PRECARIEDADE

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9 (NOVE) ERROS que você pode estar cometendo ao tomar BANHO 
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Um mundo sem religião não é necessariamente mais pacífico ou tolerante
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WhatsApp Web:
aprenda a baixar várias fotos e vídeos ao mesmo tempo
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Governador Ron DeSantis (REPUBLICANO) da Flórida REVOGA TODAS as medidas relacionadas à covid-19
"Por NENHUM CONJUNTO de CRITÉRIOS OBJETIVOS estamos seguros ainda"
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A morte é festa no Brasil de Bolsonaro
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Quem difama quem: em apoio a Sônia Guajajara e à APIB
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Paulo Guedes é falso espelho para a mediocridade da classe média
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Paraguai, Honduras, Brasil, Bolívia, Colômbia, El Salvador...
América Latina NÃO evolui. Entenda o que acontece em El Salvador e o apoio de Eduardo Bolsonaro
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8 (OITO) medidas cruciais contra o coronavírus (que está mais presente no ar do que nas superfícies) 
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Programas sociais de Guedes são delírios de precarização do emprego e saúde

José Paulo Kupfer

03/05/2021 16h58

Parecia que o ministro da Economia, Paulo Guedes, decidira se valer de algum chá calmante, depois da enxurrada de afirmações sem noção da semana passada. Nos últimos dias, Guedes havia disparado acusações ao "vírus chinês", classificou vacinas não não americanas como de segunda mão e lamentou que as pessoas quisessem viver mais tempo, pressionando os gastos públicos.

Depois das esperadas reações de indignação às suas declarações, ainda na semana passada, Guedes procurou contextos mitigadores das afirmações, que foram gravadas sem que ele tivesse se dado conta disso. Mas, se esforço houve nesse sentido, foi em vão.

Na edição deste domingo (2), lá estava o ministro, em longa entrevista ao jornal "O Globo", de novo com planos, avaliações e declarações delirantes. A audiência com Guedes, na Câmara dos Deputados, para esclarecer projeções de gastos previdenciários de servidores públicos civis e militares, prevista para esta terça-feira (4), promete.

Sinais preocupantes apareceram logo no início da entrevista ao jornal. "Sem falsa modéstia, sei que fui crucial em momentos decisivos", disse Guedes, completando, mais à frente: "Nosso programa é reconhecido por todos". Como assim "todos" reconhecem se, na mesma resposta, o próprio ministro classifica como "negacionismo dizer que não temos plano" e confessa que essa negação "dói"?

Era aquela conhecida alternância de humor de Guedes que escapava de seu controle e, mais vez, chegava ao público. A mesma que o faz anunciar, num dia, "recuperação em V" da economia, e, no dia seguinte, reclamar não ter recursos para programas sociais porque o "país está quebrado".

O mecanismo bipolar, sempre presente, deu o ar da graça na avaliação imprudentemente positiva do próprio trabalho. "Peguei uma inflação alta e entregarei inflação mais baixa", anunciou Guedes. Em 2018, a inflação fechou em 3,75%, abaixo do centro da meta. Pelas projeções do momento, subirá para 5,04%, em 2021, próxima ao teto da meta, e encerrará 2022 com vafriação de 3,6%, semelhante à do primeiro ano do governo Bolsonaro.

Também fez previsões otimistas para o comportamento da economia e do mercado de trabalho. "Peguei o país crescendo 1% e entregarei crescendo 3%", afirmou, esquecendo-se de que, no meio do caminho, em 2020, a economia mergulhou 4,1%. "Peguei o país com 12 milhões de desempregados e entregarei com 10 milhões". Para isso, terá a tarefa bastante difícil de reduzir o contingente de desempregados em um terço, pois hoje já são quase 15 milhões de desempregados, com tendência de alta, nos próximos meses

Como não poderia de ser, Guedes aproveitou para dar detalhes do seu mais recente balão de ensaio para a solução dos problemas sociais brasileiros. Na última semana de abril, o ministro lançou mais um programa para "erradicar a miséria", como ele mesmo definiu o BIP (Bônus de Inclusão Produtiva).

O BIP é a mais nova versão do Renda Brasil ou da Renda Cidadã, programas de emprego e renda prometidos para a "semana que vem", há mais de um ano. São projetos atrelados à Carteira Verde e Amarela, um outro projeto, por sua vez, voltado à libertar o mercado de trabalho de uma "legislação trabalhista obsoleta".

No caso do BIP, a ideia é vincular o benefício à participação em cursos de qualificação. O foco principal, segundo Guedes, são os jovens "nem nem", aqueles que nem estudam nem trabalham, um contingente de passa de 30%, quase 6 milhões dos brasileiros entre 19 e 24 anos. Com benefício semelhante ao do Bolsa Família, o beneficiário, conforme imaginado por Guedes, "vai ter de bater ponto e ser treinado para o mercado de trabalho".

Como isso vai ser feito? Guedes não responde ou ainda não sabe. Diz apenas que não haverá contrapartida da empresa. Será uma ação voluntária e, pode-se concluir, benemerente. "Ajuda o Brasil, treina o menino", diz o ministro, completando, naquela faixa de ingresso no delírio: "Estamos estudando, isso deve vir rápido".

O diagnóstico de Guedes para a existência de tantos jovens sem acesso ao mercado de trabalho é o de que eles são "vítimas de nossa legislação trabalhista", com regras demais e garantias em excesso aos trabalhadores. Na entrevista, aflora a obsessão por derrubar o salário mínimo. "Quando você bota lá o salário mínimo, um rapaz filho de uma classe média, que estudou em uma boa universidade, ele conegue emprego com o salário mínimo".

É uma visão espantosamente retrógrada dos mecanismos de funcionamento do mercado de trabalho. Nem mesmo os mais ultraliberais entre os ultraliberais consideram que o salário mínimo distorce o mercado de trabalho e impede a contratação de empregados. No limite, o ministro parece pensar que empresários contratam empregados pelo baixo custo da mão de obra, não pelo volume da demanda por seus produtos ou serviços.

A mesma visão de um capitalismo quase sem responsabilidades sociais, atrasada de mais de um século, parece sustentar a obsessão com a ideia de substituir obrigações sociais do Estado por vouchers para a iniciativa privada. Vouchers são "vales" de consumo ou pagamento, distribuídos pelos governos para uso por beneficiários.

Guedes sonha em substituir o SUS (Sistema Único de Saúde), com seus custos fiscais, que não chegam a 4% do PIB, pouco mais de R$ 100 por mês por brasileiro, por um vale-saúde, a ser usado na rede privada. "Por que um sujeito rico se interna no Einstein e o pobre tem de ficar na fila do SUS por dez dias?", pergunta o ministro. Ele mesmo responde: "Se o pobre tiver um voucher e não tiver vaga no SUS, ele vai na rede privada".

Será que, se o plano de Guedes fosse para valer, veríamos filas de pobres no saguão do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, símbolo dos serviços médicos da elite? A situação é tão hipotética quanto ridícula e, portanto, melhor parar por aqui.

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Comissão Arns - Nota Pública #33 - Quem difama quem: em apoio a Sônia Guajajara e à APIB

A líder indígena Sonia Guajajara, da Apib, veste máscara criada por Néle Azevedo em que estão bordados a mão os nomes de vinte etnias brasileiras - Divulgação
A líder indígena Sonia Guajajara, da Apib, veste máscara criada por Néle Azevedo em que estão bordados a mão os nomes de vinte etnias brasileiras Imagem: Divulgação
Comissão Arns

03/05/2021 11h45

A Comissão Arns vem manifestar a sua indignação e o seu repúdio à ação de intimidação promovida pelo governo federal, por meio da Polícia Federal (PF), contra Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e outras lideranças indígenas Suruí de Rondônia.

