'São Paulo ganha prefeito TEMERÁRIO, diz Josias sobre Ricardo Nunes

'São Paulo ganha prefeito TEMERÁRIO, diz Josias sobre Ricardo Nunes

Por que imagens de satélite de Israel e Faixa de Gaza aparecem borradas no Google?

Repórter da CNN é demitido após dizer que o mundo 'precisa de Hitler'

Gabeira - Pandemia e lição de casa

Warner e Discovery se unem para criar gigante de streaming maior do que a Netflix

Vendas de TV crescem na pandemia e novas marcas chegam ao Brasil com aparelhos mais baratos

A opinião de um Insider: a tragédia do Deep State dos EUA - Pepe Escobar

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'São Paulo ganha prefeito TEMERÁRIO, diz Josias sobre Ricardo Nunes

Do UOL, em São Paulo

17/05/2021 09h07

Atualizada em 17/05/2021 09h35

O colunista de política do UOL Josias de Souza disse hoje que São Paulo ganha um prefeito "temerário e obscuro" após a morte de Bruno Covas (PSDB). O emedebista Ricardo Nunes assume a gestão da cidade a partir de hoje.

"Do ponto de vista político, o PSDB perde um quadro promissor e São Paulo ganha um prefeito temerário, que é o Ricardo Nunes. Um obscuro, ex-vereador do MDB que vai assumir os negócios da prefeitura da maior cidade do país sem que ninguém conheça direito as suas credenciais", comentou ele ao UOL News.

Bruno Covas escreveu carta dois dias antes de morrer; leia na íntegra

Eleito vice-prefeito em 2020, Nunes passa a ocupar os holofotes após uma campanha em que ficou escondido durante a maior parte do tempo. Enfrentando denúncias de um suposto envolvimento na máfia das creches e de violência doméstica, o parlamentar quase não deu as caras nos eventos de campanha e se recusou a participar de sabatinas organizadas pelo UOL em conjunto com a Folha de S. Paulo.

"O novo prefeito atravessou a campanha eleitoral brincando de esconde-esconde, fugia de sabatinas, debates e de dois temas que o incomodaram durante toda a campanha: a notícia de que seu grupo político faturou R$ 1,4 milhão por ano alugando imóveis para creches bancadas pela prefeitura e o fato de que sua mulher registrou B.O. contra ele por violência doméstica, ameaças e injúria".

Acho lamentável a maior e mais importante capital do país ser governada por um personagem escolhido não por suas qualidades, que são invisíveis, mas pela conveniência dos conchavos partidários".Josias de Souza

Bruno Covas morreu ontem aos 41 anos, vítima de um câncer que surgiu entre o esôfago e o estômago e se espalhou por outras partes do corpo. Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês, na região central da capital.

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Repórter da CNN é demitido após dizer que o mundo 'precisa de Hitler'

Repórter da CNN foi demitido após postagens antissemitas - Reprodução: Twitter
Repórter da CNN foi demitido após postagens antissemitas Imagem: Reprodução: Twitter

Colaboração para o UOL, em Alagoas

17/05/2021 10h18

Adeel Raja, repórter freelancer da CNN Internacional, foi demitido do time de contribuintes da emissora norte-americana após uma série de comentários antissemitas nas redes sociais virem à tona, além de elogios ao líder nazista Adolf Hitler.

De acordo com a Fox News, Raja foi dispensado pela CNN Internacional ontem, após ele escrever no Twitter que "o mundo hoje precisa de um Hitler". A postagem foi apagada logo em seguida.

Por que imagens de satélite de Israel e Faixa de Gaza aparecem borradas no Google?

O porta-voz da CNN, Matt Dornic, informou ao site "Washington Examiner" que "nunca ouviu falar" de Adeel Raja e que o caso estava sendo "investigado" internamente.

À Fox News, a emissora afirmou que o repórter "nunca foi um funcionário da CNN", e reiterou que, "como freelancer, suas reportagens contribuíram para alguns esforços de coleta de notícias de Islamabad". "No entanto, à luz dessas declarações abomináveis, ele não trabalhará com a CNN novamente em qualquer posição", finalizou.

Em sua página no LinkedIn, Adeel Raja colabora para a CNN desde agosto de 2013 direto do Paquistão, e é produtor executivo do Paquistão ARY News.

Comentários antissemitas

Adeel Raja já havia feito comentários antissemitas e demonstrado apoio a Adolf Hitler anteriormente. Em 2014, durante a Copa do Mundo, o repórter declarou apoio à seleção alemã por causa "do que Hitler fez com os judeus", escreveu ele em uma rede social.

"A única razão pela qual estou apoiando a Alemanha nas finais é - Hitler era alemão e se deu bem com aqueles judeus!", postou Raja antes da final entre a Alemanha e a Argentina, que culminou na vitória dos alemães por 1 a 0.

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Por que imagens de satélite de Israel e Faixa de Gaza aparecem borradas no Google?

Imagens de Gaza no Google Earth aparecem em resolução bastante baixa, e datam de 2016 - Google
Imagens de Gaza no Google Earth aparecem em resolução bastante baixa, e datam de 2016 Imagem: Google

Christopher Giles e Jack Goodman - BBC Reality Check

17/05/2021 08h38

Por que a Faixa de Gaza, um dos lugares mais densamente povoados do mundo, aparece borrada no Google Maps?

Essa é uma questão que vem sendo levantada por pesquisadores que usam informações open source (disponíveis publicamente, como redes sociais e bases de dados abertas e acessíveis para qualquer pessoa, incluindo dados de mapeamento geográfico) com o objetivo de identificar locais atacados e documentar a destruição durante o conflito.

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"O fato de não obtermos imagens de satélite de alta resolução de Israel e dos territórios palestinos nos atrapalham", disse Samir, um pesquisador que se vale de informações disponíveis em open source.

Na verdade, grande parte de Israel e dos territórios palestinos aparecem no Google Earth como imagens de satélite de baixa resolução, ainda que empresas de satélite tenham e comercializem imagens de alta qualidade da região.

Dada a baixa de resolução das imagens disponibilizadas pelo Google, quase não é possível distinguir os carros na Cidade de Gaza.

Em comparação, as imagens de Pyongyang, a capital da fechada Coreia do Norte, apresentam carros bem definidos, e é possível até distinguir pessoas.

imagem do Google Earth de Gaza - GOOGLE EARTH - GOOGLE EARTH
À esquerda, imagem do Google Earth de Gaza; à direita, imagem de Pyongyang, na Coreia do Norte Imagem: GOOGLE EARTH

Por que as imagens de satélite são tão importantes?

O uso de imagens de satélite se tornou um elemento fundamental nos registros de conflitos. No mais recente confronto no Oriente Médio, pesquisadores usam satélites para tentar confirmar as localizações exatas dos mísseis lançados e dos prédios atingidos em Gaza e em Israel.

Mas no Google Earth, a mais popular plataforma desse segmento, as imagens mais recentes de Gaza aparecem em baixa resolução e por vezes borradas.

"As imagens mais recentes do Google Earth ali são de 2016 e são um lixo. Eu dei um zoom em algumas áreas aleatórias da zona rural da Síria e havia mais de 20 imagens registradas (desde 2016) em alta resolução", escreveu no Twitter o jornalista Aric Toler, do Bellingcat.

