REPUBLICANOS TRUMP

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Isolado em seu resort na Flórida, Trump comanda republicanos com mão de ferro

Cientista lança livro explicando por que JEJUM e RESTRIÇÃO calórica promovem a longevidade e bem-estar

Caetano vence na Justiça novamente Olavo de Carvalho, que não quer pagar R$ 2,9 milhões ao artista.

O astrólogo ainda pode entrar na Justiça com embargos de declaração para tentar um novo recurso.

'Calçadão' com restaurantes e piscinas com borda infinta: conheça o navio Norwegian Prima

Maior ataque hacker a um oleoduto nos EUA já ameaça o abastecimento de gasolina no país

Renan aponta mentira de Wajngarten: campanha com Otávio Mesquita era contra isolamento social

Jurando dizer a VERDADE na CPI, Wajngarten diz que é GUIADO por Malafaia e RR Soares

LIXO no BRASIL _______________________ a MONTANHA de LIXO não para de crescer - e avança em nossa direção - ATOLEIRO NACIONAL


Flavia Boggio: Bolsonaro cava um poço sem fundo para ter uma cova e enterrar o país ___ Pandemia foi uma excelente oportunidade para governo acelerar as obras de aprofundamento do buraco

Martin Wolf: A luta pela sobrevivência da democracia americana ___ Enquanto poder de Trump sobre o Partido Republicano aumenta, Biden joga com apostas enormes, e sabe disso

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'Calçadão' com restaurantes e piscinas com borda infinta: conheça o navio Norwegian Prima

Novo transatlântico da companhia de cruzeiros NCL começará a navegar em meados de 2022
Eduardo Maia
12/05/2021 - 08:00 / Atualizado em 12/05/2021 - 09:00
Projeção mostra como será o Ocean Boulevard, área ao ar livre que circunda o Norwegian Prima, futuro navio da Norwegian Cruise Line Foto: Divulgação
Projeção mostra como será o Ocean Boulevard, área ao ar livre que circunda o Norwegian Prima, futuro navio da Norwegian Cruise Line Foto: Divulgação

RIO - Com a pandemia, atividades ao ar livre, áreas abertas mais espaçosas e experiências exclusivas passaram a ser mais valorizadas pelos viajantes. E até parece que foram essas novas exigências que pautaram o Norwegian Prima, futuro navio de cruzeiros da Norwegian Cruise Line, que deve começar a navegar no final de julho de 2022, com a promessa de ser a embarcação mais espaçosa do segmento.

Mas o navio, que terá 295 metros de comprimento, 142.500 toneladas brutas e capacidade para 3.215 passageiros, foi projetado antes mesmo do surgimento da Covid-19. A aposta em aumentar a área ao ar livre e oferecer cabines mais amplas aos hóspedes, portanto, casou com as necessidades atuais. E será aproveitado nos cinco navios da Prima Class, a primeira nova classe da companhia em dez anos, que serão entregues, um por ano, até 2027.

A grande inovação é o Ocean Boulevard, uma área de mais de quatro mil metros quadrados que circunda quase todo o navio, numa espécie de calçadão à beira-mar, que conta com áreas de convivência, espreguiçadeiras, piscinas (algumas com borda infinita) e um espaço com mesas e cadeiras para restaurantes.

Uma das piscinas de borda infinita instaladas no Ocean Boulevard, a área ao ar livre que circunda o Norwegian Prima, futuro navio de cruzeiros da Norwegian Cruise Line Foto: Divulgação
Uma das piscinas de borda infinita instaladas no Ocean Boulevard, a área ao ar livre que circunda o Norwegian Prima, futuro navio de cruzeiros da Norwegian Cruise Line Foto: Divulgação

Localizado no oitavo deck, um andar relativamente baixo, o que aproxima ainda mais os hóspedes da água, o Ocean Boulevard é uma versão ampliada (na verdade, duplicada) do The Waterfront, área aberta que já existia nos navios das classes Breakaway e Breakaway Plus, os mais modernos da companhia até agora.

Essa área aberta dará acesso a alguns dos restaurantes a bordo, reunidos no Indulge Food Hall, que contará com 11 opções gastronômicas. Elas vão de um restaurante especializado em culinária do sul dos EUA, o Q Texas Smokehouse, a um Starbucks. Entre os restaurantes inéditos em navios da NCL estarão o Seaside Rotisserie, o Nudls (com pratos de macarrão do mundo todo), e  o indiano e vegetariano Tamara. Fora dessa praça de alimentação O Ocean Boulevard abrigará outros três restaurantes: Onda By Scarpetta, Los Lobos e The Local Bar & Grill.

O Ocean Boulevard conta ainda com mais quatro áreas temáticas, todas inovações do Prima. The Concourse é um jardim de esculturas ao ar livre, com seis instalações projetadas por Alexander Krivosheiw apresentando arte imersiva inspirada na mitologia antiga e formas abstratas contemporâneas. Na Infinity Beach, hóspedes também podem relaxar em duas piscinas infinitas, uma localizada em cada lado do navio.  As duas pontes de vidro Oceanwalk têm tudo para estarem entre os pontos mais fotografados do transatlântico, assim como o lounge ao ar livre La Terraza.

Mesas e cadeiras de bares e restaurantes do navio Norwegian Prima que terão acesso à área ao ar livre Ocean Boulevard Foto: Divulgação
Mesas e cadeiras de bares e restaurantes do navio Norwegian Prima que terão acesso à área ao ar livre Ocean Boulevard Foto: Divulgação

O navio também irá oferecer 13 categorias de suítes, a maior variedade do setor, aumentando o espaço das cabines internas e dos banheiros em relação aos já oferecidos em outros transatlânticos da marca.

- Sem dúvida o Norwegian Prima é um divisor de águas na indústria. A combinação de espaço com áreas de lazer e a grande oferta de opções gastronômicas fazem dele único no segmento de navios contemporâneos. Esse é o futuro dos cruzeiros. E algumas coisas que estamos testando pela primeira vez no Prima poderão ser implantadas nos navios mais antigos, quando passarem por reformas - afirmou o CEO da Norwegian Cruise Line, Harry Sommer.

Na visão de Estela Farina, diretora geral da companhia no Brasil, o navio parece ter sido feito "por encomenda ao gosto brasileiro" pela grande oferta de áreas ao ar livre. E ressalta o valor das inovações presentes a bordo.

Imagem mostra como será o Norwegian Prima, futuro navio de cruzeiros da Norwegian Cruise Line Foto: Divulgação
Imagem mostra como será o Norwegian Prima, futuro navio de cruzeiros da Norwegian Cruise Line Foto: Divulgação

- Se a gente considerar que a pandemia acelerou algumas tendências, talvez essa seja uma tendência também, de buscar um pouco mais de exclusividade, de ter experiências diferentes a bordo. Brasileiro já gosta de navio novo, mas com essas características tenho certeza que vai ser um sucesso - considera.

Ela destaca também o design italiano do Prima, que foi Construído pelo estaleiro Fincantieri, em Marghera, Itália. E que teve a arte do casco (marca registrada da frota da companhia) desenhada pelo grafiteiro italiano Manuel Di Rita, o “Peeta”.

A primeira temporada do navio acontecerá em agosto de 2022, o norte da Europa e no Reino Unido, com cruzeios saindo de Amsterdã, na Holanda, e de Copenhague, na Dinamarca, e explorando destinos como os fiordes noruegueses e o Mar Báltico.

Em 23 de setembro, o Prima fará uma viagem de 12 dias pelo Atlântico Norte, passando por Escócia, Islândia e Canadá, até chegar aos Estados Unidos, que será sua base para a tempora da inverno no Hemisfério Norte. De Nova York, fará cruzeiros para o arquipélago de Bermudas. E de Galveston, no Texas, Orlando e Miami, na Flórida, fará roteiros pelo Caribe e pelas Bahamas.

Em maio de 2023, o navio voltará para o norte da Europa, onde fará diversos roteiros, das mais variadas durações pela Escandinávia, Reino Unido e Irlanda.

