JACAREZINHO: CHACINA por PMs - "TUDO_BANDIDO" (Mourão)

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"TUDO BANDIDO" (Mourão)

Jacarezinho:
LÓGICA da POLÍCIA do Rio e de MOURÃO torna Justiça DISPENSÁVEL 
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Bolsonaro faz a mais CLARA AMEAÇA de GOLPE:
"se NÃO tiver voto impresso, NÃO vai ter eleição"

RIO DE JANEIRO registra o RECORDE de casos de Covid-19 em 24 horas de TODA a PANDEMIA

JAIRINHO deu 81 passos e andou 61 metros na madrugada da morte de Henry, mostra APLICATIVO

Estudo aponta possível tratamento para prevenir DECLÍNIO na MOBILIDADE e FUNÇÃO MUSCULAR 

Nova variante do coronavírus é identificada no Rio de Janeiro

A questão militar e as perplexidades da esquerda

CHACINA do JACAREZINHO: abaixo o TERRORISMO de ESTADO; fim da polícia! - Juca Simonard

Jacarezinho: 'Em nenhum lugar do mundo ação policial com 25 mortos seria aceita'

Por que Ciro não se une a Lula pelo auxílio emergencial de 600?

Deputado pede a prisão do governador CLAUDIO CASTRO pela CHACINA do Jacarezinho

Coordenadora de Direitos Humanos da Alerj sobre Chacina do Jacarezinho: “objetivo é deixar o corpo preto no chão"

Freixo anuncia ação do PSOL e do PT que questiona CHACINA da Polícia do Rio no Jacarezinho

David Miranda, do Jacarezinho, diz que ação que matou 24 é "CHACINA AUTORIZADA" pelo governador Cláudio Castro

CHACINA do Jacarezinho é a maior da história da cidade do Rio e a segunda maior da história do estado

Anistia Internacional: Polícia realizou EXECUÇÃO SUMÁRIA no Jacarezinho

Bolsonaro faz a mais CLARA AMEAÇA de GOLPE: "se NÃO tiver voto impresso, NÃO vai ter eleição"

RENAN rebate ataques de BOLSONARO e diz que 'pandemia MATA pela INAÇÃO' 
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ONU pede investigação imparcial e diz que país precisa repensar segurança
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O governador é o culpado
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Rio registra o recorde de casos de Covid-19 em 24 horas de toda a pandemia

Foram confirmadas 9.185 novas pessoas infectadas pela doença em todo o estado
O Globo
06/05/2021 - 20:07
BRT lotado: uso de máscaras pouco eficazes para ambientes fechados e falta de circulação de ar adequada elevam risco de transmissão da Covid-19 27-04-21 Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo
BRT lotado: uso de máscaras pouco eficazes para ambientes fechados e falta de circulação de ar adequada elevam risco de transmissão da Covid-19 27-04-21 Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

RIO — Nesta quinta-feira o Rio confirmou 333 novas mortes de Covid-19 e quase de 9,2 mil novos casos da doença — o maior recorde de toda a pandemia. Com os novos óbitos, o Rio chegou a 45.914 óbitos pela doença. O estado registra os tristes números em meio a descoberta de uma nova variante do vírus em território fluminense.

A média móvel passa a ser de 4.651 casos — a maior de toda a pandemia — e 278 mortes por dia. Em relação a duas semanas atrás, houve um aumento de 2% no número de óbitos, o que indica uma tendência de estabilidade na intensidade do contágio, pelo 15 º dia seguido.

O pequeno crescimento, porém, acontece ainda em um patamar alto. São 3 dias seguidos com o indicador acima de 200 mortes por dia, marca jamais atingida em toda a pandemia no Rio.

A "média móvel de 7 dias" faz uma média entre o número do dia e dos seis anteriores. Ela é comparada com média de duas semanas atrás para indicar se há tendência de alta, estabilidade ou queda dos casos ou das mortes. O cálculo é um recurso estatístico para conseguir enxergar a tendência dos dados abafando o ruído" causado pelos finais de semana, quando a notificação de mortes se reduz por escassez de funcionários em plantão.

Os dados são do consórcio formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo e reúne informações das secretarias estaduais de Saúde divulgadas diariamente até as 20h. A iniciativa dos veículos da mídia foi criada a partir de inconsistências nos dados apresentados pelo Ministério da Saúde.

Capital suspende vacinação de Covid-19 para professores e agentes de segurança

A prefeitura do Rio anunciou que a partir desta sexta-feira (07 de maio) está suspensa a vacinação contra Covid-19 para profissionais de educação, segurança pública, motoristas e cobradores de ônibus, transporte escolar e serviços de limpeza urbana. A suspensão ocorre após uma decisão do Supremo Tribunal Federal.

Nesta segunda-feira, o ministro Ricardo Lewandoswki, do STF, suspendeu uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) que antecipou a vacinação de policiais e professores no estado. Com isso, fica restabelecida a ordem original dos grupos prioritários estipulada pelo Ministério da Saúde, que prevê, por exemplo, que pessoas com comorbidades, ou seja, outras doenças, sejam imunizadas antes. A decisão de Lewandowski é liminar, ou seja, provisória. Ele ainda fará uma análise mais aprofundada da questão, quando poderá manter sua decisão ou reconsiderá-la.

A suspensão foi feita após a secretaria de Saúde receber um ofício do Ministério Público sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o tema. Segundo o município, o calendário o seguirá contemplando os seguintes grupos prioritários previstos na 6ª edição do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19:

  • A partir dos 18 anos: gestantes e puérperas com comorbidades, pessoas com síndrome de Down e doentes renais crônicos dependentes de diálise.
  • Seguindo o escalonamento etário (nesta sexta, 51 anos pela manhã e 50 à tarde): pessoas com comorbidades, pessoas com deficiência permanente, trabalhadores da saúde, guardas municipais envolvidos diretamente nas ações de combate à pandemia e de vigilância das medidas de distanciamento social.

Com a decisão de Lewandwski, fica valendo de novo a que foi tomada na primeira instância. Está permitida uma exceção: policiais e professores que já receberam a primeira dose continuarão tendo direito à segunda dose no prazo estabelecido, que varia de acordo com o fabricante.

Defensoria oficializa todo o estado a cumprir a decisão

A ação foi proposta pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro contra um decreto do governo do estado que antecipou a vacinação  de policiais e professores no Rio. O órgão oficializou, no começo da semana ,as 92 cidades do estado para se adequarem à  decisão. Os municípios de Araruama, Mesquita, Rio das Flores, Itaguaí, São Sebastião do Alto e Vassouras já afirmaram que irão mudar o calendário para cumprir a decisão.

— Oficiamos todos os municípios comunicando que eles são obrigados a cumprir os precedentes do Supremo e interromper a vacinação dos profissionais de segurança, salvamento e forças armadas que não estão na linha de frente do enfrentamento à pandemia.  E também dos profissionais de educação e essenciais que ainda não estão comtemplados nas doses enviadas pelo Ministério da Saúde — conta Thaisa Guerreiro, coordenadora de Saúde da Defensoria Pública do estado

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Renan rebate ataques de Bolsonaro e diz que 'pandemia mata pela inação' (vídeo)

Renan Calheiros

247 - O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid, respondeu ao ataque disparado por Jair Bolsonaro contra ele em live nesta quinta-feira (6), mesma ocasião em que ameaçou novamente o país com um golpe.

Bolsonaro havia dito que, se estivesse na CPI, responderia ao ministro Renan: "‘atenção, ministro, quais dessas frases mais matou gente no Brasil?’ Frases do presidente Jair Bolsonaro e botou as frases lá. Sabe qual seria minha resposta? ‘Excelentíssimo senhor senador, frase não mata ninguém, o que mata é desvio de recurso público que seu estado desviou. Então vamos investigar o teu filho que a gente resolve esse problema. Desvio mata, frase não mata".

O senador, então, disparou: "o que mata é a pandemia pela inação e inépcia que torço que não seja dele [Bolsonaro]".

"Em relação ao estado de Alagoas, ele [Bolsonaro] não gaste seu tempo ociosamente como tem gasto seu tempo enquanto os brasileiros estão morrendo", acrescentou. Renan Calheiros é pai do governador de Alagoas, Renan Filho (MDB).

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Bolsonaro faz a mais clara ameaça de golpe:

"se não tiver voto impresso, não vai ter eleição"

Pedro Guimarães e Jair Bolsonaro

247 - Em live nesta quinta-feira (6), Jair Bolsonaro fez sua mais clara ameaça de golpe ao dizer que não haverá eleição presidencial em 2022 sem o voto impresso. Ele também aproveitou a ocasião para novamente atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que chamou o voto impresso de "caos".

"Eu acho que ele é o dono do mundo, o Barroso. Só pode ser. O homem da verdade absoluta, não pode ser contestado. Estou preocupado se Jesus Cristo baixar aqui na Terra, ele vai ser 'boy' do ministro Barroso", afirmou o chefe do governo federal na mesma live em que reiterou a possibilidade de "baixar um decreto" para proibir medidas restritivas contra a pandemia.

Bolsonaro disse que o voto por meio da urna eletrônica, que o elegeu em 2018, é "fraudado", e chamou o Brasil de "republiqueta" por utilizar o mecanismo. "Ninguém aceita mais esse voto que está aí. Como é que vai falar que esse voto é preciso, legal, justo e não é fraudado? A única 'republiqueta' do mundo é a nossa, que aceita essa porcaria desse voto eletrônico. Tem que ser mudado. E digo mais: se o parlamento brasileiro aprovar e promulgar, vai ter voto impresso em 2022, e ponto final. Não vou nem falar mais nada. Vai ter voto impresso. Se não tiver voto impresso, não vai ter eleição. Acho que o recado está dado".

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Chacina do Jacarezinho é a maior da história da cidade do Rio e a segunda maior da história do estado

Corpo de morador do Jacarezinho retirado num saco pela polícia

247 - A chacina da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, com 24 moradores mortos (mais um policial) contados até o momento, já é a MAIOR da história da cidade e a SEGUNDA MAIOR da história do estado.

Mas as entidades de direitos humanos dizem que o número de mortos pode subir ainda mais.

Diferentemente das outras chacinas, dessa vez a operação aconteceu numa afronta direta a uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). 

O governo do Rio de Janeiro descumpriu a liminar deferida pelo ministro Edson Fachin e referendada pelo plenário da corte que proibiu operações policiais nas comunidades durante a pandemia da Covid-19, a partir da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.

As outras chacinas

A Chacina de VIGÁRIO GERAL foi um massacre com 21 mortos ocorrido na favela de Vigário Geral, localizada na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. 

Ocorreu na madrugada do dia 29 de agosto de 1993, quando a favela foi invadida por um grupo de extermínio formado por cerca de 36 homens encapuzados e armados, que arrombaram casas e executaram os moradores. 

O caso chegou a ser julgado na Organização dos Estados Americanos (OEA) como crime contra os direitos humanos.

Segundo relatos, a chacina teve sua motivação na morte de quatro policiais militares no dia 28 de agosto de 1993 na Praça Catolé do Rocha, no bairro de Vigário Geral (a chacina foi na favela de Vigário Geral, do outro lado da linha férrea). 

A ocorrência era uma armadilha ao sargento arquitetada pelos traficantes. 

As mortes foram atribuídas a traficantes daquela região e a chacina ocorreu como forma de represália policial a estas mortes, ainda que nenhuma das vítimas possuísse envolvimento com o tráfico de drogas. 

Grande parte das famílias das vítimas não recebeu indenização do Estado.

A chacina do COMPLEXO DO ALEMÃO aconteceu em 27 de junho de 2017, com 19 mortos, segundo os números oficiais. 

Foi uma operação policial ocorreu nas favelas que compõem o Complexo do Alemão. 

Pelo menos nove dos mortos não tinham antecedentes criminais. 

