Na ERA BOLSONARISTA, expor HORRORES da DITADURA é tarefa CÍVICA.

___________________________________________________

*

___________________________________________________

*

Opinião: Rubens Valente - Na era bolsonarista, expor horrores da ditadura é tarefa cívica

Ditadura Militar no Brasil foi de 1964 a 1985 - Kaoru/CPDoc
Ditadura Militar no Brasil foi de 1964 a 1985 Imagem: Kaoru/CPDoc
Rubens Valente

Colunista do UOL

14/06/2021 08h22

O negacionismo que mata na pandemia também perverte a compreensão da história do país, em especial daquela parte exaltada pelos seguidores do presidente Jair Bolsonaro. Se é fácil mentir em 2021 sobre um remédio chamado cloroquina, imagina o que pode ser dito sobre uma ação política e armada desencadeada há 57 anos.

Setores da população perderam a vergonha que poderiam ter ao elogiar a ditadura militar (1964-1985) e os métodos que os generais lançaram mão para permanecer no poder por 21 anos e que incluíram torturas e assassinatos de adversários, censura à imprensa, fechamento do Congresso e perseguição política.

Ação da Funai sobre identidade indígena retoma plano frustrado da ditadura

A liberalidade para distorcer eventos históricos se beneficia de um processo de apagamento da memória. A amnésia é intensamente fabricada em grupos bolsonaristas e pode atingir os jovens com mais facilidade. Lembremos que todos os brasileiros com menos de 36 anos de idade nunca viveram numa ditadura. Assim fica mais fácil falsificar sobre o que ela de fato foi.

Conforme os anos vão passando, os brasileiros ficam cada vez mais distantes do que significa viver num regime autoritário, no qual garantias fundamentais são suspensas, liberdades são cassadas e crimes são cometidos impunemente pelo próprio Estado. As pessoas vão perdendo os fios que poderiam conectá-las às experiências reais de quem viveu as agruras do período.

Abre-se espaço para falsas narrativas que, se ouvidas na época dos acontecimentos, só provocariam risadas. Por exemplo, a fantasia de que não houve um golpe de Estado em 1964. Até um ministro do STF - que, aliás, nasceu três anos depois do golpe - já o qualificou de mero "movimento".

Daí que aprofundar o conhecimento sobre o período volta a ser artigo de primeira necessidade. Reavivar a memória é um alerta para não viver de novo.

Passadas mais de três décadas da redemocratização, já parecem bem delineados os principais momentos da ditadura, os seus protagonistas e os eventos e personagens mais célebres da luta guerrilheira. Isso se deve a estudos tanto abrangentes quanto detalhados feitos por grupos de familiares dos mortos e desaparecidos, professores e alunos universitários, pesquisadores, jornalistas, escritores e membros do Ministério Público.

Por outro lado, há uma infinidade de aspectos da ditadura que, por motivos que não caberia aqui discutir, passam ao largo da história oficial do período. Falo das vítimas anônimas da ditadura e dos impactos que ela causou a vários setores da vida nacional, do massacre indígena aos projetos de ocupação da Amazônia, da liberdade de expressão à educação escolar, da produção artística a combate às epidemias. Nada ficou ileso a partir do projeto geral de país que os militares idealizaram e tentaram implantar.

A boa notícia é que há nitidamente um esforço, inclusive impulsionado pela Comissão Nacional da Verdade (2012-2014), contra esse apagamento. Um estímulo é a modernização de órgãos que concentram documentação sobre o período, como o Arquivo Nacional, que guarda milhões de páginas produzidas na ditadura.

Os principais jornais e revistas do país também organizaram seus acervos digitais. Complicada até poucos anos atrás, hoje a consulta à documentação está ao alcance de um clique no teclado do computador. Iniciativas da sociedade civil como o Armazém Memória ampliam o acesso ao registro documental e iconográfico do período.

Outra relevante contribuição tem sido dada pelo Ministério Público Federal. Ao demandar a abertura de procedimentos na Justiça Federal, amplia o conhecimento sobre o período durante o esforço de buscar a responsabilização civil e militar de agentes da ditadura por crimes contra os direitos humanos.

Muito já se revelou sobre a ditadura no campo da produção bibliográfica. Figuras fundamentais para a compreensão do período, como o ex-presidente João Goulart e sua mulher Maria Thereza, o militar Sebastião Rodrigues de Moura, o "Major Curió", e o guerrilheiro Carlos Marighella, entre tantos outros, já foram objeto de investigações de fôlego - como os notáveis livros de Jorge Ferreira ("Jango, uma biografia", ed. Civilização Brasileira, 2011), Wagner William ('Uma mulher vestida de silêncio", ed. Record, 2019), Leonencio Nossa ("Mata!", ed. Companhia das Letras) e Mário Magalhães ("Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo", ed. Cia das Letras, 2012), só para citar algumas obras imprescindíveis de uma safra mais recente.

De um modo geral também já sabemos o que os principais oficiais militares do período pensavam sobre eles mesmos e a ditadura, como ficou registrado pelo projeto de memória oral da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e pelos livros de memórias de alguns desses conspiradores e ditadores. Está razoavelmente consolidada a versão "dos de cima", isto é, o ponto de vista de quem ocupava o topo da cadeia de comando da ditadura.

Mas a "outra história" vem sendo escavada, contada e recontada nos últimos anos com mais atenção e afinco.

Aqui e ali surgem luzes sobre aspectos pouco conhecidos da ditadura militar. Pode ser o papel do Brasil no golpe militar do Chile, em 1973, descrito pelo jornalista Roberto Simon ("O Brasil contra a democracia", ed. Companhia das Letras, 2021). Ou a repressão à comunidade LGBT, tema do livro de Renan Quinalha ("Contra a moral e os bons costumes"), anunciado para setembro deste ano pela Companhia das Letras. Ou a pesquisa em fase final realizada pelo ex-deputado federal Gilney Viana sobre os trabalhadores rurais mortos e desaparecidos.

Há mergulhos intimistas, como a história do casal de jovens estudantes preso e torturado pela ditadura narrada no livro e documentário "Em nome dos pais" (ed Intrínseca, 2017), do jornalista Matheus Leitão, que descreve a barbárie que a ditadura cometeu contra os jornalistas Miriam Leitão e Marcelo Netto. Ou a trajetória de um líder estudantil de Brasília sequestrado e desaparecido até hoje e tratada em "Paixão de Honestino" (ed. UnB, 2019), de Betty Almeida.

A atenção do pesquisador pode se fixar no fim suspeito de um servidor público, como em "A morte do diplomata" (ed. Tema, 2017), do jornalista Eumano Silva. Ou na ação das empresas de construção de obras públicas durante a ditadura, conforme descrita em "Estranhas catedrais" (Eduff, 2014), de Pedro Henrique Campos, professor de história da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Ou na relação da ditadura com o governo francês, tema de "Liberdade vigiada" (ed. Record, 2019), do professor de história Paulo César Gomes.

Aqui nem incluo a vibrante produção de documentários sobre o período, um tema todo à parte.

A multiplicidade recente de temas demonstra que a ditadura está longe de se esgotar como objeto de pesquisa e reflexão. A urgência política agrega outro fator de interesse. Na era bolsonarista, para remar contra o negacionismo, expor os métodos e consequências da ditadura é tarefa civicamente essencial.

*

Leonardo Sakamoto - Torturado, frei Tito foi perseguido por fantasma de delegado até sua morte

Colunista do UOL

14/06/2021 04h15

Importante investigação do UOL, publicada nesta segunda (14), revelou 24 casos de presos políticos que foram internados pela ditadura militar em instituições psiquiátricas, a grande maioria após ser vítima de tortura pelo regime.

Torturas que levavam a alucinações, confusão mental, depressão profunda, ideias suicidas. Torturas, aliás, que continuam sendo aplicadas nas periferias e nos grotões do campo pelos herdeiros daquela violência estatal.

Defesa diz que Anistia abrange internação psiquiátrica de presos políticos

Frei Tito não foi internado em um manicômio judicial, como as histórias contadas nessa reportagem, mas é um caso emblemático de como a tortura pode "quebrar" uma pessoa por dentro, levando-a à loucura, até que ela resolva por fim à própria vida.

O cearense Tito de Alencar Lima foi encontrado enforcado no dia 10 de agosto de 1974, durante seu exílio na França, como consequência da tortura que sofreu pelas mãos dos agentes da ditadura militar brasileira.

Em 1969, ele foi um dos religiosos dominicanos presos pelo torturador Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Os religiosos haviam sido acusados de apoiar as ações da resistência contra a ditadura. O calvário de Tito, da prisão ao suicídio, tornou-se um dos símbolos da luta contra o autoritarismo.