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Isolado em seu resort na Flórida, Trump comanda republicanos com mão de ferro

Partido mergulha de cabeça em fantasia de que eleição foi roubada, punindo membros que discordam, e consequências podem ser graves
Lisa Lerer, do New York Times
12/05/2021 - 04:30 / Atualizado em 12/05/2021 - 11:01
Então presidente americano Donald Trump ergue o punho cerrado, em foto de dezembro de 2020 Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
Então presidente americano Donald Trump ergue o punho cerrado, em foto de dezembro de 2020 Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

WASHINGTON - Banido do Facebook, isolado em seu resort em Mar-a-Lago, na Flórida, e ridicularizado por lançar um novo site de aparência amadora, Donald Trump praticamente não foi visto pelo público na semana passada. No entanto, foi nesse período que a capitulação do Partido Republicano ao ex-presidente ficou mais clara do que nunca, assim como os estragos na política americana provocados por suas mentiras de que a eleição foi roubada.

Em Washington, os republicanos agiram nesta quarta-feira para tirar a deputada Liz Cheney de sua posição de liderança na Câmara, punindo-a por ter atacado as falsas alegações de Trump sobre fraude e descrito-as como uma ameaça à democracia. Congressistas na Flórida e no Texas levaram adiante novas medidas que podem restringir o direito de voto, dando eco à narrativa fictícia de Trump e de seus aliados de que o sistema eleitoral foi adulterado contra ele. E, no Arizona, o núcleo estadual do Partido Republicano deu início a uma bizarra reavaliação dos resultados da eleição presidencial de novembro, que já envolveu a busca de vestígios de bambu nas cédulas usadas.

Os dramas turbulentos mostram como os Estados Unidos, seis meses após a eleição, ainda se debatem com as consequências de um ataque sem precedentes feito por um candidato derrotado contra um princípio fundamental da democracia americana: o de que as eleições do país são legítimas.

Os episódios também fornecem evidências nítidas de que o ex-presidente não só conseguiu esmagar qualquer dissidência dentro de seu partido como também persuadiu a maior parte dos republicanos a fazer uma gigantesca aposta: Trump convenceu os seus correligionários de que a maneira mais eficaz para recuperar o poder é por meio de seu estilo confrontador, de incitações à divisão racial e de teorias de conspiração. Fica de lado, assim, o projeto de convencer os eleitores indecisos por meio de políticas substanciais sobre a pandemia, a economia, a saúde e outras questões.

A lealdade ao ex-presidente persiste apesar de ele ter incitado seus apoiadores antes do motim de 6 de janeiro no Capitólio, com seus correligionários ignorando, atenuando ou, em alguns casos, aceitando tacitamente o ataque mortal ao Congresso.

— Acabamos ficando tão longe de qualquer proposta sensata — disse Barbara Comstock, uma autoridade de longa data do partido que perdeu sua cadeira no Congresso representando os subúrbios da Virgínia após uma reação a Trump nas eleições de meio de mandato de 2018. — Há uma doença real que está infectando o partido em todos os níveis. Agora passamos a simplesmente dizer que o preto é branco.

No entanto, enquanto os republicanos mergulham na fantasia de uma eleição roubada, os democratas ancoram-se na tarefa cotidiana de governar um país que ainda luta para sair de uma pandemia mortal.

Estrategistas de ambos os partidos dizem que a dinâmica totalmente díspar — dois partidos operando em duas realidades diferentes — provavelmente definirá a política do país nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, o presidente Joe Biden enfrenta um desafio mais amplo: o que fazer com o grande segmento do público que duvida de sua legitimidade e com um Partido Republicano cortejando o apoio desse segmento, fazendo avançar projetos de lei que restringem a participação eleitora e talvez minem ainda mais a confiança no processo eleitoral.

Uma pesquisa da CNN divulgada na semana passada descobriu que quase um terço dos americanos, incluindo 70% dos republicanos, disse que Biden não obteve um número suficiente de votos legítimos para ganhar a Presidência.

Assessores da Casa Branca dizem que Biden acredita que a melhor maneira de restaurar alguma fé no processo democrático é demonstrar que o governo pode oferecer benefícios tangíveis — sejam vacinas ou cheques de estímulo econômico — aos eleitores.

Biden previu durante a campanha que os republicanos teriam uma “epifania” assim que Trump deixasse o poder, voltando a ser o partido que ele conheceu durante suas décadas no Senado. Quando questionado sobre os republicanos nesta semana, Biden lamentou que não os entendia mais e parecia um pouco desconcertado com a "minirrevolução" em seus membros.

— Acho que os republicanos estão mais distantes de conseguirem descobrir quem são e o que defendem do que eu pensei que estariam neste momento — disse ele.

Mas, durante grande parte da semana passada, os republicanos exibiram de forma vívida exatamente o que agora representam: o trumpismo. Muitos adotaram a sua abordagem de acenar para as reclamações dos brancos por meio de declarações racistas, e as legislaturas lideradas por republicanos em todos os Estados Unidos estão pressionando por restrições que limitariam o acesso ao voto de maneira desproporcional entre os eleitores negros.

Há também preocupações eleitorais importantes, que podem ter consequências graves. Com seu estilo muito polarizador, Trump motivou a sua base e a de seus detratores, pressionando ambos os partidos a alcançarem um recorde de comparecimento na eleição de 2020. Seu total de 74 milhões de votos foi o segundo maior de todos os tempos, atrás apenas dos 81 milhões de Biden. Trump também mostrou-se capaz de virar seus correligionários contra qualquer republicano que se oponha a ele.

Isso deixou os republicanos convencidos de que devem demonstrar lealdade inabalável a um presidente que deixou o cargo, para assim reterem os eleitores que ele conquistou.

— Gostaria apenas de dizer aos meus colegas republicanos: podemos avançar sem o presidente Trump? A resposta é não — disse o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, em uma entrevista à Fox News esta semana. — Decidi que não podemos crescer sem ele.

De certa forma, o ex-presidente está mais enfraquecido do que nunca. Derrotado nas urnas, ele passa o tempo em seu resort na Flórida jogando golfe e entretendo os visitantes. Ele não tem o púlpito da Presidência, foi banido do Twitter e falhou na semana passada em sua tentativa de recuperar sua conta no Facebook. Ele deixou o cargo com seu índice de aprovação abaixo de 40%, o menor índice final de primeiro mandato para qualquer presidente desde Jimmy Carter em 1979.

Ainda assim, seu domínio sobre os republicanos se reflete do Capitólio aos Parlamentos estaduais. Os legisladores locais e federais que pressionaram o partido a aceitar os resultados da eleição e, portanto, a derrota de Trump, enfrentaram enormes repreensões. Essas ameaças parecem estar tendo um impacto: o pequeno número de deputados republicanos que criticou Trump no passado, incluindo os 10 que votaram por seu impeachment em fevereiro, permaneceu em grande parte silencioso nesta semana, recusando pedidos de entrevista e oferecendo pouco apoio público a Cheney.

Sua provável substituta, a deputada Elise Stefanik, promoveu-se publicamente para o cargo com declarações simpáticas em relação a Trump, concedendo crédito às suas alegações infundadas de fraude em entrevistas com apoiadores de extrema direita do ex-presidente.

Depois de meses sendo alimentada com mentiras sobre a eleição pela mídia conservadora, grande parte do partido passou a considerá-las verdadeiras. Sarah Longwell, uma estrategista republicana que conduz pesquisas com grupos de eleitores de Trump há anos, disse que, desde a eleição, encontrou uma maior abertura para o que chama de "curiosidade sobre o QAnon", uma disposição para aceitar teorias da conspiração sobre eleições roubadas e o suposto Estado profundo.

— Muitos desses eleitores de base estão vivendo em um niilismo pós-verdade, onde você não acredita em nada e pensa que tudo pode ser falso — disse Longwell, que se opôs a Trump.

Embora se apegar a Trump pudesse ajudar o partido a aumentar o comparecimento entre sua base, republicanos como Comstock argumentam que tal estratégia prejudicará o partido em grupos demográficos cruciais, incluindo eleitores mais jovens, eleitores negros, mulheres e moradores dos subúrbios. As lutas intrapartidárias já estão surgindo à medida que prováveis candidatos se acusam mutuamente de deslealdade ao ex-presidente. Muitos líderes partidários temem que isso possa resultar em candidatos de extrema direita vencendo as primárias e eventualmente perdendo as eleições gerais em estados conservadores onde os republicanos deveriam prevalecer, como Missouri e Ohio.