Cada morto recebeu uma média de quatro tiros.

Na noite de 31 de março de 2005 policias militares assassinaram a tiros 29 pessoas e feriram outras duas em diferentes pontos dos municípios de NOVA IGUAÇU e QUEIMADOS, na Baixada Fluminense

Dentre as vítimas:

crianças, comerciantes, estudantes, funcionários públicos, marceneiros, pintores e garçons, que estavam na porta de suas casas ou andavam pelas ruas.

Os responsáveis foram 11 policiais militares, à paisana. 

Os assassinos percorreram o bairro da Posse e a Rua Gama, em Nova Iguaçu, e abriram fogo contra aqueles que cruzaram o caminho. 

Na rodovia Presidente Dutra mataram mais duas pessoas. 

Posteriormente, os policiais militares seguiram para Queimados, onde outras 12 pessoas foram executadas.

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Presidente da OAB diz que eleições de 2022 serão garantidas 'quer Bolsonaro queira ou não'

Presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, e Jair Bolsonaro

247 - O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, reagiu à ameaça feita por Jair Bolsonaro de não realização das eleições de 2022 caso a Justiça Eleitoral não reimplante o voto impresso. 

Pelo Twitter, Santa Cruz disse que, apesar da ameaça de Bolsonaro, as instituição irão garantir a realização do pleito. "O presidente deixou patente seu desejo de que não tenhamos eleição em 2022. Como Bolsonaro nunca foi um admirador da democracia, muito pelo contrário,  é bom que fique claro para ele que as instituições vão garantir o processo eleitoral e sua lisura. Quer ele queira, ou não", disse o presidente da OAB. 

Em live nesta quinta-feira (6), Jair Bolsonaro fez sua mais clara ameaça de golpe ao dizer que não haverá eleição presidencial em 2022 sem o voto impresso. Ele também aproveitou a ocasião para novamente atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que chamou o voto impresso de "caos".

"Eu acho que ele é o dono do mundo, o Barroso. Só pode ser. O homem da verdade absoluta, não pode ser contestado. Estou preocupado se Jesus Cristo baixar aqui na Terra, ele vai ser 'boy' do ministro Barroso", afirmou o chefe do governo federal na mesma live em que reiterou a possibilidade de "baixar um decreto" para proibir medidas restritivas contra a pandemia.

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Anistia Internacional: Polícia realizou execução sumária no Jacarezinho

247 - Segundo a diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck, afirmou que as 24 mortes de civis e a de um policial na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, não deveriam ser chamadas de "resultado de operação policial" ou de "tiroteio", mas frutos de uma "chacina" ou um "massacre".
As mortes foram resultados de uma chacina promovida pela Polícia Civil.

"As pessoas talvez estejam com dificuldade de escrever na mesma frase 'polícia' e 'chacina', possivelmente em uma espécie de negacionismo. Pois dizer que a polícia cometeu uma chacina é realmente algo chocante", afirmou à coluna de Leonardo Sakamoto, no UOL.

"A definição técnica de chacina é quando há mais de três mortos em uma mesma iniciativa de matar. E essa teve 24, mais o policial que morreu na ação. É uma definição crua e simples", destacou.

"Existe uma certa legitimação da violência policial quando há 'suspeitos' e 'favelas' do outro lado. Se fosse em um condomínio na Barra da Tijuca, onde moram os ricos, não haveria 'suspeitos' e os nomes adotados para a operação seriam muito piores do que 'chacina' e 'massacre' ", afirma.

"Ter levado uma bala torna uma pessoa automaticamente suspeita. Morrer na mira da polícia é um atestado de suspeição", avalia. “Não é justificável esse tipo de execução sumária", disse.

Ela destacou que a função da polícia é investigar, prender e levar à Justiça as pessoas sobre as quais pesarem evidências de envolvimento com o crime.

Caos no Jacarezinho

A Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ, que foi à favela do Jacarezinho. Moradores relataram a integrantes da comissão que policiais mataram um homem dentro do quarto de uma menina. Os moradores da casa afirmaram que um “suspeito” entrou na casa ferido e desarmado.

Em seguida, policiais entraram no imóvel e o encontraram dentro do quarto da criança. Os cinco moradores ficaram todos na sala e ouviram os disparos que mataram o homem.

Imagens do advogado Joel Luiz Costa mostram o lençol cor-de-rosa ensanguentado e muito sangue no chão do quarto.

Os relatos estão de acordo com o clima caótico relatado pela defensora pública do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, Maria Julia Miranda, que foi à favela do Jacarezinho pouco antes de ser anunciado o fim da operação da Polícia Civil.

Ela disse que um rapaz foi executado no quarto de uma menina de 8 anos. "Inclusive, a coberta que ela [a menina] usa estava na poça de sangue. Essa menina está completamente traumatizada. (...) Provavelmente nesses casos houve execução. O que, pra gente, configura desfazimento de cena de crime", acrescentou.

Operação descumpriu decisão do STF

O governo do Rio de Janeiro descumpriu a liminar deferida pelo ministro Edson Fachin e referendada pelo plenário da corte que proibiu operações policiais nas comunidades durante a pandemia da Covid-19, a partir da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.

Com 24 mortos pela polícia, a Chacina do Jacarezinho é a maior da história da cidade do Rio de Janeiro e a segunda maior da história do estado. Mas as entidades de direitos humanos dizem que o número de mortos pode subir ainda mais.

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David Miranda, do Jacarezinho, diz que ação que matou 24 é "chacina autorizada" pelo governador Cláudio Castro

247 - O deputado federal David Miranda (PSOL), criado na favela do Jacarezinho, onde a Polícia Civil promoveu uma chacina nesta quinta-feira, 6, afirmou que "as instituições brasileiras insistem em desrespeitar e marginalizar a favela. Essa ação de hoje é uma tragédia, uma chacina autorizada por Cláudio Castro [governador do Rio]".

O governo do Rio de Janeiro descumpriu a liminar deferida pelo ministro Edson Fachin e referendada pelo plenário da corte que proibiu operações policiais nas comunidades durante a pandemia da Covid-19, a partir da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.

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Freixo anuncia ação do PSOL e do PT que questiona chacina da Polícia do Rio no Jacarezinho

Marcelo Freixo, Benedita da Silva e Dani Monteiro / Chacina do Jacarezinho

247 - O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) anunciou, nas redes sociais, nesta quinta-feira, 6, uma ação de seu partido junto com o PT, da deputada federal Benedita da Silva (RJ), e a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, deputada estadual Dani Monteiro (PSOL), contra o governo do Rio de Janeiro pela Chacina do Jacarezinho.

O governo do Rio de Janeiro descumpriu a liminar deferida pelo ministro Edson Fachin e referendada pelo plenário da corte que proibiu operações policiais nas comunidades durante a pandemia da Covid-19, a partir da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.

“Estamos acionando a Procuradoria-geral de Justiça do RJ e o governo do Estado para questioná-los sobre a operação realizada no Jacarezinho”, destacou Freixo nas redes sociais.

"Não há vencedores nessa guerra insana"

O deputado continuou afirmando que “não há vencedores nessa guerra insana, que é A ÚNICA política de segurança pública do RJ”. “Temos a polícia que mais mata e mais morre, e em que avançamos até aqui? Reduzimos o poder do narcotráfico? Diminuímos a quantidade de homicídios? O Rio está mais seguro?”, perguntou.

“Hoje moradores foram baleados dentro de suas casas, vítimas foram feridas no trem, famílias viveram o terror quando saíam de casa para trabalhar e 25 pessoas perderam a vida, dentre elas o policial civil André Frias”, afirmou.

“Não vamos tirar os nossos jovens do crime na base do tiro. Eles estão morrendo, gerações estão se perdendo e famílias sendo destruídas. O RJ precisa mudar e ter uma política de segurança inteligente e eficaz, que respeite a vida dos moradores das favelas e dos policiais”, concluiu.

Outro deputado do PSOL, David Miranda ressaltou que "as instituições brasileiras insistem em desrespeitar e marginalizar a favela. "Essa ação de hoje é uma tragédia, uma chacina autorizada por Cláudio Castro [governador do Rio]". 

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Coordenadora de Direitos Humanos da Alerj sobre Chacina do Jacarezinho: “objetivo é deixar o corpo preto no chão"

Mônica Cunha

247 - A coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Mônica Cunha (PSOL), afirmou que a Chacina do Jacarezinho, ocorrida nesta quinta-feira, 6, tem como “objetivo deixar o corpo preto no chão".

"As pessoas têm vida dentro da favela, mas a vida não teve como funcionar. A única coisa que funcionou foi uma chacina, várias pessoas mortas, sendo um policial morto. Um absurdo e qual é o saldo disso? Pessoas mortas e luto. Hoje é no Jacarezinho, ontem foi na Maré, anteontem foi na Cidade de Deus e assim vai", afirmou ao Brasil de Fato.

Polícia Civil promoveu uma chacina nesta quinta-feira, 6, matando 24 pessoas. A operação, no total, deixou 25 mortos, pois um policial também morreu.

O governo do Rio de Janeiro descumpriu a liminar deferida pelo ministro Edson Fachin e referendada pelo plenário da corte que proibiu operações policiais nas comunidades durante a pandemia da Covid-19, a partir da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.

Com 24 mortos pela polícia, a Chacina do Jacarezinho é a maior da história da cidade do Rio de Janeiro e a segunda maior da história do estado. Mas as entidades de direitos humanos dizem que o número de mortos pode subir ainda mais.

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Deputado pede a prisão do governador Claudio Castro pela chacina do Jacarezinho

247 - O deputado federal Alencar Santana (PT-SP) pediu a prisão do governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro (PSL), e dos policiais responsáveis pela chacina de 25 pessoas na comunidade do Jacarezinho, na zona norte do Rio, na manhã desta quinta-feira (6).

"O governador do Rio de Janeiro @claudiocastroRJ e os oficiais responsáveis pelo massacre no Jacarezinho precisam ser presos IMEDIATAMENTE! Estamos testemunhando uma série de crimes cometidos pela polícia numa chacina que já supera o número de vítimas nos protestos da Colômbia!", afirmou Alencar pelo Twitter. 

A coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Monica Cunha, classificou como uma chacina a operação policial. "As pessoas têm vida dentro da favela, mas a vida não teve como funcionar. A única coisa que funcionou foi uma chacina, várias pessoas mortas, sendo um policial morto. Um absurdo e qual é o saldo disso? Pessoas mortas e luto. Hoje é no Jacarezinho, ontem foi na Maré, anteontem foi na Cidade de Deus e assim vai", afirmou.

Leia também reportagem do site Voz das Comunidades sobre o assunto: 

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em suspender as Operações Policiais nas favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia do coronavírus não impede as intervenções dos agentes nas comunidades. Na manhã desta quinta-feira (06), a Operação Exceptis, da Polícia Civil, vitimou, ao menos, 25 pessoas em chacina no Jacarezinho. O número de pessoas vitimadas em ação que viola a “ADPF das Favelas” ainda está em atualização. 

Os relatos dos moradores nas redes sociais evidenciam a vulnerabilidade social das favelas do Rio de Janeiro. As intervenções dos agentes têm sido uma constância mesmo com a decisão de suspender as ações durante a pandemia do coronavírus. Segundo as primeiras informações sobre a Operação Exceptis, ao menos 27 pessoas foram alvejadas por disparos de armas de fogo. Entre esses, três policiais civis, sendo que um deles não resistiu ao ferimento. O Policial Civil André Frias, de 45 anos, recebeu um projétil na cabeça. Ele chegou a ser levado para o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, mas veio ao óbito. 

A fragilidade social e a violência da ação também alcançaram dois passageiros que estavam no trem. Rafael M. Silva, de 33 anos, e Humberto Gomes V. Duarte, de 20, foram alvos de balas perdidas durante a operação policial. Segundo as informações da Secretaria Municipal de Saúde, Rafael foi levado para o Salgado Filho e deixou a unidade à revelia. Humberto foi levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, e possui estado de saúde estável. 