'Era impossível saber qual parte do corpo doía mais'

Para entender pelo que ele passou, nada melhor do que resgatar suas próprias palavras. Abaixo, um trecho do seu testemunho à Justiça Militar, em 1969, em que conta como foram as sessões de tortura, que faz parte de ação movida pelo Ministério Público Federal contra torturadores:

"Na quarta-feira, fui acordado às 8 horas, subi para a sala de interrogatórios, onde a equipe do capitão Homero me esperava. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, ou recebia cuteladas na cabeça, nos braços e no peito. Neste ritmo prosseguiram até o início da noite, quando me serviram a primeira refeição naquelas 48 horas. (?)

Na quinta-feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por uma equipe, voltou às mesmas perguntas. 'Vai ter que falar, senão, só sai morto daqui', gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça: era quase uma certeza. Sentaram-me na 'cadeira de dragão' (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos e na orelha esquerda.

A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse decompor.

Da sessão de choques, passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo sangrando e todo ferido, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me à outra sala, dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse 'antes de morrer'. Não chegaram a fazê-lo.

Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatórias. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais: tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais. Restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos."

Frei Tito de Alencar foi levado à morte pela tortura da ditadura militar - Reprodução/Documentário "Ato de fé"/Alexandre Rampazzo - Reprodução/Documentário "Ato de fé"/Alexandre Rampazzo
Imagem: Reprodução/Documentário "Ato de fé"/Alexandre Rampazzo

'Minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando'

O francês Xavier Plassat, frei dominicano, membro da Comissão Pastoral da Terra e residente no Brasil há mais de três décadas, foi a última pessoa a ver Tito com vida antes do suicídio. Algum tempo atrás, ele me fez um relato daqueles últimos dias e das feridas nunca cicatrizadas de Tito deixadas pela tortura:

"Convivi com frei Tito na comunidade dominicana de L'Arbresle, na França. Foram duas primaveras, dois verões, mas um só outono e um só inverno. Ele com seus 27 anos e eu, meus 23. Ali, surgiu entre nós uma relação feita de cumplicidade e de amizade, de sorrisos e de raivas, de luta e de fé, enfrentando o [Sérgio Fernando Paranhos] Fleury, que, por dentro do Tito, continuava sua tortura destruidora, partindo-lhe a alma entre resistência e desistência.

Resistência era quando Tito formava projetos, tocava violão, abraçava o amigo, brincava com as crianças, rezava, sorria. Desistência era quando obedecia cegamente à intimação alucinante da voz que atormentava sua mente sem parar, fugindo para onde mandava que fosse, ou afundando-se em impenetráveis prantos ou desesperados silêncios.

Lembro como se fosse ontem: o dia era 11 de setembro de 1973. As rádios anunciavam o golpe de Pinochet. Ao chegar de longa viagem, achei Tito prostrado e gemendo ao pé de uma árvore, no estacionamento frente à portaria de La Corbusière, nosso convento.

Assim estava desde cedo. Ninguém entendia seu choramingo incessante e assustador. Sentei e fiquei ao lado, horas a fio, procurando abrigar o amigo da chuva intermitente. Pelas altas horas da noite, a duras custas, incrédulo, eu comecei a perceber do que Tito tremia e a quem implorava por piedade: era o Fleury, vociferando em (imaginário) alto-falante localizado do outro lado do vale.

Enquanto torturava um após o outro cada um dos seus irmãos, ele bradava insultos contra o Tito: 'comunista, traidor, terrorista, a igreja te jogou fora, você não pisará mais neste chão sagrado, não há mais como tu escapar de mim'. Enquanto ele não se entregasse, continuaria a tortura da família por inteiro: os dez irmãos, o pai, a mãe. E Tito, o caçula, escutava soluços dos seus, entre gritos e imprecações.

Desse dia em diante, Tito pendularia entre o entregar-se e o resistir, como que acuado entre as paredes deste novo 'corredor polonês': morrer vivendo, viver morrendo.

Cumpria-se a louca promessa que recebeu durante as sessões reais de tortura. Em suas próprias palavras, em depoimento: Quiseram-me deixar dependurado toda a noite no pau-de-arara. Mas o capitão Albernaz objetou:

'Não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia'

Até que um dia (era em agosto de 1974, na semana de São Domingos), Tito resolveu livrar-se definitivamente do torturador e da loucura que este pretendia infundir-lhe. Neste instante longamente preparado, num último mistério de resistência e de fé, Tito derrubou lhe a pretensão de poder continuar, dia após dia, roubando a sua vida.

'Melhor morrer do que perder a vida. Opção 1: corda (suicídio, Vejube). Opção 2: tortura prolongada, Bacuri', foram umas das últimas palavras que rabiscou no papel.

Entendi assim: minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando. Prova de amor, maior não há. Se os discípulos se calarem, as próprias pedras gritarão."

'Devo confessar que não acredito que sejamos da mesma raça humana'

Em 1977, três anos depois do suicídio de Tito, a Ação Cristã pela Abolição da Tortura (Acat), organização internacional com presença em vários países, escreveu a 20 policiais brasileiros que torturavam sob a justificativa de defender o Brasil em nome da fé cristã.

Aliás, era muito comum haver crucifixos em salas de tortura. Sim, faz 44 anos, mas parece hoje.

O advogado Guy Aurenche, presidente da Acat França na época, escreveu um texto este ano sobre as cartas. Segundo ele, elas denunciavam a prática dos torturadores e afirmavam que o vínculo com a fé cristã era um completo escândalo.

Tentaram usar argumentos questionando seu comportamento pessoal, frisando que também os viam como seres humanos, capazes de amar seus filhos, ou como crentes. Trago alguns trechos do texto de Aurenche:

"Contra todas as expectativas, recebemos uma resposta do delegado Fleury, o carrasco de Tito, datada de 9 de novembro de 1977. A carta começava com comentários insultuosos denunciando nossa fé, bem como nossa pretensão de defender os direitos humanos. O torturador disse : 'Tenho os pés no chão e a cabeça ao nível do mundo, e não nas nuvens' (...)

O delegado Fleury nos contou uma história que dizia ter lido em um livro e de que gostou muito: 'Uma águia estava chocando ovos e dos ovos saíram pintinhos. Desesperada, ela foi tentada de devorá-los. Após reflexão, a compaixão prevaleceu, na esperança de que um dia, do batalhão de galinhas míopes e cacarejantes, surgisse uma águia para acompanhá-los'.

Fleury se comparava à águia que defende a população brasileira contra as ameaças do comunismo internacional. A história foi escrita por Wilhelm Reich, um autor de origem alemã que se refugiou nos Estados Unidos, descrevia os mecanismos nazistas de superioridade e desumanização. Aos 30 anos e a 8 mil km de distância, o nazismo habitava a filosofia do torturador brasileiro dos anos 1970-80.

O pós-escrito desta carta é o mais fascinante: 'Devo confessar que não acredito que sejamos da mesma raça humana (quero dizer a raça dos homens)', escreveu Fleury.

Em qualquer ato de tortura ou desumanidade, expressa-se a ideia de que a vítima não é mais um ser humano, mas um delinquente, um oponente político, um herege.

O rótulo colado nessa pessoa permite que o torturador a 'torça', já que ela está desumanizada.

Para Fleury, os membros da Acat, assim como as pessoas que ele torturava, não eram mais humanos. Eles pertenciam a uma sub-raça. Assim, tornou-se possível desprezá-los, torturá-los sem escrúpulos e sem hesitação.

'Não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio'

Durante as sessões de tortura realizadas no 36º Distrito Policial (local que abrigou a Oban (Operação Bandeirante) e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista), durante a ditadura, os vizinhos do bairro residencial do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar. Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário "quebrar" a pessoa, psicologicamente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era um ser humano que sofria cada pancada. Era um "sub-humano" impuro, que trazia uma visão de mundo que precisava ser destruída junto com ele.

Ainda hoje, Maria Aparecida Costa tenta entender o que ocorreu. "Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa."

"Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar."

A noite de Cida Costa, cuja história já contei aqui outras vezes, durou três anos e meio, dos quais dois meses torturada naquele local. "O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio."

O Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna DOI-Codi era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. E a metodologia desenvolvida durante aquele período e a certeza do "tudo pode" continua provocando vítimas em outras delegacias espalhadas pelo país e nas periferias das grandes cidades.

Muitos dos carrascos, como Fleury, não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Achavam estar em uma missão. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E sua missão era extirpar o mal.

Tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser extirpados. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro. Ignorância que não é fruto de um vazio de sentidos, mas de uma construção repleta de preconceitos.

Décadas depois, há quem tente provar que a história se repete sim, não como farsa, mas como delírio. Pois Cida é torturada todos os dias no Brasil sob outros nomes, crenças, gêneros ou cores de pele. Normalmente, jovens, negros e pobres. Sub-humanos. E Tito morre novamente e novamente, "suicidado" como consequência de tortura de agentes do estado, "suicidado" em celas e camburões, "suicidado" em comunidades e assentamentos de todo o país.

Já o torturador Fleury foi encontrado morto em 1979, aos 45 anos. Especula-se que foi "queima de arquivo", pois estaria ganhando dinheiro de empresários e com o crime organizado, não respondendo mais às estruturas de poder. Se vivesse hoje, seria um quadro do governo.