O Google afirma que seu objetivo é manter sempre atualizadas as imagens de lugares densamente povoados, mas não tem sido o caso de Gaza.

Há imagens em alta resolução disponíveis?

Até o ano passado, o governo dos Estados Unidos limitava a qualidade das imagens de satélite de Israel e dos territórios palestinos que empresas americanas podiam comercializar.

As restrições foram adotadas em 1997, por meio da Emenda Kyl-Bingaman (KBA, na sigla em inglês), em apoio a temores de segurança de Israel.

Sob a KBA, fornecedores americanos de imagens de satélite podiam oferecer imagens em baixa resolução, com pixels maiores do que 2 m (o que torna visível um objeto do tamanho de um carro).

Não é incomum que lugares como bases militares sejam borradas nessas imagens, mas a KBA se tornou o primeiro caso no qual um país inteiro é colocado nessa condição.

A lei americana só menciona Israel, mas ela tem sido aplicada também aos territórios palestinos, que são em parte ocupados por forças israelenses.

imagem de Gaza no Google Earth (data de 2016) - GOOGLE AND MAXAR - GOOGLE AND MAXAR
À esquerda, imagem de Gaza no Google Earth (data de 2016); à direita, imagem da Maxar mostra torre destruída (data de 12 de maio de 2021) Imagem: GOOGLE AND MAXAR

No entanto, como muitas empresas de outros países, a exemplo da francesa Airbus, têm capacidade de fornecer essas imagens em alta resolução, os EUA sofreram bastante pressão para suspender as restrições à qualidade das imagens comercializadas.

Em julho de 2020, a KBA foi revogada, e agora o governo dos EUA permite que empresas americanas forneçam imagens de alta resolução da região. Um pixel agora pode ter 40cm, por exemplo, o que permitiria distinguir uma pessoa.

"A motivação inicial é científica", diz Michael Fradley, arqueólogo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e um dos acadêmicos que participaram da campanha bem-sucedida para que a lei americana fosse alterada.

"Queríamos ter uma fonte de dados consistente para trabalhar em nosso projeto, então precisávamos de acesso em alta resolução nos Territórios Palestinos Ocupados comparável ao que usamos em outras partes da região."

Então, por que Gaza ainda está borrada no Google?

A BBC conversou com o Google e a Apple (cujos aplicativos de mapeamento também mostram imagens de satélite).

A Apple disse que está trabalhando para atualizar seus mapas em breve para uma resolução maior, de 40 cm.

O Google disse à BBC que suas imagens vêm de uma variedade de fornecedores e considera "oportunidades para atualizar [suas] imagens de satélite à medida que imagens de alta resolução se tornam disponíveis". Mas acrescentou que "não tem novidades para anunciar neste momento".

"Considerando a importância dos eventos atuais, não vejo razão para que as imagens comerciais desta área continuem a ser deliberadamente borradas", tuitou Nick Waters, investigador open source da Bellingcat.

Quem afinal registra essas imagens?

Plataformas de mapeamento público, como Google Earth e Apple Maps, contam com empresas que possuem satélites para fornecer essas imagens.

Maxar e Planet Labs, duas das maiores do setor, estão agora disponibilizando imagens em alta resolução de Israel e Gaza.

"Como resultado das recentes mudanças nas regulamentações dos EUA, as imagens de Israel e Gaza estão sendo fornecidas com resolução de 0,4 m (40 cm)", disse a Maxar em comunicado.

A Planet Labs disse à BBC que fornece imagens com resolução de 50 cm.

Pesquisadores, no entanto, dependem muito de softwares de mapeamento de uso gratuito (como os do Google) e não costumam ter acesso direto a essas imagens de alta resolução.

O que as imagens de alta resolução podem revelar?

Pesquisadores da Human Rights Watch se uniram à Planet Labs em 2017 para mostrar a destruição das aldeias Rohingya pelos militares em Mianmar.

As imagens permitiram mapear a extensão dos danos em mais de 200 aldeias na área, comparando imagens de satélite com resolução de 40 cm dessas áreas de antes e depois.

As evidências ajudaram a corroborar as acusações dos rohingyas, minoria muçulmana que fugiu de Mianmar para a vizinha Bangladesh depois que suas casas foram atacadas por militares.

Imagens de satélite também têm sido vitais para rastrear o que está acontecendo na região de Xinjiang, na China, incluindo a rede de centros de "reeducação" criada lá para os uigures.

As informações ajudaram a mostrar onde essas instalações foram construídas, e as imagens em alta resolução também deram uma ideia de sua dimensão e de suas particularidades.

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Pandemia e lição de casa | Opinião - O Globo

Já estamos um pouco cansados de falar da pandemia. Quem caiu, quem não caiu, amigo entubado, amigo extubado, CoronaVac, AstraZeneca, vozes abafadas pelas máscaras, CPIs, mentiras e gravações.

Mas a Humanidade tem de enfrentar seus erros e fazer a lição de casa, pois, nas condições de crise ambiental, novas pandemias podem nos atacar.

Um passo importante foi a comissão especial criada pela OMS, que divulgou seu relatório. Nele, o grupo liderado pela ex-primeira-ministra da Nova Zelândia Helen Clark aponta os erros da própria OMS, que perdeu um mês antes de decretar a emergência.

Governos locais — com seu negacionismo, isso conhecemos bem —também foram responsáveis por políticas destruidoras.

Em outras palavras, a tragédia que o mundo vive hoje poderia ter sido evitada. Comissões internacionais como essa são importantes para despertar uma nova consciência. No final da década dos 60, o Clube de Roma publicou um relatório de personalidades políticas alertando para a produção e o consumo insustentáveis. Isso foi um marco.

No meu entender, existe uma lição implícita na pandemia, já absorvida no século XIX por Humboldt. Ao escalar a montanha do vulcão Chimborazo, ele compreendeu algo que já estava amadurecendo em seu pensamento: os elementos da natureza são interligados, ela é uma rede viva e, portanto, vulnerável.

Lição semelhante pode ser transplantada para a política internacional num caso de pandemia. Estamos todos no mesmo barco. Ninguém estará a salvo enquanto todos não estiverem a salvo.

Daí meu apoio à quebra das patentes, mesmo sabendo que o efeito imediato da medida não é tão promissor quanto a distribuição de vacinas por países que têm mais do que necessitam para vacinar sua população.

Essa noção de interdependência deve ser levada também para o plano interno, em que, sem solidariedade, dificilmente atravessaremos a crise.

O governo brasileiro fez tudo errado. Negou a pandemia, resistiu à vacina e contribuiu para que tivéssemos um número absurdo de mortes.

Como se não bastasse isso, o desmatamento na Amazônia atinge números recordes, o Congresso acaba com as leis que definem o licenciamento ambiental.

O processo de destruição da natureza será mais acentuado no Brasil, sem falar no aumento da pobreza, por remarmos contra a corrente mundial que defende a sustentabilidade.

O governo e o Congresso não respeitam o alerta sobre uma exploração sustentável da natureza. E muito menos os conselhos para preservar vidas durante uma pandemia.

Simultaneamente, portanto, criam as bases de uma nova pandemia e estabelecem a política negacionista de um sacrifício humano ainda maior.

A única esperança, se isso merece o nome de esperança, é que não conseguirão destruir tudo nem matar todos os brasileiros até 2022.