— Não queremos um cenário no qual Trump seja o vencedor entre uma minoria cada vez menor — disse Comstock.— O futuro do partido não está em um homem de 70 anos falando para o espelho em Mar-a-Lago, cercado por todos esses bajuladores atrás de aprovação.

No entanto, aqueles que se opuseram a Trump — e pagaram o preço por isso — dizem que há pouco incentivo político para lutar contra a maré. Criticar Trump, ou mesmo defender aqueles que o fazem, pode deixar os governantes eleitos em uma espécie de terra de ninguém: serão vistos como traidores pelos eleitores republicanos, mas ainda muito conservadores em outras questões para serem aceitos por democratas e independentes.

— Parece que está se tornando cada vez mais difícil para as pessoas se arriscarem e defenderem alguém como Liz Cheney ou Mitt Romney — disse o ex-senador Jeff Flake, que apoiou Biden e foi censurado pelo Partido Republicano do Arizona este ano, durante a apresentação de um painel em Harvard nesta semana: — Cerca de 70% dos republicanos provavelmente acreditam genuinamente que a eleição foi roubada. Isso nos enfraquece. De verdade.

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Cientista lança livro explicando por que jejum e restrição calórica promovem a longevidade e bem-estar

O livro “Vire a chave: perca peso, previna doenças, aumente sua disposição e viva mais”, de James W Clement, lançado este mês pela Editora Globo
Mateus Potumati
12/05/2021 - 04:30 / Atualizado em 12/05/2021 - 07:57
O livro “Vire a chave: perca peso, previna doenças, aumente sua disposição e viva mais”, de James W Clement Foto: Darius Bashar on Unsplash
O livro “Vire a chave: perca peso, previna doenças, aumente sua disposição e viva mais”, de James W Clement Foto: Darius Bashar on Unsplash

A busca pela fonte da juventude mexe com a fantasia humana desde que nos aventuramos a descer das árvores. A longevidade, porém, tem papel tradicionalmente secundário na história da ciência. “Ideias desse tipo eram mais associadas a curandeiros e charlatães do que a cientistas”, brinca o norte-americano James W Clement, pesquisador do tema há 12 anos.

Clement integra um movimento que colocou a extensão da vida no centro das atenções. Em 2017, o laboratório que ele dirige ganhou projeção ao divulgar um estudo sobre supercentenários. A chave para o envelhecimento saudável, diz, está em um mecanismo celular chamado mTOR, cujo funcionamento é essencial para equilibrar crescimento e regeneração. Esse é o ponto de partida do livro “Vire a chave: perca peso, previna doenças, aumente sua disposição e viva mais”, lançado este mês pela Editora Globo.

O que é a “chave” do título do livro?

Em 2013, fui me informar sobre o que diziam as pesquisas médicas sobre a dieta cetogênica e descobri benefícios neurológicos e sanguíneos promissores. Mas não encontrei associação com longevidade, e por isso mergulhei fundo em artigos científicos sobre restrição calórica, jejum intermitente e dieta cetogênica. Cerca de 1.500 artigos depois, tive um estalo: tudo convergia para uma via de sinalização celular chamada mTOR. Quando essa via estava desligada, se iniciava um processo celular muito vantajoso chamado autofagia. Para minha sorte, já havia grandes grupos populacionais que jejuavam e limitavam calorias para “virar a chave”, com resultados notáveis de saúde e longevidade, como os veganos adventistas de Loma Linda, na Califórnia; os nativos de Okinawa, lugar com a maior densidade de centenários no mundo; e os monges ortodoxos do Monte Athos, na Grécia, que seguem um protocolo de jejum religioso metade do ano.

Como funciona a autofagia?

Quando os níveis de oxigênio, proteínas e glicose caem muito, o mTOR diz às células para reduzirem a atividade e tem início a autofagia, processo de reciclagem de proteínas e descarte de toxinas. Como o consumo de carboidratos refinados aumentou nos últimos 100 anos, muitas pessoas passam décadas sem ativar a autofagia, fator determinante para a maioria das doenças crônicas.

Quais as principais formas de “virar a chave” da autofagia?

É preciso bloquear um dos sinais de ativação do mTOR, e o mais fácil é a glicose — é possível esvaziar o estoque de glicogênio do corpo em no máximo 16 horas. Se você para de consumir carboidratos e limita a ingestão de proteínas, seus níveis de insulina caem, o mTOR não recebe nenhum sinal e o processo para. É assim que o jejum, a dieta cetogênica e a restrição calórica funcionam.

O que as pesquisas recentes dizem sobre o jejum, a restrição calórica e a dieta cetogênica?

Há dezenas de estudos que mostram, por exemplo, que o diabetes tipo 2 pode ser completamente revertido apenas pela adoção de uma dessas três abordagens. Em geral, há dois benefícios principais. O primeiro é que são métodos altamente eficientes para a perda de peso. O outro é que as mitocôndrias deixam de usar glicose para produzir a energia e passam a usar cetonas, um subproduto das gorduras. Esse método de produção de energia é mais limpo e resulta em menos radicais livres.

O que você costuma dizer a quem quer experimentar esse estilo de vida?

Eu falo sobre estratégias diferentes no livro, mas o mais importante é que as pessoas entendam: mudar não está fora do nosso alcance. É possível adaptar seu estilo de vida e ainda comer suas comfort foods de vez em quando, mas restringindo calorias parte do tempo, jejuando de forma intermitente ou fazendo uma refeição desejável por dia, por uma janela determinada de tempo.

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Entrementes, a morte

Por Roberto DaMatta

Num tempo de pandemia negada pela danação do primeiro mandatário, a convivência com a morte transformou-se em rotina. A virose desmoraliza a intencionalidade ligada ao conviver. Esse viver que nem sempre tem sintonia com alegria e hoje, lamentavelmente, encaixa-se como uma luva no sofrer.

Devidamente mascarado, passei pelo Bar do Soares e encontrei meu amigo Mario Batalha desolado com a morte do Paulo Gustavo. A máscara que abafava sua voz, mas não seu sentimento, lhe fazia lembrar que “viver é sofrer”. Essa harmonia desarranjada e escondida em outros lugares, mas que é muito nossa.

— Com tanta gente boa pra ir — falou Mario Batalha. — Por que a morte pandêmica pega justamente o nosso conterrâneo, esse jovem cheio de graça que nos palcos, como uma senhora-mãe de si mesma, fazia rir da rigidez entre masculino e feminino e entre gerações? Esse mestre da esperança, que demonstrava o poder do riso contra ódios e preconceitos.

Aderi e filosofei: a morte chega nos entrementes e todavia... Enquanto dávamos aula, na véspera de um aniversário, um pouco antes do baile, enquanto íamos à praia, ela surge enterrando e suspendendo todos os projetos.

— Seu humor era niteroiense — observava meu triste companheiro.

Quis saber por quê, e Mario discorreu sobre a índole da cidade, que jamais é vista por um Rio aristocrático e maravilhoso, corado por um Pão de Açúcar com bondinho e pelo abençoante Cristo Redentor. De fato, relembrei, dizem que o melhor de Niterói é a vista do Rio; todavia, nós, enraizados niteroienses, sabemos que a vista é — quem sabe? — a derradeira graça do Rio.

Um Rio hoje perdido entre administradores presos, filicídios, chacinas, balas perdidas, transporte público em colapso e seus pouco estudados traumas sociopolíticos. O de deixar de ser a capital do Reino, do Império, da República e uma grandiosa cidade-estado; para virar mera capital de um estado, como sempre foi a Niterói que buscava no Rio sua eventual grandeza.

“Numa aldeia, todo mundo é famoso”, dizia o famoso sociólogo Erving Goffman. Paulo Gustavo surgiu na aldeia da Rua Moreira César, em Icaraí, e, muito antes de se imaginar Dona Hermínia, uma jovem Déa Lúcia frequentava nossa casa iluminada pelo piano de minha mãe. Naquele tempo, em aldeia, éramos famosos, mas nem todo mundo virou uma “peça” que arrebatou tanta gente, transformando o futuro de sua mãe, Déa Lúcia, quando o filho ficou famoso no país.