*

Da tortura à loucura: ditadura internou 24 presos políticos em manicômios

Internação psiquiátrica de presos políticos ocorreu em pelo menos nove estados do Brasil - Yasmin Ayumi/UOL
Internação psiquiátrica de presos políticos ocorreu em pelo menos nove estados do Brasil Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

Amanda Rossi

Do UOL, em São Paulo

14/06/2021 04h00

Ali estava a perigosa "terrorista" pernambucana de quem os jornais falavam em fins de 1964. Desacordada, recebia soro na ala feminina do Manicômio da Tamarineira, no Recife. Os "olhos diabolicamente ingênuos", como descreveu o delegado que a prendera, estavam fechados. Media 1,55 m e pesava menos de 30 kg. Os cabelos longos tinham sido raspados em um quartel do Exército. No braço esquerdo, uma das queimaduras de cigarro que marcavam sua pele tinha infeccionado e cheirava a carne podre.

Nome, Silvia Montarroyos. Codinome, Tatiana. Idade: "21 anos", segundo sua ficha prisional. Já a família alegava que tinha 17 anos —a data de nascimento teria sido alterada ao ingressar na escola. Acusação: crime contra a segurança nacional. Atividades: participação em um partido trotskista, distribuição de um jornal com conteúdo "subversivo", alfabetização de lavradores.

"Tortura não sai de nós", diz ex-presa política 57 anos após golpe militar

A militância durou pouco. Em novembro de 1964, sete meses depois do golpe militar, Silvia foi presa. Em dezembro, após um mês de tortura, os militares a mandaram para o manicômio. Passou os três primeiros dias desacordada. Ao recobrar os sentidos, foi tratada com eletroconvulsoterapia —eletrochoque.

Um levantamento inédito do UOL descobriu 24 casos de presos políticos internados pela ditadura militar em instituições psiquiátricas, em nove unidades da federação. Pelo menos 22 foram antes submetidos a tortura em prisões comuns. As internações foram determinadas pela Justiça Militar ou por autoridades que tinham os presos políticos sob custódia.

  • Leia neste link documentos da internação de presos políticos durante a ditadura militar.

Informado sobre o levantamento, o Ministério da Defesa afirmou, por nota, que "os fatos relativos ao período compreendido entre os anos 1964 a 1973 foram abrangidos pela Lei de Anistia, que alcançou, de forma ampla, geral e irrestrita, atos de cidadãos brasileiros". O Ministério da Defesa responde pelas Forças Armadas.

Número de casos pode ser maior que o identificado pelo UOL - Yasmin Ayumi/UOL - Yasmin Ayumi/UOL
Número de casos pode ser maior que o identificado pelo UOL Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

Tortura que leva à loucura

Algumas formas de tortura empregadas pela ditadura militar tinham como objetivo "provocar danos sensoriais, com consequências na esfera psíquica, tais como alucinações e confusão mental", diz o relatório da Comissão Nacional da Verdade —criada para investigar violações de direitos humanos no regime militar.

Alucinações e confusão mental, assim como depressão profunda ou ideias suicidas, são quadros relatados na maioria dos 24 casos. Há, inclusive, laudos psiquiátricos —elaborados por peritos indicados pela própria Justiça Militar— que sugerem que esses sintomas psíquicos foram desencadeados pela experiência na prisão.

"A tortura é tão desagregadora que a pessoa nem sempre vai encontrar recursos psíquicos para se defender, por isso enlouquece", diz a psicanalista Maria Cristina Ocariz, uma das coordenadoras da Clínica do Testemunho —projeto de atenção psicológica para vítimas de violência do Estado durante a ditadura.

Também há casos de presos políticos internados sem nenhum sintoma de ordem psíquica. Um deles é Ivan Seixas, colocado em uma prisão psiquiátrica no interior de São Paulo, sem indicação médica. Tinha 17 anos. Em carta de denúncia, sua mãe escreveu que os próprios peritos do Estado tinham atestado "tratar-se de rapaz normal, equilibrado, sem nenhum distúrbio psicótico".

Para identificar os casos, o UOL analisou documentos produzidos durante a ditadura —como processos da Justiça Militar— e informações levantadas por comissões da verdade. Também foram feitas entrevistas com presos políticos e seus familiares. O número de casos pode ser maior, já que muitos documentos da época foram destruídos e outros não estão acessíveis.

Dentre os 24 casos, estão 21 homens e três mulheres, internados entre 1964 e meados de 1970. A maior parte das internações ocorreu em prisões psiquiátricas —naquela época, chamadas de manicômios judiciários. Outras se deram em alas psiquiátricas de hospitais, principalmente hospitais militares, e quase sempre sob vigilância de forças de segurança.

Não foram incluídos no levantamento os casos de internação psiquiátrica depois da prisão, sem participação do Estado.

"Nós nunca soubemos disso. Só sabíamos de casos isolados. E, de repente, são 24 casos, e você tem uma nova dimensão de algo que se achava que não tinha acontecido no Brasil", diz Seixas, que coordenou a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.

"Jamais houve uma reconstituição ampla desses eventos. [O levantamento do UOL] é um complemento ao relatório da Comissão da Verdade, que não teve a oportunidade de tratar especificamente desses casos", diz Paulo Sérgio Pinheiro, um dos autores do relatório.

"É um capítulo de mais um crime praticado pela ditadura de 64: além de desaparecer com pessoas, internou outras no manicômio. É muito importante reconstituir esses fatos, porque esses espaços também eram lugar de tortura", continua.

Silvia Montarroyos - Yasmin Ayumi/UOL - Yasmin Ayumi/UOL
Silvia Montarroyos foi presa, torturada, e depois internada em manicômio no Recife Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

'Fábrica de loucos'

Na prisão, Silvia Montarroyos sofreu diferentes tipos de tortura. "Eram bofetões, queimaduras de cigarro... Me colocaram em uma jaula de uns 80 cm quadrados. Eu tinha que agachar e abraçar as pernas para dormir, mas jogavam balde de água gelada para me acordar. Eu só recebia meio pão seco e meio copo de água", lembra Silvia Montarroyos, hoje uma senhora com mais de 70 anos.

Privação de sono e de alimento, isolamento e incomunicabilidade são algumas das torturas psíquicas que, segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, podem desencadear alucinações.

"Mas eu fiquei calada. O ódio que eles tinham de mim era porque eu não falava nada", diz Silvia, com um sotaque misto de Pernambuco e do país europeu onde vive desde o exílio durante a ditadura —e cujo nome pediu que não fosse citado, para preservar sua privacidade. Um ofício militar de dezembro de 1964 confirma que Silvia "vinha recusando-se a prestar qualquer declaração, desde a data de sua prisão, e ultimamente apresentava sintomas de alienação mental".

"Eu estive além da dor. Daí para a loucura foi a coisa mais natural do mundo. Tive alucinações visuais e auditivas", diz a ex-presa política.

Ao chegar no Manicômio da Tamarineira, Silvia estava inconsciente e muito machucada. "Você chegou aqui quase morta", disse um dos médicos que trataram dela. O profissional acreditava que Silvia tinha sido mandada para o manicômio para morrer, de modo que a culpa da morte não fosse atribuída à tortura.

Como tratamento, Silvia não recebeu apenas eletrochoques. Também foi tratada com insulinoterapia, que consistia na aplicação de doses excessivas de insulina para provocar convulsões e até levar ao coma. "Dos choques elétricos eu não lembro, mas está no laudo médico. Já a insulina eu lembro ligeiramente. Precisavam me amarrar na cama, senão eu caía, de tanto que me debatia com as convulsões. Eram formas de tortura", relata.

A insulinoterapia foi abandonada pela psiquiatria há décadas. Já o eletrochoque é usado de forma muito mais limitada e controlada. A própria internação psiquiátrica foi colocada em xeque pela luta antimanicomial, que pediu o fim dos manicômios, a partir do final dos anos 1970. "A forma de tratamento utilizada nos manicômios era medieval. Sem dúvida, agravava o quadro de quem ficou louco pela tortura", diz a psicanalista Maria Cristina Ocariz.

"A ditadura foi uma fábrica de mortos e uma fábrica de loucos. Como eu, muita gente enlouqueceu na tortura. Muitos outros precisaram [de suporte psiquiátrico] depois da prisão", diz Silvia.

Manicômios funcionavam como prisões e usavam tratamentos hoje rechaçados pela medicina - Yasmin Ayumi/UOL - Yasmin Ayumi/UOL
Manicômios funcionavam como prisões e adotavam tratamentos hoje rechaçados pela medicina Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

Perigo para a sociedade

"Entre as torturas que me fizeram, a pior foi... [silêncio] Está me vindo um branco agora. Acho que é porque eu estou mexendo em um assunto que estava um bocado enterrado, sabe? Mas é necessário contar, para que fique para a posteridade o que aconteceu, é um caso histórico", diz Silvia, engasgando para relatar uma lembrança que já tem 56 anos.

