[ NÃO REGISTRADO em Juiz de Fora ]: Vicky Schneider
(Não registrado em Juiz de Fora) Ex-modelo Vicky Schneider lembra o assassinato da filha pelo próprio pai

Paulo Sampaio
Colunista do TAB
01/05/2021 04h01
A noite de 9 de dezembro de 1982, uma quinta-feira, foi a mais longa da vida da ex-modelo carioca Vicky Schneider. Por um tempo que pareceu uma eternidade, ela permaneceu sentada no meio-fio da rua Domingos Ferreira, em Copacabana, em estado catatônico. O pressentimento de que algo muito ruim havia acontecido tirou dela a coragem para subir e assistir ao arrombamento da porta do apartamento 201.
Em razão do forte odor de putrefação, o síndico havia tocado a campainha insistentemente, mas ninguém respondia. Uma vizinha chamou Vicky, e ela acionou a polícia. O delegado de plantão informou que só seria possível forçar a entrada na presença de alguém da família da proprietária do imóvel. Dona Marilda, 78, hospedava por aqueles dias o sobrinho César, 31, e a filha dele, Natasha, 3, fruto de um conturbado relacionamento com Vicky — então com 26 anos. Desesperada, a modelo rodou o bairro atrás de algum dos irmãos de César, até que encontrou um deles, Franco, em uma casa noturna no Posto 6.
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Primeiro de maio: dia de celebrarmos Vasco e Bangu
A entrada se deu pela porta de serviço. À medida que Franco e os policiais se aproximavam do primeiro quarto, o mau cheiro se intensificava, até que se materializou nas figuras irreconhecíveis de Cesar e Natasha. Com rostos desfigurados, pai e filha jaziam lado a lado. No chão, próximo ao cadáver dele, estavam dois revólveres, um bloco de anotações e o livro "Como Vencer o Esgotamento, o Medo e a Tristeza (Depressão)", de Raphael Lenné. Cinco balas haviam sido deflagradas de uma das armas. No outro quarto, com um aspecto igualmente assustador, estava o corpo de dona Marilda.
Escândalo instantâneo
Depois de matar a tia, Cesar deitou a cabeça da filha em uma almofada e disparou em sua nuca. Em seguida, deu cabo da própria vida. O crime logo tomou a dimensão de um escândalo. Nos dias seguintes, a "tragédia da modelo Vicky Schneider" estampava todos os jornais do país. Cesar Bruni era um dos seis filhos do empresário Livio Cechini Bruni, dono de uma rede de cinemas que levava seu nome. Vicky integrava o primeiro time de modelos da época, junto com Monique Evans, Silvia Pfeiffer, Isis de Oliveira e Veluma. "A Vicky tinha uma personalidade diferente, um estilo muito próprio, e era adorável", lembra Veluma.
"Logo depois de me contar o que tinha acontecido, o Franco me levou até o [Hospital Municipal] Miguel Couto [na Gávea], e me deixou lá", lembra Vicky, hoje com 65. [A reportagem não conseguiu localizar Franco Bruni.]
Dopada pelo efeito de tranquilizantes, a modelo foi transferida pela família do Miguel Couto para o Sanatório Botafogo, uma clínica psiquiátrica. Passou dez dias internada, depois seguiu para Recife, onde sua irmã mais velha, Elizabeth, morava . "Ela me afastou do Rio e de tudo o que pudesse trazer recordações de minha filha", diz.

Em uma conversa pontuada por pausas dolorosas, Vicky relembra o drama que marcou seu destino. No relato, agrega histórias de duas famílias disfuncionais — a sua e a de Cesar Bruni — e mostra que, apesar de bem-nascida e reconhecidamente bela, o destino não foi generoso com ela. Até chegar ao momento mais monstruoso da narrativa, ela cita o relacionamento abusivo do pai com a mãe; fala de seu envolvimento com drogas; e de como se sentia aprisionada na ligação com César Bruni. "Ele era muito, muito inteligente, obsessivo e controlador. Me tornei refém da situação, achava que nunca conseguiria me livrar daquilo", lembra. Entre idas e vindas, o relacionamento se estendeu por oito anos, três deles sob o mesmo teto.

Nietzsche e Schopenhauer
Na ocasião da morte de Natasha, os dois haviam decidido se separar, e então Bruni problematizou a guarda da filha. Ele não abria mão de ficar com ela e, ao mesmo tempo, não se conformava em perder a mulher. Em determinado momento, chegou a sequestrar a menina. Depoimentos publicados pela imprensa o definiam ora como "muito louco e nervoso", ora como um homem "calado, que não falava com ninguém". Em anotações feitas em 21 folhas do bloco encontrado no local do crime, ele se refere ao pai e a Vicky com muito ódio ("Saibam que vocês eram meus reais inimigos"). Define a ex-mulher como "CÍNICA/FRIA/CALCULISTA (em letras maiúsculas)" e escreve: "Daqui por diante serás um nome maldito e jamais se levantarás. Foi a última vez que você fugiu. Você sempre foi duas faces. Uma eu amei e paguei o preço pela outra."
Nos textos, revela que tomou "dois ácidos (lisérgicos) e vários Valiums (tranquilizantes)" antes de disparar contra a tia e a filha. Numa tentativa de "intelectualizar" a brutalidade do duplo assassinato, ele cita [os filósofos alemães Friedrich] Nietzsche e [Arthur] Schopenhauer; trata o crime como uma fatalidade prevista pelas cartas do tarô e mostra uma personalidade egoica: "Será que vai aparecer no 'Fantástico'? Tudo é tão ridículo. Riam."
Até hoje, Vicky chora ao lembrar que não pôde ir ao enterro da filha. "Ela tinha 3 anos! Três!", repete, como se ainda tentasse compreender o que aconteceu. No dia em que falou à coluna, no Mirante do Leblon, zona sul do Rio, sua voz saía estrangulada, aparentemente sem alcance para expressar a dor. Com os olhos fixos no mar, Vicky Schneider passou a contar tudo desde o início.

Pai brasileiro, mãe inglesa
Filho do governador baiano Landulfo Alves de Almeida (1938-1942) e de uma brasileira de origem alemã chamada Elsa Schneider, o pai de Vicky, Carlos Schneider ("ele não gostava do Alves de Almeida") completou sua formação em engenharia industrial no Tennessee (EUA). Lá, se casou com Pauline Briggs, inglesa divorciada de um ex-combatente norte-americano da Segunda Guerra Mundial. Pauline e o militar tiveram uma filha, Anita, que embarcou com a mãe para o Brasil. "Meu pai, minha mãe e minha irmã vieram de navio. Trouxeram a mudança e um Cadillac azul", diz Vicky. Com Carlos, Pauline teve três filhos; Elizabeth, Victoria e Robert. Apaixonado pela língua inglesa, o engenheiro inaugurou na serra fluminense um internato bilíngue chamado British School of Teresopólis. Muito exclusiva, a escola foi fechada menos de 10 anos depois, em 1967, quando Schneider descobriu que o professor que ele trouxe da Inglaterra para dirigi-la abusava dos alunos.
Durante um dos períodos de férias, Anita foi encontrada morta no banheiro de uma casa que a família alugou na cidade, vítima de um escapamento acidental de gás. Tinha 16 anos. Não bastasse a perda da filha, Pauline ainda era vítima de violência doméstica. Enredada em um relacionamento abusivo com Carlos Schneider, a inglesa sofria agressões morais e físicas, à vista dos filhos. Vicky acredita que o que viveu com César Bruni foi uma "repetição do modelo". "Cresci assistindo àquela violência. Ficava todo mundo com medo, agarrado com a minha mãe no sofá, enquanto meu pai via TV. Eu, para não deixá-lo sozinho, ia lá fazer companhia a ele", diz.
No relacionamento com Cesar Bruni, além das agressões domésticas, Vicky era desrespeitada publicamente. Certa vez, antes de um desfile da grife carioca Company — uma das mais celebradas entre os adolescentes da época —, ele arrumou um jeito de entrar na cabine de projeção e exibir fotos que tinha feito de Vicky nua. Ela diz que nem passou pela sua cabeça processá-lo. "Eu tinha muito medo da reação dele."