É simples: ou deixam o poder, ou acabam com o Brasil.

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Cientistas pedem mais investigações sobre a origem do coronavírus

Evidências atuais não permitem cravar surgimento natural, escreve grupo em carta que gerou controvérsia na academia
O Globo
17/05/2021 - 04:46 / Atualizado em 17/05/2021 - 10:14
Foto mostra o interior do laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan, em fevereiro de 2017 Foto: JOHANNES EISELE / AFP
Foto mostra o interior do laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan, em fevereiro de 2017 Foto: JOHANNES EISELE / AFP

WASHINGTON - Um grupo de 18 destacados cientistas americanos, britânicos e canadenses, afirmou, em uma carta publicada na mais recente edição da revista Science que, mais de um ano depois do início da pandemia, ainda não existem evidências suficientes para determinar se a Covid-19 teve origem natural ou se é fruto de um vazamento acidental de laboratório na China.

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Eles defendem, assim, como o governo dos Estados Unidos já o fez, uma nova investigação para explorar a origem do vírus. A carta não é favorável a um cenário ou outro, defendendo mais investigações. Mesmo assim, causou controvérsia no meio científico.

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Kristian Andersen, virologista do Instituto de Pesquisa Scripps, que produziu no ano passado um estudo que descartou a probabilidade de uma origem laboratorial, baseado em grande parte no genoma do vírus Sars-CoV-2, a atacou:

— A carta sugere falsa equivalência entre a fuga do laboratório e os cenários de origem natural — disse. — A hipótese de vazamento de laboratório permanece baseada na especulação.

Entre os idealizadores da carta estão Jesse Bloom, pesquisador do centro Fred Hutch, de Seattle, e David Relman, microbiologista da Universidade Stanford. Segundo os dois, muitos cientistas estão adotando a abordagem de “esperar para ver". Vários dos outros signatários da carta não tinham se manifestado anteriormente sobre o assunto.

— Não é possível fazer declarações com alto grau de certeza sobre isso com as evidências disponíveis — diz Bloom.

A carta afirma: "As teorias de liberação acidental de um laboratório e de 'spillover' zoonótico permanecem viáveis."

No ano passado, uma equipe da Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou um relatório alegando que um vazamento era extremamente improvável. Os defensores da ideia dizem que pode ter havido vazamento de um laboratório, especificamente o Instituto de Virologia de Wuhan, na China, onde os vírus da SARS foram estudados, discordam.

A equipe da OMS visitou o laboratório de Wuhan, mas não o investigou. O relatório, produzido em missão com cientistas chineses, foi criticado pelo governo dos EUA, segundo o qual Pequim teria limitado o acesso de cientistas.

A carta na Science defende uma investigação mais rigorosa das origens do vírus, que envolva uma gama mais ampla de especialistas e proteção contra conflitos de interesse.

Michael Worobey, biólogo da Universidade do Arizona, justifica ter assinado a carta porque o debate na academia fez emergirem dúvidas sobra a questão.

— Não havia escolha a não ser expor minha preocupação — disse.

Com o New York Times

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Warner e Discovery se unem para criar gigante de streaming maior do que a Netflix

Acordo avaliado em quase R$ 800 bi unirá a detentora dos estúdio Warner Bros e os canais HBO e CNN com as marcas Discovery Chanel, Animal Planet e Food Network
NYT
17/05/2021 - 08:55 / Atualizado em 17/05/2021 - 09:31
Uma das marcas da AT&T Foto: Reprodução da internet
Uma das marcas da AT&T Foto: Reprodução da internet

NOVA YORK — A gigante de telecomunicações americana AT&T selou o acordo para fundir sua marca WarnerMedia — que detém o estúdio Warner Bros e os canais HBO e CNN — com a rival Discovery, que reúne as marcas Discovery Kids, TCL, Food Network,  Oprah Winfrey’s OWN, entre outras. O anúncio da fusão foi feito nesta segunda-feira.

O acordo vai unir um dos estúdios mais poderosos de Hollywood, lar das franquias Harry Potter e Batman, com os programas caseiros, de culinária, de natureza e de ciência do Discovery. Um dos objetivos do acordo é ajudar ambos os grupos a se reafirmarem no mercado de streaming.  O valor avaliado para criação deste novo grupo de mídia é de US$ 150 bilhões (quase R$ 800 bilhões).

No portfólio da Discovery estão ainda o Animal Planet e o Discovery Channel. A empresa atualmente tem um valor de mercado, incluindo dívidas, de cerca de US$ 30 bilhões.

A fusão também seria uma reviravolta significativa para a AT&T, gigante das telecomunicações mais conhecida por atender a linhas de fibra e torres de celular do que por produzir entretenimento e cortejar Hollywood.

Especialistas do setor questionaram a ousada compra da Time Warner pela AT&T em um momento em que o cancelando das assinaturas de serviços de televisão a cabo estava começando a se acelerar.

Maior que Netflix e NBC Universal

A nova empresa será maior do que a Netflix ou a NBCUniversal. Juntas, WarnerMedia e Discovery geraram mais de US$ 41 bilhões em vendas no ano passado, com um lucro operacional de US$ 10 bilhões. Essa soma colocaria a nova empresa à frente da Netflix e da NBCUniversal e atrás da Walt Disney Company como a segunda maior empresa de mídia dos Estados Unidos.

Para competir com a Netflix e com a Disney, a AT&T e a Discovery investiram pesadamente em streaming. A AT&T gastou bilhões na construção do HBO Max, que agora tem cerca de 20 milhões de clientes. A Discovery tem 15 milhões de assinantes de streaming global, a maioria deles para seu aplicativo Discovery +. A Netflix tem mais 270 milhões de assinantes.

A fusão é uma reviravolta significativa para a AT&T, uma gigante das telecomunicações que entrou no mercado de mídia com sua incursão na Time Warner. No entanto, especialistas do setor questionaram o acordo da AT&T, dizendo tratar-se de uma estratégia de aquisição fracassada.

A WarnerMedia é dirigida por Jason Kilar, 50, um dos pioneiros do streaming e o primeiro executivo-chefe do Hulu. O Discovery é liderado há 14 anos por David Zaslav, 60, que o ajudou a se tornar um gigante da realidade. Zaslav vai liderar o novo negócio.

Negócio deve ser fechado em meados de 2022

As empresas disseram esperar que o negócio, que deve ser aprovado pelos acionistas e reguladores do Discovery, seja finalizado em meados do próximo ano. Segundo a agência France Presse, quando o negócio for concluído, a AT&T receberá US$ 43 bilhões e seus acionistas terão 71% da nova empresa, enquanto os acionistas da Discovery ficarão com 29%.

John Stankey, o presidente-executivo da AT&T, viu seu negócio de mídia como uma forma de impedir que seus clientes de telefonia mudassem para outras empresas. Os assinantes da AT&T Wireless obtêm descontos e acesso gratuito ao HBO Max.

Antes de assumir como executivo-chefe no ano passado, Stankey era o estrategista-chefe de fusões da empresa. Mas seu histórico tem sido irregular. Além de planejar a compra da Time Warner pela AT&T, ele estava por trás da aquisição da operadora de satélite DirecTV por US$ 48 bilhões, em 2015.

O serviço tem perdido clientes há anos; em fevereiro, a AT&T vendeu parte do negócio para a firma de private equity TPG por cerca de US$ 16 bilhões, um terço do que pagou originalmente.