Em resposta à operação, a Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), representantes da Defensoria Pública do Rio e lideranças comunitárias do Jacarezinha estão reunidos neste momento no Jacarezinho. Moradores protestam contra a violência nas ruas da comunidade.

De acordo com a Polícia Civil, cerca de 200 agentes participam da operação para cumprir mandados de prisão contra traficantes que estão aliciando menores para o tráfico e outras ações criminosas, como assassinatos, roubos e sequestros de trens da SuperVia.

Questionada pela reportagem do Voz das Comunidades sobre a atuação da Operação Exceptis, a Polícia Civil do Rio de Janeiro alegou que prestará balanço sobre a ação em coletiva marcada para hoje, após o desfecho da intervenção policial na comunidade. 

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Por que Ciro não se une a Lula pelo auxílio emergencial de 600? - César Fonseca

Por César Fonseca

Racha da esquerda

Se Ciro Gomes fosse realmente pragmático e voltado para a demanda imediata da população estaria ou não, em Brasília, essa semana, engajado com Lula para defender o auxílio emergencial de R$ 600, capaz de dinamizar a economia que padece de crônica insuficiência de consumo? Ao contrário, com seu confuso discurso, dispersa, dando prioridade à tarefa de demonizar o ex-presidente e aliar-se à direita, carente de candidato para 2022. Se os dois juntos já enfrentariam dificuldades para reverter o subconsumismo, imposto pela política do Banco Central Independente, determinada pelo mercado financeiro, de manter escassez de crédito ao consumo e à produção, imagine se continuarem cada qual por seu lado! Desperdiçam ou não, inutilmente, esforços que poderiam ser mais bem aproveitados em favor da demanda popular? Esta se reveste, na pandemia, em luta encarniçada para fugir da fome e do desespero diante da morte iminente acelerada pelo novo coronavírus, sem vacina para atacá-lo. Será que adotando a estratégia da divisão frente à questão concreta da aceleração do subconsumo, Ciro alcançará popularidade? Agindo dessa forma, conquistará 30% dos votos de modo a chegar ao segundo turno, na eleição presidencial, deslocando Bolsonaro, para um tete-a-tete com o candidato petista?

Conquista do Centrão

A presença de Lula na capital em plena CPI do Genocídio, que abre cova rasa para enterrar Bolsonaro, via impeachment, cada vez mais provável, evidencia seu maior pragmatismo frente a Ciro; pelos contatos realizados, visa, sobretudo, rachar o Centrão, completamente, inseguro em face de Bolsonaro que escorrega, a olhos vistos, na CPI; ali, sua base de apoio se revela, totalmente, despreparada para enfrentar a oposição majoritária na comissão de investigação. Enquanto isso, o candidato do PDT, com seu novo marqueteiro,  João Santana, cuida de dar retoques na aparência que se revela escassa de conteúdo, sem agregação de valor político substantivo. Do ponto de vista econômico, Ciro se mostra equivocado, ao passo que a experiência lulista se afirma de forma mais clarividente; se fosse, realmente, anti-neoliberal, como diz, perceberia, no plano da política econômica, o obvio, relevado por Marx e escondido por Keynes. Para o autor de O Capital, o capitalismo padece, desde seu nascimento, de insuficiência crônica de consumo, porque a lógica do sistema é a da sobreacumulação de riqueza, de um lado, e de pobreza e miséria, de outro, levando a economia, consequentemente, para a deflação, queda da taxa de lucro e crises recorrentes; de imediato, portanto, o fundamental é conquistar o auxílio de 600 pilas, para matar a fome da maioria socialmente excluída; caso contrário a economia afunda, como vem acontecendo desde o golpe de 2016; tudo piorou com a pandemia, para dar razão ao diagnóstico marxista de que o subconsumismo é o mal maior que ataca a economia sucateada pela receita neoliberal desestatizante. Diante dela, Lula intensifica defesa da distribuição de renda, visto que de nada adianta elevar investimentos, se o consumo está demasiadamente escassso.

Contradição capitalista

Ciro, em seu livro “Projeto Nacional, o Dever da Esperança”,  considera que o capitalismo brasileiro padece, menos de insuficiência de consumo do que de investimento, ou seja, o mesmo diagnóstico de Keynes diante da crise de 1929, que ele mesmo destacou ser de sobreacumulação de capital; como injetar mais capital numa economia que padece de insuficiência consumista crônica, devido ao excesso de acumulação de renda e de desigualdade social? Trata-se, para Ciro, mais de investir do que de distribuir, para vencer o subconsumismo; Lula, ao contrário, defende, primeiramente, matar a fome dos que estão socialmente marginalizados; por isso, gira a bolsa, em Brasília, atrás, preferencialmente, dos R$ 600, sem os quais consumo e produção não saem do chão.

Lula segue Biden

No auge da pandemia, Biden, engajado na economia de guerra norte-americana, segue, curiosamente, mais o conselho de Marx do que o de Keynes, ao lançar na circulação capitalista americana mais de 6 trilhões de dólares para atacar o subconsumismo e garantir demanda interna sufocada pela crise de sobreacumualação de capital; do mesmo modo, Lula, em termos proporcionais, ao defender o auxílio emergencial de R$ 600 é menos  keynesiano do que marxista; o keynesianismo não distribui renda; pelo contrário, sua estratégia é a de sustentar status quo que leva à redução de salário como arma para sustentar pleno emprego, como demonstra Lauro Campos, em a “Crise da Ideologia Keynesiana”. A prática, no segundo semestre de 2020, com o auxílio emergencial de R$ 600, puxou consumo e produção e elevou substancialmente a popularidade de Bolsonaro; agora, com, apenas, R$ 150, no bolso, o trabalhador, socialmente, excluído pelo neoliberalismo bolsonarista, tende a apoiar Lula; Ciro, portanto, perde tempo em tentar demonizar seu adversário, quando, se engajado com ele na causa que defende, teria muito mais a ganhar.

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Chacina do Jacarezinho: abaixo o terrorismo de Estado; fim da polícia! - Juca Simonard

Por Juca Simonard

Por Juca Simonard

A polícia do Rio de Janeiro promoveu nesta quinta-feira, 6, mais um ato terrorista contra a população pobre e negra da cidade. Descumprindo medida do próprio Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Civil carioca foi à favela do Jacarezinho e assassinou, pelo menos, 24 pessoas.

Como revelou o advogado Joel Luiz Costa, nas redes sociais, foi uma operação de “execução”. “Entramos em cinco ou seis casas, todas com a mesma dinâmica. Um menino morreu sentado numa cadeira. Ninguém troca tiro sentado numa cadeira, isso é execução”, afirmou. 

“Pessoas que estavam indo trabalhar foram baleadas dentro do trem”, denunciou a deputada Sâmia Bomfim (PSOL).

No Brasil, as chacinas promovidas pela polícia já se tornaram corriqueiras e mostram o verdadeiro regime de repressão que existe contra os trabalhadores. Tão comum que é, viraram tema de diversas canções da música popular, sendo representadas em boa parte das composições do Rap nacional, que retrata a situação criada pelo neoliberalismo, mas também por músicas mais antigas, como “Acender as Velas”, do sambista Zé Kéti.

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Como disse o compositor, “acender as velas já é profissão” e “a gente morre sem querer morrer”, mostrando que o clima policialesco e ditatorial nos bairros pobres das grandes cidades brasileiras não é algo novo. Com razão, o rapper Eduardo Taddeo, ex-Facção Central, denunciou diversas vezes a “guerra civil brasileira”.

Longe de estar concentrada nas cidades brasileiras, esta guerra civil se estende ao longo de todo o território nacional e é ainda mais brutal no campo. Com o golpe de Estado de 2016 e o governo do fascista Jair Bolsonaro, a repressão capitalista contra a população, seja através da polícia, ou através de jagunços e seguranças de mercados, aumentou.

Cada semana que passa, aparece a notícia de mais uma morte de um militante sem-terra, de agressões de seguranças privados contra pessoas que, desesperadas pela crise econômica, roubaram (ou foram acusadas) um alimento no mercado, e assim por diante.

Isso precisa acabar. A esquerda precisa ter uma política para enfrentar a violência fascista e terrorista do Estado capitalista. Primeiro de tudo, unificando esta política à luta geral contra o golpe, pelo “Fora Bolsonaro e todos os golpistas” - o que inclui a direita supostamente democrática, como João Doria, Rodrigo Maia, Eduardo Paes e Renan Calheiros.

Segundo, é preciso levantar uma intensa campanha pela extinção da polícia, que é um órgão da burocracia estatal para reprimir a população pobre, atacar manifestantes, enfim, realizar a política de controle do regime político. Não basta pedir a “desmilitarização” da Polícia Militar, pois conforme mostrou a chacina no Jacarezinho - feita pela Polícia Civil - e também a polícia norte-americana (não militarizada), a chacina é uma política geral dos órgãos policiais, militarizados ou não.

Terceiro, diante da extinção da polícia, o movimento operário precisa se desvincular do programa desarmamentista do imperialismo e levantar a histórica reivindicação democrática, há muito abandonada, de armamento geral da população e pela formação de milícias populares regionais para que o povo assegure sua própria segurança. Como disse Lênin, "a única garantia de democracia é o fuzil ao ombro do trabalhador".

É uma discussão que precisa ser aprofundada e muito bem feita entre os diversos setores da esquerda brasileira, profundamente atrasada. Os setores mais esclarecidos, entretanto, precisam desde já colocar essa política como prioritária na sua luta. O povo deve ter direito de se autodefender e formar milícias populares nas favelas e nos bairros operários.

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A questão militar e as perplexidades da esquerda - Roberto Amaral

Por Roberto Amaral

Uma crítica que se deve fazer à ciência política brasileira   é a  de não se haver detido  adequadamente no estudo das forças armadas, nada obstante o papel de sujeito por elas desempenhado no curso de nossa formação, e a preeminência que sempre exerceram sobre o poder civil em toda a história republicana, mais destacadamente na sequência do golpe de 1964. Essa lacuna, porém, não é de hoje, pois se reflete já nas obras de nossos principais “intérpretes”, omissas na consideração das  forças no  processo sócio-político. Manoel Domingos Neto, um dos poucos cientistas brasileiros que se têm devotado ao tema, registra, entre nós,  certo menoscabo ao estudo das forças armadas, lembrando que “não se exerce poder sobre o que não se conhece”, Pode-se  mesmo atribuir a essa carência de estudos e reflexões muitos dos problemas que terminaram por debilitar os governos civis, quase sempre atravancados por crises militares. A mesma reserva se dirige à universidade, que não se tem  aplicado ao tema. São poucas as dissertações de mestrado e teses de doutorado, são raros os cursos de pós-graduação voltados para questão tão ingente e agônica em nossa vida política. Para a esquerda e para a academia, de um modo geral, a questão militar permanece  como tabu, construído por preconceito ou ranço. Por consequência, a questão, que diz respeito diretamente à democracia e ao poder civil, fica encastelada nos círculos militares, padecendo toda sorte de distorções. Talvez estejamos purgando uma das heranças do comunismo ortodoxo, quando o tema era tratado em círculo fechadíssimo do Partidão – que, no entanto, graças à militância de seus intelectuais, ditava a linha discursiva observada de um modo geral pelos poucos que se voltavam ao tema. Predominava a visão de um exército nacionalista, democrático e legalista. Essa leitura idealista, corpo estranho em corrente de pensamento filiada ao materialismo histórico, via os fardados como oriundos dos estamentos da classe média, e, graças a um determinismo inexplicado, comprometidos com os interesses das grandes massas. A legenda dos combatentes de 1924 aparecia assim congelada, até a rebordosa de 1964. É conhecida a histórica conferência de Prestes na ABI, no dia 17 de março de 1964, quando se amparou em tais pressupostos para garantir – com a dupla autoridade de chefe partidário e herói militar – a impossibilidade de um golpe de Estado com apoio das forças armadas.

