PAULO GUSTAVO, 42 anos, REI di CINEMA NACIONAL, um dos atores mais populares do Brasil, morre de Covid-19 (embolia gasosa disseminada) - Ficou INTERNADO 53 dias * 4 de maio de 2021, 22:11 * IRREVERSÍVEL. Nós o perdemos. ANTES do TEMPO. Assim como perdemos também os MAMONAS ASSASSINAS e Airton SENNA.
Marido de Paulo Gustavo escreve despedida emocionante nas redes sociais: 'Sempre te amarei'

Ainda era a madrugada desta quarta-feira, quando Thales Bretas postou uma emocionante despedida para o ator Paulo Gustavo, seu marido, que faleceu vítima da Covid-19. Em seu perfil no Instagram, Thales confessa que ainda não conseguiu processar tudo o que houve. "Não consigo escrever um centésimo do quanto você foi e é importante pra mim e pro mundo. E continuará sendo, eternamente...", escreveu, num trecho da postagem.
"Ainda é muito difícil processar tudo o que aconteceu nos últimos dias... Nossa caminhada tinha tudo pra ser longa! Linda como vinha sendo... tão feliz! E foi muito! Como fui feliz nesses últimos 7 anos que tive o privilégio de conviver com você! Como eu aprendi, cresci! Espero poder passar um pouco do seu legado de generosidade, afeto, alegria e amor. Você é um furacão! Uma estrela que brilhou muito aqui na Terra, e vai brilhar ainda mais no céu, olhando pela nossa família sempre!!! Eu te amo tanto... e sempre te amarei, pro resto da minha vida! Não consigo escrever um centésimo do quanto você foi e é importante pra mim e pro mundo. E continuará sendo, eternamente... Peço desculpas aos amigos e aos fãs por não conseguir elaborar tudo como gostaria e responder a todos. Estou vivendo um turbilhão de sensações. Obrigado pelas energias positivas e orações. Muito amor tenho recebido, espero num momento mais oportuno conseguir retribuir! Bjs saudosos...", escreveu.
Paulo Gustavo ficou internado por 53 dias, no Rio de Janeiro, mas perdeu a luta contra o novo coronavírus. Em maio de 2020, num programa de TV, o ator confessou seu medo durante a pandemia: "Eu tenho problema respiratório. A medicina não sabe ainda como esse vírus reage dentro de cada pessoa", desabafou (leia mais aqui).
Artistas e autoridades de todo o país mobilizaram as redes sociais para prestar homenagem ao comediante. Paulo Gustavo deixou dois filhos, Romeu e Gael, de 1 ano e nove meses. O velório deverá acontecer no Theatro Municipal do Rio, mas restrito apenas a família e amigos.

Morre ator Paulo Gustavo, aos 42 anos, em decorrência da covid-19
Do UOL, em São Paulo
04/05/2021 22h03
Atualizada em 04/05/2021 22h26
O ator Paulo Gustavo morreu hoje, aos 42 anos, em decorrência da covid-19. A informação foi confirmada pela equipe do ator ao UOL. Ele estava internado no Hospital Copa Star, no Rio, desde o dia 13 de março.
"Às 21h12 desta terça-feira, 04/05, lamentavelmente o paciente Paulo Gustavo Monteiro faleceu, vítima da covid-19 e suas complicações. Em todos os momentos de sua internação, tanto o paciente quanto os seus familiares e amigos próximos tiveram condutas irretocáveis, transmitindo confiança na equipe médica e nos demais profissionais que participaram de seu tratamento", diz a nota.

Famosos fazem homenagens após morte de Paulo Gustavo
"A equipe profissional que participou de seu tratamento está profundamente consternada e solidária ao sofrimento de todos", acrescenta o comunicado.
No hospital, o humorista ficou em estado grave e foi tratado com ECMO, uma espécie de pulmão artificial. Ontem, ele teve fístulas que causaram o vazamento de ar do pulmão e desencadearam uma embolia gasosa — quando vasos sanguíneos são obstruídos por bolhas de ar.
O boletim de ontem indicava que a situação clínica era "instável e de extrema gravidade". Após a piora, diversos amigos mandaram mensagens de apoio para o humorista, como Tatá Werneck, Ingrid Guimarães e Mônica Martelli. Hoje, mais cedo, a equipe do humorista informou que o quadro era "irreversível".
Paulo Gustavo deixa o marido, o médico Thales Bretas, e dois filhos.
O histórico do estado de Paulo Gustavo

O comediante foi intubado em 21 de março, após 8 dias de internação para combater a covid-19. Paulo Gustavo, no entanto, continuou a apresentar piora do quadro respiratório e, no dia 2 de abril, a equipe médica decidiu submetê-lo à terapia por ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea) na UTI, uma técnica também conhecida como pulmão artificial que auxilia na oxigenação do sangue.
No dia 4 e, novamente, no dia 9 de abril, o ator passou por procedimentos por via endoscópica (toracoscopia) para corrigir fístulas bronco-pleurais, uma comunicação anormal entre brônquios e pleura, a membrana dos pulmões, que permite o vazamento de ar.
Em 11 de abril, o ator seguia em estado crítico e teve nova fístula detectada, segundo nota à imprensa, recebendo reposição de fatores de coagulação. No dia 15 de abril, um novo boletim médico afirmou que ele também foi submetido naquela semana a "várias intervenções, como broncoscopias, e alguns procedimentos cirúrgicos" que controlaram hemorragias.
Segundo a equipe de Paulo Gustavo, o boletim divulgado no dia 26 de abril informou que uma nova pneumonia bacteriana havia sido identificada. Na ocasião, os médicos estavam otimistas, acreditavam que o problema estava sendo tratado de forma eficiente e falavam em "evidências de melhora na função pulmonar".
Ontem pela manhã, ele tinha acordado e interagido com o marido, informaram os médicos. Porém, mais tarde, o ator teve uma embolia súbita que atingiu o sistema nervoso. Hoje, os médicos informaram que o quadro era irreversível.
Preocupação com coronavírus
Nos meses anteriores de ir ao hospital, Paulo não escondia sua preocupação com o coronavírus. Em maio do ano passado, o humorista disse que estava curtindo a vida doméstica, mesmo porque está "paranoico" com o coronavírus.
"Estou porque tenho problema respiratório. A medicina não sabe como esse vírus reage dentro de cada pessoa"
Ele contou que estava cumprindo à risca o isolamento por pavor de se contaminar. "Tenho medo de pegar isso, a pessoa não saber o que usar em mim e eu morrer. Tenho medo", disse, em entrevista a Ingrid Guimarães, no canal de YouTube do programa "Além da Conta".
Família

Nascido em Niterói, Rio de Janeiro, em 1978, Paulo usou a cidade como cenário dos filmes "Minha Mãe é uma Peça" e fazia piadas frequentes sobre a região. Ele era casado com o médico Thales Bretas, com quem teve dois filhos, Gael e Romeu, através de uma barriga de aluguel. Os meninos nasceram em agosto de 2019.
"Agora somos pais de dois meninos lindos, dois leõezinhos, cheios de vida e saudáveis! Estamos muito agradecidos com esse presente que a vida nos deu e em êxtase de tanta felicidade!", escreveu ele no Instagram.
Antes dos meninos, Paulo contou no final de 2017 que uma mulher, que estava grávida de gêmeos deles através de barriga de aluguel, nos Estados Unidos, sofreu um aborto e perdeu os bebês. Na ocasião, o ator agradeceu o apoio, disse que ele e o marido estavam muito tristes, mas não perderiam a esperança.
Eu e Thales somos muito jovens, saudáveis e nos amamos muito! Portanto, vamos começar tudo de novo ano que vem! Seremos pais, mas um pouco mais pra frente!
Estreia no teatro
Veja fotos do humorista e ator Paulo Gustavo

Paulo Gustavo tira foto com fãs em loja, durante passeio no shopping

Paulo Gustavo com o marido, Thales Bretas, e a amiga Regina Casé, em passeio ao shopping
O humorista se formou na escola de teatro da CAL (Casa de Artes Laranjeiras) e se destacou em 2004 na peça "Surto", com Samatha Schmütz, quando apresentou a personagem Dona Hermínia, inspirada em sua mãe, Déa Lúcia.
"Sempre fui de imitar minha mãe, minhas tias. Me inspirei na minha mãe para formar o personagem, mas se você conhecer a minha tia, minha avó, a minha empregada, você vê que não está só a minha mãe na história. A primeira vez que minha mãe viu, ela brincou: 'quero 10% da bilheteria, sou eu que estou ali!", contou ele no "Programa do Jô" em 2007.
Nos palcos, Paulo brilhou ainda em "Infraturas", "Minha Mãe é uma Peça", no qual ganhou o Prêmio Shell de Melhor Ator, "Hiperativo", "220 Volts" e "Online".
Na TV, o ator estreou em 2006 fazendo "pontas" na novela "Prova de Amor", da Record, no seriado "Minha Nada Mole Vida" e "A Diarista".
Em 2016, se destacou ao interpretar o cabeleireiro Renée na minissérie "Divã" da Globo. No mesmo ano, ele estreou "220 Volts" no Multishow, humorístico em que se destacou com vários personagens. Ele se destacou ainda no "Vai Que Cola", "Ferdinando Show" e "A Vila", todos exibidos no Multishow.
No final do ano passado, Paulo esteve no ar na Globo no especial de fim de ano de "220 Volts". Ele interpretou vários personagens de sucesso: Dona Hermínia, Senhora dos Absurdos, Maria Enfisema, o Palyboy, dentre outros.
Maior bilheteria no cinema nacional

Paulo atuou no cinema em "Divã" (2009), "Xuxa em O Mistério de Feiurinha" (2009), "Os Homens São de Marte... e É pra lá que Eu Vou" (2014) e "Vai que Cola - O Filme", mas foi com a divertida e resmungona Dona Hermínia, que Paulo fez milhares de pessoas gargalhar, muita identificar a própria mãe na personagem e bateu recorde de bilheteria.
Em 2020, "Minha Mãe é uma Peça 3", se tornou a maior bilheteria da história do cinema nacional, com R$ 143,9 milhões arrecadados em sua passagem pelas salas.
O longa superou o capítulo anterior da própria franquia, "Minha Mãe é uma Peça 2". Lançado em 2016, o segundo filme da série estrelada por Paulo Gustavo arrecadou R$ 123,8 milhões.
Paulo Gustavo, um dos atores mais populares do Brasil, morre de Covid-19

247 - O ator Paulo Gustavo morreu aos 42 anos, após complicações resultantes da Covid-19. Ele estava hospitalizado desde o dia 13 de março no Rio de Janeiro e, diante do agravamento da doença, Paulo foi levado para uma UTI, mas acabou piorando na segunda-feira, 3.
“Após a constatação da embolia gasosa disseminada ocorrida no último domingo, em decorrência de fístula brônquio-venosa, o estado de saúde do paciente vem se deteriorando de forma importante. Apesar da irreversibilidade do quadro, o paciente ainda se encontra com sinais vitais presentes”, disse o boletim.
A piora de Paulo se deve a uma embolia gasosa, que é um problema grave no sistema circulatório que acontece quando bolhas de ar entram na circulação sanguínea. Isso faz com que haja obstruções na passagem do sangue, que terminam por ocasionar problemas de oxigenação das células.
Paulo Gustavo foi um dos grandes nomes do cinema popular no Brasil com a série de filmes "Minha Mãe é Uma Peça”, uma peça de 2006 que estreou no cinema em 2013 e teve mais duas edições, em 2016 e 2019 - entre outras produções do cinema nacional.
Ele também se popularizou na sitcom brasileira “Vai Que Cola”, produzida e exibida pelo canal Multishow, que virou filme em 2015.
Sua personagem mais famosa, Dona Hermínia, foi estreada no final de 2004, quando atuava na peça “Surto”, ainda durante sua formação de ator na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL).
Completou sua formação na CAL em 2005, junto com outros importantes humoristas como Fábio Porchat, do Porta dos Fundos, e Marcus Majella, companheiro de trabalho em “Vai Que Cola”.
Recebeu indicação ao Prêmio Shell de Melhor Ator em 2006 após atuação em “Minha Mãe é Uma Peça”, um espetáculo ainda não adaptado para o cinema na época.
Paulo Gustavo evitou o caminho mais fácil e fez fama longe da TV aberta
Mauricio Stycer
Colunista do UOL
04/05/2021 22h08
Mais bem-sucedido humorista da atualidade, Paulo Gustavo se manteve, desde o início da carreira, distante da TV aberta. É uma trajetória que contraria o senso comum, segundo o qual é preciso mostrar a cara nos principais canais de televisão para ser, de fato, conhecido pelo público no Brasil. O ator morreu nesta terça-feira (04), aos 42 anos, em consequência da covid-19.
Do teatro para a TV paga e o cinema, Paulo Gustavo se tornou uma figura querida - e um campeão de bilheteria e Ibope - desenvolvendo um trabalho muito pessoal, que dificilmente teria conseguido emplacar, com estas características, na Globo.
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Paulo Gustavo: os personagens mais marcantes do ator
A Dona Hermínia, de "Minha Mãe É uma Peça", é a sua criação mais famosa e popular. "Essa personagem mudou a minha vida para sempre", disse uma vez. Não consigo imaginar uma mãe tão polivalente no horário nobre da Globo: desbocada, sacana, fumante, politicamente incorreta e, ao mesmo tempo, amorosa e acolhedora do filho gay, entre outras características.

O segundo dos três filmes, o melhor deles, na minha opinião, teve mais de 8 milhões de espectadores, em 2016. O terceiro, a maior bilheteria do cinema brasileiro, alcançou mais de 9 milhões, em 2019. O primeiro, de 2013, teve 4,6 milhões de espectadores.
Ainda que tenha mantido distância da Globo, Paulo Gustavo tornou-se uma das caras do Multishow, um dos canais do grupo na TV por assinatura. Fez muita coisa lá, mas três programas, em particular, garantiram índices de audiência ótimos para a empresa.
Desde 2011 até os dias atuais, com "220 Volts", "Vai que Cola" e "A Vila", o humorista firmou a reputação de criador de tipos, hábil improvisador e rei da comédia de situações.
Diferentemente de outros comediantes de sucesso da sua geração, Paulo Gustavo apostou num tipo de humor mais tradicional, popular e, de certa forma, sem maiores ousadias em suas experiências no Multishow.
Em 2014, numa entrevista, falou da distância que mantinha da TV aberta: "O 'Fantástico' me propôs ter um quadro. Uma hora vou topar um desses convites, mas eu não preciso dessa audiência da TV aberta. Essa [vontade] de migrar da TV fechada para a aberta eu não tenho. Meu forte é o teatro".
Só em 2020, com a proposta de um especial de fim de ano, o humorista levou para a Globo alguns de seus personagens preferidos, Dona Hermínia, Senhora dos Absurdos, Maria Enfisema, o Playboy e o Sem Noção. O "220 Volts - Especial de Fim de Ano" foi o ensaio de uma aproximação que, infelizmente, não terá desdobramentos.
Rei do cinema nacional, Paulo Gustavo era um colosso nas bilheterias
Roberto Sadovski
Colunista do UOL
04/05/2021 22h09
No Brasil do século 21, o personagem mais popular do cinema foi uma dona de casa falastrona, interpretada por um comediante vestido de mulher. Em tempos de correção política, Paulo Gustavo ousou ser engraçado com o clichê mais batido do humor nacional. O resultado foi uma conexão afetiva avassaladora e um trio de filmes que arrastou milhões ao cinema.
Mérito 100% de Paulo Gustavo, que enxergou no exagero o espelho perfeito para o povão. A resposta foi absurda. Os três "Minha Mãe É Uma Peça", em que o humorista interpretou a histriônica Dona Hermínia, levaram juntos mais de 25 milhões de pagantes aos cinemas. O terceiro filme é, em teoria, o segundo maior sucesso da história do cinema brasileiro —ressalto o "teoricamente", porque o primeiro é "Nada a Perder", e eu não acredito em números artificiais.
"Minha Mãe É Uma Peça", que nasceu no teatro em 2006, sete anos antes de saltar para as telas, fez de Paulo Gustavo um astro. Mas engana-se quem acha que sua munição estava resumida a um personagem. Nos palcos, na TV e no cinema, o humorista exercitou seu talento em unir os mais diferentes perfis de público e criou uma série de produtos extremamente bem-sucedidos.
Como protagonista, transformou "Vai Que Cola - O Filme" em um fenômeno que levou mais de 3 milhões aos cinemas. Como coadjuvante, ajudou a alavancar o sucesso de "Os Homens São de Marte... e é pra lá que eu vou!", que cravou 1.8 milhões de público, e sua continuação, "Minha Vida em Marte", visto por mais de 5.3 milhões de pessoas —o levantamento foi feito pelo portal "Filme B" a pedido de Splash.
O cinema no Brasil nunca foi construído em cima de astros, e sim de momentos. Ainda assim, o humor sempre foi o grande motor da nossa indústria claudicante. Oscarito e Grande Otelo faziam rir já nos anos 1940. Mazzaropi dominou os anos 1960. Os Trapalhões reinaram na década seguinte até o triunfo absoluto nos anos 1980. Recentemente, Leandro Hassum e Ingrid Guimarães se consolidaram como grandes nomes em nossa comédia e em nosso cinema.
Paulo Gustavo habitava o mesmo pódio. Mas sua trajetória sempre impressionou mais por acontecer em um país machista e homofóbico como o Brasil, em que a sexualidade historicamente era representada por estereótipos. Em vez de fechar os olhos para os clichês, Paulo os abraçou e os devolveu para a plateia com leveza, ironia e muito bom humor.
Dona Hermínia, afinal, não é um "tipo", e sim um amálgama exagerado de uma típica dona de casa da classe média. Traz um pouco de nossas mães e avós, de nossas tias e madrinhas, com toda a inconveniência e falta de noção atreladas a alguém sem freios na língua porque sabe que cada palavra, cada gesto, nasce de um lugar de carinho.
O Brasil então se enxergou em Dona Hermínia e em "Minha Mãe É Uma Peça".
Do lado de cá, abraçou sem restrições seu intérprete, abrindo também espaço para a aceitação de um homem assumidamente bissexual, casado com um dermatologista, pai de dois filhos. A família perfeita, com imagem pública que transbordava amor e simpatia, capaz de dobrar o preconceito mais agudo.
Ser o "rei do cinema nacional" (que ele definitivamente era) era mais do que protagonizar sucessos de bilheteria. Principalmente com "Minha Mãe É Uma Peça", Paulo Gustavo conseguiu reverter décadas de arquétipos negativos acerca do retrato da diversidade sexual na grande mídia sem ter de subir num palanque, sem ter de proferir discursos: ele o fez com bom humor, no grito e, acima de tudo, com humanidade.
Será Paulo Gustavo o ícone que vai fazer o Brasil mudar a rota finalmente?
Luciana Bugni
Colunista do UOL
04/05/2021 22h12
Eu tinha seis anos de idade em abril de 1989 e não queria subir para o segundo andar do sobrado onde eu morava porque sabia que "a revista daquele moço" estava na escada. A famosa capa da Veja com um Cazuza agonizando me assustava. Não sei se pela seriedade da imagem, ou pelo impacto que devo ter visto ela causar em algum adulto por perto.
Anos depois, aprendi o que era Aids, a doença que mudou os hábitos sexuais daquela geração e ditou como as gerações futuras se comportariam em relação ao sexo. Na infância, tinha medo do rapaz magro que me olhava na revista. Na adolescência, tive medo da Aids.
Minha geração aprendeu o perigo da doença após ver os heróis morrendo. Iniciamos nossa vida sexual de maneira tortuosa, combatendo o negacionismo dos "sem camisinha é mais gostoso". Perdemos alguns ídolos nesse período, mas hoje nossos amigos HIV positivo já podem viver bem: a imagem de um soropositivo não assusta criancinhas porque o mal não mata mais como naquela época.