Sônia Guajajara vem sendo indevidamente acusada de difamar o governo federal. De acordo com as informações disponíveis, a Fundação Nacional do Índio (Funai) encaminhou à Polícia Federal notícia criminal acusando a Apib e Sônia Guajajara, em decorrência da divulgação da websérie Maracá, que descreve violações de direitos cometidas contra povos indígenas no contexto da pandemia. Como consequência, Sônia Guajajara recebeu uma intimação da Polícia Federal e há notícias de que lideranças Suruí de Rondônia também estariam sendo intimadas em virtude de alegações análogas.

Três indígenas que se apresentam como porta-vozes de um "Grupo de agricultores e produtores indígenas" deram início a uma campanha de intimidação e difamação, enviando, em 29 de março, carta ao Parlamento e a outros órgãos europeus, acusando Sônia Guajajara de "traição à pátria", por defender os direitos dos povos indígenas contra violações e negligências do governo federal.

A Funai, em vez de cumprir a sua missão institucional de proteger os direitos constitucionais dos povos indígenas, denunciando violações a esses direitos no contexto da pandemia, assim como combatendo as invasões cada vez mais catastróficas das terras indígenas, vem se prestando ao constrangedor papel de silenciar denúncias e intimidar indígenas - neste caso, com o auxílio inexcusável da PF.

Cumpre à sociedade brasileira repudiar essa afronta aos direitos de Sônia Guajajara e demais lideranças indígenas, bem como ao Ministério Público e à Câmara dos Deputados apurar, por meio de medidas claras e objetivas, as responsabilidades pela prática de mais um ato de arbítrio, por parte daqueles que não sabem e não querem conviver em um regime em que impere a liberdade e a democracia como corolário a oposição e contestação. A Comissão Arns deplora mais uma demonstração de desapreço e menoscabo pelos povos indígenas.

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Um mundo sem religião não é necessariamente mais pacífico ou tolerante

Os mais otimistas abrem a garrafa de champanhe quando o pertencimento a uma religião tradicional declina

Leio Andrew Sullivan na Spectator, que traz uma novidade sísmica: segundo estudo da Gallup, os americanos já não são majoritariamente religiosos. Na virada do milênio, 70% afirmavam que tinham uma ligação a uma igreja, uma mesquita, uma sinagoga. Hoje?

Apenas 47% (e, entre os “millennials”, 36%). Isso significa que a religião desapareceu da alma dos americanos?

Não desapareceu, defende Sullivan: essa vontade de sentido e pertencimento apenas se moveu para a arena política.

Qualquer pessoa que escute um admirador de Trump ou um seguidor da “wokeness” sabe que não está apenas na presença de um ideólogo; está na presença de um crente, com seus rituais e dogmas —e uma visão dicotômica do mundo entre o sagrado e o profano.

Várias pessoas com mãos levantadas
Ilustração de Abu para coluna de João Pereira Coutinho, publicada no jornal Folha de S.Paulo em 4 de maio de 2021 - Abu

Existem, porém, duas diferenças entre os novos e os velhos crentes.

A primeira, notada por Sullivan, é a ausência do elemento transcendente, que na religião tradicional sempre ajudava a redimir a vida terrena. O que talvez explique a urgência com que os novos crentes querem refazer o mundo, aqui e agora.

A segunda, para mim mais importante, é que os novos crentes não se veem a eles próprios como portadores de pecado. Pelo contrário: já partem de uma posição de beatitude, ou até de santidade, para condenarem a manada ao redor.

Nada disso é original e o passado serve de exemplo. Um mundo sem religião será necessariamente melhor —mais pacífico e tolerante?

Não houve “philosophe” do século 18 que não tenha respondido afirmativamente. Quando a razão conquistar as trevas religiosas, os homens estarão libertos da superstição e do erro.

Nem todos compraram o otimismo iluminista. E alguns, como Edmund Burke ou Alexis de Tocqueville, formularam a questão fatal: se os homens deixam de acreditar em Deus, a necessidade de crença desaparece? Ou, hipótese mais provável, essa necessidade será preenchida por outras formas de religiosidade que podem ser mais letais do que a crença tradicional?

A história emitiu a sua sentença: a folha de serviço das religiões tem páginas medonhas, sem dúvida, mas as “religiões seculares” que as substituíram —o jacobinismo, o comunismo, o fascismo, o nazismo et cetera— elevaram a parada até o cume do desespero.

Pois é: não somos apenas “animais sociais”, como dizia o filósofo. Também somos “animais religiosos”, que procuram continuamente fontes de sentido e de expiação.

E não houve tirano que não tenha percebido e explorado essa faceta dos seres humanos.

Na Revolução Francesa, Robespierre não se limitou a guilhotinar os inimigos (reais ou imaginários) que se opunham ao governo dos jacobinos. Também teve de promover um estranho culto do ser supremo, com a razão como deusa, para manipular as almas órfãs do catolicismo.

Na União Soviética, os bolcheviques foram rápidos a substituir as imagens do Cristo Pantocrator por retratos de Marx, o novo deus da igreja comunista. E os nazistas, como bem notou Raymond Aron, mimetizaram na perfeição os cultos religiosos de massas, como se pode ver nos documentários de Leni Riefenstahl.

Quando o pertencimento a uma religião tradicional declina, os mais otimistas abrem a garrafa de champanhe. São discípulos de John Lennon (e da sua reza, “Imagine”).

Eu, fatalmente cético, pergunto qual será a religião substituta que essas almas vão escolher. Que dogmas serão defendidos? Que rituais serão encenados? Que hereges serão perseguidos (e “cancelados”)?

O radicalismo político dos últimos anos, sobretudo nos Estados Unidos, não é apenas um fenômeno cultural. É um fenômeno religioso, alimentado pela fúria dos novos convertidos. E não vai parar.

P.S. Quem conhecia intimamente a natureza dessas “religiões seculares” era o filósofo Antonio Paim, morto recentemente. O Brasil perdeu um dos seus maiores pensadores.

Conheci-o anos atrás, quando foi professor convidado da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Lembro as nossas conversas, divertidas e memoráveis, sobre os seus tempos na União Soviética, quando ele era ainda um crente dessa igreja. Mas lembro sobretudo a sua erudição, capaz de discorrer sobre a história das ideias políticas com uma naturalidade que arrepiava.

Que livros nos deixa? Felizmente, bastantes. Mas, para início de conversa, aconselho dois: “História das Ideias Filosóficas no Brasil” e “A Querela do Estatismo”, obra imprescindível para entender o Brasil (e também Portugal).

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Paulo Guedes é falso espelho para a mediocridade da classe média

O ministro da Economia, Paulo Guedes, durante anúncio da prorrogação do auxílio emergencial - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
O ministro da Economia, Paulo Guedes, durante anúncio da prorrogação do auxílio emergencial Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Rodrigo Ratier

03/05/2021 06h00

Não entrou na farmácia para comprar remédios, e digo isso com pesar. Portava óculos espelhados, calça camuflada, fios grisalhos rarefeitos e em evidente desvantagem para a calvície. A regata branca dava vista panorâmica à pièce de résistance: no ombro flácido, uma tatuagem da bandeira do estado de São Paulo.

Surpreendentemente, estava de máscara, e daquelas potentes, modelo N95. O resto seguiu o script. Dirigindo-se aos balconistas, desfiou um festival de impropérios contra tudo isso que está aí. Mostrou especial desagrado com a CoronaVac, "essa vacina chinesa, veja só que submissão". Tinha lido que os Estados Unidos iriam proibir a entrada de quem tivesse tomado o imunizante. "Eu não! A minha foi AstraZeneca", comemorou. Por razões que ignoro, a oratória tomou um rumo "freestyle", com críticas a uma atleta que — perdão pelo meu francês — estaria precisando "de pau de arara ou outro tipo de pau", e defesa à intervenção militar pois "passou da hora de dar um basta nessa bagunça". Finda a obra, saiu como entrou: de mãos abanando e cara de poucos amigos, com os quais me solidarizo.

Fiquei um instante indeciso, com medo de fazer perguntas. Tentei quebrar o silêncio comentando sobre as dores e as delícias da audição, e como certas coisas são impossíveis de serem desouvidas. Contam que se trata de presença folclórica na drogaria. "Aposentado, passa o dia inteiro sem fazer nada. Vive encaminhando WhatsApp com coisa do Bolsonaro."

