O que Jair diz não se escreve
Número de mortes provocadas pela pandemia é DUAS ou TRÊS vezes MAIOR que o REGISTRADO, diz OMS
Pesquisa Vox Populi: Lula VENCE no PRIMEIRO TURNO
Vox: 72% estão insatisfeitos e 46% dizem que Bolsonaro é o PIOR presidente da HISTÓRIA
Lula diz ao The Guardian que Bolsonaro é um "PSICOPATA" que fez do Brasil "um PÁRIA GLOBAL"
Apenas 39% dos idosos tomaram duas doses da vacina no Brasil; especialistas temem 3ª onda
Edinho Silva diz que TERCEIRA ONDA da Covid "VIRÁ e será VIOLENTA" e baixa novo decreto para frear a doença em Araraquara
Omar Aziz: "Pazuello está dizendo que Bolsonaro é um grande mentiroso"
OMS pede ao Brasil medidas contra variante "indiana"
Como a SYNGENTA passou DÉCADAS questionando e PERSEGUINDO cientistas para ABAFAR seus ALERTAS sobre RISCOS de agrotóxicos
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Pesquisa Vox Populi: Lula vence no primeiro turno

247 - Pesquisa presencial realizada pelo Instituto Vox Populi, divulgada nesta sexta-feira (21), aponta que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceria Jair Bolsonaro já no primeiro turno caso as eleições presidenciais fossem realizadas hoje. De acordo com o levantamento, ele tem 43% contra 41% de todos os demais candidatos somados. Num eventual segundo turno, Lula aparece com 55% a 28% de Bolsonaro.
Na pesquisa estimulada Lula teria 43% dos votos válidos contra 24% de Bolsonaro. Depois aparecem o apresentador Luciano Huck (sem partido) e Ciro Gomes (PDT), com 8% e 5%, respectivamente. João Doria (PSDB) figura em seguida com 2% e aparece empatado com João Amoedo (Novo), que também possui 2% da intenção do eleitorado. Votos brancos e nulos somam 14%.
Lula tem 33% na pesquisa espontânea, enquanto Jair Bolsonaro aparece com 19%. Ciro tem 2% e os demais têm 1%.
Em um eventual segundo turno, Lula teria 55% da preferência do eleitorado contra 28% de Bolsonaro. Caso a disputa fosse contra Ciro Gomes, o ex-presidente venceria com 52% contra 19% do pedetista. Lula também venceria o tucano João Doria com 56% contra 14%.
O levantamento apontou, ainda, que Lula possui a preferência de 72% do eleitorado nordestino – contra 21% de Jair Bolsonaro.
Outros destaques de Lula na pesquisa: ele lidera no segmento que ganha até dois salários mínimos com 52% e tem entre os eleitores pretos e pardos 51% e 48%, respectivamente.
A Pesquisa ouviu 2 mil eleitores em 119 municípios de todo o Brasil. A margem de erro é de 2,2%, estimada em um intervalo de confiança de 95%.
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Vox: 72% estão insatisfeitos e 46% dizem que Bolsonaro é o pior presidente da história

247 - Um levantamento feito pelo Instituto Vox Populi, divulgado nesta sexta-feira (21), apontou que 72% dos brasileiros estão insatisfeitos com o governo Jair Bolsonaro, um aumento de dois pontos percentuais a comparação com a pesquisa anterior, de abril de 2019. Os satisfeitos somaram 27%, queda de dois pontos percentuais. Os que não responderam ou não souberam somaram 1% (eram 2% nas estatísticas anteriores).
De acordo com a pesquisa, 46% dos entrevistados disseram que Bolsonaro já pode ser considerado o pior presidente da história do Brasil, um aumento de 16 pontos percentuais em relação a este quesito ("Qual é o pior presidente que o Brasil já teve?"), abordado pelo instituto em dezembro de 2019 - a pergunta foi feita de forma espontânea, quando não são apresentados os nomes dos políticos.
A pesquisa mostrou que, na avaliação de 46% dos brasileiros, Luiz Inácio Lula da Silva foi o melhor presidente da história do Brasil; 17% afirmaram que é Bolsonaro e 8% citaram outros nomes. Para 12% nenhum dos que ocuparam o Planalto pode ser considerado o melhor e 10% não souberam ou responderam.
Segundo os números, 50% dos entrevistados afirmaram que gostam do petista; 25% disseram gostar dele; 24% não gostar nem desgostam e 2% não souberam ou não responderam.
Em relação a Bolsonaro, 27% disseram que gostam e 50% afirmaram não gostar dele; 22% não gostam nem desgostam, e 2% não souberam ou não responderam.
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Lula diz ao The Guardian que Bolsonaro é um "psicopata" que fez do Brasil "um pária global"

247 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista concedida ao jornal britânico “The Guardian” publicada nesta sexta-feira (21), considera que as eleições de 2022 poderá ser o momento para “o Brasil ser resgatado depois de ser transformado em um pária global atingido pela Covid por seu ‘psicopata’ presidente Jair Bolsonaro” .
Lula disse que o surto de Covid no Brasil e a crise socioeconômica que ele gerou significam que é muito cedo para lançar o que seria sua sexta campanha presidencial desde 1989. Mas afirmou ter experiência e vontade de liderar a “recuperação” do Brasil após os danos infligidos pela incompetência de Bolsonaro, e o faria, se seu partido e eleitores quisessem.
O petista mais uma vez reforçou que Bolsonaro está diretamente ligado às 444 mil mortes decorrentes da Covid-19. “Ele poderia ter evitado metade dessas mortes”, apontou.
Questionado sobre os últimos ataques de Bolsonaro, que chegou a dizer que o petista “é filho do capeta”, Lula respondeu que, “nos últimos dois ou três anos, Bolsonaro quase não pronunciou meu nome porque pensava que eu estava fora do jogo - e agora de repente ele percebe que estou segurando todas as melhores cartas e se isso fosse pôquer ele já teria perdido”.
Lula declarou ainda estar em forma, fazendo atividades físicas e que "correu 8 quilômetros" antes da entrevista, preparando-se para maratona que se avizinha: “Assim que o nosso partido tiver seu candidato e estivermos em campanha, quero viajar pelo Brasil, visitar todos os estados, fazer debates, conversar com o povo, visitar as favelas, os recicladores, as pessoas LGBT ... Quero falar com a sociedade brasileira para poder dizer: 'É possível construirmos um novo país ... É possível fazer esse país feliz novamente. ”
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MENTIRAS NA CPI
O que Jair diz não se escreve
O general Eduardo Pazuello conquistou no Supremo Tribunal Federal (STF) o direito de silenciar para não se incriminar na CPI da Covid. Foi ao Senado e, bem treinado, falou. Num par de dias, seguiu à risca a missão de (tentar) livrar de culpa o presidente da República e repartir, com estados, municípios, Judiciário e empresas, a própria responsabilidade no enfrentamento à pandemia da Covid-19, a mais grave em um século. O ex-ministro da Saúde colaborou pouco, quase nada, para esclarecer atos e omissões que já levaram à morte quase 450 mil brasileiros. Mas deixou às claras o método de atuação política e gestão pública de um governo que despreza a democracia. Não há compromisso com a palavra. O que Jair Bolsonaro diz não se escreve.
Foi no que se anunciava como a quarta-feira do fim do mundo que Pazuello, em vez de medo, exibiu aos membros da CPI arrogância, e à família Bolsonaro, lealdade. Na sessão, a apoiá-lo estava o senador Flávio, filho Zero Um do presidente, tal como fez com Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação, e Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores, contradições e mentiras à parte, igualmente alinhados ao Planalto nos depoimentos. O relator Renan Calheiros esperava arrancar do general a confissão de que adiara a assinatura do contrato de compra da CoronaVac com o Instituto Butantan por ordem do mandatário, que assim anunciara em rede social e diálogo com apoiadores. Ouviu que não aconteceu.
“Ele falou publicamente. Para o ministério ou para mim, nunca. Aquilo foi apenas uma posição do agente político na internet. Uma postagem na internet não é uma ordem. Uma ordem é uma ordem direta verbal ou por escrito. Nunca foi dada. Nunca”, declarou o general, sob juramento.
Pazuello apartou o agente público do político. Assim, escancarou a fragilidade da democracia brasileira sob Bolsonaro, um líder que diz para desdizer e, assim, não se comprometer. “Ele fez uma separação indicando que o presidente se comportaria bem na função, mas como agente político faz seu show. Isso não existe. Há uma figura só. A democracia depende de procedimentos formais, de pesos e contrapesos das instituições, como Congresso, Judiciário. A informalidade sugerida por Pazuello é amiga do autocrata e profundamente nociva à democracia”, resume o cientista político Sérgio Abranches, autor de “Presidencialismo de coalizão” e “O tempo dos governantes incidentais”.
Foram os Estados Unidos de Donald Trump que inspiraram Jair Bolsonaro a se comunicar via internet, fazendo da confusão, método. Ao longo da gestão do ex-presidente americano, era comum servidores dizerem que ignoravam manifestações públicas que ferissem normas técnicas. No caso brasileiro, se o discurso negacionista no enfrentamento à pandemia não se materializa formalmente, é possível dizer que a ordem dada não existiu, analisa Marcelo Träsel, especialista em democracia e desinformação, professor da UFRGS e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji): “Esta é justamente a estratégia bolsonarista, não deixar um rastro de papel que possa ser levantado pela CPI, por jornalistas ou pelo Judiciário”.
Não é erro nem incompetência, é projeto. No Brasil, manipulação e mentira estão a serviço da política. A palavra do líder não o responsabiliza, mas foi por ela que o eleitor o escolheu. “É uma farsa. Não há outra maneira de classificar. Na percepção do público, não existe separação entre o que o presidente materializa num ofício, numa ordem, num decreto e o que ele fala nas redes sociais. Então, me parece bastante evidente que o único objetivo das justificativas na CPI é tentar separar a persona de Jair Bolsonaro nas redes sociais de sua atuação como presidente. É uma tentativa de confundir a população e de se livrar de eventuais sanções jurídicas por negligência na condução da coisa pública”, diz Träsel.
Método explicitado por Pazuello, o rei está nu. Houvesse somente a militância acrítica, o Brasil estaria lascado. Mas a tragédia experimentada na pandemia acordou setores da sociedade. Na última pesquisa Datafolha, mais da metade dos brasileiros (51%) considera ruim ou péssimo o enfrentamento de Bolsonaro à pandemia; 45% avaliam negativamente o governo. A rejeição é mais alta nos grupos historicamente excluídos e/ou particularmente prejudicados pela combinação das crises sanitária, social e econômica. As piores avaliações são de mulheres (50% de ruim ou péssimo), pretos (53%), jovens (49%), estudantes (57%), assalariados sem carteira (50%), desempregados (53%), servidores públicos (58%) e desalentados (47%). Impossível enganar todo mundo o tempo todo.

