O Facebook ACESSA a nossa CONTA BANCÁRIA? NÃO, mas TROCA de dados ASSUSTA
A VIOLÊNCIA do COLONIALISMO abre passagem na memória COLETIVA da EUROPA
Um outro Lula em construção
7 fatos que trouxeram o genocídio ao Brasil - Maria do Rosário
Para erradicar a mutilação genital feminina é necessário destruir o colonialismo capitalista
Danilo Gentilli e o combate à democracia, custe o que custar
As máscaras do Dr. Queiroga
Consumidor vai pagar uma Eletrobras para o governo privatizar a Eletrobras | Míriam Leitão
Nunes Marques atropela ordem da CPI e suspende quebra de sigilo de Elcio e secretário da Saúde
O Facebook acessa a nossa conta bancária? Não, mas troca de dados assusta
Número de cidades que confirmam manifestações no 19J salta de 74 para 180 em um dia
NOS BASTIDORES DO REINO ______________________ Livro de ex-pastor que Universal tentou censurar nos anos 1990 é relançado
Com CATARATAS irreconhecíveis, RIO IGUAÇU está 'DOENTE' e vê MATA nativa MINGUAR

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Nunes Marques atropela ordem da CPI e suspende quebra de sigilo de Elcio e secretário da Saúde

247 - O ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu nesta segunda-feira as quebras de sigilo telefônico e telemático do ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, e do secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Hélio Angotti Neto, determinadas na semana passada pela CPI da Covid no Senado. A informação é do portal UOL.
A ação vai na contramão da CPI, que apura irregularidades na gestão do governo federal durante a pandemia
Na decisão sobre Franco, Nunes Marques disse ser "precipitada" a quebra de sigilo aprovada com base em uma ilação preliminar, sustentada em depoimentos à CPI e em notícias de jornal, que atribuem ao ex-secretário o crime de omissão dolosa "num contexto fático altamente complexo" — neste caso, a pandemia da covid-19.
"Em suma, não há indícios na decisão de quebra de sigilo que sustentem relação de causalidade entre a conduta do impetrante [Elcio Franco] e qualquer resultado penal ou mesmo civil — a CPI mesma não expressou esse nexo na sua decisão per relationem. Além disso, também não há o menor indício de dolo dirigido à consumação de qualquer crime ou ilícito civil por parte do impetrante", escreveu.
Já no caso de Angotti Neto, Nunes Marques entendeu não haver foco pré-definido na quebra de sigilo, considerada "ampla e genérica" pelo magistrado. "Os pedidos de listas inteiras de contatos, com as respectivas fotos trocadas, por exemplo, representam manifesto risco de violação injustificada da privacidade não apenas do impetrante, mas desses terceiros também, que sequer são investigados", ponderou.
CPI
Élcio Franco falou à CPI da Covid na última quarta-feira (9) e argumentou que o Ministério da Economia foi o responsável pela falta de consenso na elaboração da Medida Provisória que permitiria a compra de vacinas de outros países.
Élcio Franco também foi questionado pelo vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que apontou um cronograma dos emails enviados pela Pfizer para tentar vender a vacina contra a Covid-19 ao governo brasileiro, sem obter respostas. O ex-secretário apontou uma série de motivos para não terem efetivado a compra, entre elas “cláusulas leoninas” no contrato, falta de comprovação de eficácia na fase 3 dos testes e falta de uma legislação no Brasil.
Ele também fez a defesa do uso da cloroquina em seu depoimento.
Número de cidades que confirmam manifestações no 19J salta de 74 para 180 em um dia; veja a lista

247 - Até as 19h desta segunda-feira (14), os organizadores confirmaram a realização das manifestações contra Bolsonaro em 180 cidades do Brasil e do exterior no sábado, o 19J. De manhã, eram 74 confirmadas. O número deve aumentar aceleradamente durante a semana. São três as bandeiras dos atos: Fora Bolsonaro, vacinação imediata e auxílio emergencial de R$ 600. O Brasil 247 está acompanhando passo a passo a organização dos protestos e a TV 247 irá acompanhar ao vivo no sábado. Confira abaixo se já está confirmada a manifestação da sua cidade.
Para participar das manifestações será obrigatório o uso de máscara, álcool gel e manutenção do distanciamento social.
A Central de Mídia das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo confirmou a lista das manifestações já confirmadas:
Norte
AC – Rio Branco – Passeata Gameleira até o Palácio Rio Branco | 15h
AM – Manaus – Passeata Praça da Saudade | 15h
AP – Macapá – Praça da Bandeira | 16h
PA – Belém – Caminhada Mercado de São Brás até Praça da República | 8h
PA – Santarém – Praça São Sebastião | 16h
RO – Guajará-Mirim – Parque Circuito | 9h
RO – Ji-Paraná – Casa do Papai Noel | 9h
RO – Porto Velho – Passeata Praça das 3 caixas d’água | 8h
RO – Porto Velho – Carreata 7 de setembro com a Farquar | 8h
RR – Boa Vista – Carreata e ato Centro Cívico até Jaime Brasil | 9h
TO – Palmas – JK Entrada Leste do Palácio Araguaia (Lado da Serra) | 8h30
Nordeste
AL – Maceió – Carro, moto ou a pé Praça Centenário | 9h
AL- Palmeira dos índios – Praça São Cristovão | 9h
BA – Jacobina – Praça do Garimpeiro | 8h30
BA – Jequié – Praça Ruy Barbosa | 9h
BA – Feira de Santana – (Aguardando Infos) BA – Paulo Afonso – Carreata | 9h (Aguardando Infos)
BA – São Luís do Curu – Saída de ônibus rumo à Fortaleza (Aguardando Infos) BA – Salvador – Largo do Campo Grande até Farol da Barra | 14h BA – Serrinha – Carreata | 14h (Aguardando Infos)
BA – Vitória da Conquista – Praça 09 de Novembro | 8h30
CE – Fortaleza – Av. Leste Oeste Santa Edwiges | 15h
CE – Fortaleza – Praça da Gentilândia | 15h30
CE – Tianguá (Região da Ibiapaba) – Em frente ao Mix Atacarejo | 7h
PE – Recife – Praça do Derby indo pela Conde da Boa Vista até Guararapes | 9h
PB – Campina Grande – Praça da Bandeira | 9h
PB – Cajazeiras – Praça das Oiticicas | 9h
PB – João Pessoa – Caminhada e carreata Lyceu Paraibano, rumo ao ponto de Cem Réis | 9h
PI – Piripiri – Praça da Bandeira | 10h
PI – Teresina – Praça Rio Branco | 8h
RN – Mossoró | praça Cícero Dias em frente ao Teatro Municipal | 16h
RN – Natal – Midway Mall até Natal Shopping Center | 15h
SE – Aracaju – Praça da Bandeira | 9h
SE – Itabaiana – Carreata, Calçadão Airton Teles (Anfiteatro) | 16h
Centro-Oeste
DF – Brasília – Carreata Praça do Buriti (até a Esplanada) | 8h
DF – Brasília – Caminhada Biblioteca Nacional | 9h
GO – Cidade de Goiás – Praça do Chafariz | 9h30
GO – Goiânia – Caminhada e Carreata Praça Cívica | 9h
MT – Cuiabá – Prainha – Ato Simbólico | 6h
MT – Cuiabá – Carreata SESC Arsenal – Sentido Santa Isabel | 8h
MT – Cuiabá – Praça Alencastro | 11h
MS – Bonito – Praça da Liberdade | 16h
MS – Campo Grande – Praça do Rádio | 9h
MS – Corumbá – Concentração na Frei Mariano com a Dom Aquino | 8h30
MS – Dourados – Praça Antônio João | 9h30
MS – Três Lagoas – Praça do Relógio | 9h
Sudeste
ES – Vitória – Carro, Bike e a pé UFES até Assembléia Legislativa | 15h
MG – Alfenas – Praça da Rodoviária Antiga | 15h30
MG – Araguari – em frente ao Bosque John Kennedy |10h
MG – Barbacena – em frente à Policlínica | 10h
MG – Belo Horizonte – Praça da Liberdade até Praça da Estação | 13h30
MG – Betim – Viaduto do Jacintão | 9h
MG – Brumadinho- Concentração no Letreiro e caminhada até a Praça da Rodoviária | 10h
MG – Campo Belo – Praça dos Expedicionários | 9h30
MG – Caratinga – Praça da Estação | 15h
MG – Conselheiro Lafaiete – Praça Barão de Queluz | 13h
MG – Divinópolis – Rua São Paulo | 9h
MG – Divinópolis – Praça Santuário | 10h
MG – Governador Valadares – Praça da Estação | 10h
MG – Ipatinga Praça Primeiro de Maio | 9h
MG – Itabira – Rodoviária | 9h
MG – Itaúna – Praça da Matriz | 9h
MG – Juiz de Fora – Parque Halfeld | 10h
MG – Lafaiete – Praça Barão de Queluz | 13h
MG – Lavras – Praça Dr. Augusto Silva | 10h
MG – Montes Claros – Praça do automóvel clube | 9h
MG – Muriaé – Parque de Exposições | 9h
MG – Ouro Preto – Praça Tiradentes | 10h
MG – Passos – Estação Cultura | 10h
MG – Ribeirão das Neves – Praça de Justinópolis | 9h
MG – São Sebastião do Paraíso – Carreata – Rua José Braz Neves n° 100 | 15h
MG – São João Del Rei – Em frente ao Dom Bosco | 10h
MG – São Lourenço – Calçadão II | 14h30
MG – Sete Lagoas – Praça Tiradentes | 9h
MG – Ubá – Av. Comendador Jacinto Soares de Souza Lima | 15h30
MG – Uberaba – Praça Rui Barbosa | 9h
MG – Uberlândia – Praça Ismene Mendes | 9h30