É final de novembro de 1964. Em uma sala escura de um quartel no Recife, a militante é colocada frente a frente com Pedro Makovski. Uruguaio de 24 anos, Makovski emigrou para o Nordeste para chefiar o grupo político que Silvia integrava, o Port (Partido Operário Revolucionário Trotskista).

Os dois haviam sido presos juntos, de mãos dadas, quando tentavam fugir da polícia. Estavam noivos. "A luta e eu eram toda a vida dele. E ele era leal a nós duas e só se dedicava a nós duas."

Desde a prisão, no início daquele mês, os noivos não se viam. Neste reencontro promovido pela ditadura, Silvia foi estuprada, e Makovski foi obrigado a assistir. "Eu estava completamente ensanguentada... ele viu que eu ia morrer se continuassem... foi aí que ele falou [aceitou depor]."

Documentos militares enviados para o Arquivo Nacional confirmam que Makovski foi reinquirido em 23 de novembro de 1964. E que, desta vez, deu um longo depoimento —são nove páginas de testemunho.

Ao ser julgado pela Justiça Militar, anos depois, o Makovski denunciou que "um dos meios conseguidos para forçá-lo a assinar os depoimentos foram torturas físicas impostas a sua noiva". E que, "em consequência das torturas sofridas, Silvia foi internada no Manicômio da Tamarineira em estado de coma" e que "ainda hoje se encontra mentalmente abalada".

"As pessoas [torturadores] que fizeram isso com Silvia constituem um perigo para a sociedade", disse o jovem uruguaio.

Diante do relato de Makovski, o procurador militar debochou, dizendo que o preso político, "por um processo de transferência explicado por Freud, quer transmitir a outrem sua própria periculosidade". Mas sua "periculosidade" era apenas de ideias. O julgamento de Makovski não revelou nada além de crimes de pensamento. Já o que viu a noiva sofrer foi extremamente material.

"O estupro foi o que mais me fez enlouquecer. Mas foi o conjunto das torturas, não só a ignomínia da violência sexual, que me levou à loucura", escreveu Silvia no livro de memórias Réquiem por Tatiana.

Mapa da prisão política em manicômios - Yasmin Ayumi/UOL - Yasmin Ayumi/UOL
Internações ocorreram de 1964 até meados da década de 1970 Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

Soro da verdade

Em agosto de 1964, poucos meses antes de Silvia ser internada no Manicômio da Tamarineira, o médico que dirigia a instituição enviou duas cartas para o tenente-coronel do Exército Hélio Ibiapina. Por ordem do militar, e sem mandado judicial, dois outros presos políticos tinham sido enviados ao manicômio. Era o início da ditadura.

O texto das duas cartas era idêntico, só mudava o nome do preso: "Acontece que a Lei que rege a Assistência a Psicopatas no Brasil, ao falar de Manicômios Judiciários diz: 'Os internamentos serão feitos pelo Juiz'. A palavra Juiz, na Lei, compreende os Magistrados e os órgãos auxiliares da Justiça. Diante da Lei, está o paciente acima internado ilegalmente neste serviço. Saudações cordiais".

Eram cartas ousadas, quase uma insubordinação. O tenente-coronel Ibiapina era amigo pessoal de Castelo Branco, primeiro ditador do regime militar e um dos articuladores do golpe. Além disso, Ibiapina não escondia que ocorriam torturas em Pernambuco.

Certa vez, ao se queixar das intervenções de Dom Hélder Câmara em favor dos presos políticos, Ibiapina afirmou: "Nunca neguei que as torturas existissem. Elas existem e são o preço que nós, os velhos do Exército, pagamos aos jovens. Caso tivessem os oficiais jovens empolgado o poder, os senhores estariam hoje reclamando não de torturas mas de fuzilamentos. Nós torturamos para não fuzilar".

A mensagem do diretor do manicômio, o médico Ruy do Rego Barros, para o tenente-coronel Ibiapina era clara: a internação de presos políticos, sem ordem judicial, por simples mando militar, era ilegal.

Ainda assim, os dois presos políticos citados nas cartas foram mantidos na Tamarineira. Um deles era Edival Freitas, que trazia diversas marcas de injeção pelo corpo. Sobre ele, a equipe médica do manicômio avaliou que seu quadro "foi decorrente das torturas e, provavelmente, doses excessivas do soro da verdade" —como era chamado o pentotal, um anestésico usado na tentativa de fazer os presos políticos falarem.

Aos psiquiatras, Freitas disse que "enlouqueceu quando estava preso". O diagnóstico do laudo de sanidade confirmou: "acometido de uma crise de psicose maníaco-depressiva, com predominância de depressão, consequência da prisão".

O segundo preso era Antônio Albuquerque, um lavrador acusado pelos militares de participar de movimentos camponeses de oposição à ditadura. Sobre ele, há apenas registros de que tremia e berrava ao ver alguém de farda no Manicômio da Tamarineira.

Roberto Motta foi internado em Santa Catarina; Ivan Seixas, em São Paulo - Yasmin Ayumi/UOL - Yasmin Ayumi/UOL
Roberto Motta foi internado em Santa Catarina; Ivan Seixas, em São Paulo Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

Porões da loucura

As primeiras internações de presos políticos ocorreram em Pernambuco e na Paraíba, em 1964. Nos anos seguintes, os casos se espalharam pelo país: São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Distrito Federal, Ceará.

Em São Paulo, em 1971, presos políticos mantidos na rua Tutóia, no Paraíso (zona sul da cidade), puderam acompanhar a deterioração do estado mental de Antonio Carlos Melo, estudante de Geologia na USP (Universidade de São Paulo). No local funcionava a Oban —Operação Bandeirantes, criada para centralizar a investigação de organizações de esquerda. Hoje, é uma delegacia.

"Eu sou Tadeu, Tadeu eu sou, sou comandante revolucionário. Eu sou Tadeu, Tadeu eu sou, sou comandante revolucionário. Vanda! Vanda! VAR-Palmares!", cantarolava Melinho, como era conhecido, enquanto andava de um lado para o outro da cela.

Tadeu era seu codinome. Vanda, o codinome de Dilma Rousseff, que viria a ser eleita presidente da República em 2010. Ambos integraram a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), uma organização política de esquerda que pretendia derrubar o regime militar, inclusive por meio de ações armadas.

O estudante foi preso em 1970, mesmo ano que Dilma. "Melinho foi barbaramente torturado, porque queriam que falasse sobre algumas pessoas. Uma delas era a Vanda [Dilma]. Mas ele não falou", diz Ivan Seixas, que também ficou preso na Oban em 1971, antes de ser mandado para a prisão psiquiátrica.

"O Melinho foi enlouquecido na tortura. Eu fiquei em uma cela do lado da dele. Ele ficava cantando essa música sobre Tadeu e Vanda, depois entrava debaixo do cobertor e falava sozinho", lembra o colega de prisão.

Em 1972, Melinho foi mandado para o Manicômio Judiciário de Franco da Rocha, região metropolitana de São Paulo. A Justiça Militar o considerou inimputável —ou seja, incapaz de responder pelos próprios atos— e o condenou a dois anos de internação compulsória. Mas só foi liberado quatro anos depois, em 1976. Quando se viu livre, Melinho foi ajudado por antigos colegas da Geologia da USP, mas nunca se recuperou totalmente.

"Que monstruosidade fizeram com ele", disse Dilma a Ivan Seixas, em um encontro em Brasília quando a ex-presa política era presidente.

Ao sair do manicômio, Melinho foi questionado por amigos se havia outros presos políticos em Franco da Rocha. Respondeu que não tinha como lembrar. Estava sempre sob efeito de medicamentos psiquiátricos muito fortes, que tiravam a consciência da realidade.

Durante a ditadura militar, uma das drogas usadas no Manicômio de Franco da Rocha foi a escopolamina. Sob altas doses, a substância pode produzir sensação de morte iminente. Médicos nazistas a combinaram com morfina para praticar eutanásia. Já em Franco da Rocha, a droga foi usada como forma de "disciplina e não terapêutica", cita um ofício assinado pelo diretor do manicômio em 1968.

Também no início dos anos 1970 passou pelo Manicômio de Franco da Rocha o jornalista João Adolfo Castro da Costa Pinto, acusado de fazer parte da Ação Libertadora Nacional (ALN) —o que ele negava. Em seu laudo psiquiátrico, Costa Pinto disse que "sua doença iniciou-se um ano após ser preso".

"Eu apanhei muito, me deram choque na cabeça, nos testículos e acho até que estou impotente. Aí me disseram que eu fiquei muito nervoso, tinha ocasião que eu saía de mim, mas não sei explicar. Eu sei que não consigo me distrair, não tenho fome, não durmo, só tenho vontade de ficar deitado", relatou Costa Pinto ao psiquiatra do manicômio.

