VAZAMENTO expõe 8,4 BILHÕES de SENHAS e pode ser o maior da HISTÓRIA [ VÍDEOS ] * Mudar senhas é forma de se proteger após vazamento de BILHÕES de dados; veja dicas * FACILITANDO a vida do LADRÃO: dado VAZADO é prato cheio para GOLPE no 'Zap'
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Alerta para o Brasil: Estados Unidos vivem pior momento desde a segregação
VAZAMENTO expõe 8,4 BILHÕES de SENHAS e pode ser o maior da HISTÓRIA
[ VÍDEOS ] * Mudar senhas é forma de se proteger após vazamento de BILHÕES de dados; veja dicas
FACILITANDO a vida do LADRÃO: dado VAZADO é prato cheio para GOLPE no 'Zap'
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CENÁRIO da Covid-19 no Brasil é de ALTO RISCO e exige ATENÇÃO e PRUDÊNCIA, alerta Fiocruz

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RIO — O novo boletim do Observatório Covid-19 divulgado na tarde desta quarta-feira (9) alerta que o cenário atual da pandemia ainda é de alto risco e exige atenção e prudência de todos. O documento mostra que, apesar das pequenas oscilações nos casos registrados nas últimas semanas, o país permanece num nível elevado de transmissão do coronavírus.
A combinação do número elevado de casos com uma ligeira queda no número de óbitos e a maior parte dos estados com alta taxa de ocupação de leitos UTI Covid-19 para adultos no Sistema Único de Saúde (SUS) é muito preocupante. “Ainda é prematuro considerar que há uma queda sustentável de casos e óbitos ou que estamos entrando em uma terceira onda”, observam.
Os dados levantados nos dias 31 de maio e 7 de junho demonstram que a ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos no SUS apresenta relativa estabilidade, mais níveis muito elevados. As poucas quedas mais significativas do indicador se deram em Rondônia (de 72% para 62%), Espírito Santo (de 76% para 68%) e Mato Grosso (de 95% para 87%), com os dois primeiros estados se mantendo na zona de alerta intermediário e o último na zona de alerta crítico.
Em contrapartida, se observaram aumentos do indicador mais expressivos em Roraima, que volta à zona de alerta crítico, muito possivelmente pela redução dos leitos de UTI disponíveis – originalmente eram 90, há algumas semanas passaram a 60 e na última semana caíram para 54 – e no Maranhão, que se mantém na zona de alerta crítico, com o indicador saindo de 83% para 90%. Todos os estados das regiões Nordeste, Sul e Centro-Oeste permanecem com taxas iguais ou superiores a 80% e, no Sudeste, a única exceção é o Espírito Santo.
No Norte, o Acre se mantém como único estado fora da zona crítica e Tocantins soma-se à Roraima na zona de alerta crítico, refletindo, no entanto, uma piora na dinâmica da pandemia. No Distrito Federal, continua chamando a atenção a quantidade de leitos bloqueados, embora a taxa de ocupação esteja elevada.
Doze unidades da Federação encontram-se com taxas de ocupação iguais ou superiores a 90%: Tocantins (94%), Maranhão (90%), Ceará (93%), Rio Grande do Norte (94%), Pernambuco (97%), Alagoas (91%), Sergipe (99%), Paraná (96%), Santa Catarina (97%), Mato Grosso do Sul (107%), Goiás (90%) e Distrito Federal (90%). Nove estados apresentam taxas de ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos entre 80% e 89%: Roraima (87%), Piauí (88%), Paraíba (80%), Bahia (84%), Minas Gerais (82%), Rio de Janeiro (81%), São Paulo (82%), Rio Grande do Sul (84%) e Mato Grosso (87%). Cinco estados estão na zona de alerta intermediário (≥60% e <80%): Rondônia (62%), Amazonas (61%), Pará (78%), Amapá (68%) e Espírito Santo (68%). Um está fora da zona de alerta: Acre (41%).
As taxas de ocupação de leitos de UTI Covid-19 para adultos no SUS observadas em 7 de junho apontam para a persistência de quadro grave de sobrecarga no sistema de saúde pela Covid-19. Em face da vacinação dos idosos e maior exposição de adultos jovens, tem havido uma mudança no perfil etário de pacientes internados, que talvez venha incorrendo em maiores tempos de permanência hospitalar.
“Em alguns estados e no Distrito Federal é possível que venha ocorrendo gerenciamento da disponibilização e bloqueio de leitos de UTI, com a manutenção do indicador em patamar elevado. Entretanto, a situação predominante é, indubitavelmente, de descontrole da pandemia”, diz o estudo.
Governo das sombras | Merval Pereira - O Globo
Os últimos dias revelaram dados concretos para confirmar o que já se intuía: Bolsonaro é um personagem político que se movimenta mais à vontade nas sombras, à margem das instituições oficiais. Gabinete paralelo na Saúde, gabinete do ódio no Planalto, ação paralela no TCU e por aí vai. Temos um chefe de governo que tenta montar uma estrutura extraoficial que interfere na ação de sua equipe formal quando lhe interessa, muitas vezes criando obstáculos à consecução de programas de governo, como no caso do combate à corrupção.
A interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, para controlar as informações que lhe convêm, é um caso típico dessa estrutura paralela. Alexandre Ramagem, delegado que Bolsonaro queria ver à frente da Polícia Federal, tornou-se íntimo da família e, não podendo, por interferência do STF, nomeá-lo, colocou-o na Abin, de onde alimenta um sistema informal de informações de que Bolsonaro se orgulha.
Funcionários do governo que vão à CPI dão uma versão dos fatos que a realidade desmente. Caso especial é o ex-secretário executivo do Ministério da Saúde na era Pazuello, Elcio Franco, que assumiu, como se fossem oficiais, políticas públicas que deveriam estar banidas por decisão científica. Disse com todas as letras que a gestão a que serviu considerava que o tratamento precoce era uma maneira adequada de combater a Covid-19.
O que o governo escondia até então transformou-se, na boca de um membro do alto escalão do Ministério da Saúde, em política de governo. É difícil acompanhar esses depoimentos sem ver que é tudo uma farsa para encobrir as ações de fato do governo, como atrasar a compra das vacinas e apostar na imunidade de rebanho.
Acredito que a CPI já está constatando uma situação de inação proposital do governo. Essa questão do gabinete paralelo na Saúde é interessante. Uma assessoria informal de pessoas qualificadas não traz problema nenhum, os presidentes devem conversar com várias pessoas, não ficar apenas com a visão de seu ministro. Presidente e ministros podem ouvir quem quiserem, mesmo que não seja do governo. O problema é montar um esquema paralelo para desmentir e boicotar a própria política oficial. Não é possível recomendar uma medicação oficialmente dada como ineficaz, como o gabinete paralelo fez com a cloroquina.
Está ficando provado que o governo alimentou uma corrente minoritária da medicina para impor uma política de saúde no Brasil que não poderia ser assumida por ser ilegal. Outro gabinete paralelo é o que funciona no Palácio do Planalto para orientar e alimentar a trama de intrigas e fake news que é a base da mobilização social nas redes sociais.
O caso do pedido de arquivamento, pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, das investigações sobre ações antidemocráticas é exemplar de como o presidente age. Tentado pela possibilidade de ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal, agora ou mais adiante, Aras procura garantir pelo menos sua recondução ao cargo. Não viu nenhuma transgressão onde as investigações, liberadas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes a bem da sociedade, mostraram uma vasta rede de financiadores de ações ilegais por parte de empresários e seguidores de Bolsonaro.
Um submundo criminoso que funciona com o apoio da parte escura do governo, que vai tomando conta dos diversos setores. O ministro da Justiça, Anderson Torres, deu apoio público ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, investigado pela Polícia Federal, subordinada à Justiça, por corrupção num caso de contrabando de madeira.
Como se não bastasse, revela-se um escabroso caso de atividade ilegal no Tribunal de Contas da União (TCU), em que um servidor inseriu no site oficial do órgão, sem autorização, um estudo seu em que especula a hipótese de que as mortes por Covid-19 tenham sido muito menores do que se alardeia. O estudo em questão, citado pelo presidente Bolsonaro como trabalho oficial do TCU, não tem chancela oficial nem faz parte de nenhum trabalho formal do tribunal. Seu autor é um amigo dos filhos de Bolsonaro, e o presidente soube dele pelo pai, um militar seu amigo. É assim que a banda toca hoje no Brasil.
Bolsonaro e fake news: o recuo de hoje é o avanço de amanhã | Malu Gaspar - O Globo

Não se pode dizer que surpreende o presidente Jair Bolsonaro ter propagado fake news sobre os registros oficiais de mortes por Covid-19, como ele fez na última segunda-feira. Mas, mesmo que pareça, não dá para dizer que foi mais um lance igual aos outros que vivemos nesta trágica distopia nacional. Porque, embora Bolsonaro pareça sempre apertar a mesma tecla, cada movimento visa a fazê-lo avançar um passo a mais na meticulosa estratégia de avacalhar as instituições da democracia brasileira.
Já vimos outros episódios dessa série de mau gosto. Primeiro, Bolsonaro faz um ataque a uma instituição qualquer. Se ninguém fizer nada, avança mais um pouco. Se resistirem, recua, mas mobiliza sua base para manter o ataque original circulando. Enquanto isso, procura uma chance de tentar de novo, contra outro alvo. O objetivo final é claro: seguir nesse rumo, avançando e recuando, até que esteja tudo dominado pelo modus operandi bolsonarista.
O que se viu na segunda-feira foi mais um passo do presidente em direção a esse objetivo. No cercadinho reservado aos seus seguidores, no Palácio da Alvorada, ele contou uma mentira. Disse que, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), cerca de 50% dos óbitos registrados por Covid-19 em 2020 afinal não ocorreram por causa da doença. “Esse relatório saiu há alguns dias, logicamente que a imprensa não vai divulgar. E, como é do Tribunal de Contas da União, ninguém queira me criticar por causa disso.”
Depois de passar meses afirmando, por sua conta e risco, que governadores, prefeitos, os comunistas e a grávida de Taubaté inflam o número de mortes desde que a pandemia começou sem convencer ninguém fora de sua bolha, Bolsonaro decidiu ir além. Apropriou-se da chancela do Tribunal de Contas da União e ficou esperando para ver se a história colava.
É possível que, no embalo da vitória sobre os generais, o presidente da República não esperasse a reação dos ministros do tribunal. Poucas horas depois de o vídeo com sua fala circular nas redes, o TCU divulgou uma nota dizendo que o tal relatório não existia.
Soube-se depois que o que havia era uma anotação num relatório do início da pandemia, observando que usar o número de casos de Covid-19 como critério de distribuição de recursos para o combate à doença poderia levar à supernotificação.
Mas não há prova de que isso de fato tenha acontecido, nem foi feita qualquer estimativa no tribunal a esse respeito. Pelo contrário: depois de estudar o assunto, os próprios técnicos consideraram inviável fazer uma verificação, já que é prerrogativa dos médicos dizer, no atestado de óbito, qual a causa mortis de cada paciente, e não haveria como fazer autópsias generalizadas para saber quem mentiu e por quê.
Para piorar, descobriu-se que, na noite anterior à fala no cercadinho, um servidor bolsonarista do TCU compartilhou entre os colegas um documento com a estimativa mandrake, mencionando os tais 50% a mais de mortes.
Foi esse documento que Bolsonaro usou como base. O funcionário em questão, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, já havia sido até indicado pelo presidente para compor a diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, mas não foi liberado pelo TCU para assumir o cargo.
Ao contrário do que ocorreu no Exército, desta vez o servidor que atuou contra a instituição para favorecer os interesses particulares do presidente foi imediatamente afastado pela corregedoria do TCU, que abriu investigação interna e pediu à Polícia Federal a abertura de inquérito.
E Bolsonaro, que nunca falou diretamente a respeito da decisão do Exército sobre Pazuello, desta vez fez outra declaração pública dizendo que, sim, tinha errado e que os dados que divulgara não eram do tribunal.
Ainda assim, continuou sustentando a tese da supernotificação de casos. E disse que estava ordenando à Corregedoria-Geral da União (CGU) que investigasse os registros de mortes por Covid-19.
O capitão cumpriu, portanto, o roteiro, mas não conseguiu avançar com seu exército sobre mais uma trincheira. A única vantagem de estarmos vivendo há tanto tempo sob esse mesmo modus operandi é que já sabemos o que vem por aí: um novo ataque a mais uma instituição, que o presidente certamente já está mirando.
A questão é que não é difícil saber que o ataque virá, mas é impossível prever até quando os alvos resistirão.
‘Faz parte da encenação de Bolsonaro parecer que está fraco’, diz o cientista social Marcos Nobre