MG – Varginha – Praça do ET | 10h
MG – Viçosa – 4 Pilastras | 9h30
SP – Bauru – Praça Rui Barbosa | 14h
SP – Campinas – Caminhada Largo do Rosário até Centro | 10h
SP – Caraguatatuba – (Aguardando Infos)
SP – Carapicuíba – Ato Simbólico na Vila Dirce e ida à Av. Paulista | 10h
SP – Diadema – Terminal Diadema | 14h SP – Ilhabela – Praça da Mangueira | 15h
SP – Indaiatuba – Av. Francisco de Paula Leite esquina do SESI em frente ao posto BR | 14h SP – Jacareí – Pátio dos Trilhos – 9h30 SP – Jaú – Em frente ao Cemitério | 9h
SP – Laranjal Paulista – Carreata Cemitério da Saudade | 13h30 e Ato Simbólico Largo São João | 14h30
SP – Lorena – Praça Arnolfo Azevedo | 9h
SP – Piracicaba – Praça José Bonifácio | 10h
SP – Ribeirão Preto – Passeata Esplanada do Teatro Pedro II | 9h
SP – Santo André – Praça do Carmo | 10h
SP – Santo André – Paço Municipal | 13h
SP -São Bernardo – Carreata Rua Odeon (Colégio Vereda atrás do Terminal Ferrazópolis) | 10h
SP – Santos – Estação da Cidadania | 16h
SP – São José dos Campos – Praça Afonso Pena | 9h
SP – São Luiz do Paraitinga – Carreata – Bairro do Orris | 15h
SP – São Paulo – MASP | 16h
SP – São Sebastião – Costa Sul – Praça Por do Sol – Boiçucanga | 16h
SP – Sorocaba – Praça Coronel Fernando Prestes (Catedral) | 10h
SP – Taubaté – Bolsão Avenida do Povo | 9h
SP – Ubatuba – Rotatória do Pescador | 16h
SP – Osasco – Caminhada Rua Antônio Agu/Estação de Osasco | 13h30
RJ – Angra dos Reis – Praça do Papão | 9h
RJ – Barra do Piraí – Carreata Rua Angélica (Light) | 8h30
RJ – Barra Mansa | (Aguardando Infos)
RJ – Bom Jesus de Itabapoana | Praça Governador Portela | (Aguardando Infos)
RJ – Campos – Praça São Salvador | 9h
RJ – Itaperuna | Concha Acústica | 16h
RJ – Macaé – Praça Veríssimo de Melo | 9h30
RJ – Nova Friburgo – Praça Demerval Barbosa | 14h
RJ – Nova Iguaçu – Praça Direitos Humanos Via Light | 9h
RJ – Petrópolis | Praça da Inconfidência | 11h
RJ – Resende – Mercado Popular | 10h
RJ – Rio das Ostras – Posto de saúde da Família Âncora | 9h
RJ – Rio de Janeiro – Monumento Zumbi dos Palmares até Candelária | 10h
RJ – Santo Antônio de Pádua | (Aguardando Infos)
RJ – Teresópolis | Praça do Sakura | 9h
RJ – Valença – Jardim de Cima | 10h
RJ – Volta Redonda – Vila UFF | 9h
Sul
PR – Curitiba – Praça Santos Andrade | 15h
PR – Londrina – Em frente ao Teatro Ouro Verde | 16h
PR – Ponta Grossa – Praça Barão de Guaraúna | 15h
RS – Porto Alegre – Ato 150 anos da CARRIS (Aguardando Infos)
RS – Porto Alegre – Largo Glênio Peres | 15h
RS – Porto Alegre – Mercado Municipal em marcha até Largo Zumbi dos Palmares | 15h
RS – Caçapava do Sul – Caminhada a partir das 15h com saída da praça do Noca até o largo da matriz.
SC – Araranguá – Relógio do Sol | 9h
SC – Blumenau – Praça do Teatro Carlos Gomes | 10h
SC – Brusque – Ato distribuição de máscaras e arrecadação de alimentos Praça Gilberto Colzani (Praça do Chafariz) | 10h
SC – Chapecó – Praça Coronel Bertaso em frente à Catedral | 9h30
SC – Criciúma – Praça da Chaminé | 9h
SC – Florianópolis – Praça Tancredo Neves (Praça da ALESC) | 9h
SC – Garopaba – Carreata e Bicicletada Rua Álvaro E. Nascimento | 15h
SC – Itajaí – Calçadão da Hercílio Luz | 10h
SC – Joinville – Praça da Bandeira | 10h
SC – Lages – Praça João Costa (Calçadão) | 15h
SC – Rio do Sul – Ato e Arrecadação de alimentos Praça Ermembergo Pellizzetti | 9h30
SC – São Miguel do Oeste – Ato no Trevo | 10h
SC – Tubarão – Carreata e Caminhada Praça da Arena Multiuso | 13h30
SC – Xanxerê – Ato na Praça | 9h30
Atos no Exterior
18/06
EUA – Washington – Consulado do Brasil em Washington – 1030 15th St NW | 12h (horário local)
19/06
Alemanha – Berlim – Pariser Platz Brandenburger Tor | 11h45 (horário local)
Alemanha – Colônia – Roncalli Platz | 16h (horário local)
Alemanha – Frankfurt – Romënberg (descer na Estação Römer)| 15h (horário local)
Alemanha – Leipzig – (Aguardando Infos)
Alemanha – Munique – Geschwister-Scholl-Platz | 16h (horário local)
Bélgica – Bruxelas – em frente à Embaixada do Brasil | 16h (horário local)
Canadá – Montreal – no Monument à George-Étienne Cartier| (Aguardando Infos)
Canadá – Quebec – (Aguardando Infos)
Dinamarca – Aarhus – Mølleparken | 15h (horário local)
Espanha – Madrid – Saída de Cibeles até Sol| 18h (horário local)
Espanha – Barcelona – (Aguardando Infos)
Espanha – Palma de Maiorca – Parc de la Mar (em frente ao Painel Joan Miró) | 20h (horário local)
EUA – Nova York – Union Square| 16h (horário local)
EUA – Boston – Consulado do Brasil em Boston| 14h (horário local)
EUA – Chicago – (Aguardando Infos)
EUA – Los Angeles – em frente ao Federal Building (11000 Wilshire Blvd, LA) | 10h (horário local)
EUA – Flórida – Delray Beach | 9h (horário local)
EUA – Flórida – Deerfield Beach | 10h (horário local)
França – Paris – (Aguardando Infos)
Grécia – Atenas – (Aguardando Infos)
Holanda – Amsterdam – Dam 1 | 14h30 (horário local) Inglaterra – Londres – Embaixada do Brasil | 12h (horário local) Inglaterra – Londres – Embaixada do Brasil | 14h (horário local) Inglaterra – Oxford – Fernando’s Cafe City Center | 13h (horário local)
Irlanda – Dublin – Spire| 10h (horário local)
Irlanda – Cork – Dount Square| 10h (horário local)
Irlanda – Galway – Spanish Arch | 14h (horário local)
Itália – Bolonha – (Aguardando Infos)
Portugal – Coimbra – Praça 8 de Maio | 11h (horário local)
Portugal – Lisboa – Parque Eduardo VII (Junto à Bandeira de Portugal) | 15h30 (horário local)
Portugal – Porto – Centro Português de Fotografia, Largo Amor de Perdição | 16h (horário local)
Portugal – Porto – Av. dos Aliados | 18h (horário local)
Reino Unido – Londres – Embaixada do Brasil | 12h (horário local)
Reino Unido – Londres – Embaixada do Brasil | 14h (horário local)
Reino Unido – Oxford – Fernando’s Cafe City Center | 13h (horário local)
República Tcheca – Praga – Národnímu Muzeu | 15h
Suíça – Zurich- LandesMuseum| 11h (horário local)
Suíça – Genebra – (*Aguardando Infos)
20/06
Itália – Roma – Piazzale Del Verano 20h (horário local)
Um outro Lula em construção - Luiz Roberto Alves
Por Luiz Roberto Alves

Por Luiz Roberto Alves
O PT não está a reconstruir o líder sindical e ex-presidente, mas sim as forças dispersas em busca da terceira via e desejosas do seu tertius. Tais forças certamente ainda não sabem se e quando usarão as referências do tertius gaudens ou do tertius iungens. A depender das pesquisas eleitorais, da competência dos quadros políticos disponíveis e do talento das candidaturas já postas de Lula e Bolsonaro, aquelas forças hoje dispersas – e seus possíveis organizadores – vão trabalhar com distintas formas de engajamento de parceiros políticos e aficionados. No entanto, não há estratégias para os dispersos, em cima do muro ou parasitas. Terá de haver um núcleo denso e consciente de um projeto político.
Oriundas das ciências da administração, tais estratégias de organização e informação de redes e agências podem servir em diferentes situações. Um núcleo político já sólido irá trabalhar nas periferias das candidaturas de Lula e Bolsonaro e aí buscará seu crescimento a partir dos dispersos de variada ordem, uma ação que lembra o tertius iungens, fundamentada em trazer e juntar, continuamente, mais um. Outra leitura implica em situar-se no meio do processo eleitoral e encontrar brechas e fissuras nas duas candidaturas vigentes para, então, construir o prazer da vitória em benefício do tertius gaudens.
No entanto, não há prazer na atual dispersão e na organização das armas. No “cômpito” vivido hoje (G. Rosa) existe a aposta no conhecido modo de governar do atual presidente, simbolizada pela desejada mudança no depositório de votos, a urna eletrônica, que ainda entrará como exigência democrática nas marchas populares futuras. E há um conjunto de memórias ainda fortes da administração Lula, fundamentado em uma liderança laboral que superou em muito o modo getulista de pensar o trabalho e construiu direitos realizados na Constituição de 1988, arrasados parcialmente pela “malvadez neoliberal” (Paulo Freire) e sua deglutição de todos aqueles frutos do ato de trabalhar e garantir dignidade para o mundo periférico e enjeitado que enche as grandes cidades desde os anos de 1930. Essa ação sólida, no entanto, não evita um mundo de acusações sobre acobertamento de roubos e demais mazelas, não plenamente provadas pelo direito e já postas nas alças de mira dos dispersos e do presidente em exercício.
