outro país, mas em que os Estados Unidos sintam necessidade de se envolver. Ou que ocorra algum tipo de incidente não planejado: um navio colide com outro navio e marinheiros americanos morram. Um acidente ou erro de cálculo e sai fora de controle.
Para mim, esse é o grande risco, seguido de perto pela decisão da China de agir em relação a Taiwan.
BBC - Mesmo na pandemia, a pressão sobre Taiwan não parou de aumentar e atingiu a América Latina: neste mês, Taiwan acusou Pequim de oferecer vacinas chinesas para pressionar o Paraguai a cortar suas relações com a ilha. O Paraguai é um dos poucos países que reconhece Taiwan como um Estado soberano. Como você vê a diplomacia de vacinas da China e essas disputas?
Goldkorn - A pandemia pode ter sido muito ruim para os esforços diplomáticos internacionais da China, que obviamente está sofrendo algumas consequências negativas em termos de sua reputação.
Mas, por outro lado, a China fez um bom trabalho em reverter isso, tanto controlando a pandemia no país quanto com a diplomacia de equipamentos de proteção e máscaras, primeiro, e agora de vacinas.
Honestamente, se você é um pequeno país pobre e ainda não está recebendo as vacinas Covax (consórcio para distribuir vacinas pelo mundo) e os EUA ou o Reino Unido não estão prometendo nada, enquanto a China está dizendo 'se você se comportar bem conosco, nós lhe enviaremos vacinas...'
[Pequim] quer aproveitar ao máximo esta oportunidade de diplomacia de vacinas e pressionará todos os países que ainda reconhecem Taiwan.
BBC - Neste ano haverá um aniversário marcante no país: o centenário do Partido Comunista. O poder do PCC na China está mais forte do que nunca?
Goldkorn - Sim.
Muitos de seus cidadãos acreditam que o país fez um ótimo trabalho no controle da pandemia. Obviamente, eles usaram seu aparato de propaganda para ter certeza de que essa é a história que ficará, mas acho que têm sido muito bem-sucedidos nisso.
Eles saíram mais fortes do que nunca. Eu acrescentaria apenas uma advertência e tem a ver com um livro. Minha descrição favorita da China é, em muitos aspectos, a do título do livro de Susan Shirk: "China, uma superpotência frágil" (China: Fragile Superpower, no original em inglês). Também poderíamos falar do "frágil poder do Partido Comunista".
Em muitos aspectos, [o PCC] está na posição mais forte que já ocupou. Mas, por outro lado, enfrenta problemas de todos os lados: da hostilidade internacional às campanhas contra os uigures e outras minorias e religiões, a enormes problemas ambientais ou crescente desigualdade...
Eles emergiram mais fortes do que nunca da pandemia, mas ao mesmo tempo os problemas que têm de enfrentar não diminuíram.
BBC - Apesar desse poder fortalecido de que fala, você vê algum sinal de dissidência dentro do Partido Comunista em relação a Xi?
Goldkorn - A marca do governo de Xi é ter se posicionado para governar por um longo período, possivelmente pelo resto de sua vida.
E ele tem todas as alavancas do poder em suas mãos e conseguiu que o PCC apoiasse o culto à personalidade. Isso tornará qualquer mudança na liderança muito difícil.
Eu acho que há muitas pessoas que reclamam e não estão necessariamente felizes com ele, mas eu acho que elas não são fortes ou significativas o suficiente para causar mudanças. Pelo menos não agora, não no futuro próximo.
Orgânicos podem ser mais acessíveis; descubra onde comprar esses alimentos

Antoniele Luciano
Colaboração para Ecoa, de Curitiba (PR)
30/04/2021 06h00
O preço dos alimentos livres de agrotóxicos é um problema tanto para quem já compra orgânicos quanto para quem ainda não consome esses produtos. É o que mostra uma pesquisa da Organics, de 2019 — 65% das pessoas entrevistadas disseram ser o custo o maior obstáculo para consumir mais orgânicos.
A resposta reflete a realidade das gôndolas: quando encontrados nos supermercados, esses alimentos são vendidos com valores especialmente mais altos, indica levantamento da mesma época, do Instituto Kairós.