Seria desgastado enxergar no presidente a inspiração para o cosplay de militar da reserva. E algo impreciso: Bolsonaro já ordenou aos ministros que parem de insistir para que ele se vacine. O tiozão de Zap se imunizou — e, ao contrário do capitão reformado, tem a fineza de nos proteger de suas opiniões não solicitadas com as 5 camadas de sua N95. Possui uma pátina de civilidade, feita do mesmo material que recobre outra figura vulgar de alto escalão, cada vez mais desnudada por sua própria língua.

Do 5º andar do Bloco P, no Eixo Monumental em Brasília, nascem ideias e frases bastante próximas às do nacionalista da farmácia: críticas à China ("o chinês inventou o vírus"), insinuações sobre golpe de estado ("não se assustem, então, se alguém pedir um AI-5") e misoginia ("O presidente devolveu, falou que a mulher do Macron [presidente da França] é feia. Ela é feia mesmo"). Há também homologia nos costumes: Paulo Guedes foi o único a usar máscara no infame pronunciamento de Bolsonaro sobre a saída de Sergio Moro. E admitiu ter sido imunizado recentemente. Com CoronaVac, vejam só.

Talvez não tenham chegado ao Zap do viúvo de 1932 outras falas do manda-chuva da Economia: censura ao comportamento das classes populares porque "ricos capitalizam seu recurso, os pobres consomem tudo"; condenação ao câmbio baixo pois havia "empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada"; demonização do financiamento estudantil porque disse ter ouvido do filho do porteiro que ele tirou zero no vestibular e ainda assim ganhou bolsa.

Se o aposentado falastrão leu essas frases, provavelmente aplaudiu. Seria compreensível. Jessé de Souza explica que, como herança da escravidão, a classe média tende a uma concepção distorcida de si mesmo e de sua posição social. Seus integrantes costumam se identificar com a elite quando, na verdade, são vistos pelos mais ricos ao lado daqueles que desprezam: "empregadas domésticas", "porteiros", "pobres que consomem tudo". Inimigo da longevidade ("todo mundo quer viver 100 anos, 130 anos. Não há capacidade instalada no setor público para isso"), o ministro talvez veja o pensionista como um "parasita" do sistema. O governo que integra está fazendo o possível: a expectativa de vida do brasileiro recuou 2 anos com a trágica gestão da pandemia. Como no meme: "se vocês morrerem, a economia decola".

Imagino Guedes gargalhando ao ouvir o manifesto da drogaria. Ir para os Estados Unidos como, meu amigo, com o dólar a 6 reais? Isso é coisa para milionários como o ministro da Economia, que devem a nós boa parte da fortuna amealhada no mercado financeiro. Guedes costuma dizer que é um produto da oportunidade de educação, veio de classe média-baixa e venceu pelo mérito. Em sendo verdade (dada a quantidade de lorotas, é sempre bom desconfiar do ministro), Paulo Freire explica: "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor". Lição válida da Esplanada dos Ministérios a pequenas farmácias em Perdizes.

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WhatsApp Web: aprenda a baixar várias fotos e vídeos ao mesmo tempo

WhatsApp
Imagem: WhatsApp

Rosália Vasconcelos

Colaboração para Tilt

03/05/2021 04h00

Há quem não goste do WhatsApp Web e é compreensível. A versão para navegadores tem algumas limitações em relação aos aplicativos para celulares.

Mas, vamos combinar, utilizar o mensageiro instantâneo do computador pode facilitar (e muito!) a vida de quem precisa de agilidade para escrever, enviar textos e compartilhar documentos e fotos de maneira mais rápida. Agindo do jeito certo, é possível ter uma experiência mais completa da ferramenta.

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Uma das limitações do WhatsApp Web é que a plataforma só permite fazer o download de um arquivo de foto ou vídeo por vez, o que pode ser uma dor de cabeça para quem precisa baixar muitas delas.

Mas um macete com o recurso de encaminhar mensagens permite baixar todas as fotos ao mesmo tempo, em formato de compactação (.zip). O procedimento é simples e vai facilitar bastante o seu dia a dia, economizando tempo e paciência. Além disso, vai permitir que os arquivos sejam salvos diretamente no computador, poupando a memória do seu celular.

Veja o passo a passo

1. Abra a conversa no WhatsApp onde estão as fotos e vídeos que você deseja baixar e visualize se todos estão disponíveis para download;

Baixar arquivos do WhatsApp - passo 1  - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução


2. Ao passar o mouse no canto superior direito dos arquivos, tem uma seta para baixo. Clique em cima dela e selecione a opção "encaminhar tudo";

Baixar arquivos do WhatsApp - passo 2 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

3. Caso as mídias não estejam agrupadas ou estejam em diferentes momentos da conversa, selecione todas aquelas que você deseja baixar. Para isso, passe o mouse em cima do arquivo e, no canto superior direito, clique na seta para baixo e, depois, em "encaminhar mensagem". Agora selecione todos aqueles arquivos que você quer fazer o download;

Baixar arquivos do WhatsApp - passo 3 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

4. Uma aba vai aparecer entre a barra de ferramentas e as mídias, onde haverá quatro ícones. Clique na setinha para baixo para fazer o download;

Baixar arquivos do WhatsApp - passo 4 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

5. Pronto! Uma pasta compactada zipada conterá todo o pacote baixado.

Baixar arquivos do WhatsApp - passo 5 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
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Almoço das 400 mil mortes

Quantos mais morrerão até que o andar de cima perceba a indigestão da matança?

Tá cada vez mais down na high society. Como canta Elis Regina, a crise já está virando zona. Deve dar indigestão sentar-se ao lado do homem que regurgita 400 mil mortes por Covid-19. Deveria dar, ao menos. Crime de lesa-humanidade não compõe boa entrada para o almoço. Ao andar de cima, indigestão é para os fracos. É para o filho do porteiro que estudou na universidade pelo Fies, pensam. Para quem está acostumado a lecionar economia no Chile de Pinochet, os fracos devem ser os outros.

E daí? A mesa está posta, o vinho servido, a máscara descartada, a branquitude presente. Por que não desfrutar do almoço enquanto o resto do país volta ao mapa mundial da fome e, se não fossem campanhas como a Tem Gente com Fome e o auxílio que o governo não queria, seria ainda pior?

Enfileiram-se as empresas com hashtag vidas negras importam. Importam sim, dirão, exceto as 400 mil vidas que perdemos por inação e ação de quem se assenta ao seu lado na mesa.

O presidente Jair Bolsonaro posa para foto com empresárias durante almoço
O presidente Jair Bolsonaro posa para foto em almoço com empresárias - Alan Santos - 30.abr.2021/PR

De entrada, serviremos uma porção de ar. Ar puro. O mesmo ar que faltou em Manaus. O mesmo ar de cuja escassez o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, soube ao menos quatro dias antes do colapso no Amazonas. Em 11 de janeiro, Pazuello relatou a conversa que teve com a cunhada cujo irmão estava “sem oxigênio nem para passar o dia”: “O que você vai fazer?”, ela perguntou. Resposta do ex-ministro: “Nada. Você e todo mundo vão esperar chegar o oxigênio e ser distribuído. Vamos com calma.” Em homenagem a todos que padeceram sem ar, a entrada no almoço de hoje com o presidente será: ar. Respirem sem parcimônia!

Óbvio, a bebida não pode faltar. Serviremos água e vinho. Água, claro, é potável. Diferente da água que circula no estado do Rio de Janeiro, apesar do martelo no leilão e o sorriso para foto. Em homenagem ao veto presidencial de 8 de julho de 2020, serviremos a água potável que o governo federal negou fornecer, no auge da pandemia, a indígenas, quilombolas e povos tradicionais em extrema situação de vulnerabilidade. Serviremos água cristalina diretamente tirada da boca de indígenas. Aos espíritos mais festivos, dispostos a celebrar o feito macabro de 400 mil mortes por Covid-19, serviremos vinho.