RIO — Presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e professor da Unicamp, o cientista social Marcos Nobre avalia que o presidente Jair Bolsonaro não está enfraquecido, como acredita parte da oposição — embora pesquisas recentes mostrem que sua aprovação é a mais baixa desde o início do mandato. Para o pesquisador, o presidente que agora enfrenta o desgaste de manifestações de rua e de uma CPI contra seu governo não está “fraco nem forte”, mas forte o suficiente para ir ao segundo turno em 2022 e evitar um possível processo de impeachment; e fraco o suficiente para manter a narrativa de que está permanentemente na luta contra o sistema e manter sua base unida.
A aprovação ao governo Bolsonaro vive seu pior momento, mas o presidente mantém o apoio de uma parcela significativa da população. A oposição subestima o presidente?
Existe um grau diferente de organização na oposição. Enquanto a esquerda está mais organizada no entorno do PT e do Lula, a direita não bolsonarista ainda não encontrou sua maneira de se organizar. Outro ponto é que não existe uma articulação política entre esses dois centros para fazer frente a Bolsonaro. Para derrotá-lo em 2022, vai ser preciso um acordo entre eles. Sem isso, não será possível. Quando olhamos as pesquisas, vemos que a rejeição a Bolsonaro subiu, mas muita gente que saiu da aprovação, do ótimo ou bom, foi para a avaliação de que o governo é regular. Essas pessoas podem voltar se não encontrarem uma candidatura alternativa. Não é razoável imaginar que 2022 vai ser pior do que 2021 porque vai ter vacina, mesmo que de maneira tardia ou desorganizada. E existe um cenário de crescimento da economia, que pode não durar, mas pode durar o suficiente. Mesmo que alguém acredite que Bolsonaro estará pior em 2022, não deveria deixar de tentar organizar o campo democrático. A política, na situação em que a gente está, existe para a gente reduzir ao máximo a possibilidade de catástrofe.
Quem são os eleitores que avaliam o governo como regular e podem ser tão decisivos?
Dá para dizer que é um contingente que não gostaria de ser obrigado a escolher entre Bolsonaro e Lula. Ao mesmo tempo, diante de uma alternativa Lula ou Bolsonaro, não vai se dividir de maneira igual. Existe um grande ponto de interrogação. Diante de um risco, você não dobra a aposta. Se nós tivermos vacinação, economia melhorando, prorrogação do auxílio emergencial e depois um Bolsa Família robusto, Bolsonaro será um candidato muito forte.
“Bolsonaro está forte o suficiente para ir ao segundo turno e fraco o suficiente para mostrar a seu eleitorado que ele luta permanentemente contra o sistema” ”
Marcos NobreCientista político
É muito estranho as pessoas continuarem a achar que Bolsonaro está enfraquecido, porque faz parte da encenação dele parecer que está fraco, que está lutando contra o sistema. O extraordinário é que muitas pessoas acreditam. Quando alguém me pergunta se Bolsonaro está fraco ou forte, respondo “nenhuma das duas coisas”. Está forte o suficiente para ir ao segundo turno e evitar um impeachment, e está fraco o suficiente para mostrar a esse eleitorado que ele é alguém que luta permanentemente contra o sistema.
Não é de hoje que as posições do presidente sobre a pandemia são criticadas. Por que a manifestação de 29 de maio ocorreu nesse momento? A CPI da Covid contribuiu?
Primeiro, a quantidade de mortes é algo não só trágico como indignante. Você tem a CPI, tem novas acusações de corrupção e tem o episódio central da não punição ao general (Eduardo)Pazuello (que esteve em ato político com Bolsonaro, contrariando normas militares e não foi repreendido). É uma conjunção de fatores em que as pessoas dizem “basta”, passou do limite. Temos uma CPI que está organizando pela primeira vez uma narrativa anti-bolsonarista ou contra-narrativa, juntando os fatos para montar um caso de crimes contra o país.
O protesto ultrapassou o campo da esquerda?
Muitos partidos ou movimentos querem ser os responsáveis pela convocação do “Fora, Bolsonaro”. Eles levaram uma parte das pessoas às ruas. A maioria foi não porque foi chamada, mas porque é contra o Bolsonaro. E são contra ele de maneiras diferentes. Uma parte acha que o “Fora, Bolsonaro” é o impeachment; outra que é derrotá-lo eleitoralmente no ano que vem. Não só é um erro político da parte de organizações e partidos quererem aparecer convocando a manifestação, como se pode justamente dar o argumento que o Bolsonaro quer, que é transformar o protesto contra ele num protesto de esquerda. Acontece que nem todas as pessoas que estavam lá são de esquerda. Você tem pessoas da direita não bolsonarista. É um erro político gravíssimo da esquerda se ela tiver a pretensão de se apropriar dessas manifestações, porque só a esquerda não derrota Bolsonaro. E porque não existe razão, se você defende um impeachment, para excluir a direita não bolsonarista, porque um impeachment não se faz com minoria, mas com esmagadora maioria.
A agenda sanitária tem potencial de unificar o campo anti-bolsonarista?
A agenda sanitária unifica o campo democrático. O problema é que não existe uma narrativa unificada sobre a pandemia. Ela existe desde o início no campo bolsonarista. O que é a CPI? É a perspectiva de que se organize uma contra-narrativa.
Há sinais concretos de uma frente ampla contra Bolsonaro?
Na minha compreensão isso significa um acordo em que não importa quem passar para o segundo turno contra Bolsonaro, essa pessoa receberá o apoio de todas as demais forças. Um desses sinais foi o encontro dos ex-presidentes Lula e Fernando Henrique, recebido de maneira diferente; muitas vezes hostil. Tivemos também sinais de que há desconforto do lado da direita em relação a Bolsonaro: tanto o presidente do PSD, Gilberto Kassab, quanto o ex-presidente Michel Temer fizeram questão de, após a crise com a não punição a Pazuello, se distanciar de Bolsonaro. Ficou claro para uma parte importante da direita que Bolsonaro é um risco de verdade. O episódio Pazuello é um episódio de virada. Se não tem frente ampla formada, existem sinais de que uma parte da direita está se afastando de Bolsonaro.
Um segundo turno com Lula ou Bolsonaro é inevitável?
Não há nada de inevitável, mas está difícil, seja porque a direita não bolsonarista não tem clareza do risco representado pelo Bolsonaro, seja porque está muito fragmentada, mais ainda do que a esquerda. A esquerda estava num estado parecido antes de o Lula poder ser candidato. Não ter uma candidatura da direita não bolsonarista significa dizer que o Brasil vai funcionar sem uma representação da direita democrática, o que significa que a democracia de fato já se deteriorou. A gente tem que imaginar que isso não vai acontecer porque existe uma base eleitoral para isso. A questão é qual é a candidatura viável. E elas têm que ter recall. Candidaturas outsiders não têm chance de se viabilizar.
Por quê?
Na comparação 2018 com 2022, são duas eleições completamente diferentes. A eleição sempre se organiza na ideia de ser contra e a favor do governo. Quando há reeleição isso é mais forte. Isso não acontece quando o governo de plantão tem baixíssima aprovação e quando não tem uma candidatura forte, que foi o que ocorreu com Temer em 2018. Nessa situação, você abre a eleição, que deixa de ter o caráter contra ou a favor do governo. É a típica eleição em que aparece aquilo que chamamos de outsider. Em geral, existe a possibilidade de transformar a eleição em uma eleição a favor ou contra o sistema. Foi nesse momento que Bolsonaro conseguiu se eleger. Em 2022, vai ser o contrário, porque nós temos um presidente que é candidato à reeleição. A eleição vai se organizar entre quem é a favor e contra o governo. Além disso, o espaço para uma candidatura antissistema ou outsider já está ocupado e pelo próprio presidente. Por isso, Bolsonaro é paradoxal, porque é um presidente antissistema. A pessoa que deveria dirigir o sistema ataca o sistema e, por isso, temos um governo que não governa. Em 2022, as candidaturas competitivas serão aquelas que estão na cabeça do eleitor, que já são conhecidas. Na minha avaliação, candidaturas outsiders não têm chance de se viabilizar.
Em 2022, teremos mudanças relevantes nas regras eleitorais. Quais devem ser seus impactos?
A gente tem que olhar 2022 a partir do cálculo dos partidos em um ambiente com proibição do financiamento empresarial, fim das coligações proporcionais e cláusula de barreira. Se a gente olhar essas coisas juntas, concluiremos que é custoso ter candidato à Presidência competitivo, porque ao lançar um candidato se deixará de investir recursos públicos nas eleições de deputados, senadores e governadores, o que é fundamental para um partido ter ativos políticos no futuro. Imagina o que significa tornar viável um outsider sem a base social que o bolsonarismo construiu desde 2014. Não dá, mesmo que você seja um partido grande. Você tem que dar um jeito de ter uma candidatura a presidente que financie a si mesma, que se vire. Por isso, é importante para os partidos em primeiro lugar olhar para os palanques estaduais e não para a candidatura presidencial. Bolsonaro é o presidente e tem uma rede de desinformação bem organizada. Então, não precisa de mais recursos que já tem. O PT aposta na mesma estratégia de 2018, que é ter uma candidatura presidencial forte e, assim, fazer uma boa bancada. O drama é com a direita não bolsonarista. É difícil ela apostar num outsider, precisa apostar numa candidatura que já tenha dinheiro para se financiar e que seja lembrada pelo eleitorado.
Entidades do comércio de Niterói querem anular novo endereço em homenagem a Paulo Gustavo

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RIO — Desde a troca do nome da antiga Rua Coronel Moreira César, no bairro de Icaraí, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, em homenagem ao ator Paulo Gustavo, moradores e comerciantes da rua relatam transtornos. Entidades, como Sindicato de lojistas de Niterói (Sindilojas) e a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), reclamam que a mudança no endereço acarretou custos contratuais e prejuízos com fornecedores. O endereço mudou após o prefeito do município, Axel Grael, sancionar a PL que alterou o nome da rua nove dias após a morte do comediante e niteroiense ilustre.
Ainda que a proposta de autoria do vereador Binho Guimarães (PDT) preveja isenção de atualização cadastral para moradores e comerciantes, entidades alegam que a antiga rua Coronel Moreira César era referência do comércio da cidade e que a alteração impacta nas negociações com os fornecedores. Além disso, para anular a homenagem, o Conselho Comunitário Da Orla da Baía De Niterói (CCOB), fez uma representação ao Ministério Público, como adiantou o colunista Ancelmo Gois, alegando que a mudança é irregular de acordo com a Lei municipal nº 2.160, de julho de 2014. A norma expressa veta alterar o nome de logradouros públicos de Niterói que perdurarem nos últimos 20 anos na memória e na cultura da população. Porém, a ação foi indeferida pelo MP.
— Fui surpreendido com essa mudança de uma rua tradicional e nobre de Icaraí, de comércio muito bom. Nessa representação, enviei a cópia da lei e também citei as entidades de lojistas que são contrários e que, inclusive, realizaram um abaixo-assinado com mais de 3 mil assinaturas, incluindo moradores — afirmou José de Azevedo, presidente do CCOB.
Azevedo disse que não irá recorrer da matéria, mas dará auxílio aos sindicatos e moradores responsáveis pelo abaixo-assinado.
Na justificativa do arquivamento processual, a promotora Renata Scarpa argumenta que “a ratio legis da legislação municipal apontada como violada evita modificações que efetivamente possam causar prejuízo à cidade, o que, no sentir desta Promotora de Justiça, não aconteceu no caso em questão”. A promotora também recorda de outras ocasiões na qual modificou-se o endereço de logradouros com mais de 20 anos sem que houvesse prejuízo à Niterói.
“O que ocorre aqui é a retirada do nome de um personagem histórico que não integra a cultura da cidade e entra um novo nome. O nome do artista que eternizou Niterói ao tornar a cidade cenário em seus diversos trabalhos de grande alcance, marcando a sua identidade e que de fato contribuiu para a cultura e visibilidade da cidade”, justificou a promotora.
A mudança também causou incômodo em representantes do comércio local. Para o presidente do Sindilojas Niterói, Charbel Tauil, o processo de consulta pública feito pela prefeitura do município ocorreu de maneira equivocada. Realizada através do aplicativo Colab, utilizado como canal de atendimento entre moradores e poder público, a consulta foi aprovada por cerca de 90% dos 34 mil niteroienses que participaram. Segundo Tauil, a finalidade do aplicativo não é essa.
— Ele serve para alguém comunicar algum problema e o órgão competente resolver. Para consulta pública não vejo como válido. Qualquer um pode colocar lá e começar uma consulta. E se você quiser pegar 50 CPFs de pessoas diferentes, você vai lá e coloca — disse.
Tauil ressalta que em meio aos rumores sobre a homenagem, o Sindilojas Niterói enviou um ofício ao prefeito da cidade, Axel Grael, questionando a forma e a temporalidade da consulta. De acordo com o documento, do dia 11 de maio, a pergunta “Você concorda com a substituição do nome do Coronel Moreira César, em Icaraí, pela Rua Ator Paulo Gustavo?”) não deixaria margem para nenhuma outra sugestão. Em relação à temporalidade, a homenagem ocorreu imediatamente após a morte do ator.
— Somos muito contra. Existe um grande gasto no contrato social. A prefeitura e o MP não sabem como funciona o comércio, pois se no contrato tem um endereço e o fornecedor tem outro, ele simplesmente não te vende.Sem contar embalagens, o marketing que foi feito em cima da Rua Coronel Moreira César, que é referência pelo comércio, diferente do novo endereço — disse.
Ao todo, Quarenta e seis placas com o nome do humorista — que cresceu naquela cidade da Região Metropolitana do Rio — foram instaladas na via. A mudança do nome da rua foi aprovada em consulta pública com mais de 34 mil participantes e teve mensagem executiva do prefeito Axel Grael aprovada pela Câmara de Vereadores. A cidade também prepara um circuito cultural e uma estátua em homenagem ao artista no Campo de São Bento, também em Icaraí. No local, foram gravadas cenas da franquia "Minha mãe é uma peça".
A rede de mentiras e desinformação no Palácio do Planalto | Opinião - O Globo

Para informações que incomodam, todo governo quer impor sigilo. Não é outro o motivo que levou o Exército a decretar cem anos de segredo ao processo administrativo aberto contra o ex-ministro e general da ativa Eduardo Pazuello, por ter participado de manifestação política ao lado do presidente Jair Bolsonaro. O mesmo prazo secular foi imposto pelo Palácio do Planalto em instâncias prosaicas, como a carteira de vacinação de Bolsonaro, ou bem mais relevantes, caso da identidade dos servidores que acessam perfis oficiais nas redes sociais.
Foi decisiva, para entender a comunicação digital do Planalto, a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que levantou o sigilo sobre o inquérito que apura a participação de políticos em atos antidemocráticos. Moraes destampou um bueiro que já exala um odor nada agradável, que todas as evidências revelam emanar do Planalto. O relatório produzido pela Polícia Federal (PF) no âmbito do inquérito ainda deverá ser esmiuçado, mas o que já se descobriu é suficiente para comprovar o envolvimento de expoentes do bolsonarismo em episódios para lá de suspeitos.
Os policiais partiram da análise técnica do Digital Forensic Research Lab (DFRLab), vinculado ao americano Atlantic Council, que documentou o uso das redes sociais bolsonaristas para disseminar desinformação. De acordo com reportagem do GLOBO, o assessor presidencial Tercio Arnaud Tomaz é apontado pela PF como chefe do “gabinete do ódio”, que comandava a publicação de conteúdos fraudulentos sobre a Covid-19 e desferia ataques a políticos rivais e ex-aliados de Bolsonaro. Tomaz operava, de dentro do Planalto e até do condomínio onde mora a família Bolsonaro, um perfil com 492 mil seguidores no Facebook e mais de 11 mil no Instagram, com um nome autoexplicativo: “Bolsonaronews”.
Enquanto esteve no ar, o “Bolsonaronews” veiculou elegias à cloroquina e alvejou os principais opositores de Bolsonaro: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os ex-ministros Sergio Moro e Henrique Mandetta, o ex-governador Wilson Witzel e o deputado Rodrigo Maia (RJ), ainda presidente da Câmara. Partiram de órgãos públicos, segundo a polícia, acessos a páginas de desinformação operadas por assessores do senador Flávio Bolsonaro e do deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Noutro trecho, o relatório vincula a um assessor da deputada federal bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) o acampamento de ativistas radicais que organizaram a manifestação de mascarados que marcharam contra o Supremo carregando tochas no ano passado. Também associa um funcionário do Ministério dos Direitos Humanos ao aluguel de equipamentos usados num protesto diante do Quartel-General do Exército em favor de um golpe militar.
Apesar de todas essas evidências, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao STF o arquivamento do caso, sob a alegação esdrúxula de que a PF desviou o foco da investigação e não comprovou o envolvimento de parlamentares. A atitude de Aras não tem o menor cabimento. As provas exigem, de alguém digno do cargo, no mínimo um pedido de aprofundamento das investigações. A despeito da complacência de Aras, Moraes faria bem em levar o inquérito até o fim para desvendar a origem da rede de mentiras e desinformação que tomou conta dos escalões mais altos da República.
'Eles (os PMs) só queriam saber dos bandidos', diz madrinha de Kathlen sobre socorro à grávida