Como se vira famoso fora de uma aldeia? Não sei, mas suspeito que a fama — o êxito ou a saída para o mundo do sucesso — tem a ver com talento e “graça” nas artes e esportes e “carisma” na vida pública.

A “graça” desse niteroiense ator-diretor-autor era fabricar riso. Suas impagáveis improvisações eram o entrementes do ato — o “caco” fora do texto. O gesto e a fala não previstas que animam a cena com o brilho, o talento que, após o suspense cênico, leva à explosão do riso. O improviso denuncia o real na representação e a teatralidade no real. Esses deslocamentos — que surgem no vagabundo solitário e desamparado de Chaplin e na figura materna brasileira desenhada por Paulo Gustavo — têm uma profunda relação com o imperativo humano de viver muitos papéis e — entrementes — ter uma só vida. Os papéis continuam, mas a vida termina...

As portas arrombadas por Paulo Gustavo desnudam os péssimos atores dos nossos palcos políticos. A graça que desmoraliza e sublima os preconceitos é básica neste Brasil formalista, repleto de “vossas excelências”.

Num Brasil hoje presidido por um ator que recusa, sabota e desonra o seu papel, as graças das comédias onde surge o carnavalesco são porradas de ar puro.

Se sabemos que não é fácil mudar, pelo menos podemos rir da nossa densa ignorância de nós mesmos. Essa negação da negação, como insistia Hegel. Perdemos, reitero, quem ajudava a lembrar crítica e alegremente um Brasil que se recusa a ver a si mesmo como autoritário, preconceituoso e hierárquico.

A palavra “graça” significa — como sua irmã “carisma” — um dom espiritual doado pelos poderes superiores. No mundo diário, falamos em talento ou virtuosidade. A grande graça da “graça” é o riso que sincroniza e contagia, criando uma solidariedade especial. Rir é uma questão sociopsicológica intrigante, investigada por filósofos, psicólogos e antropólogos; e também por Charles Chaplin (o Carlitos inglês que jaz dentro de cada um de nós). Pois o riso que faz chorar, e até mesmo morrer, tira a alma do corpo. Ele descobre as muitas almas divergentes num mesmo corpo.

A genialidade de Paulo Gustavo consistia precisamente nessa rara capacidade de reviver o riso. Esse rir inventado, diz um mito, pelo diabo. Gargalhada que os poderosos — com seus títulos, roubalheiras, ignorâncias e hipocrisia — não suportam.

Minha irmã, Ana Maria, e este escrevinhador enviamos nossos sentimentos a Déa Lúcia — ou melhor, a Dona Hermínia — e família.

Roberto Damatta - assinatura

Por Roberto DaMatta

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Caetano vence na Justiça novamente Olavo de Carvalho, que não quer pagar R$ 2,9 milhões ao artista

Caetano e Olavo

Caetano Veloso acaba de derrotar novamente Olavo de Carvalho na Justiça, numa ação que se iniciou em 2017 quando o escatológico bolsonarista publicou seguidos posts nas redes sociais classificando o artista de "pedófilo".

O desembargador José Giordani, da 12ª Câmara Cível do TJ-RJ, negou um novo recurso de Olavo, que não quer pagar a Caetano a indenização de R$ 2,9 milhões por danos morais a que foi condenado.

Mas a disputa ainda não chegou ao fim. O ex-astrólogo ainda pode entrar na Justiça com embargos de declaração para tentar um novo recurso.

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Maior ataque hacker a um oleoduto nos EUA já ameaça o abastecimento de gasolina no país

Bloqueio do duto causa 'congestionamento' nas refinarias. Cidades e aeroportos buscam combustível por barcaça e caminhão
Da Bloomberg News
12/05/2021 - 12:35 / Atualizado em 12/05/2021 - 13:16
"Desculpe, estamos sem gasolina", diz o aviso em posto no estado da Virginia, nos EUA Foto: KEVIN LAMARQUE / REUTERS
"Desculpe, estamos sem gasolina", diz o aviso em posto no estado da Virginia, nos EUA Foto: KEVIN LAMARQUE / REUTERS

WASHINGTON E NOVA YORK - A escassez de combustível está aumentando gravemente em vários estados dos EUA na Costa Leste e no Sul, à medida que os postos de gasolina ficam sem combustível em meio à interrupção sem precedentes do maior oleoduto do país, causada por um ataque hacker. Este seria o maior ataque desse tipo a um oleoduto dos EUA.

Da Virgínia à Louisiana, postos de gasolina estão recusando clientes enquanto os tanques se esgotam em meio ao pânico crescente. E muitas cidades e aeroportos já são obrigados a buscar suprimentos alternativos importados por navios-tanques, barcaças ou caminhões.

Mesmo com a Casa Branca relaxando algumas regras ambientais para permitir que a gasolina para a Costa Leste flua pelos dutos vindo de outras regiões, as refinarias no Texas e na Louisiana começaram a reduzir sua produção por causa do "congestionamento" de combustível provocado pelo fechamento do oleoduto.

Embora a escassez não tenha atingido a área metropolitana de Nova York, os preços no atacado de gasolina e diesel naquele mercado saltaram para a maior alta em dois meses, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Navios para armazenar combustível

E os preços médios da gasolina no varejo nos EUA subiram para os mais altos desde o final de 2014 devido à interrupção, quase chegando a US$ 3 o galão, o que pode pressionar a inflação.

Um distribuidor de combustível da área de Washington D.C. advertiu que a escassez “catastrófica” é iminente e pediu aos funcionários do governo que mantivessem os ônibus escolares fora das ruas e estradas.

Tanques de combustível na empresa Colonial, afetadas pelo ataque de "ransomware" Foto: DRONE BASE / REUTERS
Tanques de combustível na empresa Colonial, afetadas pelo ataque de "ransomware" Foto: DRONE BASE / REUTERS

Quatro dias após o início da crise, a Colonial Pipeline, dona do oleoduto que foi alvo do ataque, só conseguiu reiniciar um pequeno segmento e não espera ser capaz de restaurar substancialmente o serviço antes do fim de semana.

Além disso, a Colonial esclareceu muito pouco sobre seus próximos passos, deixando os refinadores e distribuidores de petróleo no escuro sobre o que pode acontecer nas próximas 48 horas.

As empresas que dependem do oleoduto estão cada vez mais frustradas com a falta de transparência, segundo uma fonte que pediu para não ser identificada.

A Total SE e a Citgo Petroleum Corp. estão entre as refinarias que reduziram a produção de combustível em resposta ao fechamento do oleoduto. Outras — incluindo Valero Energy Corp., Phillips 66 e Marathon Petroleum Corp. — estão alugando navios petroleiros no Golfo do México para armazenar o excesso de gasolina e diesel por até 40 dias, segundo pessoas a par do assunto.

Filas nos postos

Diante das fillas nos postos de gasolina, a administração Biden agiu na terça-feira para tentar diminuir a escassez de gasolina.

A Agência de Proteção Ambiental dispensou os requisitos sobre a volatilidade da gasolina em 12 estados e em Washington, D.C., para ajudar a trazer mais combustível para áreas abastecidas pelo oleoduto da Colonial.

O Departamento de Transporte também anunciou medidas iniciais que poderiam permitir que navios-tanque estrangeiros transportassem gasolina e diesel para os portos da Costa Leste.

Fila de carros para abastecer em posto em Atlanta Foto: Megan Varner / AFP
Fila de carros para abastecer em posto em Atlanta Foto: Megan Varner / AFP

O oleoduto da Colonial é o canal mais importante para distribuição de gasolina, diesel e combustível de aviação nos EUA, conectando refinarias ao longo da Costa do Golfo aos centros populacionais de Atlanta a Nova York.

A cada dia, embarca cerca de 2,5 milhões de barris, montante que supera todo o consumo de petróleo da Alemanha.

Duas semanas para regularização

O incidente de cibersegurança é apenas o exemplo mais recente de ataques a infraestruturas críticas visadas por ransomware. Os hackers estão cada vez mais tentando se infiltrar em serviços essenciais, como redes elétricas e hospitais.

Os casos de ransomware envolvem hackers semeando redes com software malicioso que criptografa os dados e deixa as máquinas bloqueadas até que as vítimas paguem uma taxa de extorsão.