Serviremos o cálice do sangue de todas as mortes que poderiam ter sido evitadas e não foram.

De prato principal, serviremos cloroquina, azitromicina e ivermectina. Mais precisamente, serviremos 31 milhões de comprimidos sem eficácia contra a Covid-19, a mesma quantidade enviada pelo governo federal aos estados. Gastamos R$ 126,5 milhões com esse prato principal. Espero que apreciem!

Esperamos também que não morram ao inalar cloroquina nebulizada, como aconteceu com uma paciente em Manaus em 2 de março, após médicos aplicarem esta terapia ineficaz, mas difundida pelo homem que se assenta ao seu lado. Teremos, ademais, um prato surpresa. Sigiloso. Como também são sigilosos os gastos no valor de R$ 150 mil do Exército brasileiro na pandemia, autorizados em fevereiro pelo presidente.

De sobremesa, teremos crimes contra a humanidade e genocídio. Mas não se preocupe, os outros que sentirão o amargo. Os senhores e as senhoras sentirão apenas a doçura do leite condensado, muito leite condensado. Sentirão apenas o frescor da fila VIP da vacina em Miami, a brisa dos jatinhos sobrevoando Trancoso, a água no rosto durante o passeio de jet-ski nas férias pagas com dinheiro público.

Ao final, tiraremos uma foto. Uma foto alegre, onde possamos ver todos os seus dentes e peles alvas. Num país onde não há justiça, o que nos resta é a memória: uma forma de eternizar, antes que esta nos falhe novamente, quem com a morte se assentou na mesa dos hipócritas.

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No piloto automático? 9 erros que você pode estar cometendo ao tomar banho

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Patrícia Beloni

Colaboração para VivaBem

03/05/2021 04h00

O hábito de tomar banho pode parecer algo simples e automático do cotidiano, mas algumas atitudes podem fazer mal. Por isso, é importante ficar atento e transformar a relação com a higiene do corpo.

  • Banhos em excesso

Banho em excesso pode alterar o manto hidrolipídico (camada de gordura como se fosse uma película que protege a epiderme) da pele, fazendo com ela fique desprotegida e se desidrate.

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Por isso, o indicado é que os banhos diários tenham duração de 5 minutos ou dois banhos de 3 minutos. Tomar banho à noite também é uma opção recomendada porque auxilia a remover as impurezas acumuladas durante o dia.

  • Água muito quente

Tomar banho com a água muito quente remove a oleosidade natural da pele e pode ressecar, produzir prurido e agravar doenças de pele preexistentes. O ideal é, no máximo, morna.

"Um banho relaxante e quentinho de vez em quando, seguido por hidratação vigorosa da pele, pode. Mas nunca com água muito quente", explica Ana Benevides, médica dermatologista do Grupo CAM, em Salvador.

Também é essencial lembrar-se da hidratação a ser realizada por volta de até três minutos após o banho.

  • Sabonete inadequado

mulher tomando banho; sabonete íntimo - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

O sabonete comum (que compramos no supermercado) é suficiente para higienizar e adequado para quase todo mundo. Mas existem algumas exceções, apesar de raras, como pessoas com pele muito sensível ou algum tipo de alergia.

Nesses casos, o indicado é usar sabonetes especiais e sem perfume. Quem tem infecções na pele pode ter indicação de usar sabonete antibacteriano por um período de tempo, mas não é necessário, nem recomendável, o uso contínuo Isso porque podem eliminar as chamadas bactérias do bem, gerar um desequilíbrio na pele e enfraquecer as defesas do organismo.

  • Sabonete no corpo todo

O indicado é utilizar sabonete no corpo todo apenas uma vez ao dia. Se tomar banho mais de uma vez, usar apenas onde houver excesso de transpiração. Isso porque nas pernas e braços o uso excessivo de sabão pode ressecar muito a pele.

Usar sabonetes perfumados na vagina pode irritá-la, alterar a flora vaginal e perturbar o equilíbrio das bactérias naturais, o que pode levar à vaginose bacteriana. O ideal é utilizar sabonetes que mantenham o pH da vagina, específico para higiene íntima e sem perfume.

  • Não trocar a toalha

11.jan.2016 - Banho, toalha, mulher no banho, higiene pessoal - imagem ilustrativa - iStock - iStock
Imagem: iStock

A troca da toalha deve ser feita com periodicidade, só que essa frequência vai depender de muitos fatores. Não há estudos que demonstrem um intervalo melhor.

Pode ser recomendada uma troca diária se usada num pós-operatório ou num recém-nascido, por exemplo. Em condições normais, há quem acredite que uma vez por semana é suficiente. Outros falam em trocar depois de usar três vezes ou mesmo 2 vezes por semana.

Por isso, o importante é sempre ficar atento para trocá-la com frequência. Pendurá-la aberta ao invés de em um gancho é melhor para secar mais rápido e evitar a proliferação de fungos e bactérias.

  • Esponja de banho

Sabonete, banho - iStock - iStock
Imagem: iStock

As esponjas de banho não são recomendadas de forma habitual, pois podem prejudicar a barreira cutânea —importante para manutenção de uma pele hidratada, proteção contra alérgenos e contra o prurido. Em situações muito específicas e por períodos curtos, pode-se indicar alguma esfoliação da pele com esponjas.

Nessas situações, elas devem estar em boas condições de uso e secas ao sol de preferência, para evitar proliferação de fungos e bactérias.

  • Lavar o cabelo todo dia

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Imagem: Shutterstock

A frequência de lavagem do cabelo deve ser guiada pelo grau de oleosidade do couro cabeludo. Algumas pessoas vão precisar lavar todo dia, outras não.

O cuidado vai ser com a água quente que pode "roubar" a hidratação natural do cabelo e usar produtos adequados para não ressecar ou deixá-los muito oleosos.

  • Não limpar o chuveiro

Embora o risco de contaminação seja reduzido pelo fato de a água encanada que chega ao chuveiro ser tratada, é importante fazer a limpeza periódica do equipamento, isso porque devido à exposição constante à umidade, há uma tendência à proliferação de fungos e bactérias.

A limpeza frequente do chuveiro ajuda também a melhorar a vazão da água que fica reduzida pelo acúmulo de resíduos nos orifícios de saída.

  • Não usar hidratante

Mulher passando hidratante, pele seca, pele ressecada - iStock - iStock
Imagem: iStock

O uso do hidratante deve ser frequente, com o objetivo de manter a pele protegida diariamente. O uso irregular costuma não ser suficiente prejudicando a integridade da pele e sua função de barreira. Algumas peles podem precisar de mais hidratação que outras e algumas situações também podem aumentar a necessidade dessa hidratação como dermatite atópicapsoríase, exposição solar ou morar em lugares de clima mais frio e seco.

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A morte é festa no Brasil de Bolsonaro - Tales Ab’Sáber

Por Tales Ab’Sáber

Por Tales Ab'Sáber

I

Quem leu Freud pensando sobre grupos sabe como o líder, quando está no lugar do “ideal do eu”, uma das dimensões do “superego”, tem poder de hipnotismo sobre o grupo massivo que domina. Isso significa apenas que, com pouca mediação, o líder fala o próprio eu do seu fiel fascista. Se o líder no poder diz exterminem os judeus como baratas por não serem humanos, o grupo produzirá com ele câmaras de gás para matar pessoas. Se o líder diz tomem um remédio ineficaz, que pode matá-los, o grupo toma feliz a cloroquina com efeitos adversos, que pode matá-lo. Se o líder diz, não usem máscara que ela significa a sua opressão, o grupo se revolta animado contra a máscara. Se o líder diz, sigam a vida sobre a peste como se nada tivesse acontecendo, o seu grupo vai pra rua, pro boteco e pra balada, dançar e beber até o fim do mundo sobre a peste, como se nada tivesse acontecendo…

Freud é odiado por cientistas políticos convencionais, que desdenham da natureza psíquica do poder, por ter mostrado que o fascismo é uma subjetivação desejante, uma estrutura irracional humana de desejo do poder e de submissão, uma modalidade política gerenciada técnica e historicamente de sadomasoquismo. O fascismo é o ultrapassamento, pelo desejo do poder concentrado em um mais guerra aberta contra outros, de todo compromisso de racionalidade na política. E Freud foi o primeiro a dizer isso, e não o seu discípulo Reich, que deu continuidade à sua análise do princípio do fascismo, muito destacado por Deleuze e por Guattari, que queriam ultrapassar Freud, exatamente como aquele que teria dito que o fascismo foi desejado. Foi Freud quem demonstrou que o fascismo é desejo, que corresponde a formas inconscientes da realidade psíquica. Existem formas psíquicas para o fascismo, disse Freud, que podem ser acionadas historicamente em certas circunstâncias, e isso aumenta imensamente o sentido do trabalho da civilização e da política em se comprometer com o sentido radical do trabalho humano contra a violência, em nossa própria formação como sujeitos.