O amigo Kleber
No regresso de Teresópolis, os irmãos Schneider voltaram a morar em um casarão adquirido por Carlos quando os filhos eram pequenos. Ficava em um terreno de 14 mil m² na região do Vidigal, próximo à Avenida Niemeyer. Eles eram vizinhos do Morro do Vidigal, uma comunidade de 12 mil habitantes onde Vicky e o irmão, Bob, na época adolescentes, conheceram um traficante de nome Kleber. Apaixonado por ela, ele a atraiu com a oferta graciosa de cocaína. "Kleber estirava carreiras imensas, a gente passou a ir na casa dele todo dia." Pouco depois, Vicky embarcava para fazer high school em Michigan, onde Elizabeth já estudava. Na mesma ocasião, Carlos sucumbiu a um tumor maligno no pescoço. "A famiíla desmoronou", lembra ela.
Por conta disso, a temporada de estudos de Vicky nos EUA foi interrompida em menos de seis meses. Ela conta que seu sonho era ser "aeromoça da Braniff" (cia. aérea norte-americana, extinta em 1982), até que o joalheiro Antônio Bernardo e a estilista Sônia Belotti, da grife Groovy, a convidaram para desfilar. "Eu era tímida, não me achava bonita, nunca tinha pensado em ser modelo", lembra ela, que aos 16 anos já media 1,82 m. "Eu a conheci por intermédio do Daniel Azulay", lembra Bernardo, referindo-se ao apresentador de um programa infanto-educativo de TV, que Vicky estava namorando. Bernardo e Galotti viram nela um rosto incomum, promissor. Estavam certos. A carreira dela se estendeu por 17 anos, até os 33. Desfilou na passarela, posou para capas de revista e editoriais de moda.

Machismo ameaçado
No meio do caminho, apareceu Cesar Bruni. Os dois já se conheciam de vista quando ele parou o carro em frente a uma lanchonete em que Vicky se reunia com amigos, no Leblon, e a chamou para dar uma volta. Ela tinha por volta de 20 anos. "Ele não era lindo, mas me encantou pela inteligência muito acima da média. Morava com os pais em uma casa grande, no Alto Leblon, e me levou para lá. No dia seguinte, eu disse a uma amiga: 'Tenho a impressão de que vou ficar muito tempo com esse cara'." Mal sabia ela em que condições. Linda, famosa, assediada, Vicky representava uma ameaça permanente à honradez do namorado machista. Com o tempo, ele passou a persegui-la, desqualificá-la e agredi-la. "A princípio, eu não o traía. Mas, quanto mais ele me destratava, mais eu queria sair de perto. Só ficava com ele por medo. Aos poucos, passei a enxergar outros homens."

Na ocasião em que Natasha foi assassinada pelo pai, Vicky estava saindo com um cinegrafista chamado Aldo Caneca, que morreu em um acidente de moto. Na volta de Recife, ela namorou rapidamente um usineiro pernambucano. "Ele era lindo, um doce de pessoa, mas eu não tinha estabilidade emocional para manter um relacionamento." Ela só voltou a se envolver emocionalmente alguns anos depois, aos 35. O amor surgiu na figura de um maranhense de 25 anos, "alto, moreno, de cabelos compridos e olhos verdes". "Ele passava, as pessoas diziam: 'Olha lá Jesus.'"
Enquanto esteve casada com ele, Vicky administrou o bar Zeppelin, instalado em uma das casas construídas no terreno da propriedade do Vidigal, onde ela mora até hoje. O maranhense era o relações-públicas do bar. Nesse período, outra tragédia familiar bagunçou de novo a vida da ex-modelo. Depois de uma temporada de desintoxicação na Clínica Silvestre, em Botafogo, Bob Schneider não resistiu à síndrome de abstinência da cocaína e se enforcou. "Sofri demais. A gente era muito, muito ligado."
Por sua vez, "Jesus" trocou Vicky pelo movimento Hare Krishna. A temporada de imersão religiosa foi relativamente curta, uma vez que o monge recém-convertido acabou se casando com uma integrante da comunidade. "Um dia, ele foi até o alojamento feminino e transou com uma japa. Resultado: têm dois filhos e moram em Miguel Pereira [cidade serrana fluminense]." Vicky conta que levou seis anos para se recuperar da separação, e ainda hoje vive à base de antidepressivos.
Afirma que está "invicta" há mais de dez anos. Com uma honestidade pungente, ela diz que sente "falta de alguém". "Mas como eu passei por tanta loucura, gostaria que fosse uma pessoa gentil, leal, inteligente, bem-humorada." Digamos que a vida deve essa a ela.
Usuária de ivermectina, pastora Sarah Sheeva cita trauma de piolho


Paulo Sampaio
Colunista do TAB
23/04/2021 04h01
A entrevista mal havia começado quando a pastora Sarah Sheeva se dirigiu à filha, Rannah Sheeva, 29, e disse: "Querida, traz a ivermectina pra mim, por favor". O pedido, feito a esmo, soou como um sinal de que Sheeva estava disposta a polemizar.
Ivermectina é um medicamento sem eficácia comprovada no combate à covid-19. Junto com a hidroxicloroquina, tornou-se uma espécie de "droga política". Se não previne ou cura, funciona como um indicador de apoio tácito ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em uma atitude deliberada, ele ignora o consenso da comunidade científica e recomenda por conta própria o chamado "tratamento precoce".
Maconha e piolho
Bolsonarista ardorosa ("Amo! Amo!"), a pastora acredita que "muita gente desinformada deixa de se prevenir só porque não simpatiza com o jeito do presidente".
O alinhamento ideológico de Sarah com o atual governo vai muito além da recomendação emblemática da ivermectina. "Se Bolsonaro não tivesse sido eleito, que Deus te mostre isso!, o comunismo estaria instaurado e nós viveríamos uma anarquia completa", acredita a pastora, que tem 48 anos e é a mais velha dos seis filhos da cantora Baby do Brasil e do guitarrista Pepeu Gomes. Sarah nasceu no auge da ditadura militar, em um sítio em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, onde seus pais e os outros músicos do grupo Novos Baianos compartilhavam uma experiência coletiva cultural e existencial, inspirada no movimento hippie.
Embora tenha vivido pouco no sítio, Sarah Sheeva reage à lembrança daquele período com repugnância. "Tomei horror àquela realidade. Era muita maconha, piolho, falta de banho. As pessoas hoje só lembram do lado 'paz e amor'. Ninguém conta que o povo acordava com larica e arrombava o cadeado do armário para roubar o Leite Ninho das crianças...Teve um dia em que a polícia bateu lá, e esconderam a maconha na minha fralda!"
Parece sintomático: uma das indicações da ivermectina, segundo a bula, é no combate aos piolhos.