Este seria o maior ataque desse tipo a um oleoduto de combustível dos EUA.

Na modalidade de ataque feito à Colonial, dados são encriptados e depois a empresa é chantageada pelos hackers para pagar um resgate por eles Foto: Pixabay
Na modalidade de ataque feito à Colonial, dados são encriptados e depois a empresa é chantageada pelos hackers para pagar um resgate por eles Foto: Pixabay

Na segunda-feira, o FBI indicou que a culpada pelo ataque poderia ser uma gangue de ransomware conhecida como DarkSide.

Embora os ciberataques sejam cada vez mais usados em todo o mundo como uma arma contra rivais geopolíticos, não havia indicação de que a crise atual poderia transbordar para uma crise internacional.

O presidente Joe Biden não chegou a culpar o Kremlin pelo ataque, apesar de algumas evidências de que os hackers ou o software que eles usaram estão "na Rússia".

A Rússia não tem conexão com esse ataque cibernético, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, a repórteres na terça-feira.

Mesmo quando o duto for restaurado, levará cerca de duas semanas para a gasolina armazenada chegar aos postos de abastecimento da Costa Leste, de acordo com a previsão mais recente enviada aos transportadores.

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Renan aponta mentira de Wajngarten: campanha com Otávio Mesquita era contra isolamento social

Senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o ex-chefe da Secom Fabio Wajngarten

247 - O relator da CPI da Covid, no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), apontou mentiras do ex-secretário de Comunicação da Presidência da República Fabio Wajngarten, que foi à Comissão Parlamentar de Inquérito prestar depoimento. 

O emedebista destacou que a campanha 'O Brasil não pode parar', do jornalista Otávio Mesquita, era contrária ao isolamento social e não a favor como disse o ex-secretário. "Otávio é contra o isolamento social. A campanha foi essa", destacou Calheiros. "O senhor já abusou deste expediente em algumas oportunidades", disse o emedebista em outro momento. 

O parlamentar questionou Wajngarten quem o orientava a não incentivar a vacinação contra a Covid-19. "As manifestações do presidente pertencem a ele. As minhas conversas com ele eram sempre sobre a forma e técnica da imprensa", respondeu o ex-chefe da Secom. 

Em várias ocasiões Bolsonaro deu declarações contrária a recomendações da ciência na pandemia, mas o ex-secretário não quis responder acerca do impacto desses posicionamentos sobre a população. "As manifestações do presidente pertencem a ele", disse Wajngarten.

"O senhor junta alhos com bugalhos e a gente que pegar a linha lógica e não consegue", disse Calheiros. 

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Jurando dizer a verdade na CPI, Wajngarten diz que é guiado por Malafaia e RR Soares

247 - O ex-titular da pasta da Comunicação (Secom) Fabio Wajngarten concedeu depoimento à CPI da Covid-19 no Senado nesta quarta-feira (11) e revelou seu lado neopentecostal. Segundo o ex-ministro de Jair Bolsonaro, ele é guiado pelos empresários evangélicos Silas Malafaia e RR Soares.

"Frequento o templo de Salomão, e participei de um governo temente a Deus" , disse ele ao se apresentar na CPI. 

Mentiras 

Wajngarten mentiu descaradamente na CPI da Covid, nesta quarta-feira (12), e afirmou que o governo Jair Bolsonaro promoveu campanhas alertando sobre as recomendações de autoridades de saúde para a prevenção da Covid-19.

"Na primeira campanha, Otávio Mesquita (jornalista) já falava sobre álcool em gel e uso de máscaras. Faz parte do cunho criativo. Assim como usamos jogadores em outros momentos", disse.

Wajngarten também entrou em contradição a respeito da aquisição da vacina Pfizer. Em entrevista à revista Veja, o ex-ministro citou a incompetência e demora do Ministério da Saúde para promover um acordo na aquisição dos imunizantes estadunidenses e que ele próprio teria participado das negociações. Na CPI, ele negou as declarações. 

Assista:

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Lixo no Brasil: a montanha de lixo não para de crescer -- e avança em nossa direção

ATOLEIRO NACIONAL

A montanha de lixo não para de crescer no país -- e avança em nossa direção

Mais de uma década após a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, eliminamos mal o que consumimos e ainda estamos entre os países campeões na produção de plástico. Esta é a primeira parte de uma série especial do site O Joio e o Trigo, publicada em parceria com o TAB. Para ler na íntegra o especial sobre lixo no Brasil, acesse aqui.

Aline Sousa da Silva, 31, teve o primeiro contato com o dia a dia dos catadores de lixo aos 14 anos, quando se mudou para uma ocupação irregular em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília. A família era muito grande, e o pai tinha umas coisas velhas que trocou por uma caminhonete. Do carro carregado de lixo viria o sustento.

Coordenadora do MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis) e também presidente da Centcoop (Central de Cooperativas de Materiais Recicláveis do Distrito Federal), ela conta que o pai não abriu mão de matricular todos os filhos na escola. No contraturno, ela trabalhava com a avó, também catadora, na rua.

Aline é a terceira geração de catadores na família, Estudou até o 1º ano do ensino médio e fez exame para concluir os estudos em 2019. Foi vendo a avó recolher material na lixeira, separando tudo antes de pôr no carrinho, que Aline entendeu como o dinheiro chegava em casa.

A Centcoop é um complexo de reciclagem na Cidade Estrutural, a 15 quilômetros de Brasília, onde são feitas a triagem e a comercialização de material recolhido em 11 cooperativas. O maior lixão da América Latina também ficava ali, exatamente na Estrutural, e foi desativado em 2018. A criação do complexo foi fundamental para acolher e dar meios de subsistência mais decentes aos que dependiam do lixão.

Apesar da estruturação, os trabalhadores estão longe de ter sua dignidade assegurada. Aline conta que o fato de as pessoas não separarem o lixo doméstico faz com que "o catador se sinta pior do que aquele lixo que ele está separando". "A gente encontra de tudo: bicho morto, fezes e tanta coisa que não deveria passar por aqui."

Ela não quer o mesmo futuro para seus sete filhos. E nem que outras crianças tenham infâncias marcadas por essa experiência. "Meus filhos não ficam aqui no complexo. Falo que tem que estudar."

VAI FALTAR TAPETE

Entre a falta de planejamento para o fechamento dos lixões — cuja morte está decretada para agosto — e a exclusão social dos catadores (parte essencial na solução do problema), o país completa uma década de criação da sua Política Nacional de Resíduos Sólidos sem avanços.

Fabricantes de alimentos e bebidas lideram o consumo de embalagens plásticas no Brasil: quase um bilhão de toneladas ao ano — o equivalente a 850 estátuas do Cristo Redentor, que não podem ser simplesmente varridas para debaixo do tapete.

As embalagens são, antes de tudo, escolhas que fizeram por nós. São as empresas que decidem se o refrigerante vai na lata ou na garrafa, no vidro ou no plástico. Se não existir legislação que oriente essa escolha, quem vai fazer isso é o mercado, a partir do preço das matérias-primas.

Entender a situação é escalar também uma montanha de dados conflitantes ou imprecisos. Segundo um relatório do Ministério do Desenvolvimento Regional, o país produziu mais de 65 milhões de toneladas de resíduos em 2019. Dados da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), em contrapartida, apontam que, no mesmo período, o Brasil gerou 79 milhões de toneladas de resíduos.

São 79 ou 65? Qualquer que seja, o número é estratosférico.

CAPITÃO SUDESTE

Os números brasileiros não batem, mas no que ambos levantamentos coincidem é que o Sudeste, sozinho, tem sido responsável por quase metade da geração de lixo no país.

Vale dizer que a região também se destaca no ranking das que mais consomem ultraprocessados, alimentos pré-prontos que geralmente são embalados em plástico, vidro, alumínio, papel, isopor, aço ou pacotes que combinam esses materiais.

Cerca de 25% dos resíduos vão parar em lixões ou aterros que não recebem impermeabilização do solo e, por vezes, não têm sistema de dispersão de gases nem tratamento do chorume.

Em muitos lugares do país, o lixo nem sequer é coletado. Quase 10% dos municípios brasileiros não são atendidos pela coleta domiciliar, de acordo com o Plano Nacional de Saneamento Básico.