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RIO — Parentes de Kathlen de Oliveira Romeu, a grávida de 24 anos morta no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio, seguem questionando a versão de que havia um confronto entre PMs e bandidos no momento em que a jovem foi atingida. Além disso, a família afirma que os policiais que estavam no local não prestaram o devido socorro à vítima.
— Não teve troca de tiros. Eles mataram ela. A avó pedia socorro e eles só queriam saber dos bandidos — diz a esteticista Monique Messias, de 41 anos, madrinha de Kathlen.
Nesta quarta-feira, durante o enterro da jovem, a mãe dela, Jackeline Lopes, também cobrou as autoridades.
— Quero Justiça nem que seja a última coisa que eu faça na vida — gritou.
Um inquérito aberto na Divisão de Homicídios da Capital investiga as circunstâncias da morte da vendedora. Já foram apreendidas 21 armas (dez fuzis calibre 7.62; dois fuzis 5.56; e nove pistolas calibre .40) de cinco policiais militares que teriam participado da troca de tiros com traficantes da região. Os agentes prestaram depoimento na especializada. A jovem foi atingida por um tiro de fuzil, que transfixou seu tórax.
Em depoimento, os cinco policiais disseram que, após cessar o confronto, se depararam com a jovem baleada. Eles negaram terem sido autores do disparo que a atingiu por não haver ângulo para acertarem a design de interiores no local onde ela caiu.
Kathlen havia anunciado a espera pelo primeiro filho em um perfil nas redes sociais seis dias antes de morrer. No texto emocionado, ela fala das expectativas e experiências relativas à maternidade recém-descoberta. "Sabe aquela menina-mulher que as pessoas admiram e têm orgulho? Hoje ela quer ser mais e mais! Tudo por esse serzinho que eu carrego aqui dentro!", escreveu.
Em meio à campanha de imunização contra Covid, Bolsonaro compara vacinas com hidroxicloroquina: 'Experimental'

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BRASÍLIA E ANÁPOLIS — Um dia depois do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmar que não há eficácia comprovada para a hidroxicloroquina, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender seu uso. Em discurso feito em evento com igrejas evangélicas em Anápolis, Bolsonaro comparou a hidroxicloroquina com as vacinas aplicadas na população. O presidente sugeriu que também não há comprovação científica da eficácia da vacina, que estaria em fase experimental.
Apesar da declaração do presidente, a eficácia de todas as vacinas foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Testes realizados em milhares de pacientes apresentaram uma diminuição na chance de contrair a doença. No caso da hidroxicloroquina, diversas pesquisas já apontaram que o medicamento não é eficaz contra a Covid-19.
Também sem provas, Bolsonaro voltou a propagar a hipótese de que houve supernotificação de mortes por Covid-19 no ano passado e que mais da metade das mortes no país não ocorreram por causa da doença. Segundo ele, essa suposta diminuição teria ocorrido por causa do tratamento precoce defendido por seu governo.
No seu discurso, feito em um evento de igrejas evangélicas em Anápolis (GO), o presidente citou o documento que foi incluído no sistema do Tribunal de Contas da União e defende a tese de supernotificação. Segundo ele, o documento foi feito por "pessoas que estão ao seu lado".
Com base nos números do documento, desmentido pelo Tribunal de Contas da União, Bolsonaro afirmou que o Brasil, na verdade, seria o país com menos mortes por milhão no mundo.
— Se nós retirarmos as possíveis fraudes, vamos ter em 2020 o país como aquele com menor número de mortes por milhão de habitante por causa da Covid. Que milagre é esse? O tratamento precoce — afirmou o presidente.
Bolsonaro repetiu que tomou hidroxicloroquina e também citou outros medicamentos que ainda não tem eficácia comprovada:
— Querem prova maior que isso? Eu tomei hidroxicloroquina, outros tomaram ivermectina, outros estão tomando porque é difícil encontrar no Brasil, a proxalutamida.
Nesta terça-feira, durante seu segundo depoimento à CPI da Covid, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, negou a eficácia da cloroquina. A fala contrasta com o discurso de Bolsonaro, que já fez por diversas vezes a defesa do uso desses medicamentos.
— Eu já respondi a vossa excelência. Essas medicações não têm eficácia comprovada — disse Queiroga, em resposta a Renan.

Essa não foi a única vez durante seu novo depoimento à comissão parlamentar de inquérito que o ministro negou a eficácia da cloroquina. Ao ser questionado por Renan sobre Mayra Pinheiro, conhecida como "Capitã Cloroquina", secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Queiroga voltou a afirmar que não reconhecia a eficácia da droga.
— Vossa excelência concorda com o posicionamento da Dra. Mayra sobre o tratamento precoce no que lhe diz respeito, como Ministro da Saúde e como médico? — perguntou Renan.
– Senador, eu já externei aqui a minha posição acerca dessas medicações. Para mim não há evidência comprovada da eficácia desses medicamentos — afirmou o ministro.
Hidroxicloroquina está associada com maior mortalidade, segundo estudos
Apesar da declaração do presidente, diversos estudos realizados desde o início da pandemia apontam que o remédio defendido pelo presidente não combate a Covid-19. Pelo contrário, uma metanálise publicada em abril deste ano pela revista científica britânica "Nature" concluiu que o uso da hidroxicloroquina está associado a uma mortalidade maior entre pacientes com Covid-19. No caso da cloroquina, não há eficácia.
A pesquisa, assinada por 94 cientistas, analisou colaborativamente 28 ensaios clínicos publicados ou não, nos quais participaram 10.319 pacientes. A metanálise em questão foi recebida em 2 de outubro de 2020 e aceita no último 15 de março.
No documento, os autores explicam que o objetivo da menatálise foi estimar os efeitos da hidroxicloroquina e cloroquina considerando as evidências dos ensaios clínicos randomizados disponíveis, publicados ou não.
"Nós descobrimos que tratamento com hidroxicloroquina é associado com aumento da mortalidade de pacientes com Covid-19, e não há benefício da cloroquina", afirmaram os autores na pesquisa, que não estabeleceu generalização para pacientes ambulatoriais, crianças, grávidas e pessoas com comorbidades.
Da mesma forma, todas as vacinas atualmente aplicadas no Brasil realizaram testes com voluntários que apontaram que sua aplicação diminui a chance de desenvolvimento da doença. Em âmbito internacional, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também aprovou o uso emergencial das vacinas com base nesses testes. Todas as vacinas precisam passar por três fases de testes antes de sua aprovação. As fases buscam comprovar a segurança e eficácia das vacinas.
No caso da CoronaVac, a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, os resultados de eficácia mostraram que a CoronaVac preveniu doenças sintomáticas em 51% dos vacinados e preveniu formas graves da Covid-19 e hospitalizações em 100% da população estudadas. Em março deste ano, um estudo realizado nos Estados Unidos apontou que a vacina Covishield, desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZenca, foi 79% eficaz na prevenção da Covid-19.
Bolsonaro volta a dizer que a eleição em 2018 foi fraudada e, novamente, diz que tem provas sem mostrá-las | Lauro Jardim - O Globo
Por Lauro Jardim

Num culto evangélico na igreja Church in Connection, de que participa agora em Anápolis (GO), Jair Bolsonaro voltou a repetir que a eleição de 2018 foi fraudada.
Eis o que acaba de dizer Bolsonaro:
— Eu fui eleito no primeiro turno, tenho provas materiais disso, mas a fraude que existiu, sim, me jogou para o segundo turno.
Não é a primeira vez que Bolsonaro fala sobre fraude. Assim como das outras vezes, disse ter provas sem mostrá-las.
Bolsonaro também voltou a defender o tratamento precoce e a cloroquina.
Sobre o coronavírus, Bolsonaro insinuou, sem dar o nome aos bois, que a origem do vírus é a China:
— Esse vírus nasceu de um animal ou de um labortatório? Eu tenho da minha cabeça de onde veio.
Bolsonaro falou por 30 minutos, num evento transmitido pela TV Brasil. Em seguida, pastores teceram loas ao governo.
Índia tem novo recorde de mortes por covid-19 após revisão de balanço em estado

Em Nova Déli
10/06/2021 06h53
Atualizada em 10/06/2021 08h46
A Índia registrou hoje mais de 6 mil mortes provocadas pela covid-19, após uma revisão expressiva do balanço no estado de Bihar, no nordeste, para as últimas 24 horas, o que alimenta as suspeitas de que o número de vítimas no país é muito mais grave.
De acordo com os dados do ministério indiano da Saúde, 6.148 pessoas faleceram nas últimas 24 horas, o que elevou o total de óbitos no país a quase 360 mil, o terceiro maior do mundo.
Anvisa concede certificado de boas práticas para vacina Covaxin
Ontem, o país registrou 2.219 mortes e 92.596 contágios em 24 horas.
O estado de Bihar aumentou o número de mortos e adicionou 4 mil falecimentos, para quase 9.500 vítimas, depois de revisar os registros de óbitos, segundo as autoridades.
A justiça do estado de Bihar exigiu uma auditoria dos registros após acusações de que o governo ocultava a magnitude da crise ao minimizar os casos de covid-19 e os falecimentos.
Especialistas suspeitam que os governos de outros estados também tentaram minimizar os balanços durante a segunda onda epidêmica, que atingiu a Índia com força no fim de março. O país chegou a registrar 400 mil casos e mais de 4.500 mortes por dia no fim de maio.
Como os registros são mal administrados em períodos normais, muitos especialistas consideram que o número de mortes na Índia pode ser muito superior, inclusive com mais de um milhão de mortes, o que seria o balanço mais grave do planeta.
As suspeitas são reforçadas pelo fato de que a taxa de mortalidade em outros países, como Brasil e Estados Unidos, é muito superior à registrada na Índia.
O recorde mundial anterior de mortes em 24 horas, segundo o balanço da AFP, era de 5.527 nos Estados Unidos, em 12 de fevereiro, mas este número foi consequência de uma revisão que elevou uma contagem precedente.
Reinaldo Azevedo - Impune, Bolsonaro mente sobre vacinas e urnas: contra a vida e a democracia
Colunista do UOL
10/06/2021 07h21
O presidente Jair Bolsonaro viajou a algumas cidades do interior de Goiás. Não foi inaugurar nada. O intuito da viagem, em pleno dia de trabalho, era conversar com correligionários, prestigiar o lançamento de uma entidade empresarial e participar de um culto evangélico de uma denominação chamada "Church in Connection". Os nomes estão ficando criativos. Mentiu como nunca e como sempre.
Dentro do templo, exceto quando falou, usou máscara. Do lado de fora e nas demais atividades, seguiu a sua rotina: provocou aglomerações sem a proteção.
Afirmou uma enormidade sobre as vacinas:
"E eu pergunto: a vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda? Está experimental. Nunca vi ninguém morrer por tomar hidoxicloroquina. Em especial na região amazônica, pra te curar se tem malária ou de lúpus. Por que não investir nisso? Porque é barato? Interessa viver em cima de mortes para ganhar mais recursos".
A fala é mentirosa e ilógica. Sim, já existe comprovação científica de que as vacinas funcionam. Além de serem aplicadas depois de superada a fase três, quando, então, se evidencia a sua efetividade em larga escala, há os resultados. Os EUA quase voltaram ao normal depois de ampla vacinação. A cidade de Serrana, em São Paulo, experimenta a queda drástica de contaminados e mortos.
Bolsonaro fez a sua carreira política não dando bola para a diferença entre a verdade e a mentira.
A cloroquina é eficaz no combate a pelo menos dois dos três protozoários que causam a malária. É remédio antigo. Um terceiro já se tornou resistente. Também está entre as drogas a que podem recorrer os médicos para minorar os efeitos do lúpus, doença autoimune. O que isso tem a ver com a covid-19?
A hidoxicloroquina e a covid-19 formam uma parceria mortal -- o que já foi constatado -- em dois casos:
1: quando a pessoa tem arritmia cardíaca e toma o remédio sem controle médico, e isso pode levar à morte -- além de ser inútil para combater a doença;
2: quando, por tomar o remédio -- seja preventivamente, seja aos primeiros sintomas da doença --, a pessoa deixa de tomar as devidas precauções ou de procurar o médico na certeza de que está protegido.
É espantoso que se esteja ainda a debater essa questão no Brasil. E mais espantoso que seja o presidente da República a igualar, na condição de supostas drogas sem comprovação científica, o imunizante e a hidroxicloroquina. Contra tudo o que diz a ciência.
Quem seguir as palavras de Bolsonaro pode estar marcando um encontro com a morte.
URNAS ELETRÔNICAS
O presidente percebeu a fragilidade do sistema para punir um presidente criminoso, em especial quando a Procuradoria-Geral da República se queda inerme.
No mesmo culto, afirmou sobre as eleições de 2018:
"Eu fui eleito no primeiro turno. Eu tenho provas materiais disso. Mas o sistema, a fraude, que existiu, sim, me jogou para o segundo turno. Outras coisas aconteceram, e eu só acabei ganhando porque tive muito voto".
Mente também nesse caso. Ele não tem prova nenhuma. Ou, então, que a apresente. Aliás, a Procuradoria-Geral da República, por intermédio do seu braço eleitoral, deveria cobrar do presidente as evidências. Mas não vai fazê-lo. Se não viu nada a ser apurado nem no chamado "inquérito dos atos antidemocráticos", por que se importaria com o fato de o chefe da nação afirmar que tem em mãos as provas de uma fraude eleitoral?
Eis Bolsonaro no melhor da sua forma, que é sempre o pior.
Fez essa pantomima no dia seguinte ao depoimento de Marcelo Queiroga, seu ministro da Saúde, à CPI. O doutor, claro!, se disse contrário a aglomerações e reconheceu que a hidroxicloroquina é inócua no combate à covid-19.
Mas continua no cargo porque diz não ser censor do presidente da República.
Temos um ministro da Saúde que confunde ciência com censura.
O único que discursa sobre cadáveres no país é Bolsonaro.
Análise: Ronilso Pacheco - Caso Kathlen: PM do Rio age para proteger vidas brancas como as do Leblon