Para a Discovery, o acordo com a WarnerMedia poderia finalmente dar a Zaslav o tamanho e a escala que ele há muito desejava. Um executivo fanfarrão que consegue se lembrar dos índices de audiência de cara, Zaslav representa o último da velha guarda na mídia, um magnata conhecido por hospedar reuniões suntuosas em sua casa nos Hamptons.

A nova empresa criaria um novo tipo de gigante da mídia, que ainda vive dos grandes lucros da TV a cabo da velha escola, enquanto gasta esses lucros (e mais) em streaming.

Mesmo com o aumento da concorrência, a HBO continua se destacando na televisão e, no ano passado, mais uma vez, capturou mais Emmys do que qualquer outra rede, estúdio ou plataforma, incluindo a Netflix.

Tem vários programas de sucesso, incluindo "Succession", "Curb Your Enthusiasm", "Barry" e "Last Week Tonight With John Oliver". Ele também tem uma enorme biblioteca que inclui “The Sopranos”, “Game of Thrones” e “Sex and the City”.

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Vendas de TV crescem na pandemia e novas marcas chegam ao Brasil com aparelhos mais baratos

Faturamento do setor subiu 16% e está atraindo o interesse de novos fabricantes no momento em que algumas multinacionais deixam o país
Bruno Rosa
17/05/2021 - 04:50
Mais telas. Linha de produção das TVs que vão ao mercado sob a parceria Toshiba/Multilaser: chinesa que assumiu divisão de TVs da marca japonesa voltou Foto: Divulgação
Mais telas. Linha de produção das TVs que vão ao mercado sob a parceria Toshiba/Multilaser: chinesa que assumiu divisão de TVs da marca japonesa voltou Foto: Divulgação

Rio - Imagem em 4K, telas com bordas infinitas e assistentes de voz. O mercado de televisores ganhou um componente além das inovações tecnológicas neste ano: a chegada de novas marcas.

Com muita gente trabalhando em casa e trocando o lazer fora pelas opções de audiovisual do streaming em frente ao sofá, as vendas de TV estão em alta. Isso está atraindo interesse de novos fabricantes para o setor, no momento em que algumas multinacionais deixam o país.

O movimento começou com a Britânia, conhecida pelos eletrodomésticos, que anunciou seus primeiros modelos de TV no mês passado. Na próxima semana, é a vez da Toshiba apresentar seus televisores.

A divisão de TVs da marca japonesa (vendida para a chinesa Hisense) está de volta após ter deixado o país em 2018. Fontes do setor revelam que Sanyo e Sharp são outras marcas de sucesso dos anos 1980 e 1990 que preparam o retorno às lojas.

Com modelos na chamada faixa intermediária, as novas marcas miram a classe média, com preços a partir de R$ 1.400.

Esse movimento também é reforçado pela líder do setor no país, a coreana Samsung, que tem levado para seus modelos de entrada cada vez mais recursos até então presentes só nas categorias premium, como plataformas de assistentes de voz e melhor qualidade de imagem.

Faturamento aumenta 16%

Mesmo com a crise provocada pelo novo coronavírus, que reduziu renda e emprego, as vendas de TV estão em alta. Dados da consultoria GFK apontam que o faturamento do segmento de TVs aumentou 16% no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo de 2020.

Segundo Fernando Baialuna, diretor da GFK, a estratégia das empresas é lançar modelos com preços menores:

— Existe oportunidade de entrada de novas marcas aqui e que ofereçam posicionamento de custo-benefício, com preços menor, mas com imagem boa e conectividade. É um mercado que vai ter novos players nos próximos anos, apesar da saída da Sony, que atendia a um público específico.

A Britânia chega com quatro modelos, a partir de 32 polegadas, imagem em HD e 4K e preço a partir de R$ 1.200. Heloísa Freitas, gerente de Marketing da empresa, destaca que o foco é oferecer conectividade com softwares pré-instalados para streaming.

A Toshiba volta ao país com a meta de vender um milhão de unidades até 2026. Para isso, fez parceria com a Multilaser para produzir os modelos no Brasil.

Sem divulgar os preços, Andre Poroger, vice-presidente da empresa, antecipa que o objetivo é mesmo trazer tecnologia com bom custo-benefício. A empresa promete modelos de 55 e 65 polegadas com 4K.

— A marca sempre foi sinônimo de qualidade no mundo todo e ainda está na lembrança do público. Eventos como a Copa do Mundo em 2022 ajudam — afirma Poroger.

Já a líder Samsung planeja expandir suas linhas de TVs em diferentes direções. De um lado, traz tecnologias que permitem maior iluminação na tela com o uso de minilâmpadas de LED com resolução em 8K e telas verticais.

Do outro, investe cada vez mais no crescimento da linha intermediária Crystal, com modelos mais econômicos.

— Nos modelos Crystal, acrescentamos mais qualidade de imagem na tela, criamos novas opções de tamanhos e tornamos os modelos mais finos e com menos bordas. Eram benefícios que estavam nas categorias superiores. Colocamos ainda uma plataforma com assistentes de voz em português — conta Erico Traldi, diretor de TV e Áudio da Samsung Brasil.

Apesar de abandonar o segmento de celular, a LG segue apostando em TVs. Pedro Valery, consultor da empresa, diz que dos 39 modelos à venda pela empresa apenas dois não têm assistentes virtual pré-instalado hoje. Ele explica que a televisão se tornou o centro da conectividade das casas, movimento impulsionando pela pandemia e o home office: 

—  Percebemos que não basta ter apenas conectividade. É preciso ter um ecossistema de voz nos aparelhos 

Pesquisa inédita da Google aponta que houve um aumento de 10% nas buscas por TVs conectadas entre janeiro e abril deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.

Aparelhos de ‘streaming’

Além de TVs melhores, os consumidores também estão mais interessados em ispositivos de conexão para provedores de streaming — como Globoplay, Netflix e Amazon Prime Video. Houve alta de 70% no faturamento desse tipo de produto no primeiro trimestre deste ano, segundo a GFK.

A Amazon aumentou as apostas no segmento com o lançamento de aparelhos de streaming chamados de Fire TV. Eles obedecem ao comando de voz da Alexa, a assistente virtual da Amazon, e oferecem a possibilidade de ver conteúdos em 4K.

O controle remoto do dispositivo substitui algumas funções do comando da televisão, ajudando a navegação.

— É um segmento que cresce muito. Atende a um público amplo, que não tem acesso ao último lançamento de TV ou não consegue baixar aplicativos de streaming — diz Jacques Benain, diretor para dispositivos da Amazon no Brasil.

Sabrina Balhes, líder de pesquisas na Nielsen, disse que o preço  da televisão é uma barreira para 57% das pessoas.

Por isso, ela ressalta que levantamento feito pela Smartclip em parceria com a Nielsen  em março deste ano apontou que 23% das pessoas disseram utilizar dispositivos que transformam as TVs normais em conectadas:

—   A indústria já notou esse potencial.  Por isso, muitas marcas estão chegando ao Brasil.As TVs conectadas estão presentes em 77% dos lares das classses C, D e E, contra 99% da classe A; e 95% da, B. O crescimento do uso dos aparelhos veio acompanhado de grande capilaridade nas classes CDE, mostrando que o acesso não está apenas restrito à população com maior nível de renda.     