Em conclusão, o médico assinalou que o jornalista passava por "um quadro mental de intensa apatia e depressão, com ideias delirantes de ruína".

Solange Gomes, Aparecidão Galdino e A.S. foram internados a mando da ditadura - Yasmin Ayumi/UOL - Yasmin Ayumi/UOL
Solange Gomes, Aparecidão Galdino e A.S. foram internados a mando da ditadura Imagem: Yasmin Ayumi/UOL

Queima de arquivo

No início dos anos 1970, enquanto Melinho e Costa Pinto estavam no Manicômio de Franco da Rocha, a pernambucana Silvia Montarroyos foi considerada foragida.

No primeiro semestre de 1965, depois de quase seis meses de internação, sua defesa conseguiu um habeas corpus para tirá-la do manicômio no Recife. Livre, mas com medo de ser presa ou internada novamente, Silvia decidiu fugir de Pernambuco. O medo tinha razão: logo depois, a Justiça Militar voltou a decretar sua prisão preventiva.

O risco de ser identificada durante a fuga era grande. Cartazes com a fotografia de Silvia tirada no dia da prisão ainda estavam estampados por Recife. O rosto parecia de menina, mas o texto dizia se tratar de uma perigosa subversiva.

Católica devota, a família Montarroyos conseguiu articular uma fuga com benção da igreja: Silvia se escondeu debaixo de um andor de Nossa Senhora do Carmo, que foi transportado por um jipe dirigido por dois freis franciscanos, do Recife a João Pessoa.

Da Paraíba, Silvia foi para o Rio de Janeiro. Depois, fugiu para a América Latina. Já estava fora do país quando, em 1966, a Justiça Militar a condenou a oito anos de prisão por crimes contra a segurança nacional. Em 1970, fugiu de vez para a Europa, onde se exilou. Sua pena foi extinta com a Lei da Anistia, em 1979.

No exterior, Silvia estudou, se casou, teve filhos e netos. Em 2001, voltou ao Recife e bateu às portas do Manicômio da Tamareira, já renomeado Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano. Queria ver sua ficha médica. Mas o único registro de sua passagem pelo manicômio era de que dera entrada em 1964. Nada mais. Os documentos completos tinham sido destruídos.

Segundo a instituição, não havia "condições de fornecer melhores dados por causa da enchente ocorrida em 1975 que destruiu grande parte de nosso arquivo". Já segundo Silvia, funcionários do antigo manicômio confidenciaram que só os documentos dos presos políticos foram destruídos.

"Mesmo assim, não podem negar o que aconteceu, porque há o meu depoimento e o de diversas pessoas que me viram lá."

Um deles é o do psiquiatra Othon Coelho Bastos Filho, que trabalhou no Manicômio da Tamarineira. O médico relatou para a Comissão da Verdade de Pernambuco, em 2013, que recebeu na instituição uma estudante universitária "em estado deplorável", levada pela rádio patrulha (antiga designação para as rondas ostensivas da Polícia Militar), em 1964.

"Ela chegou... aquela coisa humana", disse. "Essa moça, eu me recordo bem, chamava-se Silvia".

"Apesar do estado de perturbação da consciência, ela tinha momentos de plena lucidez. Ela conseguiu dizer, por exemplo, 'eu fui seviciada sexualmente'. O testemunho dela, para nós, tinha fidedignidade", declarou o médico, que morreu em 2016.

Outra testemunha, o uruguaio Pedro Makovski, noivo de Silvia à época, morreu em 2006. Depois que saíram da prisão, os dois voltaram a se ver uma única vez, em 1986, quando visitaram o Recife com as respectivas famílias.

Já era democracia no Brasil outra vez. "Quando eu perguntei sobre esse episódio [o estupro], ele ficou com os olhos cheios de lágrimas, segurou minha mão e falou: petiza [pequena, em espanhol], há coisas que é melhor esquecer".

"Eu só me lembro de cenas deste dia [do estupro]. Cheguei até a fazer um tratamento de regressão de memória. Mas, com o tempo, eu entendi que, se eu não lembro, é porque minhas forças ainda não são capazes de suportar. A natureza é sábia: sepultou a dor no subterrâneo da memória", diz Silvia, a quem o Brasil já chamou de terrorista por ter ideias políticas e distribuir jornais.

*

Por um cinema mais preto: Segunda diretora negra brasileira a estrear filme em circuito comercial denuncia genocídio da juventude negra

Juliana Domingos de Lima
De Ecoa, em São Paulo (SP)
Raphael Muller/UOL

A gente tem ali um registro que diz 'isso de fato está acontecendo', não tem como negar que aconteceu [o assassinato de um homem negro inocente pela polícia]. Aconteceu em 87 e acontece hoje. Então a gente tem ali, além das nossas vozes — porque as pessoas não acreditam nas nossas vozes simplesmente —, isso registrado, mais um instrumento para esse combate, para essa luta política e para exigir mudanças.

O que me move é contar histórias. Desde o jornalismo, é conseguir fazer um registro para que outras pessoas possam conhecer essas histórias. Com o audiovisual também é isso e, normalmente, tudo que eu faço está relacionado à questão racial. É o momento de a gente ter os nossos registros, registros dessa memória que é muito oral. É necessário e importante registrar pela nossa ótica

(Camila de Moraes)

Trailer do filme "O caso do Homem Errado"

Cineasta e jornalista, Camila de Moraes tem em seu currículo um alarmante marco histórico. Com o documentário "O caso do homem errado", ela foi a segunda diretora negra a estrear um filme em circuito comercial no Brasil, em 2018. O primeiro — "Amor maldito", de Adélia Sampaio — havia chegado aos cinemas 34 anos antes.

Os vários obstáculos enfrentados por ela e pela equipe durante o processo de produção e distribuição do longa ilustram os motivos por trás desse hiato de mais de três décadas. Foram muitas dificuldades de financiamento e rejeições de festivais até que o filme entrasse em circuito comercial e nos catálogos das plataformas de streaming Spcine Play e Globoplay.

Depois de encontrar o caminho das pedras no audiovisual, Moraes passou a trabalhar para remover pedras no caminho de realizadores negros: assumiu a militância da presença negra no audiovisual, principalmente atrás das câmeras. A sub-representação é gritante: de acordo com uma análise do Gemaa, núcleo de pesquisa da Uerj, há uma ausência total de diretores negros nos filmes brasileiros de grande público produzidos entre 1970 e 2016.

Raphael Muller/UOL
Raphael Muller/UOL

Herança

Tanto a militância antirracista quanto o audiovisual foram caminhos naturais para Camila. Gaúcha radicada em Salvador, ela cresceu em uma família de artistas e militantes do movimento negro: sua mãe, Vera Lopes, é atriz, e o pai é o jornalista e roteirista Paulo Ricardo de Moraes.

Paulo aparece em "O caso do homem errado" tentando conter as lágrimas ao relatar o horror de ter precisado identificar o corpo do amigo Júlio César de Melo Pinto no IML, em maio de 1987. Operário negro e jovem, Júlio César foi detido por engano após um assalto e executado pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul.

Nascida em abril daquele ano, Camila não conheceu Júlio César. Mas cresceu sabendo da história do assassinato através dos pais, que mantinham um arquivo com recortes de jornal sobre os julgamentos dos policiais responsáveis.

Na época, a comoção extrapolou o luto da família e dos amigos, mobilizou o movimento negro, ativistas pelos direitos humanos e a imprensa do estado e causou indignação na sociedade. Mais de 20 anos depois, a cineasta decidiu reacender a memória sobre o caso em um filme que, mesmo falando do passado, segue reverberando forte no país onde 79% das pessoas mortas pela polícia são negras. Um país onde uma jovem negra grávida de 24 anos, Kathlen Romeu, acaba de ser assassinada em ação policial no Rio de Janeiro.

"Pegamos o episódio do Júlio, um caso específico que ficou conhecido no Rio Grande do Sul, para abordar a questão do extermínio da juventude negra. A gente está falando do Júlio, mas ao mesmo tempo de diversas outras pessoas negras que ainda estão sendo executadas"

Camila de Moraes, Cineasta

Raphael Muller/UOL
Raphael Muller/UOL

Cinema de quilombo

A ideia para o filme "O caso do homem errado" surgiu em uma disciplina de jornalismo investigativo da faculdade, por volta de 2008. Camila cursava Comunicação no Centro Universitário Metodista, em Porto Alegre, e estava produzindo uma reportagem escrita sobre o episódio de 1987.

Com uma pequena câmera digital, ia também registrando os depoimentos das fontes. Ela já tinha participado da produção de curtas universitários, como "Mãe de gay", e, em certo momento, percebeu que o material poderia render um filme sobre o assassinato de Júlio César.

Foram anos tentando conseguir financiamento, inscrevendo o projeto em editais e buscando apoios para gravar, sem sucesso. Somente em 2016, a partir de uma parceria com a produtora gaúcha Praça de Filmes, foi possível dar início às filmagens.