Mesmo presentemente, quando a realidade cobra a revisão de muitas teses desamparadas de comprovação, o tema parece ainda não haver cativado a reflexão que sua importância cobra, e contam-se em reduzido número os pensadores brasileiros de hoje, de dentro e de fora da academia, habilitados a  iluminar a questão. O quadro se revela desolador quando voltamos nossas vistas para o panorama político, partidário e parlamentar. Participei ativamente da elaboração de todos os programas de governo do campo da esquerda de 1989 até a primeira campanha de Dilma Rousseff, e não me recordo de qualquer reflexão razoavelmente atenta à temática militar. Era um tema que nos fugia. Recentemente, a Fundação de um partido de centro-esquerda desativou o grupo de trabalho dedicado à questão. Não pudemos, pois, revelar qualquer estarrecimento quando o presidente Lula, em um de seus mais substanciosos pronunciamentos após as últimas decisões do STF, declarou que assumira o primeiro mandato, em 2003, sem maior clareza quanto a esse desafio, e que se louvara nos conselhos que então lhe prestara o  general Oswaldo Oliva.

A questão central, naquela altura, dizia respeito ao caráter que deveria presidir as relações entre o chefe da nação – personificação do poder civil – e os engalanados, ciosos de uma autonomia sem respaldo na ordem constitucional.

Essas observações me trazem à baila episódio provocado pelo então comandante do exército (cujo nome a história não guardou) ao fazer publicar, no dia 17 de outubro de 2004, intempestiva e provocativa nota, escrita em nome da força, em que justificava mortes como a de Vladimir Herzog, revivendo, em pleno século XXI, os fantasmas da “subversão” e do “movimento comunista internacional”. Era um texto velho como as más lembranças dos anos 70 do século passado.

O mundo mudara, o Brasil mudara, mas o pensamento militar permanecia preso às mofadas teses de segurança nacional. O muro de Berlim ruíra, a União Soviética se auto-dissolvera, mas a alta oficialidade brasileira continuava embrenhada na Guerra Fria. E resiste a saltar fora desse bunker.

Estávamos praticamente no início do governo, em fase ainda de descobrimento de uma realidade até então só conhecida por intermédio da literatura. Tudo era inédito, urgente e delicado, não havia intimidade com as questões de Estado e quase todos éramos neófitos na administração pública. 

Vindo a público sem prévia submissão ao ministério da defesa, a nota do comandante do exército era, sem dúvida, uma provocação, e logrou o que queria, a saber,  pôr em confronto a autoridade do ministro e as baionetas do “Forte Apache”. A história é conhecida, e teve seu aparente termo com a demissão do irrepreensível ministro da defesa, embaixador José Viegas Filho, que não pode ser acusado de omisso ou tíbio, pois seguiu as orientações de seu chefe, o presidente da república, como relata em sua carta de demissão, do dia 22 de outubro, que transcrevo ao final em face de sua importância histórica, mas acima de tudo confiando que dela um eventual governo progressista a ser eleito em 2022 possa colher a lição que encerra. Ao embaixador Viegas sucederam, no ministério, dois dos mais ilustres homens de Estado, brasileiros de primeira água, mas ambos desafeitos às palavras de ordem, à impositividade e ao comando. 

A partir desse episódio, o governo perdia condições de comando das forças que constitucionalmente lhe deviam obediência. Se não sobreveio o desastre – a legalidade foi preservada, sabe-se – ali se instalava a erosão do poder civil. Uma vez mais o passado é a fonte de explicação do presente. Não é de hoje o mau vezo de nossos governantes de confundir a aparência com a essência. O silêncio dos militares fôra lido como solidariedade às nossas políticas e as relações governo-partido-forças armadas haveriam de ser as melhores, porque havíamos revertido a dramática situação orçamentária em que se encontravam as três forças e procedêramos a sensível reajuste  dos salários. Fizéramos tudo quanto  mandava um  guia da boa vizinhança, mas havíamos renunciado ao irrenunciável quando se trata de relações com militares: o exercício de rígido  comando.  O resto são consequências, e elas, como lamentava o conselheiro Acácio, “sempre vêm depois”.

Carta de demissão do ministro da Defesa, embaixador José Viegas Filho

“Brasília, 22 de outubro de 2004

Estimado senhor Presidente

Após uma reflexão prolongada a respeito das ocorrências dessa semana, julgo necessária uma atribuição mais efetiva de responsabilidades com relação à nota emitida pelo Exército no último domingo.

Embora a nota não tenha sido objeto de consulta ao Ministério da Defesa, e até mesmo por isso, uma vez que o Exército Brasileiro não deve emitir qualquer nota com conteúdo político sem consultar o Ministério, assumo a responsabilidade que me cabe, como dirigente superior das Forças Armadas, e apresento minha renúncia ao cargo de Ministro da Defesa, que tive a honra de exercer sob a liderança de Vossa Excelência.

Tenho sido o seu Ministro da Defesa com os propósitos básicos de contribuir para a reinserção plena e definitiva das Forças Armadas do Brasil no seio da sociedade política brasileira, de ser seu [?] enlace entre elas e o governo, representando-as junto a Vossa Excelência e à sua equipe, e de melhorar a sua eficiência e a sua capacidade de ação. Muito avançamos neste período. A título de exemplo, no que diz respeito aos interesses das Forças Armadas, logramos reverter a dramática situação orçamentária em que se encontravam as nossas Forças e reiniciamos os programas para seu reaparelhamento. O reajuste parcial da remuneração dos militares também deu início à necessária correção dos seus vencimentos desatualizados.

O governo cumpriu plenamente com os seus propósitos acima delineados e tratou permanentemente as Forças Armadas com o respeito que elas merecem e obteve delas pronta resposta sempre que necessário, com o ardor, o desprendimento e o profissionalismo que caracterizam os seus integrantes.

Foi, portanto, com surpresa e consternação, que vi publicada no domingo, dia 17, a nota escrita em nome do Exército Brasileiro que, usando linguagem totalmente inadequada, buscava justificar lamentáveis episódios do passado e dava a impressão de que o Exército, ou, mais apropriadamente, os que redigiram a nota e autorizaram a sua publicação, vivem ainda o clima dos anos setenta, que todos queremos superar.

A nota divulgada domingo 17 representa a persistência de um pensamento autoritário, ligado aos remanescentes da velha e anacrônica doutrina da segurança nacional, incompatível com a vigência plena da democracia e com o desenvolvimento do Brasil n século 21. Já é hora de que os representantes desse pensamento ultrapassado saiam de cena.

É incrível que a nota original se refira, no século 21, a ‘movimento subversivo’ e a ‘Movimento Comunista Internacional’. É inaceitável que a nota use incorretamente o nome do ministério da Defesa em uma tentativa de negar ou justificar mortes como a de Vladimir Herzog. É também inaceitável, a meu ver, que se apresente o Exército como uma instituição que não precise efetuar ‘qualquer mudança de posicionamento e de convicções ao que aconteceu naquele período histórico’.

Não posso ignorar que aquela nota foi publicada sem consulta à autoridade política do governo. Assumo a minha responsabilidade. Agi neste episódio desde o primeiro momento. Informei Vossa Excelência, sugeri ações, convoquei no próprio domingo, 17, o Comandante do Exército, entreguei-lhe um ofício que pedia a apuração das responsabilidades e a correção da nota publicada. Segui a orientação de Vossa Excelência e não divulguei posições e pontos de vista individuais. Vossa excelência sabe eu em momento algum fui omisso ou deixei de cumprir com as minhas responsabilidades no exercício das minhas funções. Reitero, senhor Presidente, que foi uma honra trabalhar sob a sua direção direta nestes quase dois anos. Reafirmo também  minha total lealdade a Vossa Excelência e a minha admiração pelo notável trabalho que vem realizando em prol do nosso país e da união de todos os brasileiros.

Respeitosamente,

José Viegas Filho.”

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Grupo Prerrogativas: ação da polícia no Jacarezinho reproduz o abominável padrão de chacinas e homicídios

“O Grupo Prerrogativas, composto por profissionais do direito, juristas, professores da área jurídica, advogados e advogadas, expressa consternação e inconformismo com a sistemática política de extermínio da população pobre e preta”, diz nota

(Foto: Reprodução/TV Globo)

247 - O Grupo Prerrogativas, em nota divulgada nesta quinta-feira, 6, denunciou a ação da Polícia Civil, que ocupou a favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, numa operação que resultou na morte de 25 pessoas - 24 moradores e um policial. Uma chacina.

Segundo o grupo, composto por profissionais do direito, juristas, professores da área jurídica, advogados e advogadas, a ação da polícia “reproduz o abominável padrão de chacinas e homicídios resultantes de abusos policiais e da ação criminosa de grupos milicianos em favelas e bairros pobres da periferia”.

O governo do Rio de Janeiro descumpriu a liminar deferida pelo ministro Edson Fachin e referendada pelo plenário da corte que proibiu operações policiais nas comunidades durante a pandemia da Covid-19, a partir da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.

Com 24 mortos pela polícia, a Chacina do Jacarezinho é a maior da história da cidade do Rio de Janeiro e a segunda maior da história do estado. Mas as entidades de direitos humanos dizem que o número de mortos pode subir ainda mais.

Leia nota na íntegra:

O Grupo Prerrogativas, composto por profissionais do direito, juristas, professores da área jurídica, advogados e advogadas, expressa consternação e inconformismo com a sistemática política de extermínio da população pobre e preta, traduzida no dia de hoje (6/5/2021), em uma inconcebível e mortífera operação policial na comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que resultou na morte de ao menos 25 pessoas. 

A ação policial, conduzida pela Polícia Civil fluminense, foi revestida de violência extrema e reproduz o abominável padrão de chacinas e homicídios resultantes de abusos policiais e da ação criminosa de grupos milicianos em favelas e bairros pobres da periferia.

Justamente em razão da escalada do número de mortes nessas ações das forças de segurança do Rio de Janeiro, o plenário do STF confirmou decisão do Ministro Edson Fachin pela suspensão da realização de operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro durante a epidemia do COVID-19, ressalvando apenas hipóteses absolutamente excepcionais, que devem ser devidamente justificadas por escrito, sob pena de responsabilização civil e criminal (ADPF 635).

Em manifesto desrespeito à decisão do Supremo, a operação que produziu o massacre ocorrido hoje no Rio de Janeiro foi uma tragédia anunciada, sendo mais uma ação que teve como alvo uma favela densamente povoada. As vidas dos moradores, trabalhadoras/es pobres e majoritariamente negras/os, têm sido vítimas sistemáticas dessas ações. Os territórios da população pobre e preta do Rio são tratados como campos de batalha de uma guerra ao tráfico de drogas conduzida de maneira irracional e contraproducente.

Nesse contexto, o comando da Polícia Civil deixa de reconhecer os horrendos excessos praticados e nem mesmo esclarece como uma operação dessas pode ter sido feita ao arrepio da decisão do STF. Essa postura de autoridades públicas é altamente reprovável e incompatível com um Estado de Direito. Jamais se poderia acatar a ideia de que a polícia disponha de carta branca para matar, em flagrante desrespeito à vida e à dignidade humana - valores inalienáveis do ordenamento jurídico brasileiro. O acontecimento exige que haja uma apuração efetiva e imparcial, para que os culpados por mais essa tragédia sejam devidamente processados e responsabilizados.

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Estudo aponta possível tratamento para prevenir declínio na mobilidade e função muscular

Perda de massa do músculo esquelético relacionada à idade aumenta risco de quedas

(Foto: Reprodução)

Alexandre Raith, da Agência Einstein - 

Entre as doenças mais comuns na velhice está a SARCOPENIA, que é definida como perda de massa e função do músculo esquelético relacionada à idade.