O possível tertius teria de apresentar o novo. Embora nunca se deva dizer, para manter a cientificidade de uma ação inteligente, como foi dito do Jesus de Nazaré, isto é, “pode vir algo bom de Nazaré?” as forças dispersas têm algum tempo para sua reconstrução. No entanto, seus faróis, hoje, apontam para o desespero.
É o que se lê em uma colunista do último dia de maio na Folha de São Paulo, a senhora Rochamonte, rosto vicário dos jornalões paulistas. Uma biografia que se move entre transcendência e liberalismo, a colunista é adequada representante, quer dos jornais, quer do momento das forças liberais incertas rumo ao tertius. O texto segue por ilações conceituais e nele não se vê um grãozinho de racionalidade histórica ou sociológica. Se as ações concretas de Bolsonaro, já compulsadas e provadas também nos documentos da CPI e, antes, no sofrimento das maiorias do povo brasileiro, não exigem provas textuais. No entanto, o “nefasto Lula” da senhora Rochamonte tem o direito de algumas de algumas frases de verdade. No mínimo de pesquisa. Debalde. Basta à colunista transcender pela mera hipótese do populismo autoritário e navegar por conceitos e adjetivos desesperados: antiga, sem valor, corrupta, autoritária, populista. Um corrente fastidiosa de termos que funcionam ao modo bumerangue e retornam ao seu próprio desespero diante do que veem os olhos e do tempo que passa.
A senhora Rochamonte chega a afirmar o que FHC não disse. Para ela, o voto do prócer político e ex-presidente está garantido para Lula. Ela salta, pois, pelas frases dele e se fixa no voto em vez de pensar antes na bipolaridade eleitoral que o levaria para um voto em Lula. O fato açula o texto. Do meio ao final da tessitura desesperada, são chamadas as forças políticas díspares ao modo discursivo de ordem unida ou “lição de moral” na moçada dispersa e sem rumo.
Nesse ponto, seu liberalismo ameaçado vira um Totem no meio da aldeia confusa e o valor primitivo se atualiza como profecia da destruição da democracia. A julgar pelo término do texto, a senhora Rochamonte entende que Lula será um destruidor da democracia. Aliás, é muito maior sua inflexão fatalista sobre Lula do que sobre Bolsonaro. Será que ela ainda vê brechas do lado do atual governante para uma negociação viável?
O pequeno texto é um valhacouto para a irracionalidade. Será que muita gente ainda é capaz, considerada uma consciência saudável, de dispor o governo que vigorou entre 2003 e 2010 à pecha de destruidor da democracia brasileira?
Antes do breve argumento, convém dizer que este colunista não foi educado para se submeter a chefes, dirigentes partidários e mesmo governantes. Decorre, pois, que não tem qualquer procuração partidária para contrariar a pecha. Ocorre que vige somente a consciência de que este país foi longe demais na bravata embrulhada de razão, ou no esquecimento dos brilhos nativos que de fato indicaram um caminho democrático com forte grau de originalidade, presente nos grandes ensaios civilizatórios, na estética e na ética das culturas populares, no espírito de liberdade do cinema e do teatro, nas efetivas profecias da juventude em momentos dramáticos, nas antigas e sofridas lutas pelo trabalho decente e noutros fenômenos que povoam a escritura brasileira e enternecem a memória sem precisar citar tantos nomes ao risco de esquecer algum.
Ora, ainda que o ódio liberal (e Lula não se afastou muito do Liberalismo) não possa ser transformado em explicação histórico-sociológica, os feitos e os fatos encarnados em políticas sociais exigem mais da inteligência racional. Se é justa a crítica de que as cúpulas daquela governança amarraram parcialmente os movimentos sociais que buscavam aquela consciência genérica geradora de consciência política (como propõem Agnes Heller e Paulo Freire), é fato histórico que os escalões intermediários da governança, a par de movimentos, foram brilhantes em suas proposições, a saber os avanços nas esferas da cultura, da educação e da participação via conferências. É não só injusto como absurdo objetar uma liderança de governo sem discutir os lugares mais dignos da própria governança, (escalões intermediários e movimentos) pois somente eles criaram a memória que hoje se espalha pelas redes e constrói a candidatura do ex-presidente. O simples apoio do presidente à inteligência e à práxis desses agentes públicos já lhe garantiria a menção de democrata e bom realizador de políticas fundamentais.
Não é possível entender os governos de Lula e Dilma sem ler (ter o prazer de ler, como sugeriu Roland Barthes e outros leitores, outras leitoras) os resultados das Conferências que trabalharam as diversas ações político-sociais: educação, habitação, cultura, ambiente, gestão urbana etc. Elas são a prova definitiva de que aqueles governos construíram facetas novas na sofrida história da democracia brasileira entre autoritarismos. Nenhum outro governo democrático teve escalões intermediários tão bons! A história ainda não lhes ofereceu o lugar merecido para o debate sobre governanças e democracia, fato também devido ao fardo político-partidários do tipo messiânico que a Colônia e o Império nos meteram sobre as costas, o que ainda arde e faz proliferar fungos. Não houve Lula sem agentes públicos e movimentos sociais. Até no que faltou fazer para garantir memória e ação mais longas e menos passíveis de destruição.
Não será feita, parece, qualquer leitura na direção de 2022. Somente exacerbações em torno do suposto lido, do suposto ouvido, do suposto pensado, que se organiza como simulação nos tempos sombrios. Como ato intelectual necessário, o articulista deseja ser contrariado.
No entanto, um sinal claro desse mundo piorado (que tanto preocupou o capitalista sincero Max Weber quanto o socialista entristecido György Lukács) é o texto da senhora Rochamonte. Com o perdão da palavra, um texto nefasto.
Bah, quanto ainda teremos de suportar nas tortuosas linguagens que recheiam a política brasileira, até que não haja como não clamar como Goethe: luz!
7 fatos que trouxeram o genocídio ao Brasil - Maria do Rosário
Por Maria do Rosário
Por Maria do Rosário
Nunca antes Bolsonaro havia ficado tão desconcertado. Acostumado com seu circo de declarações abjetas e com um cerco de proteção daqueles que vergonhosamente o sustentam, sentia-se livre para governar o Brasil a seu jeito: desorganizado, descompromissado com os interesses nacionais e à vontade para promover a perversidade de suas ações. O Golpe contra Dilma ainda lhe dava lastros para fazer o que bem entendia. Toda a aparente tranquilidade começou a desmoronar, primeiro com o ressurgimento de Lula e, agora, com a eclosão da CPI que investiga as responsabilidades do Governo Federal na condução do combate à pandemia. Esta assombra o genocida à medida que o Brasil começa a conhecer o que Bolsonaro fez nos “verões passados”.
Seu desespero se desvela na tentativa vã de levar o Brasil a debater o escrutínio de voto de um sistema consagrado por sua lisura e eficiência. Cada aglomeração irresponsável que promove, com hordas vociferantes sem máscaras, é criada para tentar desviar o foco de uma verdade retumbante: ocorre um genocídio contra os brasileiros e brasileiras. Já era de conhecimento público o descaso de Bolsonaro na administração e no combate à pandemia. O papel da CPI, no entanto, está sendo o de evidenciar momentos e decisões que poderiam ter freado a contagem de mortos, que se aproxima rapidamente de meio milhão de vidas perdidas. As confirmações são gravíssimas:
- Ofertas da Coronavac foram recusadas pelo governo. Quando intenção de compra iria ser anunciada por Pazuello, as negociações pararam após críticas de Bolsonaro à vacina e à China;
- As propostas da Pfizer sobre a venda de vacinas ao governo federal ficaram meses sem resposta. Foram mais 100 milhões de doses oferecidas. Ao todo, foram 53 e-mails enviados sem qualquer retorno do Governo Federal;
- Houve tentativa, por parte do governo, de mudar a bula da cloroquina para indicá-la ao tratamento da covid-19. O medicamento, sem eficácia, provoca fortes danos colaterais e é defendido pelo presidente e seus conselheiros como tratamento para a doença;
- O Ministério da Saúde soube da crise da falta de oxigênio no Amazonas no dia 7 de janeiro, bem antes do que havia sido informado pelo Ministério da Saúde e nada fez para antecipar a resolução do problema;
- Um “ministério paralelo” interferiu nas ações do Ministério da Saúde e do SUS no enfrentamento à pandemia. O filho do presidente, Carlos Bolsonaro, participava frequentemente de reuniões, interferindo nas políticas públicas nacionais sem qualquer respeito à ciência e às boas práticas;
- Aconselhado pelo ministério paralelo, o governo adotou a tese da “imunidade de rebanho” como forma de enfrentar a pandemia. Ou seja, acreditava-se que a disseminação do vírus na sociedade geraria uma imunidade coletiva natural, desobrigando, assim, o governo a agir na prevenção e tratamento da doença e na compra de vacinas. Como sabemos, tal irresponsabilidade gerou milhares de mortes evitáveis, com meio milhão de famílias enlutadas por seus entes queridos;
- O festival de perversidades teve seu coroamento com campanhas oficiais e, especialmente, extra-oficiais, de desinformação e disseminação de fake news, promoção e incentivo a aglomerações desnecessárias, além de orientações inadequadas à população por parte do Presidente e sua equipe.
Este arcabouço de questões principais, aliadas a um conjunto extraordinário de comprovações produzidas até aqui pela CPI, comprovam o que dizíamos meses atrás: ocorre, no país, um genocídio deliberado, promovido por Bolsonaro, algo que começa a ser de conhecimento da comunidade internacional.
Este conjunto de fatos evidenciados pela CPI já são suficientes para a responsabilização do Presidente da República, algo que deve ocorrer em breve, quando do relatório da Comissão. Mas é importante lembrar ainda que para além da narrativa política, foi nas ruas que Bolsonaro construiu o genocídio que estamos vendo no Brasil. O incentivo ao tratamento precoce, o desencorajamento e desinformação sobre uso de máscaras e vacinação tiveram, e continuam tendo, impacto direto no comportamento da população em todo o Brasil, configurando um grave quadro sob absoluta responsabilidade do atual mandatário da República.