Por Flávia Oliveira
Dois objetivos da CPI: responsabilização e reparação | Vera Magalhães - O Globo

Transcorridas três semanas de depoimentos na CPI da Covid, os senadores estão convencidos de uma coisa: além de ver a responsabilização de autoridades pela calamidade brasileira na pandemia, a população quer uma reparação para um luto traumático, prolongado, que tem sido tratado com profundo desprezo por Jair Bolsonaro e seus subordinados, familiares e aliados. O relatório final do senador Renan Calheiros deverá abranger as duas dimensões.
No campo da responsabilização, a sucessão de depoimentos deixa claro que há um trabalho árduo e técnico a fazer, que até aqui deixou a desejar.
É preciso esquadrinhar os principais eixos de crimes cometidos para que se alcançasse a marca inadmissível de mortos, que deverá chegar em breve a aterrador meio milhão de brasileiros, e traçar a cronologia, a cadeia de comando e a correta imputação jurídica em cada um deles.
Esses eixos, definidos desde o início dos trabalhos, são três: a decisão de postergar ao máximo a compra de vacinas, único meio cientificamente seguro de proteger vidas; a ênfase, com largo emprego de recursos públicos, no “tratamento precoce”, sabidamente sem eficácia científica para Covid-19, e a tragédia de Manaus.
Uma quarta frente aventada depois da instalação da CPI, a aposta por parte do governo federal numa imunidade de rebanho sem vacina, que seria obtida fazendo com que o maior número de pessoas se contaminasse para que as atividades econômicas pudessem ser retomadas mais rapidamente, é considerada de mais difícil demonstração fática.
Por isso mesmo, essa avaliação deverá compor a segunda dimensão do parecer final, que será a reparação pelo luto nacional, a expressão humana da tragédia brasileira na mais séria crise deste século e quanto o negacionismo de Bolsonaro e companhia contribuiu para isso.
“No geral, estamos somando peças para um processo que é de responsabilização, mas também de esclarecimento para a população. Estamos todos sufocados pelo coronavírus e pelas mentiras continuadas”, resume o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), um dos autores do requerimento de criação da CPI e membro suplente da comissão.
Esse sufocamento explica a catarse nacional assistida a cada sessão de depoimentos da CPI. Não se duvide: essa adesão, com enorme potencial danoso para sua imagem, enlouquece Bolsonaro muito mais que o salto diário de mais de 2.000 mortes, pelas quais ele jamais decretou luto nacional, ou nunca se compadece ou é incapaz de reconhecer alguma responsabilidade.
É o fator “Big Brother” da CPI que atordoa o presidente, que leva a desabafos como o do ministro das Comunicações, Fábio Faria, que entende o tamanho do estrago.
Mas só fazer uma investigação midiática não adianta. Ainda mais porque os depoimentos com esse potencial tendem a rarear daqui para a frente.
É necessário que a CPI seja cirúrgica na imputação de responsabilidades e eloquente ao cumprir o papel de expiar a tragédia de um ano e quatro meses.
O mesmo senador Alessandro citou na sessão de quinta-feira o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, ao se referir a uma certa banalização do mal verificada na conduta das autoridades no curso da pandemia.
É sempre um risco fazer qualquer analogia ao genocídio mais bárbaro da História da humanidade, o cometido pelo nazismo contra o povo judeu. Mas o comportamento de burocratas que, como Eduardo Pazuello, insistem em minimizar sua contribuição para que tenhamos chegado até aqui, e não reconhecem nem sequer o cometimento de erros para que o Brasil tenha uma das piores respostas globais ao coronavírus é, sim, um aspecto que precisa ser contemplado pela CPI. Em respeito à memória dos que perderam a vida quando poderiam ter sido salvos —e de quem chora essas pessoas.
As mentiras do general | Bernardo Mello Franco - O Globo

Eduardo Pazuello vestiu terno e gravata, mas falou à CPI como se estivesse de farda. Camuflado de civil, o general parecia enxergar os senadores como um bando de recrutas. Chegou a censurar as perguntas do relator, que classificou como “simplórias”.
Protegido por um habeas corpus do Supremo, o ex-ministro se sentiu livre para mentir. Mentiu sobre a negociação de vacinas, a indicação de remédios milagrosos e a omissão na crise de falta de oxigênio em Manaus. Mentiu até sobre a própria saúde, ao negar o piripaque que interrompeu seu depoimento na quarta-feira.
Pazuello foi à CPI com uma missão clara: blindar Jair Bolsonaro e assumir a responsabilidade pelos desmandos na pandemia. Para proteger o chefe, renegou sua frase mais famosa: “Um manda, o outro obedece”. Na nova versão, o capitão nunca deu ordens ao general. Só produziu frases de efeito para animar seguidores na internet.
O senador Flávio Bolsonaro voltou a atuar como cão de guarda do pai. Vigiou o ex-ministro para evitar que ele se desviasse do roteiro combinado. Na saída, elogiou Pazuello pelo bom comportamento. Só faltou condecorá-lo com uma medalha a mais para o uniforme.
Na tentativa de arrancar alguma revelação, a oposição apelou aos brios do general. O senador Rogério Carvalho disse que ele parecia um ajudante de ordens do capitão. Otto Alencar expôs sua ignorância sobre o coronavírus. “O senhor não sabe nem o que é a doença. Não podia ser ministro da Saúde”, sentenciou.
Para alívio do governo, o general conseguiu se manter na linha. Não convenceu ninguém do que dizia, mas evitou a explosão de nervos temida pelo Planalto. Ele também foi ajudado por senadores que, em vez de apertá-lo, preferiram subir no palanque e discursar para a TV.
Em tom de desafio, Pazuello disse que era um oficial-general e não precisava ser lembrado do compromisso de dizer a verdade. O regulamento do Exército trata a mentira e a omissão como transgressões disciplinares. “Uma coisa que não tem dentro do Exército é enrolação”, concordou o senador Omar Aziz. Mesmo assim, o ex-ministro se sentiu à vontade para enrolar a CPI.
Nas redes bolsonaristas, Pazuello vira 'herói' do governo na CPI da Covid | Malu Gaspar - O Globo