Ronilso Pacheco
Colunista do UOL
10/06/2021 04h00
Kathlen Romeu morreu aos 24 anos e o filho dela nem conheceu o mundo. Ambos foram interditados pela Polícia Militar. Definitivamente, a PM é parte do problema, e não é um policial "sério", "honesto" e "honrado" que vai mudar isso.
A instituição Polícia Militar, tal qual nós temos, é prejudicial para uma parcela da sociedade brasileira. Ela é racista, autoritária, violenta, presunçosa, ameaçadora, controladora, abusiva, constrangedora, vingativa, impessoal, fria.
Ela é prejudicial inclusive para o próprio policial, pois os discursos ultraconservadores que chamam os policiais de "nossos heróis" apenas ajudam a manter esses homens e mulheres em condições precárias de trabalho, expostos a violências cruéis, mal remunerados e sem um suporte digno do Estado
"Se a PM acabar, a cidade vira um caos generalizado", dizem alguns. É verdade. Mas um caos generalizado afetaria toda a cidade, e isso nos igualaria. Soluções seriam buscadas porque estaríamos todas e todos debaixo do mesmo caos.
Mas a verdade é que não ver o caos generalizado por causa da ausência da polícia parece ser um privilégio que a favela não tem.
O que a PM tem feito é manter o caos —as mortes, o abuso de autoridade, a humilhação, a invasão de casas, o tapa na cara, o assassinato e a cena do crime adulterada— em uma única parte da cidade, para que uma outra parte durma em paz. E, é bom dizer, muitos homens e mulheres policiais vivem nessa parte da cidade onde o caos e o medo não deixa ninguém dormir em paz.
Para a zona sul do Rio se sentir em paz e segura, para jovens grávidas e brancas da Ataulfo de Paiva poderem realizar o seu parto humanizado sem correrem o risco de uma operação policial que lhes tire a vida, a Polícia Militar concentra a violência, o abuso de poder e o desrespeito nos lugares onde a vida parece ter menos valor e importância. Ela existe para que estas vidas brancas possam existir, e as vidas negras... tanto faz
O movimento pró-família e pró-vida no Brasil está neste momento monitorando e mapeando todas as tentativas de aborto e todas as adoções de crianças por casais gays. Enquanto isso, a morte da Kathlen é ignorada. Nem nota, nem repúdio, nem oração.
O que são então estas organizações pró-vida e pró-família? Braços moralistas e doentios de uma rede de conivência com a morte de gente pobre e preta.
Quem mora no Rio de Janeiro sabe que a morte de Kathlen e a comoção causada por ela vai durar até a próxima morte. Não há nada no Rio hoje que ameace mais as famílias da favela e da periferia do que a própria Polícia Militar.
Querem ser pró-família? Sejam anti-PM e suas operações, na maneira como são conduzidas.
De um lado do túnel Rebouças, as operações seriam inconcebíveis. Do outro lado, elas são normalizadas e às vezes até vistas como sucesso, mesmo com a morte de uma Kathlen e seu filho no ventre. É vergonhoso e humilhante que isto seja chamado de política de segurança pública.
Vocês, na zona sul, saibam que a instituição Policia Militar existe para proteger vocês. A PM garante que seus filhos cresçam, sonhem, casem, multipliquem, sejam plenos, enquanto mantém a parte preta da cidade sob o medo e a sorte
Quanto a nós, negros e negras, a favela, a periferia, incluindo os jovens policiais, talvez os nossos jovens cresçam, sonhem, casem, se multipliquem e sejam plenos. Talvez nossas crianças nasçam. Talvez não. Infelizmente, a da Kathlen não nascerá e nem ela sobreviveu para recomeçar.
Um conselho: saiam da indignação e digam o quanto essa forma de ser sociedade no Rio de Janeiro é impossível.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
Reportagem: Thiago Goncalves - O último suspiro: (¿?¿) astrônomos flagram BURACO NEGRO pouco antes de sua MORTE (?!?)

Thiago Signorini Gonçalves
10/06/2021 04h00
Astrônomos da Universidade de Tohoku, no Japão, acreditam haver encontrado evidências dos últimos sinais de um buraco negro supermassivo antes de morrer. É o seu último suspiro, por assim dizer.
Hoje sabemos que quase todos as galáxias, ou pelo menos aquelas acima de um determinado tamanho, têm um buraco negro com milhões ou até bilhões de vezes a massa do Sol em seu centro. Além disso, alguns desses buracos negros estão consumindo uma enorme quantidade de matéria ao seu redor, sendo classificados como núcleos ativos de galáxias.
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Essa matéria se acumula na forma de um disco de gás ao redor do buraco negro. Com a enorme energia gravitacional na região, esse material acelera e se aquece, emitindo até mesmo sinais de raios-X.
Ao mesmo tempo, o corpo cria um campo magnético tão potente que um jato é formado. Esse jato é capaz de levar parte do gás da região a distâncias de milhares ou milhões de anos-luz de distância do próprio buraco negro.
Os pesquisadores japoneses, liderados por Kohei Ichikawa, utilizaram o radio-observatório ALMA, no Chile, para estudar o sistema de galáxias Arp 187, a pouco mais de 300 milhões de anos-luz de distância de nós. Ao examinar as imagens, encontraram realmente um jato de matéria de alguns milhares de anos-luz de dimensão, um sinal claro da presença de um buraco negro.
No entanto, ao buscar por sinais de raios-X no centro da galáxia, uma surpresa: não havia nada ali, nenhuma emissão de energia característica do disco de matéria ao redor do buraco negro. Esse disco é comparativamente muito pequeno, milhares de vezes menor que o jato, mas os cientistas esperavam ver um pontinho brilhante bem no centro do sistema.
O interessante é que o jato observado foi iluminado pelo próprio disco, mas devido às distâncias envolvidas, essa luz leva alguns milhares de anos para ser emitida e chegar às bordas das nuvens de gás vistas nas imagens.
Então o que estamos vendo nos jatos é como um eco da luz emitida pelo disco. Um clarão de luz produzido há no máximo três mil anos, mas que já não está mais lá. São os momentos finais da vida fugaz desse monstro cósmico.
Vale lembrar que o buraco negro não deixa de existir, ele continua lá. Aparentemente, ele consumiu toda a matéria que havia no disco, e agora parou de brilhar.
O trabalho é importante para entendermos o mecanismo de funcionamento dos buracos negros. Como detetives, vemos um crime que acabou de acontecer, e com as evidências ainda frescas, temos mais chances de encontrar a causa da morte.
Facilitando a vida do ladrão: dado vazado é prato cheio para golpe no 'Zap'

Guilherme Tagiaroli
De Tilt, em São Paulo
10/06/2021 04h00
De tempos em tempos, há registros de grandes vazamentos de dados pessoais — um grande aqui no Brasil expôs dados de 220 milhões de pessoas. Talvez você ache que tudo bem, pois não tem nada a esconder, porém as informações de diferentes bases de informações vazadas facilitam a vida de criminosos. O roubo e a clonagem de contas de WhatsApp estão aí para provar.
Você sabia que uma das formas de os golpistas agirem é pegando informações vazadas de bancos de dados para traçar o perfil das vítimas? É por isso que precisamos ficar mais atentos e adotar hábitos mais seguros para diminuir os riscos.
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Como isso acontece?
Dificilmente se tem todas as informações completas de uma vítima em um só vazamento. Mas criminosos especializados podem cruzar vários blocos de dados de vazamentos diferentes e construir um banco robusto de informações com detalhes pessoais sobre várias pessoas.
Por exemplo: em um dos arquivos há nome e email. O outro possui nome, email e senha. Um terceiro tem nome, data de nascimento e endereço. Ao juntar tudo isso a partir do campo nome, é possível traçar perfis de potenciais vítimas.
"Existe uma ligação umbilical entre esses megavazamentos e o aumento de golpes. Vale lembrar que não são necessários muitos dados pessoais. Bastam uma ou duas informações de uma vítima que um golpe muito agressivo se concretiza", explicou Carlos Affonso de Souza, diretor do ITS Rio, durante painel no TDC (The Developer's Conference).
"Quanto mais completas forem as informações, o criminoso consegue se passar por um terceiro [como um banco] de maneira mais convincente", acrescentou.
Em golpes por WhatsApp, muitas vezes, o atacante tem número do telefone e nome — que também pode ser obtido, por exemplo, em algum anúncio de venda de itens online.
Em posse disso, o golpista vai para a segunda etapa que é chamada de engenharia social, que nada mais é do que a habilidade do criminoso de convencer a vítima a fornecer o código de autenticação do WhatsApp sem que ela perceba.
"Uma pessoa entra em contato com a vítima e diz que vai mandar um código para liberar o anúncio, que na verdade é uma sequência numérica que permite acessar o WhatsApp remotamente", resume Souza.
A terceira parte do golpe é o roubo da conta. Em posse dela, o golpista finge ser a vitima e começa a pedir dinheiro emprestado para os contatos dela.
Uma vítima recente deste tipo de fraude foi a mãe da modelo Carol Trentini. Um criminoso se passou por ela e solicitou dinheiro à mãe dela. Achando que interagia com a filha, a mãe transferiu todas suas economias, pois achou que estaria ajudando-a em uma emergência.
Ainda que o WhatsApp, pela rapidez na comunicação, seja usado para golpes, a consolidação de dados vazados pode auxiliar em outros tipos de ataques, como solicitação de cartão de crédito (quando se tem nome completo, CPF, entre outros dados), spam por SMS (quando se tem o número do telefone) ou mesmo phishing por telefone ou e-mail, que atrai vítimas com mensagens bombásticas (como revelação de fotos comprometedoras suas ou regularização de pendências financeiras) para roubo de dinheiro ou instalação de malware.
Mais uma vez: quanto mais informações, mais convincente o golpe pode ser.
Como se proteger de golpes dados via WhatsApp
- Jamais compartilhe o código de ativação do WhatsApp;
- Desconfie se a pessoa por trás da ligação/mensagem usar gírias, frases informais demais, cometer erros de português ou se comunicar como seu conhecido (no caso de algum amigo ou parente pedir dinheiro);
- Fique ainda mais em alerta se no contato for pedido a instalação de algum programa em seu aparelho, exigirem pagamento e/ou informações pessoais (senhas, documentos pessoais);
- Para aumentar a proteção, ative a verificação em duas etapas do WhatsApp (aprenda a configurar aqui). Mesmo que o criminoso consiga ter o seu código de verificação, ele vai precisar inserir também uma senha de seis dígitos criada por você. Ou seja, só sabendo essa informação para conseguir roubar o seu perfil.
Josias de Souza - Exército adiciona o escárnio do sigilo ao vexame da impunidade de Pazuello
Colunista do UOL
08/06/2021 01h51
O Exército decidiu manter em segredo por cem anos o processo disciplinar que deixou impune a indisciplina do general Eduardo Pazuello. Em resposta ao jornal O Globo, que requisitou acesso aos papeis sobre a participação de Pazuello em ato político ao lado de Bolsonaro, no Rio de Janeiro, em 23 de maio, o Exército alegou que o caso envolve informações pessoais cuja proteção centenária estaria autorizada pela Lei de Acesso à Informação.
Cabe recurso da decisão à Controladoria-Geral da União. Ao julgar casos análogos, a CGU vem adotando o entendimento segundo o qual processos administrativos só devem permanecer em sigilo enquanto durar a apuração. Consumado o veredicto, qualquer pessoa pode requerer acesso à íntegra do processo. Costuma-se vedar apenas a divulgação de dados bancários e fiscais, além de "informações pessoais sensíveis de terceiros" e dados que possam levar "à identificação de eventual denunciante."

Como simples hábitos diários se tornaram um refúgio em tempos caóticos
O único "terceiro" relevante envolvido no ato político de que participou o ex-ministro da Saúde Pazuello é Bolsonaro. Não há denunciante no caso. O general produziu provas contra si mesmo ao ornamentar um comício fora de época de Bolsonaro. Algo que é expressamente proibido a militares da ativa.
Pressionado pelo presidente da República, o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, rasgou os regulamentos. E arquivou o caso. Prevaleceu o pretexto de que o ato não foi político, pois Bolsonaro não está nem filiado a partido político. Como se fosse pouco, o Exército achou que seria uma boa ideia adicionar o escárnio do sigilo ao vexame da impunidade de Pazuello.
É como se o Exército pedisse aos brasileiros para fazer como os generais do seu Alto Comando, fingindo-se de bobos para não atiçar os maus bofes de Bolsonaro, comandante supremo das Forças Armadas. Nessa linha, todas as precariedades de Pazuello estão perdoadas e suas transgressões prescritas, no entendimento tácito de que ser Pazuello já é castigo suficiente para qualquer um. Nenhum processo administrativo daria a Pazuello uma pena maior do que o convívio perpétuo consigo mesmo.
Vá lá que o Exército e as Forças Armadas queiram se desmoralizar. Mas a ideia de proteger a indignidade com um sigilo de cem anos é algo que não faz bem à democracia nem à República.
Opinião: Nina Lemos - Faz sentido terminar o namoro depois de descobrir que ele é bolsominion?


Nina Lemos
Colunista de Universa
09/06/2021 14h38
"Descobri que ele era Bolsominion e terminei na hora." A frase, que parece um meme, foi dita por Caroline Tozaki, ex- bailarina do Faustão, em entrevista ao jornal "O Dia". Ela falava sobre estar solteira nas vésperas do Dia dos Namorados e do seu término mais recente. Caroline ainda frisou que a ideologia para ela era importante, ainda mais sendo mulher e negra.
A declaração viralizou e isso porque, de fato, ela tocou em uma questão tragicômica que existe. Nas redes, muitas mulheres se identificaram e compartilharam sua foto escrevendo coisas como "essa sou eu". Por outro lado, apoiadores do presidente também compartilharam a entrevista, chamando a bailarina de feia, de comunista e dizendo que foi "um livramento" para o ex.
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Ou seja, se entre a maioria das mulheres (proporcionalmente, ele é mais aprovado entre homens, 29%, do que mulheres, 21%, segundo pesquisa do Datafolha divulgada em maio) a atitude de Carol foi compreendida e rendeu risadas de nervoso, já os apoiadores do presidente mostraram que também teriam dificuldade em ter uma relação com quem pensa completamente diferente deles.
Quando falamos de pensamentos totalmente opostos é o normal, não? Por que o fato de diferenças ideológicas radicais serem motivo para impedir um relacionamento é um tabu?
Bem, se a gente termina namoro porque o sexo não é tão bom assim, ou ainda por detalhes ridículos, tipo, "ele não dança bem" (não faça isso, você vai se arrepender!), por que não terminaria por ideologia?
E, atenção, nesse caso, não estou falando de simples opção política democrática, de votar para um candidato diferente do seu. Mas de, no momento em que quase 500 mil brasileiros morreram de covid-19, apoiar um presidente que já disse que a doença era uma gripezinha; que nele não seria nada, "porque tinha histórico de atleta"; e que já imitou mais de uma vez pessoas sem ar durante suas lives.
Isso fica ainda mais difícil de tolerar se você for mulher. E deve ser por isso que a maioria das mulheres não apoia o presidente. É difícil tolerar quem defenda as frases e atitudes de um presidente abertamente machista, que já chamou a esposa do presidente da França, Brigitte Macron, de feia, só para citar um caso. E se você for feminista? Bem, os apoiadores mais radicais do presidente vivem dizendo coisas horríveis da gente por aí. Como namorar alguém que parece não gostar da gente?
No caso de ser negra, como Caroline, é só ver o número de pessoas negras que morrem no Brasil atualmente para entender que ela não está em uma fase tolerante.
Apoiadores do presidente já destruíram placas em homenagem a Marielle Franco, que lutava principalmente contra o genocídio do povo negro nas favelas. Tem como ser calmo e tolerante?
Quando vi a declaração de Carolina, lembrei de uma amiga que, como eu, é brasileira e mora na Alemanha, e teve um encontro com um sujeito que conheceu por aplicativo. Ele parecia tudo de bom, era simpático e o beijo foi bom. Até que ele disse que apoiava a AFD (o partido de extrema direita alemão, que é, entre outras coisas, contra os imigrantes). "Então o que você está fazendo aqui comigo? Eu sou imigrante", ela disse. Foi embora e nunca mais falou com ele.
Não acho que minha amiga estivesse errada. Algumas coisas são inconciliáveis. Tem gente que é contra o presidente e consegue manter o relacionamento com um apoiador de Bolsonaro? Tenho certeza que sim. Principalmente em relacionamentos longos, dá para relevar esses momentos de diferença e, apesar de algumas brigas inevitáveis, encarar a situação com bom humor. Agora, para um começo de relacionamento, vamos admitir, é difícil mesmo. Tanto que, nos aplicativos de paquera, como o Tinder e o Grinder, muitas pessoas já avisam que são "fora Bolsonaro", ou que não querem mortadelas etc. E estão erradas?
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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Atriz morta após ser esfaqueada brilhou em filme e era promessa do pornô

Felipe Pinheiro
Do UOL, em São Paulo
09/06/2021 12h27
Luane de Souza era mais na dela, mas na frente das câmeras se transformava e até parecia ser outra pessoa. Foi como Aline Rios, nome artístico que adotou, que a atriz entrou para a indústria de filmes pornôs. Premiada e reconhecida na profissão, era vista como uma promessa para se tornar uma grande estrela do segmento. Não deu tempo. Luane morreu aos 28 anos em um crime brutal e, nesta semana, a Polícia Civil do Rio prendeu a acusada por suspeita de assassinato.
Diretor e ator, Brad Montana namorou Luane e chegou a contracenar com ela. O casal foi indicado na categoria de Melhor Cena de Fetiche do Prêmio Sexy Hot 2016, considerado o Oscar da indústria pornô no Brasil. Quando a atriz morreu, após três meses internada, no ano passado, os dois já não estavam mais juntos, mas ainda havia um forte sentimento.
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Terminei com ela amando. Porque ela tinha muita dificuldade com meu trabalho. Era ciúme, que parece se potencializar nesse meio. Se a mulher já grila com o marido que vai para barzinho depois do trabalho, imagine se o cara está em um ofício que é 'putaria'. É muito complicado.

