Míriam Leitão: Um TERABYTE de PROVAS CONTRA o GOVERNO na CPI

___________________________________________________

Pandemia provoca REVOLUÇÃO SEXUAL com maior uso de APLICATIVOS e consumo de PORNOGRAFIA 

Por que o Uruguai tem alta de casos e mortes mesmo com vacinação avançada

Próximo dos Bolsonaros, auditor faz estudo desmentido e gera crise no TCU

As lições do homem que passou 76 dias perdido no Atlântico

A incrível história do pescador que sobreviveu após ser 'engolido' e cuspido por uma baleia

"É preciso uma grande composição para derrotar Bolsonaro", diz Zé de Abreu

SBT faz defesa escancarada de Bolsonaro: 'não critique o governo nem em pensamento'

Janio de Freitas: posições formais da Marinha e Aeronáutica dificultam pretensões golpistas de Bolsonaro

Gaspari: 'Bolsonaro entra para os anais da diplomacia ao ser o 1º chefe de Estado a nomear embaixador proibido de deixar o país'

Ex-presidente do BC Carlos Langoni morre vítima de Covid-19

Com máscara | Opinião - O Globo * Bolsonaro e a domesticação das instituições

Míriam Leitão: Um terabyte de provas contra o governo na CPI

Saiba como Ecko e o irmão fundaram a 'narcomilícia', a mais poderosa do estado do Rio

Ecko: Saiba como o servente de pedreiro se tornou o miliciano mais procurado do Rio

Aliança inédita entre Ecko e capitão Adriano permitiu coalizão com diferentes facções e expansão da milícia do Rio; confira

Projeto de Biden contra ofensiva republicana para restringir direito a voto é bloqueado no Congresso

Supressão e subversão eleitoral: entenda as leis que cerceiam o direito de voto nos Estados Unidos

Deficiência, relações sociais e MUITO SEXO em 'SPECIAL', ÓTIMA série da NETFLIX - Patrícia Kogut, O Globo

Jardim Botânico lança nova trilha que liga sítios arqueológicos e monumentos históricos do parque

Governo Trump obrigou Apple a entregar dados de congressistas democratas

___________________________________________________

*

A incrível história do pescador que sobreviveu após ser 'engolido' e cuspido por uma baleia

O pescador de lagostas de 56 anos, fotografado no hospital depois de passar mais de 30 segundos na boca de uma baleia jubarte - FAMILIA PACKARD
O pescador de lagostas de 56 anos, fotografado no hospital depois de passar mais de 30 segundos na boca de uma baleia jubarte Imagem: FAMILIA PACKARD

12/06/2021 10h58

Um pescador de lagostas estava mergulhando na costa de Provincetown, Massachusetts, quando foi surpreendido por uma baleia.

Um pescador nos Estados Unidos foi tragado por uma baleia jubarte e devolvido à água alguns segundos depois, enquanto mergulhava em busca de lagostas, na sexta-feira (11).

Michael Packard conta que estava mergulhando quando acabou dentro da boca do gigante marinho na costa de Provincetown, em Massachusetts.

Arqueólogos quebram sem querer raro ovo de mil anos achado em Israel

O pânico durou entre 30 e 40 segundos. Depois disso, o animal cuspiu Packard, que apenas teve um deslocamento no joelho.

Apesar dos apelos de sua esposa para que mude de emprego, ele diz que não pretende abandonar sua carreira de 40 anos em Cape Cod, uma península no extremo leste do estado de Massachusetts.

As baleias jubarte podem crescer até 15 metros de comprimento e pesar cerca de 36 toneladas.

De acordo com o World Wide Fund for Nature, sua população mundial é de aproximadamente 60.000 espécimes.

Packard, de 56 anos, disse ao jornal local Cape Cod Times que ele e seu companheiro de tripulação foram de barco para a praia de Herring Cove na manhã de sexta-feira (11), quando as condições de mergulho eram excelentes, com visibilidade da água de aproximadamente 6 metros.

Depois de pular na água com seu equipamento de mergulho, Packard disse à televisão local WBZ-TV News que sentiu "um grande golpe e depois tudo escureceu".

"Está tentando me engolir"

O pescador pensou que havia sido atacado por um dos grandes tubarões brancos que nadam na área.

"Então eu comecei a apalpar as laterais e senti que não tinha dentes", disse ele.

"Foi quando eu percebi, 'Meu Deus, estou na boca de uma baleia e ela está tentando me engolir. É isso mesmo, eu vou morrer'."

Packard diz que pensou em sua esposa e dois filhos, de 12 e 15 anos.

1 - Getty Images - Getty Images
Cientistas dizem que é extremamente raro que uma baleia trague um ser humano Imagem: Getty Images

"Então, de repente, ele veio à tona... e começou a sacudir a cabeça."

"Ela me jogou para o alto e eu caí na água. Eu estava livre e simplesmente fiquei boiando ali. Não conseguia acreditar... E hoje estou aqui para contar."

Seu companheiro de tripulação, que procurava desesperadamente na água por bolhas do respirador de oxigênio de Packard, arrastou-o de volta para o barco.

O Corpo de Bombeiros de Provincetown confirmou à CBS News que havia respondido a uma ligação às 8h15, horário local), para ajudar um pescador de lagosta ferido em uma praia de Provincetown.

Erro

As baleias jubarte tendem a se alimentar abrindo bem a boca para engolir o máximo possível de presas, normalmente peixes ou krill.

Assim, alguns cientistas marinhos acreditam que o que aconteceu com Packard foi, provavelmente, puramente acidental.

Um especialista disse ao Cape Cod Times que uma baleia engolir um humano é um episódio extremamente raro - ou inédito.

As lições do homem que passou 76 dias perdido no Atlântico

Callahan após finalmente chegar à ilha de Marie-Galante, no arquipélago de Guadalupe: "Sou bastante grato pela experiência...mas foi um inferno!" - STEVECALLAHAN.NET
Callahan após finalmente chegar à ilha de Marie-Galante, no arquipélago de Guadalupe: 'Sou bastante grato pela experiência...mas foi um inferno!' Imagem: STEVECALLAHAN.NET

Da BBC

11/06/2021 08h59

Atualizada em 12/06/2021 08h14

O americano Steve Callahan passou 76 dias à deriva em um pequeno bote de borracha, perdido no meio do Oceano Atlântico, tendo que arrumar comida e água todos os dias e ainda enfrentar toda espécie de perigos.

Sua história, um atestado da capacidade, da criatividade e da perseverança do ser humano, é contada em um episódio do podcast "Que História!", da BBC News Brasil.

O app espião que ajudou o FBI a desbaratar rede criminosa internacional

No final de janeiro de 1982, o arquiteto naval e velejador deixou as Ilhas Canárias no Atlântico, perto da costa norte da África, viajando sozinho no veleiro Napoleon Solo, desenhado e construído por ele mesmo. 

Callahan seguia rumo a ilha de Antígua, no Caribe.

Tudo ia bem, até a chegada, alguns dias depois, de uma forte tempestade.

"Nessa noite, os ventos foram ficando cada vez mais fortes, e eu finalmente consegui deitar para dormir um pouco", contou ele ao programa Witness History, da BBC.

"Cerca de uma hora depois, ouvi um forte estrondo na lateral do barco.

Um tremendo barulho.

De repente, começou a entrar muita água.

Um jorro de água, tipo de um hidrante.

Eu achei que o barco estivesse afundando de vez, mas, por sorte, a ventania e o movimento das ondas estavam mantendo o barco na superfície.

A parte da frente estava toda dentro da água, mas a de trás estava pra fora.

Isso me deu a chance de sair do barco."

"Subi ao convés, inflei o bote salva-vidas, coloquei ele no mar ao lado do barco, e entrei nele.

Eu percebi que o barco não iria afundar de uma vez.

Eu sabia que estava no meio do oceano e que as chances de sobreviver com as coisas que estavam no bote eram mínimas.

Puxei a corda que me prendia ao barco, subi a bordo e mergulhei na cabine.

"Estava completamente escuro.

Eu ficava nadando e tateando as coisas. Achei um kit de emergência, um pedaço de espuma, um saco de dormir. 

Não era muita coisa, mas foi o que consegui encontrar no meio do temporal, no barco sendo chacoalhado e açoitado pelas ondas e ventos. 

Quando voltei pro bote, estava completamente exausto. 

Até achei que poderia tentar tirar a água do barco quando amanhecesse. 

Mas após uma forte onda, de repente notei um momento de relativa calma, e, quando olhei, vi que estava à deriva, me distanciando do barco."

Steve não sabia o que tinha causado o enorme rombo na lateral do barco — possivelmente uma baleia.

Mas isso não faria diferença agora. 

Ele estava sozinho num bote salva-vidas de borracha e ninguém sabia disso.

"E agora? Todas as regras de uma vida normal já não existiam mais. 

É uma sensação avassaladora. 

E você sabe que muitas pessoas sobrevivem ao impacto inicial, lidam com a primeira ameaça numa crise, mas morrem depois. 

Tinha uma parte de mim completamente apavorada e desesperada que pensava: 

'você vai morrer! você vai morrer!'. 

Mas a outra parte, acostumada a enfrentar situações no mar, dizia: 'cala boca!'. 

E essas duas vozes na minha cabeça me acompanhavam o tempo todo."

"Comecei a rever a minha vida, em como fui teimoso, nos erros que cometi, nas pessoas que decepcionei, sempre fui ruim em relações pessoais, ruim em ganhar dinheiro. 

Eu estava me punindo e ao mesmo tempo pensando como vou sobreviver no oceano, no que ironicamente é como o maior deserto do mundo."

Callahan usou um purificador solar como esse, que converte água do mar em água potável: 'Levou um bom tempo para eu aprender a usá-lo, e produzir cerca de meio litro de água por dia' - REPRODUÇÃO - REPRODUÇÃO
Callahan usou um purificador solar como esse, que converte água do mar em água potável: 'Levou um bom tempo para eu aprender a usá-lo, e produzir cerca de meio litro de água por dia' Imagem: REPRODUÇÃO

Seu bote laranja estava sendo levado aos poucos por ventos e correntes para o oeste, ou seja, na direção do continente americano. 

Suas chances estavam ou em ser avistado por um navio ou em conseguir, de algum jeito, chegar ao Caribe ou à América do Sul.

O problema é que esses lugares estavam a mais de 3.200 quilômetros, uma jornada que levaria meses.

E os suprimentos de comida e água no kit de emergência durariam apenas alguns dias. 

Ele já tinha atravessado o Atlântico antes e sabia dos riscos e desafios que enfrentaria para permanecer vivo.

"No início, me manter aquecido foi um dos principais desafios, sobretudo à noite. 

E principalmente porque estava molhado metade do tempo, e ventava muito.

Você pode morrer de hipotermia em questão de minutos ou horas.

Depois tem a sede. 

Você consegue viver até dez dias sem água, se tiver sorte. 

Tive muitos problemas para conseguir água, porque chovia muito pouco. 

Eu dependia dos purificadores solares de água, que estavam no kit de emergência. 

Estruturas parecidas com balões. 

Você põe água dentro, o sol faz a água evaporar e esse vapor é coletado e vira a água que você bebe. 

Eu nunca tinha encontrado alguém que soubesse fazer esses purificadores funcionarem.

Levou um bom tempo para eu aprender a usá-los, e produzir cerca de meio litro de água por dia."

"Tudo o que flutua no mar vira uma ilha e desenvolve sua própria ecologia. 

Algas e cracas começaram a se prender no bote, e atraíam peixes menores, que, por sua vez, atraíam peixes maiores. 

Por sorte eu tinha conseguido recuperar do barco uma espingarda de arpão, praticamente um brinquedo. Era bem difícil de pegar peixes. Foi só no 14º dia que eu consegui pegar um."

"A essa altura, depois de duas semanas, eu estava faminto. O peixe cru, um dourado-do-mar, estava uma delícia. Mas ao poucos eu passei a ter menos interesse na carne, e mais, nas outras partes mais gosmentas. Os olhos, por exemplo, eram como duas bolinhas de fluídos. Corações, ovas, fígado...ou mesmo o conteúdo do estômago. Os dourados comiam outros peixes, que muitas vezes estavam semidigeridos no estômago, e eu dizia, 'Oba! Pickles!'. Acho que meu corpo sabia que essas coisas eram essenciais para minha sobrevivência. Eles supriam os minerais e vitaminas que eu não teria como arrumar de outro jeito, nessa dieta praticamente à base de proteína. Mas mesmo com peixes, eu não estava ingerindo nutrientes suficientes. Eu perdi um terço do meu peso, praticamente tudo na parte de baixo do meu corpo."

'É a coisa mais linda que você pode imaginar'

Callahan conseguia se proteger do sol porque seu bote salva-vidas tinha uma barraca. Ele conseguia se orientar depois de construir, com lápis, uma forma rudimentar de sextante — usando a posição da Estrela do Norte, ou Polaris, no céu como referência. Assim, ele poderia mais ou menos saber onde estava e para onde estava indo, e sabia que a corrente estava levando o bote na direção do Caribe.

Os dourados-do-mar também são conhecidos como mahi-mahi: 'além de prover minha alimentação, me faziam companhia' - DE AGOSTINI PICTURE LIBRARY - DE AGOSTINI PICTURE LIBRARY
Os dourados-do-mar também são conhecidos como mahi-mahi: 'além de prover minha alimentação, me faziam companhia' Imagem: DE AGOSTINI PICTURE LIBRARY

Ele fazia exercícios, consertos no barco, e apesar da fome e e sede crônicas, Callahan conseguiu desfrutar um pouco das maravilhas desse seu novo mundo.