A essa altura, Camila já tinha se formado e se mudado para Salvador (em 2010, ela foi à capital baiana assistir ao show da cantora Beyoncé. Acabou desmarcando a passagem de volta e ficando por lá definitivamente).

O filme ficou pronto no início de 2017, a tempo de ser lançado no aniversário de 30 anos do assassinato de Júlio César. Foi feita uma marcha da Esquina Democrática, no centro em Porto Alegre, à Cinemateca Capitólio, onde foi realizada a primeira exibição pública de "O caso do homem errado".

Apesar do interesse despertado pelo evento de lançamento, a carreira do filme ainda precisou de muito trabalho para deslanchar. Ele foi recusado em diversos festivais e as negociações com distribuidoras não avançaram, levando Camila a apostar na distribuição independente.

"A gente levou um ano pra compreender que não era que o filme não tivesse qualidade ou que não fosse um bom debate, e sim que, num país racista, havia uma estrutura que colocava alguns obstáculos para esse filme circular", disse a Ecoa. Ela cita a falta de diversidade nas comissões de seleção dos festivais e em outros espaços como um dos nós dessa estrutura racista.

De mesa em mesa de negociação, de estado em estado, o documentário chegou em 2018 a 21 salas comerciais de todas as regiões do país. Depois, ganhou a atenção dos festivais e de outras janelas de exibição, como televisão e streaming.

O aprendizado prático gerado pela distribuição de "O caso do homem errado" fez surgir a Borboletas Filmes, produtora e distribuidora ainda em estágio embrionário, através da qual Camila pretende colaborar para a difusão de filmes como o seu.

"A gente está produzindo sem ter condições para produzir. O que isso faz com as nossas carreiras? Levam anos para que a gente possa dizer que está trabalhando com audiovisual, sobrevivendo do audiovisual, para que a gente consiga ter condições dignas para continuar atuando. O filme trouxe esse viés de que é possível fazer, que a gente tem qualidade, tem técnica, mas que precisa ter recursos financeiros para essas produções. Eu não posso produzir ou distribuir outro filme de forma independente", disse Moraes a Ecoa.

Para Zeca Brito, cineasta e diretor do Instituto Estadual de Cinema do Rio Grande do Sul, o documentário de Camila ocupou espaços simbólicos e mexeu no cenário do cinema gaúcho.

"Foi um filme realizado sem recurso público, de uma maneira muito cooperativa, de quilombo, de pensar coletivamente como enfrentar a engrenagem do audiovisual. Ele tem a relevância de mexer com valores e olhar com uma lupa a história a contrapelo, revisando-a profundamente, sem medo", disse a Ecoa.

Raphael Muller/UOL
Raphael Muller/UOL

Movendo as estruturas

A convite de Brito, que assumiu em 2019 a direção do Iecine-RS, Camila foi responsável pela concepção e curadoria do Festival Cinema Negro em Ação, espaço de exibição e formação voltado para realizadores negros, que teve sua primeira edição em 2020.

Segundo ele, trata-se da maior ação afirmativa implementada até hoje no audiovisual gaúcho. Resultou em quase 30 horas de programação em várias linguagens — curtas, longas, videoclipes e videoarte —, exibida na TV e na internet. Além disso, projetos em desenvolvimento puderam estabelecer diálogos com plataformas Netflix e Canal Curta.

Ao criar oportunidades e dar visibilidade para novos realizadores negros, Brito considera que a cineasta gaúcha tem movimentado as estruturas do audiovisual brasileiro.

Os passos de Camila não abrem caminho só para os novatos e tem inspirado até cineastas experientes. Em entrevista a Ecoa, o paulista Jeferson De contou que a presença de "O caso do homem errado" em uma plataforma do porte do Globoplay o levou a querer disponibilizar seu "M8 - Quando a morte socorre a vida" pela Netflix. Com o lançamento nos cinemas adiado devido à pandemia de covid-19, o filme pôde chegar a espectadores de mais de cem países pelo streaming.

"É um trabalho que a Camila faz muito bem: transformar o lugar social em que ela passa, aproveitar as oportunidades e buscar conquistas para o coletivo. É uma característica dela construir as coisas de maneira coletiva e buscar melhorias e respostas, para a sua comunidade mas também para a sociedade como um todo"

Zeca Brito , Diretor do Instituto Estadual de Cinema do Rio Grande do Sul

*

Chá preto emagrece? Controla diabetes? Conheça suas propriedades

Chá preto: conheça os benefícios da bebida - iStock
Chá preto: conheça os benefícios da bebida Imagem: iStock

Carol Firmino

Colaboração para VivaBem

14/06/2021 04h00

Atualizada em 14/06/2021 07h25

É claro que não há bebidas milagrosas, mas o chá preto tem benefícios que o fazem ganhar pontos. Suas características podem ser aliadas de quem busca perder peso e ainda ajudam no controle da glicemia, o que pode ser bom para diabéticos.

Apesar de menos conhecido do que o chá verde, ele é preparado a partir da mesma planta, a Camellia sinensis, que também é a do chá branco. A principal diferença entre eles está na maneira como as folhas são colhidas e preparadas.

Relacionadas

Chás podem ajudar a menstruação atrasada descer?

O chá preto é feito com as folhas mais velhas e passa por um tempo maior de fermentação, o que diminui sua ação antioxidante, mas aumenta a quantidade de cafeína. Com sabor intenso e defumado, a bebida tem muitos nutrientes, e quando ingerida moderadamente proporciona diversos benefícios.

Conheça tudo sobre o chá preto a seguir:

Qual a diferença entre chá preto, chá verde e chá branco?

Por mais que todos tenham origem na Camellia sinensis, uma árvore de pequeno porte e de origem asiática, da família Theaceae, o processo de preparação faz com que cada chá seja diferente.

O branco é produzido a partir de folhas novas e brotos, colhidos antes mesmo de as flores abrirem. Como a planta não passa por fermentação, a ação antioxidante é mais forte e a quantidade de cafeína, menor. O preparo acontece com vaporização parcial da planta e secagem na luz natural.

O chá verde, por sua vez, é elaborado em um estágio intermediário, com as folhas um pouco mais velhas, mas ainda sem intensa fermentação. Para preparar, elas são colhidas e vão direto para a estufa, onde são desidratadas e ganham sabor amargo.

O chá preto, conforme explicamos, é feito com a folhagem em estágio mais avançado, no entanto, o processo é diferente: as folhas são fermentadas, depois oxidadas até chegarem a um tom entre o avermelhado e o marrom-escuro, só então são aquecidas e passam pela desidratação.

Quais são os principais nutrientes do chá preto?

O chá preto possui alto teor de cafeína, flavonoides, polifenóis, teofilina, taninos, l-teanina e vitaminas do complexo B. Confira a importância de cada um:

  • Cafeína: confere energia, acelera o metabolismo e aumenta a concentração;
  • Flavonoides: têm função anti-inflamatória, antialérgica, antioxidante, além de ajudar a absorver vitaminas e minerais;
  • Polifenóis: também atuam no controle metabólico, assim como na prevenção de doenças;
  • Teofilina: é responsável por estimular o sistema nervoso e pode contribuir para o tratamento de asma;
  • Taninos: têm efeito cicatrizante, adstringente e antisséptico;
  • L-teanina: é um aminoácido que aumenta os níveis de serotonina e dopamina, neurotransmissores responsáveis pelo bem-estar;
  • Vitaminas do complexo B: são importantes para a saúde gastrointestinal, da pele e dos cabelos.

Existem maneiras de intensificar suas qualidades?

É possível associar o chá preto a outros alimentos que conferem benefícios à saúde intestinal, digestiva e ao sistema imunológico. Entre eles estão o gengibre, a espinheira santa, o tomilho e até mesmo cascas de frutas, como a maçã.

Benefícios do chá preto para a saúde

As vantagens de consumir a bebida são inúmeras, tamanha a quantidade de nutrientes presentes no chá. Por isso, preparamos uma lista para explicar algumas delas.

Melhora a saúde do coração: os flavonoides têm poder anti-inflamatório e podem prevenir o aparecimento de placas de ateromas e infartos. São conhecidos como protetores do sistema cardiovascular e ajudam a evitar o aumento do colesterol LDL, considerado "ruim". Um ensaio clínico mostrou que o consumo de chá preto por duas semanas diminuiu os valores de triglicerídeos em 36%, reduziu os níveis de açúcar no sangue em 18% e a proporção de plasma LDL/HDL em 17%.

Ajuda no controle do peso: os polifenóis presentes no chá têm mecanismos que ajudam na diminuição do apetite e absorção de gordura e açúcares, o que contribuiria para quem busca perder peso. Mas é importante lembrar que o efeito no emagrecimento é pequeno e o mais importante para quem deseja emagrecer é ter uma alimentação saudável.