Se não convenceu boa parte do público, pode-se dizer que o depoimento de Eduardo Pazuello funcionou em pelo menos um universo: os grupos bolsonaristas no WhatsApp e no Telegram. Entre esses seguidores, a decisão de não usar o habeas corpus fornecido pelo STF para ficar calado e até confrontar os senadores em alguns momentos fez sucesso.
Ao longo de todo o depoimento, as listas pró-Bolsonaro no WhatsApp foram inundadas com mensagens que indicavam a narrativa a ser reproduzida nas redes. “A primeira farsa dos opositores caiu hoje. Apostaram no silêncio, mas o ministro veio preparado e falou muito”, disse um dos textos disseminados nas redes. “O ex-ministro Pazuello está destruindo todas as narrativas fabricadas contra o governo federal naquele circo que está acontecendo no Senado”, diz outra mensagem.
Para o zap bolsonarista, Pazuello – que várias vezes se referiu às declarações e ordens de Bolsonaro durante a pandemia como "coisa de Internet" – “detonou” senadores acusados de corrupção e "provou" que o governo não tem responsabilidade pela tragédia pandêmica.
Solidários ao ex-ministro várias vezes chamado de "herói", muitas postagens diziam ter sido um ultraje até mesmo a convocação do general, que esteve à frente do Ministério da Saúde no período em que morreram mais da metade das 445 mil vítimas da Covid-19 no Brasil.
“Humilhante para o general Pazuello, um homem sério, ser sabatinado por esses crápulas!”, desabafou um bolsonarista em um grupo do Telegram. “Quero deixar minha indignação aqui com essa CPI. Estão a todo o momento denegrindo (sic) a imagem do ministro Pazuello e do nosso presidente”, escreveu uma apoiadora.
O fato de Pazuello blindar completamente o presidente da República de qualquer responsabilidade pelo fracasso na pandemia também pesou a favor do ex-ministro nas redes. Para os seguidores, o general foi um “guerreiro” que defendeu Bolsonaro de conspiradores.
Dentre eles, o mais atacado foi o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), mas também sobrou para o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), e outros parlamentares.
“General Pazuello, um oficial general extremamente bem preparado, conseguiu com sua exposição dos fatos, relacionados à sua atuação como Ministro da Saúde, provocar um golpe certeiro nas armações e manipulações de Renan Calheiros ao longo da CPI”, disse uma mensagem assinada por um suposto comandante militar.
No Telegram, cada vez mais frequentado por bolsonaristas, uma lista de apoiadores de Eduardo Pazuello foi criada na tarde de quinta-feira, enquanto ele falava à CPI.
Setenta pessoas já aderiram e passaram a receber artes e cards com as inscrições #Somos Todos Pazuello e ilustrações já com visual de campanha eleitoral. Até o agravamento da pandemia sacá-lo do cargo, Pazuello cogitava concorrer ao governo de Roraima ou do Amazonas. O grupo também criou um perfil no Instagram para homenageá-lo.
Por Johanns Eller

Lula e Fernando Henrique se reuniram em São Paulo para discutir democracia e crise sanitária

SÃO PAULO - Os ex-presidentes Lula (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se reuniram em um almoço na semana passada. O encontro foi promovido pelo ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim em sua casa, em São Paulo.
A conversa durou três horas e girou em torno de temas como a defesa da democracia e a atual crise sanitária.
Nos últimos dias, os dois têm trocado gentilezas em declarações depois de anos de ataques mútuos. Em entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da Rede Globo, o tucano disse que se tivesse que optar entre Lula e Bolsonaro votaria no petista.
Em 2018, Fernando Henrique anulou o voto no segundo turno entre Fernando Haddad (PT) e Bolsonaro. Lula, por sua vez, respondeu que teria o mesmo tipo de atitude com o seu antecessor.
Lauro Jardim: Lula diz pela primeira vez que será candidato contra Bolsonaro
Os dois não se encontravam desde que Fernando Henrique visitou a ex-primeira dama Marisa Letícia no hospital quando ela sofreu um AVC, em 2017. Marisa morreu em fevereiro daquele ano.
MC Kevin respondia por receptação, embriaguez ao volante, posse de drogas e infração de medida sanitária