A capa de Cazuza me veio à cabeça ao acompanhar a agonia de Paulo Gustavo nas últimas semanas, que lamentavelmente culminou em sua morte. Pensamos no comediante como um homem forte, cheio de vida, que fazia rir. Os posts de seus amigos durante o período em que ele ficou no hospital eram cheios de esperança. Jovem, Paulo seria o oposto do que se chama por aí de grupo de risco.
Sua morte vem para contrariar a coragem dos destemidos sem máscara que insistem em expor pessoas como eu e você ao risco de morte pela doença.
O fim da risada de Paulo Gustavo pode nos comover verdadeiramente?
A morte de Cazuza, ídolo nos 80, se somou a de Freddie Mercury, pela mesma doença. Sensibilizou pessoas e ainda colaborou com a estigmatização dos gays como pecadores contaminados. Por anos, casais hétero acreditaram que estavam livres da doença, enquanto transmitiam o vírus pela falta de proteção. Mas mesmo assim, a Aids matou menos, em 30 anos, do que covid-19 em 12 meses. Está certo transar sem camisinha? Não. Igual botar o nariz para fora sem máscaras potentes.
Paulo Gustavo desaparece entre outros tantos mil corpos hoje. A gente não consegue mais computar. Superamos 400 mil mortes. Corpos empilhados no sol. Transporte de cadáveres em vans escolares. Sacos pretos no telejornal. Enquanto isso, aglomerações ilegais pela "saúde mental". O que mais falta acontecer para que a gente se compadeça como nação e se isole o máximo possível?
Quando a gente vai se unir e cobrar do governo que nos dê condição para viver sem risco de morrer sem ar nem sem comida?
Enquanto isso, aqui no Brasil
A doença fica mais letal enquanto o nosso egoísmo insiste em apostar no novo normal que nos convém, sem máscara nem respeito. Enquanto o Brasil chorava a convalescência de Paulo, se abraçava em encontros que expõe quem a gente gosta ao mesmo risco. O mantra da "minha saúde mental" soa vazio enquanto enterramos milhares de pessoas todos os dias.
Os cientistas temem que o livre arbítrio do brasileiro possa criar em algumas semanas uma variante resistente à vacina. Chegamos num ponto do desgraçamento em que nem os parentes mais velhos vacinados apaziguam o coração. Pelo contrário: "Vô, o senhor pode continuar usando máscara depois de vacinado para proteger todos nós?"
O zelo pela vida dos idosos, que nos acompanhou durante todo o ano passado, virou um medo pela nossa própria vida. No jornal, a gente procura alguma notícia boa que reforce uma ou outra esperança que nossa teimosia insiste em agarrar. Nem isso aparece em dias assim. Paulo Gustavo está morto. Como é que se poderia rir?
Costumo dizer que a arte salva, o riso também. Hoje fiquei infinitamente triste pelo apagamento das duas coisas. Triste por Paulo Gustavo, triste pelas outras mil e tantas vidas. E por mim. Ando triste de Brasil. O covid-19 é uma doença injusta, como tem sido o comportamento do brasileiro que ainda acha que se abraçar pela saúde mental é mais importante do que evitar o luto. Está todo mundo doido? Estamos um pouquinho mais a cada dia. Mas a cabeça se cura mais rapidamente se a gente não tiver que conviver com o vazio da morte.
Uma esperança vazia de que o calar do riso de Paulo Gustavo faça com que a gente se sensibilize. Não dá para piorar para sempre: um dia a gente cai na real e muda a rota. Para poder rir de novo.
Minha música favorita dos Novos Baianos compara o doído e o doido. Acho que tanto faz hoje em dia no Brasil.
Eu lamento profundamente que tenha de ser assim.
Você pode discordar de mim no Instagram.
Câmara aprova projeto que revoga a Lei de Segurança Nacional
Deputados rejeitaram propostas de modificação do texto, que vai agora ao Senado; proposta prevê punição a quem atentar contra o Estado democrático de Direito
A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (4) o projeto que revoga a Lei de Segurança Nacional e prevê punição para quem atentar contra o Estado democrático de Direito.
Após aprovação do texto-base em votação simbólica, os deputados rejeitaram sugestões de modificação ao projeto, que, agora, será submetido ao Senado.
A proposta aprovada prevê até cinco anos de prisão para quem contratar empresas para disseminar notícias falsas que possam comprometer o processo eleitoral no país.
Texto substitutivo da relatora Margarete Coelho (PP-PI), o projeto revoga a LSN, resquício da ditadura militar (1964-1985), que vem sendo usada com mais frequência nos últimos anos.
Reportagem publicada pela Folha mostrou que a Polícia Federal disse ter aberto 77 inquéritos com base na lei em 2019 e 2020, número que supera o registrado nos quatro anos anteriores, quando a corporação diz ter instaurado 44 inquéritos.
O ex-ministro da Justiça André Mendonça, hoje chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), pediu que a PF investigasse jornalistas e opositores do governo Jair Bolsonaro, como o youtuber Felipe Neto.
O STF (Supremo Tribunal Federal) usou a mesma LSN para prender o deputado bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ) e organizadores de manifestações antidemocráticas.
O substitutivo de Margarete tomou como base projeto apresentado em 2002 por Miguel Reale Júnior, então ministro da Justiça do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002).
O texto insere um título dentro do Código Penal. A relatora retirou dispositivos relacionados a terrorismo, associação discriminatória e discriminação racial, que já possuem leis próprias. Também excluiu conspiração e crimes de atentado à autoridade.
Por outro lado, ela incluiu um capítulo sobre crimes contra o funcionamento das instituições democráticas no processo eleitoral. Um dos artigos inseridos pela deputada criminaliza a comunicação enganosa em massa.
O ato é descrito como “promover, ofertar, constituir, financiar, ou integrar, pessoalmente ou por interposta pessoa, mediante uso de expediente não fornecido diretamente pelo provedor de aplicação de mensagem privada, campanha ou iniciativa para disseminar fatos que sabe inverídicos capazes de colocar em risco a higidez do processo eleitoral, ou o livre exercício dos poderes constitucionais”.
Ou seja, pune quem contratar empresa que divulgar notícia que sabe ser falsa. A pena prevista é de reclusão de um a cinco anos e multa.
Outro dispositivo inserido trata da interrupção do processo eleitoral, como no caso de ataque hacker ao sistema da Justiça Eleitoral. A punição prevista é de três a seis anos de reclusão e multa.
Além disso, a relatora incluiu o crime de violência política, que seria restringir, impedir ou dificultar, com emprego de violência física, sexual, psicológica, moral ou patrimonial, o exercício de direitos políticos a qualquer pessoa em razão de seu sexo, orientação sexual, raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. A pena prevista é de de três a seis anos de reclusão e multa, além da pena correspondente à violência.
Margarete incluiu dispositivo que afirma não ser crime a manifestação crítica aos Poderes constituídos, nem a atividade jornalística ou a reivindicação de direitos e garantias constitucionais por meio de passeatas, reuniões, greves, aglomerações ou qualquer outra forma de manifestação política com propósitos sociais. Essa era uma preocupação da oposição, que temia ter o direito de protestar tolhido.
O projeto também criminaliza a incitação à animosidade entre as Forças Armadas ou entre elas e Poderes legitimamente constituídos, as instituições civis ou a sociedade.
Além disso, Margarete acrescentou um dispositivo sobre abolição violenta do Estado democrático de Direito, que seria a tentativa, com emprego de violência ou grave ameaça, de abolir o Estado de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos Poderes constitucionais.
É o que buscaram, por exemplo, apoiadores do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a invasão do prédio do Capitólio, em janeiro. A pena prevista é de quatro a oito anos de reclusão, além da pena correspondente à violência.
A relatora estipulou ainda aumento das penas se o crime for cometido por funcionário público, que perderia o cargo ou função pública, ou por militar.
Na discussão do projeto, bolsonaristas criticaram a votação e disseram que o debate havia sido açodado.
“É uma lei que deve ser estudada, é fato, mas da forma açodada que essa lei vem para este plenário, nós não podemos aceitar”, disse Carlos Jordy (PSL-RJ).
“Se o objetivo da nova Lei de Segurança Nacional, ou Lei do Estado democrático de Direito, um termo que foi expressamente prostituído para poder alegar todo tipo de questões que estejam violando a própria democracia. Se é para torná-la melhor, ela deveria estar sendo melhorada, aprimorada. Da forma como está, traz consigo diversos dispositivos ruins da antiga Lei de Segurança Nacional e também traz questões muito piores para a nova legislação."
Já a oposição defendeu a revogação da lei.
"Temos que acabar com a Lei de Segurança Nacional, aquilo que ainda vem da época sombria da nossa história que este país viveu, infelizmente, da ditadura, que alguns ensaiam, estimulam condutas para que volte e defendem como se aquilo fosse o melhor dos mundos, como se aquele período fosse democrático, não tivesse sido violento", afirmou o deputado Alencar Santana (PT-SP) .
"Com base nessa lei, muitas pessoas foram punidas, injustamente. Eu acho que esse novo marco que nós podemos aprovar hoje é condizente com o Estado democrático que nós defendemos. O Judiciário vai ter melhores parâmetros para poder agir quando provocado. Não é justo que legislações como essas ainda sejam utilizadas", acrescentou Santana.
A votação dos destaques expôs um racha na esquerda. O PSOL considerou o texto aberto. "Sabemos bem, como esses tipos penais abertos, e aí eu quero me permitir divergir dos meus colegas da oposição, podem levar à criminalização, sim, de movimentos sociais", afirmou a líder do partido na Câmara, Talíria Petrone (RJ). "Sabemos o quão seletivo é o estado penal, que cada vez mais é reforçado por esta Casa e cada vez mais é utilizado para perseguir os mesmos corpos de sempre."
O deputado Orlando Silva (PC do B-SP) divergiu e negou que a lei fosse ser instrumento para perseguir o movimento social. "Não seríamos nós que iríamos escrever uma lei que perseguisse os movimentos sociais. Sem autorização, quero dizer que o PT também não o faria, o PSB também não o faria, o PDT, a Rede e tantos outros partidos, só para falar do nosso campo citei alguns deles, nós nunca iríamos subscrever uma lei que perseguisse movimentos sociais", disse.
Silva disse que entendia a dificuldade de o PSOL explicar por que votou com o governo e o PSL, "mas o argumento não pode ser que a lei pode ser instrumento para perseguir movimento social".
Tatá Werneck lamenta morte de Paulo Gustavo: 'Não se apavore nem desanime'
Do UOL, em São Paulo
04/05/2021 21h49
Atualizada em 04/05/2021 22h22
Tatá Werneck postou uma mensagem religiosa para lamentar a morte do amigo Paulo Gustavo aos 42 anos, por complicações da covid-19. A morte foi declarada pelos médicos às 21h12 e anunciada para o público às 22h.
Tatá compartilhou a frase bíblica: "Não fui eu que ordenei a você? Seja forte e corajoso! Não se apavore nem desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar".

Ingrid Guimarães exalta fé após piora de Paulo Gustavo: 'O Brasil crê'

Quando Tatá fez a postagem, já se sabia que o quadro era irreversível. Paulo Gustavo sofreu uma embolia gasosa disseminada: uma bolha de ar obstruiu um vaso sanguíneo no sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal).
Marcelo Adnet também se pronunciou: "Para sempre lembraremos de você com muito amor. Saudades!"
O histórico do estado de Paulo Gustavo
O comediante foi intubado em 21 de março, após 8 dias de internação para combater a covid-19. Paulo Gustavo, no entanto, continuou a apresentar piora do quadro respiratório e, no dia 2 de abril, a equipe médica decidiu submetê-lo à terapia por ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea) na UTI, uma técnica também conhecida como pulmão artificial que auxilia na oxigenação do sangue.
No dia 4 e, novamente, no dia 9 de abril, o ator passou por procedimentos por via endoscópica (toracoscopia) para corrigir fístulas bronco-pleurais, uma comunicação anormal entre brônquios e pleura, a membrana dos pulmões, que permite o vazamento de ar.
Em 11 de abril, o ator seguia em estado crítico, teve nova fístula detectada, segundo nota à imprensa, e recebeu reposição de fatores de coagulação. No dia 15 de abril, um novo boletim médico afirmou que ele também foi submetido naquela semana a "várias intervenções, como broncoscopias, e alguns procedimentos cirúrgicos" que controlaram hemorragias.
No boletim divulgado ontem, os médicos informaram sobre a embolia gasosa disseminada. Ele chegou a acordar na tarde de domingo e falou com o marido, mas à noite o quadro piorou.
Quadro de Paulo Gustavo é irreversível, diz boletim médico