Greve, anarquia e PT
Expansiva, dramática, contundente, Sarah Sheeva se lança em argumentações que parecem brotar em associação livre de ideias. Ao contar que estava morando no Espírito Santo em 2017, quando a paralisação da Polícia Militar gerou uma grave crise na segurança do estado, ela faz uma extravagante ligação da greve com "anarquia", "guerra civil" e "Lula". "Você acha que, se o PT tivesse ganhado a eleição, nós estaríamos sentados aqui nessa varanda, conversando com tanta tranquilidade?"
A pastora recebeu a coluna na sede de uma fazenda que fica a cerca de 100 km de São Paulo, para onde se mudou há pouco mais de três meses. Convertida desde 2001, ela explica que atualmente não está ligada a nenhuma denominação cristã específica ("Deus é um só"). Segundo diz, sua missão é pregar a palavra do Senhor em viagens pelo Brasil e o mundo.
Com um tom sinistro, ela pede para não dar detalhes da localização da fazenda — que no passado abrigou um luxuoso hotel —, porque teme ser perseguida por fãs obcecados. "Sou uma solteira famosa, e graças a Deus nunca fui feia. Quando você diz que vive em abstinência sexual, tem maluco que acha que você tá fazendo tipo e vem atrás para conferir. Já sofri perseguição de um menino em Goiás. Ele nem era do mal, mas foi um susto."
Desejos adormecidos
Sarah Sheeva afirma que não faz sexo há 19 anos. "Até os 28, fui muito promíscua", diz. Em 2011, a pastora criou um evento chamado "Culto das Princesas", dedicado a mulheres que querem seguir seu exemplo e deixar de ser "cachorras" — nas palavras dela. "Orei a Deus para adormecer os meus desejos. Pode acreditar, Ele é capaz de transformar nossa vontade."
Apesar de longeva, a imunidade de Sheeva contra impulsos sexuais não é 100% garantida. "Se eu ficar me instigando, se assistir a um filme sensual, bom, eu sou uma pessoa normal, né? Vou ficar mexida. Mas você não vai me ver aqui, parada, dizendo: 'Ai, que tesão'. Isso não existe."
A primeira apresentação do evento das princesas reuniu 100 mulheres ("a gente esperava 15"), mas logo esse número se multiplicou ("chegou a 4 mil") e foi preciso migrar para espaços maiores. Hoje, a página do evento no Facebook tem cerca de 120 mil seguidoras. Diante da enorme demanda, Sheeva transformou o culto em um curso de 12 aulas, que se estendem por três meses. Por causa da pandemia, o evento foi gravado, mas a essência é a mesma. Ela ensina as alunas a "pararem de aceitar migalhas emocionais de homens safados". "A cachorra come restos atirados ao chão. A princesa se banqueteia na mesa do rei, que é o Pai Eterno."

Aconselhamento unissex
Liberado apenas para mulheres, o culto acabou despertando a curiosidade dos homens. A pastora então inventou o "Aconselhamento para Solteiros". Nos dois eventos, ela reafirma que o relacionamento tem de começar pela afinidade, não pela atração física. Para encorajar a audiência, cita sua própria história. Diz que a suspensão da atividade sexual não a impediu de se apaixonar, tampouco de iniciar relacionamentos afetivos.
O mais marcante foi com um cristão evangélico abstinente, que ela conhecia havia nove anos. Sem sexo nem beijo, o namoro soçobrou em "alguns meses". "Eu não defraudo homem nenhum. Nunca crio expectativas que não podem ser cumpridas", explica.
A pastora conta que terminou o relacionamento "gostando" e, por isso, cortou qualquer vínculo com o ex-futuro noivo. "Você precisa ter sangue de barata para se sujeitar a ver a pessoa que você gosta com outra." Ela sustenta que não existe amizade "sexualmente desinteressada" entre homem e mulher. "A menos que seja com o pai, o irmão ou o cabeleireiro gay dela."
O romance interrompido com o crente abstinente deve virar livro. Título: "Paixões Secretas: O Período da Autodefraudação". Anteriormente, SS publicou "Defraudação Emocional", em 2007, e "Onde Foi que Eu Errei?", 2008.

Epopeia contemporânea
Em si, a conversão de Sarah Sheeva remete a uma epopeia contemporânea. Tudo aconteceu a partir de uma briga com uma pessoa — ela não diz o nome — que a atingiu no rosto com um celular. "Eu fiquei catatônica, meio tonta, me encostei no primeiro muro que achei. A pessoa saiu xingando, transtornada, e eu vi o demônio pela primeira vez. Era um bicho enorme, que saía dos limites do corpo transparente dela [a pessoa]."
Na ocasião, Sarah Sheeva morava com dois irmãos em um apartamento no Alto Leblon, zona sul do Rio. O encontro com Jesus se deu no quarto dela. Por sugestão de uma amiga que tentava evangelizá-la havia 10 anos, Sheeva chamou por Ele. "No início, fiquei muito constrangida, achava aquilo ridículo. Eu pensava: 'ai, que vergonha. Ainda bem que não tem ninguém olhando...'"
Mas então, no décimo dia, Jesus atendeu ao chamado. "O Senhor apareceu e me disse: 'Sarah, eu estou aqui'. Naquele momento, o amor Dele me invadiu de uma forma tão intensa que queimava. Eu me curvei, fui rolando pela cama, caí no chão em posição fetal e chorei por quatro horas."
O choro era tão convulsivo, lembra Sheeva, que ocasionou soluços ruidosos, assustadores. "O diafragma subiu, eu comecei a perder oxigenação, meus dedos formigavam. Então, Ele disse: 'Eu vou ter de deixar você, porque o seu coraçãozinho não está aguentando'; eu respondi: 'Não, não, não!', e a verdade é que Ele nunca mais me deixou."

Tudo sobre minha mãe
Depois do encontro com Jesus, Sheeva recuperou a oxigenação e adormeceu em posição fetal. Ao despertar, ligou para a mãe. A reação de Baby do Brasil, segundo a pastora, não foi boa. "Ela teve um ataque, me xingou de tudo o que você pode imaginar e bateu o telefone na minha cara!" De acordo com Sarah Sheeva, Baby, que também é evangélica, só se converteria dois anos depois. Nãna Shara, irmã mais nova de Sheeva, também se tornou evangélica, casou-se com um pastor e, segundo ela, vive nos EUA. As duas e Zabelê, a do meio, integraram no passado uma banda de música pop chamada SNZ.
A reportagem tentou falar com Baby do Brasil e Pepeu Gomes, sem sucesso. A própria Sarah Sheeva não pareceu empenhada em ajudar. Também não foi favorável a liberar Rannah a contar sua experiência enquanto filha de pastora influencer. "Ela não vai querer falar", presumiu Sheeva. Questionada sobre a eventualidade de Rannah também ser abstinente sexual, Sarah encerrou o assunto enigmaticamente: "O chamado dela é outro."
A pastora tampouco revela quem, afinal, a acolheu no antigo hotel-fazenda. Existe um pastor? Qual a igreja? Ela reage com uma expressão que mistura gravidade e mistério, como se fosse um Segredo de Fátima. "Por enquanto, não posso dizer nada", diz ela, enquanto ajeita a casquete fixada do lado esquerdo da cabeça, e pergunta ao fotógrafo onde ele pretende produzir a imagem.
Descemos todos para o deck instalado à margem do lago que se estende à frente da sede da fazenda.
Relacionamento retrô
O figurino da pastora reflete sua personalidade exuberante. Saia longa com estampa floral, blusa preta, cravo no ombro combinando com a casquete, e conjunto grande de colar e brincos pingentes de pérolas fantasia. Rosto grande, exótico, ela comprime os lábios carnudos para absorver o excesso de batom cor de uva. "Sou desenhista de moda autodidata", diz. "Quando resolvi fazer o 'Culto das Princesas', com a ideia de valorizar o relacionamento conservador, Deus me chamou e disse: 'Sarah, compre um tecido vermelho com bolinhas brancas, um pouco de tule, e faça um modelo anos 1950."

A pastora diz que, por causa do isolamento, engordou 10 quilos. O assunto surge a propósito da polêmica causada por uma entrevista que Sheeva deu em 2014 e que foi recuperada por cristãos indignados. Na ocasião, em outro acesso de associação livre de ideias, ela foi do pecado da glutonaria citado na Bíblia à gordofobia em minutos. "As pessoas se convertem e pensam que não têm mais corpo e alma. Aí eu te pergunto: por que tem muito crente gordo? (...) O povo larga o sexo e engorda 20 quilos. Isso aconteceu comigo."
Em sua defesa, ela alega a proverbial "descontextualização do que foi dito". Queixa-se de que foi vítima de "gente maldosa". Em novo salto retórico, afirma que a glutonaria está associada a uma compulsão, e que não tem a ver necessariamente com o peso do pecador. "Tem gente que come loucamente e não engorda! Magros também podem estar vivendo nas trevas!"
Sem pretendentes à vista, Sarah Sheeva afirma que não tem pressa de encontrar a "pessoa certa". Deus teria garantido a ela que "vai acontecer". "Até os 95, ele aparece", ri. Enquanto aguarda, a abstinente pastora se estende em elucubrações a respeito do estilo de príncipe que a atrai: "Eu gosto do biotipo do americano. Alto, costas quadradas, pescoço largo, perna fina, bunda achatada. Bem bruto. Se o homem tiver bunda grande, eu nem saio para almoçar. Tenho horror!"
Recapitulando: namoro sem beijo nem sexo. Não aos "bundões". E que Deus abençoe o contraditório, em um momento de polarização tão radical.
Lésbica feminista relembra sofrimento com violência doméstica: 'Como pude?'