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Artigo: 'Eva Wilma foi todas as mulheres do mundo'

Em texto especial para O GLOBO, Maria Adelaide Amaral repassa trajetória admirável da atriz que lutou contra a ditadura e se destacou na TV e nos palcos
Maria Adelaide Amaral*
17/05/2021 - 04:51
A atriz Eva Wilma, em registro feito em 2019 Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
A atriz Eva Wilma, em registro feito em 2019 Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Era assim que Eva Wilma era chamada pelos amigos e colegas: Vivinha. Tão linda quanto digna — e essa era a opinião geral, um dos raros de unanimidade na classe artística.

Vivinha foi estrela do balé IV Centenário, provou que também era atriz no Teatro de Arena e brilhou na televisão desde seus primórdios. "Alô, doçura", série de Cassiano Gabus Mendes, estreou em 1953 na falecida TV Tupi e ficou mais de dez anos no ar. Foi lá que a vi pela primeira vez, ao lado de John Herbert, seu par na arte e na vida, e pai dos seus filhos Vivien e John Herbert Jr.

No meio da intensa atividade de atriz de teatro, cinema e televisão, ela se apaixonou por Carlos Zara, seu galã na primeira versão Mulheres de Areia, novela de grande sucesso dos anos 70. Vivinha e Zara eram um casal lindo e politicamente muito ativo. Vivinha participara na linha de frente na Passeata dos Cem Mil. Carlos Zara era irmão de Ricardo Zarattini, preso e torturado pela Ditadura, a mesma que sequestrara a liberdade, amordaçara o país com a Censura mesquinha e implacável e tinha entre seus projetos asfixiar todos os setores da atividade cultural. Cerrando fileiras com a classe artística, Vivinha e Zara resistiram e lutaram contra o inimigo comum uma guerra que durou vinte anos.

A imagem mais recorrente que guardo de Vivinha e de Zara é sempre eles de mãos dadas. Foram muitos os trabalhos que fizeram na tv como casal romântico ou não. O mais importante era serem escalados para a mesma novela, poderem ir juntos para o estúdio e voltar juntos para casa. Viviam uma história de amor que se provou mais forte quando Carlos Zara foi diagnosticado com uma doença que progressivamente o impediu de andar. Vivinha porém continuou levando o marido para todos os lugares, inclusive nas turnês de teatro que fazia Brasil afora.

Vivinha sempre dava preferência às obras em que podia se apresentar com Carlos Zara. Lembro que ela resistiu muito tempo a montar "Querida mamãe" porque era uma peça de duas mulheres e não havia lugar para seu amado. "Cartas de amor", a última peça em que Zara atuou, já sem poder caminhar, foi uma declaração de amor de Eva Wilma a seu companheiro de jornada.

Incansável, Vivinha continuou trabalhando na televisão e no teatro, cada vez melhor e mais entregue às suas personagens. Em "Verdades secretas", ela se jogou despudoradamente no papel de Fábia. Foi uma das mais notáveis atuações em sua extensa lista de interpretações notáveis. De Catarina, de “A megera domada”, a Maria Altiva de “A indomada”. Ruth/Raquel (“Mulheres de areia”), Dinah (“A viagem”), Maura (“Roda de fogo”), Penélope (“Sassaricando”), Marquesa D’Anjou (“Que rei sou eu?”), Dra. Marta (da série “Mulher”), Maria da Cunha (“Os Maias”), Dona Inês (“Delegacia de Mulheres”).Você foi todas as mulheres do mundo e nunca deixou de ser você, um exemplo de mulher admirável.

Nos últimos anos você resgatou a vocação de cantora, que vinha dos tempos em que foi aluna de Inezita Barroso, e se apresentou no show "Casos e canções" ao lado de seu filho John Herbert Jr. Você não podia parar. A cada trabalho se sucedia outro. Doce e firme Vivinha, grande caráter e para sempre minha querida mamãe. Que trajetória extraordinária você realizou como atriz e mulher. Dá gosto pertencer à classe artística e continuar sua luta de resistência contra quem nos deseja amordaçar.

*Maria Adelaide Amaral é dramaturga, escritora e roteirista

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Quem é a polícia do B? | Opinião - O Globo

"Tudo bandido!", decretou Hamilton Mourão horas depois do massacre no Jacarezinho, em 6 de maio, quando indagado sobre 27 das 28 vítimas fatais. O vice-presidente só conhecia a identidade do policial morto. Os supostos criminosos não tinham sido processados, julgados ou condenados. A segunda maior autoridade do país oferecia seu amparo a execuções extrajudiciais.

Mais: classificando como “bandidos” as vítimas ainda não identificadas, dizia implicitamente que são criminosos os que residem ou simplesmente circulam pelo Jacarezinho. A frase, síntese da barbárie nacional, esclarece os protocolos ocultos de ação da polícia no Rio de Janeiro. Desde o fracasso da política das UPPs, restaurou-se o padrão de invasão de favelas em operações letais. O pressuposto é que as favelas são terra estrangeira e seus moradores, combatentes inimigos.

Exige-se a investigação da Operação Exceptis, cujo nome de batismo enviava uma mensagem voluntária de deboche ao STF e uma outra, involuntária, a todo o país: a polícia do Rio não reconhece as leis regulares, mas apenas suas próprias leis, de “exceção”. O que procurar, porém, na investigação?

A resposta depende da hipótese inicial. Se acreditamos que a polícia do Rio é um corpo armado que opera sem planejamento e sem protocolos, a investigação deveria restringir-se aos desvios em relação aos padrões normais de ação policial e terminar com a punição dos agentes culpados. Mas tudo indica que a polícia segue planejamento e protocolos bem definidos, embora ocultos.

Na cidade do Rio, quase 60% da superfície dos territórios controlados por grupos armados irregulares encontram-se sob o comando de milícias, ou seja, da polícia do B. Apenas 15% são controlados por facções do crime, enquanto 25% são áreas de parceria ou disputa. Contudo a imensa maioria das operações policiais incide sobre os territórios de facções. É coisa incomum a ação da polícia oficial nos territórios de milícias — e mais raros ainda, os eventos de choques entre policiais e milicianos. Não estaríamos diante de uma aliança tácita entre a polícia e as milícias para estender o controle territorial das segundas?

O Jacarezinho situa-se nas vizinhanças da Cidade da Polícia, base principal das chefias e unidades operacionais da Polícia Civil. A favela vive sob a maior facção criminosa do Rio, um grupo sanguinário que nunca faz parceria com as milícias. A facção concorrente, pelo contrário, não rejeita parcerias baseadas numa nítida divisão de trabalho: os traficantes cuidam da venda de drogas, enquanto os milicianos dedicam-se à extorsão de comerciantes e moradores. A seleção do Jacarezinho para a Operação Exceptis parece obedecer a uma lógica de negócios. Quem ganha com uma eventual troca de guarda na favela?

A estúpida “guerra às drogas” é o pano de fundo e o álibi, mas não a causa, do massacre mais recente. Polícia é política. Uma investigação verdadeira do banho de sangue teria que ir muito além da operação no Jacarezinho, em busca das conexões subterrâneas entre a polícia oficial e a polícia do B.