Bolsonaro, como grande fascista que é, necessita da morte e do extermínio do outro como contraponto e como ponto de fuga de sua política. Se não pode matar ativamente, como um dia disse que faria e como fez o ditador latino americano Pinochet que ele tanto admira, ele o faz por decisão de eximir o governo de responsabilidade, e de governo, diante de uma pandemia global mortal. Não existe fascismo sem um plano necessário de assassinato em massa. O que foi feito no Brasil é que as imensas pulsões destrutivas do bolsonarismo, não podendo destruir inteiramente tudo o que desejam – a esquerda, as representações minoritárias, as universidades, os artistas, os direitos civis… – transbordaram para destruir toda a sociedade.

Bolsonaro ordenou explicitamente às pessoas em 2020 que não usassem máscaras, que tomassem remédios falsos e que se expusessem com satisfação ao vírus. Fez campanha política aberta, pública, contra a vacina, entendida em sua patologia política como “arma do inimigo”. E nós vimos essa política afirmativa da destruição da vida, por perversão e ignorância, que no caso são uma coisa só, acontecer em tempo real no país. Ele condenou à morte dezenas de milhares de brasileiros, que, apaixonados por ele ou inconscientes do seu vínculo amoroso com ele, fizeram a política suicida que ele necessita. A morte de um povo por amor, sem pensamento, ao seu líder fascista.

II

Também há um outro grande hipnotizador de pessoas, de grupos e de massas que se expuseram ao vírus com prazer durante as festas de fim de ano de 2020, e em janeiro e no carnaval de 2021 no Brasil. Se trata do próprio empuxo da vida encantada da mercadoria e do consumo, a inércia do movimento e do apego do desejo a uma forma e a um modo de viver, biopolítica reforçada a cada segundo e a todo instante – uma relação entre os homens, e deles frente o valor das coisas que se produzem entre eles: o fetichismo da mercadoria.

Como sabemos desde Adorno e de Horkheimer, toda a formulação e expressão do mundo industrial da cultura é, em seu fundamento – o seu próprio inconsciente coletivo formado, produtivo e socialmente comprometido com a lógica geral da acumulação –, um imaginário geral de celebração festiva e de aceitação daquilo que existe. Anticrítico por natureza, o mundo criado pela indústria cultural universal tem por princípio essencial a lógica de que “tudo o que existe é bom”. E tudo o que se deseja, ao se viver assim, é celebrar, festejar e gozar o que existe, ter acesso às coisas e à sua felicidade, verdadeira ou falsa, tanto faz. O princípio é o da cultura afirmativa, sempre positiva, a vida alavancada como ela é e a favor de tudo o que é, como dizia Marcuse.

O mundo do consumo como subjetivação é isso. Neste sentido, Bolsonaro não precisou de muito trabalho e de nenhuma energia especial para empurrar pessoas para viverem aquilo que, contra a real realidade da doença e da morte, elas de fato queriam viver. Entre o líder fascista, sua lógica cruel anti-humanista neoliberal, que deseja desresponsabilizar o governo do trabalho coletivo e social, e a ordem comum e repetitiva dos gozos contínuos do mercado e da imagem mercadoria comum no mundo, há também uma continuidade eletiva forte. O mercado que se celebra em cada compra e em cada venda de uma ilusão qualquer é também extamente o mesmo que faz o elogio de um mundo sem governo, sem compromisso social e com o trabalho, ou qualquer coisa que exista para além da mercadoria, do dinheiro e de si próprio.

homogeneidade cultural de massas, e seu gozo planejado, prepara a homogeneidade política; esta frase de Adorno e Horkheimer dos anos 1940 foi a primeira percepção forte dos elementos fascistas presentes no interior do próprio mundo do mercado dito liberal, seu sistema geral de excitações e circulações de imagens e seu reality show. Ela apontava para a emergência totalitária da vida de todos como agentes culturais exclusivos de mercado, o neoliberalismo por vir, da escola de Chicago, de Guedes e de Bolsonaro, como algo que sempre esteve presente no mercado de massas. De fato, no grande isolamento de 2020 muitos adoeceram pela perda de suas práticas de vida, o ambiente geral da vida na cidade da mercadoria. Ficou famosa na internet a imagem impressionante de milhares de pessoas, de todas as idades, famílias inteiras, fazendo fila para entrarem no shopping center reaberto, após um período de isolamento social para a proteção da vida. Elas cumpriam um ritual, de culto ao seu único e verdadeiro deus, indizível, a coisa na loja e a cidade para as coisas, o shopping center.

As pessoas não querem de volta uma vida qualquer, tanto quanto são totalmente incapazes de refletir no tempo de silêncio e do esvaziamento de sua atuação geral no mundo do espetáculo como vida. Elas querem de volta o shopping apinhado com as coisas e sua vulgaridade cultural gritante, de choque, os entrepostos globalizados que dão destino ao circuito mundial da produção, em escala planetária. Elas querem de volta a mesma ordem de produção, recusa de sentidos e da alteridade de mundos e razões ambientais, que gerou mesmo o vírus pandêmico, o primeiro sintoma universal da crise impensável do mundo da mercadoria, o Capitalismo, de nosso tempo.

Antes da crise econômica global de 2008, gerada, com se sabe, pelos terroristas milionários do mercado financeiro de Wall Street, que desorganizou grande parte dos circuitos mundiais de apostas e de produção de valor, existiu uma grande festa jovem, excitada e excessiva, que não podia parar. Era a “república mundial” da noite eletrônica, com meca em Berlin, que convocava a juventude hedonista do tempo e a antiga contracultura jovem para um mesmo espaço maníaco de agitação e gozação permanentes. Aquela ação e sujeitos que existiam para a diversão conspícua não podia parar nem de noite nem de dia. Dançando e gozando sem parar, ela criava zonas de esperas existenciais como consumo de prazer industrializado liberado, o novo estatuto da música e das drogas no mundo, que mantinha jovens ao mesmo tempo celebrando a festa do tempo presente e encenando esteticamente a sua ruína, também onipresente, como verdadeiros punks de butique globais. Entre a ausência de emprego, a oferta mundial de imagens, informação e gozos das infinitas coisas geradas pelo tempo do mundo, e a vida toda deslocada para as micro-telas da internet pessoal global, a solução de compromisso social passou a ser celebrar permanentemente, se agitar sem parar, ser feliz por compulsão, vencendo a sociedade do cansaço pelo prazer do excesso, noite e dia, dia e noite. Forçava-se o gozo, com a pulsação da música eletrônica como dispositivo de um corpo em êxtase e suas drogas sintéticas, tomadas em escala industrial, para nos convencer, agora colonizando o afeto e deformando o sonho, que o mundo é bom. O êxtase mundial da subjetivação da balada eletrônica encontrava sua sociologia na ideia de produzir sem parar, sem silêncio, intimidade ou pensamento, sobre a ruína universal do mundo do trabalho e das guerras do poder de produção dos refugiados mundiais, que aqueles jovens conheciam bem.