Paulo Sampaio
Colunista do UOL
18/03/2021 04h00
Passara-se quase um ano desde que a militante feminista Dora Cudignola havia se separado do marido e se assumido lésbica, quando ela se perguntou: "Como pude?" Ex-voluntária em uma ONG que acolhia vítimas de violência doméstica, Dora agora estava vivendo, ela própria, um relacionamento abusivo. E o que mais a surpreendia: a agressora era uma mulher.
"Eu costumava ligar a violência doméstica aos homens. Passei muitos anos ouvindo histórias apavorantes de agressão, acolhi e orientei inúmeras vítimas. De repente, não conseguia usar minha experiência para resolver uma situação pessoal. Chorava dia e noite, sem encontrar uma saída. Não entendia como perdi o controle e cheguei àquele ponto." Na ocasião, meados dos anos 1980, Dora tinha pouco mais de 30 anos. Hoje, está com 68.
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No apartamento de frente para o mar em que mora com uma amiga em Mongaguá, litoral sul de São Paulo, ela contou ao TAB como fez para superar sua malsucedida estreia em um relacionamento homoafetivo. Disse que o trauma não interferiu em sua orientação sexual.
"Eu estava muito segura a respeito da minha atração por mulheres. Tentei sentir prazer com homens, mas nunca consegui gozar. A vontade, que já não era tanta, acabava com a penetração."
Por outro lado, sua agressora a satisfazia plenamente. "O sexo entre nós era muito intenso, e por isso eu acabava cedendo. Depois, chorava, ela pedia desculpas, e tudo voltava a acontecer."

Facão e surra
Foram mais de três anos de maus tratos físicos e psicológicos. O casal vivia o que Dora classifica como "amor doentio". Ela conheceu Maria quando começou a trabalhar em uma filial do supermercado Jumbo Eletro, na zona leste da capital. "Eu tinha me separado, não dava para continuar fazendo apenas serviço voluntário. Precisava de um trabalho remunerado", conta.
Pouco tempo depois que as duas iniciaram o relacionamento, elas deixaram o emprego no supermercado e abriram um bar. O álcool contribuiu para potencializar o comportamento abusivo de Maria. Oito anos mais nova, ela sentia um ciúme desmesurado de Dora. Além de destratar a companheira, agredia homens que a cortejavam.
Certa vez, ameaçou um vizinho com um facão. Ele prestou queixa na polícia, ela foi obrigada a deixar a arma na delegacia, mas o caso já havia se tornado um escândalo no bairro.
Em outro momento, deu uma surra no ex-marido de Dora. "Ele foi atrás de mim no bar, porque percebeu que eu não estava bem, e encontrou só a Maria. Ela arranjou um jeito de embriagá-lo, o convenceu de que ele não estava em condição de voltar sozinho para casa, e o acompanhou. No caminho, bateu muito nele. Bateu, bateu. Eu chorei, disse que não acreditava que ela tinha feito aquilo com uma pessoa vulnerável, que nunca se intrometeu na nossa vida."
Ex-marido civilizado
O marido, com quem Dora tinha uma filha de 10 anos, reagiu com civilidade. "Ele ainda estava ligado a mim e era uma pessoa maravilhosa. Nunca nos desentendemos."
Naquela época, os mecanismos de proteção à mulher em situação de violência eram praticamente inexistentes. A punição imposta ao agressor se resumia, em muitos casos, à oferta de cestas básicas para famílias carentes.
A promotora Silvia Chakian, que trabalha com enfrentamento da violência doméstica e familiar, lembra que esse cenário só foi alterado com a sanção da Lei Maria da Penha, em 2006, que prevê proteção à integridade física, psicológica, patrimonial, moral e sexual da mulher. "O assunto deixou de ser considerado de foro íntimo e passou ser visto como questão de Estado."
A propósito do caso de Maria e Dora, Silvia esclarece que a lei protege todas as mulheres, independentemente da orientação sexual delas. "Talvez ainda haja desconhecimento sobre isso, é importante divulgar que o dispositivo abrange toda representante do gênero."
O silêncio das inocentes
Para a psicóloga Valéria Fátima da Rocha, 48, que atende pacientes LGBTQI+, a mulher lésbica não tem o mesmo lugar de fala que a heterossexual. "Onde não há pênis, não existe casal. A relação é invisibilizada. Se a mulher está dentro do armário, o assunto fica ainda mais silenciado. Com quem ela vai conversar sobre violência doméstica?"
Valéria fala com conhecimento de causa. Lésbica assumida, ela é filha de Dora e acompanhou de perto a saída da mãe do armário. Diz que sofreu mais com a separação dos pais. Na ocasião, foi morar com a avó materna.
"Vivi a angústia de qualquer filho de pais separados. É claro que havia também o preconceito, eu era 'a filha da sapatona'. Mas apesar de a gente morar em uma região culturalmente atrasada, eu sempre acompanhei minha mãe nas reuniões com mulheres progressistas e sabia que aquele grupo pensava além daquela realidade."
Por conta dessa precocidade, Valéria se sentiu à vontade para perguntar a Dora sobre a natureza do relacionamento dela com Maria. "Toquei no assunto porque havia abertura para isso. No momento em que fiz a pergunta, tinha condição de ouvir a resposta."
Na adolescência, quando se deu conta de que também se sentia atraída por mulheres, vieram outras questões: "O peso social de ser lésbica era muito maior do que hoje. Eu pensava: 'Será que, de tanto querer fugir disso, eu estou me aproximando?' 'Será que eu sofri influência da minha mãe?' Eu não queria olhar para o meu desejo. Mas o tempo foi passando, eu acomodei isso tudo em um lugar confortável para mim, e, com 24, 25 anos, consegui experimentar o que eu estava sentindo."

Dora diz que conversou várias vezes com a filha sobre aquele momento, e até perguntou se ela se ressentia de desatenção. "Sempre que eu ia visitar a Valéria, a Maria logo aparecia no portão para cobrar minha presença em casa. Eu deixava minha filha para ir com ela", lembra. Contudo, ela diz hoje que não se sente culpada: "Era minha vida, e eu quis viver aquilo."
Beata, não
O entusiasmo de Dora pela militância começou nos anos 1970, na paróquia de São João Batista, que ficava perto de onde ela morava. Não como beata, mas como voluntária nas comunidades eclesiásticas de base, movimento ligado à Teologia da Libertação (corrente inclusivista ligada à igreja católica). Na época, participou dos trabalhos de uma ONG holandesa chamada SOF (ela não se lembra o significado da sigla).
A partir de então, frequentou diversos grupos de acolhimento a mulheres e famílias vítimas de violência. Nos piores momentos de seu relacionamento com Maria, foi acudida pela feminista Cidinha Kopkac, que, como ela, tinha sido casada, era mãe (de três filhos) e assumiu-se lésbica.
"A Cidinha não sabia mais o que fazer para me tirar daquele inferno. Eu virei um trapo. Me olhava no espelho e não reconhecia a mulher vaidosa que, quando era casada, estava sempre com o cabelo arrumado e andava de salto alto em casa."
Depois de Maria, Dora namorou muito e teve pelo menos dois relacionamentos longos, de 12 e 13 anos, com mulheres que conheceu em salas de bate-papo na internet. Silvia, a última, morta em decorrência de um AVC, é considerada a mulher de sua vida. "A relação era perfeita. Tinha amor, confiança, companheirismo, tudo", lembra.