Montana ficou com Luane no hospital durante todo o período de internação e se sente responsável por não ter conseguido fazer mais por ela: "Tinha esperança que um dias as coisas mudassem. Mas não mudaram e eu perdi um grande amor. Eu a enterrei e até hoje choro por sua alma".
Luane nasceu em Nilópolis, na Baixada Fluminense, e perdeu o pai na infância, aos 11 anos. Segundo o ex-namorado, ele também foi vítima de assassinato. O diretor queria que Luane se mudasse pois a atriz vivia na mesma casa onde o pai morreu.
Tentei tirá-la de Nilópolis. Estava tentando muito fazê-la aceitar se mudar e me comprometi a pagar um aluguel. Mas não consegui. Daí veio a pandemia. Uma ótima menina. Uma derrota minha, pessoal, essa tragédia.
Montana lembra que Luane também enfrentou outras tragédias em sua vida, como o fato de ter sido abusada mais nova. Com tudo o que passou, o diretor afirma que ela era uma pessoa resistente.
"Ela era uma pessoa forte, mas de coração mole. E também muito intempestiva. Era ingênua, deixava entrarem na mente dela. Muito boa de coração. Praticava caridade e valorizava os humildes. Gostava de presentear quem amava. Mas tinha vulnerabilidades, como ingenuidade", se recorda.
"Tinha tudo para ser uma pornstar"

O primeiro trabalho de Luane de Souza como atriz de filmes pornôs foi na produtora Brasileirinhas, uma das mais conhecidas do país. Ela mesma entrou em contato com a empresa vislumbrando uma carreira na área. Acabou sendo selecionada para participar do reality show "Casa das Brasileirinhas" e voltou para mais quatro edições.
"Ela foi eleita pelos internautas Miss Brasileirinhas 2016. Era fotogênica, muito bonita de corpo e de rosto. Era bem quieta, mas na frente das câmeras se soltava bastante. Dedicada e profissional, já chegou arrebentando na primeira vez e tinha tudo para se tornar uma pornstar", afirma Clayton Nunes, dono da produtora.
No mesmo ano em que ganhou a faixa de Miss Brasileirinhas, Luane ganhou o Prêmio Sexy Hot de melhor atriz revelação pela participação no filme "Porn Star 2". Ela também atuou em filmes do Sexy Hot como "Encontro com a musa 2" (2016), "Gringo Fura Olho" (2016) e "Sexy e Provocante 2" (2017).
Opinião: Ronilso Pacheco - Alerta para o Brasil: Estados Unidos vivem pior momento desde a segregação


Ronilso Pacheco
Colunista do UOL
04/06/2021 04h00
A vitória de Joe Biden se deve muito à comunidade negra e às muitas mobilizações feitas por organizações como a Fair Fight, da ativista Stacey Abrams, igrejas negras, movimentos como o Black Lives Matter, além de muitos atletas, como o astro Lebron James e celebridades negras que impulsionaram os afro-americanos a votarem no candidato democrata à presidência. Tudo isso reverberou na derrota de Donald Trump e do partido Republicano.
Agora, mostrando como a questão racial é crucial na história americana (assim como no Brasil), os parlamentares e governadores trumpistas assumiram de vez o contra-ataque à discussão sobre o racismo, sobre a escravidão e suas implicações para a formação da sociedade norte-americana. Os Republicanos abriram uma perseguição contra a chamada Teoria Crítica Racial e seu ensino nas escolas do país.
Neste momento, os republicanos estão com uma verdadeira campanha com o objetivo de impor como o racismo histórico é ensinado, intimidando professores e diretores de escolas e enfrentando resistência de democratas e educadores em um confronto político que, no limite, visa formar uma nova geração de crianças e adolescentes que ignorem ou relativizem o passado e o legado escravocrata dos americanos.
Causa estranheza como a imprensa brasileira, que abasteceu o Brasil com coberturas sobre a repercussão do assassinato de Floyd e os protestos pelos Estados Unidos, agora simplesmente ignora este que é o momento mais delicado na história da democracia americana desde o período da segregação. Além disso, há razões para crer que a investida Republicana lá inspire propostas e ataques dos conservadores tupiniquins por aqui.
Teoria crítica da raça
A teoria crítica da raça é um conceito acadêmico com mais de 40 anos. A ideia central é que o racismo é uma construção social e que não é apenas o produto de preconceitos individuais, mas também algo embutido em sistemas jurídicos e políticas. Ela surge entre acadêmicos negros, inicialmente no campo do Direito, e foi fundamental para ajudar a entender muitas das desigualdades intrínsecas da sociedade americana.
Mas, agora, a TCR se tornou o alvo preferencial dos republicanos, numa cruzada que eles afirmam ser para manter o país "unido" e fiel aos "pais fundadores". A investida teve até coletiva de imprensa, com deputados de diferentes estados, em frente ao Capitólio, acusando a TCR de "trazer divisão" e "ódio avançado".
"Hoje, escrevi uma carta ao Conselho Estadual de Educação opondo-me à teoria crítica da raça em nossas escolas. Essa agenda antiamericana não tem lugar nas salas de aula da Geórgia", é o que disse o governador da Geórgia, Brian P. Kemp.
Um projeto de lei foi apresentado para proibir o TCR nas salas de aula no estado de Ohio, enquanto o governador da Iowa recentemente pediu uma ação contra o ensino da TCR.
O Senado do Texas encaminhou um projeto de lei ao governador Greg Abbot que diz que os professores "devem explorar vários pontos de vista sem dar deferência a qualquer um dos lados". Isto é, será preciso ensinar que há o lado do escravocrata, e que supremacistas brancos teriam "suas razões".
Em vários estados, os pais brancos têm pressionado as escolas públicas e conselhos de educação para banir o ensino da TCR. Nas escolas privadas, e caras, vários pais estão ameaçando não manterem seus filhos, retirando seu dinheiro de lá, pressionando escolas para demitirem professores que insistem na abordagem da teoria crítica. Os pais acusam as escolas de ensinarem as crianças a "odiarem elas mesmas" por serem brancas.
A situação é tão grave que durante a sabatina no Senado da engenheira Jill Hruby, indicada do presidente Joe Biden para assumir a direção da Secretaria de Segurança Nuclear Nacional, o senador Tom Cotton, do estado de Arkansas, gastou boa parte do seu tempo fazendo perguntas que pediam a Hruby para explicar se ela usou o método da TCR no passado para treinar funcionários sobre "privilégio branco" ou "racismo sistêmico".
Diferente do período da segregação, quando pessoas racistas se assumiam como superiores às pessoas negras e verdadeiras cidadãs portadores de direito, o ataque à TCR é feito por pessoas brancas que se sentem "privadas de sua liberdade" e injustamente "responsabilizadas" pelo racismo nos Estados Unidos. Essa vitimização, em contraste com o ar de superioridade do passado, diz muito sobre a pressão contra o histórico privilégio por ser branco num país formado e mantido por uma população diversa, cuja história nacional passou do genocídio indígena à escravidão negra e aos explorados latinos e imigrantes pobres.
A derrota de Trump fez os republicanos radicalizarem para manter o poder. De um lado, governadores e legisladores republicanos lutam para mudar sistema de votação, dificultando o acesso da comunidade negra e imigrantes. Não deixarão fácil se repetir o que aconteceu na Geórgia, que não apenas derrotou Trump como elegeu seu primeiro senador negro, Raphael Warnock.
Do outro, o ataque à TCR é também um apelo à população branca e conservadora, para que reaja à "ameaça" à sua condição de "verdadeiros americanos". É nitidamente um pacto da branquitude da supremacia branca. Se já não podem caçar negros nas ruas, vão caçar sua versão dos Estados Unidos e impedir que ela se sobressaia.
"Guerra cultural"
Esta "guerra cultural" está acontecendo sem grande repercussão estrangeira. Mas é fundamental que o Brasil esteja atento a esses movimentos. Se por um lado não há (ainda) uma relação direta, é inegável a inspiração que os projetos de lei dos republicanos e sua ingerência na educação causam nos defensores das pouco explicadas "escolas cívico-militares".
Enquanto o equivocado projeto de "escola sem partido" não conseguiu avançar, esbarrando no confronto com professores e educadores, as escolas cívico-militares vão ganhando cada vez mais espaço e reafirmando o apagamento da visão crítica sobre o racismo no Brasil.
Além disso, o presidente daquela que deveria ser a principal instituição pública brasileira na defesa e preservação da memória negra, a Fundação Palmares, embora sendo um homem negro, é entusiasta da negação do movimento negro, do apagamento da luta do povo negro e da nociva influência do legado colonial-escravocrata no país. Essa luta nos Estados Unidos vai longe e não pode ser invisibilizada, porque também diz muito sobre nós.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
Análise: Ronilso Pacheco - Interpretação 'militarizada' da Bíblia guia apoio de evangélicos a Israel


Ronilso Pacheco
Colunista do UOL
20/05/2021 04h00
Neste momento, o conflito entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza entra em sua segunda semana, com uma incalculável desvantagem para os palestinos, diante da imensa superioridade bélica dos israelenses.
Até agora, o conflito produziu a perda de dez vidas israelenses contra 212 palestinas. Apesar dos números expressarem um claro desequilíbrio de forças, o campo evangélico conservador e fundamentalista no Brasil, assim como o norte-americano, tem demonstrado cada vez mais apoio incondicional a Israel.
Precisamos discutir como (e por que) muitas dessas lideranças constroem esse apoio incondicional, e fazem crer que criticar as escolhas políticas e militares da extrema-direita israelense, sob a liderança de Benjamin Netanyahu, seria ir contra a própria vontade de Deus.
Apresento a seguir quatro principais razões.
A garantia de uma bênção a quem se posicionar a favor de Israel: o primeiro livro da Bíblia, Gênesis, menciona que Deus ofereceria uma bênção às nações que apoiassem a descendência de Abraão. "Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; e todos os povos da terra serão abençoados por meio de você."
A interpretação literal desse texto faz com que muitas lideranças evangélicas ainda usem o argumento para que Israel não seja questionado sobre suas atitudes.
O povo escolhido de Deus: outro aspecto dessa leitura literal da Bíblia inclui a crença de que os judeus são descendentes de Abraão e, portanto, o povo escolhido de Deus. A posição daria a Israel condição de agir sem ser questionado, já que o único a ser "autorizado" a repreendê-lo seria o próprio Deus.
Escatologia: expressão comum neste segmento religioso, ela significa basicamente que "as coisas do fim" estão para acontecer, e os evangélicos incluem aqui certa interpretação do livro do Apocalipse, o último da Bíblia. Nele, Israel tem papel fundamental no julgamento das nações e dos povos que teriam negado a Cristo, incluindo a própria nação israelense.
Valores culturais e religiosos compartilhados: pode-se argumentar que o apoio evangélico a Israel está enraizado na crença em uma cultura ocidental compartilhada, incluindo religião, ética, tradições, costumes e etiqueta. A partir dessa perspectiva, o apoio a Israel reflete um senso de parentesco cultural e sentimentos de valores culturais e éticos compartilhados entre judeus e cristãos no mundo.
Há contudo outros três fatores importantes para o apoio incondicional de evangélicos a Israel. Eles são pouco enfatizados em estudos mais gerais, mas marcam forte presença na realidade brasileira.
1 - O primeiro fator são os hinos evangélicos, cantados principalmente, mas não apenas, nas igrejas pentecostais e neopentecostais. Poucos pesquisadores levam em conta como os hinos forjam a mentalidade evangélica, sobretudo a partir da década de 1990. Em muitos dos hinos, Israel e Judá tem um lugar privilegiado de importância e poder.
"Homem de guerra é Jeová, seu nome é temido na terra, a todos os seus inimigos venceu", diz um dos hinos.
"O nosso general é Cristo, nenhum inimigo nos resistirá, ó esperança de Israel", diz outro.
"Vem com Josué lutar em Jericó [cidade bíblica]." "Chora, Israel, clama ao teu Deus e Ele te ouvirá/ Do inimigo te libertará." "Impérios reconhecem que sua destra reinará, Leão de Judá."
2 - O mito das vitórias de Israel em guerras anteriores. É comum pastores enfatizarem como Israel vence "todas as guerras" contra seus "inimigos". Outra construção de um Israel inventado.
De fato, Israel tem vitórias significativas, como a árabe-israelense (1948-49) e a Guerra dos Seis Dias (1967). Mas em guerras como a do Canal de Suez, de 1956, Israel teve apoio da França e da Inglaterra.
Além disso, as guerras entre 1993 e 2014 foram conflitos não necessariamente contra nações organizadas, mas contra movimentos como o Fatah, o Hamas e o Hezbolah. A superioridade bélica de um país é inquestionável contra organizações, facções ou milícias armadas. Mas essas vitórias foram suficientes para criar o mito de que "Deus protege Israel".
Pastores fundamentalistas costumam recorrer a esses "fatos" para darem provas de que se Israel não fosse um povo escolhido já teria sido eliminado.
3 - Por último, um ponto destacado pelo sociólogo e pastor Clemir Fernandes, em entrevista à revista Carta Capital em 2019: a ênfase na afirmação da hierarquia e da autoridade.
Em sua perspectiva, essas lideranças políticas e religiosas não se apropriaram à toa da ideia de apoiar Israel. Há todo um conjunto de interpretações do Antigo Testamento que favorece o modelo de governança política e de gestão religiosa centrado na liderança autoritária, hierarquizada e sem abertura para discussão.
Isso interessa aos líderes religiosos e aos governantes que se aliam a esse tipo de estratégia porque não se critica o pastor, não se critica o bispo ou o presidente.
Essa idealização militar e autoritarismo servem muito bem ao bolsonarismo e a seus pastores, apoiadores incondicionais de Israel.
Defender Israel tem menos a ver, portanto, com o apoio à história do povo judeu, sua perseguição ou mesmo com as dores do holocausto, e mais com a identificação com este ar de superioridade, força, autoridade e mística em torno de Israel.
Aliás, basta dizer que muitos judeus em Israel sequer entendem a euforia de evangélicos brasileiros com o país e o uso, quase indiscriminado e sem sentido, de sua bandeira.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
Análise: Ronilso Pacheco - Justiça por Floyd quebra (por um momento) impunidade da supremacia branca