Na época em que foi aprovada, a Política Nacional de Resíduos Sólidos pressupunha uma "responsabilidade compartilhada": empresas, governos e sociedade tinham papéis distintos a cumprir. Nesses 11 anos, muita coisa virou letra morta.

QUEM PARIU MATEUS, QUE O ESQUEÇA

Se você não faz parte da geração millennial, certamente se lembra de quando o refrigerante só era vendido em vidro. A Coca-Cola escolheu implementar as garrafas PET no Brasil em 1978 e, de lá para cá, essa embalagem é a que mais circula no mercado.

Em 2010, a gigante de bebidas — que também é a maior empresa de embalagens plásticas do mundo — retomou o envase em plástico rígido, retornável, assim como sua "prima retrô", a envidraçada. Em 2018, as embalagens retornáveis representaram 21% das vendas totais de refrigerantes da multinacional no Brasil.

"A mudança de comportamento do consumidor, que passou a valorizar variáveis ambientais, levou a Coca-Cola Brasil a enfatizar os fatores sustentáveis do produto", diz um relatório da empresa enviado à reportagem. A meta da Coca-Cola é coletar e reciclar 100% das embalagens que chegarão ao mercado até 2030.

Abaixo dela, no ranking de maiores produtoras de plástico do planeta, vêm Nestlé, Danone e Unilever. A Nestlé informou por e-mail que vem desenvolvendo novas embalagens para reduzir o uso de plástico. Mas tanto a Coca quanto a Nestlé não informaram a quantidade de embalagens que colocam no mercado brasileiro, quanto coletam e quanto reciclam. Tampouco explicaram como farão para garantir que suas garrafas e pacotes sejam recolhidos. Danone e Unilever não responderam aos pedidos de entrevista.

"Por trás do véu de boas iniciativas e compromissos", essas e outras multinacionais vêm minando soluções legislativas para a crise dos resíduos, em especial a dos plásticos, indica o relatório "Talking Trash". A investigação abarca 15 países de cinco continentes, e elenca táticas que se repetem. "O modelo de negócio de compra, uso e descarte é sempre mais barato para essas corporações, porque alguém está pagando a conta pelos resíduos que elas criam."

E EU COM ISSO?

Que atire a primeira pedra quem não pediu comida para entrega sequer uma vez durante a quarentena. O delivery vem crescendo a passos largos e, com a pandemia, é fácil supor que a curva de crescimento tenha disparado.

Se os pedidos aumentam, a quantidade de resíduos gerados pelo serviço também cresce. São pilhas e pilhas de embalagens individuais — comumente de isopor, para manter a temperatura; de sachês, para molhos; e de sacolas plásticas. Esses envoltórios são de uso único, em sua maioria. Você retira o conteúdo e joga fora.

Não à toa, já tem aplicativo de delivery aderindo às táticas das grandes corporações. O iFood anunciou, no final de março, em noite de prova do líder no "Big Brother Brasil", que a empresa, nas palavras do apresentador Tiago Leifert, "quer acabar com a poluição plástica do seu delivery e se tornar neutro na emissão de carbono até 2025".

A propósito: parte da ação envolveu um almoço para três participantes do reality show. Pelo menos 12 embalagens descartáveis foram usadas. O plano em si, chamado de iFood Regenera e disponível em seu site, é genérico.

Nossa participação nessa cadeia, como consumidor, geralmente fica limitada entre o varejo e a lata de lixo. O acesso dos consumidores aos "bastidores" do alimento — seja na hora de produzir ou de descartar — é dificultado pelas relações cada vez mais globalizadas do setor.

PRATELEIRA COLORIDA

Antes dos deliveries, já tínhamos comida congelada à venda nos supermercados. "A opção por facilidades que poupam tempo de preparo e diminuem a frequência das compras é característica do comensal urbano contemporâneo", afirma a nutricionista Rosa Wanda Diez Garcia, autora de "Reflexos da globalização na cultura alimentar".

Nem os alimentos in natura escaparam da "plastificação". Mais recentemente, começaram a fazer parte das câmaras frias verduras e legumes pré-cortados ou pré-cozidos. Até fruta descascada já apareceu. Tudo embalado em plástico e isopor.

O papel de cuidar da alimentação é então assumido pela indústria que, de tempos em tempos, lança novidades. Quando falamos do aumento exorbitante da produção de embalagens de alimentos, não é possível descolar essa realidade dos ambientes onde os compramos.

É o que o livro "Donos do Mercado", recém-lançado pela editora Elefante, em parceria com O Joio, traz à tona. Essas lojas, que vendem entre 30 e 50 mil itens diversos, são o espaço intermediário: não estão no começo da cadeia e tampouco são responsabilizadas pelos resíduos gerados. Ao mesmo tempo, têm poder determinante na formação de hábitos.

O relatório "Talking Trash" relembra que a indústria joga o peso da responsabilidade para o lado mais fraco dessa corda — o consumidor. Um passo importante é reconhecer que, até certo ponto, só podemos agir de forma tão sustentável quanto o sistema permitir. A redução de plásticos deve ser parte de uma mudança sistêmica, liderada por legisladores e implementada por empresas.

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Flavia Boggio: Bolsonaro cava um poço sem fundo para ter uma cova e enterrar o país

Pandemia foi uma excelente oportunidade para governo acelerar as obras de aprofundamento do buraco

Batizado de Tratoraço do Bolsonaro, o orçamento secreto de R$ 3 bilhões destinado, entre outras coisas, à compra de tratores superfaturados foi justificado. Segundo assessores do Planalto, o financiamento do maquinário seria para cavar ainda mais o fundo do poço em que se encontra o Brasil.

“Embora achássemos que o poço já estivesse com uma profundidade satisfatória, Bolsonaro ordenou que continuássemos as escavações, pois não estava fundo o suficiente”, disse um assessor que não quis se identificar.

palhaço escava buraco com escavadeira
Ilustração de Galvão Bertazzi para a coluna de Flávia Boggio publicada em 12 de maio de 2021 - Galvão Bertazzi/Folhapress

O presidente também mandou criar um Fundo de Desenvolvimento de Fundo do Poço, que por razões lógicas não terá investimentos. “O fundo terá zero verbas, justamente para que o fundo não tenha fundo”, tentou explicar o assessor.

Logo quando Bolsonaro foi eleito, especialistas acreditavam que o país já havia chegado na profundidade de poço limite. Mas não era o bastante para o presidente, que escalou um time de peso para continuar as perfurações.

Convocou um ministro do Meio Ambiente que detesta natureza, que se empenhou em cavar o poço devastando florestas e usando boiadas para ajudar a aprofundar a fenda. Para reforçar, contratou um ministro da Economia especialista em fundos de investimentos de poços sem fundo e desprezo à pobreza. Mesmo assim, achou que precisava de mais reforços.

A chegada da pandemia foi uma excelente oportunidade para acelerar as obras de aprofundamento do buraco.

O presidente usou os melhores métodos de escavação como dizer que o vírus era só uma gripezinha e recusar 11 ofertas de vacina. Para que a perfuração fosse ainda mais eficiente, mandou que o Exército produzisse dinamites de cloroquina e jogasse dentro do poço.

Mesmo assim, não estava fundo o suficiente.

Funcionários do governo se mostraram preocupados com a CPI da Covid, temendo que a comissão atrasasse as obras rumo ao subterrâneo. Mas o presidente disse que a comissão “não vai dar em nada” e ordenou que as escavações não fossem interrompidas, enquanto comia picanha de R$ 1.799,99 o quilo.

Ele continua cavando. Nada vai deixá-lo satisfeito até que o poço se transforme em uma enorme cova de cemitério para que ele enterre o país.

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Antonio Delfim Netto: Inépcia e inoperância

O governo paga caro para abrir mão de poder só para depois dizer que nada pôde fazer

O início dos trabalhos da CPI da Covid veio ressaltar, caso ainda houvesse alguma dúvida, a característica mais marcante do governo Bolsonaro: a completa incapacidade de se organizar politicamente para implementar qualquer estratégia.