Tal manifestação clínica provoca o declínio na mobilidade e, por consequência, o aumento do risco de quedas.

Atividade física e modificações na dieta alimentar têm sido os tratamentos atuais mais prescritos pela comunidade médica.

Em busca de novas possibilidades de retardamento da progressão da sarcopenia, cientistas americanos da Universidade de Pittsburgh produziram um roteiro de envelhecimento muscular em camundongos.

Com base no conhecimento de que a sarcopenia afeta a aparência e o comportamento dos tecidos musculares, a equipe de cientistas pretendia encontrar métodos terapêuticos que pudessem prevenir o declínio na mobilidade e função muscular em idosos, já que são pouco conhecidos os mecanismos moleculares subjacentes à perda de massa e função do músculo esquelético.

O estudo revelou quais moléculas no músculo são mais significativamente alteradas em diferentes estágios da vida, sendo que a chamada KLOTHO melhorou a força muscular, quando administrada em camundongos em idade avançada.

De acordo com um dos autores da pesquisa, alguns tratamentos farmacêuticos em ensaios clínicos têm atuado em mecanismos que também envolvem a proteína Klotho. 

"As evidências sugerem que os níveis diminuem gradualmente com a idade, por isso queríamos testar se a suplementação pode atenuar o desenvolvimento da sarcopenia", afirma Zachary Clemens, que é doutorando no Departamento de Saúde Ambiental e Ocupacional da Universidade de Pittsburgh.

A metodologia do estudo consistiu em caracterizar e comparar as mudanças na estrutura, função e atividade do gene no músculo esquelético ao longo da vida dos camundongos, que foram agrupados em quatro categorias: jovem, meia-idade, velho e idoso.

Após a análise do peso e tipo de fibra muscular, da gordura acumulada e função do músculo esquelético, os pesquisadores perceberam que as características clínicas comuns da sarcopenia estavam presentes apenas nos camundongos idosos, embora os velhos tenham apresentado estágio leve da doença.

Já a interrupção progressiva em genes conhecidos por estarem associados às marcas do envelhecimento foi constada nas quatro categorias de idade, graças à observação das mudanças na atividade dos genes musculares.

Em seguida, os cientistas analisaram se a administração de Klotho teria efeitos benéficos na cicatrização muscular após a lesão. 

Houve redução das cicatrizes e aumento das estruturas associadas à produção de força em 17% dos animais mais velhos. 

Além disso, a resistência ao apoiar o peso corporal total foi 60% maior em comparação com os camundongos sem tratamento. 

Devido ao estágio inicial, mais estudos nesta área do conhecimento devem complementar os resultados.

"Nossos dados sugerem que o tratamento com Klotho pode ser mais eficaz em retardar a progressão da sarcopenia em um momento anterior, ao invés de resgatar doenças relacionadas à idade avançada, quando as respostas gênicas parecem ser mais aleatórias", conclui a coautora Fabrisia Ambrosio, que é professora do Departamento de Medicina Física e Reabilitação da Universidade de Pittsburgh.

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Tropa de trapalhões | Bernardo Mello Franco - O Globo

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, fala à CPI da Covid

Todo governo tenta tumultuar as comissões parlamentares de inquérito. Manobras protelatórias, factoides e bate-bocas fazem parte do jogo. Mas a tropa de Jair Bolsonaro está exagerando nas trapalhadas.

Em duas semanas, o Planalto já acumula ao menos sete vexames na CPI da Covid. A série começou quando o UOL publicou uma planilha da Casa Civil com 23 acusações contra o governo. A lista foi redigida para ajudar os bolsonaristas. Ao vazar, virou arma para a oposição.

Na semana passada, O GLOBO revelou que requerimentos assinados por senadores governistas foram produzidos em computadores da Presidência. Os registros eletrônicos mostram que os parlamentares atuaram como laranjas do capitão.

Nesta terça, o ex-ministro Henrique Mandetta expôs mais uma lambança. O ministro Fábio Faria enviou para o celular dele, por engano, uma pergunta que seria feita pelos aliados de Bolsonaro.

No dia seguinte, os governistas protagonizaram outro papelão: tentaram impedir as representantes da bancada feminina de falar. Os senadores Ciro Nogueira e Marcos Rogério se esforçaram para calar as colegas no grito. Foram desautorizados até por Soraya Thronicke, uma bolsonarista de carteirinha.

O general Eduardo Pazuello ainda não deu as caras, mas já acumula dois vexames na CPI. Na terça, apresentou uma desculpa esfarrapada para adiar seu depoimento. Disse que teve contato com dois coronéis contaminados, embora não tenha se prestado a fazer um teste de Covid-19.

Ontem o drible se transformou em escárnio. Enquanto dizia estar isolado no hotel de trânsito do Exército, o general fujão recebeu a visita do ministro Onyx Lorenzoni.

O sucessor de Pazuello protagonizou a sétima trapalhada governista. Num depoimento arrastado, Marcelo Queiroga deixou dezenas de perguntas sem resposta. A cada enrolação, evidenciava o medo de dizer algo que desagradasse o chefe.

“O senhor é médico, fez o juramento de Hipócrates, mas não consegue responder àquilo que eu pergunto”, protestou o senador Otto Alencar. Queiroga continuou a embromar e voltou para casa com o apelido de ministro Rolando Lero.

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Nova variante do coronavírus é identificada no Rio de Janeiro

Cepa foi batizada de P.1.2, por ser mutação da linhagem P1, segundo a Secretaria de Saúde do estado; até o momento não se sabe se ela é mais transmissível ou letal
O Globo
06/05/2021 - 14:05 / Atualizado em 06/05/2021 - 20:56
Imagem ilustrativa de micrografia eletrônica de varredura colorida de uma célula infectada com partículas do vírus SARS-COV-2 (rosa), também conhecido como novo coronavírus. Imagem capturada e aprimorada com cores no NIAID Integrated Research Facility (IRF) Foto: NIAID / via REUTERS
Imagem ilustrativa de micrografia eletrônica de varredura colorida de uma célula infectada com partículas do vírus SARS-COV-2 (rosa), também conhecido como novo coronavírus. Imagem capturada e aprimorada com cores no NIAID Integrated Research Facility (IRF) Foto: NIAID / via REUTERS

RIO — A  Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro identificou uma nova variante do coronavírus em circulação. Ela foi batizada de P.1.2, por ser mutação ocorrida na linhagem P1, descoberta em Manaus e que permanece prevalente no estado do Rio de Janeiro.

Ainda não se sabe se a nova variante pode ser mais transmissível ou mais letal. Ela apresenta sete novas mutações em comparação com a P.1, sendo uma delas, a A262S, na proteína S, a parte do vírus que é alvo de anticorpos e da maioria das vacinas contra a Covid-19.

— Além das mutações que já existiam na P.1, tivemos uma a mais na proteína S, e outras mutações em outras proteínas que também podem ser importantes. Ainda não podemos dizer que a variante P.1.2 é mais isso ou aquilo. Já estamos fazendo estudos para avaliar, no entanto, os resultados demoram um pouco — afirma Ana Tereza Vasconcelos, coordenadora do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC).

Foram investigadas nesta etapa do estudo 376 amostras de 57 municípios, selecionadas a partir de genomas enviados ao Laboratório Central Noel Nutels (Lacen/RJ), entre os dias 24 de março e 16 de abril. A P.1.2 foi identificada em 5,85% das amostras.

Já a P.1 aparece em 91,49% delas. Também foram identificadas, porém em menores proporções, as linhagens B.1.1.7 (2,13%) e P.2 (0,53%).

Segundo a secretaria, a nova variante foi encontrada principalmente na Região Norte do estado, mas também em amostras nas regiões Metropolitana, Centro e Baixada Litorânea.

— Já tínhamos sequenciado semanas atrás oito desses genomas com a P.1.2 na Região Norte Fluminense, em Conceição de Macabu. Fizemos mais sequências esta semana e percebemos que ela tinha se dispersado para outras cidades e saindo da Região Norte e indo para Região Metropolitana também e outros locais. Agora estamos fazendo mais (sequenciamentos genéticos). Ela (P.1.2) pode continuar aparecendo ou até sumir. Por isso, precisamos fazer o monitoramento genético, sequenciando — afirma Vasconcelos.

Segundo a nota técnica da Rede Corona Ômica RJ — composta por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores de laboratórios de diferentes instituições do estado do Rio de Janeiro — dos 22 novos genomas pertencentes à linhagem P.1.2 analisados "nove foram identificados no município de Conceição de Macabu, três em São Francisco do Itabapoana, dois em Santa Maria Madalena e um genoma em cada um dos municípios de Areal, Bom Jardim, Macaé, Macuco, Quissamã, Rio das Ostras, Rio de Janeiro e Trajano de Moraes".

"A partir deste resultado, o monitoramento segue aprofundando os efeitos que poderão ser apresentados, ou seja, o comportamento epidemiológico da variante. Até o momento, não se pode avaliar se é mais transmissível e/ou letal", explica, em nota, a subsecretária de Vigilância em Saúde da S.E.S. e idealizadora da pesquisa, Cláudia Mello.

A pesquisa integra uma iniciativa de sequenciamento do coronavírus que prevê análise de cerca de 4.800 amostras em seis meses, com aproximadamente 400 a cada 15 dias.

A ação é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e conta com a parceria do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, do Lacen, da Fiocruz e da Secretaria Municipal de Saúde do Rio.

"O sequenciamento é muito importante para verificar a incidência das novas cepas na população fluminense, e desta forma, antecipar possíveis cenários, a fim de minimizar os efeitos da pandemia em nosso estado", afirmou o secretário de Estado de Saúde, Alexandre Chieppe, também em nota.

Queda da P.2 e prevalência da P.1

Vasconcelos chama a atenção para a queda da variante P.2 nas amostras analisadas pelos pesquisadores. A nova cepa encontrada no final do ano passado no Rio de Janeiro, predominava até fevereiro e nesta última análise foi identificada em apenas 0,53% dos genomas analisados. Em contrapartida, a P.1 dominou as amostras e foi encontrada em 91,49% delas.

A cientista reforçou que neste momento é importante continuar colocando em prática as medidas de prevenção contra o coronavírus, como evitar aglomerações, usar máscara e fazer uma boa e frequente higiene das mãos.

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Jairinho deu 81 passos e andou 61 metros na madrugada da morte de Henry, mostra aplicativo

Dados desmentem versão fornecida pelo vereador e pela mãe do menino; os dois afirmaram que assistiam a uma série na TV quando pegaram no sono
Paolla Serra
06/05/2021 - 04:30 / Atualizado em 06/05/2021 - 08:42
Dr. Jairinho e Monique Medeiros, em fotos feitas no ingresso do casal no sistema penitenciário Foto: Reprodução / Agência O Globo
Dr. Jairinho e Monique Medeiros, em fotos feitas no ingresso do casal no sistema penitenciário Foto: Reprodução / Agência O Globo

RIO - Um aplicativo instalado no celular do médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (sem partido), mostra que ele se movimentou entre 1h41 e 1h52 de 8 de março, data da morte do menino Henry Borel, dando um total de 81 passos em 61 metros percorridos. Os dados da ferramenta contradizem o depoimento prestado pelo parlamentar e a namorada, Monique Medeiros da Costa e Silva, mãe da criança. Dez dias depois do óbito, o parlamentar disse ao delegado Henrique Damasceno, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), durante o inquérito que apurava a morte de Henry, que o casal assistia, desde 1h, a uma série na televisão no quarto de hóspedes, quando pegou no sono. A professora diz ter acordado Jairinho às 3h30 para mudarem de cômodo, quando encontrou o menino caído no chão, com mãos e pés gelados e olhos revirados.