Ronilso Pacheco
Colunista do UOL
20/04/2021 19h43
As vítimas negras da brutalidade policial nos Estados Unidos saíram nesta terça-feira (20), ao menos por um momento, da noite mais escura. E este momento se tornou histórico.
A condenação do ex-policial Derek Chauvin pelo assassinato de George Floyd não tem precedente, e dificilmente alguém de fora da cultura norte-americana pode dimensionar com precisão o que isto significa.
Em muitos casos, uma câmera foi protagonista. E foi devastador ver que isso não foi suficiente.
Foi devastador para a comunidade afro-americana ver em 1991 o espancamento de Rodney King, o linchamento em 1955 de Emmet Till, de 14 anos, e ainda os enforcamentos de tantos negros no sul dos Estados Unidos na era da segregação.
Foi doloroso ver um júri branco dar a absolvição para todos os policiais brancos que por pouco não levaram King à morte, deixando sequelas e marcas que ele nunca perdeu.
A polícia e a supremacia branca, nos EUA, veem a si mesmas como instituições intocáveis.
Quando o vigilante George Zimmerman foi absolvido em 2013, esse fantasma voltou, mortal, violento, imponente e impune. O adolescente Trayvon Martin, de 17 anos, desarmado e indefeso, foi impedido de ter justiça.
Barack Obama esperava poder fazer o que Joe Biden pôde fazer hoje: parabenizar a família de Trayvon. Mas tudo o que conseguiu foi lamentar e dizer que Trayvon poderia ter sido seu filho.
Em 2014, Eric Garner e Michael Brown, em um curto espaço de tempo, conheceram a morte pelas mãos de policiais brancos. Seus pais, irmãos, amigos, toda a comunidade negra, também nunca viram justiça.
A polícia nos Estados Unidos é um cavaleiro do apocalipse que consegue ceifar vidas negras, atualizando métodos desenvolvidos na era da escravidão, sem pesar nem culpa.
Dificilmente um negro adulto, uma mulher negra adulta nos Estados Unidos confia um pouco que seja no que as mudanças nas políticas de policiamento podem trazer de forma benéfica para a comunidade negra. Quando não havia lei, havia a mentalidade. As leis foram mudando por décadas, mas a mentalidade racista, violenta e indiferente continua viva.
A condenação de Derek Chauvin fez hoje, por um único dia, as vítimas de décadas saírem da noite mais escura. O que os negros americanos chamam de trauma, a dor que nunca cessa, a ferida evocada por supremacistas brancos insatisfeitos com negros e latinos conquistando direitos e falando alto no país que eles continuam achando que pertence a eles, supremacistas.
A frieza de Chauvin foi determinante. Chauvin não foi condenado por ter assassinado George Floyd, Chauvin foi condenado pela sua frieza. Ela colocou os próprios americanos, brancos, conservadores, o júri, contra a sua própria alma racista. Aquela mão no bolso, aquela segurança, aquele olhar confiante e de desprezo feriu os próprios americanos.
De alguma forma, a condenação de Chauvin tem um efeito global. Não por uma condição de referência mundial dos Estados Unidos, mas porque as dores da população negra no mundo se conectam, se assemelham.
Hoje, ainda que seja apenas por hoje, todos que perderam o ar com o assassinato de Floyd, puderam respirar o ar que faltava.
Tradutor: Justiça por Floyd quebra impunidade da polícia e da supremacia branca
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
Opinião: Balaio do Kotscho - Brasil descendo a ladeira sem freios cai para 13º lugar, atrás da Austrália


Ricardo Kotscho
Colunista do UOL
09/06/2021 16h02
O noticiário sobre o Brasil nesta quarta-feira - um dia como todos os outros, na metade do terceiro ano da Era Bolsonaro - me dá um desânimo danado, um misto de revolta e vergonha pelo que está acontecendo.
Logo cedo, um amigo me manda WhatsApp informando que o Brasil caiu mais uma posição no ranking das maiores economias do mundo.
Segundo a consultoria Austin Rating, ocupamos agora a 13ª posição, com viés de baixa, atrás até da Austrália.
E pensar que há uma década o Brasil era a 6ª economia mundial, atrás apenas de Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e Reino Unido, galgando posições a cada ano.
Como foi possível destruir um grande país em tão curto espaço de tempo para a vida de uma nação?
Podemos encontrar uma das razões na manchete da Folha: "Fuga de cérebros para o exterior salta 40% sob Bolsonaro".
Os melhores cientistas, médicos, engenheiros, economistas, a elite pensante do país, eles estão indo embora em busca de um futuro melhor.
O jornal lembra que, de 2008 a 2012, o Brasil chegou a atrair muitos executivos estrangeiros. "Mas o movimento se inverteu".
Inverteram-se também todos os índices sociais e econômicos que medem a grandeza ou a decadência de uma nação.
Para onde se olha, é só terra arrasada, da educação à saúde, da cultura ao meio ambiente, das relações internacionais à ciência, como se o Brasil estivesse em guerra com outro país.
No nosso caso, o exército de ocupação é daqui mesmo, não deixando pedra sobre pedra das instituições nacionais.
Nas últimas 24 horas, morreram mais 2.693 brasileiros e 52,7 mil foram contaminados nesta pandemia sem fim que nos assola e não deixa esperanças de um futuro melhor, mas isso já nem é notícia.
Para quem acompanhou o depoimento do coronel Élcio Franco Filho, um festival de mentiras e cinismo do nº 2 do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, fica fácil entender por que somos um dos países com maior número de casos e de óbitos no mundo, a caminho dos 500 mil mortos.
O descompromisso de Franco com os fatos e suas ações e omissões enquanto esteve no ministério causam indignação e nojo.
O coronel foi capaz de dizer aos senadores que a monumental compra de cloroquina pelo governo em 2020, que mobilizou o Exército e o Ministério de Relações Exteriores, foi para o programa de combate à malária, como se esse fosse o maior problema de saúde do país, e não a covid-19.
Em seguida, depois de negar que o governo tivesse receitado o "kit covid", recomendado pelo "gabinete das sombras" montado por Bolsonaro e Osmar Terra, com um bando de curandeiros para o enfrentamento da pandemia, ele teve a cara de pau de dizer que também pegou covid, mas se curou tomando cloroquina e outras mandingas.
Faz mal à saúde acompanhar essa CPI, o que faço apenas por dever de ofício, tamanha a quantidade de sandices e barbaridades ditas pelos depoentes e pela bancada governista, que estão lá só para obstruir os trabalhos e melar a comissão. É um verdadeiro escárnio.
Foi por isso que decretaram sigilo de 100 anos naquele processo administrativo do general Pazuello em que ele foi absolvido pelo Alto Comando do Exército, após cometer uma grave infração disciplinar?
Só a presença de um general e um coronel no comando do combate à pandemia, que levaram para lá outros 17 militares ocupando postos-chaves, todos eles sem nenhuma experiência anterior na área da saúde, já basta para mostrar a seriedade com que o governo tratou a maior crise sanitária já vivida no país, alvo da investigação da CPI.
Na economia, sob os cuidados do mago Paulo Guedes, a taxa de inflação acumulada pelo IPCA em 12 meses subiu a 8,06% em maio, o pior resultado desde 1996. De desemprego, é melhor nem falar.
Se você conseguir chegar até a editoria de esportes, passará vergonha com o "manifesto" dos jogadores da seleção brasileira, que pariram um rato covarde ao criticar a realização da Copa América no Brasil, omitindo o nome dos responsáveis por essa insanidade. Eles só queriam se livrar do Rogério Caboclo e tirar férias...
Tudo isso sem falar nas sessões diárias de deboche e desinformação no cercadinho do Alvorada, que já nem acompanho mais.
Prefiro ler livros de não-ficção.
Se alguém encontrar alguma coisa boa no noticiário, que não seja mentira, favor mandar para a redação.
Vida que segue.
Análise: Thaís Oyama - Exército tenta tapar sol com a peneira, mas caso Luan pode ser incendiário


Thaís Oyama
Colunista do UOL
09/06/2021 11h41
Atualizada em 09/06/2021 14h19
No que depender do Exército, nenhum ser vivente deverá saber por que motivo seu comandante, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, decidiu não punir o general Eduardo Pazuello por transgressão disciplinar.
No máximo, terão acesso à informação aqueles que hoje engatinham ou começam a comer com talheres, mas esses não estarão nem aí para o caso do general daqui a cem anos, prazo em que a Força quer manter trancado a sete chaves o processo administrativo de que o protegido de Jair Bolsonaro saiu ileso.
Jair Bolsonaro tem de ser responsabilizado por suas mentiras
O argumento de que a divulgação do processo feriria a intimidade do militar e por isso deverá ficar em sigilo por até um século foi a resposta do comando do Exército ao pedido de acesso aos documentos feito pelo jornal O Globo com base na Lei de Acesso à Informação.
A decisão do sigilo centenário, da qual cabe recurso, é uma tentativa do Exército de impedir que a impunidade do general amigo do presidente abra uma caixa de Pandora a espalhar ventos malignos em suas fileiras.
O esforço tem poucas chances de prosperar.
O terceiro sargento do Exército Luan Freitas Rocha, como revelou o Estadão, participou no mês passado de uma live do deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), aliado fiel de Bolsonaro.
Na transmissão, o militar, dizendo falar em nome das turmas de sargentos de 2013 e 2014, reclamou de mudanças na política de promoções da categoria e pediu a interferência do deputado, que respondeu prometendo falar com o presidente Bolsonaro. "Tudo o que trata do pessoal das Forças Armadas vem do presidente da República", disse Vitor Hugo. "Posso fazer essa demanda formalmente para ele", afirmou.
O Estatuto dos Militares veda a militares da ativa, caso do sargento Luan Freitas Rocha, quaisquer "manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político." A Companhia de Comando da 15º Brigada de Infantaria Mecanizada, a que pertence o sargento, confirmou que ele responde a sindicância para apurar se houve transgressão disciplinar no episódio da live com Vitor Hugo.
No caso de Pazuello, um general três estrelas, a decisão sobre a (não) punição foi do comandante do Exército.
No caso do peixe pequeno Luan Freitas Rocha, ela caberá ao comandante da sua Companhia.
O caso está fermentando há dias tanto no alto quanto no baixo oficialato do Exército.
Se o sargento sair ileso, oficiais já revoltados com a impunidade de Pazuello dirão que o Exército virou mesmo a casa da mãe Joana.
Se for punido, a Companhia com sede em Cascavel poderá se tornar o foco de sargentos e praças revoltados com a ideia de que as regras militares só se aplicam ao baixo clero, enquanto deixam impunes o generalato.
Uma saída para a Força, talvez, seja decretar sigilo para toda eternidade também sobre o caso do sargento Luan, hipótese em que, para não abrir a caixa de Pandora, o Exército estará escolhendo se fechar ele mesmo numa tumba.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
Opinião: Opiniões Universa - Kathlen Romeu: racismo tem cor e endereço no Brasil


Lilia Moritz Schwarcz
Especial para Universa
09/06/2021 12h50
O Brasil foi "inventado" pelos colonizadores europeus a partir de uma tecnologia da violência. Junto com o projeto colonial criou-se a escravidão mercantil, que pressupunha a posse de uma pessoa por outra. Por isso, só foi possível sustentar um sistema tão perverso, na base da violência diária e naturalizada contra as populações indígenas e negras.
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Recebemos quase a metade dos africanos e africanas que tiveram que deixar, compulsoriamente, seu continente de origem, e distribuímos essa população, de cinco milhões de pessoas, por todo o território, dos séculos 16 ao 19. Fomos o último país do Ocidente a abolir a escravidão e só o fizemos depois dos Estados Unidos, Cuba e Porto Rico, com uma lei conservadora que não previu inclusão social.
Quando o sistema escravocrata já estava no final, foram também as populações dirigentes brancas que introduziram as teorias do darwinismo racial, as quais estabeleciam que a diferença entre as raças seria biológica e não histórica. Criamos, ainda, teorias do branqueamento que pressupunham que em três gerações os brasileiros seriam brancos; gregos até.
Produzimos, então, um racismo marcado pela cor e pela origem, que segmenta a população na base do estereótipo físico, associado a um passado africano. Racismo tem cor e endereço no Brasil.
Nos anos 1930 criamos uma imagem externa do país que em nada correspondia à realidade: a ideia de que vivemos numa democracia racial, que distribui igualdade de oportunidades a todos.
Essa é uma balela nacional desmentida pelas pesquisas oficiais que mostram como as pessoas negras morrem mais e mais cedo, ganham menos para desempenharem as mesmas funções, tem menor acesso à educação, à saúde, à moradia e aos transportes. Não somos apenas vítimas do legado pesado do passado; agimos cotidianamente para reforçar uma forma de racismo que estrutura a nossa sociedade.
Todas essas teorias, amparadas por um esquema repressivo muito bem montado, fizeram com que, por aqui, os grupos dirigentes silenciassem e tornassem invisíveis diferenças e processos de subordinação.
Fizeram ainda com que as elites dirigentes se dessem ao luxo de 'ver', mas fizessem questão de não 'enxergar' as atrocidades cometidas pela polícia, que tem nas populações negras seu principal alvo.
Os jornais do século 19 publicavam, todos os dias, anúncios de fuga, venda, leilão, e seguro de escravizados, sem que ninguém se incomodasse com essa tentativa de desumanizar os corpos negros. Já hoje em dia andamos anestesiados diante da dor dos "outros"; que têm origem afro-brasileira e que moram nas periferias das cidades. Eles viraram estatística negativa.
Kathlen Romeu, que tinha 24 anos e trabalhava como designer de interiores, morreu na comunidade do Lins, na tarde desta terça-feira (8). Ela foi vítima de bala perdida numa ação da Polícia Militar na comunidade do Lins, na zona norte do Rio. Segundo moradores, ela foi assassinada durante o confronto com policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) Lins.
Mais um assassinato sob o guarda-chuva da segurança e da proteção públicas. Segurança e proteção para quem? Não para Kathlen e outras milhares de pessoas covardemente assassinadas por forças que deveriam cuidar da população.
Já a Polícia Militar, em nota pública, informou que "os agentes foram atacados a tiros por criminosos na localidade conhecida como "Beco da 14", dando início a um confronto". Agentes alegaram também que apreenderam um carregador de fuzil, munições de calibre 9mm e drogas. Essa é uma nova, velha história.
Desde que o Brazil (com z) é Brasil (com s) assistimos impávidos a essa matança de pessoas negras, que tem número de guerras civis como os da Síria e do Afeganistão. Por sinal, abrigamos a polícia que mais mata e mais morre; o que nada resolve se continuarmos a permitir esse genocídio com local prévio.
Pretos e pardos — segundo dados e termos do IBGE — correspondem a 54.2% da nossa população de 212 milhões de pessoas. Não são, pois, minoria em nosso país. Mas são "maiorias minorizadas" nos direitos, na representação, no acesso à infraestrutura e à segurança.
No século 19, se matava e prendia por 'suspeita de escravo'; hoje o termo genérico é 'bala perdida'.
Kathlen estava grávida de quatro meses. No seu perfil do Facebook, postou, horas antes de ser baleada: "Bom dia Neném". Nas mídias, a futura mãe não disfarçava a sua alegria diante do futuro que a aguardava. Dizia estar "totalmente grávida", com fome e desejos. Desejos de vida.
Dizem que pessoas negras morrem duas vezes: fisicamente e na memória. Kathlen Romeu tinha nome caprichado e uma vida toda pela frente, junto com seu bebê e o namorado. Seu caso não é uma exceção diante desse que é um projeto de Estado; só se for a 'exceção que confirma a regra'.
Quando escravizados entravam no país tinham logo seu nome apagado e ganhavam outro, escolhido pelo senhor. Nas fotos do Oitocentos, amas de leite apareciam ao lado de seus pequenos senhores. Eles tinham nome, elas não.
Não podemos deixar que o nome de Kathlen Romeu caia no esquecimento e na vala comum das estatísticas. É preciso falar e lembrar de Kathlen, pois no Brasil a memória é uma forma de insubordinação e de resistência.
*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora, professora da USP (Universidade de São Paulo) e de Princeton e curadora-adjunta para histórias e narrativas do Masp (Museu de Arte de São Paulo); é autora, com Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano, do recém-lançado "Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras" (ed. Companhia das Letras)
CAOScast: Como a pandemia impactou a vida dos solteiros