Do UOL, em São Paulo
04/05/2021 19h53
Atualizada em 04/05/2021 20h18
Em novo boletim divulgado hoje, os médicos responsáveis pelo tratamento de Paulo Gustavo afirmam que o quadro dele é irreversível. O humorista está internado no Rio de Janeiro desde o dia 13 de março, com covid-19:
"Após a constatação da embolia gasosa disseminada ocorrida no último domingo, em decorrência de fístula brônquio-venosa, o estado de saúde do paciente vem deteriorando de forma importante. Apesar da irreversibilidade do quadro, o paciente ainda se encontra com sinais vitais presentes."
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A embolia gasosa é quando vasos sanguíneos são obstruídos por bolhas de ar. No caso de Paulo Gustavo, o problema atingiu o sistema nervoso central, que compreende cérebro e medula espinhal.
No boletim, a família agradece a atenção dos fãs: "A família do ator continua agradecendo todo o carinho e pedindo orações dirigidas ao Paulo Gustavo, assim como às demais pessoas acometidas por essa doença terrível".
Amigos pedem orações
Hoje, amigos de Paulo Gustavo foram às redes sociais pedirem orações pelo humorista.
Tata Werneck fez um desabafo sobre os boatos de que ele teria morrido:
"A situação dele é grave. Mas mesmo assim é muito cruel darem uma notícia. Tirarem as chances e as esperanças. Paulo está vivo. Permanece lutando. Sabemos da dificuldade e da gravidade. Mas por favor não deem notícias para ganhar likes."
Ana Maria Braga disse estar com o "coração na mão", e também pediu orações: "Eu peço, por favor, para vocês que têm carinho por mim, que direcionem orações de melhora para o Paulo Gustavo, assim como para todos os tristes casos de infecção por covid-19 no nosso país".
O histórico do estado de Paulo Gustavo
O comediante foi intubado em 21 de março, após 8 dias de internação para combater a covid-19. Paulo Gustavo, no entanto, continuou a apresentar piora do quadro respiratório e, no dia 2 de abril, a equipe médica decidiu submetê-lo à terapia por ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea) na UTI, uma técnica também conhecida como pulmão artificial que auxilia na oxigenação do sangue.
No dia 4 e, novamente, no dia 9 de abril, o ator passou por procedimentos por via endoscópica (toracoscopia) para corrigir fístulas bronco-pleurais, uma comunicação anormal entre brônquios e pleura, a membrana dos pulmões, que permite o vazamento de ar.
Em 11 de abril, o ator seguia em estado crítico, teve nova fístula detectada, segundo nota à imprensa, e recebeu reposição de fatores de coagulação. No dia 15 de abril, um novo boletim médico afirmou que ele também foi submetido naquela semana a "várias intervenções, como broncoscopias, e alguns procedimentos cirúrgicos" que controlaram hemorragias.
No boletim divulgado ontem, os médicos informaram sobre a embolia gasosa disseminada.
Ele chegou a ACORDAR na tarde de DOMINGO e falou com o marido, mas à noite o quadro piorou.
Paulo Gustavo sofre embolia e equipe médica diz que quadro é de 'extrema gravidade'

Internado desde o dia 13 de março, após ser diagnosticado com Covid-19, Paulo Gustavo teve sua situação agravada nas últimas 24 horas, em decorrência de uma fístula bronquíolo-venosa (uma abertura entre os pulmões e as veias), permitindo a passagem de bolhas de ar na corrente sanguínea, causando uma embolia, incluindo o sistema nervoso central.
No mais recente boletim médico, a equipe avaliou que "a situação clínica atual é instável e de extrema gravidade".
A assessoria do ator liberou a seguinte nota na tarde desta segunda: "Internado desde 13 de março, no Rio de Janeiro, com quadro de COVID-19, Paulo Gustavo permanece no Serviço de Terapia Intensiva e nas últimas 24 horas surgiram complicações graves.
Depois de alguma melhora, Paulo Gustavo subitamente piorou no dia de ontem.
A equipe médica emitiu, hoje, novo boletim:
'Ontem à tarde, após redução dos sedativos e do bloqueador neuromuscular, o paciente acordou e interagiu bem com a equipe profissional e com o seu marido.
À noite, subitamente, houve piora acentuada do nível de consciência e dos sinais vitais, quando novos exames demonstraram ter havido embolia gasosa disseminada, incluindo o sistema nervoso central, em decorrência de uma fístula bronquíolo-venosa.
Infelizmente, a situação clínica atual é instável e de extrema gravidade'.
A família do ator continua agradecendo todo o carinho e pedindo orações para uma recuperação de Paulo Gustavo, assim como das demais pessoas acometidas por essa doença terrível."
Entenda a piora do estado de saúde do ator Paulo Gustavo e os tratamentos feitos até agora na luta contra a Covid

O último boletim médico sobre o estado de saúde de Paulo Gustavo, publicado nesta segunda-feira (3), informa que o ator teve uma piora nas últimas 24 horas, em decorrência de uma fístula bronquíolo-venosa, permitindo a passagem de bolhas de ar para a corrente sanguínea, causando uma embolia, incluindo o sistema nervoso central. Segundo a equipe do hospital onde o ator está internado desde o dia 13 de março, a "a situação clínica atual é instável e de extrema gravidade".
A fístula bronquíolo-venosa é um rompimento do tecido do pulmão que permite a passagem de bolhas de ar para a corrente sanguínea, ocasionando quadro de embolia pela obstrução da passagem do sangue no interior de artérias e veias. O procedimento indicado para este tipo de emergência seria uma intervenção cirúrgica, que seria de alto risco no quadro apresentado por Paulo Gustavo, submetido a uma terapia por ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea) desde o dia 25 de março.
— Nos casos de Covid-19, é muito comum se falar da tromboembolia, mas a formação de coágulos também pode ter origem gasosa. É uma complicação mais rara, as fístulas pulmonares são mais comuns em casos de enfermidades mais longas. Mas o quadro dele, com o uso de ECMO e acometido por pneumonia bacteriana, pode favorecer o enfraquecimento do tecido, infelizmente — observa Gilmar Alves Zonzin, ex-presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio.

No boletim médico mais recente, a equipe informa que o ator e comediante "acordou e interagiu bem com a equipe profissional e com o seu marido" mas que à noite "houve piora acentuada do nível de consciência e dos sinais vitais, quando novos exames demonstraram ter havido embolia gasosa disseminada, incluindo o sistema nervoso central, em decorrência de uma fístula bronquíolo-venosa." O texto coclui alertando que "a situação clínica atual é instável e de extrema gravidade"
O que é a embolia gasosa
A embolia gasosa, que ocasionou o estado de saúde do ator, ocorre quando bolhas de ar entram no sistema circulatório, impedindo o fluxo de sangue para algumas partes do corpo.Com a obstrução da passagem do sangue, os tecidos do corpo deixam de receber oxigênio e acabam morrendo.
— No caso das bolhas formadas pelo rompimento do pulmão, o coração pode bombeá-las pela (artéria) aorta, e elas se espalharem para outras partes do corpo, o que aumenta a gravidade do quadro — acrescenta Zonzin.
Leia o boletim médico completo
"Internado desde 13 de março, no Rio de Janeiro, com quadro de COVID-19, Paulo Gustavo permanece no Serviço de Terapia Intensiva e nas últimas 24 horas surgiram complicações graves.
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Depois de alguma melhora, Paulo Gustavo subitamente piorou no dia de ontem.
A equipe médica emitiu, hoje, novo boletim:
'Ontem à tarde, após redução dos sedativos e do bloqueador neuromuscular, o paciente acordou e interagiu bem com a equipe profissional e com o seu marido.
À noite, subitamente, houve piora acentuada do nível de consciência e dos sinais vitais, quando novos exames demonstraram ter havido embolia gasosa disseminada, incluindo o sistema nervoso central, em decorrência de uma fístula bronquíolo-venosa.
Infelizmente, a situação clínica atual é instável e de extrema gravidade'.
A família do ator continua agradecendo todo o carinho e pedindo orações para uma recuperação de Paulo Gustavo, assim como das demais pessoas acometidas por essa doença terrível."
Entenda os tratamentos
Entenda como foi a jornada de Paulo Gustavo até aqui.
Internação
A hospitalização de Paulo Gustavo foi divulgada por sua assessoria de imprensa no dia 15 de março e pegou os fãs de surpresa. Dois dias antes, ele compartilhou uma mensagem de feliz aniversário para o marido nas redes sociais, sem mencionar qualquer problema de saúde. Seguindo orientação médica, ele procurou assistência para acompanhar a evolução de seu quadro clínico. Na ocasião, não foram divulgados mais detalhes sobre o estado do ator. Nas redes sociais, seu marido, Thales Bretas, afirmou que o ator melhorava a cada dia e agradeceu a artistas e fãs pelas mensagens de carinho.
Sinais de melhora
Quatro dias após ser intubado, no dia 25 de março, seu marido novamente se pronunciou sobre o estado de Paulo Gustavo, afirmando que o ator havia apresentado uma melhora. Na publicação, Thales conta que Paulo Gustavo estava respondendo bem ao respirador mecânico, e que a melhora era lenta, mas progressiva.
Em um boletim médico divulgado em 1 de abril, a equipe afirmou que Paulo Gustavo seguia "tendo evolução favorável no tratamento contra o coronavírus". Ainda de acordo com o boletim, o artista havia apresentado melhora evidente nas 48 horas anteriores, e a família agradeceu as mensagens de apoio:
''Nas últimas 48 horas, o paciente apresentou sinais mais evidentes de recuperação da função pulmonar, corroborados por uma tomografia computadorizada realizada hoje. A cada dia temos mais certeza da sua plena recuperação, cuja data ainda não é previsível".
Agravamento do quadro
Apenas um dia após a nota divulgada sobre uma melhora no estado de saúde do comediante, Thales Bretas anunciou que Paulo apresentou um agravamento do estado de saúde, foi submetido a uma terapia por ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea). De acordo com o boletim médico divulgado pela assessoria do ator, de 42 anos, ele ''chegou a apresentar sinais de melhora, mas devido ao agravamento do quadro clínico, teve que passar por reajustes terapêuticos". Em entrevista ao EXTRA, o médico intensivista Victor Cravo explicou o que é esse tratamento:
— O ECMO é uma terapia feita através de uma máquina, que substitui a função de troca de oxigênio que o pulmão faz. Com isso, você consegue descansar o pulmão até ele poder ser exigido novamente e conseguir fazer essa troca. O paciente tem um sangue passando por uma máquina, que tem uma membrana, e essa membrana oferta o oxigênio e leva o gás carbônico, exatamente o que o pulmão faria — explica Cravo.

No mesmo dia, o pai de Paulo Gustavo, Júlio Marcos, quebrou o silêncio falou sobre o estado de saúde do filho.
''Nesse momento em que todo o planeta está tão triste, precisamos alavancar e elevar nossa fé! Nosso amigo Paulo Gustavo, está enfrentando uma árdua e dolorosa luta! Por isso, nesse domingo de Páscoa, abençoado, vamos unir nossa fé, com muita força e energia, às 18 horas, um horário muito forte num dia muito especial! Cada um com sua fé, religião, crença, mas principalmente muita energia! '', escreveu Júlio no Instagram.
Já no dia 3 de abril, Thales Bretas postou uma foto 'idoso' com Paulo Gustavo, indicando que acreditava que os dois ainda irão envelhecer juntos.
"Eu falei que vamos ficar velhinhos juntos!!!", afirmou ele na postagem, feita na noite de sábado, dia 3. "E assim que vamos comemorar nossas bodas de ouro! Tenho certeza!!! Essa fase vai passar!!! E nós vamos ter mais essa história de superação pra contar, juntos! Só nos fortalece", disse Thales, que também fez um apelo aos fãs e pediu para que não acreditassem em fake news sobre uma suposta morte do marido.
Pleuroscopia e doação de sangue
No dia 3 de abril, Paulo Gustavo passou por uma pleuroscopia, procedimento que serve para a equipe médica ter uma melhor compreensão da situação dos pulmões do paciente. Nela, foi identificada uma fístula bronco-pleural, que impedia a adequada ventilação mecânica, tendo sido imediatamente corrigida.
Fístulas broncopleurais representam uma comunicação anormal entre os brônquios e a pleura, membrana que reveste os pulmões, o que ocasiona uma passagem de ar incorreta no organismo.
Em linguagem resumida, quando há a detecção de uma fístula bronco-pleural significa que foi identificado, no paciente, um vazamento de ar dos brônquios para a pleura, local no corpo onde não deve haver ar.

Nos dias 4 e 9 de abril, ele foi submetido à toracoscopia, procedimento para correção dos problemas apresentados. Neste intervalo de tempo, Paulo Gustavo precisou realizar transfusões de sangue e seu marido pediu aos fãs e amigos que ajudassem a abastecer os bancos de sangue com doações em nome do ator. Diversos famosos aderiram à campanha, como as atrizes Claudia Raia e Monique Alfradique.
Estado crítico
No domingo, dia 11, o boletim médico divulgado pela assessoria do ator apontou que o seu quadro havia piorado, indicando complicações pulmonares e hemorrágicas. Por meio das redes sociais, Thales Bretas afirmou que o caso de Paulo era muito difícil, mas que acredita na melhora do marido.
"O quadro clínico do meu amor está difícil, mas para ele nada é impossível, e nem pra Ele, nosso Deus, e essa dupla poderosa vai trazer ele de volta pra casa".
Diante da situação grave do ator, artistas e fãs se uniram em uma corrente de oração por sua melhora. Tatá Werneck postou uma foto com o humorista, pedindo por sua recuperação:
"Hoje é dia de Vitória! Hoje é dia de cura! Para o Paulo Gustavo. Para todos que precisam. Senhor, meu amor pelo senhor é tremendo! É inabalável! Paulo com os filhos no colo, em sua casa, com sua mãe, sua irmã, seu marido, sua amiga fiel e todos nós vibrando sua vitória e seu milagre! Esse é meu final de copa do mundo! Está chegando esse dia", compartilhou a atriz.
Além dela, outros artistas como Marcos Veras, Ingrid Guimarães, Maria Flor, Leandro Hassum e Débora Nascimento se manifestaram na postagem em prol da superação do ator.
Hemorragia controlada
Na quinta-feira, dia 15, a assessoria do ator divulgou novo boletim que informa sobre uma "normalização da coagulação" com o tratamento instituído, "sem sinais de hemorragias", após uma série de intervenções realizadas nos dias anteriores.
"Finalmente conseguimos sanar as fístulas bronco-pleurais identificadas. Nas últimas 48 horas também observamos a normalização da coagulação com o tratamento instituído e não mais detectamos sinais de hemorragias. A situação clínica do paciente, embora ainda crítica, traz à equipe profissional mais confiança em sua recuperação", diz o texto, assinado pelo corpo médico que vem cuidando de Paulo Gustavo.
Sinais de melhora
As vitórias alcançadas resultaram em uma melhora geral no quadro do ator. Segundo o boletim médico então divulgado pela assessoria do artista, os problemas mais urgentes do estado de saúde do ator foram contornados.
A diretora Susana Garcia, amiga de Paulo Gustavo, fez uma visita ao ator e contou que ele "mexeu duas vezes e tentou abrir a boca".
''Após várias intervenções como broncoscopias e alguns procedimentos cirúrgicos, os problemas mais urgentes foram contornados'', afirma o texto da nota.
Pneumonia bacteriana
O dermatologista Thales Bretas, marido de Paulo Gustavo, publicou uma mensagem positiva após um novo boletim médico com o estado de saúde do humorista ser divulgado. A equipe que trata o humorista disse que ele segue em estado grave e que vinha tratando uma nova pneumonia bacteriana. No post, o médico dizia estar muito ansioso, mas medicado para aguentar esperar o dia de levar o companheiro para casa.
"Estamos de braços dados, juntos nessa caminhada em direção à luz! O caminho tortuoso não vai importar quando estivermos vivendo novas alegrias e agradecendo a vitória! Estou muito ansioso, mas já medicado pra aguentar esperar o que precisar pra te carregar comigo pra casa! Que saudade da sua presença tão forte e alegre! Tenho muita fé que voce vai melhorar logo, e eu vou estar firme te esperando! Te amo!", declarou-se.
Internado desde 13 de março com um quadro de Covid-19, Paulo Gustavo trata uma pneumonia bacteriana. Apesar disso, o ator vinha apresentando melhora pulmonar, mas continuando em situação grave, usando ventilação mecânica e ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorpórea).
“Há cerca de sete dias não surgem complicações relevantes, fato que aumenta a esperança na recuperação do paciente. Entretanto, como em outros casos graves, ocorrem oscilações no estado geral”, dizia o boletim médico, que acrescenta: “Em alguns momentos, o paciente mostra sinais discretos de interação com o meio, apesar do uso de sedativos”.
Por que Josiane virou evangélica | Ruth de Aquino - O Globo
Por Ruth de Aquino