Recuperadas pela Polícia Civil, as informações do aparelho constam nas investigações do caso e foram obtidas com exclusividade pelo GLOBO. O aplicativo, que gerencia consultas médicas, prontuários e até atendimentos por telemedicina, além de aspectos da vida diária, como atividades físicas, informa também que Jairinho só voltou a se movimentar entre 4h06 e 4h14 daquela madrugada. Aos policiais, ele disse que, ao colocar a mão em Henry e perceber que ele “estava realmente com a temperatura bem abaixo do normal”, “com a boca aberta” e “respirando mal”, ajudou a enrolar o menino com uma manta e “imediatamente” foram para o Hospital Barra D’Or.

Imagens de câmeras de segurança do Condomínio Majestic, no Cidade Jardim, onde a família morava, que foram periciadas por profissionais do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), mostram que o casal saiu com o menino nos braços de Monique às 4h09 em um dos elevadores. Um laudo, assinado ainda por peritos do Instituto Médico Legal (IML), aponta que ele estava morto ali, o que é corroborado pelas médicas que o atenderam na emergência pediátrica da unidade de saúde. O exame de necropsia feito horas depois apresentou hemorragia interna e laceração hepática, provocada por ação contundente, além de equimoses, hematomas, edemas e contusões.

Henry Borel Medeiros tinha 4 anos Foto: Reprodução
Henry Borel Medeiros tinha 4 anos Foto: Reprodução

Também em depoimento na 16ª DP, uma ex-namorada de Jairinho disse ter falado com o vereador, através de mensagens de celular, na madrugada de 8 de março. Debora Mello Saraiva contou que, à 1h47, ele escreveu: “Pelo amor de Deus!”, em resposta ao texto enviado por ela, às 15h47, dizendo: “Tô cansada de você”. A estudante disse ser “rotina” os dois conversarem em horários como 2h, 3h, 4h e até 5h.

Ao longo da última semana, Monique, em 50 páginas escritas a mão, afirma que vivia um relacionamento de agressões, humilhações e ciúmes por parte do parlamentar. Ela admitiu que a narrativa apresentada durante seu depoimento fora uma “versão inventada” sobre a morte de Henry. A estratégia teria sido, segundo ela, a condição dada pelo advogado André França Barreto para defender o casal no inquérito que os investiga pelo crime. Em nota, o advogado afirmou que a defesa “sempre pautou a sua atuação pela ética e pela técnica, jamais alterando a narrativa apresentada pelo casal, desde o início e de forma única”.

Nesta terça-feira, Monique e Jairinho foram indiciados por homicídio duplamente qualificado, com emprego de tortura e impossibilidade de defesa do menino. O vereador vai responder ainda duas vezes pelo crime de tortura contra o menino e a professora uma vez pela na modalidade omissiva do mesmo delito. A conversão da prisão temporária do casal em preventiva também foi pedida.

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Após ação com 25 mortos, polícia do RJ diz que CUMPRIU regras do STF e CRITICA ATIVISMO 

De 21 mandados de prisão, três suspeitos foram presos e três foram mortos, além de outros três detidos em flagrante

Rio de Janeiro

A Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou que respeitou todas as exigências do STF (Supremo Tribunal Federal) na operação desta quinta (6) que acabou com 25 mortos na favela do Jacarezinho, na zona norte carioca, e criticou o que chamou de "ativismo judicial". Foi a ação mais letal da história do estado.

“De um tempo para cá, por conta de algumas decisões e um ativismo judicial que se viu muito latente na discussão social, fomos de alguma forma impedidos ou foi dificultada a ação da polícia em algumas localidades", afirmou o delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional.

"O resultado disso nada mais é do que o fortalecimento do tráfico. Quanto menos você combate, quanto menos você se faz presente, o tráfico obviamente vai ganhando cada vez mais poder, expandindo seus domínios e avançando cada vez mais para dentro da sociedade organizada”, continuou Oliveira.

O estado está sob a vigência de uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que limita ações policiais em comunidades a situações excepcionais desde junho do ano passado, durante a pandemia. As polícias são obrigadas a justificar as incursões ao Ministério Público.

Oliveira culpou ativistas, em parte, pela morte do policial André Frias, 45, atingido na cabeça logo no início da operação por um criminoso que estava atrás de uma estrutura de concreto, segundo os delegados.

"Alguns pseudoespecialistas de segurança pública, e nós temos diversos na sociedade brasileira, inventaram a lógica de que quanto maior produção de conhecimento de inteligência menor seria a reação por parte do crime. Isso não funciona dentro das comunidades do Rio de Janeiro, em especial junto a uma facção criminosa", disse se referindo ao Comando Vermelho.

"Parte desse ativismo que de alguma forma orienta a sociedade numa determinada direção definitivamente não está do lado da Polícia Civil e da sociedade de bem. Os interesses deles são diversos, são outros. E eu queria deixar muito claro que o sangue desse policial que faleceu hoje em prol da sociedade de alguma forma está na mão dessas pessoas, dessas entidades", continuou.

Questionada, a polícia não esclareceu a dinâmica das mortes e disse apenas que os confrontos ocorreram por toda a comunidade. Dos 21 mandados de prisão que motivaram a operação, três foram cumpridos e outros três alvos foram mortos. Além desses, outros três suspeitos foram detidos em flagrante.

Foram apreendidas 16 pistolas, seis fuzis, uma submetralhadora, uma escopeta e 12 granadas. Também foi encontrada uma munição de canhão, classificada por Oliveira como uma arma de guerra. Cerca de 250 agentes participaram da incursão.

A polícia argumenta que a incursão foi realizada dentro da legalidade e que todos os locais foram periciados pela Divisão de Homicídios. Duas das mortes ocorreram num momento em que duas peritas analisavam o local de morte de suspeitos —exigência da decisão do STF.

Há diversos relatos, vídeos e fotos de corpos e rastros de sangue nas ruas. Há também acusações de torturas e invasões de casas por policiais. Parte dos mortos teriam sido baleados dentro de uma residência. À tarde, moradores fecharam uma rua gritando por justiça.

Questionado a respeito, o delegado titular da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), Fabrício Oliveira, rebateu que quem invadiu casas de moradores foram os criminosos. "Muitas vezes atendendo a pedidos de socorro dos moradores a polícia foi até o local e conseguiu prender alguns criminosos e confrontar outros que acabaram falecendo", disse.

Em relação às imagens, ele afirmou que algumas são fakes, de outras ocasiões e locais. Sobre uma foto de um homem morto em uma cadeira de plástico que circula na internet, ele disse que "os confrontos ocorreram de uma maneira muito intensa" e que demorou até que policiais chegassem ao interior da comunidade.

"Quando a polícia acessou alguns criminosos foram encontrados ali já mortos. O caso específico dele está sob investigação e em breve a polícia vai dar mais detalhes e esclarecer qual foi a dinâmica do que aconteceu", declarou.

Segundo a polícia, a Operação Exceptis foi deflagrada contra traficantes que vinham aliciando crianças e adolescentes para integrar a facção Comando Vermelho, após investigações que duraram dez meses.

A corporação diz que os criminosos exploram práticas como tráfico de drogas, roubo de cargas, roubos a transeuntes, homicídios, entre outros. Eles também teriam sequestrado trens da SuperVia em dezembro de 2020 e abril de 2021.

A apuração começou a partir de informações recebidas pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), que coordena a ação com apoio de outras unidades do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), do Departamento Geral de Polícia da Capital (DGPC) e da Core.

Após o acesso a dados de celulares, foram identificados 21 integrantes que seriam "responsáveis por garantir o domínio territorial da região com utilização de armas de fogo".

"Foi montada uma estrutura típica de guerra provida de centenas de 'soldados' munidos com fuzis, pistolas, granadas, coletes balísticos, roupas camufladas e todo tipo de acessórios militares", diz a nota.

Ocorrências com mais mortes no estado do Rio

  • 25 mortos - Jacarezinho - mai.21 - operação policial
  • 23 mortos - Duque de Caxias/Vila Operária - jan.98
  • 19 mortos - Alemão - jun.07 - mandado de busca e apreensão
  • 15 mortos - Senador Camará - jan.03
  • 14 mortos - Alemão - jul.94 - mandado de busca e apreensão
  • 13 mortos - Alemão - mai.95 - mandado de busca e apreensão
  • 13 mortos - Vidigal - jul.06 - repressão ao tráfico de drogas
  • 13 mortos - Catumbi - abr.07 - disputa entre grupos criminais
  • 13 mortos - Fallet/Prazeres - fev.19 - operação policial
  • 13 mortos - Complexo do Alemão - mai.20 - operação policial
  • 12 mortos - Vila Isabel - out.09 - disputa entre grupos ciminais
  • 12 mortos - Niterói/Barreto - set.10 - disputa entre grupos criminais
  • 12 mortos - Vila Ibirapitanga/Itaguaí - out.20 - operação policial

Fonte: Fogo Cruzado e Geni/UFF

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Jacarezinho: 'Em nenhum lugar do mundo ação policial com 25 mortos seria aceita', diz cientista político - BBC News Brasil

Policiais caminham pelas ruas da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro
Legenda da foto, Policiais caminham pelas ruas da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro

A ação da Polícia Civil do Rio de Janeiro na comunidade do Jacarezinho que terminou com 25 pessoas mortas na manhã desta quinta-feira (06/05) — entre elas um agente da própria corporação — reflete o crescimento do número de vítimas durante operações das forças de segurança fluminenses no início deste ano, auge da pandemia de covid-19 no país.

Segundo a Rede de Observatórios de Segurança, as operações policiais aumentaram 51% no Rio de Janeiro nos quatro primeiros meses deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado. Foram 351 ações, ante 232 de janeiro a abril de 2020.

O número de mortes durante essas operações também cresceu no primeiro trimestre: saiu de 75 vítimas no ano passado para 95 de janeiro a março de 2021 — uma alta de 26,6%.

Esses dados ainda não contabilizam as 25 mortes no Jacarezinho. A invasão da polícia ocorreu apesar de uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) suspender, em junho de 2020, operações policiais em favelas do Rio durante a pandemia.

A decisão permite ações apenas em "hipóteses absolutamente excepcionais". Para isso, os agentes precisam comunicar ao Ministério Público sobre o motivo da operação. Dessa vez, o MP ainda não se pronunciou sobre o caso.

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Para o cientista político Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), ações violentas como essa, empreendidas pelas forças policiais fluminenses, não seriam aceitas em nenhum lugar do mundo. "Só no Brasil o cumprimento de mandados de prisão termina com 25 mortos e ainda é chamado de 'operação policial'", diz.

"Essas operações não ocorrem nem em outros Estados. Mas, no Rio, elas acontecem com frequência e passam em branco: a Justiça não pune ninguém. A impunidade é uma certeza e alimenta o comportamento violento da polícia", afirmou Nunes, em entrevista à BBC News Brasil, por telefone.

Segundo ele, a decisão do STF inicialmente freou a violência policial nas comunidades do Rio, principalmente nos primeiros meses. "Mas depois a própria chefia da polícia afirmou que as operações no Rio não se enquadravam na decisão do STF, porque eram essenciais", afirma.

"As estruturas e comportamentos violentos da polícia nunca foram enfrentados de fato no Rio de Janeiro. Eles se perpetuaram. Ações como essa não são mais novidade", diz Nunes.

Já Silvia Ramos, cientista social e coordenadora da Rede de Observatórios de Segurança, critica a maneira como a polícia justifica tantas mortes durante seu trabalho. "Quem são esses mortos? Para a polícia, basta ser morador de favela para ser considerado suspeito", diz.

"A polícia está empilhando corpos de jovens negros, chamando-os de criminosos. Mas a pergunta é: quem são esses jovens, quais os nomes deles, onde estão suas famílias? Não é possível continuar matando as pessoas assim."