Paulo Freire
Na gestão de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo (1989-1993), Dora engajou-se na ONG Cecopi (Centro de Comunicação e Educação Popular do Itaim Paulista), ligada ao projeto MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos). Criado pelo educador Paulo Freire, de quem se tornou admiradora incondicional, o MOVA possibilitou a ela uma longa carreira de professora de ensino fundamental — pela qual se aposentou.
Nos últimos tempos, por causa da pandemia de covid-19, Dora encontrou dificuldade para agendar uma histeroscopia cirúrgica emergencial no Hospital do Servidor Público. O procedimento é realizado para investigar sangramentos incomuns no útero. Ela acabou conseguindo marcar a internação graças ao trabalho voluntário do advogado Rodrigo Bertolazzi, que atende idosos da comunidade LGBTQI+ na ONG Eternamente Sou — na qual Dora é voluntária e assistida.
Bertolazzi entrou com uma "ação de obrigação de fazer" contra o IAMPSE (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual): "O médico tinha emitido a via para a realização da histeroscopia, mas o teleatendimento do instituto se recusou a agendar."
Três dias antes da (bem-sucedida) cirurgia, quando nos recebeu em Mongaguá, Dora parecia muito tranquila. "É coisa simples. Minha nora [mulher de Valéria] vai vir me buscar aqui, e depois me trazer de volta."

Regata e shortinhos
Entre um cigarro e outro, comentou que se distrai em conversas com lésbicas nos grupos "Universo Feminino" e "Mulheres Sensíveis", no Instagram. De camiseta regata, shortinhos e chinelos, desceu para posar para as fotos na praia. Preocupada em proteger o rosto do sol, levou chapéu e óculos escuros.
Mais de 30 anos depois da nefanda experiência com violência doméstica, ela não apresenta nenhum sinal de amargura. Fala do relacionamento com o devido respeito, mas localiza Maria em um tempo remoto, e ri com vontade das passagens tragicômicas.
Durante o relato, pergunta com leveza: "Vocês aceitam uma cervejinha?"
A jornada de 220 km na maior praia do mundo: "Esteja pronto para o inferno"
Eduardo Vessoni
Colaboração para Nossa
01/05/2021 04h00
Na maior faixa de areia contínua do mundo, encontramos tudo o que não se espera em uma praia: tempestades de areia, dias que viram noites sem aviso prévio, águas turvas e revoltas e uma vida selvagem curiosa que sempre ronda a barraca dos raros campistas.
Mas o professor de educação física Gustavo Sbrana Sciotti, 31, é insistente e encarou mais de 220 quilômetros de caminhada na Praia do Cassino. E não foi só uma vez.
Pé na estrada

A saga do ultramaratonista que corre da Patagônia ao extremo Alasca
Sciotti acaba de lançar o livro "Abismo Horizontal: Uma Jornada Solitária pela Maior Praia do Mundo" (editora Chiado), um relato intenso sobre sua caminhada solitária de 10 dias, entre o município de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e o Arroio Chuí, a divisão natural entre o Brasil e o Uruguai. E alerta em entrevista a Nossa:
Você vai ser testado até o fim. Se não estiver preparado para enfrentar o inferno, não se lance nessa caminhada sozinho"

Em 2017, ele já tinha tentado a travessia, mas desistiu de completar a caminhada, depois de 140 quilômetros do ponto inicial, devido ao cansaço extremo e aos "pés muito feridos por bolhas horríveis".
O título do livro pode soar poético ou até mesmo parecer mais uma daquelas obras de autoajuda. Mas em se tratando do extremo sul brasileiro, o abismo é um areião batido que não nos deixa ver o horizonte. Daí o termo "abismo horizontal" para definir a praia.
"Mar de um lado, dunas de outro e, à frente, um panorama sem fim", descreve Sciotti em um dos capítulos.

Travessia estafante
"Por mais que você ande 40 quilômetros por dia, o cenário é o mesmo e não tem fim. Aquilo bagunça a cabeça, parecia que eu estava na rodinha do hamster", compara o caminhante que terminou a empreitada com dez quilos a menos.


Em pouco mais de 150 páginas, ele não economiza nos adjetivos (e nas sensações extremas) para descrever aquela região imprevisível e de mudanças bruscas, onde as noites são tão escuras "que não fazia diferença andar com os olhos abertos ou fechados", e o pior "pode ficar definitivamente insustentável".
Aliás, a "maior praia do mundo" é assunto polêmico até hoje, já que o título dado pelo Guinness World Records, nos anos 90, não considerava que aquela extensa faixa de areia incluía também as praias do Hermenegildo e da Barra do Chuí, na vizinha Santa Vitória do Palmar.

Mas quem encara a Praia do Cassino tem objetivos mais nobres do que as rixas regionais. E um deles é a total conexão com tudo aquilo que se vê ao longo da caminhada (ainda que a mente sempre insista em nos desviar a atenção).
"A cada passo que dou, estou mais perto do Chuí"
Essa era a frase que Gustavo Sbrana Sciotti sempre tinha em mente para enganar o psicológico abalado pelas dores, medos e dificuldades extremas.
Enquanto isso, a maior praia do mundo ia passando diante dos olhos.
A praia em si já é o destaque. Não tem nada parecido no Brasil e pouca gente conhece, inclusive os próprios gaúchos"

Entre as experiências que chamou a atenção do paulista é a fauna abundante em toda a extensão da praia, como aves, capivaras, lontras, graxains (raposa-dos-pampas), golfinhos, pinguins e até jacarés em uma lagoa perto da Estação Ecológica do Taim, considerada o "pantanal gaúcho".

Aliás, essa unidade de conservação, entre Rio Grande e Santa Vitória do Palmar, é considerada uma das zonas mais ricas em aves aquáticas da América do Sul e um importante berçário de aves migratórias.
Cada trecho é um mundo completamente diferente. Tem deserto, lagoa, duna e até um concheiro, um verdadeiro cobertor formado por milhões e milhões de lindas conchas"
Outro cenário natural que o surpreendeu é a Lagoa Mangueira, uma formação de mais de 120 quilômetros que segue paralela ao oceano, formada apenas por águas da chuva e de lençóis freáticos.

Terra de faróis
Separada do mar por uma sequência de dunas, que ao longo dos anos vêm enterrando as ruínas de um hotel abandonado, a lagoa abriga uma das atrações mais aguardadas do roteiro: os faróis.
É ali que fica o Albardão, um dos mais isolados do Brasil e com estrutura para receber hóspedes, desde que o pedido seja feito com antecedência ao 5º Distrito Naval da Marinha do Brasil.

Essa torre de 44 metros de altura em preto e branco foi inaugurada há mais de 110 anos como "o primeiro de uma rede que complementaria a iluminação da costa entre Rio Grande e a divisa com o Uruguai", de acordo com o Serviço de Sinalização Náutica da Marinha.
Ao longo da praia, o caminhante encontra ainda outras três construções do gênero (Verga, Sarita e Barra do Chuí).
A explicação para a concentração de tantos faróis a tão pouca distância é que a região já foi conhecida como o Inferno dos Navegantes, devido ao grande número de naufrágios naquele mar de águas agitadas. Só nas primeiras quatro décadas do século passado, a região abrigava 33 naufrágios.

O mais famoso deles é também um dos pontos altos da travessia da maior praia do mundo: o Altair, um cargueiro desmantelado que repousa na beira da praia desde 1976, a cerca de 22 quilômetros ao sul da cidade de Rio Grande.
"Embora muito no início [da travessia], passar por ele não deixa de ser uma vitória para aqueles que ousam realizar a travessia", analisa Sciotti, que chegou a aproveitar a sombra criada pelos escombros da embarcação para descansar.

Em tempos de países abertos para brasileiros e com trâmites devidamente feitos na fronteira, era possível seguir também em direção a um dos destinos mais fascinantes do vizinho Uruguai: Rocha.
Esse departamento abriga atrativos como o Parque Nacional Santa Teresa e os povoados Punta del Diablo e Cabo Polonio, onde o tempo costumava ser medido pelo número de barcos naufragados ou encalhados.
Dicas de sobrevivência

Na maior praia do mundo, prepare-se para um desgaste físico extremo, durante caminhadas em terreno arenoso e mala pesada (Sciotti andou com 27 quilos nas costas), ao longo de deslocamentos diários de cerca de 30 quilômetros.
Por isso, é fundamental levar bastão de caminhada, kit de primeiros socorros com itens como antisséptico, pomadas para assaduras e faixas para os pés machucados.
Fiquei seis dias sem tomar banho, as bolhas nos pés chegaram a infeccionar e as pernas e virilhas ficaram em carne viva por conta da areia e da umidade"


Sciotti iniciou a travessia com 5 litros de água, suficientes para os dois primeiros dias. Porém, sem nenhuma estrutura em quase toda a sua extensão, a trilha exige que as recargas seguintes sejam feitas em arroios próximos, daí a necessidade de levar também um purificador de água.
Impossibilitado de usar fogareiro por conta do vento forte, ele improvisava fogo em uma latinha de alumínio sob uma pequena panela, onde esquentava água para preparar macarrão instantâneo e outros alimentos liofilizados.
"É preciso levar comida que forneça calorias, como barras de cereais, frutas secas, enlatados e mix de oleaginosas, como amêndoas, castanhas e nozes. É uma questão de sobrevivência", recomenda.