"Quando você está no meio do oceano desse jeito, está mais distante da humanidade do que um astronauta na órbita do planeta. Não há uma sensação maior do que essa, estar num lugar onde o passado ou o futuro não significam nada, onde você está totalmente focado no agora. E num bote você está observando coisas...é como a diferença entre estar guiando um carro e andando. Você vê as coisas."

"Foi tão lindo observar a evolução do ecossistema em torno do barco. Os peixes eram lindos. Os dourados-do-mar, além de prover minha alimentação, me faziam companhia. Eu passei a identificar cada um pelas cores, ou cicatrizes ou mesmo pelo jeito como se comportavam."

"Havia um macho grande que sempre aparecia no fim da tarde e gostava de ficar batendo no bote, movendo ele na água. Eram criaturas espirituais. A natureza é tocante. À noite, esse céu incrível é refletido pela água, e você tem a sensação de estar flutuando no céu."

"E tem, a bioluminescência do mar. São como bilhões de pirilampos. Tudo brilha. Um golfinho passa e você vê o contorno dele percorrendo essa longa trilha de luzes...É a coisa mais linda que você pode imaginar. E eu acordava à noite, olhava pra fora e via tipo 50 dourados ao redor do bote, pareciam bandejas de prata flutuando lentamente no oceano. Era impressionante. Claro, tinha horas em que eu via uma barbatana ou rabo de um tubarão. Mas mesmo essas experiências foram extremamente preciosas para mim."

As semanas foram passando e ele chegou a ver alguns navios à distância. Mas não foi visto por nenhum deles. E no 43º dia veio um desastre.

"Tive um acidente que quase acabou comigo. Um dourado quebrou a haste do arpão, deu a volta e bateu com a ponta do arpão no tubo de baixo da lateral do bote, abrindo um buraco do tamanho de uma boca. A água começou a entrar aos poucos. A essa altura, eu tava com as mãos cheias de feridas causados pela longa exposição à água do mar. Já tava bem difícil caçar peixes e produzir água potável. Passei dez dias nessa situação fazendo remendos no buraco. Toda vez que bombeava ar, o remendo abria. Tinha de encontrar um jeito para fechar esse vazamento."

Callahan se tornou uma celebridade, dá palestras e foi consultor do premiado filme 'As Aventura de Pi' - NORTH YARMOUTH ACADEMY - NORTH YARMOUTH ACADEMY
Callahan se tornou uma celebridade, dá palestras e foi consultor do premiado filme 'As Aventura de Pi' Imagem: NORTH YARMOUTH ACADEMY

"Mas não conseguia pensar numa solução. Depois de dez dias eu estava desesperado. E ainda tinha um tubarão, bastante persistente, que circulava o bote há dias. Quase desisti de tudo. Mas eu tive de me dar uns tapas. 'Acorda!'. Parei de pensar no que as coisas são feitas e comecei a pensar no que elas podem fazer. E me lembrei subitamente de um garfo de escoteiro que tinha guardado na minha bolsa. Com esse garfo, consegui finalmente, prender o remendo, dobrando ele pra dentro e juntando as partes usando as pontas do garfo para fechar o buraco."

A ilha

Mais dias se passaram, depois, semanas. De repente começaram a aparecer tipos de pássaros que podiam indicar a presença de terra por perto. Finalmente, na madrugada do 76º dia no oceano, ele pôde ver, lá longe, os contornos de uma pequena ilha.

"Eu vi essa ilha, chamada Maria Galante, do arquipélago de Guadalupe. Eu estava a tipo dez quilômetros de distância, mas conseguia identificar as casas na praia. Mas eu também notei que havia um recife de corais pela frente, o que poderia ser perigoso. Mais perigoso ainda seria eu tentasse chegar pelo outro lado, onde toda a força do mar batia contra falésias e recifes. Eu estava bem preocupado que, depois de toda essa viagem, eu acabaria encontrando a morte na chegada à terra."

Ilustração da BBC - BBC - BBC
Imagem: BBC

"E minha salvação foram os dourados e todo o ecossistema em volta do meu bote. Porque os peixes atraíram um monte de pássaros. E pescadores viram essa aglomeração de pássaros no mar, e pensaram 'Opa! Ali deve ter um monte de peixe!'. E vieram para o mar, encontraram os peixes, mas também, essa ilha flutuante que vagou pelo oceano por dois meses e meio."

"Foi uma festa de emoções. Bastante intensas. Quando cheguei à praia, foi realmente como se tivesse renascido. Coisas banais como uma cor que eu não tinha visto todo esse tempo...'Vermelho! Nossa que lindo!'. Ou vozes humanas. Quando ouvi alguém cantando pela primeira vez, foi como se estivesse no céu. Foi muito especial."

Steve Callahan se recuperou rapidamente e poucas semanas depois estava de volta ao mar, pegando carona em barcos viajando por ilhas do Caribe.

De volta aos Estados Unidos, escreveu um livro narrando suas experiências, que ficou 36 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times. Callahan se tornou uma celebridade e foi consultor do premiado filme "As Aventura de Pi", de Ang Lee. Ele diz que pensa na sua viagem todo dia.

"Sou muito grato por ter tido essa experiência. Ela me mostrou tantos caminhos e tantas coisas sobre mim que eu jamais saberia. Principalmente que a gente pode ser bem mais forte e resiliente do que imagina. Sou bastante grato pela experiência...mas foi um inferno!."

Próximo dos Bolsonaros, auditor faz estudo desmentido e gera crise no TCU

Alexandre Costa, auditor do TCU - Foto reprodução do Facebook Alexandre Costa/Arte UOL
Alexandre Costa, auditor do TCU Imagem: Foto reprodução do Facebook Alexandre Costa/Arte UOL

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

12/06/2021 04h00

Atualizada em 12/06/2021 08h53

Um colega do auditor Alexandre Figueiredo Costa Marques percebeu a tensão dele na quarta-feira (9) pela manhã. 

Às 7h, o sistema de comunicação dos servidores do Tribunal de Contas da União (TCU) mostrava que ele havia usado a ferramenta duas horas antes, às 5h. 

Ele não deveria estar dormindo direito nos últimos dias, avaliou o outro auditor em conversa com UOL.

Alexandre é o funcionário do tribunal que produziu um relatório paralelo, fora dos sistemas do TCU, no qual afirma que, "teoricamente", pelo menos, 55 mil mortes atribuídas ao coronavírus foram causadas por outras doenças em 2020.

O documento foi produzido no domingo (6), segundo as propriedades do arquivo digital, e levou o presidente Jair Bolsonaro a dar declarações falsas no dia seguinte.

CPI da Covid aprova convocação de Osmar Terra e de auditor do TCU

Bolsonaro afirmou que o tribunal comprovou supernotificação de mortes pela covid-19 para beneficiar governadores interessados em obter mais recursos públicos para combater a pandemia.

TCU desmentiu o presidente no mesmo dia.

Horas depois de Alexandre acessar o sistema de comunicação do tribunal na madrugada de quarta-feira, ele perdeu acesso à ferramenta.

Também ficou sem seu login de acesso aos demais aplicativos do órgão que permitiriam que ele trabalhasse à distância.

Morador de Jundiaí (SP), também foi impedido de entrar nas dependências do TCU, em Brasília.

O tribunal abriu um processo administrativo contra ele, afastou-o da função de supervisor por 60 dias e pediu um inquérito à Polícia Federal.

Agora, para falar com Alexandre, os colegas precisam ligar para seu telefone celular.

Um número atribuído ao servidor traz a seguinte frase de 'status' num aplicativo de mensagens:

"Contente com o que tenho, mas em busca do que eu quero".

UOL o procurou o auditor por meio de conhecidos e da assessoria do tribunal.

Ele disse que não queria comentar o caso.

Presidente pediu transferência de auditor

Nascido no Rio de Janeiro, Alexandre é auditor concursado. 

Passou no exame feito em 2008.

Em maio, seu salário bruto foi de R$ 37 mil, incluídos R$ 824 por ressarcimento de despesas médicas.

Após todos os descontos, recebe R$ 26 mil por mês.

Ele atuava como supervisor no setor de fiscalização de gastos da pandemia de coronavírus.

Dois ministros do TCU contaram ao UOL que Alexandre tem proximidade com a família do presidente Jair Bolsonaro, especialmente com os três filhos mais velhos:

o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Em 2019, Bolsonaro chegou a pedir ao então presidente do tribunal, José Múcio, que o auditor assumisse a diretoria de compliance do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). 

O presidente do banco é Gustavo Montezano, também próximo da família Bolsonaro.

transferência foi oficialmente negada com base no regimento interno — um servidor do tribunal não pode ser cedido para uma instituição que pudesse ser alvo de apuração da corte.

Um dos ministros do TCU ouvidos pela reportagem, no entanto, diz que pesou para barrar o empréstimo do servidor o "viés político" embutido no interesse do Planalto em vê-lo no banco.

Segundo um outro auditor ouvido pelo UOL, hoje tribunal tem 14 servidores cedidos.

O site do órgão mostra que houve cessão para a própria a Presidência da República, além de governos estaduais e agências reguladoras.

Como os dados chegaram ao presidente

O pai de Alexandre também é amigo de Bolsonaro.

Ele é o coronel Exército Ricardo Marques, formado na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), na mesma turma do presidente da República, e hoje ocupa um cargo na Petrobras.

Segundo a Folha de S.Paulo, Alexandre disse à sua chefia que seu pai repassou o relatório ao presidente da República. 

O material produzido pelo servidor não chegou a integrar um relatório oficial do TCU -- só foi postado no sistema de comunicação interno dos auditores e recusado por falta de solidez técnica.

Reservadamente, uma auditora afirmou ao UOL considerar justo o rigor o tribunal com Alexandre.

Segundo ela, os auditores não podem ter sua credibilidade colocada em xeque por causa das condutas individuais de um colega.

Já outro servidor no órgão diz acreditar que o Alexandre será usado como "bode expiatório" na corte.

Nas redes, auditor reclamou de subnotificação

Em seu perfil no Facebook, o auditor faz comentários sobre a pandemia, endossando sobretudo a narrativa de Bolsonaro, como a recomendação do tratamento precoce com medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid.

Mais de ano atrás, porém ele chegou a mostrar ceticismo com os números da doença, mas à época seu alvo de crítica era a subnotificação de infectados.

Diante da notícia de que o estado de São Paulo passaria a notificar apenas os casos graves da doença, Alexandre escreveu em uma publicação de 20 de março de 2020:

"Com isso, não podemos mais saber a real taxa de letalidade da doença, pois os casos com sintomatologia leve não são mais notificados".

Nos últimos meses, o auditor compartilhou, mensagens em defesa da vacina e do SUS.

Em geral, estes conteúdos foram originalmente publicados pela esposa de Alexandre, Nara Stuart de Pieri, que é enfermeira e filha do vereador paulistano Eliseu Gabriel (PSB).

Ex-políticos dominam TCU

Apesar do nome, o Tribunal de Contas da União não faz parte do Judiciário.

É um órgão auxiliar do Congresso, composto por Câmara e o Senado.

Seus nove ministros, em geral, são políticos em fim de carreira, escolhidos ora por indicação do Congresso, ora do Planalto.

Mas servidores de carreira também conseguem ocupar alguns cargos no plenário.

Dentro do tribunal, existem os auditores, que fazem as fiscalizações e análises técnicas para subsidiar as decisões dos ministros.

Um grupo de procuradores forma o Ministério Público do TCU, que dá pareceres sobre os processos e também pede investigações.

Em 2014, auditores fizeram uma campanha contra a possibilidade de o então senador Gim Argello (PTB-DF) ser indicado para o cargo de ministro.

Ele respondia a processos por corrupção e lavagem de dinheiro.

Indicado por senadores e com o apoio do Palácio do Planalto, Gim teve que desistir da disputa.

No seu lugar, o Senado indicou o consultor legislativo Bruno Dantas.

Hoje, ele é o corregedor do TCU. 

Foi o ministro Dantas quem pediu o afastamento de Alexandre Figueiredo, confirmado pelo tribunal na quarta-feira.

As revelações que se tornaram públicas até o momento, apontam fatos que, se comprovados, se revestem de extrema gravidade, na medida em que, além da possível infração disciplinar, atingem de maneira severa a credibilidade e a imagem institucional do Tribunal de Contas da União"Bruno Dantas, ministro e corregedor do TCU

Sem apresentar provas, Bolsonaro afirma reiteradamente que existe "forte indício" de supernotificação de mortes provocada pela covid nos estados.

Ele acusa governadores de inflar o número de óbitos para receber recursos. 

No ano passado, o TCU criticou a existência dessa regra que vincula mais de 40% dos repasses à quantidade de casos da doença.

No Brasil, os atestados de óbito são assinados por médicos, não por políticos.

No caso da covid-19, os profissionais precisam preencher um formulário próprio preparado pelo Ministério da Saúde. 

O país teve mais de 484 mil mortos desde o início da pandemia.

*

Análise: Diogo Schelp - Por que o Uruguai tem alta de casos e mortes mesmo com vacinação avançada

Vacinação no Uruguai -  Ernesto Ryan/Getty Images
Vacinação no Uruguai Imagem: Ernesto Ryan/Getty Images
Diogo Schelp

Colunista do UOL

13/06/2021 04h00

O Uruguai está, atualmente, junto com o Chile, na vanguarda da vacinação contra covid-19 na América do Sul. Os dois países já deram a primeira dose em cerca de 60% da população — no Brasil, apenas 25% receberam a primeira aplicação, segundo dados de sexta-feira (11). Apesar disso, o Uruguai registra o maior índice de óbitos em proporção à população do mundo: em média, 16 em cada 1 milhão de uruguaios morrem diariamente por covid-19.