Tanto a instalação quanto a configuração da CPI evidenciam uma combinação muito peculiar entre a inépcia e a falta de interesse em obter-se um governo funcional. O caso mais emblemático talvez seja a produção, pela Casa Civil, de uma cuidadosa lista de 23 crimes potenciais cometidos pelo governo, numa tentativa, atrapalhada e tardia, de reagir ao avanço da CPI.

O presidente Bolsonaro revela baixíssimo interesse em resolver problemas —do Brasil ou do governo. No primeiro caso, se abstém de apoiar as escolhas difíceis a serem feitas e as reformas econômicas de que o país precisa. Quando se manifesta, é para diluí-las ou proteger pequenos grupos. Na reação à crise da Covid, limitou-se ao (necessário) suporte financeiro aos estados e municípios, mas abdicou da prerrogativa de coordenar as ações que pudessem dar um mínimo de racionalidade ao enfrentamento da pandemia.

Com relação à disfuncionalidade dentro do governo, as oitivas de ex-ministros na CPI e a confecção da peça orçamentária são os exemplos mais recentes. Os depoimentos deixaram clara a resistência do governo em exercer o papel de organizar uma mensagem consistente para a população e em formular diretrizes claras para os entes federados.

Os protocolos de atendimento aos pacientes são apenas um dos exemplos. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento sobre a heterogeneidade do Brasil sabe a dimensão de sua importância, principalmente nas localidades de menor capacidade estatal. Apenas agora, maio de 2021 e em plena CPI, tais expedientes estão sendo finalmente concluídos pelo Ministério da Saúde.

A construção do Orçamento, cujo norte é sempre muito afetado pelo Executivo, também foi reveladora da maneira como o governo atua.

Disputas públicas entre ministérios e destes com o Congresso foram observadas à distância por um presidente que se recusa a liderar e arbitrar. A tática de mostrar indiferença sobre os resultados e terceirizar os custos a todo o momento, a um alto preço, se traduz inevitavelmente em um ambiente de ruído, conflito e confusão, com claros reflexos sobre a tragédia sanitária e sobre uma retomada mais robusta da economia.

Nessa confluência entre incompetência e indiferença, é difícil precisar a proporção de cada uma. Vivemos o caso curioso do governo que paga caro para abrir mão da sua prerrogativa de liderança apenas para poder dizer que nada pôde fazer sobre coisa nenhuma.

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Covid-19 é apenas ensaio para novas pandemias que estão por vir

Tivemos sorte desta vez, mas não estamos nos preparando para enfrentar novos vírus mais perigosos

Apesar de o Brasil ainda se encontrar em situação precária frente à pandemia, boas notícias começam a emergir ao redor do mundo.

eficácia das principais vacinas desenvolvidas até agora é maior do que mesmo os mais otimistas entre nós teriam previsto há um ano. A maioria dessas vacinas diminui muito significativamente a chance de infecção por Sars-Cov-2 —o coronavírus que causa a Covid-19— e mais ainda a chance de a doença resultante se tornar severa.

Isso já seria o suficiente para muita celebração, mas tem mais boa notícia: as vacinas parecem também funcionar bem contra as temidas "variantes de preocupação": a Pfizer anunciou na segunda-feira (10) que as variantes não requerem nem sequer o desenvolvimento de um reforço específico. Tudo indica que as vacinas logo reduzirão a pandemia ao status de gripe comum, no mínimo.

Nosso esforço coletivo nesse último ano não tem precedentes recentes; me atreveria a dizer que, no último século, só é comparável àquele empregado durante as guerras mundiais. Estarmos finalmente emergindo desse período obscuro é motivo de celebração, sem dúvida.

Mas, além de celebrar, é também hora de honrar os mortos e o nosso próprio sacrifício. Assim como no caso das últimas grandes guerras, não há honraria maior do que nos organizarmos para que essa tragédia não se repita. A pandemia do coronavírus foi um ensaio geral bem leve, e tivemos sorte. Os testes reais ainda estão por vir.

Talvez o leitor me ache demasiado macambúzio sobre o futuro e quiçá leviano frente ao desastre que acabamos de presenciar. Pois me explico. A OMS estima que, entre os infectados pelo Sars-Cov-2, de 0,5% a 1% das pessoas morram, a maioria de idade avançada.

Há muitos vírus conhecidos que têm índice de fatalidade maiores por ordens de magnitude: a Sars, por exemplo, mata cerca de 10% dos infectados; o índice de letalidade da gripe aviária, H5N1, segundo a OMS, é ainda mais terrível: 60%; e por aí vai. Não há nenhuma lei divina obrigando o Sars-Cov-2 a ter fatalidade tão menor do que estes outros vírus.

Tivemos sorte. Imagine uma pandemia causado por um vírus com um período de incubação parecido com o do coronavírus, com a fatalidade do H5N1 e a infecciosidade da varíola. Uma porção significativa de trabalhadores essenciais logo deixaria de comparecer ao trabalho, por doença ou precaução. Logo, as linhas de produção seriam afetadas, incluindo as usinas de energia.

Sem luz (e sem internet) e sem reabastecimento no supermercado, a civilização como a conhecemos estaria em sério risco de ruir por completo em questão de meses. Quem sobrevivesse ao vírus poderia não sobreviver ao cenário apocalíptico que estaria por vir.

Há, porém, vários sinais de que não estamos fazendo a nossa lição de casa frente aos riscos que inúmeros vírus apresentam para a civilização humana. O desmatamento e o contato próximo entre humanos e animais selvagens aumenta a possibilidade de um salto de um vírus zoonótico para a população humana, por exemplo.

A evidência genética ainda aponta para essa origem do Sars-Cov-2, mas a maioria dos epidemiologistas ainda mantém o escape do vírus dos laboratórios do Instituto de Virologia de Wuhan como uma possibilidade aberta.

A probabilidade desse tipo de origem para um vírus perigoso também aumenta a cada ano: o desenvolvimento de tecnologias de edição genética segue a passos largos e é preciso cada vez menos infra-estrutura e investimento para modificar vírus existentes e torná-los mais perigosos.

Por exemplo, o terrível H5N1 é intransmissível de humano para humano em sua forma natural —a infecção só se dá através do contato animal. Mas, em 2012, virologistas holandeses modificaram o vírus, se livrando dessa limitação e transformando-o em uma ameaça para a nossa civilização. Nas palavras do Conselho Consultivo Nacional de Ciência de Biossegurança, nos EUA, “a liberação do vírus modificado pode resultar em uma catástrofe inimaginável, da qual o mundo está inadequadamente preparado”.

As intenções do grupo holandês até que eram louváveis: descobrir se o vírus poderia encontrar esse mecanismo de transmissão através de seleção natural. Mas os riscos são enormes, e, na minha opinião, o ganho em conhecimento não os compensam. Mesmo que a seleção natural eventualmente encontrasse esse caminho genético, não seria melhor que fosse daqui muitos anos, quando teremos —tomara!— melhor tecnologia para lidar com esse tipo de ameaça?

Esse caso do H5N1 ilustra bem problemas de biossegurança atuais. Por incrível que pareça, o laboratório holandês em questão nunca teve que pedir permissão governamental para o experimento. Todos os obstáculos burocráticos eram internos, e a avaliação externa só foi necessária na hora de liberar a publicação dos resultados (que foram redigidos para omitir informações perigosas).

Nenhum juiz, nenhum painel, nenhum orgão de segurança nem sequer teve a oportunidade de dizer não, de negar autorização para que esse laboratório comum fizesse apostas com o futuro da humanidade. E foram apostas: até os mais seguros laboratórios do mundo, de nível 4 de biossegurança —o laboratório holandês era de nível 3— sofreram acidentes em que vírus perigosos escaparam.

Essa foi, por exemplo, a origem do surto da "doença de mão e pé" no Reino Unido, dos ataques de Antrax nos EUA e até mesmo a causa da última morte por varíola, entre outros acidentes e quase acidentes.

A nossa falta de organização e precaução é alarmante, e não por falta de aviso. Uma análise publicada no Clinical Microbiology Reviews, em 2007, após o surto de Sars de 2003, declarou o consumo de animais silvestres, como o morcego, uma "bomba-relógio" para novas epidemias. No front menos acadêmico, Bill Gates exortou governos, em uma TED Talk, a levar as lições dos surtos de ebola a sério e se preparare para novas epidemias.