Para as noites (sempre) frias, invista também em um isolante térmico, saco de dormir e barraca de melhor qualidade, além de lanternas de mão e de cabeça para os deslocamentos noturnos.

Mas para o autor, o mais importante é o preparo mental para encarar a imensidão daquele terreno isolado. Uma de suas dicas é fazer testes em lugares menos extremos, antes de viajar.
"A Praia do Cassino foi uma metáfora de vida para eu evoluir como ser humano. Foi uma jornada de auto conhecimento que beirou o espiritual", conclui.
Viajante faz peregrinação de 200 km entre paisagens da Serra Gaúcha
Marcel Vincenti
Colaboração com Nossa
28/04/2021 04h00
Marina Storch (@mudeiarota), de 37 anos, gosta de realizar longas caminhadas. Ao longo de sua vida, a viajante já fez o Caminho de Santiago, encarou o trekking até o Campo Base do Everest e percorreu a trilha para Machu Picchu.
Em março deste ano, ela completou, sozinha, a rota de peregrinação no sul do Brasil: os Caminhos de Caravaggio, que oferecem um percurso de aproximadamente 200 quilômetros entre o Santuário de Caravaggio, da cidade gaúcha de Canela, e o santuário homônimo do município de Farroupilha, também no Rio Grande do Sul.
Viagens para inspirar

Viajante trabalha por hospedagem e conhece 16 países gastando menos
É um percurso novo, que ainda não fez dois anos e que pouca gente conhece. E eu já havia visitado a Serra Gaúcha há muitos anos e imaginei que as paisagens deste caminho fossem me surpreender", diz Marina.
A viajante estava certa: em sete dias, ela caminhou entre horizontes marcados por montanhas, bosques, plantações de morango, vinícolas e um lindo rio, passando por tradicionais vilarejos gaúchos e se vendo completamente sozinha no meio da natureza.

"Comecei a caminhada no santuário de Canela e, até chegar a Gramado, passei por muitas paisagens urbanas, com muito asfalto", lembra.
"Mas, depois disso, comecei a entrar em cidadezinhas e a pegar estradas de terra, com vistas para a Serra Gaúcha e muitas araucárias. Já no meio dos bosques, era só fechar os olhos e escutar a natureza. E me vi no meio de lindas borboletas grandes e azuis, que foram me acompanhando enquanto eu andava".
Os Caminhos de Caravaggio têm sinalização (além de mapas que podem ser baixados pela internet), são embelezados por muitas hortênsias e, em um bosque a cerca de 1 quilômetro de seu trajeto, existe um atrativo que encantou Marina: o Pinheiro Multissecular, com idade estimada de cerca de 1.000 anos e 45 metros de altura, localizado em Nova Petrópolis.

"É um lugar lindo, de paz e meditação, e que tem uma energia inexplicável. Foi muito bom admirar aquele bosque sozinha", afirma Marina.
No percurso, outro lugar que deleitou a andarilha foi o rio Caí, que corta a paisagem da região.
"Em um dia de calor muito forte, pude caminhar na beira deste rio. Depois de andar três horas sob o sol, coloquei biquíni, entrei na água e fiz uma pausa no momento mais quente do dia. É um rio gostoso e com algumas banheiras naturais no meio das pedras, onde sentei e deixei a água correr pelo corpo".

Segundo a viajante, o trajeto também apresenta serras que são difíceis de subir, "mas a vista sempre compensa quando a gente chega lá em cima".
Desafios e conversa com padre
A viajante conta que, via de regra, caminhava entre 20 e 30 quilômetros por dia. Em sua mochila e sobre o corpo, levou itens essenciais para qualquer peregrino, como capa de chuva, roupas impermeáveis, calçados de trilha e garrafas de água.
E, na hora de dormir, Marina ia a hospedarias que existem ao longo dos Caminhos de Caravaggio, que oferecem estadia, jantar (frequentemente feito com receitas italianas típicas dos descendentes de imigrantes da região) e café da manhã.


"E as pousadas estimulam que você pegue o seu lanche de almoço no próprio café da manhã. Então, eu colocava na mochila frutas, pão com queijo e alguma coisa doce para comer na estrada", diz. "No caminho, também me deparei com muitas figueiras e pés de caqui, que eu sempre pegava".
E uma alimentação reforçada é necessária para esta rota de peregrinação gaúcha, pois, além de suas longas distâncias, o trajeto é marcado por trechos íngremes. Marina, inclusive, encarou uma destas subidas sob chuva.
Meus caminhos de peregrinação sempre me entregam chuva quando estou subindo uma serra. Mas, no fundo, prefiro que seja assim. É melhor do que subir a serra suando debaixo de calor. Foi algo desafiador, mas já estou acostumada com isso", conta ela.

Em outra ocasião, um trecho sem sinalização fez com que Marina pegasse um caminho errado, saísse da rota e se perdesse. "Perdi mais de uma hora até perceber que estava errada e começar a voltar", conta. "Andei quase 4 quilômetros a mais por causa disso. Ao todo, andei 38 quilômetros neste dia".
Entre os animais, apareceram em seu caminho uma cobra inofensiva e aranhas. Mas foram cachorros que acabaram por assustá-la.
"Passei por uma comunidade onde havia muitos cachorros soltos. Escutei latidos e, quando olhei para trás, os cães já estavam muito perto de mim. E isso aconteceu em um dia de chuva. Eu estava com a capa de chuva e acho que isso assustou os animais. Não fui mordida, mas fiquei muito assustada".
E a chegada a Farroupilha ainda reservou um grande final.
Ao entrar no Santuário de Caravaggio da cidade, ponto final da peregrinação, Marina foi recebida pelo padre da igreja.
Sentei na salinha dele para conversar. Contei sobre minha experiência na peregrinação e até toquei o sino da igreja. Foi uma experiência bem diferente".

Mesmo afirmando não ter uma religião específica, a viajante aproveitou sua passagem pelos Caminhos de Caravaggio (e pelo santuário de Farroupilha) para orar. "Ao longo do caminho, fui rezando para um amigo que está internado há mais de 75 dias, por causa de um AVC. A cada capelinha pela qual passei, fiz uma reza para ele. E pedi para o padre também orar por este amigo".
E, como acontece com muitos peregrinos, terminar uma longa caminhada deixou nela uma sensação de tristeza.
"A sensação final foi parecida com a de todas as peregrinações que realizei. Bate uma certa frustração quando a gente chega, porque, neste tipo de viagem, o gostoso é o percurso, não chegar ao destino. É uma sensação de vazio saber que não continuarei a caminhada no dia seguinte. Chamo este sentimento de DPP, deprê pós-perê", brinca ela, afirmando já ter planos para próximas andanças.
"Meu sonho é fazer um percurso a pé entre Copenhague, onde tenho passado muito tempo nos últimos anos, e Santiago de Compostela. Provavelmente, serão cinco meses caminhando".
Como percorrer os Caminhos de Caravaggio
Tirando os cachorros agressivos, Marina conta que, em nenhum momento, se sentiu insegura em sua caminhada entre Canela e Farroupilha.
Mas, segundo ela, é preciso tomar alguns cuidados. "Se você estiver só, sempre caminhe com cuidado. Em muitos trechos dos Caminhos de Caravaggio, não há ninguém por perto e, em alguns lugares, meu celular não pegava. Cheguei a ficar umas quatro horas sem ver ninguém", relata ela, dizendo que um pé torcido ou quebrado seria um grande problema.