O prefeito Eduardo Paes oscilou entre a condenação à violência da polícia e a crítica às restrições impostas pelo STF às ações policiais. “Se a reação for tão radical quanto a operação de ontem, um ‘ah, então libera geral esse território aqui para fazerem o que quiserem’, nós vamos viver esse pêndulo terrível que vitimiza principalmente as pessoas que moram em comunidades.” O “pêndulo terrível”, porém, instalou-se há décadas, e o “libera geral” exprime a postura estatal diante das milícias.

Paes identifica corretamente “as pessoas que moram em comunidades” como as vítimas da crônica guerra suja no Rio. Contudo finge que a solução encontra-se em olhar para outro lado, isto é, voltar à estranha “normalidade” vigente na segunda maior metrópole do país. Se ele se preocupa com as vítimas, deve clamar por uma “reação radical”: a implantação do Estado de Direito no conjunto da cidade que administra. Para isso, antes de tudo, é preciso reconhecer que a polícia oficial já não se distingue da polícia do B.

Demétrio Magnoli - assinatura

Por Demétrio Magnoli

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Livro recomendado por Juliette, do BBB, passou a ser o mais vendido da Amazon | Ancelmo - O Globo

Por Ancelmo Gois

Juliette, a campeã do BBB

Veja a colossal força do Big Brother Brasil. Juliette, a vencedora do BBB21, numa live, sábado, citou o livro "Um guia prático para a liberdade pessoal", do mexicano Don Miguel Ruiz. Pois ontem, o livro acordou no topo da lista de mais vendidos da Amazon. A editora BestSeller está revendo a tiragem e antecipando a distribuição para atender a demanda.

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A opinião de um Insider: a tragédia do Deep State dos EUA - Pepe Escobar

Por Pepe Escobar

Por Pepe Escobar, para o Strategic-Culture

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Henry Kissinger, 97 - Henry, o K., para os que ele mantém próximos - é ou um pensador estratégico ao estilo oráculo de Delfos ou um criminoso de guerra de papel passado, para os mantidos não tão próximos assim.

Ele agora parece ter tirado uma folga de sua especialidade, o Dividir para Dominar de sempre - e passado a aconselhar o combo por trás do Presidente dos Estados Unidos, também conhecido como o Boneco de Teste de Colisão - a emitir algumas pérolas de realpolitik.

Em um recente fórum realizado no Arizona, referindo-se ao inflamado e descomunalmente importante conflito sino-americano, Henry, o K. disse: "É o maior problema para a América; é o maior problema para o mundo. Por que, se não conseguirmos resolvê-lo, há o risco de, por todo o mundo, uma espécie de guerra fria vir a se desenvolver entre a China e os Estados Unidos".

Em termos de realpolitik, essa "espécie de guerra fria" já começou. Por todo o Beltway, a China é unanimemente vista como a maior ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.

Kissinger acrescentou que a política dos Estados Unidos em relação à China deve combinar a ênfase nos "princípios" norte-americanos, para exigir o respeito da China, e o diálogo, para encontrar possíveis áreas de cooperação: "Não estou dizendo que a diplomacia sempre levará a resultados benéficos... Essa é a tarefa complexa que temos pela frente... Ninguém jamais conseguiu total sucesso".

Henry, o K., na verdade, deve ter perdido de todo a noção - em questões de diplomacia. O Chanceler chinês Wang Yi e o Chanceler russo Sergey Lavrov estão, no momento, dedicados em tempo integral a demonstrar - principalmente ao Sul Global - que a "ordem internacional baseada em regras" impingida à força pelos Estados Unidos não tem absolutamente nada a ver com o direito internacional e com o respeito pela soberania nacional. 

A princípio, eu havia arquivado e esquecido essas banalidades de Henry, o K. Mas, então, alguém que já ocupou uma posição de destaque no altíssimo escalão do Deep State dos Estados Unidos mostrou que ele havia prestado muita atenção. 

Essa personalidade - que iremos chamar de Mr. S. - vem sendo uma de minhas inestimáveis e valiosas fontes desde inícios dos anos 2000. Confiança mútua sempre foi o fator-chave. Perguntei a ele se eu poderia publicar passagens selecionadas de suas análises, sem citar nomes. Um relutante consentimento foi dado. Portanto, apertem os cintos.   

Dançando com Mr. S.

Mr. S., de forma bastante intrigante, parece estar expressando a opinião coletiva de diversas personalidades extremamente qualificadas. Desde o início, ele aponta que as observações de Henry, o K., explicam o atual triângulo Rússia-China-Irã. 

O primeiro ponto que queremos colocar é que não foi Kissinger que formulou políticas para Nixon, e sim o Deep State. Kissinger era só um mensageiro.  Na situação 1972, o Deep State queria sair do Vietnã, política essa que foi montada para conter a China Comunista e a Rússia.

Ele continua: 

O Deep State planejava alcançar uma série de objetivos ao se aproximar do Presidente Mao, que era antagonizado pela Rússia. Em 1972, eles queriam se aliar à China contra a Rússia. Isso fez com que o Vietnã perdesse todo e qualquer sentido, pois a China se tornaria a parte incumbida da contenção da Rússia, e o Vietnã deixava de ter importância. Nós queríamos usar a China para contrabalançar a Rússia. Em 1972, a China não era uma grande potência, mas poderia ajudar a exaurir a Rússia, forçando-a a posicionar tropas de 400 mil homens na fronteira entre os dois países. E a política de nosso Deep State funcionou. Fomos nós, no Deep State, que formulamos essa ideia, e não Kissinger. Tropas de 400 mil homens na fronteira chinesa abririam um rombo no orçamento russo, como mais tarde ocorreria com o Afeganistão, com mais de 100 mil homens, e o Pacto de Varsóvia, com outros 600 mil. 

O que nos leva ao Afeganistão: 

O Deep State, em 1979, queria criar no Afeganistão um Vietnã para a Rússia.  Eu fui um dos que se opuseram, porque isso iria, desnecessariamente, usar o povo afegão como carne de canhão, o que seria injusto. Fui voto vencido. Aqui, Brzezinski fazia o papel de Kissinger: uma outra nulidade superestimada que não fazia nada além de levar e trazer mensagens.

O Deep State decidiu também derrubar o preço do petróleo, o que enfraqueceria economicamente a Rússia. E isso funcionou em 1985, levando o preço a oito dólares o barril, o que devorou metade do orçamento russo. Então, nós praticamente demos licença a Sadam Hussein para a invadir o Kuwait, como manobra para enviarmos nosso exército avançado para expulsá-lo,  demonstrando ao mundo nossa superioridade em termos de armamentos, o que desmoralizou muito a Rússia e colocou o temor a Deus no petróleo islâmico. Então, inventamos a ficção da Guerra nas Estrelas. A Rússia, para nossa surpresa, esmoreceu e entrou em colapso.

Mr. S. define todo o descrito acima como algo "maravilhoso", em sua opinião, porque "o comunismo saiu e a cristandade entrou": 

Nós, então, queríamos aceitar a Rússia na comunidade das nações cristãs, mas o Deep State pretendia desmembrá-la. Isso foi estúpido, porque eles serviriam de contrapeso à China, pelo menos de seu ponto de vista mackinderista. Foi ingênuo de minha parte ter esperança em um retorno ao cristianismo, uma vez que o Ocidente se dirigia rapidamente à total desintegração moral.