No entanto, até lá - a responsabilização de Bolsonaro - ainda há muito a ser feito. É apenas no início. Vejam que, semana passada, somente, foram determinadas quebras de sigilo que permitirão rastrear os interesses econômicos que motivaram o genocídio, entre os quais, as aquisições milionárias de lotes e mais lotes de medicamentos sem eficácia e os desvios de recursos do enfrentamento à Covid para promoção do governo em outras áreas.
As investigações estão, à recém, no início. Muito ainda está por vir. Enquanto isso, preparemo-nos: mais a caravana da morte de Bolsonaro irá ladrar. Quanto mais acuado, mais radicalizará sua pauta de barbaridades, afinal, a CPI assombra o genocida. Como deputada federal, trabalho pelo impeachment de Bolsonaro e deste governo todos os dias. Cada dia a menos, com Bolsonaro no poder, pode significar vidas salvas. Pense nisto.
Fora Bolsonaro!
Para erradicar a mutilação genital feminina é necessário destruir o colonialismo capitalista - Fabio Foltran
Por Fabio Foltran
Por Fabio Foltran
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que mais de 200 milhões de meninas e mulheres vivas hoje foram submetidas a uma prática chamada mutilação genital feminina (MGF). A grande maioria dessas vítimas vive na África e no Oriente Médio.
A MGF, também chamada de circuncisão feminina, é a remoção ou alteração da genitália externa de meninas e mulheres jovens, uma prática secular que antecede a religião moderna. Os defensores dessa prática fornecem várias razões para mantê-la, muitas vezes citando tradições culturais e considerando-a equivalente à circuncisão masculina. Mas ao contrário da circuncisão masculina, que em determinados casos é realmente necessária para afrontar uma condição médica chamada fimose, a MGF não apresenta absolutamente nenhuma indicação médica reconhecida pela OMS. Pelo contrário: existe uma longa lista de razões médicas (e morais) pelas quais ela deveria acabar.
A MGF é uma prática violenta, nociva e retrógrada que precisa ser eliminada completamente. Ela ainda persiste nos dias de hoje, no entanto, em grande parte por causa da exploração colonial.
MGF e exploração colonial
Não é surpreendente que a MGF seja praticada principalmente em lugares onde a exploração capitalista parasitária e a opressão colonial devastaram a população - principalmente na África e em lugares no Oriente Médio.
Ao roubar a mão-de-obra e os recursos dos colonizados, as pessoas são impedidas de se afastar de tradições ultrapassadas que fazem pouco sentido. São forçadas a permanecer ignorantes e mergulhadas no misticismo, quando existem provas médicas que podem desmascarar muitas das razões apresentadas para continuar a prática primitiva.
Enquanto os exploradores usam ciência e tecnologia para remover minerais às toneladas, o povo não têm acesso a informações que poderiam desmistificar práticas sem real fundamento médico. Além disso, a MGF é um negócio lucrativo para muitos profissionais, cuja capacidade de sustentar a si mesmos e a suas famílias depende da prática desse ato hediondo. E é também uma forma de garantir a segurança financeira da menina e de sua família, que pode exigir um preço mais alto pela noiva.
Para acabar totalmente com a MGF, portanto, é necessário acabar com a dominação colonial capitalista. No capitalismo, as mulheres são consideradas moeda: seja explorada como “trabalhadora do sexo” ou por causa da cultura, o valor da mulher, especialmente das mulheres colonizadas e africanas, torna-se puramente material.
Por outro lado, um Estado que dá voz e força aos trabalhadores garante que mulheres e homens possam ganhar a vida contribuindo para o desenvolvimento da nação, e tem condições de implementar políticas contrárias a práticas retrógradas que prejudicam determinados setores da população.
Danilo Gentilli e o combate à democracia, custe o que custar - Igor Corrêa Pereira
Por Igor Corrêa Pereira

Assisti uma palestra de Jessé de Souza sobre a elite do atraso e me lembrei de um programa de TV que tem suas digitais no Brasil de hoje. O programa “Custe o que custar”, mais conhecido pela sigla CQC, ganhou muita notoriedade entre 2008 e 2015 no Brasil. Exibido pela Rede Bandeirantes de TV, era uma mistura de humor e jornalismo investigativo, copiando uma programação de televisão argentina. A sua bancada era composta, entre outras figuras, por Marcelo Tas, que liderava a equipe, e Rafinha Bastos, o humorista que fez a infame piada com insinuação sexual contra o bebê de Wanessa Camargo em 2011. Também compunha o grupo Danilo Gentilli, o humorista que recentemente anunciou seu desejo de ser presidente da República. O programa CQC é o melhor exemplo da ideia que Jessé Souza quis combater em seu livro “A Elite do Atraso”. A ideia de que a política é corrupta e deve ser combatida.
Vamos por partes para fazer as conexões. Antes de relacionar o CQC com as ideias de patrimonialismo de Sérgio Buarque de Holanda, que são as ideias combatidas por Jessé, vale citar dois fatos curiosos e interessantes. O primeiro é que os CQCs Marcelo Tas e Rafinha Bastos recentemente trocaram farpas pelas redes sociais. Rafinha acusou Marcelo de ser o “veio da Havan”, o apelido pelo qual é chamado o empresário bolsonarista Luciano Hang. Sugeriu ainda que Tas é ambicioso e acha que o dinheiro é a medida do sucesso. E ameaçou publicar um livro sobre a verdadeira história do CQC. Eu estou muito curioso por esta obra. Vamos aguardar sua publicação.
O segundo fato é que o outro ex-CQC Danilo Gentilli anunciou recentemente sua possível candidatura a presidente. Cortejado por lideranças como João Amoêdo do NOVO e pelo Movimento Brasil Livre (MBL), ele declarou que “o governo federal está habitado por uma classe de saqueadores”. Ele seria uma aposta para ocupar a suposta “terceira via” na polarização anunciada entre Bolsonaro e Lula. Também estou curioso para ver se a candidatura prospera.
Eu trouxe esses dois elementos para dizer que o CQC ocorreu num momento que preparou as condições para chegarmos ao Brasil de Bolsonaro. Embora o CQC não tenha essa bola toda de ser o principal responsável pela fabricação de Bolsonaro, pode-se dizer que sim, eles contribuíram imensamente para veicular as ideias que fortaleceram o bolsonarismo. Chama atenção que hoje os humoristas que contribuíram para isso estejam brigando entre si e que um deles queira ocupar a cadeira presidencial justamente apoiado pelo grupo político intensamente ligado a elite do atraso que Jessé denuncia em sua obra. O grupo político que patrocinou a ideia de que a corrupção era um atributo da política, dos políticos, e especificamente do Partido dos Trabalhadores de Lula e Dilma. Chama atenção ainda que esse mesmo grupo queira se diferenciar do bolsonarismo que eles mesmos apoiaram e ajudaram a colocar no Palácio do Planalto.
A corrupção dos políticos foi o mote do Programa CQC. Danilo Gentilli, ao lado de Tas e Rafinha, ficou famoso em reportagens denunciando e satirizando políticos. Perambulava pelo Congresso fazendo perguntas ofensivas contra os homens de terno e gravata do Congresso, que eram editadas com efeitos especiais para tornar as abordagens engraçadas. A política no Brasil retratada como uma piada. Na mesma época, o palhaço e humorista Tiririca foi eleito deputado federal com recorde de votação. E um pouco depois, Bolsonaro, que foi apresentado por Danilo como se fosse mais uma piada da política-espetáculo, se elege dizendo a todos que não era da política, mesmo sendo deputado há 30 anos. Foi tanta piada e tanta despolitização que chegamos até aqui, numa situação em que o povo tem menos motivos para rir e mais motivos para chorar.
Mas qual a relação afinal entre o humor do ex-CQC e futuro presidenciável Gentilli com a elite do atraso de Jessé? Estamos aqui condenando o humor? Ou condenando a luta contra a corrupção? Nem uma coisa nem outra. Estamos dizendo que o humor e o combate da corrupção do CQC serve unicamente aos interesses da elite. Não é à toa que o bilionário João Amoêdo queira apoiar Gentilli. Não é à toa que até mesmo o ex-CQC Rafinha Bastos agora compare Marcelo Tas ao empresário bolsonarista Luciano Hang. As digitais da elite estão em toda essa iniciativa. A quem interessa centrar toda a indignação da opinião pública contra a política? “Sempre sonhei em viver num país com menos política” disparou o possível candidato do MBL, do NOVO e até de Sérgio Moro. A quem interessa um país com “menos política”? Jessé nos ajuda a decifrar esse enigma.
Dizer que toda a corrupção vem da “política” elege os políticos como o grande mal que precisa ser extirpado para acabar com a corrupção. Jessé Souza diz que isso seria o mesmo que afirmar que o tráfico de drogas se resolveria prendendo os “aviõezinhos”, que são os jovens usados para transportar a droga. Ora, sabemos que o tráfico tem chefes. Quem são os “chefes” da corrupção? Se existe político corrupto, quem os corrompe? Se os corrompe, é com dinheiro. E quem tem dinheiro, no mundo, são os empresários. O CQC nunca perseguiu um empresário sequer e hoje um ex-CQC é apoiado por um empresário bilionário. Por que será?
Essa campanha de desmoralização da política ocorre não só no Brasil, mas em vários países, com especificidade em cada sociedade de acordo com sua formação social. Jessé Souza identificou como essa campanha ocorre no Brasil. Trata-se de um discurso profundamente racista. E não é só um racismo racial, como adverte Jessé. É o racismo que desmoraliza o povo brasileiro em relação às demais nações do mundo, em especial os Estados Unidos e Europa. Os políticos atacados na verdade são uma forma de atacar o voto popular. É aquela ideia racista de que o povo não sabe votar, e mais do que isso. Que é degenerado por natureza, amaldiçoado em sua origem, herdou dos portugueses um gosto pela corrupção, tudo que ele vota já é corrompido. Não à toa, as campanhas de corrupção foram contra políticos que fizeram mudanças, ainda que singelas, para as classes populares. Getúlio Vargas, João Goulart, Lula, Dilma. Esses foram os que causaram furor anticorrupção. Aécio Neves foi flagrado com mala de dinheiro e não mobilizou nenhuma passeata. Bolsonaro tem acusações de corrupção, e as camisetas da CBF só o aplaudem. Nunca foi por corrupção. A corrupção que mobiliza o ódio de Danilo Gentilli, do MBL, de Amoêdo, e dos camisas amarelas é pensar as políticas para os debaixo da pirâmide.