Como eu disse em outro momento – em um livro que aprofunda o estudo da estética maníaca da afirmação do prazer como indústria, e da recusa performática do terror como estratégia de sobrevivência, A música do tempo infinito, (Cosac e Naify, 2014) –, esta tendência de ocupar o desejo com os objetos técnicos pulsantes do tempo, música eletrônica, massa imaginária pulsante na internet e drogas sintéticas e recreativas, tendia a dissolver os limites entre dia e noite – sono, sonho, despertar e pensamento –  em um novo estatuto de subjetivação, de transe técnico, festa contínua a favor de tudo o que existe. Bem como, com outra perspectiva da mesma coisa, o professor de arte e teoria em Columbia, Jonathan Crary, nos deu a ver, no mesmo momento, em seu 24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono. Como se sabe, um dos efeitos do isolamento social e da recolha histórica das pessoas em casa do ano de 2020, foi o imenso e generalizado sono. Ao avesso do mundo explosivo e massivo de uma agitação permanente, cujos circuitos mundiais das baladas eletrônicas sem fim foram um dos campos de imanência e apresentação, as pessoas reestabeleceram durante o isolamento o tempo  regressivo do corpo, pessoal e inconsciente, do sono e do sonho. O que pressupõe o privilégio de classe de se ter casa, cama, um cuidado básico e um tempo livre, sem a invasão da produção, para se poder dormir, e dormindo, sonhar. Da agitação maníaca de um mundo em crise, que dança sobre o abismo da sua própria destruição, os homens – a quem foi permitido por acaso de classe –  recuaram ao tempo indefinido e silencioso do sono, do inconsciente esparramado sobre o ser e sobre o mundo e da agitação secreta da metafísica  do sonhar– a realização poética, narrativa, cinematográfica, imanente ao sonho. Dormiram e sonharam, para poder despertar de um pesadelo social muito mais profundo. O sonho, que pressentia mesmo o contato com a peste, dizia Artaud. A peste, que é o mundo.

Quem se atirou às festas, e hoje morre sozinho de modo cruel às portas de uma UTI em caos, não suportou retornar à política do sono e do sonho, da sustentação de condições para o sono e da necessária intimidade do sonho, e seu necessário segredo, ou mistério. Como a mercadoria global em febre e festa permanente, estas pessoas também precisaram gozar na exposição dos corpos como objetos para a visão do outro, e na fantasia, própria ao capital, de que tudo o que existe nesse mundo, que se produz assim, necessita ser celebrado, até o fim.

III

Assim Bolsonaro e seu senso comum grosseiro sobre a vida conservadora sobre o capitalismo tardio, essa tentativa de reafirmação de ilusões perdidas de poder imaginário de classe e do poder comum do mercado como tudo o que importa no mundo, está simplesmente a favor do que muitos internalizaram como sendo a verdade natural da máquina do mundo, seu desejo de mundo. O hipnotismo do líder ganha poder ao confirmar o desejo de todos de que o mundo não pare e não tenha parado, e que podemos prosseguir nosso compromisso com a sua reprodução infinita, gozando ilimitadamente o regime geral da mercadoria, o que de fato se adora. No entanto, entre o amor ao líder e o gozo da celebração do mercado espetacular como a própria natureza humana, há um elemento especial que Bolsonaro põe em cena, para a tragédia do genocídio à brasileira, que nos é praticamente único. Um campo de sentidos reacionários fortes e muito violentos, de longa duração e tradição, que diferencia o espaço social constituído desde a história do Brasil de toda ordem de leitura moderna, científica ou crítica, de uma grande comoção e risco social como vivemos.

Só há algo semelhante ao que o Brasil realiza como maquinaria biopolítica exclusiva nos Estados Unidos de supremacistas brancos de Donald Trump. Um país que também, como aqui, condenou centenas de milhares de americanos à morte, pelo sadismo objetivo de uma cultura em que o direito à saúde não é universal, pela arrogância negacionista narcísica de seu líder, apoiado em seus grupos de extrema direita, cujo poder pressuposto e caprichoso era mais importante do que a vida de seus concidadãos.

O ponto de força histórica para a política da morte é o seguinte: não por acaso EUA e Brasil foram os dois grandes países americanos de colonização europeia – um branco, modernizado e protestante, outro branco, de tipo ancien régime e católico – que se formaram com e através da escravidão colonial ativa, como própria forma de produzir riqueza e sociedade, em seus próprios territórios nacionais. No entanto, lá, hoje, não exatamente como aqui, forças sociais de responsabilidade, de técnica, de ciência e de compromisso coletivo se organizaram para combater e vencer o seu sintoma neofascista, neo-escravocrata eu diria, constelado no líder mentiroso e descomprometido com tudo que não seja ele próprio. Aqui temos muitas dúvidas sobre nossas pulsões de vida políticas, aquelas que unem, que agregam, que reconhecem as partes e ampliam a capacidade de pensar o que é comum.

De todo modo, apenas em um país de origem escravista – desde a ordem colonial secular mundial, europeia – um governo e parte importante da sociedade pode dispor de uma outra parte do país para o seu desprezo radical de qualquer natureza de direito comum, até o direito à vida. Só em um país de longa formação escravista uma pequena parte da sociedade, ligada a classes médias que gozam com a própria servidão, senhores do dinheiro que não reconhecem nenhum país e uma cultura radical do autoritarismo, de religiosos e de militares, um grupo cindido da trama de direitos comuns e universais e da mediação científica para o problema global, pode decretar, como política de Estado, que a população se contamine, adoeça e morra, de modo aleatório mas certo.

O neofascismo brasileiro é alimentado inconscientemente pela profunda tradição reacionária, colonial escravocrata, luso monarquista, que cindiu nação de sociedade, riqueza e trabalho escravizado, nas raízes do país. Bolsonaro, capitão do mato do Brasil escravocrata estendido ao agora, tratou os brasileiros exatamente como os senhores e seus agregados do século XIX imperial tratavam o trabalho no país: “vocês só tem valor instrumental para a riqueza que geram, para os outros, e nem um direito a mais”. Se morrerem, é mesmo esse o seu destino. Escravo foi feito para trabalhar, gerar riqueza para o senhor, e depois morrer. Ou seja, não existir nem custar nada à sua “sociedade”, que não lhe pertence de nenhum modo, cindida de todo reconhecimento dos seus direitos e da sua vida. “E daí?”, exclama Bolsonaro rindo excitado frente a sua claque do curralzinho, em uma cena retirada de O bandido da luz vermelha de Rogério Sganzerla (1968), sobre a morte planejada e desejada de centenas de milhares de brasileiros.

*

Reportagem: Chico Alves - Falta da segunda dose de CoronaVac é a cereja do bolo ruim de Pazuello

25.fev.2021 -  O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante declaração à imprensa sobre a falta de leitos em UTI no país - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
25.fev.2021 - O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante declaração à imprensa sobre a falta de leitos em UTI no país Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Colunista do UOL

03/05/2021 16h04

Difícil dizer qual foi a maior barbeiragem do general da ativa Eduardo Pazuello em sua passagem desastrosa pelo Ministério da Saúde. Atraso de meses na compra de vacinas, apoio ao uso de remédios ineficazes contra a covid-19, não utilização de testes para detectar a doença, escassez de oxigênio e kits intubação? São muitas opções de trapalhadas.

Em meio às muitas demonstrações de imperícia administrativa de Pazuello, porém, uma teve consequências importantes que apareceram nos últimos dias.

Em segundos, ministro Ramos resume desorientação do governo na pandemia

A orientação para que os municípios utilizassem todas as doses que receberam da vacina CoronaVac para a primeira aplicação, sem precisar guardar a segunda, foi um dos atos mais irresponsáveis do ex-ministro. Como resultado, cidades de quinze estados tiveram que cancelar a segunda dose, por falta do medicamento.

Desde o início da produção de vacinas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz ficou claro que o envio de insumos importados que servem de matéria-prima para os imunizantes seria irregular, por causa da alta demanda.

A maior parte dos especialistas aconselhou que, apesar da pressão da população, estados e municípios separassem de cada remessa recebida as doses necessárias para usar na segunda rodada.