Enquanto isso, nossa aliada China continuava a crescer, porque não havíamos ainda concluído o desmembramento da Rússia, e os consultores que enviamos à Rússia destruíram toda a economia do país nos anos 1990, indo contra minhas objeções. O bombardeio de Belgrado, que durou 78 dias, fez a Rússia finalmente acordar e dar início a uma remilitarização maciça, uma vez que estava óbvio que a intenção era, ao final, bombardear e arrasar Moscou.  Portanto, mísseis defensivos passaram a ser de importância essencial. Daí o  S-300, o S-400, o S-500 e, pouco mais tarde, o S-600s. 

O Deep State havia sido avisado por mim, em nossas reuniões, de que bombardear Belgrado, em 1999, faria com que a Rússia se remilitarizasse, mas fui voto vencido. Belgrado foi bombardeada por 78 dias, bem mais que os dois dias que duraram o bombardeio por vingança de Hitler.  E a China continuava a crescer.

Por que o equilíbrio de poder não funciona

O que nos traz a uma nova era - que, na prática, começou com a China anunciando as Novas Rotas da Seda, em 2013; e com Maidan, em Kiev, em 2014:  

A China acorda para tudo isso e começa a se dar conta de que havia simplesmente sido usada, e que a frota dos Estados Unidos controlava agora todas as suas rotas de comércio. Ela decide se aproximar da Rússia em 2014, mais ou menos na mesma época em que testemunhava a derrubada de Maidan, na Ucrânia. Essa derrubada foi organizada pelo Deep State, que então começou a entender que havíamos perdido a corrida armamentista e sequer sabíamos muito bem o que estava acontecendo.  

O Deep State queria atrair a Rússia para um novo Vietnã na Ucrânia para exauri-la economicamente, e novamente derrubar o preço do petróleo, o que de fato fizeram. Pequim estudou a situação e entendeu do que se tratava. Se a Rússia cair, o Ocidente irá controlar todos os seus recursos naturais, dos quais a China passava a depender, à medida que se tornava uma economia gigantesca, maior que a dos Estados Unidos. E Pequim passa a abrir caminho a uma relação amistosa com Moscou, na tentativa de obter recursos de base terrestre, como petróleo e gás natural da Rússia, de modo a evitar ao máximo precisar transportar recursos naturais por via marítima. Nesse meio tempo, Pequim acelera maciçamente a construção de submarinos porta- mísseis capazes de destruir as frotas dos Estados Unidos. 

Então, onde Kissinger no Arizona entra nessa história? 

Kissinger reflete a angústia do Deep State frente à relação Rússia-China, que ele quer ver rompida a qualquer custo.  Kissinger se expressa de forma bastante interessante. Ele não quer falar a verdade sobre a realidade do equilíbrio de poder, que ele descreve como "nossos valores", quando os Estados Unidos, hoje, só tem como valores a anarquia, o saque e o incêndio de centenas de cidades. Biden espera poder comprar todas essas multidões privadas de qualquer direito enquanto imprime dinheiro em ritmo desvairado.

Estamos de volta, portanto, a Kissinger chocado com a nova aliança russo-chinesa. Os dois países têm que ser separados.

Eu não concordo com os conspiradores do equilíbrio de poder, que afirmam que a moralidade e os valores nobres, e não o poder, devem reger a política internacional. Os Estados Unidos vêm perseguindo sonhos de equilíbrio de poder desde 1900, e agora veem-se confrontados com a ruína econômica. Essas ideias não funcionam. Não há razão alguma para os Estados Unidos não serem amigos da Rússia e da China, e as diferenças podem perfeitamente ser solucionadas. Mas não se consegue dar sequer os passos iniciais, uma vez que considerações de equilíbrio do poder dominam tudo. Essa é a tragédia de nosso tempo. 

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Joe Biden recicla Franklin D. Roosevelt - Atilio Boron

Por Atilio Boron

Joe Biden discursa no Congresso dos EUA

Por Atilio A. Boron

Biden dá uma resposta defensiva à profundidade sem precedentes da crise do capitalismo estadunidense e ao retumbante fracasso das políticas ortodoxas

A reorientação macroeconômica do governo Biden deu origem a inúmeras especulações sobre até onde iria o mandatário estadunidense nessa nova direção. Uma leitura cuidadosa de seu discurso, proferido perante ambas as casas do Congresso no 100º dia de seu mandato, permite vislumbrar uma primeira resposta.

Biden disse que suas palavras tinham que ser interpretadas no marco de uma tripla crise: “a pior pandemia do século, a pior crise econômica desde a Grande Depressão e o pior ataque à democracia desde a Guerra Civil”. Enfrentar estas ameaças não era algo que pudesse ser feito com políticas habituais, mas exigiam criatividade e esforços renovados. De seu discurso, depreende-se que é mais fácil combater a pandemia, mais difícil atacar a crise econômica e mais difícil ainda curar as feridas sofridas pela democracia estadunidense, que, na opinião de muitos observadores dentro desse país, se degradou ao nível de uma plutocracia voraz.

Deixemos a pandemia para outra ocasião, para nos concentrarmos nas propostas econômicas. Há claramente um retorno ao New Deal de Roosevelt, embora seja mencionado apenas uma vez ao longo das dezesseis páginas de seu discurso, e não exatamente quando fala de economia. Mas seus anúncios são um apelo a favor de uma vigorosa reafirmação do papel do estado como redistribuidor de riqueza e renda, como investidor em grandes empreendimentos em infraestrutura e novas tecnologias, e como garantidor do fortalecimento das camadas médias, filhas, por sua vez, do ativismo sindical.

Porque, esclareceu ele, “a economia do gotejamento nunca funcionou… e é hora da economia crescer de baixo para cima”. Os números que ele citou para justificar esta mudança de paradigma macroeconômico, que desaloja completamente os charlatães e consultores econômicos que continuam propagando as falácias do neoliberalismo em muitos meios de comunicação da Argentina, eram bem conhecidos nos círculos acadêmicos e políticos de esquerda nos Estados Unidos, mas quase completamente desconhecidos do público em geral e até mesmo dos membros do Congresso. Por exemplo, a diferença entre a renda do CEO de algumas empresas e o trabalhador médio é de 320 para 1, enquanto no passado era uma já intolerável de 100 para 1, uma equação incompatível com o “sonho americano”.

Portanto, a triplicação desse hiato deve ser corrigida pelas políticas públicas. Os bilionários ficaram ainda mais ricos com a pandemia e utilizaram todos os mecanismos a seu alcance para evadir-se do pagamento de impostos, que recaem sobre as camadas média e os trabalhadores, uma afirmação que cabe como uma luva para descrever a situação na Argentina. Daí sua proposta de estabelecer um imposto de 39,6% sobre aqueles que ganham mais de 400 mil dólares anuais. É inaceitável, disse Biden, que 55 das maiores corporações do país não pagaram um centavo de impostos federais, apesar de terem obtido mais de 40 bilhões de dólares em lucros. As ressonâncias rooseveltianas de seu discurso aumentaram quando afirmou, contrariando um credo muito difundido, que “Wall Street não construiu este país. As classes médias que o fizeram. E foram os sindicatos que criaram as classes médias”. Em seguida, solicitou ao Congresso a rápida aprovação de uma legislação que respalde o direito de organizar sindicatos, que havia sido severamente cerceado por Reagan. Walmart e Amazon, para mencionar os dois casos mais conhecidos, têm sido os porta-bandeiras da luta antissindical nos últimos tempos e travarão duras batalhas contra as propostas de Biden.