Do TAB
10/06/2021 04h00
É claro que a pandemia não está sendo fácil para ninguém. Mas, além do luto, da preocupação constante e do cansaço geral, os solteiros estão lidando ainda com a solidão. Especialistas em comportamento e relações humanas, os caóticos trazem nesta semana ao TAB um episódio sobre as difíceis escolhas de quem não tem um chamego para chamar de seu nesses últimos tempos. Clique no vídeo acima para conferir.
Se antes mesmo de março de 2020 as relações já estavam mudando — o que a trupe do CAOScast chama de relações beta —, a pandemia veio para bagunçar ainda mais a área afetiva. "Uma relação beta é aquela em que a gente quer jogar o jogo, mas não está bem satisfeito com as regras tradicionais — e a gente acaba criando assim as nossas próprias regras para estar nesse game, para poder se relacionar dentro de outros parâmetros que não os antigos. No campo das relações amorosas, uma relação beta é um contratinho. Eu gosto de chamar de relações em construção — que não têm um início muito marcado como a gente tem quando fala de pedir em namoro oficialmente, por exemplo. É a relação que vai se desenrolando", explica a pesquisadora Rebeca de Moraes (ouça a partir de 8:01).
Mesmo esses relacionamentos indefinidos exigiram uma conversa franca sobre cuidados com a saúde. Sem a possibilidade de encontrar alguém espontaneamente — ou mesmo de manter diversos contatinhos ao mesmo tempo —, diversos casais definiram exclusividade sem namoro, para suprir a necessidade de afeto e contato físico diminuindo os riscos de contaminação por coronavírus: são os contratinhos pandêmicos.
"São acordos e combinados estabelecidos entre os parceiros, que precisaram ser feitos justamente por conta da pandemia. Se a gente vinha dessa leva de uma relação onde a gente tinha que ficar interpretando o que o outro fazia para saber se o negócio rola ou não rola, se outro te quer ou não quer mais, agora não dá mais para ser assim. A gente está num mundo pandêmico, o que não falta é protocolo para fazer tudo, não tem mais espontaneidade para nada. Então as regras que funcionam antes não estão mais simples", diz no episódio a líder de pesquisa da Consumoteca, Marina Roale (a partir de 9:43).
Até mesmo Tiago Faria, o solteiro entre os caóticos, confessa: "Eu estou me prevenindo e me arriscando o menos possível. Acho que na coisa do 'vale a pena?'. Não vou ser hipócrita e dizer que nesse período eu não encontrei ninguém, mas selecionados, muito mais do que seria em outros tempos" (a partir de 16:14).
E não foi só a vida afetiva dos solteiros que mudou nesses tempos. Muitos casais que tinham começado a ficar casualmente no começo de 2020 aceleraram a oficialização do relacionamento, outras relações mais estabelecidas viraram casamento ou pelo menos mudança para morar junto, e assim por diante.
Para a trupe, o legado da pandemia nas nossas relações amorosas pode ser o de nos tornar mais seletivos (depois do primeiro Carnaval pós-pandemia, claro!). "Parece que esse pode ser um dos legados, pelo menos a curto e médio prazo, que essa pandemia já vem trazendo para a gente: esse olhar mais pragmático sobre as relações. Já que eu não posso ter aquela liberdade e a casualidade que eu tinha de uma vida de experimentações que o solteiro tem, de repente valha mais a pena estar junto. Não porque agora eu sou super romântico, mas porque a conta fecha de uma maneira mais interessante", diz Roale.
Quer se sentir menos sozinho(a) nessa solteirice pandêmica? Ou quer entender por que o seu relacionamento está mudando de formas inesperadas durante esse período? Ouça o episódio completo de CAOScast acima!
A misteriosa morte de líderes opositores em Mianmar após golpe militar
Jonathan Head - Repórter da BBC News no Sudeste da Ásia
10/06/2021 08h06
A violência usada pelas forças armadas de Mianmar, no sudeste asiático, contra oponentes desarmados desde o golpe de fevereiro chocou o mundo; mais de 800 pessoas foram mortas, a maioria por tiros de militares. Mas as mortes sob custódia de dois oficiais da Liga Nacional da Democracia (LND) — o partido liderado por Aung San Suu Kyi — aumentaram o escrutínio sobre as ações militares.
No sábado, 6 de março, a tensão rondava todas as cidades do país.
Fernández: 'Brasileiros vieram da selva' e argentinos de barcos da Europa
Três dias antes, elas haviam enfrentado o dia mais violento desde o golpe de fevereiro — com a ONU registrando a morte de 38 pessoas.
O Exército tomou o poder em 1º de fevereiro, após alegar, sem provas, que a eleição anterior que sagrou a vitória da LND havia sido fraudulenta.
Suu Kyi e altos líderes foram colocados em prisão domiciliar, desencadeando ondas de protesto contra os militares.
Nas primeiras três semanas, os militares pareciam inseguros sobre como responder aos protestos.
Mas, no final de fevereiro, eles estavam usando níveis crescentes de força letal. Na primeira semana de março, estava claro que não haveria restrições aos seus atos.
O bairro do centro histórico de Pabedan, no centro de Yangon, com seus becos estreitos entre prédios coloniais em ruínas, já tinha presenciado muitos confrontos.
Naquela semana, ativistas construíram barricadas em algumas ruas para impedir a entrada das forças de segurança e houve vários embates.
Pabedan tem uma população diversificada, com um grande número de residentes muçulmanos e oito mesquitas.
Na eleição geral do ano passado, Sithu Maung, um dos dois únicos candidatos muçulmanos apresentados pela LND, ganhou a vaga no Parlamento representando a cidade.
Seu gerente de campanha era Khin Maung Latt, um veterano ativista da LND que havia se mudado para Pabedan muitos anos antes e vivia com a família de um advogado budista.
Ele era coproprietário de uma empresa de turismo, tinha administrado uma locadora de vídeo e era membro ativo da LDN desde 1988, tornando-se presidente de sua filial local. Ele era conhecido e querido da comunidade.
"Era muito religioso e orava cinco vezes por dia", diz Sithu Muang à BBC, de um esconderijo onde agora está se escondendo dos militares.
"Mas pessoas de todas as religiões o amavam. Ele fez muito pela comunidade, como criar novos espaços verdes para as crianças brincarem. Ele era muito importante para a LND."
Causa de morte desconhecida
Khin Maung Latt estava em casa com sua família adotiva quando a polícia e os soldados chegaram pouco depois das nove horas da noite.
Os soldados foram identificados pelos vizinhos como membros da 77ª Divisão de Infantaria Ligeira, uma unidade conhecida por abusos de direitos humanos.
De acordo com Ko Tun Kyi, amigo de Khin Maung Latt, os soldados estavam na verdade procurando U Maung Maung, um advogado mais graduado na LND e que já havia se escondido.
Em vez disso, eles invadiram a casa de Khin Maung Latt, conta Ko Tun Kyi, e o arrastaram para fora, chutando e batendo nele.
Ko Tun Kyi acredita que Khin Maung Latt foi levado para a prefeitura de Yangon, um dos primeiros prédios de que os militares tomaram o controle após o golpe.
Na manhã seguinte, a família de Khin Maung Latt recebeu um telefonema da polícia dizendo-lhes que viessem buscar seu corpo em um hospital militar no norte de Yangon.
Disseram-lhes que ele havia desmaiado e que deveriam informar às pessoas que ele havia sofrido um ataque cardíaco.
Mas a família insiste que o homem de 58 anos estava bem de saúde e não tinha doenças conhecidas. Dizem que seu corpo apresentava sinais de vários ferimentos e estava coberto por um pano encharcado de sangue.
O corpo foi aberto e costurado no que pode ter sido uma autópsia, mas a família não recebeu nenhum relatório oficial sobre a causa da morte. Ele foi enterrado mais tarde naquele dia em uma cerimônia muçulmana.
A organização americana de direitos humanos Physicians for Human Rights (PHR) examinou as evidências, incluindo fotos do corpo de Khin Maung Latt.
Embora não seja capaz de fazer qualquer avaliação definitiva, a entidade concluiu que a causa da morte dada pelas autoridades militares é implausível: segundo a ONG, Khin Maung Latt foi provavelmente vítima de "homicídio" enquanto estava sob custódia.
Ko Tun Kyi diz acreditar que Khin Maung Latt foi morto de forma proposital. Ele foi detido menos de dez horas antes de sua família ser informada de sua morte; sua morte não teria sido, portanto, o resultado de tortura prolongada.
"Certa vez, fui preso e interrogado, então sei como eles arrancam informações de você. Talvez eles acreditassem que ele era conectado ao Comitê Representante do Pyidaungsu Hluttaw (CRPH), o governo rival apoiado pela oposição", disse ele.
"Talvez eles estivessem tentando obter informações sobre o que a LND está planejando ou onde os ativistas estavam se escondendo?"
Segundo ele, foi a proeminência de Khin Maung Latt na LND local que o tornou um alvo de retaliação militar, embora ele não fosse uma ameaça óbvia para a junta militar.
'Vísceras para fora'
Mas a teoria de que os militares estavam visando o partido de Aung San Suu Kyi ganhou mais peso dois dias depois, com a morte de outro oficial da LND, Zaw Myat Lynn.
Ele era muito mais proeminente no movimento de oposição do que Khin Maung Latt — e seu tratamento parece ter sido muito mais brutal.
Zaw Myat Lynn tinha 46 anos e era diretor de uma nova faculdade no distrito industrial de Shwe Pyi Thar — uma das várias abertas sob o governo da LND.
Ele também foi um ativista dedicado da LND e, logo após o golpe, foi escolhido para ser o representante local do CRPH.
Dias antes de ser capturado, ele postou mensagens emocionantes em sua página do Facebook, pedindo aos moradores que continuassem sua luta revolucionária contra os militares, a quem chamou de "cachorros" e "terroristas".
"Zaw Myat Lynn era uma potência política", diz à BBC um oficial da LND do mesmo município, que agora está escondido e não pode ser identificado.
"Ele era um orador excelente. Ele foi a única pessoa de nosso município que conseguiu unir as pessoas e liderar as manifestações pós-golpe. Foi ele quem convenceu funcionários de vários escritórios do governo a se juntarem ao movimento de desobediência civil."
O funcionário se lembra de ter se juntado a ele e seus alunos em um protesto em 8 de março.
"Ele não parecia nem um pouco preocupado", diz ele. "Ele até se ofereceu para que eu ficasse com ele em sua escola, alegando que era muito perigoso para mim estar fora das ruas."
Naquela noite, Zaw Myat Lynn voltou para a faculdade com alguns de seus alunos. Pouco antes das duas horas da manhã, os soldados arrombaram o portão do colégio.
Os alunos disseram ao professor para escapar escalando a parede do fundo. Sete deles foram presos; na época, ninguém sabia ao certo o que havia acontecido com Zaw Myat Lynn.
Às três horas da tarde, sua esposa, Daw Phyu Phyu Win, recebeu um telefonema de um oficial local em Shwe Pyi Thar dizendo que seu marido estava morto e que ela poderia ir ver o corpo dele — que estava no mesmo hospital militar para onde foi levada a família de Khin Maung Latt.
Eles encontraram com marcas de agressões graves. Sua barriga foi aberta por uma incisão longa e horizontal, e ela disse que suas vísceras estavam do lado de fora.
Ela viu um grande ferimento nas costas. A imprensa estatal oficial informou que ele havia caído de costas em um tubo de aço de cinco centímetros enquanto saía da escola. O governo advertiu que medidas severas seriam tomadas contra qualquer um que fornecesse relatos alternativos de sua morte.
O médico do Physicians for Human Rights que examinou as fotos do cadáver concluiu que a explicação oficial não tinha nenhuma credibilidade.
O corte horizontal na barriga era inconsistente com qualquer incisão de autópsia. O torso também foi cortado verticalmente no que parece ter sido uma autópsia. O enorme hematoma em ambos os lados do torso de Zaw Myat Lynn também era inconsistente com o relato oficial de que ele havia caído durante a fuga.
É muito mais provável que esses ferimentos tenham sido infligidos a ele por seus captores. O médico do PHR não conseguiu tirar conclusões definitivas dos horríveis ferimentos em sua cabeça.
O rosto de Zaw Myat Lynn estava gravemente desfigurado na época de seu funeral. No entanto, o médico do PHR acredita que isso pode ser devido à decomposição.
As autoridades militares só permitiram que sua esposa levasse o corpo embora no dia de seu funeral, e ela levou três dias para providenciar tudo. O corpo parece ter ficado sem refrigeração nesse tempo.
É difícil saber por que esses dois oficiais foram submetidos a uma tortura tão terrível que, de acordo com todas as evidências, parece ter sido o que os matou.
A junta militar não se pronuncia sobre o tratamento brutal aos que se opõem ao golpe.
A BBC pediu ao porta-voz da junta que respondesse ao relatório do PHR, mas até o momento da publicação desta reportagem não havia recebido nenhum retorno.
Um histórico brutal
Os militares têm um histórico de mau tratamento de vítimas — e muitas morrem em decorrência disso.
Corpos são arrastados para fora do local em caminhões militares — normalmente nenhuma tentativa de prestar primeiros socorros é feita a quem ainda pode estar vivo.
Algumas famílias foram impedidas de recuperar os corpos de parentes, que são cremados pelas autoridades militares sem nenhum indício de investigação de sua morte.
A maioria dos corpos é devolvida com sinais de tortura e extenso trabalho de autópsia, mas nenhum relatório confiável ou independente é fornecido para explicar como eles morreram.
A Associação de Assistência aos Presos Políticos em Mianmar, que há muitos anos documenta abusos cometidos pelas forças de segurança, identifica 75 pessoas desaparecidas no tumulto que se seguiu ao golpe, com 23 delas confirmadas como desaparecidas — presume-se que estejam mortas.
Brutalidade e irresponsabilidade sempre foram problemas no tratamento de dissidentes pelas autoridades em Mianmar; mas isso se tornou muito pior desde o golpe.
Nesse caso, nenhum dos dois mortos era uma figura importante na política nacional.
É possível que a decisão de tratá-los dessa forma tenha sido tomada exclusivamente pelas unidades militares que os detiveram, talvez inflamadas por queixas locais ou pessoais, ou talvez apenas no calor do momento. O ódio instigado por políticos também pode ter sido um fator.
As forças de segurança de Mianmar têm sido violentas no tratamento de detidos há décadas e muito raramente são responsabilizadas.
Mas o funcionário da LND acredita que Zaw Myat Lynn foi morto dessa forma para enviar uma mensagem.
"Acredito que eles calcularam que, ao executá-lo de uma maneira tão terrível, iriam provocar medo nas pessoas, fazendo-as recuar."
Vazamento expõe 8,4 bilhões de senhas e pode ser o maior da história
08/06/2021