RIO — Nos últimos quatro anos, o cantor Kevin Nascimento Bueno, o MC Kevin, foi indiciado em quatro crimes pela Polícia Civil de São Paulo. De acordo com registros da Secretaria de Segurança Pública daquele estado, o funkeiro respondia por receptação de um celular furtado, embriaguez ao volante, posse de drogas para uso pessoal e infração de medida sanitária preventiva. As ocorrências ainda estão tramitando em inquéritos policiais ou em processos criminais e em nenhum dos casos houve condenação. Agora, em razão da morte do artista, no último domingo, dia 16, sua punibilidade será extinta e serão requisitados os arquivamentos das ações.
O boletim mais recente foi registrado em 13 de maio do ano passado, no 3º DP (Mogi das Cruzes), por um representante do condomínio onde Kevin morava. Ele narrou ter tido conhecimento, pelas redes sociais e pela imprensa, de que o funkeiro estava com a Covid-19 e desrespeitava os “procedimentos de isolamento”, circulando de carro e ainda tendo “contato físico no dispositivo de liberação da cancela de saída, ou seja, inseriu as suas digitais no equipamento de uso comum de outros moradores, colocando em risco a saúde de outros condôminos”.
Segundo os moradores, o artista teria frequentado áreas comuns do condomínio, como a academia. Na delegacia, o representante apresentou cópias de postagens do Instagram nas quais Kevin pede desculpas pelo comportamento e imagens de câmaras de segurança. O rapaz foi autuado por infração de medida sanitária preventiva. O crime, tipificado no artigo 268 do Código Penal, consiste em “infringir determinação do poder público, destinada a impedir a introdução ou propagação de doença contagiosa” e, em razão da pandemia da Covid-19, foram editadas leis e decretos que regulamentam sua aplicação.
Já em 10 de março de 2019, Kevin foi levado por policiais militares ao 73º DP (Jacana), após ser flagrado fumando um cigarro de maconha quando estava parado, no carro, com um amigo. Durante a abordagem, segundo narraram os PMs, ele, “de forma bastante exaltada”, “tentou se desvencilhar” e “regressou para o interior veículo”, onde então retirou os dois copos contendo bebida alcoólica, sendo ele advertido por um dos soldados.
Na delegacia, os policiais narraram que Kevin “afirmava ser artista e que não iria à lugar algum, bem como, que ninguém iria entrar em seu veículo”, precisando ser algemado e colocado na viatura, embora seu amigo pedisse para que ele “colaborasse”. Ele foi autuado por posse de drogas para consumo pessoal e, mediante assinatura de termo de compromisso, liberado.
Em 28 de junho de 2016, durante uma ronda a pé, policiais militares abordaram Kevin e outros dois homens que estavam dentro de um carro. Na revista pessoal ao funkeiro, foi encontrado um celular Iphone que constava como furtado em 4 de agosto do ano anterior. Ao ser questionado, ele respondeu que o aparelho “poderia ser de procedência duvidosa” e recebeu voz de prisão, sendo levado a 90º DP (Parque Novo Mundo). Na distrital, o delegado de plantão ratificou a prisão e arbitrou fiança no valor de R$ 1 mil, valor pago pelo advogado do artista. Ele foi indiciado pelo crime de receptação e o processo está em andamento na 8ª Vara Criminal do Fórum da Barra Funda.
Em 13 de julho de 2016, após um chamado ao Centro de Operações da Polícia Militar do Estado de São Paulo, policiais militares foram atender uma ocorrência de acidente de trânsito envolvendo dois veículos. Kevin, que dirigia um Hunday Tucson, não tinha carteira de habilitação, avançou o sinal vermelho, colidiu com outro carro e ainda atingiu o muro de proteção da via-férrea. Ao fazer o teste de alcoolemia, foi constata a presença de 0,49 Mg/L no sangue - superior aos 0,33 Mg/L permitidos em lei.
Levado para o 24º DP (Ponte Rasa), apresentando “sinais notórios de ter ingerido bebida alcóolica em excesso”, tais como “vermelhidão nos olhos, andar cambaleante, odor etílico” e fala “desconexa”, Kevin preferiu ficar em silêncio. O delegado de plantão então lhe deu voz de prisão, tendo arbitrado fiança no valor de R$ 1 mil para responder o processo em liberdade. O carro foi liberado, após perícia, e entregue para Valquíria Nascimento dos Santos, mãe do funkeiro.
Mentem, e a CPI nem aí | Opinião - O Globo
Por Pedro Doria
O general Eduardo Pazuello desferiu o mais grave ataque contra a democracia brasileira desde o início da CPI da Covid. Um ataque que não foi suficientemente apontado. E um ataque que tem por cúmplice involuntário o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM). Não há gente suficiente percebendo a gravidade da naturalização da mentira que está ocorrendo ao longo destes depoimentos e de que a CPI é cúmplice. Não estão percebendo que é abrir mão da verdade no debate público que faz corroer a democracia.
O primeiro a mentir foi o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten. Afirmou que nada tinha a ver com uma campanha desferida sob seu comando contra a política de isolamento social. O relator, Renan Calheiros (MDB-AL), quis prendê-lo em flagrante. Aziz não topou — e a decisão é dele. Aí o ex-chanceler Ernesto Araújo negou ter atacado a China. Há tuítes, artigos assinados, vídeos. Não importa. Fez na cara dura, escondeu-se atrás da máscara e simplesmente mentiu.
Nunca havia se mentido numa CPI de forma tão descarada, com provas do contrário a um Google de distância. E é por isso que o depoimento do ex-ministro da Saúde é muito mais grave do que o dos outros. Wajngarten e Araújo mentiram fingindo falar a verdade. Pazuello não. Ao dizer que jamais recebeu ordens para não comprar vacinas do Instituto Butantan, foi confrontado com o vídeo em que afirmou “um manda, o outro obedece” perante justamente essa ordem. Dada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. Pazuello não titubeou: “é coisa de internet”, feita por “agente político”.
Ou seja, na lógica torta do ministro, o presidente mente para seus eleitores e fãs, e isso é normal. Pazuello não fingiu que a mentira era verdade. Pazuello chamou a mentira de mentira e falou que é assim que se faz política.
Talvez seja essa a impressão que os generais tenham de políticos. Que seu trabalho é mentir. Se for, estão errados. O trabalho dos políticos é trazer à mesa as diversas correntes de opinião presentes numa sociedade e negociar as diferenças. Sim, sempre houve mentiras. Mas, quando pegos em mentiras, políticos sofriam consequências.
Quem estuda o assunto vem usando um termo — truth decay. Decaimento da verdade. Em química, decaimento é o lento processo pelo qual o núcleo instável de um elemento perde energia por radiação. Em biologia, é o igualmente lento apodrecimento de um corpo pela ação de bactérias ou fungos. A palavra está em voga nas Ciências Humanas. Decaimento da verdade é quando lentamente uma sociedade deixa de ligar para a verdade, para o consenso a respeito de um conjunto básico de fatos.
Decaimento democrático é o que vivemos quando há decaimento da verdade.
Jair Bolsonaro mente. É sua prática corriqueira. Seus eleitores sabem disso — apenas não ligam. Para eles, é até engraçado. Mas, para que a mentira se estabelecesse a ponto de ameaçar a democracia, ela precisou antes ir lentamente se esgueirando até se legitimar. Naquela campanha dura, agressiva e canalha que foi a da eleição presidencial de 2014, Dilma Rousseff tirou Marina Silva do segundo turno com publicidade de TV que mentia. Escancaradamente. Agora, Ciro Gomes, candidato à Presidência em 2022, contratou o marqueteiro que produziu aquilo para ajudá-lo a chegar ao Planalto.
Políticos estão legitimando a mentira.
Alguém precisa fazer algum gesto. O gesto é a prisão de quem mentir sob juramento escancaradamente dentro do Congresso Nacional. Sem um gesto grande, estamos entregues ao apodrecimento da democracia, acelerado pelas redes sociais. É preciso ação. O decaimento lento da verdade está em suas fases finais.

Por Pedro Doria
A capitalização e o INSS
Em artigo publicado no livro “O futuro do Brasil” (Editora GEN) que organizei e publiquei no ano passado, Ana Barufi (“O futuro do trabalho no modelo de plataforma”) ressalta que “as plataformas de trabalho podem levar ao surgimento de uma nova geração de microempreendedores – trabalhadores por conta própria que podem trabalhar no lugar que quiserem, com a intensidade que desejarem e de acordo com o padrão de vida que ambicionam ter.
Por outro lado, esse movimento pode acelerar o processo de deterioração das condições de trabalho, com redução do padrão de vida dos trabalhadores. De fato, a combinação da rápida adoção de tecnologia com o surgimento desses novos modelos de negócio lança desafios à legislação trabalhista atual e à estrutura de proteção social centrada, no caso brasileiro, no trabalho formal com carteira”.
Por coincidência, poucos dias de lançar o livro, andando de Uber e conversando com o motorista – um ex empregado formal de uma companhia telefônica – acerca da situação dele, me disse que, exatamente pela flexibilidade que o sistema de trabalho do Uber lhe dava para construir seu próprio horário, já tinha recusado duas alternativas de retornar ao antigo esquema formal baseado na carteira de trabalho.
A manifestação de preferência por “trabalho” ao invés de “emprego” – um lugar físico onde se comparece das 9 às 18 h, de segunda a sexta, muitas vezes tendo que lidar com um chefe chato – tem sido comum nas minhas interações com jovens.
O “modelo de plataformas”, como Uber ou Ifood, veio para ficar e não adianta brigar contra ele. É um fenômeno inevitável da modernidade. O papel do Estado é acomodar esses avanços, de forma que sejam compatíveis com a organização social e a convivência civilizada entre os diferentes grupos que a compõem.
Nesse sentido, um aspecto que sempre chama a atenção nesses debates é como a questão previdenciária é mal compreendida pela enorme maioria das pessoas. Anos e anos de déficits crescentes do INSS criaram em muitos jovens a percepção equivocada de que “o INSS não presta” e de que “é muito melhor fazer minha própria previdência”.
Há equívocos importantes envolvidos, que precisam de esclarecimento, sem prejuízo de ressaltar a importância – para quem puder – de constituir uma previdência própria.
O primeiro equívoco é a ideia de que “o INSS não atende às pessoas”. É um erro grosseiro. O INSS paga benefícios previdenciários a 30 milhões de brasileiros, todos os meses, 13 vezes por ano, religiosamente em dia, protegidos da inflação e com a certeza de que continuarão a serem pagos até o fim da vida, no caso daqueles pagamentos que não são temporários.
Num país com os problemas sociais e a extensão geográfica do Brasil, é um feito que não deve ser desprezado. O INSS é parte do que resta da paz social brasileira. Não é pouca coisa, caro leitor.
O segundo equívoco é a ideia, muitas vezes subjacente, de que o Estado não serve para nada. O curioso é que se, em nome dessa crença, o indivíduo não contribuir para a Previdência, aos 65 anos só lhe restará o LOAS, benefício assistencial que hoje o Estado brasileiro paga a quase 5 milhões de brasileiros que não contribuíram para o sistema.
O terceiro erro é quanto aos valores envolvidos. Nada, atuarialmente, se compara ao benefício de um salário mínimo ao qual se pode aceder contribuindo por apenas 15 anos. Quem quiser, numa aposentadoria complementar, receber R$ 1.100 dos 65 aos 85 anos de idade, terá que ter acumulado na conta, aos 65 anos, R$ 259 mil (ver o simulador “Capital Necessário” de www.longevitaprevidencia.com para entender o cálculo, com juros reais de 2% a.a.). Quantos brasileiros têm a possibilidade de alcançar esse capital?
Portanto, meu conselho aos jovens é: é ótimo não ter chefe e trabalhar no horário que a gente quer, mas recomendo não descuidar da proteção social e contribuir como autônomo para o INSS. Não há contratação de uma renda vitalícia, no mercado, mais barata do que essa.
Número de mortes provocadas pela pandemia é duas ou três vezes maior que o registrado, diz OMS