No Brasil, são 9 mortes diárias por milhão, na Argentina, 13,3, e no Chile, 5,8. A média da América do Sul é de 8,8, semelhante à brasileira, e a mundial é de 1,2. Os dados são do site Our World in Data, com informações da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.

Bolsonaro faz mal à imagem das Forças Armadas, mostra pesquisa

Diante do paradoxo de ser um dos dois países da região com vacinação mais avançada, mas ainda assim registrar a maior proporção de mortes, o exemplo do Uruguai tem sido usado por negacionistas brasileiros para colocar em dúvida a eficácia das vacinas e a importância de tomá-las.

O caso uruguaio é uma demonstração da complexidade de uma pandemia, mas de forma alguma indica que as vacinas não funcionam. Ao contrário, elas são muito efetivas, mas não devem ser a única estratégia a ser adotada.

O aparente paradoxo uruguaio se explica pela combinação de três fatores: o excesso de confiança antes da hora, a estratégia de vacinação adotada e a disseminação da variante brasileira.

1 - Excesso de confiança do governo e da população

Países como Reino Unido e Israel foram bem-sucedidos em reduzir as taxas de contaminação porque adotaram lockdown paralelamente à fase inicial da vacinação. As restrições só começaram a ser aliviadas depois que uma parcela significativa da população já havia sido vacinada.

Só com cerca de dois terços ou mais da população inteiramente vacinada se consegue ter um ganho coletivo com a campanha de imunização, ou seja, quando a circulação do vírus se reduz a ponto de evitar também o contágio de quem ainda não foi vacinado.

E as pessoas só ficam protegidas após a imunização completa, com duas doses, um processo que leva várias semanas para ser completado.

O Uruguai ainda não tem sequer a maior parte da população totalmente imunizada: as duas doses foram dadas até agora em 33% dos cidadãos.

Enquanto isso, não há medidas duras para garantir o isolamento social. Na realidade, não houve imposição de restrições obrigatórias mais rígidas no país ao longo de praticamente toda a pandemia. O governo apenas fechou repartições públicas e suspendeu aulas presenciais.

Ao se opor às medidas mais amplas de isolamento social, o presidente uruguaio, Luis Lacalle Poul, tem adotado um discurso semelhante ao do presidente Jair Bolsonaro, no Brasil. Ele diz existir uma "razão filosófica de liberdade" para a sua decisão e prega que, em contrapartida, as pessoas adotem o conceito de "liberdade responsável".

Essa "liberdade responsável", aliada a uma campanha de testagem em massa, funcionou durante a primeira onda da pandemia, quando muitos uruguaios respeitaram o distanciamento social e outras medidas, o que levou o país a manter os níveis de contaminação baixos em comparação com os vizinhos.

Este ano, principalmente depois do início da vacinação, em março, esses cuidados foram em grande medida abandonados ou reduzidos.

Na mais recente medição, verificou-se que a taxa de circulação de pessoas no país está apenas 10% mais baixa do que antes de o país declarar emergência sanitária, em março do ano passado.

Os uruguaios pecaram pelo excesso de confiança, pois não tinham ainda vivido o colapso do sistema de saúde que se viu nos países vizinhos, inclusive o Brasil, e por que a vacinação acelerada fez com que se sentissem seguros demais, antes da hora.

2- Idosos não foram priorizados na vacinação

Diferentemente do ocorreu no Brasil, que vacinou primeiro profissionais de saúde e a população mais idosa, o Uruguai só começou a imunizar quem tinha mais de 80 anos depois de trabalhadores da saúde, bombeiros, policiais e professores.

Lembrando que a vacinação só começou em março, enquanto no Brasil, ainda que de maneira mais lenta, a injetada inicial foi dada em janeiro.

Além disso, das duas vacinas disponíveis no país, a Coronavac e a Cominarty, da Pfizer, apenas a segunda era utilizada para a imunização dos idosos, o que fez com que a vacinação desse grupo sofresse mais interrupções por causa dos atrasos na importação das doses.

Essa estratégia deixou justamente o grupo populacional mais vulnerável à doença, os idosos, mais tempo desprotegidos.

Os estudos de efetividade das vacinas no país foram muito animadores. Entre quem recebeu a Coronavac, o número daqueles que adoeceram com covid-19 foi 61% menor, as internações em UTI foram 92% menores e as mortes, 95% mais baixas. Já a vacina da Pfizer reduziu em 78% as infecções, em 94% as internações em UTI e em 94% as mortes.

Ou seja, a maior parte dos novos casos e das mortes que estão sendo registrados no país atualmente é de pessoas que não se vacinaram ou não completaram a imunização.

3- Disseminação da variante de Manaus

Gama, como agora é chamada a variante de Manaus do novo coronavírus, entrou no Uruguai principalmente pela fronteira seca com o Rio Grande do Sul e hoje é predominante no país. Estima-se que seja a responsável por cerca de 90% das infecções.

Considerada mais contagiosa e mais agressiva, a prevalência da gama, antiga P.1, é apontada como um fator decisivo no alto número de novos casos e mortes nesta segunda onda da pandemia.

* * *

O nosso vizinho ao Sul também serve de exemplo para desmontar uma das falácias mais difundidas pelos opositores das medidas restritivas no Brasil: a de que basta abrir leitos hospitalares para evitar as mortes.

No Uruguai, mesmo com o alto índice de óbitos em proporção à população, a taxa de ocupação dos leitos de UTI não extrapolou os 90% e não houve um colapso no fornecimento de insumos médicos como se viu por aqui.

Isso porque o país preparou sua estrutura hospitalar para o pior. Mas a capacidade de atender a todos os pacientes não evitou o alto índice de óbitos.

Ou seja, é importante garantir cuidados intensivos para todos que precisarem, mas isso não elimina a necessidade de se adotar medidas para evitar que as pessoas tenham que procurar os hospitais.

O caso uruguaio não depõe contra as vacinas e as medidas de distanciamento social. Ao contrário, comprova a importância dessas medidas.

*

"É preciso uma grande composição para derrotar Bolsonaro", diz Zé de Abreu

Tonico Pereira, Lula e Zé de Abreu

247 - O ator José de Abreu, que se aproxima cada vez mais do campo político e pode ser até mesmo candidato em 2022, falou à TV 247 na manhã deste domingo (13) sobre o encontro que teve no sábado (12), junto com outros artistas, com o ex-presidente Lula.

Zé de Abreu disse ter conversado com Lula, com o deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ) e outras pessoas. O que ele identificou foi uma disposição do ex-presidente em dialogar com todos os setores. "Realmente ele está numa de abrir o leque mesmo, ele está numa de abrir o leque, de não ser sectário em absoluto. Ele não tem ódio no coração, ele está extremamente aberto".

"Eu acho que a gente tem força política, com o Lula na cabeça de uma chapa, para ganhar no primeiro turno", avaliou Zé de Abreu. "Acho que todo mundo está com isso na cabeça, é preciso uma grande composição para derrotar o Bolsonaro".

Questionado sobre o destino do Rio de Janeiro, que se desenha com uma candidatura de Freixo ao governo do estado, o ator afirmou que, em sua visão, não há nada definido. "Derrotar o Bolsonaro no Rio de Janeiro seria a glória, seria muito bom para as forças democráticas. Não está ainda totalmente definido. Se tiver um nome que possa agregar mais que o Freixo, acho que a coisa vai andar".

*

SBT faz defesa escancarada de Bolsonaro: 'não critique o governo nem em pensamento'

Silvio Santos e Bolsonaro

247 - O SBT, emissora de Silvio Santos, defensora de primeira hora de Jair Bolsonaro, tem veiculado em sua programação trechos do livro Eclesiastes, do Antigo Testamento, de acordo com a Folha de S. Paulo.

Nesta semana, a emissora exibiu o versículo 20 do capítulo 10, de Salomão: "não critique o governo mesmo em pensamento e não critique o homem rico nem mesmo dentro do seu próprio quarto. Pois um passarinho poderia ir contar a ele o que você disse".

O SBT esclarece que não se trata de um comercial, e sim de uma iniciativa própria de veicular todos os capítulos e versículos da Bíblia.

*

Janio de Freitas: posições formais da Marinha e Aeronáutica dificultam pretensões golpistas de Bolsonaro

Exército

247 - O jornalista Janio de Freitas observa, em sua coluna na Folha de S. Paulo, que “são diferentes as posições formais da Marinha e da Aeronáutica, idênticas, e a do Exército, ante os acontecimentos políticos, o governo e a própria Constituição”. Para ele, “esse tem sido e será ainda mais, se mantido, um fator decisivo para a sobrevivência atual e futura da custosa democracia à brasileira”. 

“Faltam indícios da existência, ou não, de custo interno para a Aeronáutica e a Marinha. Se algum há, está bem contido e vale a pena. Para todos os efeitos constitucionais, políticos e de ordem, a estrita dedicação nas duas Forças ao profissionalismo militar tem sido um empecilho ao fechamento do circuito golpista”, avalia.

No texto, Janio ressalta que “para as intervenções na vida política e nos regimes, a unidade das Forças Armadas foi o redutor de riscos excessivos aos resultados pretendidos. Na golpeada segunda metade do século passado, por uma única vez o Exército ousou agir sozinho contra o poder constituído”. 

“Por menos que sejam conhecidas as ideias vigentes na Aeronáutica e na Marinha, e por mais que as práticas da política as desagradassem, o silêncio e a distância que mantêm são sugestões de não endosso a Bolsonaro”, analisa o jornalista.

“Com o silêncio e a distância, Marinha e Aeronáutica estão como configurações militares do regime constitucional democrático. Nunca estiveram com a história tão depositada em seus navios, seus aviões e, comprovem-na, sua dignidade”, finaliza.

*

Gaspari: 'Bolsonaro entra para os anais da diplomacia ao ser o 1º chefe de Estado a nomear embaixador proibido de deixar o país'

Gaspari: Bolsonaro entra para os anais da diplomacia ao ser o 1º chefe de Estado a nomear embaixador proibido de deixar o país

247 - O jornalista Elio Gaspari destaca, em sua coluna na Folha de S. Paulo, que ao convidar o ex-prefeito do Rio de Janeiro e bispo licenciado da Igreja Universal Marcelo Crivella para chefiar a embaixada da África do Sul, Jair Bolsonaro “entra para os anais da diplomacia como o primeiro chefe de Estado a nomear um embaixador que está proibido de deixar o país pela Justiça”. Crivella teve o seu passaporte apreendido no ano passado, quando foi preso, e a devolução do documento depende de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). 

No texto, Gaspari também ressalta outros erros da diplomacia do governo Jair Bolsonaro. “Quando Joe Biden venceu a eleição americana, Jair Bolsonaro levou mais de um mês para felicitá-lo”. “Sua diplomacia acreditava na lorota de Donald Trump, que dizia ter sido roubado. Quatro dias depois da eleição de Pedro Castillo, o capitão disse que ‘perdemos agora o Peru’, pois a seu juízo ‘só um milagre’ reverterá a derrota de Keiko Fujimori", completa.

*

Ex-presidente do BC Carlos Langoni morre vítima de Covid-19

247 - O economista e ex-presidente do Banco Central Carlos Geraldo Langoni faleceu neste domingo (12) em decorrência de complicações provocadas pela Covid-19. Langoni, que tinha 76 anos, estava internado desde dezembro na UTI do hospital CopaStar, no Rio de Janeiro, de acordo com o jornal O Globo. Ele deixa mulher, três filhos, quatro netos e dois enteados. 

Langoni comandou o Banco Central de 1980 a 1983, e também foi chefe-executivo do grupo NM Rothschild no Brasil entre 1989 e 1997. Antes da internação, ele ocupava o cargo de diretor do Centro de Economia Mundial da FGV. O ex-presidente do Banco Central também atuou no processo de privatizações da Vale e Embraer durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

O economista era próximo do ministro da Economia, Paulo Guedes, e atuava como consultor ministerial nas áreas de gás e de abertura comercial.

*

Uma supervia de empulhações

A Supervia, concessionária do transporte ferroviário metropolitano do Rio de Janeiro, entrou em regime de recuperação judicial. Deve R$ 1,2 bilhão e não tem como pagar. A velha Estrada de Ferro D. Pedro II começou a operar em 1854 e desde então tem sido símbolo de um progresso que não chega. Sua história é um passeio pelo descalabro do sistema ferroviário, pelas maquinações do andar de cima e pelas empulhações oferecidas ao andar de baixo, que paga as contas e viaja em trens ruins.

Ela nasceu privada e, ao longo de 167 anos, viveu num pingue-pongue. Foi uma estatal federal e passou a ser estadual. Era privada, foi estatizada, viu-se privatizada e, novamente estatizada. Em 1998 voltou a ser privatizada e desde então mudou de dono três vezes, passando pelas mãos da empreiteira Odebrecht. A cada movimento, prometia-se um grande futuro aos passageiros. Coisa como uma extensão do Metrô e trens de qualidade transportando um milhão de pessoas por dia.