A compra de orgânicos, no entanto, não precisa ser indigesta para o bolso. A nutricionista Laura Alonso, membro do Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região (CRN/SP), salienta que o melhor jeito de adquirir orgânicos é direto com o produtor. "Eliminamos uma etapa da cadeia e garantimos que o produtor tenha um retorno mais justo", diz ela, que destaca a importância de conferir sempre a procedência do produto. "A certificação orgânica traz maior segurança, mas o estreitamento de relações com o produtor também é um cuidado importante."
Compras coletivas
Uma das alternativas para essa aquisição de orgânicos sem intermediários são as compras coletivas regulares, por meio dos Grupos de Consumo Responsável (GCR). "Podem ser grupos formados em torno de escolas, condomínios, empresas, associações de bairro, que compram direto com um produtor familiar", explica o agrônomo Ivo Melão, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR).
Ele observa que, no estado, a prática é chamada de Cesta Solidária, mas pode ser vista sob outras denominações pelo Brasil. "No dia combinado, os grupos recebem no ponto de entrega as cestas com quantidade suficiente para uma família de quatro pessoas, a R$ 25, R$ 35", relata. Em um sistema parecido, estão as cestas da Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA) e da rede colaborativa que envolve cooperativas agroecológicas da Reforma Agrária, como a Produtos da Terra, de Curitiba.
Feiras livres
As feiras também não devem ser esquecidas na busca por orgânicos com preços mais em conta. Para a professora Sílvia Rigon, do Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ao acessar esses espaços os consumidores já podem perceber a diferença nos preços. "Teremos preços baratos, no mesmo valor dos mercados e até mais caros, dependendo do que é exigido para a produção", diz. Ela sinaliza, no entanto, um ponto crítico quanto às feiras de orgânicos, o da realização apenas em circuitos centrais das cidades.
Cestas por assinatura

Outra saída são as assinaturas de cestas de orgânicos, que preveem entrega na porta do consumidor. "Pode ser uma alternativa para dar conta na pandemia. É importante ver se há uma história dos envolvidos com a agricultura familiar", recomenda Sílvia.
A seguir, uma relação de assinaturas de orgânicos em várias regiões do país:
Amazonas
Cesta Verde Dona Walda
Há cinco anos em Manaus, iniciativa oferece assinaturas a partir de R$ 110, com quatro entregas por mês. Atendimento na capital. Mais detalhes no perfil @cesta.verde.dona.walda, no Instagram.
Bahia
Quintandita
Iniciativa atua com produtos de diversas regiões da Bahia, principalmente do Recôncavo, Litoral Norte e Chapada Diamantina. A partir de R$ 30 (por cesta). Atende Salvador. quitandita.com.br
Distrito Federal
Portal Ubaia
Atende a capital e o Distrito Federal. Oferece assinaturas mensais, com quatro entregas previstas. Valores iniciam em R$ 289,90. www.portalubaia.com.br
Minas Gerais
Casa Horta
Sediada em Belo Horizonte, a Casa Horta atende a capital mineira e a região da Grande BH com planos a partir de R$ 29,90 por semana. www.casahorta.com.br
Rio Grande do Sul
Mais Quitanda
Oferece kits com frutas, legumes e verduras a partir de R$ 44,90. Entregas em Porto Alegre. www.maisquitanda.com.br.