Contribui para a saúde do cérebro: a l-teanina e a cafeína beneficiam a atividade cerebral ao manterem o órgão em alerta e melhorarem a função cognitiva. Isso faz desse chá ideal para intensificar o foco e concentração —só não vale exagerar. A cafeína estimula o sistema nervoso ao bloquear o neurotransmissor inibitório chamado adenosina e libera aqueles responsáveis por melhorar o humor, como a dopamina e a serotonina.

Age no controle do colesterol "ruim": em algumas condições, o LDL pode se acumular nas artérias e causar depósitos chamados placas de ateroma, que levam a situações como infarto ou derrame. Um estudo realizado com indivíduos que possuem índices elevados de colesterol identificou que consumir o chá preto cinco vezes ao dia reduz em 6,5% o colesterol total e 11,1% do LDL.

Previne o envelhecimento precoce: por ser rico em antioxidantes, a bebida atua nas células impedindo a oxidação, o que melhora a oxigenação celular e mantém as células saudáveis por mais tempo.

Facilita a digestão: a presença de alto teor de teaflavinas influencia na composição da microbiota intestinal, fazendo com que o sistema digestivo funcione melhor. Ou seja, os polifenóis encontrados no chá preto promovem o crescimento de bactérias boas e inibem o de bactérias ruins.

Atua na prevenção do câncer: as catequinas presentes no chá preto são antioxidantes e promovem um efeito protetor do DNA das células e induzem a morte programada das células tumorais. É importante destacar, porém, que estudos na área continuam em busca de mais confirmações desse benefício.

Ajuda no controle da glicemia: a ação hipoglicemiante do chá ajuda a retardar a absorção da glicose. Quando não adoçada, a bebida ajuda a regular o uso da insulina no corpo, além de melhorar a forma como ele metaboliza o açúcar.

Melhora a qualidade da pele: por ser rico em antioxidantes e ter alto teor de cafeína, que são propriedades anti-inflamatórias, aplicá-lo sobre a pele pode ajudar a reduzir manchas, oleosidade e prevenir sinais de fadiga. Alguns cosméticos, inclusive, trazem o chá preto em sua composição.

Aumenta a imunidade: a alta concentração de flavonoides e taninos no chá preto estimula a cicatrização, além de atuar como agente antioxidante, desenvolver atividade antimicrobiana, anti-inflamatória, analgésica e antialérgica. Ou seja, é um grande aliado da saúde imunológica.

Contraindicações do consumo de chá preto

A maioria dos chás que contêm cafeína não é indicada para gestantes, crianças ou pessoas sensíveis à substância. Além de evitar o consumo no período noturno, também é preciso avaliar a possibilidade de interação medicamentosa, principalmente em idosos.

Por ser rico em taninos, que diminuem a absorção de diversos micronutrientes, o chá preto deve ser ingerido sem excessos e não combinado às refeições principais. Além disso, depois de pronta, a bebida mantém suas propriedades por até 24 horas.

Fontes: Giovanna Oliveira, graduada em nutrição pela Universidade São Judas Tadeu, com pós-graduação em nutrição esportiva funcional; é nutricionista da clínica Dra. Maria Fernanda Barca; Patrícia Cavalcante, médica pela Faculdade de Medicina do ABC, com pós-graduação em nutrologia pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia) e extensão em emagrecimento e obesidade e medicina do estilo de vida em Harvard; é nutróloga especialista em emagrecimento na Clínica Horaios; Pollyana Guimarães, graduada em nutrição pelo Centro Universitário de Belo Horizonte, especialista em nutrição clínica esportiva e funcional; é nutricionista do Grupo Hermes Pardini.

*

Tiago Leifert se diverte ao brincar de Faustão e bate Copa América

Apesar de honrado, substituto disse que preferia ver o Domingão de casa

Domingão do Faustão com Tiago Leifert
Domingão do Faustão com Tiago Leifert - Reprodução Globo
  • compartilhamento Especial

RECEBA AS NOTÍCIAS DO F5

Tiago Leifert foi merecidamente muito elogiado nas redes sociais por sua performance à frente do Domingão do Faustão. O titular do programa se recupera de uma infecção urinária, internado desde quinta-feira (10) no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

  1. Festas juninas: aprenda cinco receitas típicas para fazer quermesse em casa

“Excepcionalmente hoje, pela primeira vez em 32 anos, Domingão sem Faustão", anunciou. Tiago contou que recebeu a missão de representar o titular, "mas eu não estou assim superfeliz, não. Eu estou muito honrado, mas eu preferia estar em casa, de pijama, vendo o Faustão aqui”, disse o interino, recomendando que o titular melhore logo. "Toma esse antibiótico e uma salva de palmas a Fausto Silva, que vai fazer muita falta hoje”.

Ao chamar a rodada da Super Dança dos Famosos, brincou que nunca se imaginou dizendo o aviso: “Luz especial!”, um aviso para que a equipe acione a iluminação e o casal se coloque a postos para iniciar sua apresentação. Disse que jamais participaria da Dança, pois não leva o menor jeito para tanto, e até imitou Faustão ao brincar de dar um esculacho na equipe quando houve um atraso na entrada da imagem de um dos casais que receberia então suas notas. "Ô louco, meu, 32 anos de programa", emendou.

Segundo dados preliminares da audiência em tempo real, o Domingão se manteve líder de audiência, sem prejuízo, com 16,4 pontos de média, mesmo enfrentando a estreia da Copa América com jogo do Brasil no SBT, que obteve 13,6 pontos de média na Grande São Paulo.

*

FIASCO: Copa América de Bolsonaro e SBT tem MENOR PÚBLICO da HISTÓRIA e perde para DOMINGÃO do Faustão SEM Fausto Silva

Em tuíte, Bolsonaro provocou Globo indicando o logo do SBT na transmissão da Copa América; mas se deu mal

247 - Nem mesmo o bom desempenho da Seleção Brasileira em campo contra a Venezuela neste domingo (13), que venceu o jogo por 3X0, fez com que os brasileiros vibrassem pelo torneio da Copa América realizado no Brasil por imposição de Jair Bolsonaro e da CBF. O fiasco foi tamanho que o STB, detentor da transmissão, perdeu a audiência para o Domingão do Faustão durante toda a transmissão da partida. 

Segundo reportagem do Portal Pop, o torneio foi assistido por pouco mais de dois milhões e 793 mil pessoas. Até então, a lanterninha era de um confronto de 2016 contra o Equador, assistido por três milhões e 956 mil pessoas, e de um Brasil x Venezuela, de 2011, visto por 1.164.720 domicílios na metrópole — ambos foram exibidos na Globo.

De acordo com os dados prévios, enquanto a bola rolava no “Brasil versus Venezuela”, a emissora bolsonarista alcançou média de 13,6 pontos, com um pico de 15,8 às 19h51 e foi sintonizado por 22 em cada 100 TVs ligadas na principal metrópole do país. 

A Globo, mesmo enfraquecida com a ausência de Fausto Silva, que se recupera de uma crise renal, permaneceu na liderança de audiência durante a faixa horária. Durante a partida disputada no Estádio Mané Garrincha, o Domingão de Tiago Leifert cravou 16,4 pontos e teve um pico de 18,6 às 19h52. Ao todo, cerca de 575 mil e 55 pessoas separaram a programação habitual da emissora da partida transmitida pelo SBT. Em terceiro lugar, a Record ficou com 7,4 pontos.

 A reportagem ainda indica que, levando em consideração também o pré e pós-jogo da rival, a vitória da Globo foi mais acachapante. Entre 17h36 e 19h59, a emissora teve 17,0 pontos contra 12,4 da transmissão comandada por Téo José. Mais uma vez, a Record garantiu o terceiro lugar, com 7,2 pontos, seguida por 1,2 da Cultura e por 1,0 ponto da Band, na quinta posição.

Maioria dos brasileiros rechaça Copa América no Brasil

No país cujo o presidente ignorou 53 emails da Pfizer na ofertas de vacinas, o brasileiro não recebeu bem a ideia de realizar um torneio de futebol para celebrar a vida. De acordo com pesquisa do Instituto Ideia, 61% dos brasileiros desaprovam a realização da Copa América no País. O levantamento também mostrou que 52% aprovam os protestos contra Jair Bolsonaro. Os números apontam que 49% não aprovam o governo Bolsonaro.

*

Pobres sentem quase o dobro de inflação em relação aos mais ricos, diz Ipea

Indicador registrou uma aceleração da pressão inflacionária na passagem de abril para maio em todas as faixas de renda -
Indicador registrou uma aceleração da pressão inflacionária na passagem de abril para maio em todas as faixas de renda

Daniela Amorim

No Rio

14/06/2021 11h15

A alta nos preços de bens e serviços monitorados pelo governo, como energia elétrica, gás, combustíveis e medicamentos, fez a inflação dos brasileiros mais pobres encerrar o mês de maio quase duas vezes maior que a dos mais ricos, segundo dados divulgados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

O Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda registrou uma aceleração da pressão inflacionária na passagem de abril para maio em todas as faixas de renda. No entanto, a pressão foi maior entre as famílias mais pobres, com renda domiciliar inferior a R$ 1.650,50: a variação dos preços passou de 0,45% em abril para 0,92% em maio.