Desde 2019 a Supervia pertence à empresa Gumi Brasil, controlada por um consórcio da japonesa Mitsui. Suas dificuldades foram atribuídas à perda de passageiros provocada pela pandemia. É verdade, mas não é tudo. Olhando-se para a lista de credores afetados pela recuperação judicial, sente-se um forte cheiro de queimado. A maior vítima é o velho e bom BNDES, com um espeto de R$ 840 milhões (69% do passivo). Sobrou para a Viúva.

O segundo maior credor da Supervia é a Light, que fornece energia aos trens. O milagre da privatização mostrou suas rachaduras já em 2001, quando a Supervia devia R$ 24 milhões à Light. Em 2016, antes do surgimento do coronavírus, a dívida estava em R$39 milhões e a Light pediu à Justiça a falência da empresa.

Os atuais administradores da empresa não são responsáveis pelos lances tenebrosos de sua história, mas a patuleia que paga impostos e tarifas não deve esquecê-los. Durante o mandarinato da Odebrecht, a Supervia administrava também o famoso teleférico do Morro do Alemão, aquele que fez a doutora Christine Lagarde, do FMI, se sentir nos Alpes. Parado, tornou-se uma ruína e seu patrono, o ex-governador Sérgio Cabral, está na cadeia. Em 2009, a milícia de seguranças da empresa chicoteou passageiros em estações congestionadas e seu diretor de marketing e recursos humanos explicou: “Quem segura as portas é marginal. (...) Pode ter havido excessos. (...) Quem abre a porta é marginal, é crime. (...) Todos os passageiros que cumprem as regras são excelentemente tratados. Aqueles que são marginais, prendem a porta e fazem baderna não podem ter o mesmo tipo de tratamento”.

No mundo das ferrovias existem dois bons negócios. Um deles é vender passagens. O outro é fornecer equipamentos. Se os maiores credores da Supervia fossem esses fornecedores, seria o jogo jogado.

No rastro do pedido de recuperação judicial da Supervia, a Fetranspor, guilda das empresas de ônibus do Rio, puxou o argumento da perda de receita pela pandemia. Sustentam que o governo deve garantir o equilíbrio econômico-financeiro das companhias para assegurar a continuidade dos serviços. (Maganos da Fetranspor passaram temporadas na cadeia, mas essa é outra história.)

Assim é a vida do carioca. Faltam vacinas, o transporte público encarece e é ruim, mas abundam avanços nas tarifas e ataques à bolsa da Viúva.

A diplomacia de Bolsonaro

Quando Joe Biden venceu a eleição americana, Jair Bolsonaro levou mais de um mês para felicitá-lo.

Sua diplomacia acreditava na lorota de Donald Trump, que dizia ter sido roubado.

Quatro dias depois da eleição de Pedro Castillo, o capitão disse que “perdemos agora o Peru”, pois a seu juízo “só um milagre” reverterá a derrota de Keiko Fujimori.

Demorou para reconhecer um resultado e apressou-se para admitir o outro.

Nomeando Marcelo Crivella para a representação do Brasil na África do Sul, Bolsonaro entra para os anais da diplomacia como o primeiro chefe de Estado a nomear um embaixador que está proibido de deixar o país pela Justiça.

O capitão ganhou uma

Depois de ter sido chamado de Bolsonero pela revista Economist, o capitão ganhou uma, na Inglaterra.

O British Museum abriu a exposição “Nero, o homem atrás do Mito”.

O imperador romano é dado por doido. Nero teria cantado durante o incêndio de Roma, em julho de 64. Coisa de milicianos da História, pois ele não estava na cidade.

Depois que Nero se matou, Roma foi governada por três generais num só ano. Nasceu assim a expressão “anarquia militar”.

De Waal e os Camondo

Depois de ter publicado o magnífico “A Lebre dos Olhos de Âmbar”, o inglês Edmund de Waal, veio com um novo livro. É “Letters to Camondo” (“Cartas para Camondo”).

De Waal é um exímio ceramista e refinado intelectual. Nos dois livros, lida com a história de seus ancestrais, os banqueiros judeus Ephrussi e Camondo. Milionários em Viena e em Paris, foram empobrecidos e perseguidos pelos colaboracionistas franceses.

Quem já viu o quadro “Azul e Rosa”, de Auguste Renoir no Masp, achará suas duas meninas no livro. Elizabeth, a de vestido rosa, foi presa em 1944, aos 66 anos, e morreu em Auschwitz. Alice, a de azul, tornou-se Lady Cavendish e viveu até aos 89 anos.

Num capítulo, em doze páginas, De Waal expõe sem um único adjetivo o que foi a perseguição aos judeus na França. Em 1942 eles foram proibidos de sair à noite e de ter bicicletas.

A edição brasileira sairá no ano que vem.

Boa ideia

A Caixa Econômica está estudando uma boa ideia: um subsídio para policiais militares que venham a comprar casa própria.

Esses policiais ganham mal. Contudo, sabe-se que Fabrício Queiroz, chevalier servant da família Bolsonaro, e Adriano da Nóbrega, o miliciano que chefiava o Escritório do Crime, estiveram na Polícia Militar do Rio. A iniciativa precisa de uma saída de emergência.

Se o policial se meter em falsos tiroteios, milícias ou serviços de segurança para contraventores, perde o subsídio e compensa a Caixa.

Sem isso, a iniciativa poderá virar um ProMilícia.

Madame Natasha

Madame Natasha chefia uma milícia para defender o idioma, usa carro blindado e veste capacete de escafandro, mais um colete à prova de balas.

Ela concedeu uma bolsa de treinamento ao ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, coronel Élcio Franco, aquele que usava brochinho de caveira apunhalada. Ele foi à CPI e disse que a terceira fase dos testes de imunizantes era um “cemitério de vacinas”.

No dia da fala do coronel a Covid matou 2.334 pessoas.

Natasha acredita que ele podia ter dito “arquivo de vacinas”.

O tal de Queiroga

Bolsonaro não improvisa. Ao chamar o “nosso ministro da Saúde” de “um tal de Queiroga”, mostrou-lhe o cabo do punhal.

Juca disse tudo

O repórter Juca Kfouri disse tudo:

“Cova America”.

*

Com máscara | Opinião - O Globo * Bolsonaro e a domesticação das instituições

Terça-feira, dia 8, já noite. Na papelaria Kalunga abrigada num shopping na Enseada do Suá, em Vitória, ocorre um diálogo carregado. Tipo pano rápido, porém eloquente.

1) Funcionário solicita a um cliente o uso de máscara facial de proteção para poder atendê-lo.

2) Cliente diz “não”.

3) Funcionário explica ser lei.

4) Cliente responde: “Eu faço a minha lei, não cumpro leis”. Saca uma arma e a aponta para o rosto do funcionário.

5) Cliente conclui a compra com outra vendedora, sai da loja rindo. Sem máscara.

Segundo o repórter Caíque Verli, da TV Gazeta, o funcionário ameaçado registrou a ocorrência em delegacia, e a pessoa que testemunhou o ocorrido preferiu não se identificar. Compreende-se. Estamos num país onde o recurso a armas para “cidadãos de bem” é incentivado e facilitado a canetadas pelo chefe da nação.

O cliente do shopping de Vitória é apenas mais um espécime do Brasil gestado por Jair Bolsonaro — antecipou-se sem saber à clara intenção presidencial de erradicar a obrigatoriedade do uso de máscara. O anúncio feito por Bolsonaro de forma oblíqua, porém oficial, sugeriu o caminho: caso queira permanecer no cargo, “um tal de Queiroga” — designação usada pelo presidente para seu quarto ministro da Saúde, Marcelo Queiroga — deveria fazer um “estudo” sobre a inutilidade da proteção facial para quem já foi vacinado ou infectado. “Vamos ficar reféns de máscaras até quando?”, pergunta o mandante, sem esconder o asco do exemplar entre os dedos. Pelo fato de o vírus ser invisível e estar naufragando seu governo, Bolsonaro parece ter transferido à singela máscara o papel de inimigo mais detestável — ela é física e insultuosa, pois explicita a morte que ronda o país. É preciso varrê-la de cena, portanto. Sumir com este que é, além da vacina, nosso melhor escudo para não chegarmos tão depressa às 500 mil vidas varridas pela Covid-19.

Como previsto, e foi intencional, o proclama oficial injetou fervor nos mais crédulos, confundiu e atordoou os menos informados e exasperou a repulsa de quem se esforça para não perder a sanidade. Vale conferir o semblante de alarme represado do doutor Drauzio Varella ao ser entrevistado no programa “Em pauta”, da GloboNews. Havia inabitual angústia na fala e no olhar de quem, há décadas, nos explica com serenidade e saber as mazelas da saúde pública nacional. Por honrado, ele não fugiu a uma pergunta sobre o que o doutor Queiroga deveria fazer para honrar a profissão, se instado a produzir um relatório nos moldes pedidos. “Pedir demissão”, respondeu.

Existem inúmeros vocábulos para definir um chefe de nação que necessita ser idolatrado como “mito” por um rebanho. Difícil é encontrar linguagem publicável, em qualquer idioma, para retratar um presidente que se autodefine como “imorrível”, “imbrochável”, “incomível”. Voltemos, portanto, a nosso personagem do shopping.

“Eu faço a minha lei, não cumpro leis”, arrostou o valentão de arma em punho de Vitória. Palavras ainda não pronunciadas ipsis litteris pelo presidente do Brasil, embora pareçam estar na raiz de seus movimentos — em três anos no poder, Bolsonaro já domesticou a Procuradoria-Geral da República, a Advocacia-Geral da União, as Forças Armadas, o Coaf e quase consegue fazer estrago no Tribunal de Contas da União. No seu governo impera a teia do “paralelo” no lugar do oficial, desdenha-se o valor de instituições, da ciência, da cultura, das gentes múltiplas que compõem o Brasil. Tudo a céu aberto e cada vez mais desenvergonhado, com foco único no embate eleitoral de 2022. Ou antes, se preciso.

A edição mais recente da revista “Cult” abriga um sólido artigo do desembargador Marcelo Semer. Convém lê-lo na íntegra, embora o título já aponte para a tese central: “Os negacionistas somos nós”. O autor nos faz percorrer quanto instituições que vão da grande imprensa ao STF, dos partidos de oposição à opinião pública, uma a uma, acabaram aceitando o que professavam ser inadmissível. “O que as instituições funcionando não perceberam”, escreve o autor, “é que o governo é sua própria sombra, ele funciona no paralelo porque ele é o negativo das instituições. Ele não tem um ‘gabinete do ódio’; ele é um gabinete de ódio, porque o ódio é essencial para a política de destruição que nunca escondeu. Dizem que eles [o mandatário e seus operadores] são negacionistas, mas não é verdade. Negacionistas são os que se recusam a ver. Ou veem e se recusam a aceitar o que veem...”.

Em outras palavras, nós. Sabemos ser no escuro que os olhos começam a enxergar. Estamos no escuro, começando a enxergar — de máscara e com a ajuda da CPI.

Dorrit Harazin - assinatura

Por Dorrit Harazim

*

Míriam Leitão: Um terabyte de provas contra o governo na CPI

Um ‘tera’ de provas contra o governo | Míriam Leitão - O Globo

Alessandro Vieira

Um criminalista, que já advogou para milicianos, foi parar numa negociação internacional com a Pfizer, indicado pelo governo. Cem mil brasileiros morreram pelos atrasos deliberados na compra de vacinas. Com a Covaxin, o governo quis fazer contrato, ainda na segunda fase, e pagar adiantado. Foi a única a ter um intermediário e era uma empresa ligada a outra suspeita de fraude. Tudo isso está em um terabyte de informação que a CPI já acumulou e deve ser avaliado, segundo o senador Alessandro Vieira, por um grupo de juristas para tipificar os crimes cometidos pelo governo federal na crise sanitária.

— A CPI conseguiu mostrar que existe uma lógica por trás de toda esta onda de equívocos do governo federal. O raciocínio era tentar contaminar o mais rapidamente os brasileiros, buscando a impossível imunidade de rebanho — disse Vieira.

O presidente Jair Bolsonaro continua nessa mesma trilha, descrita na CPI. Atribuiu ao TCU uma tabela em que metade das mortes de Covid tinha outra causa e foi desmentido pelo tribunal. Em Goiás, disse que as vacinas são “experimentais”, como a cloroquina. No Planalto, afirmou que o “tal" Queiroga estava “ultimando” um parecer para dispensar o uso da máscara. No Espírito Santo, fez uma aglomeração, tirou a máscara, estimulando todos a fazerem o mesmo. E passou a semana preparando a manifestação de motos em São Paulo.
Se os atos são explícitos, por que fazer uma CPI? Desde que a Comissão começou a trabalhar, acumularam-se provas, evidências, linhas de investigação sobre a maneira criminosa com que o governo conduz esta pandemia.

— O governo deliberadamente atrasou a compra de vacinas. No fim do ano passado, o Brasil poderia ter 4,5 milhões de vacinas da Pfizer e 45 milhões de coronavac. A nosso pedido, o professor Pedro Hallal fez uma conta. Uma vez aplicadas as vacinas, no momento em que elas estiveram disponíveis, no fim do ano e começo de 2021, qual seria a correção de curva e redução das mortes? Ele estima que 100 mil mortes teriam sido evitadas e entre 250 mil a 300 mil internações não teriam ocorrido — diz o senador Alessandro Vieira.