Por que tantos criminosos se tornam evangélicos na prisão? E não católicos, budistas, umbandistas, espíritas? Porque nenhuma igreja tem mais poder, influência e dinheiro do que a evangélica nas penitenciárias. Aos condenados por crimes hediondos, os pastores prometem a salvação em vida e não o paraíso após a morte. São mais persuasivos que os padres.
Agatha Moreira, na pele de Josiane ou ‘Jô’, a vilã implacável de ‘A dona do pedaço’, assassina confessa que não teve tempo de matar a mãe antes de ser presa, passou a andar com a Bíblia e a gritar Aleluia, se arrependeu de todos os crimes, virou uma cordeirinha, deixou crescer os cabelos como crente, passou a rir como uma iluminada e...conseguiu redução na pena máxima, de 30 anos de prisão. Logo logo, feliz com a própria redenção, vai respirar o ar puro das escolhidas de Cristo.
O autor Walcyr Carrasco não está apelando à audiência evangélica. Apenas constata a vida real. O poder dos pastores vem de fora para dentro. Vem do Congresso, vem dos juízes, do presidente e ministros. Na ausência do Estado, em comunidades carentes de saneamento, escolas, hospitais, dignidade, os evangélicos se apropriaram da fé dos humildes e atropelaram a Igreja Católica. Os pastores são mais profissionais e pragmáticos, algumas denominações nem exigem estudos de Teologia e têm quase sempre um discurso menos elitista do que o dos padres. O que não falta a Walcyr é inspiração em conversões de criminosos famosos pela premeditação e crueldade.
Suzane Von Richtofen, mandante do assassinato de pai e mãe, condenada a 39 anos, foi batizada pela Assembleia de Deus na prisão. Quando for libertada, bem antes de concluir a pena, ela se tornará pastora da Igreja Quadrangular. Na última “saidinha” no Dia das Mães, ela subiu ao púlpito de uma igreja e afirmou ter matado os pais porque foi “seduzida pelo diabo”. O mandante foi portanto o demônio e ela apenas uma vítima – embora psicólogos a considerem fria e manipuladora.
O goleiro Bruno, condenado por mandar matar a mãe de seu filho Bruninho com requintes de premeditação e crueldade, também virou evangélico, casou num culto ainda na prisão, já está de volta ao futebol e postou um vídeo em seu perfil ‘oficialbrunogoleiro’ no Instagram. Nele, um pastor grita, chora e ri: “Satanás vai dizer, você é um lixo, você não serve! O Espírito Santo vai te lembrar: você é escolhido!” A vítima, Eliza Samudio, coitada, não sabia que lidava com o demônio, pensava ser só o goleiro do Flamengo. O corpo dela ainda não apareceu.
Guilherme de Pádua, condenado pelo crime premeditado de Daniella Perez em 1992, com 18 punhaladas no pulmão, coração e pescoço, só ficou preso sete anos. Tornou-se obreiro da Igreja Batista da Lagoinha. Lançou um canal no YouTube em janeiro de 2019, explicando por que se tornou evangélico. “Não sou mais eu quem vivo, mas Cristo vive em mim. Tenho a mente de Cristo. Tenho o coração de Cristo”. Pádua lamentou a rejeição nas ruas: “Cheguei a levar cuspida na cara”. E disse que “sempre ora pela vida de Glória Perez”.
Anna Carolina Jatobá, condenada por jogar a enteada Isabella, de cinco anos, do sexto andar, também virou evangélica na prisão, passou a frequentar cultos e goza de regalias por isso. Detentos evangélicos levam uma vida melhor do que os outros. Os pastores oferecem aos “apenados” proteção e cuidados. Em troca de obediência. Algumas restrições são: bebidas e prática de homossexualidade.
Conversei com Jaqueline Vasconcellos, 37 anos, professora de teatro, arte e música que ensinou 10 anos em penitenciárias. Ela deixou de ser atriz para estudar Direito. Seu relato é impressionante. “A Igreja Evangélica tem, dentro das penitenciárias, espaços bonitos, arrumados e pintados. Os espaços católicos nos presídios parecem extensões das celas. A Igreja Evangélica investe ali. Tem material de música para os detentos, organiza atividades, corais. Em algumas prisões, há celas especiais para evangélicos. O poder deles sobre o comando interno é forte. Um detento parou de ir às minhas aulas de teatro porque, se ele faltasse ao culto, seria transferido para uma penitenciária que equivalia a uma sentença de morte”.
Há ameaças e privilégios, diz Jaqueline. “Um preso só conseguiu cigarros com os pastores depois de se converter. Antes, nem guimba. Os pastores fazem a ponte com a família. Passam recado, comida. Evangélicos são presos vip. Ganham água gelada, ventilador. Podem circular no presídio. O detento passa a crer, por fé ou oportunismo. O pastor promete que o receberá lá fora. E que ele será um herói, um sobrevivente, um escolhido”.
A religião entra onde o Estado não existe. Ela dá um sentido à vida dos despossuídos e abandonados. Os pastores só querem almas e dízimos em vida, não têm preconceito. Trabalham com traficantes e milicianos, fora e dentro. Quando entrevistei o Nem, na Rocinha, foi por intermédio de uma igreja evangélica. Gente humilde honesta e do bem enxerga os pastores como seus semelhantes. Assassinos, alcoólatras, viciados sabem que, como evangélicos, podem culpar Satanás e retomar a vida como novos homens, novas mulheres.
“Se eu fosse presa, claro que eu virava evangélica”, diz Jaqueline. Eu também. E deixaria o cabelo crescer igual à Jô.
Uma menina de 13 anos foi estuprada na Venezuela. Quem a ajudou está na cadeia, mas o abusador continua solto

MÉRIDA, Venezuela. De rabo de cavalo e camiseta vermelha, com as palavras "Glitter Girl" estampadas no peito, ela segurava a mão da mãe, falando baixinho, descrevendo como foi forçada a abandonar os estudos por causa da crise econômica da Venezuela e contando que foi estuprada pelo menos seis vezes por um vizinho da família que ameaçou machucar seus entes queridos se ela o denunciasse. Aos 13 anos, engravidou.
Com a mãe, procurou um médico, que lhe disse que a gravidez punha sua vida em risco; depois, falou com uma antiga professora, que lhe ofereceu pílulas para induzir o aborto.
Acontece que interromper a gravidez é ilegal em praticamente todas as circunstâncias na Venezuela. E agora a garota diz que decidiu se manifestar porque a professora, Vannesa Rosales, está na cadeia, onde pode ficar por mais de dez anos, por ajudá-la a cessar a gestação – enquanto o estuprador continua solto.
— Todo dia rezo a Deus para que ela seja solta, para que a justiça seja feita e ele seja pego — desabafou a garota para o "New York Times".
O caso, que ganhou destaque na imprensa nacional e na internacional, virou motivo de revolta para os defensores dos direitos da mulher, que apontam a situação como prova de que a crise econômica e humanitária que atinge o país acabou com as proteções para as jovens e meninas (o "The Times" não identifica a garota porque ela é menor de idade).

O declínio venezuelano, presidido por Nicolás Maduro e agravado pelas sanções norte-americanas, prejudicou escolas, encerrou programas comunitários, forçou milhões de pais a sair do país e esvaziou o sistema judiciário, deixando muita gente vulnerável a elementos violentos que se multiplicam em meio à impunidade.
Mas a brutalidade contra a garota e a prisão de Rosales também se tornaram a bandeira dos ativistas. Para eles, está mais do que na hora de a Venezuela discutir seriamente a legalização do aborto, questão, segundo eles, hoje mais importante do que nunca.
A crise dificultou o acesso aos métodos de controle de natalidade, acabou com as maternidades e gerou a fome generalizada, quase sempre prendendo as mulheres entre as funções do próprio corpo e as crueldades de um Estado em ruínas, que nega a milhões a possibilidade de controlar a própria vida.
Em janeiro, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, órgão controlado pelo presidente, surpreendeu muita gente ao dizer que pelo menos estava aberto a discutir a questão.
O Código Penal venezuelano, criado no início do século XIX, criminaliza o aborto em praticamente todos os casos, estipulando punições que vão de seis meses a dois anos para as grávidas e de um a quase três anos para os facilitadores.
— Uma exceção dá condições ao médico de interromper a gravidez "para salvar a vida" da gestante, mas, para obter essa permissão, a mulher ou menina precisa encontrar um profissional que faça o diagnóstico e esperar que o caso seja analisado pelo comitê de ética de um hospital. O processo é extremamente complicado, por isso são poucas as que se dispõem a enfrentá-lo — esclareceu o dr. Jairo Fuenmayor, presidente da Sociedade Venezuelana de Ginecologia.
A garota de 13 anos poderia até ter direito a um caso raro de aborto legal, mas o procedimento é tão pouco divulgado e há tão poucos médicos dispostos a fazê-lo que nem ela nem a mãe sabiam que poderiam requisitá-lo. Muitas mulheres, aliás, acham que só o simples fato de tocar no assunto pode colocá-las nas mãos da polícia.
Mérida é a cidade montanhosa e culturalmente conservadora onde a menina mora com a mãe e quase todos os sete irmãos. O pai morreu vítima de uma bala perdida, em 2016, segundo a viúva, e a família vive basicamente do dinheiro que a filha mais velha manda da vizinha Colômbia.
— Comemos muito pouco — admitiu a mulher.

A vida social da família se resume aos cultos da igreja que frequenta às quartas e aos sábados. A escola local fechou em 2019, mas Rosales, de 31 anos, que ali lecionava, continuou sendo um dos pilares da comunidade, fornecendo refeições, realizando workshops e oferecendo apoio moral para compensar os serviços públicos que aos poucos foram minguando.
Em outubro, a menina contou à mãe que tinha sido agredida sexualmente e que parara de menstruar. A mãe a levou a Rosales, também ativista pelos direitos da mulher, que tinha acesso ao misoprostol, remédio usado mundialmente e reconhecido legalmente em várias regiões como indutor do aborto.
— Não me arrependo do que fiz; qualquer outra no meu lugar teria feito o mesmo — disse a mulher cuja identidade o "Times" não vai revelar para proteger a de sua filha.
Rosales confirmou que conseguiu o medicamento e o entregou à garota, que interrompeu a gestação. Um dia depois, a mãe foi à delegacia para denunciar a violência sexual, mas a polícia começou a interrogá-la, descobriu o aborto e a forçou a entregar a professora.
— Antes da crise econômica, os promotores do país meio que seguiam uma regra informal, optando por não enquadrar a mulher que praticasse o aborto nem aqueles que a ajudassem, uma vez que tal atitude criminalizaria a vítima. Acontece que muitos desses juristas, e eu me incluo aí, fugiram do país por medo de perseguição política, e esse "acordo" acabou caindo por terra — explicou o ex-procurador Zair Mundaray.
Os representantes da polícia e da promotoria locais não responderam a nossos pedidos de esclarecimento. Rosales foi detida em outubro passado, dormindo no chão e dividindo a cela com mais 12 mulheres, incluindo a mãe da menina, que permaneceu ali três semanas.
A seguir, ela ficou sabendo por intermédio de seus advogados que não só estava sendo acusada de facilitar um aborto, mas de conspirar para a execução de um crime, o que a manteria encarcerada durante mais de dez anos. No mesmo mês, a namorada de Rosales, Irina Escobar, e um grupo de defensores se postaram diante do fórum onde a primeira audiência deveria ser realizada. O juiz tem poder para anular o caso ou liberar Rosales para aguardar o julgamento em liberdade.
Escobar sabia que às vezes as pessoas "desaparecem" durante meses ou anos no sistema judiciário do país, e temia pelo destino da companheira. Por isso, ficou zanzando na frente do prédio durante várias horas, até a advogada de Rosales, Venus Faddoul, sair de lá. "Não vai ter audiência hoje e vai levar várias semanas até um juiz assumir o caso", anunciou.
Escobar desabou, consumida pela revolta e pela ansiedade. Começou a tremer violentamente, sem conseguir respirar. "Somos impotentes", gritou.
Em janeiro, Faddoul, ao lado de outros ativistas, decidiu expor o caso ao público — e a história causou tamanha indignação nas redes sociais que o procurador-geral da Venezuela, Tarek Saab, teve de ir ao Twitter para esclarecer que emitira um mandado de prisão para o estuprador. Em seguida, as autoridades de Mérida libertaram Rosales, que aguardaria o julgamento em prisão domiciliar.
Um grupo de ativistas defensores dos direitos do aborto se reuniu em março com Rodríguez, o presidente da Assembleia Nacional, para propor mudanças no Código Penal, entre outras sugestões. A associação católica de bispos, que tem grande influência no país, reagiu com uma carta, implorando ao governo que mantenha a situação atual: "Poderosas organizações internacionais estão tentando legalizar o aborto apelando para falsos conceitos de modernidade, inventando 'novos direitos humanos' e justificando políticas que vão contra os desígnios de Deus."
Rosales permanece em uma situação indefinida: seis meses depois da prisão, ela ainda não tem data para a primeira audiência. O acusado continua solto.
— A questão do Estado venezuelano já não é nem mais de negligência, mas sim de atuar ativamente contra as mulheres — desabafou.
Fé, liberdade e medo: O que pensam os céticos das vacinas nas zonas rurais dos Estados Unidos

GREENEVILLE, Tennessee — "Então, você já tomou a vacina?"
A pergunta amigável a Betty Smith, a mulher do pastor, ficou no ar enquanto as quatro mulheres da igreja se sentavam para seu café de terça-feira.
A sra. Smith hesitou, sentindo-se julgada frente a companhias totalmente contrárias a máscaras e vacinas. Ela, que já foi vacinada, se atrapalhou e não respondeu. Relembrando depois o momento, suspirou:
— Estávamos lá para nos conhecer melhor, mas a primeira coisa na mesa foi a vacina de Covid-19.
O assunto deixa seu marido, o reverendo David Smith, ainda mais desconfortável.
— Honestamente, gostaria que as pessoas não perguntassem — disse ele, conversando após a oração da noite de quarta-feira na Igreja Batista de Tusculum. — Eu acho que não é da conta deles. E isso está apenas dividindo as pessoas.