Santa Catarina
Terra Feliz
Empresa familiar nascida durante a pandemia. Oferece 25 tipos de assinaturas. Valores partem de R$ 19. Atende Araranguá e outras cidades do extremo sul de Santa Catarina. www.terrafeliz.com.br
Rio de Janeiro
Clube Orgânico
Criada em 2015, atua com entregas semanais ou quinzenais. Planos a partir de R$ 39 por cesta. Atende 10 municípios do estado Rio de Janeiro, incluindo a capital. www.clubeorganico.com
São Paulo
Raízs
Fundada em 2014, a startup atende toda a capital paulista, Alphaville, Guarulhos, Osasco, Granja Viana, Campinas, região do litoral até Maresias e região do ABC. Valor mínimo de R$ 50,50 por cesta e entregas semanais ou quinzenais. www.raizs.com.br
Oré
Desde 2018 em São Paulo e Grande ABC, a Oré faz parte da Rede de Economia Solidária Feminista. Oferece planos mensais a partir de R$ 180. www.orecestas.com.br
Cesta Livre
Serviço oferece quatro cestas por mês, a partir de R$ 195. Entregas em Piracicaba. www.cestalivre.com.br
Atos do 1º de Maio têm confrontos com polícia em Paris, Istambul e Berlim
01/05/2021 16h54
Atualizada em 01/05/2021 18h41
Resumo da notícia
- Polícia deteve ao menos 34 pessoas em Paris; milhares participaram de protestos na Europa
- Na França, manifestantes reivindicaram mais justiça econômica e social
- Dia também teve protestos na Turquia e na Alemanha
Confrontos entre manifestantes e a polícia em Paris marcaram o dia Primeiro de Maio na França, em data marcada por atos de milhares de pessoas no país e na Europa por justiça econômica e social e expressar oposição aos planos do governo para alterar benefícios do seguro-desemprego.
Na capital francesa, a polícia deteve 34 pessoas, latas de lixo foram incendiadas e janelas de bancos foram quebradas. Houve atos também na Turquia e na Alemanha.
Sindicatos realizam live de 1º de maio pedindo vacina e auxílio de R$ 600
Imagens de confrontos em Paris foram postadas em redes sociais.
Os sindicalistas receberam a companhia de membros do movimento Colete Amarelo, que desencadeou uma onda de protestos três anos atrás, e por trabalhadores de setores duramente atingidos pelas restrições da pandemia, como a Cultura.
Os manifestantes, a maioria usando máscaras, dentro das regras contra o coronavírus, carregaram cartazes nos quais se lia "Os dividendos, e não os benefícios de desemprego, são a renda dos preguiçosos" e "Queremos viver, não sobreviver".
"Muito dinheiro está indo para aqueles que já têm muito e menos para quem não tem nada, como está refletido nos planos de reforma do seguro-desemprego que queremos que seja abandonado", disse Philippe Martínez, chefe do sindicato CGT.
Cerca de 300 protestos foram organizados em cidades como Lyon, Nantes, Lille e Toulouse.
Turquia e Alemanha
Na Turquia, a polícia turca também prendeu dezenas de pessoas que tentaram organizar uma passeata em Istambul apesar da proibição de manifestações devido à pandemia.
Pelo menos cem manifestantes foram detidos quando tentavam se aproximar da praça Taksim, local habitual de protestos. Os policiais recorreram à violência para impedir e deter os manifestantes.
Segundo a Associação de Advogados Contemporâneos de Istambul, 170 pessoas foram detidas.
Desde 29 de abril, a Turquia impõe um rígido confinamento devido à terceira onda epidêmica de covid-19.
Na Alemanha, dezenas de protestos foram realizados, incluindo manifestações organizadas por sindicatos, pela esquerda radical, por críticos de Putin e negadores da covid-19.
A primeira parte do dia passou sem incidentes, mas mais tarde, manifestantes entraram em confronto com a polícia.
Em Berlim, eles entraram em confronto com um grupo de policiais com equipamento anti-motim, atirando garrafas e fogos de artifício contra os oficiais. Vários policiais ficaram feridos.
Globo quebra boicote e exibe falas de Lula e Dilma no Primeiro de Maio

247 - O Jornal Nacional, da Globo, quebrou neste sábado (1º) a campanha de notícias negativas que promove contra o PT e exibiu declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-presidenta Dilma Rousseff sobre o Dia dos Trabalhadores.
O JN exibiu trecho do pronunciamento de Lula em que o ex-presidente defende a esperança dos trabalhadores contra o genocídio perpetrado por Bolsonaro.
"O povo brasileiro é maior do que essa gente que está destruindo o Brasil. O Brasil vai dar a volta por cima", disse Lula.
No Twitter, internautas comentaram a mudança de postura do principal telejornal da Globo, que é uma principais agentes do golpe de 2016 e da perseguição e prisão de Lula em 2018. Confira algumas reações:



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