Foi uma semana de muita mentira na CPI. O ministro Marcelo Queiroga disse que foi dele a decisão de não nomear a médica Luana Araújo. Havia atribuído, anteriormente, ao Palácio, “afinal, o regime é presidencialista”. O ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde coronel Élcio Franco foi desmentido por vídeo enviado por internauta. Ele disse que a negociação com o Butantan nunca foi interrompida. No vídeo, ele aparece dizendo “não vamos comprar a vacina da China”. Por que mentem os governistas? Para blindar o presidente. Só que Bolsonaro repete a mesma conduta temerária que aumenta as mortes.

Nesse um terabyte da CPI tem a informação de que a sucessora de uma empresa de nome Global Medicamentos, suspeita de fraudes na gestão do ex-ministro Ricardo Barros, na Saúde, é a intermediária da Covaxin. Com essa o governo teve pressa em negociar. O advogado Zoser Plata Bondim de Araújo, com milicianos na sua lista de clientes, negociou com a Pfizer, em nome do governo. Dinheiro público foi usado em remédio que não funciona para o Covid-19.

— Houve uma ação direta do próprio presidente da República em benefício das empresas que produzem cloroquina em negociações internacionais. O mundo inteiro correndo atrás de vacinas e o Brasil dificultando ao máximo a compra. Aquilo que o presidente não fez pela vacina fez pela cloroquina — diz o senador.

Há muita informação já coletada pela CPI, há documentos oficiais mostrando os erros e omissões do governo, mas o que pode fazer a CPI, de fato? Ela encaminhará à Procuradoria-Geral da República. “Depois de enviar à PGR a lei não prevê mais nada” , me disse um procurador. O senador acha que, mesmo assim, a CPI tem que fazer o seu papel.

— A gente tem essa compreensão da limitação da CPI. Ela não vai poder fazer denúncia, pedir impeachment. Vai fazer um relatório que será bastante contundente para que a sociedade organizada cobre providências. Vamos avançar para tipificar a conduta de Bolsonaro e construir, mesmo que seja para o futuro, medidas que evitem ter um presidente que claramente descumpre a lei de forma ostensiva. Não criamos mecanismos para isso. Era imprevisível. Agora sabemos que existe.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

*

Saiba como Ecko e o irmão fundaram a 'narcomilícia', a mais poderosa do Rio

*

Saiba como Ecko e o irmão fundaram a 'narcomilícia', a mais poderosa do estado do Rio

Ao assumir o legado de Carlinhos Três Pontes, o miliciano só tinha em mente tornar a milícia do clã Braga a mais poderosa do estado do Rio
Ecko e o irmão fundaram a 'narcomilícia', a mais poderosa do estado do Rio Foto: Reprodução
Ecko e o irmão fundaram a 'narcomilícia', a mais poderosa do estado do Rio Foto: Reprodução

RIO - Ao assumir o legado do irmão Carlos Alexandre da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes, Wellington da Silva Braga, o Ecko, só tinha uma coisa em mente: tornar a milícia do clã Braga a mais poderosa do estado do Rio. E conseguiu. Mas, da mesma forma que Carlinhos, o chefe da milícia mais temida e poderosa teve o mesmo destino: ambos foram mortos pela Polícia Civil, baleados na mesma favela, Três Pontes, em Santa Cruz, na Zona Oeste, primeiro território dominado por eles.

Não à toa, Carlinhos incorporou o nome da favela ao seu sobrenome. Até 2014, ele era apenas traficante de um lugar só. Puxou Ecko, o caçula, para ser seu homem de confiança. Acabou ingressando numa das principais e mais antigas milícias da Zona Oeste, que passou por uma disputa interna por conta de sucessivas prisões de chefes do bando. Carlinhos acabou caindo nas graças do ex-PM Toni Ângelo de Souza Aguiar, então no comando, que o colocou no topo da hierarquia da quadrilha.

Com a prisão de Aguiar, Carlinhos o sucedeu e ampliou os negócios ilegais, incluindo o tráfico de drogas. Até então, não se tinha conhecimento de que milicianos atuavam no comércio de entorpecentes, daí a expressão “narcomilícia”, criada pela polícia, ou seja, a junção da venda de drogas com a exploração de serviços pela milícia.

Em 2017, morre Carlinhos, assume Ecko. Às custas de muitas execuções à sangue frio, o novo chefe se manteve no comando, conquistando o respeito de outros donos de milícias. Um deles foi o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Adriano Mendonça da Nóbrega, morto num confronto com policiais da Bahia, de acordo com laudo da perícia daquele estado.

Apesar de histórias diferentes de vida, uma vez que Adriano tinha formação militar, enquanto Ecko vinha do tráfico, a dupla manteve amizade e respeito um com outro. Adotaram um modelo semelhante ao empregado pelos “capos” do jogo do bicho, em que um não invade o território dominado pelo outro. Ecko, inclusive, conseguiu manter o mesmo diálogo com outros milicianos, evitando mortes em suas áreas. Com menos homicídios, ele evitava também chamar atenção sobre seus domínios, expandindo-se em direção à Costa Verde e à Baixada Fluminense.

Segundo a Polícia Civil, a organização criminosa de Ecko faturava R$ 15 milhões em atividades ilícitas que vão desde a cobrança de taxas de proteção, passando pelo contrabando de cigarros, extração ilegal em areais até aluguel e venda de armas para quadrilhas. A morte do miliciano desestruturou a organização criminosa de Ecko. Agora resta saber quem ocupará a vaga deixada por ele, se o pacto entre as milícias será mantido e quem será o próximo alvo da polícia. Ainda restam dois irmãos no clã.

*

Ecko: Saiba como o servente de pedreiro se tornou o miliciano mais procurado do Rio

Sua chegada ao controle da organização criminosa pode ser considerada um 'negócio de família'
Miliciano Wellington da Silva Braga, o Ecko Foto: Reprodução
Miliciano Wellington da Silva Braga, o Ecko Foto: Reprodução

RIO - Wellington da Silva Braga, o Ecko, era servente de pedreiro e se tornou o miliciano mais procurado do Rio, com recompensa de R$ 10 mil por informações ao Disque-Denúncia que levassem a seu paradeiro. Sua chegada ao controle da organização criminosa pode ser considerada um “negócio de família”. O comando tinha ficado vago em abril de 2017, após a morte, em confronto com a polícia, de seu irmão, Carlos Alexandre Braga, o Carlinhos Três Pontes. Ecko não esperou ordens dos chefões presos para assumir a milícia e começou rapidamente a traçar sua ascensão.

Usuário de drogas e apontado como um homem violento, seu nome desagradou parte dos integrantes do bando. Mas, da mesma maneira que o irmão havia feito anos antes, o miliciano foi eliminando possíveis concorrentes e desfazendo as resistências. No caminho, foi ficando um rastro de sangue.

Diferentemente de seu antecessor — considerado um chefe espalhafatoso, que deixava ser bastante filmado e fotografado, frequentava bailes, tinha um time de futebol amador e ia aos campeonatos, onde era homenageado na beira do campo —, Ecko tinha um perfil mais discreto. Reservado, não era de aparecer em público. Tanto que, até pouco tempo, a polícia só tinha acesso a duas fotos do criminoso: a 3x4 tirada para sua identidade e uma em que aparece abraçado a uma mulher, durante uma festa.

Se Carlinhos Três Pontes tinha sido fundamental para que a milícia expandisse suas atividades para áreas dominadas pelo tráfico, Ecko seguiu tendo como estratégia a manutenção de uma aliança com uma facção criminosa no estado. Ele admitia ex-traficantes em seu grupo e permitia o tráfico de drogas em territórios nos quais mantinha o controle, em troca de uma parte dos lucros.

Um aliado importante na trajetória de Ecko foi o ex-policial militar Adriano da Nóbrega, acusado de comandar a milícia de Rio das Pedras, morto numa operação policial no interior da Bahia, em fevereiro de 2020. A cumplicidade entre os dois tornou possível uma inédita aliança entre diferentes grupos criminosos, que acabou ampliando o avanço dos paramilitares pelo estado. Eles passaram a ser sócios, atacando favelas dominadas pelo tráfico e, juntos, defendendo seus redutos de ataques rivais.

Além disso, a expansão da milícia da Zona Oeste pela Baixada Fluminense se tornou possível graças a uma série de pactos fechados entre Ecko e milicianos locais, que tinham dificuldade de se estabelecer em razão das investidas do tráfico. Os acordos, na prática, criaram uma grande coalizão chefiada por Ecko.

Apesar de todo esse poder, que se estendia também pela Costa Verde, Ecko nunca tinha sido preso, e seu sigilo telefônico nunca havia sido quebrado. Contra ele, pesava uma longa lista de mandados,incluindo crimes como homicídio, extorsão, posse ou porte ilegal de arma, associação criminosa e ocultação de bens.

*

Aliança inédita entre Ecko e capitão Adriano permitiu coalizão com diferentes facções e expansão da milícia do Rio; confira

A ascensão do novo chefe colocou em desuso o antigo nome Liga da Justiça que identificava o grupo miliciano que atuava na Zona Oeste
­ Foto: Montagem sobre foto de reprodução
­ Foto: Montagem sobre foto de reprodução

RIO - Se Carlinhos Três Pontes, irmão mais velho de  Wellington da Silva Braga, o Ecko, foi fundamental para que a milícia expandisse suas atividades para áreas dominadas pelo tráfico, após sua morte, a ascensão do novo chefe colocou em desuso o antigo nome Liga da Justiça que identificava o grupo miliciano que atuava na Zona Oeste. A partir daí seus próprios integrantes passaram a ser conhecidos por Bonde do Ecko. O líder da milícia foi morto neste sábado em uma operação da polícia.

A aproximação entre Ecko e Adriano da Nóbrega, também miliciano, ex-capitão do Bope apontado como um dos maiores matadores de aluguel do Rio, teve consequências importantes na geopolítica do crime no Rio. A cumplicidade entre os dois tornou possível uma inédita aliança entre diferentes grupos criminosos, que acabou ampliando o avanço das milícias pelo estado. Se antes os grupos paramilitares das zonas Oeste e Norte agiam de forma independente e descoordenada, após a aproximação entre Ecko e Adriano passaram a ser sócios, atacando favelas dominadas pelo tráfico e, juntos, defendendo seus redutos de ataques rivais.

A expansão da milícia da Zona Oeste pela Baixada se tornou possível graças a uma série de pactos fechados entre Ecko e paramilitares locais, que tinham dificuldade de se estabelecer em razão das investidas do tráfico. Os acordos, na prática, criaram grande coalizão chefiada por Ecko. Com essa união, milicianos da Baixada — muitos deles, policiais — se beneficiaram obtendo reforço de armas e homens, o que significa proteção para expulsar traficantes ou facções inimigas da região.

Já Ecko, ao passo que fornecia mais aparato aos novos aliados, recebia em troca uma parte do que as quadrilhas locais arrecadavam com suas atividades criminosas — exploração de gás, TV a cabo, transporte alternativo (vans e mototáxis) e cobrança de “taxas de segurança”.

Uma mensagens num celular apreendido, em fevereiro de 2018, a polícia descobriu que o chefão, às vésperas do assassinato da vereadora Marielle Franco, estava preocupado com a repercussão de ações de pistoleiros e com possíveis consequências.

Mão de ferro

Wellington da Silva Braga, o Ecko, era considerado o miliciano mais procurado do Rio de Janeiro. O Disque Denúncia oferecia recompensa de R$ 10 mil por informações que levassem ao seu paradeiro. Também era conhecido por controlar com mão de ferro a maior milícia do estado. E possuía uma longa lista de mandados contra si, por homicídio, crimes de organização criminosa, extorsão, posse ou porte ilegal de arma, associação criminosa e ocultação de bens. É acusado, entre outras coisa, de ter emprestado armas e homens para a guerra contra o tráfico na Praça Seca, na Zona Oeste, bairro que há anos sofre com tiroteios quase que diários.

Ao contrário de outros milicianos, em geral policiais, Ecko era servente de pedreiro. Ao assumir o posto do irmão, expandiu os braços da milícia e passou a dominar comunidades na Zona Oeste do Rio e na Baixada Fluminense, diretamente ou por meio de seus aliados.

Segundo o Portal dos Procurados, investigações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) apontavam que uma de suas estratégias era a de manter aliança com uma facção criminosa no estado, além de admitir ex-traficantes em seu grupo e permitir o tráfico de drogas em territórios os quais mantém controle ao ganhar parte dos lucros.

Se Carlinhos Três Pontes, irmão mais velho de Ecko, foi fundamental para que a milícia expandisse suas atividades para áreas dominadas pelo tráfico, após sua morte, a ascensão do novo chefe, colocou em desuso o antigo nome Liga da Justiça que identificava o grupo miliciano que atuava na Zona Oeste. A partir daí seus próprios integrantes passaram a ser conhecidos por Bonde do Ecko.

*

Pandemia provoca revolução sexual com maior uso de aplicativos e consumo de pornografia

Restrições impostas pela Covid-19 impulsionaram novos hábitos sexuais e mudaram relação com o desejo
Escultura 'Still in one piece III' de Johnson Tsang, obra do projeto Covid Art Museum Foto: Johnson Tsang / Divulgação
Escultura 'Still in one piece III' de Johnson Tsang, obra do projeto Covid Art Museum Foto: Johnson Tsang / Divulgação

O desejo tem força, o desejo tem asas. Mas aí no meio do caminho teve a pandemia, que bagunçou o coreto do conceito. Modulou a força, aparou as asas, ergueu muros. Com a quarentena, deixar a imaginação fluir se tornou praticamente a forma mais segura de adequar o prazer aos novos protocolos. Mais de um ano depois, por onde caminha o desejo?