Apesar disso, em 21 de março, dois dias antes de deixar o cargo, Pazuello autorizou a Secretaria de Vigilância em Saúde a orientar governadores e prefeituras no sentido de utilizar toda a vacina recebida para a primeira dose.

O resultado é que o já confuso plano de imunização do governo federal ficou ainda mais bagunçado. Nas últimas semanas, pessoas que estavam à espera da segunda aplicação foram informadas que não há medicamento para isso.

O atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, repassou a batata quente para quem de direito: o seu antecessor. Disse com todas as letras que o atraso "decorre da aplicação da segunda dose como primeira dose".

Essa é uma questão simples que a CPI da Covid pode abordar quando Pazuello estiver por lá, na quarta-feira. Que ele explique por qual motivo tomou a decisão de liberar todas as remessas de CoronaVac para serem usadas como primeira dose.

Entre tantas determinações bizarras durante a gestão, o general "craque em logística" que ocupou o Ministério da Saúde escolheu uma saideira estrondosa para marcar seu adeus à pasta.

Pelas razões erradas, acabou se transformando em um ministro inesquecível.

Os cidadãos que não conseguiram completar a imunização não esquecem dele até hoje.

*

Governador da Flórida revoga todas as medidas relacionadas à covid-19

03/05/2021 17h39

Miami, 3 Mai 2021 (AFP) - O governador da Flórida, Ron DeSantis, encerrou nesta segunda-feira (3) todas as medidas e restrições relacionadas à covid-19 no estado americano, com efeito imediato, citando a eficácia das vacinas.

DeSantis assinou uma lei que invalida as ordens de emergência locais - que impõem restrições devido à covid-19 - a partir de 1º de julho, e também assinou uma ordem executiva que "cobre o período" até a data.

"É o que se deve fazer com base nas evidências", disse o governador republicano em entrevista coletiva em São Petersburgo, no oeste, referindo-se à redução de casos e mortes graças ao avanço do processo de vacinação.

Cerca de 9 milhões de pessoas - de um total de 23 milhões de habitantes - receberam ao menos uma dose da vacina na Flórida, de acordo com o Departamento de Saúde dos Estados Unidos. "A esta altura, as pessoas que não foram vacinadas certamente não foi por falta de disponibilidade", acrescentou.

A vacina foi habilitada na última sexta-feira para todos os maiores de 16 anos sem a necessidade de comprovação de residência no estado, documento que era exigido desde janeiro devido à alta demanda inicial.

Isso possibilitou a vacinação para pessoas em situação irregular, que tinham dificuldade em comprovar sua residência e do chamado turismo vacinal.

DeSantis criticou as rígidas medidas de segurança que ainda existem em outros estados do país.

Ele disse que, a esta altura, aqueles que ainda precisam "vigiar" os habitantes, "estão afirmando que não acreditam em vacinas, não acreditam em dados, não acreditam na ciência".

As vacinas Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson estão disponíveis, em muitos casos, em centros federais, estaduais e municipais, além de várias farmácias e supermercados com seções farmacêuticas.

DeSantis acrescentou que nem o estado, nem os governos municipais e distritais podem fechar negócios por não cumprimento das medidas contra a pandemia.

A lei também proíbe as empresas de exigirem "passaportes de vacina" de seus funcionários ou clientes, algo que o governador já havia estabelecido por decreto no dia 2 de abril.

A medida coincide com a recente decisão dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) de permitir o reinício das atividades dos cruzeiros em meados de julho, desde que 98% da tripulação e 95% dos passageiros estejam vacinados.

Não ficou claro como os requisitos do CDC coexistirão com esta nova lei estadual da Flórida.

Após o anúncio de DeSantis, funcionários de governos locais criticaram sua decisão.

"A ordem basicamente afirma que a crise da covid terminou no estado da Flórida", disse o prefeito democrata de Miami Beach, Dan Gelber, ao jornal local Miami Herald.

"Por nenhum conjunto de critérios objetivos estamos seguros ainda", acrescentou.

Nesta segunda-feira, a Flórida registrou cerca de 3.000 novos casos de coronavírus e 41 mortes. Ao todo, 36.000 pessoas morreram no estado desde o início da pandemia.

*

Entenda o que acontece em El Salvador e o apoio de Eduardo Bolsonaro

O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tem grande popularidade e apoio no Congresso - Jose Cabezas - 1º.nov.2019/Reuters
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tem grande popularidade e apoio no Congresso Imagem: Jose Cabezas - 1º.nov.2019/Reuters

Colaboração para o UOL

03/05/2021 13h04

crise política em El Salvador chamou atenção no mundo todo, neste final de semana. E no Brasil, isso ganhou destaque por causa de uma publicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL). Esses dois fatos acendem um alerta sobre autoritarismo e também revelam contradições.

O que aconteceu no final de semana?

Primeiro é importante entender o que aconteceu em El Salvador. O presidente Nayib Bukele se aproveitou do alto apoio que tem no Congresso e da alta popularidade para destituir juízes da Suprema Corte do país, assim como o procurador-geral. Eles foram trocados por outras pessoas da confiança de Bukele.

PSOL vai ao STF contra Eduardo Bolsonaro por comentário sobre El Salvador

Traduzindo para a realidade do Brasil, fica mais fácil entender: é como se um presidente, com grande apoio do Congresso e da população, tirasse o poder de todos 11 ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do PGR (Procurador Geral da República). Dessa forma ele teria controle sobre poderes judiciais que podem fiscalizá-lo.

Por que Eduardo Bolsonaro elogiou Bukele?

Há muito tempo, Eduardo faz ataques contra o STF. Em outubro de 2018, ele chegou a dizer que bastaria um soldado e um cabo (militares) para fechar a corte. E desde que o pai dele, Jair Bolsonaro (sem partido), foi eleito como presidente, as críticas só aumentaram.

Portanto é natural que Eduardo apoie um político que conseguiu atacar o poder judiciário. Existem outras semelhanças entre Bukele e o governo Bolsonaro. Ambos conseguiram poder ao se apresentarem como alternativa à política tradicional. E utilizam as redes sociais como principal forma de comunicação com a massa.

No Twitter, Eduardo destacou que Bukele tem apoio de parlamentares e publicou uma crítica indireta ao STF. "Juízes julgam casos, se quiserem ditar políticas que saiam às ruas para se elegerem".

Eduardo escreveu que tudo foi constitucional, mas o IDEA (Instituto por Democracia e Assistência Eleitoral) alega que houve violação da constituição salvadorenha nos artigos 85 e 172, inciso 3º. O órgão recomendou que Bukele volte atrás para "colocar em marcha um processo de diálogo para buscar uma saída democrática, pacífica e apegada a legalidade".

Qual é a contradição?

Existe uma diferença importante entre Bukele e o governo Bolsonaro: o presidente de El Salvador nunca negou a gravidade da pandemia de covid-19 e tomou diversas medidas para tentar controlá-la no país. Já o governo Bolsonaro adota o negacionismo e não estimula medidas simples de controle do coronavírus, como evitar aglomerações e usar máscaras.

As medidas de Bukele na pandemia criaram a crise política atual. Ele é acusado de usar a situação para aumentar o autoritarismo. Militares receberam ordens para evitar aglomerações a todo custo. E foram criados centros de contenção para deter pessoas contaminadas ou com suspeita de infecção. Existem denúncias de que esses locais não têm estrutura adequada e até são usados como instrumento político.

A Suprema Corte queria tomar atitudes contra esses locais e avaliar outras medidas do presidente no combate à pandemia. Por isso Bukele reagiu com a destituição dos juízes.

O que vai acontecer em El Salvador?

Desde que foi eleito como presidente, Bukele sempre foi visto com ressalvas por órgãos internacionais, por causa de pensamentos autoritários. E mesmo antes da pandemia ele já tinha colocado essas ideias em prática, pois invadiu o parlamento salvadorenho acompanhado de militares armados para pressionar deputados.

Agora essa destituição da Suprema Corte aumentou o foco contra ele. A vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, expressou "profunda preocupação" com a democracia de El Salvador.