Enquanto a bela primavera dos Montes Apalaches se desenrola no Nordeste do Tennessee, a vacina contra a Covid-19 está separando amigos, famílias, congregações e colegas.
— É uma bagunça— disse Meredith Shrader, uma médica assistente, que dirige um local de eventos com seu marido, outro pastor, e que observa que a escolha envolve muito mais do que cuidados médicos. — Quais vozes você escuta?
Comunidades como Greeneville e seus arredores — rurais, esmagadoramente republicanas, profundamente cristãs, 95% brancas — estão no radar do presidente Biden e das autoridades de saúde americanas, à medida que os esforços para vacinar a maior parte da população dos EUA entram em uma fase crítica.
Esses são os locais onde as pesquisas mostram que a resistência à vacina está mais arraigada. Embora as campanhas destinadas a convencer as comunidades urbanas negras e latinas a deixar de lado sua desconfiança em relação às vacinas tenham obtido conquistas notáveis, cidades como essas também terão que ser convencidas se o país quiser obter uma imunidade generalizada.
Mas uma semana aqui no condado de Greene revela uma hesitação mais matizada e em camadas do que as pesquisas sugerem. As pessoas dizem que a política não é o principal motivo de suas atitudes em relação à vacina. A razão mais comum para sua apreensão é o medo — de que a vacina foi desenvolvida às pressas, ou que os efeitos colaterais de longo prazo são desconhecidos. Suas decisões também se relacionam a visões sobre autonomia corporal, ciência e autoridade, além de uma visão regional romântica: os moradores não gostam de estranhos se metendo em seus negócios.
De acordo com estatísticas do departamento de saúde estadual, 31% da população elegível para a vacina contra a Covid-19 no condado de Greene recebeu pelo menos uma dose, índice abaixo do Tennessee em geral, que tem uma das taxas mais baixas do país, e muito abaixo do índice oficial dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, de 55% entre os elegíveis.
Embora muitos moradores mais velhos tenham sido vacinados, agora que a elegibilidade está aberta a todos os adultos, os locais de vacinação estão quase vazios.
'Nenhum benefício'
No círculo de Jim e Rita Fletcher, 11 pessoas morreram de Covid. Mas não, os Fletchers, greenevillianos de longa data, não tomarão a vacina.
— Eu simplesmente não vejo nenhum benefício — disse a sra. Fletcher, enquanto o casal esperava para ver seu médico de família.
Nem a ciência nem as estatísticas da nova vacina os intimidam. Agora aposentado e com 70 anos, o sr. Fletcher era engenheiro de telecomunicações; sua mulher foi secretária e escriturária de contabilidade.
Mas os Fletchers, batistas, temem que a vacina inclua partes de fetos abortados (não inclui). Eles não confiam no governo, convencidos de que há muito tempo ele manipula os números dos casos da Covid-19.
—Eu só acho que estão confusos — disse Fletcher.
Jeremy Faison, um antigo deputado estadual republicano que cresceu na região, concorda:
— Durante a pandemia, muitos de nós pensamos: "É uma situação séria, mas eu e minha família podemos cuidar de nós mesmos" — disse ele. — Fazemos objeções ao fato de o governo impor obrigações sobre nós, pressionando-nos a fazer algo.
Essa visão é sustentada por um fatalismo religioso, quase alegre. As pessoas dizem que, se não pegaram a Covid depois de um ano depois de pandemia, continuarão a correr o risco. É verdade que eles podem pegar Covid e morrer. Mas, de qualquer forma, não se sairão mal: ou terão uma vida mais longa na Terra ou uma vida eterna no céu.
— Há uma hora marcada para cada pessoa morrer — disse Reuben Smucker, um pastor em Greeneville que trabalha como instalador de portas de garagem. — Devemos cuidar de nossos corpos física, emocional e espiritualmente. Mas, se for minha hora de ir e por Covid, então assim será.
O silêncio dos inocentes
Outro fator é poderoso: muitas pessoas que foram vacinadas continuam caladas.
As vacinas contra a Covid-19 ficaram tão estigmatizadas que muitas pessoas adotaram um silêncio resignado. Uma barista vacinada de 20 e poucos anos desistiu de tentar persuadir seu pai.
Mary Hayes, que dirigiu até Greeneville para um almoço de reencontro com um grande grupo de amigos vacinados, está acostumada a falar o que pensa. Mas ela tem um dilema moral: ela deveria defender a vacina ou ficar quieta? Ela tomou a vacina cedo, porque muitas doses sobraram. Em seu canto remoto do condado, as pessoas já olham para ela com cautela.
— Muitas vezes tenho que moderar minhas opiniões para me encaixar — disse Hayes, com lágrimas nos olhos. — Estou dividida entre as pessoas que se recusam a se socializar comigo ou não.
O tópico da vacina silenciou até mesmo os líderes mais influentes no condado de Greene: pastores evangélicos. Muitos foram vacinados, como o reverendo Smith da Tusculum Baptist, mas não vão usar o púlpito para apoiá-la. Ele não quer correr o risco de afastar ninguém, explicou, no momento em que espera que as pessoas voltem à própria igreja para as suas preces, depois de um ano de cultos por Zoom.
Ainda assim, as conversas aqui mostram que, para muitas pessoas, a resistência não é tão forte assim. Atormentados por falácias da Internet, muitos anseiam por informações diretas de pessoas em quem confiem. Outros têm necessidades práticas, como obter licença remunerada para se recuperar de efeitos colaterais, que o governo Biden instou os empregadores a oferecerem, ou então querem tomar a injeção com seu próprio médico.
Uma árdua negociação
O dia em que os Fletcher, o casal de aposentados, falaram sobre a vacina com seu médico de família, Daniel Lewis, era o aniversário de um ano do dia em que ele fora colocado em um respirador com um caso grave de Covid-19. O médico de 43 anos permaneceu hospitalizado por mais de um mês. Ele estava tão gravemente doente que gravou mensagens de despedida para seus cinco filhos.
Ao longo de seus 13 anos em Greeneville, Lewis, um médico voluntário para equipes esportivas de escolas e diretor de quatro hospitais regionais, acumulou uma ampla comunidade de apoio. Durante sua doença, as pessoas deixavam refeições e cartões-presente de restaurantes em sua varanda, e mantinham uma corrente crescente de orações. Eles cortaram sua grama, cobriram seus canteiros de flores e consertaram sua caminhonete.
Quando ele saiu do hospital, 34 quilos mais magro, fraco e vacilante, ele e sua esposa, batistas devotos, lutaram para descobrir o propósito de Deus por trás daquela provação.
Os pacientes ficavam dizendo a ele: “Não levei Covid-19 a sério até você ficar doente”.
Lewis, então, começou a usar essa credibilidade arduamente conquistada para falar sobre a vacina, visitando lares de idosos, dirigindo-se a igrejas, fazendo vídeos. Ele afinou seu tom para enfrentar cada resistência, das mentiras científicas às teorias da conspiração às alegações espirituais.
Embora muitos moderadores dos Apalaches resistissem a ir ao médico, os médicos de família, como Lewis, estão se tornando figuras confiáveis. Ele vende a vacina sutilmente, de um modo que às vezes funciona.
Lewis poderia persuadir os Fletcher a tomarem a vacina?
O sr. Fletcher não se preocupa com os efeitos colaterais de longo prazo. Seu câncer de próstata voltou, mais um golpe em um ano semelhante ao de Jó, em que viu a morte inesperada de seu filho mais novo, um paraplégico, e a morte de um sobrinho, médico de um pronto-socorro. Um ano em que amigos queridos cortaram seu relacionamento com os Fletcher por causa do ceticismo do casal com a Covid.
Lewis respondeu pacientemente às perguntas dos Fletcher, esclarecendo calmamente o que os pesquisadores fazem e o que ainda não sabem.
— Como podemos ter certeza de que não há chips na vacina, como as coisas que você coloca no seu cachorro? — o sr. Fletcher perguntou.
— Não podemos fazer microchips tão pequenos — rebateu Lewis.
— Bem, é como um grão de arroz — disse o sr. Fletcher.
— Eu não poderia injetar um grão de arroz com uma agulha — disse Lewis.
Lewis ergueu seu smartphone. Se você está preocupado em ser rastreado, disse ele, toda a tecnologia está bem aqui, exatamente no que você pega todos os dias. Toda hora.
Os Fletcher pareceram envergonhados.
— A decisão é sua — disse Lewis gentilmente. — Eu só quero que você seja capaz de tomar uma decisão informada e quero fazer o melhor que posso para ajudá-lo.
O sr. Fletcher respondeu:
— Bem, temos que passar algum tempo discutindo.
Mais tarde, Lewis estava otimista, achando que "eventualmente ia persuadi-los".
Até o momento, os Fletchers dizem que não vão tomar a vacina.
Ato em Goiás em apoio a Bolsonaro com pedido a Deus por perdão para torturadores gera revolta na web

RIO — Imagens de um ato realizado no município de Goiás no último sábado, dia 1º, têm provocado manifestações de revolta nas redes sociais. Fotos mostram duas pessoas com vestes semelhantes às usadas por adeptos do movimento supracista branco Ku Klux Klan, segurando uma faixa com a frase em destaque "Deus, perdoe os torturadores", e um cartaz menor abaixo dizendo "Nosso Brasil pertence ao senhor Jesus" e ainda "Direita com Bolsonaro".
Por meio de nota divulgada em rede social, a Associação Cultural Pilão de Prata da cidade de Goiás repudiou o ato, ressaltando que ele "agiu violentamente de forma racista e criminosa criando aspectos de violência simbólica latente inspirados na seita Ku Klux Klan, assassina de povo negro".
A organização explicou que a escolha do local para realizar a manifestação também foi ofensiva.
"Justo em solo sagrado e patrimonial da cultura afro-brasileira da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos erguida às custas do flagelo do povo negro e de seus remanescentes", afirmou, acrescentando que o "símbolo religioso da cidade de Goiás" foi manchado e que o episódio seria "digno de medidas jurídicas de responsabilização pelos diversos crimes cometidos", como apologia à tortura e racismo.
"Inescrupulosos caminharam pelo território quilombola em afronta à vida destes que carregam consigo o legado de seus antepassados", criticou. "Em um momento tão crítico com mais de 400.000 (quatrocentos mil) mortos numa pandemia descontrolada profanaram o chão de Oxum, da Rainha Zinga, dos Bantus, das nossas crianças e dos nossos velhos".

Segundo a associação afro-brasileira, as vestes fazem referência à tradicional Procissão do Fogaréu, realizada naquele município na Semana Santa, mas com o uso de roupas coloridas.
Inclusive, a própria entidade que organiza o evento anual religioso, Organização Vilaboense de Artes e Tradições (Ovat), esclareceu que não teve participação no ato e tampouco está ciente sobre os responsáveis por ele.
"Em detrimento da repercussão negativa que isso ensejou, tomaremos todas as medidas cabíveis junto as autoridades competentes: MP, Polícia Civil, MPF, Polícia Federal e OAB, e a estas nos colocamos à disposição naquilo que for necessário para averiguar a autoria deste fato", acrescentou, frisando que suas atividades prezam pela "harmonia com as demais religiões, o respeito entre elas e a ampla defesa aos direitos humanos".
A organização se posicionou como contrária a "incitação à ditadura, intolerância religiosa e étnica, preconceitos, silenciamentos, tortura, violência e quaisquer que sejam os atos que estimulem a violação dos direitos difusos e sociais".
Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás, a professora Natália Pessoni contextualizou a situação em uma série de postagens no Twitter feitas neste domingo, dia 2.
"Como professora de História não dá pra ficar calada. Preciso gritar! Mesmo que seja só pra esclarecer quem não viu nada demais nisso aí...", afirmou. "Como sabemos existem vestes de várias cores, então a escolha das vestes brancas não foi aleatória, visto que elas são idênticas às históricas vestes da Ku Klux Klan".
Bolsonaro, um grande exemplo | Lauro Jardim - O Globo

Faz um mês hoje que Jair Bolsonaro completou 66 anos. Ainda não se vacinou, embora pudesse por ter completado essa idade.
Pelo que disse, não o fez nem escondido. E, conforme afirmou na semana passada com orgulho, será o último brasileiro a fazê-lo:
— Eu sou chefe de Estado e tenho que dar exemplo. O meu exemplo é esse.
É um exemplo vivo e ambulante do negacionismo.
'Milton Ribeiro está acabando com o Inep', diz primeiro presidente do instituto na gestão Bolsonaro

BRASÍLIA — Primeiro presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nomeado pelo governo Bolsonaro, Marcus Vinicius Rodrigues afirmou em entrevista ao GLOBO que a chegada do atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, "é uma tragédia" para a instituição. Segundo ele, o pastor e professor que assumiu o Ministério da Educação (MEC) há quase dez meses não consegue "ter uma conversa de cinco minutos sobre políticas públicas educacionais" e "está acabando com o Inep".
Ligado ao MEC, o Inep, que está com o quarto presidente em pouco mais de dois anos de governo, é responsável por avaliações de larga escala no país, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), cujos resultados subsidiam o cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). As declarações de Marcus Vinicius Rodrigues ocorrem no mesmo dia que outro ex-presidente do Inep criticou Milton Ribeiro, conforme mostrou o GLOBO.

Procurado sobre as declarações de Alexandre Lopes, o ministro Milton Ribeiro não se manifestou e sua assessoria disse que os questionamentos deveriam ser encaminhados ao Inep, que também não respondeu ainda.
Para Rodrigues, que foi dirigente do Inep no início do governo Bolsonaro, até ser demitido, em março de 2019, pelo então ministro Ricardo Vélez, a gestão já passava por alguma turbulência, ainda na época do antecessor de Milton Ribeiro, o ex-ministro Abraham Weintraub. Mas agora, na visão dele, o cenário é outro, com transferência indevida de funções do Inep para o MEC e substituição de servidores capacitados por "pessoas que não sabem nem falar":
— Quando entrou o Milton (Ribeiro), foi uma tragédia. Porque o Milton não é uma pessoa do mal, é um pastor. Só que ele não entende nada. Ele está acabando com o Inep (...) É muito grave. O Milton não teria possibilidade de ter uma conversa de cinco minutos sobre políticas públicas educacionais. Não é por mal. Mas não é a área dele.
Para Rodrigues, o atual ministro da Educação não demonstrou competência nem para colocar pessoas de nível técnico elevado, como os servidores de carreira do Inep, nos cargos-chave da instituição.
— As coisas que estão sendo feitas no Inep é para acabar com o Inep. O instituto tem um quadro muito preparado. E trabalhar com esse pessoal estudioso, se não estiver à altura (deles), não dá certo. E o Milton está colocando para trabalhar com esse pessoal um bando de pessoas que não sabem nem falar — criticou Rodrigues, acrescentando:
— Você não imagina o que é botar uma pessoa para conversar com um doutor do Inep. Eu conversava, era difícil. São pessoas que viveram para isso (estudo). O Milton, não.
Na opinião de Rodrigues, que tem doutorado em engenharia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi professor de cursos de pós-graduação, além de ser consultor organizacional, Milton Ribeiro tem "medo do conhecimento das pessoas do Inep" e, em vez de "se aliar a essas pessoas e tentar cooptar esse conhecimento", preferiu "bater de frente".
Retrocesso de '30 anos'
Milton Ribeiro vem sendo criticado por nomear pessoas sem experiência em áreas importantes, como o coronel da Aeronáutica Alexandre Gomes da Silva, cujo currículo destaca atuação em investigação de acidentes aéreos e relações institucionais, para a diretoria que cuida do Enem. Ele foi alçado ao posto em março passado.
Outra mudança que repercutiu mal ocorreu na semana passada, com a exoneração da coordenadora-geral de Avaliação dos Cursos de Graduação e Instituições de Ensino Superior, Sueli Silveira, respeitada no meio acadêmico com anos de conhecimento no setor. A demissão levou quatro servidores a colocarem seus cargos comissionados à disposição, conforme mostrou o GLOBO.
Outras ações que receberam críticas dizem respeito a manobras para retirar funções do Inep e centralizá-las no MEC. Uma delas seria a reformatação do exame de alfabetização. Para Marcus Vinicius Rodrigues, as consequências dessas medidas será um retrocesso de 30 anos na educação:
— Abalar o Inep significa comprometer a medição necessária para monitorar as políticas públicas para a educação. Só se pode administrar medindo, só se pode melhorar medindo. O que estamos acabando é com a medição. (Eventuais problemas com) o Enem deste ano é uma consequência, mas não é a principal.
Rodrigues, que é apoiador do presidente Jair Bolsonaro, considera que a carta escrita na semana passada por ex-ministros da Educação, incluindo os das gestões petistas e do governo Temer, é "muito sensata". Ele fazem, no documento, duras críticas a um enfraquecimento atual do Inep.
— Aquela carta é muito sensata: nós estamos acabando com o Inep. E acabar com o Inep significa voltar, por incrível que pareça, 30 anos na educação brasileira — afirmou Rodrigues.
O ex-presidente faz questão de dizer que o Inep tem problemas e que sua gestão listou pontos a serem melhorados a partir de 33 projetos. Mas afirma que as ações tomadas por Milton Ribeiro só deterioram o instituto e sua capacidade técnica, sem resolver as falhas organizacionais. Em tom de brincadeira, comenta sobre o ministro que também é pastor de uma igreja evangélica:
— Ele (Milton Ribeiro) deve todo dia rezar muito pelo 'mal' que ele está fazendo.
Lopes chama Ribeiro de omisso
Rodrigues não é o primeiro ex-presidente do Inep da gestão Bolsonaro a criticar o atual ministro da Educação. Nesta segunda-feira, o GLOBO trouxe à tona acusações do último dirigente, Alexandre Lopes, exonerado por Milton Ribeiro em fevereiro passado.
Lopes disse que o ministro foi "omisso" e agiu com "covardia" ao se esquivar de responsabilidades durante a realização da última edição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), aplicado em meio à pandemia. Ele também ressaltou que não há verba para o exame deste ano e que o planejamento da prova está atrasado.
Reação enérgica dos EUA a manobra política em El Salvador confirma que América Central é prioridade de Biden