Enquanto o mundo foi se fechando, sites de filmes pornográficos abriram suas portas, com amostras de conteúdo gratuito para entreter os confinados, e aqueceram seus números. A indústria de produções de “conteúdo adulto” teve que encaixar seu processo nos moldes do distanciamento social, diminuindo cenas com vários atores por conta do alto custo de testagem para Covid-19. Aplicativos de paquera, como Tinder e Happn, multiplicaram usuários em busca de um match para chamar de seu e registraram um sensível aumento na duração das conversas entre os adeptos.

O tema, hábito sexual em tempos de coronavírus, está no horizonte de uma pesquisa que envolve cinco universidades do país. Também pulsa em trabalhos exibidos num museu virtual criado para dar corpo às aflições da alma quarentenada.

— A sexualidade é algo lúdico, envolve ficção, tem regras, relação com o outro. Com o cotidiano modificado pela pandemia, muitas vidas foram empurradas para a abstinência. Isso é fator de risco para a saúde mental. O corpo está confinado, mas a fantasia, não. E, se você não encontra uma solução, enlouquece — analisa o psicanalista Christian Dunker.

'Pandemic Love' de Santi Graph, obra do projeto Covid Art Museum Foto: Santi Graph / Divulgação
'Pandemic Love' de Santi Graph, obra do projeto Covid Art Museum Foto: Santi Graph / Divulgação

A busca por sanidade pode ser contabilizada. Os canais Playboy TV e Sexy Hot tiveram aumento de 13,1% e de 11,7%, respectivamente, no tempo médio assistido, entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021, se comparado com meses pré-pandêmicos. Na internet, a curva segue o mesmo caminho, de alta. No primeiro bimestre deste ano, o site do Sexy Hot já superou em 33% as visualizações registradas em março e abril de 2020.

— Essa tendência de crescimento já vem ocorrendo nos últimos anos, porém, por conta da pandemia, tivemos um aumento de intensidade — diz Cinthia Fajardo, diretora-geral do Grupo Playboy do Brasil, que administra o Sexy Hot.

Produtoras que, de início, não conseguiram surfar na onda do isolamento viram que o melhor era unir forças. Dez delas, incluindo Xplastic e SafadaTV, criaram em maio o streaming Quente Club.

— A pandemia mudou a forma de consumo. As pessoas estão dispostas a experimentar novos conteúdos — diz Roy LP, diretor-geral da LFV, que administra a plataforma.

A psicanalista Regina Navarro Lins sabe do que ele está falando:

— O desejo faz parte da sexualidade, da vida das pessoas. Se as pessoas estão confinadas e não podem transar como gostariam, elas se masturbam, transam pela internet com alguém do outro lado ajudando na excitação ou recorrem a filmes pornôs. E eles estão melhorando, repensando o prazer feminino, incluindo mais erotismo. As pessoas acabam se sentindo mais seguras vendo a pornografia, e me refiro àquela que não é violenta, discriminatória.

Tudo tem limite

O publicitário e músico Igor Doizeme, de 38 anos, é um desses. Solteiro e fiel ao isolamento, ele diz que, na falta do mundo real, buscou o virtual:

— Deixar de praticar sexo na vida real me fez recorrer aos filmes. Deixava para ver mais no fim da noite. No home office, é preciso estabelecer horários para tudo.

Estabelecer limites também foi preciso. Mesmo com o mercado da fantasia aquecido, a pandemia levou as produtoras a reduzirem o número de lançamentos e a reverem protocolos. O Sexy Hot, que tinha previsto lançar 24 filmes em 2020, restringiu essa conta para nove, sendo três gravados na quarentena. Para baixar os custos e seguir as novas regras de prevenção contra a Covid, algumas das saídas foram reduzir o elenco, evitando cenas de sexo em grupo, e gravar com atores que já são casados.

A pandemia entrou explicitamente na história. “Oi, sumido”, lançado em janeiro, mostra um casal que decide se encontrar em meio aos protocolos de segurança. Para divulgar o filme, foi usada tecnologia de realidade aumentada, com o espectador tendo a sensação de que os protagonistas (o.k., uma versão tridimensional deles) estavam ao seu alcance. 

Obra do projeto Covid Art Museum, 'Te espero depois da quarentena', de Nina Garcia
Foto: Divulgação
Obra do projeto Covid Art Museum, 'Te espero depois da quarentena', de Nina Garcia Foto: Divulgação

A atriz Mia Linz, de 29 anos, que estrela a produção, se divertiu com a reação dos fãs:

— Eu me tornei a companhia mais segura na quarentena. As pessoas me mandaram fotos me projetando em cima da geladeira, na praia...

'Boom da namoração'

Tão populares em tempos pré-pandemia, os aplicativos de paquera não ficaram off durante o isolamento forçado. Ao contrário. Números mostram que estiveram mais on do que nunca.

No Brasil, o Happn teve um aumento de 19% de inscritos no ano passado, o que representa 3,6 milhões de pessoas. O Tinder não divulga o número de usuários, mas um relatório de tendências mostra que a brincadeira de deslizar para a direita ou para a esquerda para aprovar ou rejeitar candidatos aumentou em 11%. Num reflexo de mudança de hábito, aponta que as conversas ficaram 32% mais longas do que as registradas no ano passado.

O Grindr, aplicativo voltado para o público gay, também registra novidade no comportamento de usuários. Uma pesquisa feita com dez mil pessoas em diferentes países, incluindo o Brasil, revela que 88% passaram a discutir mais sobre a Covid-19 para entender como o possível parceiro está se cuidando e avaliar se vale um encontro presencial. O flerte também mudou, ampliando o leque: 60% afirmam que, na pandemia, passaram a conversar com pessoas que antes não estariam em seu radar.

O Tinder diz que quase metade dos usuários conversou por vídeo com o match na pandemia. No Grindr, 71% dos entrevistados disseram que apenas trocar fotos e vídeos já ajudou no confinamento, e 48% afirmaram ter tido encontros virtuais no período.

— Sou um fervoroso defensor de aplicativos de relacionamentos. Porque sou um psicanalista que viu a vida de pessoas da terceira idade mudarem completamente, viu neuróticos solitários se transformarem muito — diz Christian Dunker. — Há quem reclame que estas plataformas transformam pessoas em um açougue. Mas isso se você se tratar assim também.

Novas teses

A mudança de hábito sobre amor e sexo na pandemia não tem sido ignorada pelo mundo acadêmico. Um grupo de cinco universidades brasileiras (UFRGS, Uerj, UFMG, UFPE e UNB) está desenvolvendo uma pesquisa, chamada Sexvid, para entender os reflexos nas práticas sexuais dos brasileiros. Mesmo em estágio inicial, o estudo já consegue capturar o que o universo dos apps vem indicando.

— Percebemos que as conversas em aplicativos estavam ficando mais longas, porque os usuários passaram a fazer uma espécie de sexo mais investigativo (risos) — conta Paula Sandrine, doutora em Antropologia pela UFRGS e uma das coordenadoras da pesquisa. — Isso para entender como o parceiro está se cuidando, para tentar mapear um estilo de vida, calcular a distância, até para saber se para encontrar será preciso pegar transporte público ou ir a pé, se está trabalhando remoto ou não.

E como será o amanhã, depois que tudo isso passar? No estudo do aplicativo Happn, com 1.500 brasileiros, 77% afirmaram ter como resolução encontrar num novo amor em 2021. Por outro lado, 32% admitiram ter medo de voltar a ter intimidade com alguém.

— Certamente teremos pessoas com a síndrome da cabana, com medo do outro, porque passaram dois anos pensando que tinha ali um perigo — diz Dunker. — Mas também acredito no “boom da namoração”.

*

Supressão e subversão eleitoral: entenda as leis que cerceiam o direito de voto nos Estados Unidos

Projetos impulsionados por Legislativos controlados por republicanos ganharam força após ofensiva de Trump para reverter eleição de 2020
Adesivos "eu votei" decoram restaurante em Austin, no Texas Foto: TAMIR KALIFA / NYT/31-10-2020
Adesivos "eu votei" decoram restaurante em Austin, no Texas Foto: TAMIR KALIFA / NYT/31-10-2020

Receba notícias em tempo real no app.

Bastou a Suprema Corte dos EUA revogar, em 2013, seções da Lei do Direito de Voto de 1965 para que houvesse uma enxurrada de legislações em estados com forte herança segregacionista para limitar a participação eleitoral de grupos minoritários. Desde as eleições de 2020, no entanto, o processo foi acelerado por Legislativos estaduais controlados pelo Partido Republicano.

As mudanças são retrato da força que o ex-presidente Donald Trump ainda exerce na legenda, e são diretamente associadas à sua "grande mentira" — as acusações falsas de que seria o real vencedor do pleito do ano passado. Em maio, segundo uma pesquisa do instituto Ipsos, 53% dos eleitores republicanos o viam como o verdadeiro presidente.

Para Larry Diamond, hoje um dos cientistas políticos mais renomados do mundo, os projetos apresentados ou aprovados pelos Legislativos estaduais republicanos dividem-se em dois tipos. O primeiro deles é a supressão dos votos, que busca limitar o acesso de grupos minoritários às urnas. Tratam-se, ele diz, de "medidas antidemocráticas, injustas, hiperpartidárias e cínicas" que piorariam a qualidade da democracia americana.

Entre elas, há legislações em estados como Flórida, Arizona, Iowa e Geórgia que limitam o acesso ao voto antecipado e postal — modalidades que são populares entre os democratas. Outro exemplo são leis que fortalecem os requisitos de documentos de identidade na hora do voto.

Defensores da medida apontam que ela é necessária para combater fraudes, apesar de irregularidades desse tipo serem raríssimas no voto presencial. Críticos, por sua vez, argumentam que se trata de uma tática eficiente para minimizar o comparecimento às urnas de grupos minoritários: cerca de 25% dos americanos negros com idade para votar não possuem identidades com foto emitidas pelo governo, segundo dados da União para as Liberdades Civis Americanas (Aclu, na sigla em inglês). Nos EUA, não há um documento de identidade nacional.

A segunda categoria, diz Larry Diamond, são iniciativas que representariam uma "subversão eleitoral", pondo a "existência de uma democracia eleitoral em xeque". Ou seja, pavimentam o caminho para mudar o resultado de um pleito caso seu desfecho seja considerado insatisfatório por algum grupo.

O principal exemplo vem da Geórgia, estado que ajudou a decidir a eleição de 2020 a favor de Biden. Uma das leis aprovadas pelo Legislativo local permite à administração eleitoral, controlada pelos republicanos, suspender os funcionários eleitorais de até quatro condados, substituindo-os temporariamente.

Entre as atribuições da função estão as de certificar resultados de uma eleição e de arbitrar sobre votos sinalizados como possivelmente irregulares. Segundo o site FiveThirtyEight, há legislações similares em ao menos 13 outros estados.

No Texas, no fim de maio, os democratas conseguiram bloquear temporariamente um projeto que facilitaria a anulação de eleições com alegações de fraude. O projeto também dá maior autonomia e autoridade aos observadores eleitorais dos partidos e aumenta as punições por erros ou crimes cometidos por funcionários eleitorais. O presidente Joe Biden classificou a lei como um “ataque à democracia".

— Pondo tudo isso em contexto, não se tratam apenas de mudanças legislativas, mas da perpetuação do esforço de 2020 para reverter a eleição e sustentar a grande mentira —  disse Diamond, que é professor da Universidade Stanford.

Projeto de Biden contra ofensiva republicana para restringir direito a voto é bloqueado no Congresso

Para acadêmicos que lançaram manifesto, iniciativas de Legislativos estaduais republicanos ameaçam a democracia

Receba notícias em tempo real no app.

Em 20 de janeiro, quando Joe Biden tomou posse como presidente dos Estados Unidos, os democratas respiraram aliviados: os freios e contrapesos haviam dado conta do teste de estresse imposto por seu antecessor. Se a cruzada de Donald Trump para reverter o voto popular fracassou, contudo, o risco à democracia americana não desapareceu.

Para a ala mais radical do Partido Republicano, a mal- sucedida ofensiva traça o caminho das pedras para eleições futuras. Os aliados do ex-presidente vêm agindo de modo incisivo para enfraquecer as normas, procedimentos e instituições que ajudaram a frear as ambições de Trump após as eleições de 2020.

Entre janeiro e maio, ao menos 14 Legislativos estaduais sob comando republicano aprovaram 22 leis para restringir o acesso ao voto de grupos minoritários — eleitores que tendem a votar maciçamente no Partido Democrata. Ao menos 61 outros projetos similares estão em fase avançada de tramitação, segundo um levantamento do Centro Brennan para a Justiça.

O presidente dos EUA, Joe Biden, marca 100 dias de governo com pacote de US$ 1,8 trilhão que amplia rede de proteção social. Terceiro grande pacote do governo, que será anunciado hoje em discurso ao Congresso, promove acesso gratuito a faculdades comunitárias, universalização de creches e licença médica remunerada; ricos terão aumento no IR Foto: KEVIN LAMARQUE / REUTERS
O presidente dos EUA, Joe Biden, marca 100 dias de governo com pacote de US$ 1,8 trilhão que amplia rede de proteção social. Terceiro grande pacote do governo, que será anunciado hoje em discurso ao Congresso, promove acesso gratuito a faculdades comunitárias, universalização de creches e licença médica remunerada; ricos terão aumento no IR Foto: KEVIN LAMARQUE / REUTERS

Essas medidas, afirmaram em uma carta aberta cerca de 200 dos principais estudiosos da democracia nos EUA, “estão transformando diversos estados em sistemas políticos que não se adequam mais às condições mínimas para eleições justas e livres. Logo, toda a nossa democracia está em risco”. Entre os signatários estão nomes de peso como Francis Fukuyama, Pippa Norris e Larry Diamond, que conversou com O GLOBO:

— Eu não quero exagerar e dizer que os EUA estão prestes a se tornarem não democráticos, mas também não podemos subestimar a situação. Trata-se de uma ameaça séria às normas e práticas mais fundamentais da democracia — disse o professor de Stanford.