GENEBRA - A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou nesta sexta-feira que os números oficialmente contabilizados de mortes provocadas direta ou indiretamente pela pandemia da Covid-19 constituem, provavelmente, “uma significativa subcontagem”. A agência estimou que o número real de mortes poderia ser duas a três vezes maior do que o reportado pelos países.
Ao apresentar seu relatório anual de estatísticas de saúde em nível mundial, a OMS estimou que o total de mortes ocasionadas pela pandemia em 2020 foi de pelo menos 3 milhões, ou 1,2 milhão a mais do que os 1,8 milhão de mortes informadas oficialmente.
Em 20 de maio de 2021, as estatísticas da OMS mostraram que cerca de 3,4 milhões de pessoas haviam morrido em todo o planeta de Covid-19, embora o número real possa ser muito maior, afirmou a organização.
— Esse número pode, na verdade, ser duas ou três vezes maior. Eu acredito que de seis a oito milhões de mortes podem ser uma estimativa prudente — disse a diretora assistente da Divisão de Dados e Análises da OMS, Samira Asma, em uma entrevista coletiva virtual.
O analista de dados da OMS William Msemburi ressaltou que essa projeção inclui tanto mortes por Covid-19 não registradas oficialmente quanto as mortes indiretas por outras doenças provocadas pela falta de capacidade hospitalar e pelas restrições à mobilidade, entre outros fatores.
— O desafio é que o número de mortes relatadas por Covid-19 são uma subcontagem do impacto total — explicou Msemburi.
A OMS citou a falta de sistemas confiáveis para registrar as mortes em muitos países, como o fato de muitas pessoas terem morrido com o coronavírus antes mesmo de serem testadas. Mesmo em regiões com sistemas de notificação relativamente confiáveis, a subcontagem é provável, segundo a organização.
A OMS estimou em 1,1 milhão a 1,2 milhão as "mortes em excesso" na Europa durante 2020, o dobro das 600 mil mortes relatadas.
Já nas Américas, o número de mortes em excesso foi de 1,3 milhão a 1,5 milhão em 2020, 60% maior do que o número de mortes pela Covid-19 relatado, de 900 mil.
Descontrole da Covid na Índia deve afetar comércio global, de remédios a couro

RIO — Além de já ter causado milhares de perdas humanas, a última onda da Covid-19 na Índia deve provocar estragos para a economia mundial. Importante exportador de produtos da indústria farmacêutica, o país ainda tem forte presença no segmento têxtil, de couro e informática, sendo ponto de passagem importante para o comércio marítimo na Ásia.
O navio MV Shandong da Zhi, que trouxe para o Brasil os primeiros casos confirmados da cepa indiana B.1.617, tinha entre seus tripulantes um indiano. O navio tem bandeira de Hong Kong e foi fretado pela Vale para o transporte de minério de ferro até o Maranhão, segundo o G1. A embarcação saiu da Malásia, passou pela África do Sul e chegou ao Brasil.
Na quinta-feira, foram registradas 3.874 mortes por Covid-19 na Índia. Ao todo, já são mais de 25,7 milhões de casos diagnosticados e 287 mil mortes no país. Segundo o Our World in Data, o país foi responsável por 33% de todas as mortes e 47% de todos os casos registrados no planeta na última semana.
Um dos maiores efeitos do salto de casos na Índia poderá ser visto nos setores químico e farmacêutico. A Índia abriga o Serum Institute of India (SII), maior fabricante mundial de imunizantes, além de ser o maior fornecedor mundial de medicamentos genéricos.
Origem de 50% dos genéricos dos EUA
De acordo com a Fundação Indiana de Brand Equity, organização ligada ao Ministério do Comércio do país, a exportação total de medicamentos e produtos farmacêuticos de abril de 2020 a fevereiro de 2021 foi de US$ 22,15 bilhões.
O setor indiano fornece mais de 50% da demanda de genéricos nos Estados Unidos e 25% de todos os medicamentos utilizados no Reino Unido.
— Certamente pode prejudicar a indústria química e farmacêutica. Apesar de ter boa parte de sua economia ligada à agricultura, o país é um importante ator na indústria farmacêutica, de biotecnologia, é até de informática, com o desenvolvimento de softwares e eletroeletrônicos — afirma o professor do departamento de Relações Internacionais da PUC-RJ, Marcello Capucci.
A própria campanha de vacinação contra a Covid-19 já vem sendo prejudicada pela crise indiana. O aumento da demanda interna vem dificultando a exportação de vacinas e insumos para outros países, como o Brasil.
Para o coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec, José Niemeyer, o governo e empresariado indianos terão que fazer, em vários momentos, uma opção entre a exportação de itens ou o foco no mercado interno.
— Algo que vai acontecer na Índia e em outros países vai ser a decisão entre olhar para o mercado externo ou interno. Eles terão que avaliar se tem escala suficiente para produzir nas duas frentes.
Gargalo no comércio marítimo
Cerca de 80% do comércio mundial de bens são transportados em navios, de acordo com a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).
Dessa forma, qualquer atraso no desembarque dos navios e liberação para o próximo destino pode criar problemas para essa cadeia. E isso já vem acontecendo em alguns portos indianos.
— Uma série de portos indianos fechou ou reduziu suas operações. Isso está criando interrupções significativas na cadeia de suprimentos para as importações das principais matérias-primas e produtos intermediários, além de impactar fortemente os embarques de exportação da Índia — destacou Rajiv Biswas, diretor executivo e economista-chefe de Ásia-Pacífico da consultoria IHS Markit
A Índia ainda é um dos maiores exportadores têxteis do mundo. No país estão localizados grandes polos produtores de roupas, como a NG Apparels, que abastece marcas americanas como a New Balance e Nordstrom.
Couro e tecnologia da informação
Segundo o site do Conselho Indiano para Exportações de Couro, a exportação de couro e produtos desse material da Índia foi da ordem de US $ 5,07 bilhões no biênio 2019 e 2020.
Apesar da vaca ser considerada um animal sagrado no país, outros cortes são utilizados, como búfalos, além de bovinos e caprinos. Com a dificuldade de escoamento, as exportações desses produtos enfrentam dificuldades.
Muitas empresas também terceirizam empregos na área de tecnologia da informação e operações com mão de obra indiana, que é mais barata. Bancos como o Goldam Sachs e Wells Fargo, com sedes no país, implementaram o trabalho remoto para os funcionários no país.
No início do mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou que a alta no número de casos pode levar a uma revisão da previsão de crescimento do país, que, atualmente, está em 12,5%. Em 2020, a economia indiana contraiu cerca de 7%.
Mas Capucci avalia que o Brasil não será impactado diretamente em termos econômicos por uma eventual desaceleração do PIB indiano, pois não mantém relações com a Índia na mesma escala das estabelecidas com países como a China e a Argentina.
Roni Keidar, a israelense que mora do lado de Gaza e luta para unir os dois povos