Não é coincidência que lado a lado desses revoltados com a política, estejam amantes de figuras do Judiciário como Sérgio Moro, de empresários como João Amoêdo e dos militares. O que esses três personagens tem em comum? Nenhum deles precisou de voto popular para ser o que são. Aliás, quem elegeu Danilo Gentilli para falar de política na TV? Também ninguém, a não ser o dono da empresa de comunicação para a qual ele trabalha. Suas falas só repercutem no país porque se apoiaram em estruturas que nunca tiveram a necessidade de nenhum voto do povo. E não é casual que justamente esses personagens se voltem contra a chamada “política” que na ideia deles circunscreve aqueles que foram eleitos pelo povo. O problema deles é o problema do neoliberalismo hoje. Para continuar o processo de acumulação de riqueza, a democracia atrapalha. O neoliberalismo é cada vez mais incompatível com a democracia. É incompatível mesmo com a vida, uma vez que sua reprodução só ocorre com a destruição da vida, seja ela social ou natural.
O que Danilo Gentilli tem em comum com Bolsonaro, Sérgio Moro, Amoêdo, o MBL e as viúvas da ditadura militar é o desejo de impor uma tirania liberal que sufoque a democracia. A liberdade que eles defendem é a liberdade de propriedade e a liberdade de correr riscos. Propriedade de terras, de armas, de monopólios de TV para os patrões. E liberdade de correr riscos para sobreviver ou não, no caso dos ditos empresários de si que de fato são trabalhadores. Mas para que essa liberdade seja total, a liberdade política precisa ser reduzida. Por isso Gentilli combateu e combate a política. Quanto menos as pessoas gostarem de política, mais os proprietários dela se apropriam. A liberdade de escolher nossos dirigentes oferecida pela democracia liberal é dioturnamente atacada, a ponto de Bolsonaro afirmar que ela só valerá se apontar a sua vitória nas urnas. Eis que Gentilli e seus amigos entraram num impasse. Para ocuparem o Planalto, precisarão defender a democracia liberal que querem destruir. As serpentes da tirania lutarão entre si. Torçamos pelo veneno.
As máscaras do Dr. Queiroga - Ronaldo Lima Lins
Por Ronaldo Lima Lins
Que uma das principais polêmicas do atual governo diga respeito ao uso de máscaras, além de forte ironia, revela a pobreza da conjunção política em que, de repente, resvalamos. O uso das máscaras se incorporou aos nossos costumes como meio de defesa, uma vez que, cercados por uma epidemia que se instala nos organismos por vias respiratórias, e na falta de outras medidas ou iniciativas oficiais, não nos restavam alternativas. Depois de quatro ministros, sendo um militar, o último, o Dr. Queiroga, rendeu-se à lógica das evidências e, superadas fortes hesitações, difundiu a utilização desses apetrechos faciais como uma condição para a nossa existência. Não o fez com o agrado dos centros de poder. O lá de cima, cabe reconhecer, sempre se mostrou avesso a quaisquer estratégias em defesa da saúde pública, enquanto o número de mortes aumentava e logo, no quesito, batíamos recordes mundiais. Ao capitão, agrada o estilo dos fortões, embora ele próprio haja contraído a doença e se curado, segundo conta, com doses cavalares de cloroquina. O que não dá resultados no Planeta, pelo visto, para ele, deu.
A relação dos dois, do que manda e do que obedece, aparentemente, caminha bem. O Dr. Queiroga disse na CPI que construíram um relacionamento respeitoso, sem motivos de queixas do subordinado. Foi bem até que, num rompante de falta de educação, dos que lhe atacam com relativa frequência, o Presidente, prevendo problemas com o Ministro da Saúde, declarou-se disposto a convencê-lo a abolir as máscaras. A pequena proteção não lhe parece compatível com os eventos de massa dos quais gosta de participar. Com quase quinhentos mil óbitos, apesar da vacinação (ainda precária), de acordo com todos os pareceres, não dá para bater continência a tamanha irresponsabilidade. Era o que se esperava de uma possível reação do Ministro, no comando dos esforços de uma instituição estatal posta na linha de frente, como David contra Golias, na luta contra o coronavírus. A verdade, entretanto, é que, mais uma vez, tivemos de nos decepcionar. Na CPI, frente a um quadro de senadores da república, ele se mostrara tímido. Defendeu-se, com todas as letras, a qualquer probabilidade de enfrentar o patrão no quesito das opiniões. O fato de um não passar de um mero capitão e o outro de um cardiologista vitorioso em sua profissão, não representava a seus olhos algo digno de registro. Pois, no capítulo das máscaras, o capitão se referira a ele como “o tal do Queiroga”, um tratamento indevido para autoridades a quem o cerimonial exige um pingo de respeito. Outro consideraria o episódio um desrespeito. Pediria as contas e partiria. Grudado em seu cargo, o Queiroga não esboçou nenhum gesto de rebeldia.
No tema das humilhações, manda a dignidade que o atingido se lembre de sua trajetória pessoal e a defenda. Quando isso não ocorre, o humilhado o é duas vezes, pelo superior e por si mesmo, que pôs o rabo entre as pernas e fingiu que não viu. Lamentavelmente, foi o que se passou. O “tal de Queiroga”, declarou que estudaria o assunto. E imaginar que somos nós, que usamos máscaras, que constituímos o sujeito da História. Numa próxima manifestação, é o caso de gritar a plenos pulmões: “Viva a vida! Abaixo o genocídio!” Talvez assim escapemos da maldição que paira sobre nossas cabeças.
Editora Abril renegocia R$ 830 milhões em dívidas com o governo e entrega marcas de revistas
Para firmar o acerto, a empresa ofereceu marcas de suas revistas como garantia, entre elas Veja, Quatro Rodas, Capricho e Você S/A

247 - Em processo de recuperação judicial, a Abril Comunicações assinou acordo de renegociação de dívidas com o governo federal que envolve R$ 830 milhões em passivo.
A companhia ofereceu como garantia marcas de suas revistas, entre elas Veja, Quatro Rodas, Capricho e Você S/A. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a transação tributária dará à empresa até 70% de desconto sobre o total devido — percentual máximo permitido em lei.
O acordo foi assinado entre a Abril e a PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional) no dia 18 de maio.
Leilão do prédio da Abril
Mais uma etapa no processo de recuperação judicial da Abril, o prédio onde ficava a sede em São Paulo, na Marginal Tietê, foi leiloado no final de março. O lance arrematador foi superior a R$ 118 milhões.
A sede foi comprada pela Marabraz, varejista de móveis, construção e utilidades domésticas, e será transformada em galpões logísticos.
A gráfica da Abril já havia sido vendida, em janeiro de 2021. A editora está em recuperação judicial desde 2018, diante de dívidas que somam cerca de R$ 1,6 bilhão.
Consumidor vai pagar uma Eletrobras para o governo privatizar a Eletrobras | Míriam Leitão - O Globo

Por unanimidade, DEM decide expulsar Rodrigo Maia do partido

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BRASÍLIA - A Executiva Nacional do Democratas decidiu expulsar o deputado Rodrigo Maia do partido, após críticas e ataques que fez à legenda, em especial ao presidente do partido, ACM Neto.
Numa nota curta na noite desta segunda, o partido informou que a decisão foi tomada após a garantia ao amplo direito de defesa de Maia e que os membros da Executiva acompanharam o voto da relatora, deputada Professora Dorinha (DEM-TO).
Por unanimidade, a Executiva entendeu que Maia cometeu infração disciplinar.
O deputado rachou com o partido durante a sucessão para comandar a Câmara. Seu partido, depois de muito desgaste, optou por apoiar Arthur Lira.
Por ter sido expulso, Maia não perde o mandato. Ele chegou a se referir a Neto como um "baixinho que não tem caráter".
Em suas redes, Rodrigo Maia reagiu à sua expulsão com duros ataques. Ele voltou a se referir a ACM Neto como "Torquemada Neto", referência ao cruel inquisidor espanhol.
"Usando seu poder para tentar calar as merecidas críticas à sua gestão, tomou essa decisão. É lamentável o caminho imposto pelo Torquemada para o partido", escreveu Maia.
Sem poupar adjetivos, o deputado fluminense se referiu a Neto como uma pessoa desleal e sem caráter. "O partido diminuiu. Virou moeda de troca junto ao governo Bolsonaro".
A violência do colonialismo abre passagem na memória coletiva da Europa

MADRI — O Estado francês levou 50 anos para reconhecer que foram suas forças policiais, e não os nazistas, que levaram adiante as deportações em massa de judeus na França. O tabu foi quebrado pelo ex-presidente Jacques Chirac (1995-2007) em 1995.
— Há momentos na vida de uma nação que ferem a memória e a ideia que um país faz de si mesmo — declarou o líder conservador à época.
Passaram-se outros seis anos até que a França reconhecesse um crime cometido muito antes antes: foi só no século XXI que, graças à Lei Taubira, o Estado francês, através do Parlamento, pediu perdão pela escravidão, abolida em 1848.
A legislação leva o nome da deputada da Guiana Francesa Christiane Taubira que, em 1999, apresentou um projeto de lei para que a Assembleia Nacional reconhecesse como crime contra a Humanidade “o comércio transatlântico de escravios e a escravidão, perpetrados desde o século XV pelas potências europeias contra as populações africanas deportadas para Europa, América e Oceano Índico”. A medida passou em 2001, um século e meio depois da abolição.