Entre as famílias de renda mais alta, que recebem mais de R$ 16.509,66 mensais, a inflação saiu de 0,23% em abril para 0,49% em maio. Entre os de renda média alta, com rendimento domiciliar mensal entre R$ 8.254,83 e R$ 16.509,66, a inflação acelerou de 0,20% para 0,75% no período.

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) apurado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e usado pelo Ipea para fazer o cálculo da inflação por faixa de renda, encerrou o mês de maio com avanço de 0,83%, ante uma elevação de 0,31% em abril.

Os reajustes na energia elétrica (5,4%), tarifa de água e esgoto (1,6%), gás de botijão (1,2%) e gás encanado (4,6%) pressionaram especialmente o orçamento das famílias mais pobres. O avanço nos custos da habitação gerou uma contribuição de 0,42 ponto porcentual para a inflação da mais baixa renda, o equivalente a 46% de todo o aumento de preços percebido por esse segmento de renda em maio.

Também houve pressão dos aumentos da gasolina (2,9%), etanol (12,9%) e gás veicular (23,8%). Porém, entre as famílias mais ricas, o impacto dos reajustes dos combustíveis foi atenuado pela queda de 28,3% no preço das passagens aéreas.

"Ainda que em menor intensidade, o grupo saúde e cuidados pessoais também exerceu uma influência positiva sobre a inflação em maio. Se, para as famílias de renda mais baixa, a alta de 1,3% dos medicamentos foi o principal ponto de pressão, para as classes mais ricas esse papel coube ao reajuste de 0,67% do plano de saúde", apontou a técnica do Ipea Maria Andréia Parente Lameiras, na Carta de Conjuntura divulgada hoje.

A inflação acumulada em 12 meses até maio foi de 8,91% para as famílias mais pobres, patamar bem acima dos 6,33% observados no segmento mais rico da população.

O indicador do Ipea separa por seis faixas de renda familiar as variações de preços medidas pelo IPCA. Os grupos vão desde uma renda familiar de até R$ 1.650,50 por mês, no caso da faixa com renda muito baixa, até uma renda mensal familiar acima de R$ 16.509,66, no caso da renda mais alta.

*

Transição incerta na Irlanda do Norte após renúncia da primeira-ministra

14/06/2021 11h12

Belfast, 14 Jun 2021 (AFP) - A primeira-ministra da Irlanda do Norte, Arlene Foster, deixou o cargo nesta segunda-feira (14) e abriu o caminho para uma transição incerta nesta região onde as divergências entre unionistas e republicanos, que compartilham o poder, se unem às tensões pelo Brexit.

Duramente criticada por sua impotência diante da introdução de controles alfandegários com o resto do Reino Unido devido ao Brexit, Foster anunciou em abril sua renúncia como líder do partido unionista DUP e chefe do Governo regional autônomo.

Seu partido ultraconservador nomeou uma nova direção e Foster abandonou formalmente o cargo nesta segunda-feira com um discurso no Parlamento norte-irlandês, no qual fez um alerta sobre os efeitos dos dispositivos estabelecidos no acordo entre Londres e Bruxelas sob o denominado "protocolo da Irlanda do Norte".

As medidas evitam o retorno de uma fronteira com a vizinha República da Irlanda - país membro da UE -, inaceitável para os republicanos norte-irlandeses, mas impõem controles alfandegários com a ilha da Grã-Bretanha, que os unionistas denunciam como uma separação administrativa do restante do país.

"Se Bruxelas continua pensando que o protocolo é suficiente, está negando a realidade", disse Foster.

"O desequilíbrio e a instabilidade no contexto da Irlanda do Norte é um coquetel verdadeiramente perigoso, a Irlanda do Norte é parte do Reino Unido e deve ser tratada como tal", advertiu.

O governo do primeiro-ministro britânico Boris Johnson deseja reverter algumas medidas diante do risco de novos distúrbios, mas os europeus o acusam de não cumprir com a palavra.

Neste contexto, a sucessão de Foster deve ser delicada.

O DUP dirige o Executivo regional ao lado do partido republicano Sinn Fein, com base no acordo de paz da Sexta-Feira Santa de 1998, que acabou com três décadas de conflito violento entre republicanos católicos e unionistas protestantes.

Paul Givan, de 39 anos, partidário de uma linha unionista dura, teve o nome sugerido na semana passada pelo DUP como sucessor, mas o Sinn Fein ameaça bloquear o processo.

Se o partido republicano não voltar a nomear a vice-primeira-ministra Michelle O'Neill para seu cargo, um Executivo não poderá ser formado.

O governo britânico teria então que convocar eleições regionais antecipadas.

O Sinn Fein acusa o DUP de opor-se a uma lei que conceda ao irlandês o mesmo status que atribui ao inglês na região.

jts-acc/mb/fp

*

Empresário ex-dono da rede infantil Xiquita é assassinado no Paraná

2 minutos de leitura
Redação / Tribuna do Paraná

O empresário Maruan Majid, ex-proprietário da loja Xiquita, foi morto a tiros, na noite deste domingo (13), no balneário Perequê, em Matinhos, no litoral do Paraná.

De acordo com as primeiras informações, Majid e a mulher estavam na residência, na Avenida Beira Mar, quando, por volta das 22h, foram vítimas de um suposto assalto. A mulher foi ferida no rosto e encaminhada para o Hospital Regional de Paranaguá. O empresário morreu no local.

A Xiquita é especializada em moda e produtos infantis e muitas mães e pais fizeram as primeiras compras para seus bebês na loja que teve sede na Pedro Ivo, no Centro, Batel e Hugo Lange. A loja do Hugo Lange acabou fechando por falta de segurança após ter sido furtada seis vezes em um mesmo mês.

O corpo do empresário foi levado ao Instituto Médico Legal de Curitiba e a Polícia Civil de Paranaguá investiga as motivações do crime. A reportagem da Tribuna cobrou mais informações da Polícia Civil e aguarda resposta.

*

Comissário de bordo tem surto e tenta sequestrar aeronave

De acordo com uma testemunha, o homem entrou em luta corporal com membros da tripulação

Da Redação · 2 minutos de leitura
Imagem ilustrativa da notícia Comissário de bordo tem surto e tenta sequestrar aeronave
Comissário de bordo tem surto e tenta sequestrar aeronave

Na manhã da última sexta-feira (11), um homem surtou durante um voo de um avião da Delta Airlines.

A aeronave havia saído de Los Angeles e tinha como destino a cidade de Atlanta, nos Estados Unidos

Stephon Duncan, um comissário de bordo fora de serviço, causou muita confusão no voo. Ele começou uma briga com membros da tripulação, próximo a cabine do piloto.

Alguns passageiros ajudaram os comissários a deter Stephon. De acordo com uma testemunha, Stephon pretendia sequestrar o avião e abrir uma das portas da saída de emergência enquanto a aeronave estava no ar. 

“Alguém tentou sequestrar nosso avião. O homem anunciou que precisávamos estar perto de nossas máscaras de oxigênio e tentou abrir a porta. Eles então chamaram todos os ‘homens fortes’ para a frente do avião para contê-lo”, disse a testemunha. 

Ele ainda destaca que Stephon tentou abrir a porta para o exterior e não para a cabine do piloto. 

*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*

___________________________________________________

Na era bolsonarista, expor horrores da ditadura é tarefa cívica

Leonardo Sakamoto - Torturado, frei Tito foi perseguido por fantasma de delegado até sua morte

Da tortura à loucura: ditadura internou 24 presos políticos em manicômios

Por um cinema mais preto: Segunda diretora negra brasileira a estrear filme em circuito comercial denuncia genocídio da juventude negra

Chá preto emagrece? Controla DIABETES? * É preciso AVALIAR a possibilidade de INTERAÇÃO medicamentosa, principalmente em IDOSOS * Rico em TANINOS que DIMINUEM a ABSORÇÃO de diversos MICRONUTRIENTES.

Tiago Leifert se diverte ao brincar de Faustão e bate Copa América

FIASCO: Copa América de Bolsonaro e SBT tem MENOR PÚBLICO da HISTÓRIA e perde para DOMINGÃO do Faustão SEM Fausto Silva

POBRES sentem quase o DOBRO de INFLAÇÃO em relação aos mais RICOS, diz Ipea

Transição incerta na Irlanda do Norte após renúncia da primeira-ministra

Comissário de bordo tem SURTO e tenta SEQUESTRAR aeronave * Stephon Duncan tentou ABRIR a PORTA para o EXTERIOR e não para a cabine do piloto. 

*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

________________________* QUARKS, LÉPTONS e BÓSONS ________________________* COMUNISMO de DIREITA e NAZISMO de ESQUERDA. É o FIM da PICADA...! ________________________* http://www.nano-macro.com/?m=1

9