Se existia alguma dúvida sobre a prioridade dada aos países da América Central pelo governo de Joe Biden, a crise política do último fim de semana em El Salvador confirmou onde está colocado hoje o foco da Casa Branca na América Latina. A decisão da Assembleia Legislativa, de maioria governista, de destituir todos os juízes da Câmara Constitucional da Corte Suprema de Justiça e o procurador-geral, críticos do presidente Nayib Bukele, provocou a imediata e enérgica reação de altas autoridades do governo americano. Entre elas, está a vice-presidente, Kamala Harris, escolhida por Biden para chefiar as iniciativas do governo na América Central, como a articulação de um pacote de ajuda financeira de US$ 4 bilhões.
"Temos uma profunda preocupação com a democracia de El Salvador", escreveu Harris em sua conta no Twitter, mensagem compartilhada por Juan González, diretor sênior para o Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional, principal nome da Casa Branca quando o assunto é América Latina. O secretário de Estado, Antony Blinken, não só falou sobre o assunto publicamente, também no Twitter, como se comunicou pessoalmente com Bukele.
Paralelamente, temas que há não muito tempo ocupavam um lugar de destaque na agenda regional dos Estados Unidos passaram a um distante segundo plano. Na última semana de abril, o senador republicano Marco Rubio questionou a ausência de menções a países como Venezuela, Cuba e Nicarágua em recente discurso de Biden no Congresso. "O presidente Biden deixou claro que é indiferente a ameaças em nosso próprio continente", afirmou Rubio.
A expectativa de uma tentativa de aproximação entre o governo americano e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por parte de outros governos da região, entre eles o do argentino Alberto Fernández, parece, por enquanto, distante. Em Caracas, o governo chavista teve alguns gestos amigáveis, entre eles a concessão de prisão domiciliar a seis executivos americanos da companhia petroleira Citgo e a autorização para que atue no país o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas. Uma flexibilização ainda limitada, pela qual Maduro espera abrir espaço para um diálogo que possa, no futuro, incluir um alívio em termos de sanções. No caso de Cuba, as 240 sanções aplicadas peo governo Trump contra a ilha continuam vigentes.
— Hoje a América Central domina a agenda de Biden no continente. O assunto tira todo o tempo dos funcionários americanos, porque está relacionado a uma problemática absolutamente central, que é a imigração de cidadãos do chamado Triângulo Norte (El Salvador, Guatemala e Honduras) — explica Michael Shifter, diretor do Diálogo Interamericano, think tank com sede em Washington.
Para ele, "faltam clareza e estratégia para os demais países da América Latina".
— O drama centro-americano não será resolvido rápido, provavelmente vai exigir dedicação do governo Biden durante todo o mandato — amplia Shifter.
Em busca de equilíbrio
As caravanas de imigrantes centro-americanos em busca de uma vida melhor nos EUA foram uma constante nos últimos anos, e enfrentar esse drama é uma questão de política interna para Biden, afirma Ivan Briscoe, diretor para a América Latina e o Caribe do International Crisis Group. A pandemia aprofundou a crise econômica nos países do Triângulo Norte, com quedas do PIB de 9% na Guatemala, 7,9%, em El Salvador e 2%, na Guatemala, em 2020.
— Biden busca uma forma mais sensata e sensível de tratar o tema da imigração, a questão é que essa abordagem pretende acontecer num cenário complicado do ponto de vista econômico e político — diz Briscoe.
A crise em El Salvador, aponta o especialista, mostrou que o governo Biden terá de tentar um equilíbrio entre preservar o diálogo com governos que desafiam as regras democráticas, em nome de uma cooperação da qual não pode abrir mão por sua promessa de enfrentar a questão migratória, e o estabelecimento de limites que não podem ser ultrapassados.
— O dilema é observar o declive democrático e não romper. Sabemos que governos autoritários contribuem ao êxodo de imigrantes, mas os EUA precisam manter uma conexão com os presidentes da região — assegura o especialista.
Bukele é apenas um dos problemas de Biden. O presidente da Guatemala, Alejandro Giammattei, lembra Briscoe, esteve dez meses preso em 2010, por sua responsabilidade na morte de sete detentos, na chamada Operação Pavo Real, ordenada para sufocar uma rebelião em 2006, quando era diretor do Sistema Penitenciário. Já o presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, enfrenta acusações de narcotráfico em tribunais dos Estados Unidos. Seu irmão, Juan Antonio Hernández, foi sentenciado pela Justiça americana a prisão perpétua, em 2018, por ter sido considerado culpado de contrabandear 185 mil quilos de cocaína para o país, entre 2004 e 2016.
— Diante da crise em El Salvador, a reação da Casa Branca foi taxativa: ações antidemocráticas não terão o aval do governo Biden. Mas os países não podem ser abandonados à sua sorte, como fez Trump — frisa o diretor do Crisis Group para a região.
Nesta segunda, Bukele escreveu, em seu perfil no Twitter, que "o povo" não o colocou no poder "para negociar". E sugeriu que fará uma limpeza entre os opositores: "Vão embora. Todos", escreveu. O presidente salvadorenho ainda comparou a realidade em seu país com situações hipotéticas em países vizinhos. "Se a oposição vencesse na Nicarágua, eles destituiriam o Tribunal e a Procuradoria Sandinista. Se a oposição conseguir vencer em Honduras, eles destituirão o Tribunal e a Procuradoria de JOH (Juan Orlando Hernández). Se a oposição vencer na Venezuela, vão afastar o Tribunal de Justiça e a Procuradoria do Chavismo. Ou seja, trata-se de um equilíbrio de forças", disse.
Semana passada, a vice-presidente americana, que, em junho, tem viagem prevista à Guatemala e ao México, anunciou o envio de US$ 310 milhões em ajuda humanitária aos países centro-americanos. O pacote de US$ 4 bilhões ao longo dos quatro anos de mandato foi uma das promessas de campanha de Biden. As ações da Assembleia Legislativa de El Salvador jogaram luz sobre o tamanho do desafio que enfrenta a Casa Branca, decidida a trabalhar com governos pouco confiáveis e que durante a era Trump se acostumaram a ter carta branca em matéria de corrupção e respeito das regras democráticas.
O ex-presidente republicano concentrou todos os esforços em conter a imigração ilegal com políticas linha-dura, sem se preocupar pela realidade política, social e econômica que, entre outros motivos, expulsa anualmente milhares de centro-americanos de seus países.
'A globalização como imagino é um ideal a ser buscado': Uma entrevista com Milton Santos | Blog do Acervo - O Globo

Um dos maiores pensadores da geografia no mundo, Milton Santos defendia que esse campo de conhecimento deveria estudar o território juntamente com suas transformações sociais. Não há como pensar a geografia de um local sem refletir sobre como a vida se move naquele espaço. Autor de dezenas de livros e professor com passagem por centros acadêmicos de renome, o baiano, que estaria completando 95 anos nesta segunda-feira, foi o primeiro estudioso fora o universo anglo-saxão a receber o Prêmio Vautrin Lud, uma espécie de Nobel da geografia.
Milton Almeida dos Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina. Ele se formou em Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e trabalhou como jornalista no diário "A Tarde", mas sempre mantendo seu interesse pela geografia. Deu aulas na UFBA e foi presidente da Comissão de Planejamento Econômico na Bahia, mas foi preso em 1964, após o golpe militar. Na época, o acadêmico já defendia ideias progressistas consideradas subversivas pela ditadura. Ao sair da cadeia, após um início de AVC, ele decidiu se exilar na França.
Durante quase 13 anos fora do país, Santos lecionou em espaços como a Universidade de Paris-Sorbonee, Universidade de Toronto e a Universidade Columbia. Ao regressar para o Brasil, em 1977, ele foi professor da UFRJ e da USP, onde atuou até se aposentar. Ao longo de sua carreira, o geógrafo foi crítico da globalização "perversa" que só beneficiava os poderosos e dizia que as grandes transformações devem partir da base da sociedade. Por tudo isso, tornou-se um pilar teórico dos movimentos sociais de esquerda.
No dia de seu aniversário, o Blog do Acervo compartilha uma entrevista concedida pelo acadêmico ao GLOBO e publicada no dia 12 de setembro de 2000, menos de um ano antes de sua morte, aos 75 anos, ocorrida em São Paulo no dia 24 de junho de 2001, devido a complicações geradas por um câncer na próstata. Nesta entrevista, o geógrafo critica o ensino de faculdades brasileiras e discute a necessidade de uma outra globalização, centrada no ser humano, "e não no dinheiro".
Qual a sua avaliação do ensino universitário?
Existem faculdades produtoras e consumidoras. Nas primeiras, os alunos escrevem, renovam as idéias, lêem bons autores, aprendem. Nas outras, consomem e consomem mal, de forma insuficiente e indigesta. Não sei até que ponto o ensino é comandado por regras das faculdades de educação. Preocupam-se mais com as regras do que com o conteúdo. Isso é genuíno? Professores preocupados em seguir normas dos educacionistas?
E a educação no Brasil? Quais as conseqüências do abismo educacional que há entre as classes sociais?
Num país onde a educação tem níveis tão diferentes de qualidade e crianças não têm acesso à escola, você não vê o ministro (Paulo Renato de Souza) discutir o problema a fundo. Ele fala em números, em crescimento, esse tipo de coisa. Não é isso que queremos. Hoje a tendência é a sociedade donhecimento, onde o exercício eficaz da cida- dania depende da instrução or ientada.
O senhor escreveu mais de 40 livros. O mais recente discute a globalização e o seu título, "Por uma outra globalização", já revela o tom de crítica?
A globalização como está aí é um fenômeno perverso e tento mostrar que é possível fazer de outro modo. É perverso porque beneficia poucas pessoas e maltrata a maioria da Humanidade. Essa história de globalização, aldeia global, cidadão do mundo... é tudo vocabulário enganoso. Há confusão entre o uso atual das condições da globalização pelas empresas, pelos Estados, e as reais oportunidades que no futuro podem estar abertas para todos. Querem beneficiar algumas empresas e alguns Estados. A globalização como imagino é um ideal a ser buscado e que precisa ser alcançado para o bem da Humanidade.
Como o senhor imagina a globalização?
É uma forma de vida onde o homem volta a ser o centro da história e não o dinheiro. Para mim, a definição de globalização é um mundo para toda a Humanidade, onde as posses materiais não fossem tão instituídas, onde não houvesse nem fome, nem doença, nem injustiça. Onde a vida fosse bonita.
O senhor enxerga alguma transformação no Brasil neste fim de século?
O Brasil, que é um país desgraçadamente mais aberto à globalização perversa, mostra uma nova Humanidade se instalando apesar dos obstáculos. Está se criando um caminho onde os políticos e os homens de poder econômico serão obrigados a mudar. Nos projetos de melhoria das condições dos pobres, que são por enquanto hipócritas, daqui a pouco teremos uma impossibilidade de que permaneçam dessa forma estrutural que mantém as desigualdades e acelera a produção de pobreza no país.
E onde estão os indicadores disso?
Na História da Humanidade as grandes mudanças não aparecem com indicadores claros porque nosso pensamento tem dificuldade para acolher o novo. Isso leva algum tempo. Mas o Brasil está se transformando. Há uma precipitação de movimentos sociais, muitos sem forma, sem representatividade e sem acolhimento nos partidos, mas que estão aí, forçando formidáveis mudanças numa luta contra a pobreza e a indiferença dos que mandam.
Qual a opinião do senhor sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra?
O MST é acusado de estar fora do modelo porque pretende perpetuar o ativismo, atua de uma forma que não querem que atue. Aí você tem algumas manifestações violentas, que são resultado da própria degradação social, e você tem o MST apontado de uma forma negativa.
Os passos do MST são acompanhados de perto pelo Governo...
Mas é claro! Na verdade, há o medo de que a sociedade descubra outras formas de ações políticas. Se houver uma contaminação, o prolongamento do engodo vai se tornar mais difícil.
O senhor acredita que isso possa acontecer? Há consciência na população disso?
Estamos chegando cada vez mais perto disso. Mas as grandes mudanças devem ocorrer na base da sociedade. E tenho que dizer isso porque perco a cabeça quando penso que o Governo está tão preocupado em pagar suas dívidas e que, se pagar, não teremos mais escolas, mais hospitais. É uma questão de estabelecer prioridades.
Na era da Internet e da comunicação digital, estar ligado ao mundo virtual é como uma religião para a juventude. Isso é benéfico ou não?
A técnica é muito sedutora porque permite saber o que o mundo é, multiplicar o conhecimento, reduzir as distâncias, enfim, ampliar os horizontes. Isso em tese. Porque o uso social da técnica não pode ser um dado absoluto. A técnica é valorizada pelo conteúdo social. Por isso os Estados Unidos estão descobrindo um emburrecimento galopante da juventude que se deve aos computadores. Essa intoxicação técnica sem o sabor filosófico, a busca de uma mística, esse é o problema.
Os jovens que ingressam hoje na faculdade de geografia têm a visão exata do que é a área?
Há um fosso muito grande entre a geografia que se ensina no ginásio e no colégio e a da universidade. Mas esse choque é bom porque obriga à reflexão, ao esforço, à pesquisa. O que me preocupa é que o ensino fundamental tem dificuldade de absorver todos os progressos da geografia. É fácil entender a disciplina: temos de um lado o planeta e do outro a Humanidade. Os dois evoluem juntos e a geografia estuda essa relação. A geografia busca mostrar a história que se faz sobre o planeta, o país, a região, levando em conta o meio no qual vive o homem. Mas fazem a coisa tão simplória que se torna aborrecida.
O que está por trás dessa visão errada da geografia?
Acho que as editoras também são muito responsáveis por produzir textos vergonhosos. Elas expulsam dos livros o que parece complexo porque acham que os meninos são estúpidos para entender e oferecem uma simplificação. Eu não consigo acreditar nesse julgamento da inteligência humana. Não recomendam a leitura de grandes autores, não propõem problemas. Hoje encontro colegas que dizem que escrevo difícil e garotos que lêem meus textos têm dificuldade. A questão é como você orienta o seu esforço. Essa idéia de que os meninos não são capazes de discutir coisas complexas é oca, porque o mundo é complexo.
Publicado: 06/08/13 - 20h 06min
Atualizado: 27/04/21 - 17h 36min
Após caçada que durou uma década, Osama bin Laden é morto e jogado ao mar
Há dez anos, terrorista que comandou o ataque de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York, morria durante operação secreta dos EUA no Paquistão
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EM FOCO: BIN LADEN, A FACE DO TERRORISMO
- Em abril de 1995, terror interno abalou os Estados Unidos, deixando 168 mortos
- Guerra ao terror: atentado de 11 de Setembro motiva série de charges
- 11 de Setembro entra para a História
- Após caçada que durou uma década, Osama bin Laden é morto e jogado ao mar
- Uma década após o 11 de Setembro, EUA ainda cuidam de milhares de vítimas
- Terror em Londres: explosões em metrô e ônibus deixaram 56 mortos e 700 feridos
- Atentado em Boston choca o mundo
Na manhã de 11 de setembro de 2001, poucas pessoas, além de quem segue atentamente o noticiário internacional, tinham ouvido falar de Osama bin Laden, um obscuro terrorista saudita por trás de alguns atentados a alvos americanos. No fim daquele fatídico dia — quando os EUA sofreram o maior ataque em seu território desde o bombardeio japonês a Pearl Harbor, em 1941 — Bin Laden já tinha se tornado a própria encarnação do terror. E sido instantaneamente alçado à condição de inimigo número 1 da Humanidade.
Além de mais de 2.500 americanos, cerca de 380 pessoas de 60 nacionalidades perderam a vida nos ataques ao World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Washington. No mês seguinte, forças dos EUA, com amplo apoio da comunidade internacional, invadiram o Afeganistão à caça de Bin Laden, escondido sob proteção do movimento extremista islâmico Talibã.
Procurado nas cavernas da região montanhosa de Tora Bora, o líder terrorista escapou por pouco, dando início a uma das caçadas humanas mais prolongadas da História recente. Por dez anos, forças especiais americanas ficaram na pista do saudita, sem conseguir rastreá-lo. Enquanto isso, sua organização, a al-Qaeda, continuou a espalhar terror e morte pelo mundo, com ataques a alvos tão distantes como Bali, na Indonésia, e Madri, na Espanha. Escondido, Bin Laden de vez em quando aparecia em áudios ou vídeos com mensagens antiocidentais.
Até que, no fim da noite de 1º de maio de 2011, o presidente dos EUA, Barack Obama, deu ao mundo a inesperada notícia: Osama bin Laden, líder da rede terrorista al-Qaeda, fora morto numa operação secreta americana na cidade de Abbottabad, no Paquistão. O corpo, segundo Washington, foi jogado no mar para evitar que o local de seu enterro se transformasse num santuário.