TEL AVIV — Um muro separa a Faixa de Gaza da aldeia israelense de Netiv Ha’asara, onde mora Roni Keidar. Quando o Hamas e Israel entram em conflito, Keidar, cuja casa fica a 500 metros da fronteira, passa os dias perto do quarto de proteção antimísseis escutando as bombas — de um lado e de outro da fronteira. Quando acabam, volta para sua missão: ajudar palestinos de Gaza a entrar em Israel para conseguir ajuda médica e oportunidades para melhorar de vida.
— Muitos deles me chamam de sua “mãe em Israel” — disse ao GLOBO pelo telefone a senhora de 78 anos.
Roni, que teve sua casa atingida por um foguete na guerra de 2014, diz que “cada vez é pior do que a anterior”. Em 2014, um foguete vindo de Gaza matou um dos funcionários da aldeia, que é um moshav, um tipo de cooperativa agrícola israelense.
Roni acredita que o apoio que dá aos que conseguem cruzar a fronteira não ajuda apenas eles, mas também a construir pontes entre os dois lados, encontrando caminhos para a paz.
Além de fazer sessões por Skype para que israelenses conheçam o rosto de quem está do outro lado da fronteira — “é muito mais difícil de odiar alguém que você viu” — ela também traz os amigos palestinos para casa, para conhecer a família e os netos, que nem sempre aprovam o comportamento da avó.
— Eles acreditam que estamos sob ameaça tamanha que o que eu digo pode nos enfraquecer. Eu não acho, acho que isso nos fortalece.
Roni emigrou com a família da Inglaterra aos oito anos, e seu marido veio do Egito. Ambos são judeus. Porque ele falava árabe, quando Israel ocupou o Sinai após a guerra de 1967, os dois foram enviados para lá. Ele, formado em agronomia, iria trabalhar na modernização da produção local. Quando veio a paz entre os dois países, em 1979, o casal foi enviado ao Egito, e ele trabalhou como consultor agrícola como parte das iniciativas de aproximação.
Outra narrativa
No Egito, Roni conheceu de perto os refugiados palestinos. Pela primeira vez, se deu conta de que só conhecia o seu lado da história — “do povo judeu, da diáspora, do Holocausto”. A situação confortável em que estava mudou quando entendeu que a realidade não era tão simples.
— De certa forma, minha salvação tinha sido o desastre de outra pessoa. Me dei conta de que há uma outra narrativa, outra história que precisa ser reconhecida e não pode ser ignorada. Foi aí que comecei a querer saber e estudar mais sobre a questão palestina.
Quando voltaram a Israel, decidiram ficar perto da região que já conheciam — Gaza faz fronteira com o Sinai.
Para atravessar de Gaza para Israel, é preciso de três autorizações: do Hamas, que controla o território, da Autoridade Nacional Palestina e do governo de Israel. Roni faz o contato com seu governo e tenta convencê-lo de que ir ao hospital não é a única razão para deixar alguém entrar — estudar também é um bom motivo.
Às vezes, o Hamas não autoriza. Quando deixa, ela pega a pessoa na fronteira e, no caminho, usa o hebraico e o inglês para ir conversando — “meu árabe não é tão bom”.
— Escutamos uns aos outros, olhamos uns para outros. Não temos que concordar sempre, mas conversarmos.
Roni diz que, mesmo durante o conflito, consegue manter contato com os amigos do outro lado pelo Whatsapp. Ela não poupa críticas ao Hamas.
— É um país contra uma organização terrorista, um regime que não liga para seu povo, eles é que deviam responder por crimes de guerra — diz Roni, afirmando que o Hamas deveria se preocupar com abrigos para a população e que sente como se tivesse que pedir desculpas por “não termos centenas de pessoas mortas”, já que Israel possui um sistema antimísseis.
Ela diz que amigos palestinos já foram presos e torturados por terem falado abertamente contra o Hamas. Critica a falta de proteção que o grupo dá à população e diz que nenhum dos lados, nem Israel e nem o Hamas, a vê como pessoas.
Quando ouve que os palestinos deveriam ir para outros países — muitos se tornaram refugiados no Egito ou na Jordânia quando Israel declarou sua independência — Roni lembra que, nesses países, eles também não são tratados como cidadãos iguais.
— No passaporte deles diz "egípcio" e, entre parênteses, "palestino". Eles não são 100% egípcios, mesmo que estejam lá por gerações.
Roni afirma que, depois de ter viajado o mundo, está convencida de que Israel é sua casa e seu país. Isso não a impede de reconhecer que “é a casa de outras pessoas com laços teológicos e históricos também com este pedaço de terra, não sou a única ocupante”.
— Minha lição é que não posso deixar outro povo ser andarilho, sentir que não tem um lugar. Precisamos dividir este espaço de terra. Um amigo em Gaza me disse: “Roni, este é um país pequeno, mas há espaço para todos nós”.
Apenas 39% dos idosos tomaram duas doses da vacina no Brasil; especialistas temem 3ª onda

247 - Dados revelam que após quatro meses do início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, apenas 39% dos idosos acima de 60 anos foram vacinados com as duas doses, considerando todas as vacinas. A lista de fatores apontada pelos especialistas é grande, mas destacam-se a falta de imunizantes, atraso na distribuição das vacinas, baixa cobertura da segunda dose e má gestão dos dados. Com isso, a expectativa é que a população adulta no Brasil só esteja vacinada no início de 2023.
Os dados da reportagem do portal G1, com informações da base de vacinados do OpendataSUS, sistema do Ministério da Saúde, revelam que, das 78 milhões de pessoas acima de 60, 45% receberam a 1ª dose e somente 20% podem ser consideradas imunizadas, pois receberam também a 2ª dose.
O desafio é: como vacinar tanta gente ainda se, após 4 meses, o país não conseguiu cobrir nem os grupos prioritários?
"À medida que vamos descendo mais na pirâmide, mais tempo demora para cobrir a faixa etária por conta da quantidade de pessoas em cada faixa", explica o físico Marcelo Gomes, especialista em modelos de propagação de doenças da Fiocruz. Ou seja, mais hospitalizações e ocupação de leitos de UTI e o que todos temem, uma terceira onda.
Omar Aziz: "Pazuello está dizendo que Bolsonaro é um grande mentiroso"

247 – O presidente da CPI da Pandemia, senador Omar Aziz (PSD-AM), avalia que o ex-ministro Eduardo Pazuello fez de tudo para blindar seu ex-chefe Jair Bolsonaro. “Hoje, se eu tivesse que fazer o relatório [da CPI], o Bolsonaro não fez nada de errado”, explica. “[A culpa] é toda do Pazuello. Não sou eu que estou dizendo. É ele [Pazuello]. O presidente só é mentiroso. E mentir não prende ninguém”, ironizou, em entrevista ao jornal Valor Econômico. "Ele está chamando o presidente de mentiroso, o Pazuello. Ele está dizendo que o presidente é um grande mentiroso, que o que ele [Bolsonaro] fala nas redes sociais dele é uma mentira. Por trás, ele manda você fazer outra coisa. E você, como um bom cumpridor de ordem, cumpre ordens. As ordens que ele fala publicamente não têm valor nenhum. O que tem valor são as que ele fala escondido, entre quatro paredes."
Concedida aos jornalistas Renan Truffi, Vandson Lima e Fernando Exman, a entrevista também abordou as consequências da fala de Pazuello para os militares. "Pazuello está mentindo. Ele está mentindo. O pessoal que ele comandou deve estar envergonhado", apontou. Aziz disse ainda que há uma nova linha que será reforçada. "Quem convenceu o presidente [Bolsonaro] sobre o tratamento precoce, cloroquina, essas coisas. Aí vem a [médica Nise] Yamaguchi. Aquele ministério paralelo que ele tinha. O Carlos Wizard", apontou.
Brasil perde oportunidades por causa de 'gente muito antipatriota', diz representante chinês

247 - O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), Charles Tang, afirmou que o Brasil está perdendo oportunidades de negócios com o país asiático por causa de "muita gente que não é patriota". Segundo ele, empresas brasileiras podem sofrer retaliações semelhante às da Austrália em função dos frequentes ataques contra a China feitos por Jair Bolsonaro e outros integrantes do governo.
“O Brasil precisa da China da mesma forma que a Austrália precisa do mercado chinês. Nações não têm amizades, mas interesses, e é dever de um governo defender os interesses do país. Mas aqui no Brasil há muita gente que não é patriota, pessoas que vão contra os interesses do Brasil”, disse Tang em entrevista ao UOL.
“Veja a guerra comercial que está havendo entre China e Austrália. O vinho australiano sofreu 250% de taxação, fechando o mercado chinês que era o maior comprador do vinho australiano. Os grãos australianos sofreram 80% de taxação. Esse tipo de problema pode acontecer com o Brasil também se continuar atacando a China. Isso não ajuda”, ressaltou.
Ainda de acordo com ele, a saída de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores ajudou a melhorar o ambiente de negócios. “Como presidente da câmara, eu não posso ser contra ou a favor do governo, não sou da direita nem da esquerda nem do centro. Sou de todos. Posso dizer que a situação melhorou com a troca no Ministério de Relações Exteriores (saída de Ernesto Araújo e entrada do diplomata Carlos Alberto França no comando da pasta), o que já melhorou o ambiente, que se tornou mais positivo”, afirmou Tang.
OMS pede ao Brasil medidas contra variante "indiana"