Como podemos interpretar esta guinada tão significativa no discurso e nas propostas legislativas apresentadas por Biden? Ele converteu-se ao nacional-populismo, ao socialismo? Nada disso. É a resposta defensiva à profundidade sem precedentes da crise do capitalismo estadunidense e ao retumbante fracasso das políticas ortodoxas promovidas pelo FMI e pelo Banco Mundial para enfrentá-la. E diante do fiasco produzido pela redução de impostos para os ricos promovida por Trump, que, previsivelmente, não surtiram o efeito desejado.

Mais do que de Biden, porém, a reação vem das alturas do aparato estatal que, na tradição marxista, em ocasiões críticas desempenha o papel do “capitalista coletivo ideal”. Ou seja, um sujeito que se eleva acima de interesses corporativos ou setoriais mesquinhos e apela para estratégias que protejam a classe capitalista em seu conjunto e o capital como sistema econômico, ameaçados pela concorrência da China e pela belicosidade da Rússia. Da primeira, por causa de seu arrasador dinamismo econômico e seus grandes avanços tecnológicos; da Rússia, por sua “ingerência maligna” na política norte-americana. E ao falar das mudanças tecnológicas (com implicações tanto para a defesa quanto para a vida cotidiana), Biden afirmou que os Estados Unidos estão ficando para trás nesta corrida crucial com as “autocracias” da China e da Rússia, que desafiam a liderança que os Estados Unidos devem exercer no mundo, embora ninguém possa dizer quem, como e quando lhe foi confiada tão elevada missão. Daí a radicalidade das mudanças propostas.

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Como surgiu o espantalho da ideologia de gênero

Introduzido na política em 2013, o termo foi criado por forças católicas e evangélicas associadas a movimentos políticos de ataque feroz contra gênero, sexualidade e raça nos debates do Plano Nacional de Educação

(Foto: ilustraçao - idelologia - genero)

247 - Uma das principais bandeiras do governo Bolsonaro, “o combate à ideologia de gênero” foi rapidamente introduzido nos discursos políticos desde as eleições de 2018, mas essas discussões começaram bem antes, em 2011, com as fantasiosas histórias dos “kit gay”, e tomaram corpo, em 2013, com o crescimento das forças cristãs neoconservadoras associadas ao movimento Escola  Sem Partido, que no caminho encontro o Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024), um verdadeiro espantalho da “ideologia de gênero como afirma Sônia Corrêa, ativista feminista e pesquisadora, em artigo na revista Cult

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Leia alguns trechos do artigo:

Em 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou inconstitucionais leis estaduais e municipais, aprovadas desde 2014, que proíbem gênero na educação, mas isso não deteve a proliferação de projetos de leis antigênero, seja no campo educacional, seja em outros domínios, como o reconhecimento da identidade de gênero na infância, a participação de atletas trans em competições esportivas e o uso da linguagem neutra de gênero. Desde o ano passado, as forças engajadas nessas cruzadas negaram a gravidade da Covid-19, recusaram medidas de isolamento e prevenção e atacaram as vacinas, contribuindo, portanto, para o fracasso da resposta à pandemia, do qual decorre a hecatombe em que o país está mergulhado no começo de 2021.

Essas ofensivas não começaram em 2018, nem são exclusivamente brasileiras. Para dimensioná-las ou interpretá-las corretamente – tratar de sua invenção, maturação e propagação, das forças nelas envolvidas, de seu caráter transnacional e de seus múltiplos efeitos –, precisamos examinar de perto. Não é possível fazer isso em poucas páginas. Neste breve texto, o que ofereço são notas mínimas sobre os ciclones que têm reconfigurado o campo de disputas muito mais antigas em torno de gênero e sexualidade no mundo e no Brasil.

Mas antes disso já circulava no país o espantalho da “ideologia de gênero”, como definido pela antropóloga Letícia Cesarino. Em 2003, a expressão foi usada por um deputado do Prona em discurso na Câmara Federal e, em 2007, o documento final da reunião do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), realizada em Aparecida, recomendou o firme combate à “ideologia de gênero”, deflagrando uma propagação mais ampla dessa categoria acusatória no país. Estudo de Carla Castro Gomes – Propagação de discursos sobre “ideologia de gênero” no Brasil, publicado em 2020 e disponível no site do Sexuality Policy Watch – informa que, até 2013, essa difusão se deu, exclusivamente, via canais ultracatólicos. A partir de então, ganhou escala ao ser veiculada pela mídia digital evangélica e replicada por pastores, influencers e figuras políticas.

A invenção da “ideologia de gênero”

O “problema de gênero do Vaticano”, que está na origem dessas mobilizações, eclodiu no estágio final de preparação para a IV Conferência Mundial das Mulheres (Beijing), em março de 1995. Esse episódio e seus desdobramentos foram analisados, em detalhe, em artigos recentes, como “A ‘política do gênero’: um comentário genealógico”, de minha autoria (Cadernos Pagu, n. 53, 2018), “‘Ideologia de gênero’ em movimento”, de David Paternotte e Roman Kuhar, e “A invenção da ‘ideologia de gênero’: a emergência de um cenário político-discursivo e a elaboração de uma retórica reacionária antigênero”, de Rogério Diniz Junqueira (ambos publicados na Revista de psicologia política, vol. 18, n. 43, 2018).

Sintetizando essas análises, o episódio foi uma reação tardia à adoção do conceito de gênero pelo documento final da Conferência Internacional de População e Desenvolvimento do Cairo, que acontecera seis meses antes. Na conferência de Beijing, o uso do termo não causou maior controvérsia, embora tenha sido objeto de reservas por parte do Vaticano e do Paraguai. Mas, sem dúvida, inaugurou o que pode ser nomeado como “era da ideologia antigênero”. Iniciou-se a produção de uma vasta literatura de repúdio ao gênero, assinada por autoras e autores não clericais. Ela antecipou a crítica teológica do Vaticano, elaborada nos anos 2000, da qual resultaria, por sua vez, um acervo amplo de documentos vinculando os efeitos nefastos do gênero a múltiplas esferas da vida individual, social e política.

A tese central dessa literatura é que a teoria feminista do gênero é um engodo porque anuncia a igualdade entre homens e mulheres para destruir a diferença sexual “natural”. O texto da “Carta aos bispos” adiciona novos elementos a essa acusação, associando gênero à “polimorfia sexual”. Eric Fassin, em “Gender and the Democratic Problem of Universals: Catholic Mobilizations and Sexual Democracy in France”, artigo publicado na revista Religion & Gender (vol. 6, n. 2, 2016), observa que esse discurso se sustenta na primazia da ordem natural, evocada em termos dogmáticos e quase darwinianos para obstaculizar transformações em curso nas democracias sexuais contemporâneas. Esse apelo à ordem natural foi levado ao extremo, em 2009, quando Bento VVI equiparou a “ideologia de gênero” com a destruição das florestas, em discurso na Assembleia Geral da ONU. Desde 2013, Francisco, que tem na defesa ambiental uma de suas prioridades, afirmou, em algumas ocasiões, que “gênero é diabólico”.

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