A viajante também diz que "o peregrino deve estar adaptado ao calçado que vai usar na caminhada. Ele já deve estar amaciado, para que não cause bolhas e dores. Não dá para fazer peregrinação com sapato novo", diz ela.
"Para mim, o calçado ideal são as botas de trilha à prova d'água, porque a gente pega bastante chuva. Já a mochila deve ter uma espécie de cinto chamado barrigueira, para envolver na cintura e fazer com que o peso da bagagem fique também apoiado no quadril, não só nas costas ou nos ombros".
Marina recomenda levar, na viagem, "o mínimo necessário", com roupas leves e de fácil secagem — e, também, itens impermeáveis, com capas de chuva para a mochila e para o corpo, além de boné ou chapéu, óculos de sol, protetor solar, muitos pares de meia (para evitar que o pé fique em contato com excesso de suor) e vaselina (para passar nos pés, evitar atrito e, assim, diminuir a chance de criar bolhas).
Ela fez os Caminhos de Caravaggio saindo de Canela, mas o percurso também pode ser realizado no sentido inverso, começando em Farroupilha.
O que é ser do Sul: "Três países com apenas algo em comum: o inverno"


Fabricio Carpinejar
Colaboração para Nossa
com a curadoria de Tainá Müller
29/04/2021 04h00
O sul do país é constituído de três países. Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina só têm o inverno em comum: as geadas que cobrem os telhados.
O paranaense é prático, o gaúcho é passional e o catarinense é reservado.
Temporada Brasileiro

Teresa Cristina resgata a boemia do Rio: "A felicidade está num pé-sujo"
Não há como não sentir a diferença alvissareira atravessando as fronteiras.
Paraná
Paraná é verde, do equilíbrio, da serenidade. Um bosque dentro de um globo de neve. Terra que se curte devagar, girando a paisagem.
Paraná se entremostra, não se expõe de modo direto, não cobra dez por cento. É self-service. O visitante enfrentará a missão de conhecer sozinho.

Não é aldeia da passeata, do sermão, da mobilização. Não se grita no Paraná, mas se ouve.
É a agricultura casada com o urbanismo. Por detrás da fachada do casarão, um prédio ultramoderno rege as nuvens.
Espaço com régua, simétrico, de copas domadas, de árvores datilografadas em duas vias.

Até as curvas são linhas retas. Geografia equilibrada, ordenada, perfeita a ponto do caminhante pensar que ele é o único erro. É tão organizada que divide os bairros por áreas de interesse.
Seus habitantes esnobam obediência ecológica. Não pisam na grama e nas certezas.
Estado amigável, dos instrumentos de sopro, não dos instrumentos de corda. Cheiroso como o banho da manhã, não cheiroso em demasia como o banho da noite.

Paraná é o medo da chuva. Todo mundo fica em casa quando chove. Só os motoboys circulam. Nada parece ser importante o suficiente para que os moradores possam sair de casa — só o sol, só a vitamina D. Ser caseiro em Curitiba é uma missão. Amigos se encontram se forçados por visita de família distante.
Paraná é um café forte sem açúcar, sem adoçante, sem enfeites.

As pessoas não vão rir à toa. Não é fácil furtar um riso.
Paraná oferece pistas para correr, mas todos andam devagar. As ruas usam roupas de grávida, largas e diagonais.
Os passantes esquadram o vazio, introvertidos. São funcionais, não perdem atenção com informações desnecessárias. Piada ao paranaense acontece após muita intimidade.
Quem escolhe residir ali é pela quietude do amor, não pela paixão escandalosa. Não se vende adesivo bairrista.

Curitiba é o coração da praticidade. De acordo com Cristovão Tezza, as obras na capital foram feitas para caber num selinho (Jardim Botânico, Ópera do Arame, Museu Niemeyer), envolvidas em estruturas metálicas e de vidro.
Paraná é uma correspondência aberta com o vapor. Para não estragar o envelope.
RIO GRANDE DO SUL
O Rio Grande do Sul é laranja, da extroversão, da energia.
O gaúcho não se aproxima com calma. Cumprimenta alto, gritado, estapafúrdio. Não confunda com assalto: é seu jeito mesmo. Tenta assustar na primeira vez, para a amizade soar mais tranquila dali por diante. É o inverso do baiano, a voz não é mansa para se erguer naturalmente com o avanço da conversa.

É tudo ou nada, é agora ou nunca. É Gre-Nal. Um atropelo de vogais. Um "eiiii", um "oiiiiii", um "bah". Sem chance. Sem recuperação. Um abuso para os mais travados.
Conjuga o tu como se fosse você, por pura personalidade.
Canta o hino rio-grandense de cor e salteado. Canta o hino de seu clube de cor e salteado. Não abandona um argumento mesmo quando percebe que está enganado.

Aceita ser vítima de piada de um familiar. A mesma piada na boca de um estranho é preconceito. Recebe qualquer um de braços abertos para depois investigar. Não admite neutralidade e empate, muito menos voto de Minerva. É preciso escolher, está do lado dele ou contra ele. Cuidado, o silêncio é compreendido como oposição.
Basta elogiar algo de sua Querência que ele vira turista. Repete os programas para ser encontrado. Comparece quatro vezes no mesmo lugar até ser reparado. Continua aparecendo até ser esquecido.

Desafia com a mesma facilidade que apazigua. Faz as pazes no dia seguinte quando ama. Quando odeia, bem, dirá que nunca o conheceu.
Seu time é o melhor do mundo, sua cidade é a melhor do mundo, sua carne é a melhor do mundo. Às vezes é. Tão gaúcho que conta que é gaúcho para os próprios gaúchos.
Quem toma chimarrão, ronca acordado. É engraçado passear pela Usina do Gasômetro ou Brique da Redenção no domingo. A térmica é um filho aprendendo a caminhar. Balançando de mãos dadas com seus pais.

A capital é o humor do Luís Fernando Verissimo, o interior é o tempo e o vento, a resiliência de Érico, seu pai.
O crepúsculo transforma os rios ou o pampa no teto de uma igreja. É o momento de rezar e agradecer ao infinito por morar aqui.
SANTA CATARINA
Santa Catarina é azul, da mansidão, do infinito.
O catarinense representa uma ilha cercada de ilhas. Ele gosta de estar na rua como se estivesse em casa. Seu quintal é o oceano. Não verá um catarinense explicando o que é ser catarinense. Não há manual de explicações. Não faz propaganda se seu paraíso. Estão acostumados com a beleza.

É uma tecelagem de segredos, com confecção de mistérios. Guardam as rusgas e discussões para as quatro paredes. Dificilmente testemunhará um bate-boca na rua.
De uma miscigenação espanhola, açoriana e germânica, recorrem à ironia do dialeto. O catarinense ofende para dentro. Quase sussurrado. Um bombom com licor no seu recheio. Você procura o chocolate e encontra a bebida.
As gírias são engraçadas porque contidas: boca mole (abobado), pau de vira tripa (pessoa alta e magra), quebrar os cornos (machucar a cabeça), jaguara (quem não se pode confiar), bobiça (bobagem).

É o Estado em que mais se compra à vista, porque os consumidores têm uma preocupação em garantir uma sobrevida diante das dificuldades: não se gasta mais do que aquilo que se recebe. Mantêm a precaução de separar as economias para futura emergência.
Conservam a nostalgia familiar de adquirir uma casa própria e contar com um lar para chamar de seu. Privilegiam as raízes em detrimento das viagens e aventuras.