247 - A OMS (Organização Mundial da Saúde) pede para que as autoridades brasileiras reforcem medidas para identificar casos da variante do vírus identificada inicialmente na Índia. A informação é do jornalista Jamil Vhade, em sua coluna no portal UOL.
O jornalista destaca que, nesta semana, o Brasil detectou pela primeira vez casos do Coronavírus com traços da mutação também identificada na Índia. A variante é considerada como mais transmissível e é uma das explicações para o colapso do sistema sanitário indiano nas últimas semanas e uma explosão de novos casos e mortes no país asiático.
No caso brasileiro, explica Chade, a variante foi detectada em seis tripulantes que estavam em um navio de cargas com bandeira de Hong Kong e vindo da África do Sul. Conhecida como B.1.617.2 , a mutação variante passou a ser considerada há uma semana pela OMS como "variante de preocupação mundial". Os indícios apontam que há uma maior taxa de transmissão e uma potencial redução de impacto das vacinas", indicou a agência.
Para a OMS, o que se recomenda agora ao Brasil é para que "fortaleça suas medidas sociais". "A ideia é a de não dar chance para que o vírus ganhe espaço", explicou Margaret Harris, porta-voz da OMS em Genebra nesta sexta-feira.
Como a Syngenta passou décadas questionando e perseguindo cientistas para abafar seus alertas sobre riscos de agrotóxicos