A OEA (Organização dos Estados Americanos) criticou a decisão de Bukele e advertiu em um comunicado que, "quando as maiorias impõem uma visão única e uniformizada para o restante do sistema político, estão prejudicando os princípios da democracia".

Mas por enquanto Bukele não mostra intenção de recuar. Ele tem publicado nas redes sociais que está "fazendo história" e alega que tomou essa decisão para proteger o povo durante a pandemia.

*

8 medidas cruciais contra o coronavírus (que está mais presente no ar do que nas superfícies) - BBC News Brasil

  • María Cruz Minguillón
  • The Conversation*
Ilustração de um homem usando uma máscara cercada por sprays
Legenda da foto, Os aerossóis permanecem flutuando no ar por minutos ou horas e, nesse tempo, podem percorrer vários metros

Que a covid-19 é transmitida principalmente pelo ar é uma realidade indiscutível neste momento.

Ela consegue isso através dos agora famosos aerossóis, que nada mais são do que pequenas partículas de saliva ou fluido respiratório emitidas pelas pessoas quando respiram, falam, gritam ou tossem.

Embora esteja claro que os aerossóis emitidos por pessoas saudáveis ​​não são um problema, aqueles emitidos por pessoas infectadas podem conter vírus. O problema é que eles permanecem flutuando no ar por minutos ou horas e, nesse tempo, podem se mover vários metros.

Em ambientes internos mal ventilados, os aerossóis de uma pessoa infectada são distribuídos por todo o espaço, com o risco de outras pessoas serem infectadas ao inalá-los. O ar de uma sala fechada funciona como uma piscina: se houver uma fonte que coloca água com coloração (nosso vírus) na piscina, depois de um tempo toda a água da piscina (nosso ar) terá mudado de cor. Não importa se estou perto ou longe da fonte: a água estará colorida.

Como sabemos tudo isso? Além do conhecimento pré-pandêmico da dinâmica de fluidos e aerossóis, no último ano, vários estudos foram realizados. Alguns deles detectaram o vírus SARS-CoV-2 infeccioso no ar de ambientes internos. Experimentos com animais mostraram que o contágio existe mesmo sem contato algum.

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Uma mulher com uma máscara no rosto segurando outra máscara
Legenda da foto, Uma máscara mal ajustada (com lacunas entre a borda da máscara e o rosto) pode ver sua eficácia cortada pela metade

Vários eventos de supercontágio — em que uma única pessoa infecta muitas — que só podem ser explicados pela transmissão de aerossol, também foram estudados.

Foi observado que ser infectado em ambientes fechados é 20 vezes mais provável do que ao ar livre, o que novamente só pode ser explicado pela transmissão de aerossol. A revista acadêmica de saúde The Lancet publicou recentemente um artigo que não deixa dúvidas quanto à importância da via de transmissão por aerossóis.

Sabe-se que as pessoas infectadas são principalmente contagiosas antes de apresentarem sintomas (pré-sintomáticos) ou quando sequer apresentam sintomas (assintomáticos). Assim, é impossível, na ausência de testes com diagnóstico imediato, confiáveis ​​e abundantes, saber quem é contagioso e quem não é. Portanto, é preciso agir como se todas as pessoas fossem. Temos que nos proteger continuamente.

A desinfecção de superfície faz sentido?

Por uma série de razões, as transmissões por superfície e por gotículas por muito tempo foram consideradas as principais formas de contágio, apesar da falta de evidências.

A transmissão por superfície ocorre quando uma pessoa toca uma superfície que contém vírus e, em seguida, toca seus olhos, nariz ou boca. As gotas são grandes partículas emitidas ao falar, tossir ou espirrar, que podem atingem os olhos, entrar no nariz ou na boca de outra pessoa. Por esse motivo, as medidas adotadas se concentraram principalmente na desinfecção de superfícies e na proteção contra gotas (distanciamento ou barreiras físicas).

Mas a realidade é que a principal transmissão é por aerossóis, também em curtas distâncias. Os Ministérios da Ciência e da Saúde da Espanha publicaram relatórios sobre a transmissão de aerossóis no final de 2020, embora as conclusões não tenham se refletido muito nas medidas aplicadas desde então.

Um menino brincando com uma pipa em um parque
Legenda da foto, Atividades ao ar livre devem ser promovidas. Isso implica facilitar o uso de parques e jardins e ficar de olho em 'falsos ambientes externos', como terraços fechados

É preciso mudar a estratégia. A descoberta da transmissão via aerossol do SARS-CoV-2 não é uma má notícia. O SARS-CoV-2 foi transmitido dessa forma desde o início da pandemia.

Ignorar isso nos levou a direcionar esforços erroneamente. Saber qual é a principal forma de transmissão do covid-19 é nossa melhor ferramenta para evitá-lo.

Vários artigos científicos refletem isso. A própria revista Nature, em seu editorial de fevereiro de 2021, pediu mudanças: "O coronavírus está no ar: há muita ênfase nas superfícies".

Final de YouTube post, 1

Temos que fazer isso agora. Como? Mais de 100 cientistas espanhóis identificaram oito pontos-chave para acabar com a pandemia. É um consenso alcançado entre várias áreas do conhecimento como virologia, engenharia, ciências ambientais ou medicina. São explicados numa carta, promovida pelo grupo Aireamos, dirigida às autoridades competentes na Espanha, centrais e regionais.

Medidas prioritárias

1. As máscaras de uso geral precisam ser eficazes. É preciso identificar e retirar do mercado as que não o são e enfatizar a necessidade de um bom encaixe no rosto. Uma máscara mal ajustada (com lacunas entre a borda da máscara e o rosto) pode ter sua eficácia cortada pela metade. Em interiores compartilhados, incluindo, é claro, locais de trabalho, ela deve ser sempre usada, independentemente da distância entre as pessoas.

2. Atividades ao ar livre devem ser promovidas. Isso implica facilitar o uso de parques e jardins e ficar de olho em 'falsos ambientes externos', como terraços fechados.

3. Os espaços internos devem ser ventilados com ar externo contínua e suficientemente, usando ventilação natural ou mecânica. Na analogia da piscina, isso significa adicionar água limpa à nossa piscina de forma contínua, e gradualmente retirando a água colorida. Quanto? O suficiente para que a piscina nunca fique muito escura, apesar de a fonte com água colorida não parar.

Os critérios devem ser claramente definidos. Até a OMS publicou recomendações sobre ventilação, embora ainda não explique claramente como ocorrem as infecções.

Um homem abrindo uma janela
Legenda da foto, Os espaços internos devem ser ventilados com ar externo contínua e suficientemente, usando ventilação natural ou mecânica

4. O CO₂ interno deve ser medido para verificar a ventilação adequada. O CO₂ é emitido junto com os aerossóis quando respiramos, então é um bom indicador da quantidade de ar usado em um local. É a melhor solução atualmente disponível para indicar o risco de contágio.

5. É preciso que se informe sobre a eficácia e os riscos potenciais de várias tecnologias de purificação do ar. A filtragem (filtros conhecidos como HEPA) é a tecnologia preferida para remover aerossóis respiratórios com eficácia.

6. Atenção especial deve ser dada aos centros educacionais, como escolas e universidades. São espaços com características que propiciam eventos de super contágio: muitas pessoas, muitas horas por dia e às vezes pouca ventilação.

Professor e criança com máscara em uma sala de aula em Havana
Legenda da foto, Os centros educacionais são espaços com características que promovem eventos de super contágio

7. Devem ser desenvolvidos e aplicados critérios, procedimentos e regulamentos claros e eficazes para reduzir o risco de contágio. O primeiro pode ser um limite de 700-800 ppm de CO₂ em interiores compartilhados (até 1000 ppm se houver filtragem suficiente).

8. Informação de qualidade é a melhor defesa. São necessárias mensagens claras sobre como o vírus é transmitido e como nos proteger. É fundamental que a população entenda a lógica das regras para adotar o comportamento ideal em cada situação.

Não é difícil. Vamos fazer isso.

*Este artigo apareceu originalmente em The Conversation. Você pode ler a versão original e ver os links para estudos científicos aqui.

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