Não se envolvem em polarizações ideológicas, conservadores no objetivo de defender a segurança.
O catarinense nunca é pego com as calças nas mãos, até porque sempre tem alguma roupa por baixo.
Quando extrapolam, é a maior loucura, encarnada em baladas eletrônicas e Oktoberfest. São os mais doidos justamente porque são os mais calmos o tempo todo. A explosão é catarse para relaxar e tudo voltar ao normal.
Ser Sonoro #10: de Nova York ao Morro do Alemão, batida eletrônica domina

Do TAB
01/05/2021 04h01
Um encontro inusitado de sons entre África e Europa — ou melhor, entre Afrika Bambaataa e o disco "Trans-Europa Express", dos alemães do Kraftwerk — em 1982 mostrava a cara da música que estava despontando na época. A colagem de sons diferentes, que deu origem ao rap, ao acid jazz e até ao funk carioca, é tema do novo episódio de Ser Sonoro distribuído aqui em TAB. Ouça abaixo o episódio na íntegra.
"Cantaloop" é um dos grandes exemplos disso. Mixando sons gravados em 1954, 1964 e 1970, a música foi lançada em 1993 e provavelmente já foi ouvida por todo mundo que estava vivo no planeta Terra naquela década. O US3, grupo que fez essa mistura toda, levou um susto quando foi acionado pela Blue Note, um dos principais selos da música negra dos Estados Unidos, dona dos sons usados na mixagem.
"Quando o selo chamou os caras do US3 pra uma reunião, eles pensaram que iam ser processados por piratear a música, mas saíram de lá com um contrato para um disco e a permissão para samplear os mais de 50 anos de música do catálogo da Blue Note. Era um sinal dos tempos. Depois de 20 anos do primeiro baile do Kool Herc, o remix finalmente começou a ser reconhecido pelas gravadoras como parte do processo de criação musical", conta Fernando Cespedes no episódio (ouça a partir de 11:56).
Emprestando as batidas da drum machine digital — uma espécie de banco de sons à disposição de músicos do mundo todo criados a partir dos anos 1980 em máquinas como a TR 808, da japonesa Roland —, vários ritmos foram ganhando espaço. Sabe o funk "Rap das Armas"? Então, ele é um dos que nasceram graças à TR 808. "O funk carioca foi ter uma batida criada por aqui só em 1998, quando o DJ Luciano, da zona oeste do Rio, criou o Tamborzão. A partir dali o som do atabaque, que ecoava na paisagem sonora carioca desde a chegada do primeiro navio negreiro ao Cais do Valongo, invadiu as batidas do funk" (a partir de 13:54).
A ideia para o tamborzão, aliás, veio do Funk'n Lata, contou o DJ Luciano em uma entrevista. O líder desse grupo é Ivo Meirelles, compositor campeão do Carnaval com a Mangueira em 1986. Acontece que a escola de samba não curtiu muito a introdução do funk no samba, e o Meirelles saiu da Mangueira em 1995.
Não demorou muito para a escola verde e rosa se arrepender de esnobar a colagem. Aconteceu dois anos depois, com a vitória da Viradouro no Carnaval carioca. "A bateria do mestre Jorjão botou a Sapucaí abaixo com a batida do funk logo na abertura do desfile. E ela voltou outras vezes na forma de breque, que depois ficou conhecido como 'paradinha funk'" (a partir de 17:14).
No ano seguinte, DJ Luciano pegou sua drum machine e criou o tamborzão, primeira batida tupiniquim do funk carioca. Do Blue Note ao Morro do Alemão, da Europa à Afrika, do rap ao jazz e ao funk, a colagem de sons diferentes ou uma música nela mesma nunca dominou a paisagem sonora.
Se você quer ouvir todas essas misturas e ainda descobrir detalhes inusitados da história do som, coloque os fones de ouvido e escute o episódio completo de Ser Sonoro acima.
Cinco motivos pelos quais o Brasil ama Juliette

Colaboração para o UOL, em São Paulo
01/05/2021 15h57
Primeiro, sua paixão "platônica" por Fiuk logo nos primeiros dias chamou a atenção dos telespectadores. Juliette dizia para o cantor que queria se casar com ele e não saía de sua cola. Após saírem da casa dos imunes, a maquiadora ficou tomada pelos ciúmes de Carla Diaz, já que em sua cabeça, Fiuk "a trocaria" pela atriz.
Porém, ao decorrer do confinamento, Juliette ganhou o carinho do público por ser sincera e ter um coração enorme. Foi ela quem estendeu a mão para Lucas Penteado quando os demais viraram as costas para ele.
Por diversas vezes, a paraibana acalmou os sentimentos turbulentos de Gilberto, que costuma ficar ansioso e criando teorias a cada vez que vai ao paredão. No geral, Juliette ajudou um pouco a cada participante a enfrentarem seus monstros. Por isso, listamos cinco motivos que fazem o Brasil amar Juliette:
Coração de ouro
Como citado acima, Juliette estendeu a mão para Lucas Penteado quando a maioria dos brothers lhe virou a cara. Lucas foi cancelado pelos participantes após propor uma "guerra" entre negros e brancos dentro da casa. Ele foi julgado, se arrependeu e pediu perdão, mas não foi perdoado. A advogada foi a única a ouvi-lo e o acolheu.
Lucas Penteado não aguentou a pressão psicológica e acabou pedindo para sair do confinamento.

Sincera até demais
A paraibana nunca escondeu seu jogo. Como Gil do Vigor disse uma vez, "o jogo de Juliette é muito claro, é muito limpo". Todas as vezes que ela precisou votar em alguém, ela conversou com a pessoa antes ou se não conseguiu, explicou todos os seus motivos após a formação do paredão.
Além disso, quando algo lhe incomoda, a maquiadora não guarda o sentimento para si. Inúmeras vezes ela foi "tirar satisfação" com os demais por ter levado um emoji que não gostou no queridômetro. Ela ia, um por um, saber o motivo de tal carinha, bombinha, cobrinha ou coração partido.
Nos jogos da discórdia, ela não mandava indiretas, e sim, diretas! A sister foi muito atacada na maioria das "reuniões de condomínio" e apesar de chorar muito em todas as vezes, ela enfrentou, bravamente, aqueles que a criticaram.

Aproveita todas festas até o fim
Uma das coisas mais contagiantes em Juliette, sem dúvidas, é a sua alegria. Apesar de levar muitas questões a sério, Ju se joga sem medo em todas as festas do reality.
Ela dança, canta, bebe, se emociona e é o centro das atenções. Em plena pandemia de covid-19, Juliette consegue levar ao público um pouco do gostinho das festas temáticas e incríveis do "BBB 21".

Faz maquiagens impecáveis
Todos sabem que Juliette, além de advogada, é maquiadora. A paraibana faz os telespectadores ficarem vidrados na frente das câmeras todas as vezes que ela se senta na frente do espelho e se pinta.
Além do público, as sisters foram à loucura com as maquiagens de Juliette. Ela já até levou uma advertência do big boss por ensinar a ex-sister Thaís algumas técnicas de maquiagem.
No início do programa, Juliette emocionou ao público e os colegas de confinamento ao contar sua história e dizer que a maquiagem lhe deu a maioria das coisas que ela conquistou em sua vida.

Não tem medo de ser quem é
Tanto em brincadeiras como em questões sérias, Juliette não esconde a sua essência. Durante sua trajetória, a advogada brincou de tentar engatar um romance com alguns brothers: Fiuk, Rodolffo, Arthur e até o amigo e fiel escudeiro João Luiz. Porém, todas as tentativas foram falhas e divertiram o público.
Brincadeiras à parte, Juliette confessou que tem o gênio e a personalidade fortes. Por isso, em toda a sua vida, ela foi mal interpretada pelos demais. O mesmo aconteceu no reality. Juliette já chorou por "precisar explicar todos os seus passos e atitudes para os outros", pois, na maioria das vezes, as pessoas enxergam suas decisões com maldade.
Apesar de tudo, Juliette não tem preguiça e muito menos medo de ser transparente e explicar todos os pontos e motivos questionados por alguém. A prova disso foi, e é, sua briga com Lumena. Ela foi questionada por muitas vezes sobre a situação com a ex-sister, mesmo semanas depois da eliminação da psicóloga.

Por fim, o jeito sincero, alegre e contagiante de Juliette caiu nas graças dos brasileiros, que se identificaram com ela por muitas vezes não ser compreendida por suas escolhas. Vale lembrar que em um determinado momento do jogo, Juliette não era pódio de ninguém. Gilberto chegou a tirar a sister de seu pódio e colocar Fiuk no lugar.

Eu sei muito bem qual é o meu lugar e eu não quero ocupar o lugar de ninguém Juliette




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