Agência Pública - Quando um Tribunal dos Estados Unidos tornou públicos arquivos usados em processos da Syngenta, líder do mercado mundial de agrotóxicos, o público teve um vislumbre de até onde a multinacional vai para manter seus valiosos (e perigosos) produtos no mercado. E o que ela se presta a fazer: atacar a ciência e os cientistas.
“Aqueles que têm o privilégio de saber têm o dever de agir”, disse parafraseando Albert Einstein o biólogo e professor da Universidade da Califórnia Tyrone Hayes, que foi alvo de uma campanha de perseguição da empresa, em entrevista à reportagem.
“O problema é que a empresa era dirigida por comerciantes interessados apenas no lucro. Se eles tivessem ouvido toxicologistas, não estariam nesta posição muito difícil tentando defender os erros cometidos no passado”, diz o cientista britânico Jon Heylings.
Agência Pública e Repórter Brasil tiveram acesso e-mails, documentos internos, anotações e atas de reuniões apresentadas no processo e conversaram com Heylings e outro cientista que protagonizaram disputas durante décadas com a empresa suíça, e explicam como a gigante dos pesticidas ignorou evidências científicas para continuar lucrando.
Alertando sobre a Atrazina
Por mais de uma década, Tyrone Hayes, dizia estar sendo perseguido pela Syngenta, alegando que a multinacional ouvia suas ligações, monitorava suas palestras e trabalhava para desmoralizá-lo. Ninguém acreditava nele.
A história teve início em 1997. A Novartis Agribusiness, uma das empresas que mais tarde formariam a Syngenta, contratou o biólogo para fazer experimentos com o herbicida Atrazina. O produto é o principal agrotóxico utilizado nas plantações de milho dos Estados Unidos. É também o quinto agrotóxico mais vendido no Brasil, com 23,4 mil toneladas comercializadas em 2019, segundo o Ibama.
O objetivo da pesquisa de Hayes era identificar os efeitos da Atrazina em anfíbios, área de expertise do cientista, que na época tinha 31 anos e mais de 20 artigos publicados sobre endocrinologia de anfíbios. Hayes descobriu que a Atrazina poderia retardar o desenvolvimento sexual de sapos. O resultado desagradou a Novartis, que o proibiu de publicar o estudo.
Com isso, Hayes decidiu deixar a empresa em novembro de 2000. Ele conseguiu um novo financiamento, concluiu o trabalho e publicou estudo revelando que a Atrazina cria sapos hermafroditas.
Em entrevista à reportagem, Hayes conta que desde os primeiros testes no laboratório era possível ver como a Atrazina atingia os espermatozoides dos sapos africanos com garra, anfíbio usado nos experimentos. “Mostrei os resultados para a EPA [Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos] porque achei que eles estariam interessados, já que é o produto número um em vendas. Mas eles disseram que não era um ‘efeito adverso’ que os forçaria a reavaliar aquele produto químico”, diz.
Então Hayes decidiu ir mais fundo, agora trabalhando com outros cientistas para identificar o efeito do agrotóxico em humanos. Ao comparar a urina de homens de Columbia, nos Estados Unidos, que tiveram contato com Atrazina, o novo estudo identificou baixa contagem de espermatozóides em um nível que traria dificuldades para a reprodução. “O nível de Atrazina na urina desses homens era a mesma que usávamos para castrar quimicamente os sapos do nosso experimento”, explica.
Em uma nova fase da pesquisa, mediram o nível do pesticida na urina de homens que trabalhavam em plantações na Califórnia aplicando atrazina . Os resíduos detectados foram 24 mil vezes maiores do que o dos homens de Columbia. “Um trabalhador desses poderia fazer xixi em um balde e diluir 24 mil vezes, e mesmo assim a Atrazina na sua urina poderia ser usada para castrar quimicamente girinos”, diz o cientista.
Esse trabalho é o motivo da perseguição da Syngenta, segundo o biólogo. Na época, ele se sentiu distante de outros cientistas e sentia que a empresa tentava isolá-lo. Em 2010, a multinacional entrou com uma queixa de ética contra Tyrone Hayes na Universidade da Califórnia, Berkeley. O motivo era a criação de um site contrário a Atrazina e e-mails de reclamações que o cientista enviou à empresa. A queixa de ética foi considerada sem mérito.
A situação só mudou em 2013, quando uma reportagem do site Environmental Health News em parceria com a organização 100 Reporters revelou documentos internos detalhando uma campanha cara e agressiva contra cientistas, que incluía até a contratação de detetives e profissionais para traçar o perfil psicológico dos perseguidos. E o principal alvo era Tyrone Hayes.
Memorandos provavam que o departamento de comunicação da Syngenta havia criado um grupo de trabalho na empresa para falar sobre o cientista. O objetivo do grupo era “evitar que os dados de TH (Tyrone Hayes) fossem citados, mostrando que ele não era confiável”, segundo anotações do Departamento de Comunicação. No mesmo documento, a ex-chefe de comunicações da Syngenta, Sherry Duvall Ford, listou estratégias contra o cientista, entre elas a “publicação de críticas de terceiros sobre sua ciência”, “refutações sistemáticas de todas as aparições do TH”, “tornar públicos e-mails” e até mesmo “investigar a esposa”.
Ele relembra que a empresa sempre negou persegui-lo. “Mas veja os documentos, o primeiro objetivo do programa de ciência era ‘desacreditar Hayes”, reconta.
Os documentos também mostram que a empresa encomendou um perfil psicológico do cientista, onde o classificaram como “esquizo-paranóico e narcisista”.
Outro arquivo mostra que a Syngenta estudou comprar o termo “Tyrone Hayes” em sites de busca na internet, levando quem pesquisasse o nome do cientista a encontrar primeiro conteúdos produzidos pela corporação.
Os documentos vieram a público durante um processo judicial que buscava forçar a Syngenta a pagar por filtros para limpar a Atrazina da água potável em seis estados norte-americanos. A ação coletiva foi encerrada em 2012, e apesar de não admitir a culpa pela contaminação, a Syngenta concordou em pagar US$ 105 milhões para custos de filtragem de mais de mil sistemas de água.
E Tyrone Hayes não era o único alvo. Em seu depoimento ao Tribunal do Condado de Madison em Illinois, Sherry Duvall Ford, ex-chefe de comunicações da Syngenta, leu um memorando enviado por e-mail no qual contava que a empresa contratou uma agência de detetives para investigar membros de um Painel Consultivo Científico da EPA, que na época reavaliavam a Atrazina.
Os documentos do tribunal revelaram ainda um banco de dados com 130 pessoas e organizações que a empresa pretendia pagar para apoiar a Atrazina. Segundo o documento, as pessoas da lista eram treinadas para defender o agrotóxico, e os pagamentos pelos serviços não seriam divulgados publicamente.
Duas décadas depois da publicação da primeira pesquisa sobre a Atrazina, Tyrone Hayes continua trabalhando em salas de aula, em laboratórios e dando palestras. Em abril, recebeu uma das maiores honrarias da carreira: foi eleito para a Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos, que homenageia artistas e cientistas que ajudaram a resolver os desafios mais urgentes do país.
A Syngenta também recebeu recentemente uma das maiores honrarias da sua trajetória, quando passou a liderar o mercado mundial de agrotóxicos. De acordo com a FAO/ONU, o mercado mundial de agrotóxicos movimenta US$ 34,4 bilhões por ano, e a Syngenta é dona de um quarto dessa fatia. Desde 2017, quando a empresa foi comprada pela ChemChina por US$ 43 bilhões, o aglomerado estatal chinês tornou-se responsável por 24,3% do mercado mundial. Junto das empresas alemãs Bayer e Basf, e da estadunidense Corteva Agriscience, o chamado “Big 4” responde por 65,8% do mercado mundial.
Cientista alertou sobre composição do Paraquate
O caso de Tyrone Hayes não foi o único em que a Syngenta teve problemas com um cientista que ela mesma contratou. Um pesquisador britânico veio a público este ano para denunciar uma irregularidade no principal produto da empresa, o Paraquate.
O cientista britânico Jon Heylings trabalhou 22 anos na Syngenta e hoje é professor de toxicologia na Universidade de Keele, no Reino Unido. Na Syngenta, ele atuava no desenvolvimento de formulações mais seguras para o Paraquate, e está há mais de três décadas alertando a empresa sobre a ineficácia das medidas de segurança no produto.
Jon chegou a criar para a Syngenta uma formulação mais segura para o Paraquate, que custava mais, e acabou removida do mercado logo após o lançamento no começo dos anos 2000.
Em entrevista à Agência Pública e a Repórter Brasil, Heylings garante que está apenas cumprindo o seu dever como cientista. “Fui trazido para a empresa em 1986 para liderar um projeto sobre formulações mais seguras. Foi por uma boa investigação científica onde descobri que o emético adicionado aos produtos de paraquate tinham um nível ineficaz”, diz o cientista.
Vendido pela Syngenta pelo nome comercial de Gramoxone, o Paraquate é usado em diversas plantações, como algodão, cana-de-açúcar, milho, café e banana, desde a década de 1960. No Brasil, é o sétimo ingrediente ativo mais vendido, com mais de 16,3 mil toneladas comercializadas apenas em 2019, segundo o Ibama.
Cerca de 10 anos depois da criação, o produto teve que passar por uma mudança na formulação devido à toxicidade aguda: um gole era suficiente para matar uma pessoa.
A empresa então adicionou ao herbicida um emético, substância que causa vômito, para diminuir o risco de envenenamentos. Com a promessa de maior segurança, o produto foi mantido no mercado.
Acontece que, segundo Heylings, a concentração de emético recomendada por um estudo pago pela Syngenta em 1976 estava “provavelmente bem abaixo de uma dose efetiva no homem”. Ele sugeriu um aumento na concentração de emético para “reduzir o número de fatalidades atribuídas ao envenenamento por paraquate”.
Jon informou a Syngenta que o estudo que definiu a concentração do químico teria sido manipulado e pressionou a empresa por uma revisão independente, o que nunca foi autorizado. Em 1991, quando a Syngenta estudava um novo nível de emético, Heylings insistiu mais uma vez. “Considero bem vinda a proposta de uma análise independente da situação para confirmar minhas decobertas”, diz o cientista em um e-mail enviado em 9 de abril de 1991.
Os e-mails de Jon Heylings, assim como diversos outros documentos internos da Syngenta, foram publicados há dois meses pelos sites Unearthed e da PublicEye na série “Paraquate Papers”. Eles provaram que a empresa recebeu memorando internos com alertas do cientista desde os anos 1990, mas decidiu ignorá-los.
Um documento interno da Syngenta determinou que “nenhuma das formulações alternativas atualmente disponíveis oferecem uma solução economicamente aceitável para o problema do suicídio”.
Em 2018, quando já trabalhava na Universidade de Keele, Jon descobriu que a Syngenta cancelou o registro do Inteon, versão com mais emético do Paraquate, criado por ele nos anos 1990. “Eles nem me avisaram”, diz.
Após isso, Jon fez diversas pesquisas sobre o Paraquate e descobriu que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) seguia a mesma concentração emética determinada pela Syngenta para o Paraquate na década de 1970. Jon denunciou o erro a EPA e a FAO/ONU, mas não teve retorno.
Em março de 2020, uma equipe de advogados dos Estados Unidos entrou em contato com o cientista após ler os memorandos sobre o emético de 1991. O grupo estava levando a Syngenta aos tribunais em nome de agricultores que desenvolveram a doença de Parkinson após usar o Paraquate nas plantações.
Stephen Tillery, principal advogado do processo, disse à Unearthed e a Public Eye que a “questão emética” era parte de seu caso porque demonstrava “até onde esta empresa irá para manter o Paraquate no mercado”.
“O Paraquate estava prestes a ser banido na década de 1970 por causa do número de pessoas que morreram de forma agonizante por ingeri-lo. Ao alegar que o emético tornaria o uso do Paraquate mais seguro, eles conseguiram mantê-lo no mercado.”, disse o advogado ao site.
Agora, a denúncia de Jon fará parte do processo, que será julgado no próximo mês. De acordo com a Syngenta, “o argumento de Heylings de que aumentar o nível de emético melhora a segurança do produto é excessivamente simplista; a realidade é complexa e a opinião médica e científica moderna não apóia o ponto de vista de Heylings”. Confira a íntegra da nota da multinacional ao site Unearthed.
Jon Heylings afirma que a Syngenta segue desconsiderando suas denúncias. “Eles não têm interesse em tentar entender ou lidar com a questão emética porque sabem que estou certo”, conta o cientista.
O paraquate acabou sendo banido no Brasil no ano passado, apesar do forte lobby da Syngenta, que liderou uma força-tarefa que tentava reverter a proibição.
Até o banimento, o Gramoxone era vendido com a mesma concentração de emético que a Syngenta estipulou nos anos 70.
E ela não evita que as pessoas se matem com o Paraquate.
No Brasil, pelo menos 138 pessoas morreram envenenadas por Paraquate na última década, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde. Número que pode ser muito maior, devido a subnotificação dos casos.
Procurada pela Agência Pública e Repórter Brasil, a Syngenta Brasil não quis comentar os documentos divulgados e nem o processo de banimento do Paraquate do país.
Edinho Silva diz que terceira onda da Covid "virá e será violenta" e baixa novo decreto para frear a doença em Araraquara

247 - O prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT-SP), baixou um decreto na quinta-feira (20) determinando que as atividades econômicas da cidade voltarão a fechar caso a taxa de positividade de exames para detectar a Covid-19 chegue a 30%, entre sintomáticos, por três dias seguidos ou por cinco dias alternados. Ou que alcance 20% dos testes gerais feitos no município.
A ocupação de UTIs de hospitais da cidade chegou a 94% e o número de casos está subindo. O prefeito prevê uma nova situação dramática, caso as pessoas não mantenham a adesão a protocolos rígidos para evitar a contaminação pelo novo coronavírus.
“A terceira onda virá, e será violenta”, afirma Edinho, referindo-se não apenas ao município de Araraquara, mas a todo o estado de São Paulo, informa a jornalista Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo.
A cidade ficou mundialmente conhecida por ter reduzido os casos de Covid, mortes e internações pela doença, após adotar um rigoroso lockdown de dez dias, a partir do dia 21 de fevereiro.
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