Salvaguardar e ampliar o direito ao voto é declaradamente uma das prioridades democratas para este ano. Na sexta, o procurador-geral Merrick Garland prometeu dobrar a equipe do Departamento de Justiça que combate esforços para limitar o acesso ao voto, avaliar se leis eleitorais dos estados violam normas federais e punir quem pôr em risco a integridade física das autoridades eleitorais.

Obstáculo democrata

O anúncio veio na mesma semana em que a aprovação da Lei para o Povo, o carro-chefe democrata para proteger o direito ao voto, tornou-se praticamente impossível. Buscando padronizar as práticas eleitorais nos estados e facilitar a participação, ela seria a iniciativa mais contundente neste sentido desde a Lei do Direito ao Voto de 1965, que proibiu as práticas discriminatórias adotadas em muitos estados sulistas após a Guerra Civil.

O texto tem uma miscelânea de desejos democratas novos e antigos, mas seus pontos centrais são a criação de regras nacionais básicas eleitorais para os 50 estados, além do registro eleitoral automático de cidadãos. O projeto também ampliaria o voto antecipado e postal — modalidade popular entre os democratas e no cerne na “grande medida de Trump” —  e simplificaria o processo de cadastro e atualização de dados.

Ele também demandaria que os distritos eleitorais fossem traçados por comissões apartidárias, como muitos estados vêm fazendo, e não por Legislativos estaduais. Isso poria fim à uma prática conhecida como gerrymandering, em que o zoneamento eleitoral é definido tendo em mente o benefício de um grupo em detrimento de outro — outra prática usada para minimizar o impacto dos votos de grupos minoritários.

Aprovado pela Câmara em março, o projeto tem o apoio unânime de todos os democratas no Senado, exceto um: Joe Manchin, da Virgínia Oriental. Em um artigo publicado no jornal Charleston Gazette-Mail no último fim de semana, ele disse que vê a proposta como uma “legislação partidária que irá destruir as já enfraquecidas ligas da nossa democracia”.

Obstrução

A ruptura do senador praticamente garante o fracasso da medida em um Senado dividido ao meio. Cada partido tem 50 assentos, mas os democratas têm o controle da Casa, já que uma das incumbências do cargo da vice-presidente, Kamala Harris, é presidir o Senado e dar o voto de minerva, se necessário.

E mesmo uma improvável mudança de ideia de Manchin não abriria alas para a lei. Isso porque a iniciativa esbarraria no regulamento de obstrução do Senado: por ele, qualquer projeto de lei precisa de ao menos 60 votos para superar objeções na plenária. Ou seja, os democratas precisariam converter ao menos 10 republicanos.

Introduzida para proteger escravocratas ainda antes da Guerra Civil, a obstrução foi amplamente usada por segregacionistas do Sul no bloqueio de leis relacionadas aos direitos civis. Nas últimas décadas, tornou-se uma ferramenta valiosa para Mitch McConnell, o poderoso líder republicano no Senado.

Os democratas, por sua vez, tentam promover um debate existencial sobre a existência da obstrução. Para pôr um fim ao regulamento, precisariam apenas da maioria simples que possuem, mas esbarram novamente na falta de apoio de Manchin e de ao menos mais uma colega, a senadora Kyrsten Sinema, do Arizona.

Ambos argumentam que pôr um fim à obstrução seria prejudicial ao bipartidarismo, ao debate e a busca por um lugar comum. Para estudiosos da democracia, no entanto, é o comportamento dos Legislativos estaduais republicanos que representa uma ameaça:

— Em uma democracia, um partido não deveria caminhar pelas beiradas para dificultar deliberadamente a participação de apoiadores do partido adversário ou de certas pessoas devido à sua cor da pele ou etnia — disse Diamond.

Riscos para 2024

Ao invés da Lei Para o Povo, Munchin defende a aprovação de um projeto que restauraria a necessidade do aval federal para mudanças nas legislações eleitorais em nove estados com forte herança segregacionista. Isto fazia parte da histórica lei de 1965, mas foi derrubado pela Suprema Corte em 2013. Desde então, houve uma enxurradas de medidas para limitar o acesso ao voto.

A iniciativa teria o apoio de ao menos uma senadora republicana, Lisa Murkowski, do Alasca, mas não há qualquer sinal de que conseguiria ultrapassar a obstrução. E, por si só, afirmam os 200 estudiosos que assinaram a carta aberta, seria insuficiente: diante dos riscos à democracia, creem ser vital aprovar padrões nacionais de votação e uma gerência eleitoral independente.

Se as manobras de Trump fracassaram em 2020, há um temor crescente de que o desfecho seja outro em um cenário similar nas eleições de 2024, caso os republicanos consigam retomar o controle da Câmara e do Senado nas eleições legislativas de 2022.

“Está cada vez mais claro que é necessária uma ação urgente antes das eleições legislativas de 2022”, disse a professora Pippa Norris em um artigo publicado pela Escola Kennedy de Governo da Universidade Harvard.

Segundo Diamond, a retomada das Casas talvez nem seja necessária. Em vários estados-chave, as iniciativas republicanas podem ser mais que suficientes para alterar o resultado antes da certificação, dando ao partido os votos do Colégio Eleitoral mesmo que à revelia da escolha popular.

Uma possível concretização desses temores, afirmou o cientista político, teria choques globais:

— Seria uma coisa muito ruim. Outros autocratas e aspirantes a autocratas olharam para os EUA e teriam maior legitimidade para tocar planos similares.

*

Deficiência, relações sociais e muito sexo em 'Special', ótima série da Netflix - Patrícia Kogut, O Globo

Patrícia Kogut

Cena da série 'Special' (Foto: Beth Dubber/Netflix)
Cena da série 'Special' (Foto: Beth Dubber/Netflix)

Numa das primeiras cenas de “Special” — série da Netflix que vem dominando as rodas de conversa —, o protagonista dialoga com seu fisioterapeuta. 

Ryan Hayes (Ryan O’Connell, que também é o criador da produção) sofre de paralisia cerebral. 

Ele manca de uma perna e tem dificuldades com os movimentos finos das mãos. 

Não consegue, por exemplo, amarrar cadarços. 

Enquanto se exercita, ele se dirige ao seu interlocutor. 

Faz uma observação sobre um outro paciente que está sendo atendido no mesmo ambiente. 

Diz que sente inveja daquela pessoa porque “ela é mais deficiente que eu”. 

Ryan segue o raciocínio: sente-se num limbo. 

Gostaria de poder se classificar em alguma categoria. 

Esse diálogo diz muito do próprio personagem, claro. 

É uma espécie de apresentação dele. 

E também reflete a sociedade americana e sua infinita capacidade de categorizar grupos de todos os tipos.

A produção tem duas temporadas de oito episódios cada. 

Ela é adaptada da autobiografia de O’Connell, “I’m special: And other lies we tell ourselves to get through our twenties” (em livre tradução: “sou especial e outras mentiras que nos dizemos para atravessar os 20 anos de idade”).

Ryan é gay e saiu do armário no fim da adolescência. 

Passou pela universidade e depois voltou para a casa da mãe, que o criou sozinha. 

Karen (Jessica Hecht) é enfermeira por formação, porém preferiu se dedicar ao filho. 

Está na meia-idade e ainda é bonita. 

Quando a trama começa, o rapaz começa a trabalhar como estagiário na Eggwoke, uma produtora de conteúdo — textos sensacionalistas caça-cliques — de internet. 

A mãe tenta demovê-lo, argumentando que ele é qualificado demais para a vaga. 

Mas Ryan quer começar de algum lugar, deseja se integrar e alcançar alguma independência. 

Sente falta de um namorado.

A relação de dependência com a mãe, a convivência no ambiente de trabalho e a sua vida amorosa — que, depois que deslancha, é agitada — são o coração da trama. 

A amizade sincera que ele constrói com Kim (Punam Patel), também.

O caráter biográfico da série é um de seus inevitáveis atrativos. 

Como o personagem da ficção, O’Connell enfrentou as limitações impostas pela paralisia cerebral.

Seu exemplo é de superação, mas “Special” não é simplesinha e unidimensional, nem deve ser vista assim. 

Não há nem edulcoramento nem coitadismo na trajetória do personagem. 

Ao contrário: 

o rapaz oscila entre as diversas possibilidades de enquadramento social que se abrem para alguém como ele. Ryan pode ou não se encaixar entre os deficientes porque sua deficiência é leve e não incapacitante. 

É doce, engraçado, espirituoso, egoísta, mimado e amoroso, ou seja, uma figura rica e adorável, retratada sem o barateamento da autovitimização. 

Outro elemento importante é o sexo. 

A série não economiza nas cenas em que o protagonista vai para a cama com alguém. 

Se não são mostrados, os detalhes do encontro são falados depois.

É tudo encantador e surpreendente.

Finalmente, vale um elogio para o formato.

Na primeira temporada, os episódios contabilizam pouco menos de 15 minutos. 

Na segunda, eles dobram de tamanho e, ainda assim, são curtinhos.

Não perca, é uma das melhores séries em cartaz.

SIGA A COLUNA NAS REDES

No Twitter: @PatriciaKogut

No Instagram: @colunapatriciakogut

No Facebook: PatriciaKogutOGlobo

*

Jardim Botânico lança nova trilha que liga sítios arqueológicos e monumentos históricos do parque

Batizada de Trilha do Patrimônio, caminho reúne 11 pontos, como a Casa dos Pilões, o Aqueduto da Levada e o antigo portal da Academia de Belas Artes
Nova Trilha do Patrimônio foi inaugurada na manha deste domingo em cerimônia que contou com a presidente do Jardim Botânico, Ana Lúcia Santoro. Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo
Nova Trilha do Patrimônio foi inaugurada na manha deste domingo em cerimônia que contou com a presidente do Jardim Botânico, Ana Lúcia Santoro. Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo

Receba notícias em tempo real no app.

RIO - O parque do Jardim Botânico inaugurou na manhã deste domingo uma nova trilha para que os visitantes apreciem algumas de suas riquezas históricas a partir de um percurso definido. Batizado de Trilha dos Patrimônios, o novo caminho, feito em comemoração aos 213 anos do local, apresenta sítios arqueológicos e monumentos que totalizam 11 pontos, sendo dez localizados no arboreto e um no horto.

A trilha começa no Centro de Visitantes do Jardim Botânico, construção datada de 1576 e localizada na entrada do jardim. De lá, os visitantes seguem o percurso até o Solar da Imperatriz, construção dada de presente por D. Pedro I para sua esposa D. Maria Amélia e sede da antiga Fazenda do Macaco. No trajeto, os visitantes podem apreciar outros pontos históricos como o Museu Sítio Arqueológico Casa dos Pilões, que fazia parte da Real Fábrica de Pólvora, criada por Dom João em 1808; o Aqueduto da Levada, construído em 1853 para captar água do Rio dos Macacos; e pelo portal da antiga Academia de Belas Artes, de 1896, que compõe a paisagem do parque desde 1940.

Após cerimônia de inauguração pela manhã, com a presidente do JBRJ, Ana Lúcia Santoro, a nova Trilha dos Patrimônios ficou disponível para os visitantes na parte da tarde, a partir das 15h. Os 11 pontos contemplados pelo trajeto receberam novas placas de sinalização, com QR-code que disponibiliza informações adicionais.

O Jardim Botânico fica aberto diariamente, do meio-dia às 17h (segunda-feira) e das 8h às 17h (terça a domingo). Os ingressos custam R$ 15 (para residentes da área metropolitana do Rio de Janeiro), R$ 24 (para brasileiros), R$ 45 (para estrangeiros do Mercosul) e R$ 60 (para estrangeiros do resto do mundo). As visitas devem ser agendadas previamente pelo site agendamentovisita.jbrj.gov.br.

*

Governo Trump obrigou Apple a entregar dados de congressistas democratas

Revelação feita pelo New York Times foi confirmada por deputados e integrantes do atual Departamento de Justiça; senadores e inspetor-geral querem investigar uso de ferramentas judiciais para obter dados privados
O Globo e New York Times
11/06/2021 - 18:06 / Atualizado em 11/06/2021 - 18:07
Presidente da Comissão de Inteligência da Câmara, Adam Schiff (E), e o deputado Eric Swalwell (D). Ambos tiveram dados pessoais compartilhados pela Apple com o Departamento de Justiça no governo Trump Foto: AFP
Presidente da Comissão de Inteligência da Câmara, Adam Schiff (E), e o deputado Eric Swalwell (D). Ambos tiveram dados pessoais compartilhados pela Apple com o Departamento de Justiça no governo Trump Foto: AFP

Receba notícias em tempo real no app.

WASHINGTON — O Departamento de Justiça e congressistas dos EUA anunciaram o início de investigações sobre  as denúncias de que o governo do ex-presidente Donald Trump (2017-2021) pediu à gigante da tecnologia Apple os dados privados de deputados, assessores e seus parentes, em uma ação para descobrir a origem do vazamento de informações confidenciais à imprensa.