Sarah Alves
Colaboração para Tilt
08/06/2021 16h36
Atualizada em 09/06/2021 15h57
Mais de 8,4 bilhões de senhas podem estar circulando na internet neste exato momento. Ao que tudo indica, um arquivo de texto de 100 GB foi compartilhado em um fórum de hackers. O vazamento de dados é considerado o maior da história, segundo alguns especialistas de segurança cibernética.
O caso foi chamado de RockYou2021, em referência ao incidente ocorrido em 2009 chamado RockYou, que expôs 32 milhões de senhas, de acordo com site Cyber News, publicação especializada em cibersegurança.
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Inicialmente, a pessoa que disponibilizou o documento no fórum afirmou que 82 bilhões de acessos constavam na base de dados. Depois, no entanto, o número foi fixado em 8,4 bilhões.
De acordo com o site, a combinações de senhas têm entre seis e 20 caracteres, sem os espaços em branco e com exceção de ASCII (tipo de linguagem unificada para computadores). Os códigos de segurança teriam sido reunidos ao longo de anos, combinando dados de vazamentos anteriores.
Para Thiago Bordini, chefe de inteligência de ameaças da empresa de segurança Axur, as informações deste vazamento consistem em uma combinação de várias listas distribuídas na internet há bastante tempo e que não há dados adicionais, como email, nome ou data de nascimento de pessoas.
"É apenas uma lista de senhas, o que não descarta cuidados, como troca periódica ou o uso de autenticação em dois fatores [quando além da senha é necessária a inclusão de um código adicional para fazer login em um serviço]", disse.
Na hora de criar novas senhas, faça combinações de números, caracteres e letras maiúsculas e minúsculas. Evite usar datas de aniversários de conhecidos e nomes de parentes.
Riscos
De acordo com o Cyber News, o risco é de que cibercriminosos consigam construir uma espécie de "dicionário" de acessos com ajuda do cruzamento de informações a partir de outros bancos de dados vazados anteriormente.
Imagine uma pessoa que usa a mesma senha para acessar diversos serviços online. Se em algum momento essa combinação vazou junto com o endereço de email, nome, telefone, por exemplo, abre-se um caminho para potenciais golpes.
"Como a maioria das pessoas reutiliza suas senhas em vários aplicativos e sites, o número de contas afetadas por invasões de credenciais e ataques de pulverização de senhas após esse vazamento pode chegar a milhões, senão bilhões", diz a publicação.
Antes do RockYou2021, o título de maior vazamento de dados da história era do COMB (Compilation of Many Breaches), que expôs 3,2 bilhões de dados em fevereiro deste ano.
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09/06/2021 11h57
Vazamentos de dados na internet sempre assustam e tiram o sono de milhões de usuários das redes em todo o mundo. Um Hacker vazou cerca de 8,4 bilhões de senhas, em um arquivo de 100 GB em um fórum de hackers. A editora-assistente de Tilt, Bruna Souza Cruz, comenta a notícia e faz alerta para todos: mudem as senhas de tudo.
“Não tem nenhuma possibilidade do Bolsonaro não ser condenado”, diz epidemiologista

247 - Professor da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas, o epidemiologista Pedro Hallal disse que “não tem nenhuma possibilidade do Bolsonaro não ser condenado” pelo mau gerenciamento da pandemia do coronavírus.
“Foi ele que determinou que o Exército produzisse cloroquina, foi ele que determinou a imunidade de rebanho como política de Estado, ele é quem dissemina o vírus passeando de máscara. Não existe possibilidade processual jurídica que isente o Bolsonaro de responsabilidade”, disse o estudioso à Carta Capital.
“O governo investiu na imunidade de rebanho e, ao adotar esse processo, causou diretamente mortes. O governo tinha um gabinete paralelo que desqualificou o trabalho de ministros como o [Henrique] Mandetta e o [Nelson] Teich”, afirmou.
A verdade sobre os Fujimori que a imprensa brasileira não conta

Carta Maior - A cobertura da mídia brasileira sobre as eleições no Peru deixa a desejar em vários aspectos, quase todos eles ligados ao favoritismo em favor da campanha de Keiko Fujimori, a candidata da direita e filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000).
As preferências ideológicas da nossa imprensa tradicional acabaram entrando em colapso quando estas – como muitos outros grandes meios da América Latina – se viram forçadas a defender a representante de um clã conhecido por seu histórico de corrupção e violações aos direitos humanos, para impedir a vitória do representante da esquerda, Pedro Castillo, que promove um discurso de reforçar o papel do Estado na economia e aumentar significativamente o orçamento em serviços públicos de saúde, educação e transporte, entre outros.
Ficar do lado de uma candidata com o sobrenome Fujimori foi uma tarefa nada fácil, já que é difícil apagar o passado de um ex-ditador. Mas a imprensa aceitou o desafio. Apesar da extensa ficha corrida de Alberto Fujimori, a maioria dos grandes meios de comunicação no Brasil decidiu resumir o seu perfil a algo menos monstruoso. Assim, ele passou a ser mencionado somente como “um ex-presidente condenado por crimes de corrupção”.
Porém, a verdade completa sobre o ex-ditador é muito mais assustadora. Fujimori foi preso em novembro de 2005, quando chegou ao Chile proveniente de Tóquio, cidade onde se manteve exilado por 5 anos. A detenção foi realizada pela Interpol, devido a denúncias que ele enfrentava por crimes de tortura, assassinato, desaparições e perseguições de opositores durante o seu regime.
Após dois anos de tramitação do processo, o ex-ditador foi extraditado e retornou ao Peru em setembro de 2007. Em dezembro do mesmo ano, ele recebeu sua primeira condenação, por utilizar a Polícia Nacional peruana em benefício próprio, ao ordenar uma diligência policial na casa do seu antigo assessor Vladimiro Montesinos – ambos eram acusados de corrupção, desvio de verbas e lavagem de dinheiro. Sua pena, desta vez, foi de somente 6 anos de prisão.
Em 2009, houve mais duas condenações. A primeira é relacionada a casos de direitos humanos, pelos massacres de La Cantuta e Barrios Altos, nos quais diferentes figuras ligadas à oposição ao seu governo foram vítimas de crimes de homicídio qualificado, lesões graves e sequestro agravado. Esta foi a maior pena que ele recebeu até hoje: 25 anos de prisão.
A segunda condenação de 2009 tinha relação com um caso de corrupção, pelos desvios de verbas realizados em cumplicidade com seu ex-assessor Vladimiro Montesinos, o que lhe rendeu uma pena de 7,5 anos.
Em 2015, uma nova sentença, desta vez por corrupção: o desvio de 122 milhões de soles (cerca de 157 milhões de reais) das Forças Armadas do país, em um dos maiores casos de corrupção da história do Peru. A sentença foi de 8 anos de cadeia.
Finalmente, em 2020, Fujimori recebeu sua quinta e última condenação, pelo menos até agora, por trabalhos de espionagem política e compra de apoio parlamentar. Outra pena de 6 anos de prisão, totalizando 52 anos e meio de presídio – até o momento, ele já cumpriu 13 anos e meio, em uma cela especial, no edifício do DIROES (Departamento de Operações Especiais), entidade ligada à Polícia Nacional do Peru.
Ademais, Fujimori ainda pode sofrer mais uma condenação por violação dos direitos humanos, caso organizações sociais do Peru consigam retomar o processo que o responsabiliza pela esterilização forçada de mais de 5 mil mulheres durante os anos de 1992 e 1996, todas elas moradoras de zonas rurais, de comunidades indígenas ou de favelas de Lima e da região metropolitana da capital – o caso foi arquivado em 2016 mas há entidades que defendem uma nova investigação dos fatos.
Claro que os critérios jornalísticos não obrigam a citar toda essa ficha corrida cada vez que o nome de Alberto Fujimori é lembrado, mas tampouco se pode considerar aceitável reduzi-lo apenas a um “condenado por crimes de corrupção”. Até porque uma definição mais completa nem exige tantos caracteres a mais, ou segundo a mais de programa, basta dizer que ele é um “condenado por crimes de corrupção e violações aos direitos humanos”.
Aliás, também chama a atenção que, muitas vezes, a imprensa resume os problemas dos Fujimori com a justiça a uma visão parcializada do histórico do patriarca, ignorando que a própria filha e candidata tem os seus problemas.
Keiko Fujimori é acusada de corrupção que nem é tão alheio ao Brasil, já que se refere a propinas que ela e seu partido, Fuerza Pública, teriam recebido da empreiteira Odebrecht para garantir a vantagem da mesma em licitações no país. A filha do ex-ditador chegou a ter sua prisão preventiva decretada em três oportunidades: entre os anos de 2018 e 2020, ela passou ao menos 15 meses atrás das grades. Quase nada desse histórico é mencionado pelos jornalões e grandes emissoras de televisão e rádio do Brasil.
Outro integrante da família com a ficha manchada é Kenji Fujimori, irmão de Keiko e, claro, também filho de Alberto. Este ex-deputado ainda não tem nenhuma condenação definitiva, mas responde processos por compra de votos parlamentares em 2018 – causa pela qual sofreu sua única punição, que foi apenas política: a perda do seu cargo no Congresso peruano – e pela posse de mais de 100 quilos de cocaína encontrados em uma vistoria policial a empresas de sua propriedade, no ano de 2013.
Bolsonaro e fake news: o recuo de hoje é o avanço de amanhã | Malu Gaspar - O Globo

Não se pode dizer que surpreende o presidente Jair Bolsonaro ter propagado fake news sobre os registros oficiais de mortes por Covid-19, como ele fez na última segunda-feira. Mas, mesmo que pareça, não dá para dizer que foi mais um lance igual aos outros que vivemos nesta trágica distopia nacional. Porque, embora Bolsonaro pareça sempre apertar a mesma tecla, cada movimento visa a fazê-lo avançar um passo a mais na meticulosa estratégia de avacalhar as instituições da democracia brasileira.
Já vimos outros episódios dessa série de mau gosto. Primeiro, Bolsonaro faz um ataque a uma instituição qualquer. Se ninguém fizer nada, avança mais um pouco. Se resistirem, recua, mas mobiliza sua base para manter o ataque original circulando. Enquanto isso, procura uma chance de tentar de novo, contra outro alvo. O objetivo final é claro: seguir nesse rumo, avançando e recuando, até que esteja tudo dominado pelo modus operandi bolsonarista.
O que se viu na segunda-feira foi mais um passo do presidente em direção a esse objetivo. No cercadinho reservado aos seus seguidores, no Palácio da Alvorada, ele contou uma mentira. Disse que, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), cerca de 50% dos óbitos registrados por Covid-19 em 2020 afinal não ocorreram por causa da doença. “Esse relatório saiu há alguns dias, logicamente que a imprensa não vai divulgar. E, como é do Tribunal de Contas da União, ninguém queira me criticar por causa disso.”
Depois de passar meses afirmando, por sua conta e risco, que governadores, prefeitos, os comunistas e a grávida de Taubaté inflam o número de mortes desde que a pandemia começou sem convencer ninguém fora de sua bolha, Bolsonaro decidiu ir além. Apropriou-se da chancela do Tribunal de Contas da União e ficou esperando para ver se a história colava.
É possível que, no embalo da vitória sobre os generais, o presidente da República não esperasse a reação dos ministros do tribunal. Poucas horas depois de o vídeo com sua fala circular nas redes, o TCU divulgou uma nota dizendo que o tal relatório não existia.
Soube-se depois que o que havia era uma anotação num relatório do início da pandemia, observando que usar o número de casos de Covid-19 como critério de distribuição de recursos para o combate à doença poderia levar à supernotificação.
Mas não há prova de que isso de fato tenha acontecido, nem foi feita qualquer estimativa no tribunal a esse respeito. Pelo contrário: depois de estudar o assunto, os próprios técnicos consideraram inviável fazer uma verificação, já que é prerrogativa dos médicos dizer, no atestado de óbito, qual a causa mortis de cada paciente, e não haveria como fazer autópsias generalizadas para saber quem mentiu e por quê.
Para piorar, descobriu-se que, na noite anterior à fala no cercadinho, um servidor bolsonarista do TCU compartilhou entre os colegas um documento com a estimativa mandrake, mencionando os tais 50% a mais de mortes.
Foi esse documento que Bolsonaro usou como base. O funcionário em questão, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, já havia sido até indicado pelo presidente para compor a diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, mas não foi liberado pelo TCU para assumir o cargo.
Ao contrário do que ocorreu no Exército, desta vez o servidor que atuou contra a instituição para favorecer os interesses particulares do presidente foi imediatamente afastado pela corregedoria do TCU, que abriu investigação interna e pediu à Polícia Federal a abertura de inquérito.
E Bolsonaro, que nunca falou diretamente a respeito da decisão do Exército sobre Pazuello, desta vez fez outra declaração pública dizendo que, sim, tinha errado e que os dados que divulgara não eram do tribunal.
Ainda assim, continuou sustentando a tese da supernotificação de casos. E disse que estava ordenando à Corregedoria-Geral da União (CGU) que investigasse os registros de mortes por Covid-19.
O capitão cumpriu, portanto, o roteiro, mas não conseguiu avançar com seu exército sobre mais uma trincheira. A única vantagem de estarmos vivendo há tanto tempo sob esse mesmo modus operandi é que já sabemos o que vem por aí: um novo ataque a mais uma instituição, que o presidente certamente já está mirando.
A questão é que não é difícil saber que o ataque virá, mas é impossível prever até quando os alvos resistirão.


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