Crédito,

MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images

Legenda da foto,

A operação da Polícia Civil começou na manhã desta quinta-feira (06/05)

Ainda durante a ação, um morador foi atingido no pé, dentro de casa. Dois policiais civis também se feriram. Outras duas pessoas foram atingidas enquanto estavam dentro do metrô que passa pela região - uma delas por um tiro, a outra por estilhaços de vidro.

O que diz a polícia?

A Polícia Civil afirma que entrou na comunidade após receber denúncias de que traficantes locais estariam aliciando crianças e adolescentes para a prática de ações criminosas.

Segundo o comunicado, a polícia identificou, através de trabalho de inteligência e uso de quebra de sigilos autorizada pela Justiça, 21 integrantes da quadrilha, responsáveis por garantir o domínio do território através do uso de armas.

"Foi possível caracterizar a associação dessas pessoas com a organização criminosa que domina a região, onde foi montada uma estrutura típica de guerra provida de centenas de 'soldados' munidos com fuzis, pistolas, granadas, coletes balísticos, roupas camufladas e todo tipo de acessórios militares", disse a corporação.

Ainda conforme a corporação, a região do Jacarezinho é considerada um dos quartéis-generais da facção Comando Vermelho na Zona Norte do Rio de Janeiro.

"Em razão da dificuldade de se operar no terreno, por conta das barricadas e das táticas de guerrilha realizadas pelos marginais, o local abriga uma quantidade relevante de armamentos", diz a nota oficial.

A corporação confirmou a morte do policial André Leonardo de Mello Frias durante a operação.

Num post no Facebook, a Secretaria de Polícia Civil afirmou que Frias "honrou a profissão que amava e deixará saudade" e que "lamenta, ainda, pelas vítimas inocentes atingidas no metrô".

Na nota, a pasta defendeu a necessidade das operações em favelas. "A ação foi baseada em informações concretas de inteligência e investigação. Na ocasião, os criminosos reagiram fortemente. Não apenas para fugir, mas com o objetivo de matar", escreveu o órgão, na postagem.

"Infelizmente, o cenário de guerra imposto por essas quadrilhas comprova a importância das operações para que organizações criminosas não se fortaleçam."

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Operação policial mata 25 pessoas no Jacarezinho, em segunda maior chacina da história do Rio

Policiais civis carregam o corpo de uma pessoa morta durante operação na favela do Jacarezinho, nesta quinta-feira, 6 de maio, no Rio de Janeiro.
Policiais civis carregam o corpo de uma pessoa morta durante operação na favela do Jacarezinho, nesta quinta-feira, 6 de maio, no Rio de Janeiro.RICARDO MORAES / REUTERS

Uma operação da Polícia Civil realizada nesta quinta-feira na favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro, já se tornou a segunda maior chacina da história do Estado. Um total de 25 pessoas morreram, entre elas o policial civil André Farias, baleado na cabeça, segundo autoridades. Os demais são considerados suspeitos pela Polícia. O Instituto Fogo Cruzado contabilizou um total de 29 pessoas baleadas ao longo de sete horas de operação —entre eles, três policiais civis e duas vítimas de bala perdida. De acordo com o relato de quem acompanha a operação no local, os agentes estão invadindo a casa de moradores para realizar revistas —que só podem ocorrer com mandado judicial— e estão colocando os corpos das pessoas mortas em veículos blindados da corporação. Em uma das imagens recebidas pelo EL PAÍS, três agentes carregam irregularmente um corpo dentro de um lençol branco, atrapalhando qualquer trabalho de perícia.

Em entrevista coletiva por volta de 17h, a Polícia Civil confirmou o número de mortes e afirmou que seis pessoas foram presas, sendo que três delas tinham mandado de prisão expedido. Além disso, a Operação Exceptis também apreendeu 16 pistolas, seis fuzis, uma submetralhadora, 12 granadas e uma escopeta calibre 12. A favela do Jacarezinho é considerada uma importante base do Comando Vermelho, a principal e mais poderosa facção do Rio de Janeiro, e os agentes investigavam o aliciamento de crianças e adolescentes para ações criminosas. “As investigações continuam, outras operações virão, e a gente busca não permitir que essas crianças sejam aliciadas pelo tráfico”, afirmou o delegado Rodrigo Oliveira. As autoridades negaram os abusos relatados por moradores e afirmaram que os policiais agiram em legítima defesa. “A única execução que houve foi a do policial, infelizmente. As outras mortes que aconteceram foram de traficantes que atentaram contra a vida de policiais e foram neutralizados”.

A ação policial desta quinta-feira demonstra que, mesmo durante a pandemia de coronavírus, a política de segurança pública do governador Cláudio Castro (PSC) no Estado do Rio segue sendo pautada pelo confronto direto com traficantes de drogas em favelas e bairros periféricos, em desrespeito a uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Em junho do ano passado, o STF proibiu operações policiais desse tipo durante a crise sanitária, salvo em “hipóteses absolutamente excepcionais” e desde que devidamente justificadas ao Ministério Público do Rio —que, por sua vez, afirma ao EL PAÍS ter recebido a notificação da operação desta quinta às 9h, depois de seu início.

Um mês depois da decisão do Supremo, as operações policiais diminuíram 78%, as mortes em tiroteios caíram 70% e a quantidade de feridos, 50%. Ao mesmo tempo, 30 vidas teriam sido poupadas em julho, segundo uma pesquisa feito pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Mas, mesmo com a ordem do STF, os números voltaram a crescer em novembro. Somente em 2021, o Instituto Fogo Cruzado já registrou 30 chacinas —casos em em que três ou mais pessoas foram mortas a tiros em uma mesma situação— na região metropolitana do Rio. “Ao todo, já são 139 mortos nessas circunstâncias”, afirma a plataforma, que monitora os tiroteios no Estado.

Nos dias 16 e 19 de abril deste ano, o ministro Edson Fachin realizou uma audiência pública com familiares de vítimas, organizações não-governamentais, especialistas e representantes das corporações policiais para debater estratégias de redução da letalidade policial. “É surreal que, duas semanas depois dessas audiências, a polícia continue com essa lógica do confronto, que coloca em risco nossa vida e que não respeita os nossos direitos, nossas casas e nossas vidas”, afirmou um morador do Jacarezinho em condição de anonimato.

A operação desta quinta começou por volta de 06h45, com helicópteros dando rasantes e policiais avançando pelos trilhos do trem e do metrô, que cortam a favela na superfície. “Eram muitos policiais entrando por todas as áreas do Jacarezinho. Muitos estão encapuzados. A gente recebeu a notícia que um deles foi baleado, e aí os tiros passaram a ser bem mais intensos”, afirmou o mesmo morador, que acredita que os agentes passaram a agir com revanchismo —como já aconteceu em outras ocasiões no Rio.

O tiroteio intenso também afetou a circulação do metrô e feriu dois passageiros dentro de um vagão. Uma Clínica da Família e outros dois postos de vacinação contra a covid-19 precisaram ser fechados. Os moradores tiveram que se trancar em casa para se proteger dos tiros, deixando as ruas praticamente desertas. Uma noiva estava de casamento marcado e uma mulher grávida havia agendado uma cesariana para o dia.

O chão e a cama de uma casa no Jacarezinho aparecem cobertos de sangue, após operação policial nesta quinta-feira.
O chão e a cama de uma casa no Jacarezinho aparecem cobertos de sangue, após operação policial nesta quinta-feira.SILVIA IZQUIERDO / AP

O EL PAÍS recebeu imagens de corpos caídos no chão e de pessoas ensanguentadas. Também circulam fotografias do interior de algumas casas. Nelas, paredes e pisos aparecem com marcas de bala e grandes manchas de sangue. “Tenho uns 10 relatos de pessoas contando que a polícia entrou em suas casas revistando e jogando tudo para cima. A favela inteira está tomada”, afirma o morador. Em um áudio recebido por este jornal, outra pessoa relata a seguinte cena: “Entramos numa casa aqui com pedaço de massa encefálica. Invadiram a casa de uma senhora e torturaram o cara aqui dentro, a casa está toda suja de sangue”. Outra também relatou que em uma residência havia quatro mortos em uma laje e que os agentes não deixavam ninguém entrar. Há também denúncias de que agentes confiscaram telefones de moradores, sob o argumento de que mandavam informações para traficantes, segundo o G1. “Estão pegando telefone e agredindo morador”, relatou uma pessoa ao programa RJ1, da TV Globo.

A ação resultou na segunda maior chacina do Rio de Janeiro. A maior até o momento ocorreu nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense, em 2005. Nesse dia, grupos de extermínio formado por policiais mataram 29 pessoas. A operação também supera as chacinas de Vigário Geral, que terminou com a morte de 21 pessoas em 1993; da Vila Vintém, onde uma disputa de traficantes deixou 19 mortos; e do Complexo do Alemão, onde uma operação policial também resultou na morte de 19 pessoas em 2007.

O que dizem as autoridades

A situação está sendo acompanhada pela Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro e pela Defensoria Pública do Estado. O EL PAÍS entrou em contato com a Polícia Civil perguntando, entre outros pontos, os motivos da operação policial, se a corporação cumpriu os procedimentos determinados pelo Supremo e como justifica mais de duas dezenas de óbitos. Questionou, além disso, se os agentes agiram com o intuito de vingar a morte do colega, e se tinham mandado judicial para revistar a casa dos moradores. Por fim, buscou confirmar se os agentes estavam, conforme diziam os relatos, colocando os corpos de pessoas mortas nos veículos blindados. O jornal não recebeu nenhuma resposta até a publicação desta reportagem.

Porém, a Polícia Civil responsabilizou durante a coletiva de imprensa o “ativismo judicial” pela morte do policial André Farias, mas negou que estivesse se referindo ao STF. “O sangue desse policial que faleceu em prol da sociedade de alguma forma está nas mãos dessas pessoas e entidades”, afirmou o delegado Oliveira. “A gente não tem como nominar A, B, C ou D. São diversas organizações que buscam nesse discurso impedir o trabalho da polícia. Quem pensa assim está mal intencionado ou mal informado”, acrescentou. E prosseguiu: “Impedir que a polícia cumpra o seu papel não é estar do lado de bem da sociedade. O ativismo perpassa uma série de entidades e grupos ideológicos que jogam contra o que a Polícia Civil pensa. E a polícia está do lado da sociedade.”

Oliveira ainda falou que “é preciso acabar com discurso de pobre coitado e de vitimização desse criminoso”. Seu colega, o delegado Felipe Curi, foi na mesma direção ao falar sobre mortos: “Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante. O que causa muita dor na gente é a morte do nosso colega.”

Ao Ministério Público, o EL PAÍS perguntou se o organismo havia sido informado sobre operação, como determina o STF, e se pretende abrir inquérito para investigar a chacina. A instituição respondeu às 17h19, dizendo que “vem adotando todas as medidas para a verificação dos fundamentos e circunstâncias que envolvem a operação e mortes”, com o objetivo de abrir uma investigação independente. Também garante que a operação foi comunicada às 9h, depois de seu início, mas que a realização de operações policiais não requer prévia autorização ou anuência por parte do Ministério Público. “A Polícia Civil apontou a extrema violência imposta pela organização criminosa como elemento ensejador da urgência e excepcionalidade para realização da operação”, afirmou.

*

ONU pede investigação imparcial e diz que país precisa repensar segurança

Casa no Jacarezinho, após operação policial que matou 25 pessoas - OAB
Casa no Jacarezinho, após operação policial que matou 25 pessoas Imagem: OAB
Jamil Chade

Colunista do UOL

07/05/2021 06h04

Resumo da notícia

  • Entidade em Genebra diz que Brasil precisa "repensar" modelo de policiamento de favelas e reabrir o debate sobre segurança
  • Nos últimos anos, violência policial no Brasil tem sido alvo de repetidas críticas e investigações por parte da ONU e outros órgãos internacionais

O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos criticou a violência da operação policial no Rio de Janeiro e pediu que investigações imparciais sejam abertas. "Estamos profundamente perturbados pelas mortes de 25 pessoas numa operação policial", disse Ruppert Colville, porta-voz da ONU, numa coletiva de imprensa em Genebra nesta sexta-feira.