Segundo o New York Times, que publicou a informação na quinta-feira, o então secretário de Justiça, Jeff Sessions, obrigou, através de ordens judiciais, a Apple a fornecer informações privadas dos deputados Adam Schiff e Eric Swalwell, ambos democratas e integrantes da Comissão de Inteligência — além deles, assessores da comissão, além de seus parentes, também tiveram os dados compartilhados com o Departamento de Justiça a partir de 2017. Os dois foram protagonistas do primeiro julgamento de impeachment contra Donald Trump, em 2019.

Todos os envolvidos confirmaram terem sido informados, mas só recentemente, sobre o compartilhamento dos dados. Sessions, como conta o New York, queria descobrir a origem dos vazamentos de informações relacionadas aos laços entre Trump e a Rússia, em meio às denúncias de interferência de Moscou na eleição de 2016.

— Espero que cada promotor envolvido neste caso seja expulso do departamento — afirmou Swalwell, em entrevista nesta sexta. — Isso cruza a linha do que nós fazemos neste país.

Muito embora esse tipo de investigação sobre vazamentos seja comum no Departamento de Justiça, a vigilância sobre congressistas e seus assessores não é usual, e acendeu um alerta em Washington, dias depois da revelação de que dados privados de jornalistas também foram obtidos pelo governo Trump.

Nesta sexta-feira, o inspetor-geral do departamento, Michael Horowitz, anunciou um inquérito sobre a obtenção dos dados dos congressistas e seus assessores, além de deixar em aberto a possibilidade de uma investigação semelhante sobre as ações contra os jornalistas do Washington Post, CNN e New York Times.

“Essa revisão examinará a observância por parte do departamento com as políticas e procedimentos aplicáveis, e se o seu uso, ou as próprias investigações, foram baseadas em considerações impróprias”, escreveu Horowitz, em comunicado. Mais cedo, a vice-procuradora-geral, Lisa Monaco, também mencionou o caso de maneira crítica.

'Aparelhamento da Justiça'

A denúncia também foi recebida com indignação no Congresso, onde os democratas do Senado anunciaram que vão investigar o caso por conta própria e pedir o depoimento de funcionários e ex-funcionários do departamento, incluindo do antigo secretário, William Barr.

— Essa questão não deve ser partidária. O Congresso é um dos poderes do governo e deve ser protegido de um Executivo expansionista, e esperamos que nossos colegas republicanos se unam a nós para chegarmos ao fundo deste assunto sério — afirmaram os senadores democratas Chuck Schumer e Richard Durbin. Até o momento não houve resposta por parte da minoria republicana.

Na Câmara, muito embora não haja uma movimentação para investigar o caso, as reações também foram negativas. A presidente da Casa, a democrata Nancy Pelosi, disse que se tratava de um caso "horroroso", e o considerou um “outro ataque à nossa democracia por parte do ex-presidente”. No Twitter, Schiff, que preside a Comissão de Inteligência desde 2019, sugeriu que Trump usou o Departamento de Justiça para “perseguir seus inimigos”, citando a investigação sobre o vazamento, já encerrada de “exemplo do aparelhamento corrupto da Justiça” e de como ele “colocou nossa democracia em perigo”.

A investigação a que se referia Schiff, mantida em segredo até alguma semanas, buscava encontrar a origem do vazamento à imprensa de uma série de dados e conversas sobre as relações entre Trump e a Rússia, mais tarde alvo de um inquérito mais amplo que levou uma série de aliados do ex-presidente à cadeia, mas não a um processo de impeachment.

Além dos deputados e assessores, jornalistas tiveram suas informações privadas em um esforço para identificar fontes, algo visto como inconstitucional por juristas. Mesmo com as invasões, os procuradores não chegaram a qualquer conclusão ou eventuais culpados, e o caso chegou a ser arquivado, antes de ser retomado por William Barr. Nenhum dos envolvidos se pronunciou sobre a denúncia do New York Times.

A Apple, que apenas recentemente informou aos investigados que suas informações estavam sendo compartilhadas com o Departamento de Justiça, após a emissão de intimações judiciais, garante que apenas alguns dados e informações de conta foram revelados, o que não inclui conversas, fotos e arquivos.

*

Rio apresenta aumento de 40% na média móvel de óbitos por Covid-19

Após 51 dias entre estabilidade e redução, indicador volta a apresentar crescimento pelo segundo dia seguido
Atendimento de pacientes com Covid no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, referência no Rio para a doença. O hospital é o maior do Brasil em número de leitos para Covid. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Atendimento de pacientes com Covid no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, referência no Rio para a doença. O hospital é o maior do Brasil em número de leitos para Covid. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Receba notícias em tempo real no app.

RIO — Pelo segundo dia seguido, o estado do Rio apresenta um crescimento da média móvel de mortes, que neste domingo chegou a 209 óbitos por Covid-19 diários.

Dados da secretaria estadual de Saúde mostram que o Rio registrou 71 novas mortes por Covid-19 e quase 600 casos da doença. 

Desde o início da pandemia foram 52.998 vítimas do coronavírus e ao menos 906 mil pessoas infectadas

A média móvel passa a ser de 3.039  casos e 209 mortes por dia. 

Em relação a duas semanas atrás, houve um aumento de 40% no número de óbitos, o que indica uma tendência de aumento na intensidade do contágio, pelo 2 º dia seguido. 

Foram 51 dias seguidos de alternância entre estabilidade ou queda do indicador até este sábado, quando voltou a apresentar crescimento, com aumento de de 34%.

A média móvel de 7 dias faz uma média entre o número de mortes do dia e dos seis anteriores.

Ela é comparada com média de duas semanas atrás para indicar se há tendência de alta, estabilidade ou queda. 

O cálculo é um recurso estatístico para conseguir enxergar a tendência dos dados abafando o "ruído" causado pelos fins de semana, quando a notificação de mortes se reduz por escassez de funcionários em plantão. 

Como na última semana houve o feriado de Corpus Christi é possível que o aumento do indicador nos últimos dois dias seja fruto do represamento de dados durante o feriado.

No início da última semana, a cidade do Rio chegou a ficar dois dias sem novos óbitos divulgados. 

Na ocasião a prefeitura afirmou que os dados seriam inseridos durante a semana. 

Procuradas para comentar sobre o aumento deste domingo, as secretarias de Saúde do governo do estado e da capital não responderam o contato até a última atualização desta reportagem.

A análise dos dados foi feita a partir do levantamento do consórcio de veículos de imprensa formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo, que reúne informações das secretarias estaduais de Saúde.

Rio poderá vacinar todos adultos até setembro, caso ritmo de imunização se mantenha

Em agenda neste domingo, o prefeito Eduardo Paes se mostrou otimista com uma possível antecipação do calendário de vacinação contra a Covid-19 na cidade do Rio. 

O prefeito afirmou que caso o ritmo de vacinação se mantenha como o atual pode ser possível antecipar as datas em até um mês, o que permitiria toda a população carioca acima de 18 anos ser vacinada até meados de setembro.

— Do jeito que está indo, se continuar esse fluxo, estamos muito otimistas com a possibilidade até de acelerar. 

Quem sabe não conseguimos ganhar até um mês. Ainda é uma especulação. 

Avançamos quase uma década em duas semanas. Se continuar nesse ritmo as noticias podem ser boas. 

É um achismo meu, nada ainda oficial — afirmou.

O primeiro calendário divulgado pela prefeitura em maio que contempla todos os adultos prevê que o último grupo a ser vacinado seria o de jovens com 18 anos entre os dias 21 e 23 de outubro. 

Entretanto, nas últimas duas semanas a prefeitura conseguiu antecipar o calendário para imunizar todas as pessoas acima de 50 anos até o dia 19 de junho — enquanto a previsão original era apenas concluir essa faixa etária no início de julho.

Essa antecipação depende principalmente da chegada de novas doses de vacinas contra a Covid-19. 

A cidade do Rio possui uma capacidade de aplicar cerca de 73 mil doses diárias, mas hoje aplica cerca da metade.

Paralelamente ao calendário municipal do Rio, o governo do estado vacina pessoas com síndrome de Down, autismo, paralisia cerebral, nanismo e mielomeningocele (espinha bífida) com 18 anos ou mais, que residam na capital. 

A imunização é realizada no estacionamento do Estádio Célio de Barros, de segunda a sexta, das 9h às 16h, e requer o agendamento prévio, que pode ser feito no portal do governo do Estado.

Confira o calendário da próxima semana:

  • Dia 14 de junho, segunda-feira: Mulheres (turno da manhã) e homens (turno da tarde) de 53 anos
  • Dia 15 de junho, terça-feira: Mulheres (turno da manhã) e homens (turno da tarde) de 52 anos
  • Dia 16 de junho, Profissionais da Educação Superior e cursos profissionalizantes
  • Dia 17 de junho, quinta-feira: Mulheres (turno da manhã) e homens (turno da tarde) de 51 anos
  • Dia 18 de junho, sexta-feira: Mulheres (turno da manhã) e homens (turno da tarde) de 50 anos
  • Dia 19 de junho, sábado: Mulheres (turno da manhã) e homens (turno da tarde) de 50 anos ou mais

Locais de vacinação, de segunda a sexta, das 8h às 17h

  • Clínicas da família e centros municipais de saúde
  • Planetário da Gávea
  • Tijuca Tênis Clube
  • Museu da República (Catete)
  • Paróquia Nossa Senhora do Rosário (Leme)
  • Casa Firjan (Botafogo)
  • Quartéis do Corpo de Bombeiros (Humaitá)
  • Copacabana e Barra da Tijuca (Busca e Salvamento)
  • Museu da Justiça (Centro)
  • Jockey Club Brasileiro (Gávea)
  • Hotel Fairmont (Copacabana)
  • Cidade das Artes (Barra da Tijuca)
  • Museu do Amanhã (Centro)
  • Quadra do Cacique de Ramos
  • Imperator (Méier)
  • Museu Militar Conde de Linhares (São Cristóvão)
  • Club Municipal (Tijuca)
  • Vila Militar (Deodoro)
  • Palácio Duque de Caxias, ao lado da Central do Brasil
  • Quadra da Portela (Madureira)
  • Campus da UERJ no Maracanã (portão 1) - 09h às 15h

Drive-thru, segunda a sexta, das 9h às 15h (Exclusivo para idosos)

  • Parque Olímpico (Barra da Tijuca)
  • Sambódromo (Santo Cristo)
  • Estádio do Engenhão (Engenho de Dentro)

Sábado, das 08h às 17h

  • Clínicas da família e centros municipais de saúde
  • Quadra do Cacique de Ramos (Olaria)
  • Museu Militar Conde de Linhares (São Cristóvão)
  • Vila Militar (Deodoro)
  • Palácio Duque de Caxias, ao lado da Central do Brasil
  • Jockey Club Brasileiro (Gávea) - 08h às 15h
  • Museu da República (Catete) - 08h às 15h
  • Paróquia Nossa Senhora do Rosário (Leme) - 08h às 12h
  • Quartéis do Corpo de Bombeiros: Humaitá, Copacabana e Quartel de Busca e Salvamento (Barra da Tijuca) - 08h às 12h

Drive-thru, sábado, das 08h às 15h (Exclusivo para idosos)

  • Cidade Universitária (Ilha do Fundão)
  • Parque (Madureira)
  • Parque Olímpico (Barra da Tijuca)
  • Sambódromo (Santo Cristo)
  • Engenhão (Engenho de Dentro) - 08h às 14h
*
*
*
*
*
*
*

___________________________________________________

Por que o Uruguai tem alta de casos e mortes mesmo com vacinação avançada

Próximo dos Bolsonaros, auditor faz estudo desmentido e gera crise no TCU

As lições do homem que passou 76 dias perdido no Atlântico

A incrível história do pescador que sobreviveu após ser 'engolido' e cuspido por uma baleia

"É preciso uma grande composição para derrotar Bolsonaro", diz Zé de Abreu

SBT faz defesa escancarada de Bolsonaro: 'não critique o governo nem em pensamento'

Janio de Freitas: posições formais da Marinha e Aeronáutica dificultam pretensões golpistas de Bolsonaro

Gaspari: 'Bolsonaro entra para os anais da diplomacia ao ser o 1º chefe de Estado a nomear embaixador proibido de deixar o país'

Ex-presidente do BC Carlos Langoni morre vítima de Covid-19

Com máscara | Opinião - O Globo * Bolsonaro e a domesticação das instituições

Míriam Leitão: Um terabyte de provas contra o governo na CPI

Saiba como Ecko e o irmão fundaram a 'narcomilícia', a mais poderosa do estado do Rio

Ecko: Saiba como o servente de pedreiro se tornou o miliciano mais procurado do Rio

Aliança inédita entre Ecko e capitão Adriano permitiu coalizão com diferentes facções e expansão da milícia do Rio; confira

Projeto de Biden contra ofensiva republicana para restringir direito a voto é bloqueado no Congresso

Supressão e subversão eleitoral: entenda as leis que cerceiam o direito de voto nos Estados Unidos

Deficiência, relações sociais e MUITO SEXO em 'SPECIAL', ÓTIMA série da NETFLIX - Patrícia Kogut, O Globo

Jardim Botânico lança nova trilha que liga sítios arqueológicos e monumentos históricos do parque

Governo Trump obrigou Apple a entregar dados de congressistas democratas

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

________________________* QUARKS, LÉPTONS e BÓSONS ________________________* COMUNISMO de DIREITA e NAZISMO de ESQUERDA. É o FIM da PICADA...! ________________________* http://www.nano-macro.com/?m=1

9