Fim. Osama bin Laden foi morto por tropas de elite dos Estados Unidos em maio de 2011 Rahimullah Yousafzai / AP/Rahimullah Yousafzai/24-12-1998
Leia mais: https://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/apos-cacada-que-durou-uma-decada-osama-bin-laden-morto-jogado-ao-mar-9386424#ixzz6tq2Oy3FG
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De Watergate à pandemia, a cobertura jornalística em filmes e séries; veja lista

A tela em que estão inscritas estas palavras pode até ser frágil e virtual, mas insere, de maneira perene, fatos determinantes na História. Às vésperas do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, vale lembrar casos importantes trazidos à tona por jornalistas — de revelações do mundo político à investigação de crimes hediondos e bizarrices do comportamento humano. A seguir, confira uma lista de filmes, séries e documentários que têm as redações jornalísticas como pano de fundo, e que seguem disponíveis em plataformas de streaming.
‘Todos os homens do presidente’
Adaptação cinematográfica do livro homônimo de Bob Woodward e Carl Bernstein, o filme estrelado por Robert Redford e Dustin Hoffman reconstitui o escândalo de Watergate, revelado por uma das mais famosas investigações jornalísticas no mundo. Responsável pela renúncia do então presidente dos EUA Richard Nixon, o caso trouxe à tona uma complexa rede de espionagem e sabotagem dentro da Casa Branca contra políticos do Partido Democrata. O longa dirigido por Alan J. Pakula, que venceu quatro categorias no Oscar, entre elas a de Melhor Roteiro Adaptado, completa 45 anos com um clássico atual. YouTube, Looke, AppleTV e Google Play.
‘O voyeur’
O documentário inspirado no livro-reportagem homônimo de Gay Talese, ícone máximo do novo jornalismo americano, mostra a história de um homem que se tornou proprietário de um motel, nos EUA, para bisbilhotar a vida alheia, escrevendo relatórios minuciosos sobre o comportamento sexual dos hóspedes. A obra gerou polêmica à época do lançamento, e o próprio Talese admitiu determinados deslizes cometidos durante a investigação. Inegável, porém, dizer que o filme é uma pérola intrigante. Netflix.
‘Histórias de arcanjo’
O documentário dirigido por Guilherme Azevedo é um retrato afetivo sobre Tim Lopes, jornalista assassinado por um bando de traficantes em 2002, no Rio, quando fazia uma reportagem sobre abuso de menores e tráfico de drogas em um baile funk no bairro da Penha. A produção descortina causos pitorescos para recompor o perfil irreverente do repórter movido pela aventura, e que algumas vezes se disfarçou para dar prosseguimento a determinadas investigações. Globoplay.
‘The Post: a guerra secreta’
Em 1971, o governo americano fez o possível e o impossível para impedir a publicação de uma série de reportagens do “Washington Post” com documentos secretos sobre a Guerra do Vietnã. O caso é reconstituído num dos mais recentes filmes de Steven Spielberg, de 2018, e que tem os medalhões Tom Hanks e Meryl Streep no elenco. A atriz, aliás, foi indicada ao Oscar pelo papel — a produção também concorreu na categoria Melhor Filme. Now.
‘Cercados’
Produção recente, lançada no fim de 2020, o documentário dirigido por Caio Cavechini (de “Marielle: o documentário”) mostra a rotina de profissionais da imprensa na cobertura da pandemia de Covid-19. A narrativa escancara os bastidores do jornalismo brasileiro, como uma reunião de pauta do “Jornal Nacional”, e expõe os percalços de produtores e repórteres diante do negacionismo do governo Bolsonaro. Globoplay.
‘Spotlight: segredos revelados’
Vencedor do Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original em 2016, o longa de Tom McCarthy se baseia numa história real para mostrar como uma equipe de repórteres investigativos revelou uma série de crimes de abusos sexuais cometidos por padres nos EUA. Integram o elenco do thriller de ritmo firme, sem romantismo ou apelos emotivos, nomes como Mark Ruffalo, Rachel McAdams e Michael Keaton. Now.
‘The Newsroom’
A série de Aaron Sorkin (de “A rede social”) é definida pelo próprio como “uma declaração de amor ao jornalismo”. Em três temporadas, a elogiada produção encerrada em 2014 acompanha o dia a dia na redação de um telejornal, e tem Jeff Daniels como protagonista. HBO Go.
‘Resistir é preciso’
A série produzida pela TV Brasil em 2014, e narrada pelo ator Othon Bastos, conta a história da imprensa alternativa que lutou contra a ditadura militar no Brasil, como as publicações O PifPaf, O Pasquim e Opinião. Os dez episódios estão disponíveis gratuitamente no YouTube.
‘O jornal’
A produção de 1994, com Glenn Close, Michael Keaton e Robert Duvall no elenco, retrata o ambiente das redações com olhar bem-humorado, algo que resvala para a comédia, com um tom crítico em certos momentos. A história dirigida por Ron Howard mostra o editor de um pequeno jornal em Nova York dividido entre aceitar um novo emprego dos sonhos e ir atrás de uma história bombástica que pode lhe render fama na área. YouTube.
‘Conspiração e poder’
O filme estrelado por Cate Blanchett e Robert Redford, sob direção de James Vanderbilt, recompõe os bastidores de um dos maiores dramas do jornalismo americano na era Bush. O longa de 2016 reproduz, com realismo, uma investigação baseadas em denúncias contra o então presidente dos EUA, e que acabam sendo postas à prova. Looke.
Bill e Melinda Gates anunciam separação após 27 anos

Lucas Carvalho
De Tilt, em São Paulo
03/05/2021 17h48
Atualizada em 03/05/2021 18h05
Os bilionários filantropos Bill e Melinda Gates anunciaram hoje, em uma nota compartilhada ao mesmo tempo no perfil de cada um no Twitter, que decidiram se separar após 27 anos juntos.
"Após uma longa reflexão e muito trabalho no nosso relacionamento, tomamos a decisão de terminar nosso casamento", diz o ex-casal em nota. "Vamos continuar trabalhando juntos, mas não acreditamos mais que podemos crescer juntos como um casal nesta próxima etapa de nossas vidas."
Sem abrir mão de suas posições na Fundação Bill & Melinda Gates, onde atuam como presidentes do conselho de administração diretores da organização sem fins lucrativos criada por eles em 2000, eles pedem também, em nota, "espaço e privacidade para a nossa família enquanto começamos a navegar esta nova vida".
Bill Gates casou-se com Melinda French em 1994. Ele era presidente da Microsoft, gigante da tecnologia que ele fundou em 1975. Ela era gerente geral de produtos de informação na Microsoft, onde trabalhava desde 1987, começando como gerente de marketing. Eles têm três filhos juntos: Jennifer, Phoebe e Rory Gates.
Em 2019, em uma entrevista ao jornal britânico The Times para promover seu livro, "O momento de voar - Como o empoderamento feminino muda o mundo", ela revelou qual era o segredo para manter um casamento que, à época, acabava de completar 25 anos: paciência. "Ele [Bill] precisa de algum treinamento nisso, ele mesmo diria".
Paulo Gustavo acorda, mas apresenta piora súbita com embolia

Do UOL, em São Paulo
03/05/2021 17h03
Atualizada em 03/05/2021 17h12
O boletim médico divulgado hoje diz que Paulo Gustavo sofre "complicações graves" no quadro de covid-19.
Ontem, após a redução dos sedativos, o humorista chegou a acordar e interagiu com os médicos e o marido. No entanto, à noite ele apresentou uma piora súbita, com redução no nível de consciência.
'Suas músicas agora fazem muito mais sentido', diz Juliette para Fiuk
Os médicos identificaram uma embolia gasosa, que é o bloqueio de vasos sanguíneos por bolhas de ar. No caso de Paulo Gustavo, a embolia atingiu o sistema nervoso:
"À noite, subitamente, houve piora acentuada do nível de consciência e dos sinais vitais, quando novos exames demonstraram ter havido embolia gasosa disseminada, incluindo o sistema nervoso central, em decorrência de uma fístula bronquíolo-venosa."
O boletim conclui: "Infelizmente, a situação clínica atual é instável e de extrema gravidade".
Paulo Gustavo está internado no Rio de Janeiro desde o dia 13 de março. Hoje, Ingrid Guimarães mencionou no "Encontro com Fátima Bernardes" que o humorista estava "completamente paranoico" com as medidas de prevenção contra o coronavírus:
Paulo era um cara que estava completamente paranoico. Ele estava na sua casa [na região serrana do Rio] e se cuidava muito mesmo. Para você ver que é uma doença que te pega de surpresa. A gente nunca iria imaginar que um cara de 42 anos iria ficar grave como o Paulo ficou. Ingrid Guimarães
As lições da favela que reduziu mortes por covid em 90% enquanto Rio vivia tragédia - BBC News Brasil
- Nathalia Passarinho - @npassarinho
- Da BBC News Brasil em Londres

"Como eu vou me manter? Como vou me alimentar?" Essas eram as perguntas que martelavam na cabeça de David Nascimento, de 24 anos, quando começou a ter sintomas de covid-19, no início de janeiro. Morador da favela da Maré, no Rio de Janeiro, ele trabalhava numa pequena loja de conserto de celulares e precisava do dinheiro.
"Eu pensei: não tem como eu ficar duas semanas (de quarentena) em casa. Vou ter que sair", conta à BBC News Brasil. Foi então que a mãe de David pediu que ele fizesse o teste de covid por meio de um programa de combate ao coronavírus na favela da Maré criado, sem ajuda do governo, por moradores, pesquisadores da Fiocruz e ONGs.
"Ela já tinha ouvido falar no Conexão Saúde por vizinhos e a internet. E pediu para eu agendar o teste no aplicativo Dados do Bem, que é parte do projeto. Eu agendei, fiz o teste e, a partir daí, começaram a cuidar de mim", conta.
David recebeu um oxímetro e um kit com produtos de higiene, passou a ter acompanhamento médico por telefone, teve acesso a sessões online com uma psicóloga e, o mais importante: teve o que comer pelos 14 dias que passou isolado em casa.
"A comida chegava todo dia lá em casa, ao meio-dia. Uma quentinha enorme, que dava para quatro pessoas. E tinha sanduíche natural e outras coisas também. Ter o que comer me tranquilizou."
Crédito,
David Nascimento
David Nascimento recebeu 'quentinha', kit higiene e atendimento médico e psicológico por telefone enquanto ficou em isolamento com covid
Mas David morava com a mãe e um irmão, numa casa pequena na favela. A preocupação passou a ser o que fazer para não passar o vírus ao restante da família.
Para tentar evitar o contágio doméstico, assistentes sociais voluntários do Conexão Saúde fizeram uma avaliação das condições de moradia e criaram uma estratégia de isolamento para a família de David.
"Recomendaram que a minha mãe fosse para a casa da minha avó e meu irmão ficou na namorada. Eu passei a fazer o isolamento com um amigo que também testou positivo. Ele morava com outras pessoas e veio para a minha casa nesse período", conta David.
Como fazer isolamento na favela?
Exatamente para minimizar os riscos de contágio em casas apertadas, muitas vezes compartilhadas por várias pessoas, um dos braços do projeto é traçar planos sob medida para cada morador que testar positivo para covid. O projeto também inclui testagem em massa, atendimento médico por telefone, alimentação a quem precisa se isolar e muita comunicação para combater notícias falsas.
"Na ausência do Estado, quem está agindo são os pesquisadores, moradores, ONGs, a sociedade civil", disse à BBC News Brasil o infectologista Fernando Bozza, pesquisador da Fiocruz e um dos idealizadores do Conexão Saúde.
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Douglas Lopes
Pessoas no programa de isolamento recebem kit com produtos de limpeza, máscaras e álcool em gel
"A gente conseguiu que 96% das pessoas atendidas pelo programa ficassem em isolamento em casa por 14 dias, reduzindo a transmissão do coronavírus na comunidade", destaca.
Ou seja, o projeto demonstra que, com alimentação e suporte, é possível, sim, fazer isolamento numa favela. O resultado foi uma redução de quase 90% nas mortes por covid na Maré após 15 semanas de implementação do programa. E, atualmente, no auge da crise no Brasil, a mortalidade por covid na favela continua a ser muito menor que a média de mortes na cidade do Rio de Janeiro.
"As pessoas vivem em situações precárias de moradia, mas é possível gerar condições de conter a pandemia mesmo nessas localidades", diz Luna Arouca, coordenadora da Redes da Maré, uma das ONGs que integram o Conexão Saúde.
'Máscara dentro de casa e muito álcool em gel'
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Rachel de Lima
'Eu me senti muito acolhida', diz Rachel sobre atendimento médico por telefone e entrega de comida em casa
Rachel de Lima é um exemplo disso. Ela vive num "puxadinho" de um cômodo com o marido, no terreno da sogra, na favela da Maré. Em fevereiro deste ano, ela e a sogra testaram positivo para covid-19 e se viram diante do desafio de fazer o isolamento numa casa dividida com outras quatro pessoas da mesma família.
As duas passaram a receber alimentos e o kit higiene, como aconteceu com David, e os assistentes sociais do Conexão Saúde ajudaram a traçar um plano para reduzir os riscos de contágio dos outros parentes.
"Eu fiquei isolada no cômodo do meu puxadinho. Minha sogra ficava na sala e o marido e os dois filhos dormiam no único cômodo que tem na casa dela", conta.
"Ela ficou de máscara 24 horas por dia, usamos muito álcool em gel e separamos pratos e talheres. Ninguém mais se contaminou", comemora.
Mortes despencaram para muito abaixo da média do RJ
O Conexão Saúde começou a operar de maneira coordenada a partir de julho de 2020. Após 15 de semanas de funcionamento do projeto, ele conseguiu reduzir em 87,9% as mortes por covid na favela da Maré, uma das maiores do Rio de janeiro, com 140 mil moradores.
Isso foi feito com atendimento médico e psicológico por telefone, isolamento de infectados e testagem de mais de 10% da população, segundo dados da Fiocruz.
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Douglas Lopes
Mais de 10% da população da Maré foi testada para covid por meio do Conexão Saúde. Centro de testagem fica aberto para testes gratuitos aos moradores
Em julho de 2020, a mortalidade de infectados por covid na Maré era de mais de 19%, quase o dobro da média da cidade do Rio de Janeiro, de 11,9%. Em novembro, quase quatro meses após a implementação do programa na Maré, a mortalidade na favela havia caído para 2,3%, equivalente à média nacional.
Com o pico de descontrole da pandemia em todo o país neste ano, as mortes na favela voltaram a aumentar. Mas, ainda assim, estão bem abaixo da média da cidade do Rio de Janeiro, apesar de se tratar de uma das comunidades mais pobres do país.
A taxa de mortalidade no RJ é de 359 mortes por covid-19 a cada 100 mil habitantes. Na favela da Maré, são 188 óbitos pelo vírus a cada 100 mil habitantes, segundo Fiocruz e Redes da Maré.
Ou sejam, morre-se menos de covid nessa favela que em outras partes do Rio de Janeiro.
"O universo de pessoas testadas começou a condizer com a realidade. Antes poucas pessoas com sintomas eram diagnosticadas. Mas possivelmente o acesso ao diagnóstico, atendimento médico, isolamento, criaram condições para o não agravamento dos casos. A gente vê durante esses meses que o número de pessoas morrendo veio diminuindo", explica Luna Arouca, da ONG Redes da Maré e uma das coordenadoras do Conexão Saúde.
'Tudo isso tinha que estar sendo feito pelo governo'
Sem contar com financiamento público, o projeto implementado pela Fiocruz e ONGs conseguiu recursos do Fundo Todos pela Saúde, do Itaú-Unibanco, pelos três meses primeiros meses de existência.
Mas o ideal, segundo os idealizadores, era que as políticas fossem incorporadas pelo governo e o Sistema Único de Saúde, e ampliadas para outras favelas.
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Douglas Lopes
Moradores usam aplicativo de celular para agendar testes, marcar consultas médicas por telefone e obter outros auxílios, como atendimento psicológico
"Isso tudo deveria estar sendo feito pelo governo. Na verdade, é uma angústia permanente porque sabemos que não podemos dar toda a estrutura que a população da Maré precisa", diz Luna Arouca.
"Nós mostramos que é possível fazer entrega (de alimentos e testes), fazer o isolamento, testagem em massa e idealizamos toda a logística. Mas é responsabilidade do Poder Público fazer isso. Estamos fazendo esse trabalho por conta da ausência do Estado."
Os 4 eixos do programa na Maré
O Conexão Saúde atua em quatro frentes: testagem gratuita para covid, comunicação, atendimento médico e psicológico por telefone e auxílio para garantir o isolamento de infectados.
Seis instituições de pesquisa e ONGs participam: Fiocruz, Redes da Maré, Conselho Comunitário de Manguinhos, SAS Brasil e Dados do Bem.
E os próprios moradores da Maré lideram várias das ações do programa, principalmente na área de comunicação, combatendo fake news e informando sobre como obter ajuda.
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Matheus Affonso
Jovens moradores da Maré circulam pela favela levando jornal feito pela comunidade, com dados sobre infecções por covid e informações sobre prevenção
"Temos equipe de campo de moradores que circulam pela rua, falando no megafone e que usam suas redes pessoais, informando sobre os serviços e onde procurar ajuda. Além disso, produzimos panfletos, um jornal, faixas, conteúdo para circular no WhatsApp e redes sociais", diz Luna Arouca.
Com auxílio da Fiocruz, infectologistas e profissionais de tecnologia da informação, foi aberto um centro gratuito de testagem na favela e lançado um aplicativo de celular chamado Dados do Bem.
Lá, a pessoa com sintomas agenda um teste de covid para fazer na própria comunidade e, se o resultado der positivo, ela é direcionada para receber auxílio alimentação, kit limpeza e atendimento médico e psicológico.
"O centro de testagem também fica aberto para quem quiser fazer o teste de graça. E lá já direcionamos quem testa positivo para os outros atendimentos", explica Arouca.
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Gabriela Lino
Volutários do Conexão Saúde, a maioria moradores da favela, entregam alimentos diariamente para quem está se isolando em casa
Agora, o Conexão Saúde está lançando unidades móveis de testes, para alcançar pontos mais isolados da favela. "Temos um grupo que vai de carro às áreas mais remotas", diz Fernando Bozza, da Fiocruz.
Após testar positivo, o morador da Maré é encaminhado para as demais etapas do programa: passa a ser acompanhado por profissionais de saúde em consultas diárias por telefone; recebe orientações individualizadas sobre como fazer o isolamento, é atendido por psicólogos, se quiser, recebe um kit higiene, com álcool em gel, máscaras e produtos de limpeza, e passa a receber todos os dias "quentinhas" para garantir a alimentação durante a quarentena.
"Quando descobri que estava com covid passei a ter crise de ansiedade e sentir falta de ar. Mas era falta de ar pela angústia. Eles me colocaram em contato com uma psicóloga e comecei a fazer sessões online, além do atendimento médico", diz David Nascimento, de 24 anos.
"Eu tinha o maior preconceito, achava que terapia era coisa para doido. Mas o atendimento psicológico foi uma das melhores coisas para mim nesse período de isolamento."
As oportunidades que o Brasil perdeu
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Douglas Lopes
Para os voluntários, o Conexão Saúde é evidência de que o Brasil poderia ter controlado a pandemia, inclusive nas áreas mais pobres, se tivesse adotado algum plano nacional de contenção
Para os idealizadores do Conexão Saúde e os moradores da Maré, o projeto é prova viva de que a pandemia no Brasil poderia ter sido controlada, inclusive nas áreas mais pobres e povoadas, se governo federal e Estados tivessem adotado políticas baseadas na ciência e no aprendizado deixado por outros países.
"Ao longo de um ano de pandemia a ciência e a sociedade já sabem o que funciona contra a covid. Mas o país perdeu tempo falando de cloroquina", critica o infectologista Fernando Bozza, pesquisador da Fiocruz e integrante do Conexão Saúde.
"O que precisa ser feito é discutir e aplicar o que funciona: Telemedicina para identificação precoce de falta de ar, testagem em massa, medidas de higiene e isolamento. Isso é o que funciona para controle da pandemia."
Em diversos momentos, integrantes do governo Bolsonaro diziam que medidas de isolamento eram inviáveis, especialmente em comunidades pobres. Mas Luna Arouca diz que o que falta é o Estado dar condições para que as pessoas mais pobres possam se proteger da covid sem passar fome.
"A contenção da pandemia deve passar por políticas sociais. E a gente, de maneira pontual e específica, demonstra isso. Se você traz o mínimo de sobrevivência para aquela família, alimentação, kit de higiene, limpeza, acompanhamento médico, ela consegue fazer o isolamento."
Opinião: Leonardo Sakamoto - 'Ao revogar a Lei de Segurança Nacional, Câmara reafirma a democracia'