Nenhum desse avisos, contudo, surtiu efeito. "Mercados molhados" persistiram pelo menos até 2019, possivelmente dando origem ao Sars-Cov-2, e ainda não há esforço global significativo para monitorar laboratórios com acesso a vírus perigosos. Pelo menos até há pouco tempo, governos ao redor do mundo não sentiam que gastos com um melhor preparo eram justificados.

Isso precisa mudar. Em primeiro lugar, precisamos de orgãos internacionais com poder de supervisão e veto de pesquisas perigosas, sem limitação de fronteiras. Não podemos também permitir casos como o de final de 2019, quando autoridades locais em Wuhan tentaram abafar o surto de Covid-19 e quando o governo federal, por sua vez, custou a alertar o resto do mundo sobre o vírus.

Precisamos também de um sistema de monitoramento virológico avançado e onipresente. Tomando nossas lições com os surtos de ebola na África, criou-se o programa Sentinel, na Nigéria, um sistema de prevenção de epidemias multifacetado que usará diagnósticos de ponta e tecnologias de sequenciamento, análise de dados e ferramentas de visualização e aplicativos móveis centrados no consumidor para responder a patógenos emergentes em tempo real.

Esse tipo de programa precisa ser globalizado: o custo, por maior que seja, acredite, será bem menor que o que gastamos com defesa militar mundialmente, e o retorno desse investimento é incalculável.

Se a pandemia de Covid-19 fosse um ensaio geral, todos os atores teriam esquecido suas falas, teria faltado luz e o palco teria colapsado. Agora, nos resta investir mais, coordenar melhor, legislar e torcer para estarmos mais bem-preparados na noite de estreia.

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Martin Wolf: A luta pela sobrevivência da democracia americana

Enquanto poder de Trump sobre o Partido Republicano aumenta, Biden joga com apostas enormes, e sabe disso

"A questão de se nossa democracia vai durar muito é ao mesmo tempo antiga e urgente, tão antiga quanto a nossa República." Assim, em seu discurso ao Congresso em 28 de abril, Joe Biden definiu o que está em jogo em sua Presidência. Ele tinha razão, também, ao afirmar que os autocratas estão apostando que a democracia nos Estados Unidos não pode "superar as mentiras, a raiva, o ódio e os temores que nos dividiram". Mas aqueles autocratas podem até estar certos.

Um dos principais partidos americanos se tornou claramente antidemocrático. Essa é agora uma luta entre dois homens idosos pelo destino da democracia liberal nos Estados Unidos.

Em uma democracia liberal, eleições justas determinam quem detém o poder. Tentativas de subverter ou invalidar a votação são traições. Foi exatamente o que Donald Trump tentou fazer antes e depois da última eleição presidencial. Ele tentou transformar os EUA em uma autocracia. Isso não foi nenhuma surpresa: tinha sido óbvio desde o começo de sua carreira política que esse era seu objetivo.

Ele falhou. Pessoas decentes e corajosas garantiram isso. Mas essa história apenas começou. Mesmo sem as redes sociais, Trump mantém a lealdade da base de seu partido e assim controla seus líderes.

Mesmo as pessoas cujas vidas ele pôs em perigo ao promover a invasão do Capitólio correm para beijar sua mão em Mar-a-Lago. Enquanto isso, figuras profundamente conservadoras, como Liz Cheney, a terceira nas fileiras republicanas na Câmara dos Deputados, estão sendo defenestrados. Seu crime? Declarar que a Grande Mentira de Trump de que o resultado real da eleição foi uma Grande Mentira é uma grande mentira.

Apoiadores de Trump entram em confronto com a polícia e invadem Congresso dos EUA

O fato de que Trump está mentindo não é novidade. A novidade é que, mesmo removido do cargo público, Trump define a verdade para seu partido. Há uma palavra para uma organização política em que o dever principal dos membros é a lealdade absoluta a um líder que define o que é verdade e certo: "Fuhrerprinzip" (princípio de liderança). O abraço geral dos republicanos à Grande Mentira de Trump é um caso perfeito desse conceito.

Infelizmente, isso não é tudo. A Grande Mentira de Trump está sendo transformada em arma através de legislação estadual destinada a subverter as eleições. Muita atenção está sendo dada aos empecilhos à votação. Mas ameaças de morte também perseguiram autoridades honestas para fora do cargo.

Pior ainda, como comenta o States United Democracy Center: "Em 2021, Legislativos estaduais de todo o país —por meio de pelo menos 148 projetos de lei apresentados em 36 estados— estão agindo para forçar sua entrada na administração das eleições, enquanto tentam desalojar ou perturbar as autoridades do executivo e/ou eleitorais locais que, tradicionalmente, conduziram nossos sistemas de votação".

Indivíduos responsáveis se sentem obrigados a cumprir seus juramentos de cargo. Legisladores menos visíveis talvez não o façam.

Infelizmente, esse ataque não causa surpresa. Oito dos 23 estados totalmente controlados por republicanos foram membros da antiga Confederação. Esses estados passaram para os republicanos depois da aprovação da Lei dos Direitos Civis, em 1964. Uma grande parte dessa história, portanto, é a tentativa do Sul de se proteger, mais uma vez, dos votos afro-americanos.

Então, o que estamos vendo é uma mistura de fanatismo com carreirismo. No entender dos dois grupos, está certo subverter as eleições se isso servir para colocar as pessoas "certas" no poder. Afinal, esses democratas são simplesmente antiamericanos. O fim de mantê-los fora do poder justifica quaisquer meios.

Biden compreende isso. Como ele disse ao Congresso: "Se nós realmente quisermos restaurar a alma da América, precisamos proteger o direito sagrado ao voto". Mas os democratas também precisam mudar as coalizões eleitorais dos EUA contemporâneos a seu favor. Para tanto, eles têm de trazer para seu lado um número significativo de pessoas brancas sem educação superior. Em suma, Biden precisa transformar um índice de aprovação decente (pelos padrões de Trump) em um avassalador.

A única esperança de fazer isso, Biden entende, é provar que o governo pode agir com eficácia, no interesse de todos. Ele fez isso com a campanha de vacinação espetacular. E está tentando fazê-lo com seus programas de gastos imediatos e em longo prazo. Eles são de fato enormes. Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, disse ao Global Boardroom do Financial Times na semana passada que o apoio fiscal automático e discricionário representou 12,6% do PIB dos EUA no ano passado e deverá ser 12,8% neste ano. Segundo suas estimativas, isso é três vezes a lacuna de produtividade dos EUA —a diferença entre a produção potencial e a real.

Homem idoso de terno, gesticulando, com bandeira dos EUA atrás dele
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em discurso no Capitólio; ao fundo, sua vice, Kamala Harris, e a presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi - Melina Mara - 28.abr.21/Xinhua

Esse gasto parece decisivo para gerar um crescimento muito forte em curto prazo. Se tudo correr bem, a produção se expandirá para suprir a demanda, a inflação aumentará modestamente e a economia mudará para um caminho novo, mais dinâmico. Mas se, como disse o ex-secretário do Tesouro Larry Summers ao Economists Exchange do FT, o resultado for um grande salto da inflação e um endurecimento monetário atrasado, uma crise financeira e uma profunda recessão poderão ocorrer antes de 2024, trazendo ao poder Trump, ou pior.

Biden está fazendo apostas enormes, e sabe disso. Não se trata apenas de garantir uma forte recuperação econômica pós-Covid nos EUA. Não se trata apenas de restaurar a posição americana no mundo como aliado e ator em questões cruciais, como o clima. Não se trata só de provar que o governo dos EUA é capaz de fazer coisas importantes. Agora trata-se de proteger o núcleo da democracia —a aceitação pacífica dos resultados eleitorais.

Se isso acontecesse nos EUA, candidatos autocratas em toda parte teriam carta branca para fazer o que quisessem. O perigo é grande, já que os republicanos não são mais um partido democrático normal. Eles são cada vez mais um culto antidemocrático com um candidato a déspota como líder.

Eu espero desesperadamente que Biden tenha êxito. Mas ele fez uma aposta enorme no sucesso de seu programa. Talvez seja a aposta de maior consequência assumida por um líder democrático durante a minha vida. O futuro da democracia está em jogo.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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