Segundo ele, tal caso confirma a tendência de uso excessivo de força por parte dos agentes policiais, cita "problemas sistêmicos" e diz que algo "claramente está errado". Para o porta-voz, o modelo de policiamento de favelas precisa ser repensado pelo país e um debate deve ser aberto.

Nesta quinta-feira, uma operação policial deixou ao menos 25 mortos na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro. Apesar de o ato ter se transformado na operação mais letal da história da cidade, o governo estadual indicou que a ação foi orientada por "inteligência e investigação". Mas grupos como a Anistia Internacional, Comissão Arns e Human Rights Watch denunciaram a operação como um exemplo da violência policial no país.

A Operação Exceptis foi deflagrada a partir de denúncias de que criminosos estão expulsando moradores de suas casas. O grupo seria responsável também pelo assassinato de moradores e pelo sumiço dos corpos —21 criminosos foram identificados como os "responsáveis por garantir o domínio territorial da região com utilização de armas de fogo", informou a Polícia Civil.

A ONU admite a existência de ações criminosas nas favelas. "Mas a forma de lidar com isso é com responsabilidade por parte das autoridades para garantir que a população civil, mulheres e crianças não sejam afetados", disse o porta-voz.

"O governo tem a responsabilidade de equilibrar o policiamento necessário no caso de atividades criminosas com sua responsabilidade até maior de proteger a população civil de mortes e ferimentos, além de crimes", afirmou.

Colville, porém, indicou que o número de pessoas feridas ainda é desconhecido. "Esse parece ser a operação mais letal em mais de uma década no Rio e confirma uma tendência de uso da força desnecessária e desproporcional por parte da polícia nas regiões pobres, marginalizadas e predominantemente com uma população afro-brasileira, conhecidas como favelas ", disse.

De acordo com a ONU, é "especialmente perturbador" que a operação tenha ocorrido depois que que o Supremo Tribunal Federal, em 2020, determinou limites para ações policiais nas favelas durante a pandemia da covid-19.

"Relembramos às autoridades brasileiras que o uso da violência deve ser usado apenas quando estritamente necessário e que deve sempre respeitar o princípio da legalidade, precaução e proporcionalidade", disse.

"A força letal é apenas para ser usada como último recurso e apenas quando há uma ameaça à vida ou dano sério", insistiu.

Chamando os eventos de "trágicos", a ONU ainda criticou o fato de que, depois da operação, a polícia não teria atuado para preservar evidências nos locais dos crimes, o que poderia minar as investigações.

Colville indicou que cabe às autoridades locais abrir uma apuração. "Pedimos que o Ministério Público realize uma investigação imparcial, completa e independente sobre o caso, seguindo os padrões internacionais", disse.

Entre os parâmetros dessa apuração, a ONU pede que as autoridades garantam a segurança das testemunhas e que as protejam de intimidações e retaliações. "A principal responsabilidade está com as autoridades e o Brasil tem um sistema bastante desenvolvido e tem como lidar com uma investigação", disse.

Problema é "sistêmico" e "algo claramente está errado"

Colville também qualificou a situação como um exemplo de um problema "sistêmico" no país. "Também pedimos que haja uma discussão ampla e inclusiva no Brasil sobre o modelo atual de policiamento das favelas, que estão presas num ciclo vicioso de violência letal com dramático impacto em uma situação já difícil para a população", afirmou.

Segundo Colville, há uma responsabilidade "compartilhada e generalizada" entre autoridades do país, citando ainda o Judiciário e instituições que controlam essas operações.

"Parece que, de forma coletiva, eles não estão tendo sucesso em parar esse tipo de operações", disse. "Algo claramente está errado e precisa haver uma revisão coletiva e ampla do que está ocorrendo de errado e como arrumar", afirmou o porta-voz da ONU.

Na avaliação de Colville, retórica por parte de políticos que estimule a violência "é problemática". Para ele, políticos precisam agir de forma responsável e lembra que as favelas brasileiras enfrentam essa situação "há gerações".

Violência policial no Brasil é alvo de denúncias frequentes da ONU

Não é a primeira vez que a ONU denuncia a violência policial no Brasil. Já em 2019, a alta comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, criticou a situação do país, o que levou o presidente Jair Bolsonaro a atacar a chilena. Diversos informes ainda de outros órgãos da ONU, OEA e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos apontaram para o mesmo fenômeno.

Em 2020, o Comitê da ONU sobre Desaparecimentos Forçados cobrou do governo de Jair Bolsonaro explicações sobre violência policial, sobre o desmonte dos mecanismo de monitoramento e prevenção da tortura. Num documento enviado ao Itamaraty no dia 19 de maio, o organismo pediu esclarecimentos ainda sobre as investigações que tenham sido realizadas no país sobre milícias.

Também no ano passado, deputados brasileiros apresentaram às Nações Unidas 69 casos de suspeita de execuções sumárias no país e pediu que a entidade abrisse investigações. A queixa foi apresentada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, liderada por Helder Salomão (PT-ES) e apoiada pela Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas de Terrorismo do Estado, pela Coalizão Negra Por Direitos, Justiça Global, Rede Justiça Criminal, Movimento Independente Mães de Maio, Educafro e Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial.

A lista foi elaborada depois de um longo trabalho de coleta de dados e com o consentimento das próprias famílias das vítimas. De acordo com eles, são histórias de um Brasil invisível para uma parcela da sociedade.

*

Jacarezinho: Lógica da polícia do Rio e de Mourão torna Justiça dispensável

06 mai. 2021 - Mulher chora em hospital após uma operação na comunidade do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, deixar pelo menos 25 pessoas mortas - Reginaldo Pimenta/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
06 mai. 2021 - Mulher chora em hospital após uma operação na comunidade do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, deixar pelo menos 25 pessoas mortas Imagem: Reginaldo Pimenta/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Colunista do UOL

07/05/2021 13h24

Se levarmos em conta as entrevistas de delegados cariocas e do vice-presidente da República sobre a incursão na favela do Jacarezinho, que resultou no morticínio de 25 pessoas, o Brasil pode abolir o Poder Judiciário. Pela lógica deles, a polícia tem função de acusar, investigar, condenar e executar as penas.

Responsável pela investigação do caso, o diretor-geral do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa, Roberto Cardoso, já chegou à conclusão antes de apurar e disse que "não houve execução".

Fora do BBB 21, Juliette vai ter que lidar com a decepção dos fãs

Segundo reportagem de Italo Nogueira e Júlia Barbon, publicada na Folha de S. Paulo, Cardoso alega que o assassinato do policial André Frias é evidência de que a polícia não entrou na favela para praticar uma execução.

"No início da incursão, o nosso policial foi alvejado e foi morto. Isso é a prova cabal de que não houve execução e houve sim uma necessidade real de um revide a uma injusta agressão", disse Cardoso.

Se um revide que custou 24 vidas é considerado algo normal por quem vai investigar a operação, o que esperar do material que será encaminhado ao Judiciário?

O delegado Felipe Curi, do DGPE (Departamento Geral de Polícia Especializada), foi outro a concluir pela culpabilidade dos 24 moradores mortos, mesmo antes de qualquer apuração.

"Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante", asseverou ele. Apesar disso, até o início da tarde o governo do Rio não identificou as vítimas.

Para Curi, a convicção parece bastar para taxar alguém como "criminoso, homicida e traficante".

Como arremate a essa aula de justiça sumária, o vice-presidente Hamilton Mourão também deu sua contribuição. Ao ser perguntado sobre as mortes no Jacarezinho, também arriscou veredito na manhã de hoje: "Tudo bandido".

Em um país que adota esse método de combate a criminosos, os juízes e os ministros de tribunais superiores podem aposentar a toga. Provas, testemunhas, averiguação, tudo isso se torna dispensável.

Basta que autoridades policiais ou figurões da República tenham convicção formada para que, mesmo antes de qualquer inquérito, alguém seja considerado culpado.

Em outros lugares do planeta, que podem ser chamados de civilizados, prática desse tipo jamais seria considerada como justiça.

Em tais países exóticos, essa conduta é chamada de justiçamento.

*

O governador é o culpado - Vivaldo Barbosa

Por Vivaldo Barbosa

O Governador do Rio diz que não autorizou, mas na hora que a Polícia Civil lhe comunicou que ia fazer a operação no Jacarezinho, cedo de manhã, assim falou o Governador, e ele não a proibiu, chancelou a operação, concordou com ela e ela se realizou. É assim que acontece nas hierarquias, na administração ou no Exército. Ainda mais que a operação não foi de polícia judiciária para cumprir ordens do juiz, mas de polícia civil, investigativa.

Não se faz operação como essa em lugares populosos. Jamais.

O Supremo já havia proibido esse tipo de operação policial. Aliás, quem proibiu a polícia de fazer tais operações foi Leonel Brizola, lá atrás. Desde a campanha Brizola dizia: “Minha polícia jamais vai abrir portas de barraco a butinaço”. Brizola foi duramente criticado, o conservadorismo, a direita, especialmente encrustados na mídia, procuraram incendiar setores da polícia contra ele. Mentiram ao dizer que ele proibiu a polícia de subir morro. E setores da esquerda também. Brizola sabia das consequências dramáticas para os jovens, os negros, os pobres.

A Polícia Civil atuou de uniforme, fardada, com armas pesadas. Isto é uma aberração. Polícia Civil é investigativa, deve atuar às escondidas para identificar os culpados e ir em cima deles. Igualmente horrorosas foram as justificativas dadas pelos chefes da Polícia. Falaram em ativismo judicial, que estão impedidos de atuar, acusaram analistas de pedirem investigação, inteligência, que o tráfico cresce porque não atuam e outras excrecências. Assumiram atitudes políticas para se justificarem. É assim que acontece quando não há autoridade: florescem mentalidades como essa no vazio. Há uma onda de autoritarismo que ronda o Brasil e atinge em cheio as atividades policiais. E o Governador do Rio não tem autoridade política nem autenticidade. Seus antecessores imediatos, idem.

Está dizendo a Polícia Civil que fez a operação porque o tráfico estava recrutando jovens, crianças para o crime. Isto já é sabido há muito tempo. Contra isto, há mil maneiras de a Polícia atuar, menos disparar tiros a esmo. Sabendo que havia crianças e jovens do outro lado, eles investiram e dispararam com a possibilidade de atingir crianças? O mais grave é que a operação foi feita pelas autoridades policiais, ao contrário de Vigário Geral e Candelária, feitas por grupos de fora e contra o Governo e os dirigentes da Polícia.

Os chefes disseram que avisaram o Ministério Público da operação. Se o Ministério Público foi avisado e não tomou providências para evitá-la, ficou igualmente responsável.

A repercussão internacional é grande e de maneira negativa para o Brasil e para o povo brasileiro, especialmente para o Rio. Já temos tanta coisa negativa circulando pelo mundo!... A ONU pediu investigação independente para apurar as responsabilidades. Se for possível fazer uma investigação independente com as instituições que temos hoje em dia, o primeiro culpado a ser apontado já é bem claro: o Governador.

Fui Secretário de Justiça de Brizola, encarregado de cuidar de criar situações de democracia e proteção aos direitos humanos, trabalhamos ainda no final da ditadura, com o SNI e o Governo Federal da época, dirigido por um General, em cima. Sei muito bem quanto é necessário um governante que tenha legitimidade, autenticidade política e procure implantar na administração os valores republicanos. Quanta falta nos faz.

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