Leonardo Sakamoto
04/05/2021 20h07
Por Marcelo Freixo (PSOL-RJ), Orlando Silva (PC do B-SP) e Paulo Teixeira (PT-SP)*, especial para o UOL
A Câmara dos Deputados aprovou, nesta terça (4), o texto-base do projeto que revoga a Lei de Segurança Nacional (LSN) e cria uma parte especial no Código Penal, tipificando os Crimes Contra o Estado Democrático de Direito.
Há tempos que diversos segmentos da sociedade brasileira clamam pela remoção do entulho autoritário, herança do regime militar, que resta vivo na Lei de Segurança Nacional. Há mesmo uma controvérsia acerca de sua recepção pela Constituição de 1988. Esta lei tem claro pendor antidemocrático, posto que construída ainda na concepção de "inimigo interno" que ameaçava o poder de turno, no caso o dos generais.
Por sua estrutura, a Lei de Segurança Nacional pretendia dificultar a organização política das oposições através de partidos, sindicatos ou associações e, com tipos penais abertos, possibilitar a criminalização de lideranças e movimentos sociais. Não à toa, tem sido cada vez mais evocada pelo aspirante a tirano Jair Bolsonaro para investigar e constranger seus críticos, como ocorrido recentemente contra Felipe Neto e Guilherme Boulos, dentre outros.
A construção do projeto de lei foi baseada na sistematização iniciativas legislativas, sob coordenação da competente deputada federal Margarete Coelho (Progressistas-PI).
A revogação da Lei de Segurança Nacional, em si, é uma conquista que deve ser celebrada. Ótimo que seja uma ação do parlamento, em sua prerrogativa exclusiva, e não via controle de constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal, que também seria caminho jurídico legítimo, mas não tão afirmativo para a democracia.
Através do Congresso Nacional, ao retirar do ordenamento a LSN e incorporar a defesa do Estado Democrático de Direito, o Brasil passa a mensagem de que deseja revigorar sua opção pelo regime democrático e suas instituições, justamente em um momento de crise, quando estas passam por verdadeiro teste de fogo.
Portanto, ao tipificar condutas atentatórias à democracia, ergue-se uma barreira de contenção contra aqueles que, de maneira sistemática e organizada, têm buscado fragilizar nossa Constituição, o sistema de tripartição de poderes, com independência e harmonia entre eles, e mesmo colocado em xeque a legitimidade do processo eleitoral.
Neste sentido, haverá um capítulo sobre Crimes Contra as Instituições Democráticas, visando punir ações organizadas que, de maneira violenta ou com grave ameaça, atentem contra a ordem constitucional democrática, seja através de tentativas de golpes de Estado ou incitando animosidade entre as Forças Armadas e os poderes e instituições civis.
O relatório é cuidadoso para não dar azo a restrições das liberdades de expressão, imprensa, manifestação e organização popular, preocupação legítima e sempre cara aos atores democráticos. Aliás, ao contrário disso, a proposta cria o capítulo dos Crimes contra a Cidadania, que visa justamente punir aqueles que, sem justa causa, impeçam o livre exercício de manifestação, como, por exemplo, a repressão violenta pelas forças de segurança contra atos e movimentos reivindicatórios pacíficos.
Também há uma salvaguarda contra os ataques ao sistema político e eleitoral. No capítulo dos Crimes Contra o Funcionamento das Instituições Democráticas nas Eleições, se busca defender o livre exercício do voto, punindo eventuais atentados cibernéticos contra os tribunais eleitorais e a comunicação enganosa em massa contra o sistema eleitoral, como as fake news distribuídas em escala industrial questionando, sem nenhuma base probatória, a segurança das urnas eletrônicas e do resultado eleitoral.
Aqui também, tipificam-se atos de violência política, aqueles discriminatórios em virtude de sexo, opção sexual, cor, raça, etnia e religião.
Como se vê, a proposta votada pela Câmara traz inovações importantes, mas, sobretudo, faz a reafirmação da Constituição, do sistema democrático e de suas instituições, removendo o entulho autoritário do passado e prevenindo aventuras autocráticas do presente.
(*) Marcelo Freixo (PSOL-RJ), Orlando Silva (PC do B-SP) e Paulo Teixeira (PT-SP) são deputados federais.
Brasil tem 3.025 mortes por covid nas últimas 24 h e supera 410 mil óbitos

Douglas Porto, Sara Baptista e Ricardo Espina
Do UOL e colaboração para o UOL, em São Paulo
04/05/2021 20h01
Atualizada em 04/05/2021 20h42
Após uma segunda-feira de dados sensivelmente mais baixos por conta do represamento histórico que ocorre aos finais de semana, as secretarias estaduais de Saúde notificaram hoje 3.025 novas mortes causadas pela covid-19 em todo o Brasil. Assim, o total de mortos desde o início da pandemia é de 411.854. Os dados são do consórcio de veículos de imprensa do qual o UOL faz parte.
Nos últimos sete dias, morreram, em média, 2.361 pessoas por dia por complicações da infecção. Este é o 104º dia consecutivo com média móvel acima de mil. Há 48 dias, desde 17 de março, o índice se mantém acima de 2 mil.
'Alguém quis mudar a bula da cloroquina', diz Mandetta
Com o acréscimo de 69.378 novos casos, já foram diagnosticadas 14.860.812 de pessoas em todo o território nacional. Os dados não representam quando os óbitos e diagnósticos de fato ocorreram, mas, sim, quando passaram a constar das bases oficiais dos governos.
Já de acordo com o Ministério da Saúde, foram reportadas 2.966 novas mortes nas últimas 24 horas, elevando o total de toda a pandemia para 411.588. Entre ontem e hoje, 77.359 novos diagnósticos positivos foram registrados, um total de 14.856.888 já contaminados pelo novo coronavírus.
Desse total, 13.442.996 pessoas se recuperaram da doença até o momento, com outras 1.002.304 em acompanhamento.
A pandemia nos estados
Em duas regiões a média móvel de mortes é considerada estável: Nordeste (-4%) e Sul (-4%). Em outras três a média apresenta desaceleração: Centro-Oeste (-36%), Sudeste (-16%) e Norte (-26%). No geral, o Brasil apresenta um índice em estável (-15%) na variação de 14 dias.
São onze estados com estabilidade nos registros, enquanto outros quatorze e o DF estão em queda. Apenas o estado de Pernambuco apresenta aceleração nas mortes, com 32%.
Veja a situação por estado e no Distrito Federal:
Região Sudeste
- Espírito Santo: queda (-28%)
- Minas Gerais: queda (-19%)
- Rio de Janeiro: estabilidade (-4%)
- São Paulo: queda (-19%)
Região Norte
- Acre: queda (-27%)
- Amazonas: estabilidade (-14%)
- Amapá: queda (-25%)
- Pará: queda (-25%)
- Rondônia: queda (-48%)
- Roraima: queda (-20%)
- Tocantins: estabilidade (8%)
Região Nordeste
- Alagoas: queda (-16%)
- Bahia: estabilidade (-14%)
- Ceará: estabilidade (0%)
- Maranhão: queda (-20%)
- Paraíba: queda (-18%)
- Pernambuco: aceleração (32%)
- Piauí: estabilidade (-5%)
- Rio Grande do Norte: estabilidade (-14%)
- Sergipe: estabilidade (4%)
Região Centro-Oeste
- Distrito Federal: queda (-38%)
- Goiás: queda (-46%)
- Mato Grosso: queda (-27%)
- Mato Grosso do Sul: queda (-18%)
Região Sul
- Paraná: estabilidade (10%)
- Rio Grande do Sul: estabilidade (-15%)
- Santa Catarina: estabilidade (-7%)
Veículos se unem pela informação
Em resposta à decisão do governo Jair Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia de covid-19, os veículos de comunicação UOL, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo, G1 e Extra formaram um consórcio para trabalhar de forma colaborativa para buscar as informações necessárias diretamente nas secretarias estaduais de Saúde das 27 unidades da Federação.
O governo federal, por meio do Ministério da Saúde, deveria ser a fonte natural desses números, mas atitudes de autoridades e do próprio presidente durante a pandemia colocam em dúvida a disponibilidade dos dados e sua precisão.
Caetano: povo deve revoltar-se contra culpados pela pandemia que nos tirou Paulo Gustavo

247 - O compositor Caetano Veloso lamentou a morte do ator Paulo Gustavo nesta terça-feira, 4, após complicações provocadas pela Covid-19. "Paulo Gustavo é a expressão da alegria brasileira", disse Caetano Veloso nas redes sociais.
"Essa alegria que nos veio de fora em forma de fama, já que minha geração cresceu crendo no mito das ‘três raças tristes’ de que nosso povo se teria formado", declarou.
"Nascido já depois da glória futebolística brasileira, do aumento de canções que falam de amores vitoriosos (da bossa nova a Roberto Carlos), do cinema que teve força crítica e, depois, domínio técnico e comunicação com o grande público - e da afirmação do alto nível de criação televisiva -, Paulo, esse poço de talento e gerador de prazer doado ao Brasil por Niterói, encarnou, em seu trabalho e em sua vida pessoal, essa alegria antes apenas mítica", continuou.
"É significativo que a notícia de que o perdemos chegue no dia em que se abre a CPI da Covid no Senado Nacional", ressaltou.
"O povo brasileiro, que encheu os cinemas para rir com Paulo Gustavo, está de luto. E deve revoltar-se contra os responsáveis por nossa vulnerabilidade frente à pandemia que nos tirou essa pessoa amada por representar nossa vocação para o SIM", finalizou o músico.
Complicações pela Covid-19
O ator Paulo Gustavo morreu aos 42 anos na noite desta terça após complicações resultantes da Covid-19. Ele estava hospitalizado desde o dia 13 de março no Rio de Janeiro e, diante do agravamento da doença, foi levado para uma UTI, mas acabou piorando na segunda-feira, 3.
“Após a constatação da embolia gasosa disseminada ocorrida no último domingo, em decorrência de fístula brônquio-venosa, o estado de saúde do paciente vem se deteriorando de forma importante. Apesar da irreversibilidade do quadro, o paciente ainda se encontra com sinais vitais presentes”, disse o boletim.
A piora de Paulo se deve a uma embolia gasosa, que é um problema grave no sistema circulatório que acontece quando bolhas de ar entram na circulação sanguínea. Isso faz com que haja obstruções na passagem do sangue, que terminam por ocasionar problemas de oxigenação das células.
Um dos atores mais populares do Brasil
Paulo Gustavo foi um dos grandes nomes do cinema popular no Brasil com a série de filmes "Minha Mãe é Uma Peça”, uma peça de 2006 que estreou no cinema em 2013 e teve mais duas edições, em 2016 e 2019 - entre outras produções do cinema nacional.
Ele também se popularizou na sitcom brasileira “Vai Que Cola”, produzida e exibida pelo canal Multishow, que virou filme em 2015.
Sua personagem mais famosa, Dona Hermínia, foi estreada no final de 2004, quando atuava na peça “Surto”, ainda durante sua formação de ator na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL).
Completou sua formação na CAL em 2005, junto com outros importantes humoristas como Fábio Porchat, do Porta dos Fundos, e Marcus Majella, companheiro de trabalho em “Vai Que Cola”.
Recebeu indicação ao Prêmio Shell de Melhor Ator em 2006 após atuação em “Minha Mãe é Uma Peça”, um espetáculo ainda não adaptado para o cinema na época.
Paulo Gustavo fez o Brasil rir da ascensão e queda da classe média
Colunista do UOL
04/05/2021 23h03
Dona Hermínia, a personagem memorável de Paulo Gustavo de "Minha Mãe É Uma Peça", me fazia rir. Gritava, desesperada, diante de situações as quais não controlava. Os filhos, a vida, o ex-marido, as reuniões de condomínio. Tudo a tirava do sério.
Faz sentido, afinal, o que não nos tira do sério neste Brasil?
Mais da coluna

Quantos "te amo" são permitidos em uma música de amor para se tornar hit?
Humoristas, os de sucesso, têm um foco. O foco de Paulo Gustavo era a classe média, entre os tantos personagens e criações.
Essa, que ascendeu com o sucesso econômico do Brasil no início do novo século, quando o País se tornou a 6ª maior economia do mundo e que erradicou a fome por aqui.
Paulo Gustavo ria com essa classe que viu ter a conta cheia o suficiente para fazer uma viagem de família por ano, conhecia os Estados Unidos, sabia o nome de cada um dos parques da Disney e gastava o idioma aprendido em cursinhos de línguas sempre que podia: "You're welcome"
Dona Hermínia havia vivido dias melhores. O auge passara, como passou para toda a classe média brasileira. Ela vivia diante de um mundo que, aos poucos, desabava.
Lembra aquela história da "família tradicional brasileira" (escrita assim, entre aspas, mesmo)? A família de "Minha Mãe é Uma Peça" era deliciosamente o oposto disso. Quebrava padrões estéticos, sociais e culturais.
Em vez de reforçar estereótipos, as reações de Hermínia representavam uma classe que quer aceitar as transformações sociais, embora isso nem sempre seja fácil para quem cresceu em outros padrões e aspirou anos melhores do que esses que vivemos atualmente.
Houve quem ignorasse a obra de Paulo Gustavo por considerá-la popularesca. Que engano. É popular porque nasce de uma crítica daquilos que a gente vive no dia a dia.
Se os grã-finos o ignoravam, era porque se sentiam atingidos pela ascensão dessa classe média que passou a voar de avião, um privilégio antes somente dos mais endinheirados.
O problema com o humor de Paulo Gustavo tem, sim, muito de elitismo cultural velado, sim.
Sabe aquela cena de "Minha Vida em Marte", em que o personagem Aníbal (Gustavo) diz à amiga Fernanda (Mônica Martelli): "Vamos esbarrar em alguém e dizer 'sorry!'"?
É exemplo dessa deliciosa sátira do humor paulo-gustaviano. Simples, sem rodeio, mas extremamente conectado com a realidade.
Aqueles que já tinham grana para estar em Nova York se sentiam "envergonhados" pela chegada dos "novos ricos". Até desviavam a rua e paravam de falar para não serem reconhecidos por "outros brasileiros" que eu sei.
Paulo Gustavo fez o Brasil rir da ascensão e chorar a queda da classe média brasileira, enquanto esmiuçava os padrões tradicionais e debochava dos ricaços.
Genial na simplicidade. Simplesmente genial.











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