Enquanto o debate sobre a responsabilidade sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial passou por uma mudança importante no final dos anos 1970 — o então chanceler alemão Willy Brandt (1969-1974) se ajoelhou diante de um monumento às vítimas do Gueto de Varsóvia no dia 7 de dezembro de 1970, um gesto que simbolizou esse processo —, a discussão sobre os crimes da colonização demorou mais para chegar, impulsionada, entre outras coisas, pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) nos EUA, mas também pela necessidade de estabelecer uma nova relação com as antigas colônias.
A Alemanha acaba de reconhecer como genocídio o assassinato em massa, entre 1904 e 1908, dos hereros e dos namas, povos originários da Namíbia, e prometeu reparações no total de 1,1 bilhão de euros (R$ 6,19 bilhões), um anúncio que foi recebido de maneira cética no país da costa oeste da África. Quase ao mesmo tempo, o presidente francês, Emmanuel Macron, reconheceu o papel que seu país desempenhou no genocídio ruandês de 1994, durante o governo do socialista François Mitterrand. Falou de “responsabilidade pesada” em um crime contra a Humanidade, cujos executores receberam o silêncio, quando não o apoio, do Estado francês, que se moveu por antigos reflexos coloniais.
José Luis Villacañas, professor de Filosogia na Universidade Complutense de Madri, explica que se trata de um “movimento de calado, uma mudança de rumo”. Villacañas estudou o império colonial da Espanha, um país que perdeu seus principais territórios ultramarinos muito antes do que outras potências europeias.
— O colonialismo europeu foi objeto de profunda crítica intelectual por conta do eurocentrismo e do imperialismo. Nestas condições, não superar essa etapa em que a Europa era o centro do mundo tem como consequência uma política exterior não demasiadamente operacional em áreas onde hoje a China entrou, se apresentando como um país não imperialista. Se a Europa quer ganhar “soft power”, precisa se livrar do passado colonial, contra o qual lutaram muitos dos atuais dirigentes africanos — apontou.
Racismo
Celeste Muñoz Martínez, professor de História da África na Universidade de Barcelona, que integra o Observatório Europeu de Memórias, onde estuda a área de escravidão e colonialismo, relaciona essa mudança ao impacto do movimento Black Lives Matter. Iniciado nos EUA por causa da violência policial, contra os negros, ele tornou visível o racismo que existe em muitas sociedades ocidentais como um resto não digerido das ideologias que justificaram o colonialismo e a escravidão.
— O Black Lives Matter impulsionou uma reflexão sobre a origem desse racismo — aponta Munoz Martínez. — A reação principal foi atacar monumentos do colonialismo, apelando ao lugar que a memória colonial e escravagista ocupa no espaço público.
Ela cita, por exemplo, a retirada da estátua do Marquês de Comillas, um banqueiro, político e traficante de escravos do século XIX, de Barcelona. Em outros casos, como no das estátuas do rei Leopoldo na Bélgica, elas foram vandalizadas.
— Um dos temas mais importantes hoje na Europa são as compensações, mesmo que não se saiba ainda como elas serão. Não sabemos a quem serão distribuídas nem com que critérios. Outro assunto é o retorno do patrimônio expropriado — afirma a pesquisadora.
A escravidão e o colonialismo são dois processos conectados, mas diferentes. Na América, eles estão muito relacionados porque entre os séculos XV e XIX o continente recebeu milhões de seres humanos arrancados da África para trabalhar até a morte nas plantações. Por outro lado, o colonialismo dos séculos XIX e XX ocorreu quando a escravidão já havia sido abolida, ainda que fosse impulsionado por um pensamento racista, como o visto no primeiro livro do desenhista belga Hergé, “Tintin no Congo” (1931).
— Isso se baseia em ideologias de desumanização e da civilização, defendendo que tudo que ali era feito ocorria em benefício dos povos agora colonizados. É um discurso que permitiu estabelecer hierarquias raciais — apontou Muñoz.
A Bélgica, como reconhecimento dos crimes do rei Leopoldo no Congo, que inspiraram a grande novela de Joseph Conrad, “O coração das trevas” (1899), foi a pioneira, com uma mudança de atitude em relação ao passado, simbolizado na transformação radical sofrida pelo Real Museu Africano, que passou a ser chamado de AfrikaMuseum: de um museu puramente colonial passou a ser uma exposição sobre o colonialismo. Um livro, “O Fantasma do rei Leopoldo”, do americano Adam Hochschild, que foi rejeitado por 10 editores antes de se tornar um sucesso internacional no início do século XXI, ajudou a desencadear essa mudança.
Holanda, Reino Unido e Estados Unidos passam por processos similares de reflexão sobre o passado. Começam a aparecer placas nos portos onde ocorreu o comércio de escravos, como em La Rochelle (França), mudam as narrativas dos museus, existentes ou novos, e foi aberto um debate sobre a restituição de objetos obtidos através do saque colonial. (A Alemanha se comprometeu a devolver os chamados Bronzes de Benin, enquanto Macron se mostrou a favor de retornar a arte africana).
Mesmo assim, ainda é necessário percorrer um longo caminho, como fica claro diante do auge dos partidos de extrema direita que exibem sem receio discursos claramente racistas. A professora Muñoz Martínez lembra do escândalo no Reino Unido quando foi descoberto que apenas em 2015 terminou o pagamento de compensações a donos de escravos depois da abolição, em 1835, enquanto jamais foram feitas reparações aos descendentes dos escravos (que contribuíram, com seus impostos, para o pagamento de reparações às famílias daqueles que escravizaram seus antepassados).
Muitos descendentes dos que sofreram com o colonialismo, e que hoje também sofrem com o racismo, acreditam que esse processo não fez nada além de começar. O cineasta haitiano baseado na França Raoul Peck, que acaba de lançar uma série na HBO chamada “Extermine todos os selvagens”, sobre os horrores do colonialismo, falava sobre isso em entrevista recente ao El País.
— A Europa ainda está em fase de negação. Não colocaria todos os países europeus no mesmo saco, mas quando vemos a TV, quando lemos os jornais, tenho a impressão de que grande parte da Europa está em fase de negação. Quando nos permitimos criticar uma parte do passado, sempre se faz com alguns matizes, reconhecemos que sim, é verdade, que nós fizemos, mas nos vemos obrigados a explicar isso. Não há ainda uma análise profunda da colonização.
O Facebook acessa a nossa conta bancária? Não, mas troca de dados assusta

Gabriel Toueg
Colaboração para Tilt
15/06/2021 04h00
"O Facebook tem acesso a todos os seus aplicativos. Toda transferência (bancária) que você faz", diz uma mulher não identificada em um vídeo que circula em conversas no WhatsApp. Em seguida, ela ensina a bloquear o acesso da rede social aos apps instalados no celular, mexendo nas configurações da plataforma. Em uma das telas exibidas, é possível ver uma lista grande de ícones de apps. O que é real ou invenção nesse vídeo, afinal? O Facebook nos espiona? Ele tem acesso detalhado ao que fazemos no celular?
A conclusão da mulher do vídeo viral sobre o Facebook ter acesso total a operações como transações bancárias e financeiras não é verdadeira. Mas o espanto dela com o número de aplicativos conectados via rede social não é em vão. Muitos internautas nunca perceberam que dados gerados na plataforma são sim compartilhados com outras empresas.
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Por isso é tão importante que nós tomemos consciência de o quanto os nossos dados são valiosos e de que muitas companhias lutam tanto por ele. Para a nossa proteção, a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) entrou em vigor. Entre suas regras, está a obrigação de qualquer empresa ou órgão público solicitem explicitamente o consentimento dos usuários para realizar uma livre troca de dados.
Por que o Facebook acessa os apps do celular?
As configurações do Facebook apresentam uma área chamada "Atividade Fora do Facebook" desde 2019, e ela é o foco do vídeo que circula no WhatsApp. Ela é, nas palavras da big tech, um "resumo da atividade que empresas e organizações compartilham conosco sobre as interações que você faz com elas, como visitas aos sites ou aos aplicativos".
Essa troca de dados entre Facebook e demais companhias, serviços e apps ocorre por meio de ferramentas para empresas disponibilizadas pela própria rede social. Uma delas é bem conhecida: sabe quando você usa um app pela primeira vez e em vez de criar uma conta nova nele com seu email, há a opção de usar seu login e senha do Facebook? Apps como Spotify e TikTok, por exemplo, permitem isso.
Quando fazemos isso, damos ao Facebook e ao aplicativo em questão a permissão para que troquem dados entre si. E o que acontece na prática? A plataforma ganha dinheiro com "retargeting", um tipo de publicidade direcionada. Um exemplo disso é mostrado nas configurações da rede social:
- Jane compra um par de sapatos de uma loja de roupas e calçados online.
- A loja compartilha a atividade de Jane com o Facebook usando nossas ferramentas de negócios.
- O Facebook recebe as informações sobre essa ação de Jane e as salvam na conta dela na rede social. A atividade é salva como "visitou o site de roupas e sapatos" e "fez uma compra".
- Jane vê um anúncio no Facebook com um cupom de 10% de desconto em sua próxima compra de sapatos ou roupas na loja online.
Agora multiplique isso por todos os apps, comércio e serviços com os quais você interage e que adotaram as ferramentas do Facebook para empresas. A reportagem, por exemplo, encontrou mais de 900 parceiros listados, entre os quais aplicativos e sites de bancos e de cartões de crédito, serviços de proteção de crédito e até de saúde.
Daí vem a sensação em algumas pessoas de que elas recebem anúncios invasivos o tempo todo. É culpa dessa engenharia. Alguns internautas gostam. Outros não. Em qualquer um dos casos é fundamental saber exatamente o que acontece por trás das engrenagens da rede social (e não é só o Facebook que funciona dessa forma).
Tanto o Facebook quanto bancos negam que haja troca de dados sensíveis, como transações bancárias, detalhes da conta corrente, da poupança, entre outros.
Uma das empresas que aparece na lista consultada pela reportagem é o Nubank. Questionada, a companhia confirmou a informação acima dizendo que "não compartilha informações financeiras e nem dados sensíveis com o Facebook". Ainda de acordo com o banco, o uso das ferramentas do Facebook é para entender métricas —isto é, dados comportamentais dos usuários— para convertê-los em anúncios.
E como desativa o acesso do Facebook?
- No app do Facebook, acesse o menu de Configurações (menu com três barras no topo direito da tela principal do app);
- Role para baixo até "Configurações e Privacidade" e clique nessa opção;
- Escolha "Configurações";
- No 4º bloco, "Suas informações no Facebook", selecione "Atividade fora do Facebook". Você poderá então ver a quantidade e lista de aplicativos e sites que compartilham dados com a rede social. Basta clicar nos ícones que aparecem e colocar a sua senha para ver a lista completa;
- Dentro desse menu, clique em "Desconectar Histórico", que eliminará toda a sua interação passada com os aplicativos;
- Se você prefere bloquear o compartilhamento de parceiros específicos ou ver detalhes sobre o que é compartilhado, basta acessar qualquer item e escolher "Desligar atividades futuras de (nome do parceiro)";
- Há ainda a opção de barrar o compartilhamento futuro de informações. Para isso, no menu "Atividade fora do Facebook" escolha "Mais Opções" e vá em "Gerenciar Atividade Futura". Basta seguir as instruções da tela e desligar a opção de compartilhamento.
O Facebook pode trocar dados sem eu saber?
Especialistas em direito digital ouvidos por Tilt elogiam o fato de haver uma ferramenta de desligamento da troca de dados, mas o problema é que se você não optar ativamente por desligá-lo, seus dados ficam acessíveis para o Facebook até você mudar as configurações. Em outras palavras: mesmo sem você concordar, suas informações podem estar rolando soltas sem ter percebido.
Segundo a advogada Maria Gabriela Grings, pesquisadora do Instituto LGPD em direito digital e processual, o comportamento do Facebook fica em desacordo com várias questões da lei. De acordo com as regras, o tratamento de dados só pode ocorrer após consentimento livre e informado do usuário, tirando algumas exceções. "Não é o que parece ocorrer quando as empresas compartilham e o Facebook aceita", diz ela.
Para Grings, a funcionalidade que desliga essa troca de dados está longe de proteger a privacidade, embora o Facebook destaque como tal. "Você precisa entender [a ferramenta], desabilitar [o compartilhamento] e tomar outros passos para que seus dados não continuem sendo partilhados", critica a advogada.
O coordenador de direito e tecnologia do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade) Rio, Christian Perrone, explica que é mais uma ferramenta que ajuda a dar controle sobre quais dados você compartilha. Mas alerta que é preciso haver mais transparência. "Poderia existir, por exemplo, um aviso de que tal propaganda é exibida porque você acessou tal site ou teve tal e tal comportamentos", sugere.
Rafael Zanatta, diretor da Associação Data Privacy Brasil de Pesquisa, concorda. "Parece ser um passo importante, mas é limitado, incompleto. A ferramenta dá alguns controles, mas não permite uma compreensão completa [sobre o que é compartilhado], afirma. "Isso não impede que dados já cedidos [antes da mudança nas configurações] continuem a ser utilizados para que a indústria extraia informações a partir deles".
O que diz o Facebook?
A rede social explicou, por meio de nota, que os dados a que tem acesso têm finalidades comerciais, como ajudar a melhorar a qualidade de anúncios mostrados aos usuários e otimizar os recursos de anunciantes.
"Ao acessar as opções, é possível entender que os dados podem ser compartilhados quando você abre um app, faz login em um aplicativo usando a conta do Facebook, visualiza algum site, pesquisa por algum item, adiciona um produto a listas de desejo ou a carrinhos de compras ou quando faz uma doação ou uma compra num parceiro [empresa]", diz a empresa.
O que diz a ANPD?
Procurada, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), órgão que fiscaliza empresas à luz da LGPD, diz que "as mídias sociais normalmente contam com algoritmos para aprimorar os serviços prestados aos seus usuários, mediante consentimento desses ou com fundamento em outra base legal estabelecida pela LGPD".
A ANPD acrescenta que, se o(a) internauta perceber uma violação de privacidade, cabe a pessoa procurar o controlador dos dados solicitando os seus direitos (O Facebook, no caso) . Caso ele não seja atendido, a sugestão da agência é a vítima procurar os canais de atendimento disponíveis em seu portal.
Livro de ex-pastor que Universal tentou censurar nos anos 1990 é relançado
Mário Justino relata bastidores com 'sexo, dinheiro e drogas' misturados com 'orações e salmos de Davi'
Mário Justino tinha 28 anos quando escreveu, em dois meses, uma autobiografia devastadora sobre sua passagem pela Igreja Universal do Reino de Deus –onde, segundo ele, “sexo, dinheiro e drogas se confundem, no mesmo púlpito, com orações e salmos de Davi”.
Justino tinha pressa. Achava que morreria logo.
Naquele ano, 1993, o mundo também passava por uma pandemia, a de Aids. Ele, um pastor da igreja, era soropositivo. “O mal que eu temia me sobreveio”, lembrou das palavras do bíblico Jó quando recebeu o diagnóstico.
Já consolidado como um dos maiores líderes evangélicos do Brasil, o bispo Edir Macedo teria lhe dito antes de expulsá-lo, conforme Justino reproduz: “Ora, não se faça de imbecil! Você sabe por que tem de ir. Mas vou refrescar sua mente. Você não pode mais ficar com a gente porque tem Aids!”.

O ex-pastor esteve a poucos metros de “estourar-lhe os miolos” quando o viu sair de uma limusine em Nova York, como conta no livro. Viciado em crack e heroína, movia-se por vingança. “Perdi uma boa chance de entrar para a história como o Lee Oswald [o assassino do presidente americano John F. Kennedy] da Igreja Universal.”
Negro, bissexual e pai de dois filhos, nascido em São Gonçalo (RJ) e hoje dono de um "green card" dos EUA, Justino não morreu nem matou.
Aos 56 anos, ele teve sua obra relançada pela Geração Editorial com um novo capítulo final: agora, o desfecho de “Nos Bastidores do Reino” é a íntegra da decisão judicial que derrubou uma liminar concedida à Universal em 1995 para retirar o livro de circulação 22 dias após ele chegar às livrarias.
Publisher da Geração, Luiz Fernando Emediato diz à Folha que Edir Macedo “tentou comprar os direitos do livro para engavetar”, primeiro de Justino (que recusou), depois dele (idem). “Me dariam um dinheiro, e eu enrolaria o autor até ele morrer de Aids, não tinha coquetel [para controlar o HIV] na época”, afirma.
Gilberto Nascimento lembra do caso em "O Reino - A História de Edir Macedo e uma Radiografia da Igreja Universal", publicado em 2019 pela Companhia das Letras.
Emediato disse ter sido procurado pelo lobista Gláucio Schmiegelow, que por sua vez acusou uma executiva da Universal de ser a principal articuladora da tentativa de compra dos direitos autorais do título maldito.
Com o “não” de autor e publisher, a igreja entrou com um pedido de liminar. A Justiça o acatou e mandou recolher o livro. "A mesma juíza demorou dois anos para julgar o mérito. Quando julgou, surpreendentemente liberou [o título] e nos deu ganho de causa”, diz Emediato. "Mas aí o interesse pelo livro havia desaparecido.”
Reapareceu depois de uma proposta feita em 2020 para levar a história de Justino ao cinema, com produção de Nilson Rodrigues, ex-diretor da Ancine (Agência Nacional do Cinema). A ideia é convidar José Henrique Belmonte (“Carcereiros”) para dirigir o filme, diz o produtor.
Não surpreende que a Universal tenha desejado o sumiço das páginas preenchidas pelo ex-membro que diz ter tido com outro pastor da casa sua primeira relação homossexual.
É um retrato pouco lisonjeiro. Pior: foi lançado no mesmo ano em que um bispo da Universal desferiu pontapés numa estátua de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, que descreveu como "um bicho tão feio, tão horrível, tão desgraçado" —evangélicos não cultuam santos.
Conhecido como “chute na santa”, o episódio dominou o noticiário de um Brasil ainda predominantemente católico e chegou a motivar ataques a templos da Universal.
Um mês depois, o relato de Justino foi publicado. A certa altura, ele diz que atos de alguns colegas pastores o levaram a descobrir que a igreja “nada mais era do que uma empresa com fins lucrativos como qualquer outra na ciranda financeira”.
A única diferença, segundo o autor, “era o produto vendido: sal que tira vício, lencinhos molhados no ‘vinho curativo’ —o conhecido Ki-Suco—, água da Embasa, que dizíamos ter vindo do rio Jordão, azeite Gallo, que dávamos ao povo como legítimo óleo ungido proveniente de Jerusalém, e uma longa lista de outros produtos tão falsos quanto as gotas de leite extraídas dos seios da Virgem Maria, que eram vendidas na Europa nos primeiros séculos, aos otários em busca de milagre”.
Na nova edição, Justino afirma que seu depoimento “acabou por revelar ao público, a partir de um olhar de dentro, os primeiros 14 anos de existência de um dos grandes fenômenos do Brasil contemporâneo: o império religioso erguido por Edir Macedo, e sua posterior transformação em poder midiático e força política abrangente no país”.
Procurada pela Folha, a Universal, por meio de seu departamento de comunicação, disse que não se manifestará, "pois não teve acesso a esta nova edição da obra e tampouco recebeu qualquer notificação da decisão judicial que, supostamente, teria liberado sua publicação".
À reportagem Justino traça paralelos entre seus tempos pastorais e os atuais, sobretudo o embate entre pastores brasileiros e angolanos nos templos da Universal abertos no país africano. Autoridades locais denunciaram quatro integrantes da igreja por crimes como lavagem de dinheiro, todos negados pela cúpula brasileira.
Para o ex-pastor, as reclamações dos pastores angolanos assemelham-se a fatos que ele mencionou 27 anos atrás.
“No livro eu falo do grupo de pastores ‘notáveis’ que recebiam tratamento diferenciado como recompensa pela habilidade de arrecadar grandes somas de dinheiro. Eles ganhavam bons carros, bons salários, viagens para Israel, apresentavam os programas de televisão, e isso causava ressentimento nos pastores de periferia que não conseguiam levantar a mesma quantidade de ofertas para terem direito a essas benesses. Na minha época, os notáveis geralmente eram cariocas. Em Angola, eram os brasileiros.”
Um dos investigados na África é o bispo Honorilton Gonçalves, ex-representante máximo da Universal em Angola e ex-vice-presidente artístico da Record TV, emissora do bispo Macedo.
Ele já havia sido citado por Justino no livro. Ele “fora um grande amigo” para quem confidenciou, em carta, sobre sua suspeita de estar com a “doença incurável” (a Aids), diz. Segundo Justino, dois meses depois Macedo o chamou em seu escritório para ejetá-lo da igreja.
O ex-pastor está fora dela há três décadas. Olhando em retrospecto, não estranha a relação da Universal com o presidente Jair Bolsonaro, trincada após bispos criticarem o governo por não se empenhar mais na crise em Angola.
É vista como um aceno à igreja a indicação para a embaixada da África do Sul do ex-prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo que terminou seu mandato numa prisão depois revertida.
“Não acredito que o apoio da instituição ao bolsonarismo seja irreversível, apesar de todos os benefícios que recebe do governo”, diz Justino. “[Fernando] Collor também foi bondoso com eles, concedendo a Record, e foi abandonado. Dilma [Rousseff] deu ministérios no seu governo [Crivella foi seu ministro da Pesca] e acabou traída por eles."
"A Universal não tem ideologia política, ela fica ao lado de quem tem o poder ou sinaliza que irá alcançá-lo. Se Bolsonaro demonstrar fraqueza para as próximas eleições, eles não terão o mínimo constrangimento de aliar-se ao Lula novamente ou a quem quer que seja.”
Nos Bastidores do Reino: A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus
- Preço R$ 48 (208 págs.), R$ 34 (ebook)
- Autor Mário Justino
- Editora Geração Editorial
Com cataratas irreconhecíveis, rio Iguaçu está 'doente' e vê mata nativa minguar
João Fellet
Da BBC News Brasil em São Paulo
16/06/2021 09h51
Atualizada em 16/06/2021 09h54
O Iguaçu (rio grande, na língua tupi) mais parecia um "imirim" (rio pequeno, no mesmo idioma) para quem visitou suas famosas cataratas nos últimos dias.
Segundo a Copel (Companhia Paranaense de Energia), a vazão da água perto das quedas foi de 308 mil litros por segundo, ou um quinto do fluxo normal, nos dias 9 e 10 de junho. Foi o menor índice de 2021.
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É o segundo ano seguido em que a atração, reconhecida como patrimônio natural da humanidade pela Unesco, fica irreconhecível. Em abril de 2020, a vazão nas quedas foi ainda menor que a atual, chegando a 259 mil litros por segundo.
Meteorologistas atribuem o baixo fluxo principalmente à falta de chuvas no Paraná, estado onde ficam as nascentes do Iguaçu e que é atravessado por ele até sua foz, em Foz do Iguaçu, onde ele deságua no rio Paraná.
Segundo o Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná), desde fevereiro, quase todo o estado tem tido chuvas abaixo da média histórica.
Como as precipitações só tendem a voltar em outubro, reservatórios de hidrelétricas na bacia têm retido água para garantir alguma reserva para os próximos meses, o que também vem reduzindo a vazão do rio a jusante. Há seis hidrelétricas de grande porte no Iguaçu.
Mas especialistas afirmam que, embora a chuva não esteja ajudando, o Iguaçu é hoje um rio "doente" e nunca esteve tão vulnerável à variação pluviométrica.
Segundo o MapBiomas, plataforma que monitora o uso do solo no Brasil, entre 1985 e 2019, a região da bacia do Iguaçu perdeu 21,3% de sua vegetação nativa, formada principalmente pela Mata Atlântica.
E na sub-bacia que abarca as cabeceiras do rio, nos arredores de Curitiba, resta hoje apenas 7,2% da vegetação original, segundo Malu Ribeiro, diretora de Políticas Públicas da ONG SOS Mata Atlântica.
"O Iguaçu é um rio doente e que, para se recuperar, precisa de mata ciliar", ela afirma à BBC News Brasil.
Ribeiro explica que a Mata Atlântica, quando preservada, atenua o impacto de secas e temporais sobre os rios. A floresta retém no solo a umidade acumulada no período chuvoso, garantindo que as nascentes continuem a jorrar mesmo na estiagem.
Porém, quando as árvores são removidas e substituídas por lavouras ou pastagens, o solo deixa de segurar a umidade. Isso faz com que, na estiagem, as nascentes próximas gerem menos água ou até sequem.
Já na época úmida, as chuvas não conseguem infiltrar no solo desmatado e tendem a escorrer direto para os rios, causando erosão e enchentes.
Em 2018, Ribeiro participou de uma expedição que percorreu todo o curso do Iguaçu para analisar a qualidade da água e o impacto do desmatamento e da construção de hidrelétricas na bacia.
Ela diz que o rio está poluído em praticamente toda sua extensão, principalmente por causa de agrotóxicos, e que a qualidade da água é ruim até mesmo no Parque Nacional do Iguaçu, a maior área protegida da bacia.
Líderes de desmatamento
Imagens do satélite Landsat/Copernicus mostram a intensa destruição da floresta na bacia do Iguaçu nas últimas décadas. Em nenhum lugar a transformação foi tão avassaladora quanto em Rio Bonito do Iguaçu, no centro do Paraná.
Em 1984, uma densa e extensa floresta protegia a margem direita do Iguaçu no município. De lá para cá, só sobraram fragmentos de mata em topos de morros e em faixas estreitas que acompanham cursos d'água.
Rio Bonito do Iguaçu foi o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica entre 1985 e 2015, segundo a SOS Mata Atlântica. Só ali foram destruídos 24,9 mil hectares de floresta, o que equivale a quase o município de Fortaleza inteiro.
A Mata Atlântica se estende por 17 Estados brasileiros. Cinco dos dez municípios que mais destruíram o bioma entre 1985 e 2015 ficam no Paraná.
E a destruição não parou. Em partes do Estado, como na própria Rio Bonito do Iguaçu, o noticiário lembra o de partes da Amazônia, com registros frequentes de prisões de madeireiros e de apreensão de toras extraídas ilegalmente.
Em todo o Brasil, a Mata Atlântica já perdeu 87,6% de sua cobertura original.
Conservação como empecilho
Para Clóvis Borges, diretor executivo da ONG SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental), sediada em Curitiba, prevalece entre boa parte da elite política e econômica do Paraná a visão de que "a conservação é um empecilho ao desenvolvimento".
A destruição das florestas paranaenses teve um grande impulso a partir da Primeira Guerra Mundial (1914-1919), quando o Brasil enfrentava dificuldades para importar madeira.
Várias famílias de imigrantes europeus passaram a se dedicar à extração de araucárias, também conhecidas como "pinheiros-do-paraná" por abundarem na região. Muitas cidades no Paraná e em Santa Catarina nasceram e cresceram graças à atividade madeireira.
Em 2001, porém, segundo um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), só restava no Estado 0,8% da área original ocupada pelas matas de araucárias. Ironicamente, o Paraná quase levou à extinção o pinheiro-do-paraná.
"Salvo o Parque Nacional do Iguaçu e a região costeira, o Paraná é um Estado devastado", diz Clóvis Borges.
Nos últimos dias, cresceram temores de que mesmo a proteção do parque nacional esteja sob risco.
Em 9 de junho, deputados federais do Paraná conseguiram fazer com que um Projeto de Lei que permitiria a reabertura de uma estrada dentro da unidade tramite em regime de urgência, modalidade que acelera a análise da proposta.
A estrada foi fechada em 1986 por uma decisão judicial e, desde então, foi recoberta pelas matas.
Autor da proposta, o deputado Vermelho (PSD-PR) diz que a estrada existia antes da criação do parque e que a obra seguirá boas práticas ambientais. Apoiadores da proposta dizem que moradores que viajam entre Serranópolis e Capanema economizarão 180 quilômetros se a estrada for reaberta.
Já Clóvis Borges afirma que a tentativa de reabrir a estrada reflete uma "impertinência cultural".
Segundo ele, há 30 anos políticos paranaenses agem para desmontar órgãos ambientais estaduais em benefício de um "ruralismo canhestro".
Ele lembra que congressistas paranaenses estiveram entre os principais defensores das mudanças no Código Florestal aprovadas em 2012 - mudanças que, entre outros pontos, afrouxaram as exigências de preservação ao longo de cursos d'água.
Antes da mudança, a legislação exigia a restauração e conservação de margens de rios, riachos e nascentes. Com o novo código, muitos proprietários rurais ficaram dispensados da exigência.
Para Clóvis Borges, a bacia do Iguaçu só será recuperada quando proprietários rurais forem remunerados por conservar o ambiente.
Ele diz que já há formas de calcular o valor que uma área protegida gera ao evitar emissões de carbono e proteger as águas, por exemplo. "Agora falta conversar com as partes beneficiadas e cobrar delas para que paguem ao proprietário, porque ele só vai proteger se for pago", ele diz.
Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica, também propõe soluções. "É importante estabelecer áreas públicas e privadas prioritárias para a restauração e ampliá-las, compensando os donos".
Ela diz ainda que o Brasil deve investir em outras fontes de energia para não depender tanto de hidrelétricas e termelétricas.
"É importante investir em energias limpas e renováveis, como eólica e solar, para que quando tivermos problemas climáticos não haja um conflito entre o setor elétrico e a preservação."
"As cataratas são um patrimônio da humanidade, não dá para ficar compartimentando ainda mais o rio", defende.

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