De Anitta a fetichistas, OnlyFans reinventa o EROTISMO e a indústria PORNÔ ___________________________________________ OS NOVOS PORNÓGRAFOS _________________________________ Como as REDES sociais e o SMARTPHONE criaram uma NOVA ERA de produção PORNOGRÁFICA na INTERNET
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De Anitta a fetichistas, OnlyFans reinventa o erotismo e a indústria pornô
OS NOVOS PORNÓGRAFOS
Como as redes sociais e o smartphone criaram uma nova era de produção pornográfica na internet
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_________________________________________ Reinaldo Azevedo - Senhora dos Absurdos: "Tá com fome, pobre? Coma resto e alimentos vencidos"
Meu bom pobre com fome,
os ministros Paulo Guedes (Economia) e Tereza Cristina (Agricultura) têm a solução para os seus problemas. Isso ficou claro no Fórum da Cadeia Nacional de Abastecimento, promovido pela Associação Brasileira de Supermercados. Por onde começo? Por Guedes achando que o brasileiro come com menos frugalidade dos que os europeus — isto é, come muito — porque não passou por guerras, acrescentando que os restaurantes deveriam entregar as sobras aos famintos? Ou por Tereza, que está pensando em mudar a regra sobre a validade dos alimentos? Para fazê-los chegar à pobreza, claro!
Ah, comecemos pelo ministro. Ele tem aquele seu estilo agitado de dizer generalidades as mais escandalosamente reacionárias, mas com um ar ligeiramente professoral — ou melhor: professoral-ligeiro —, simulando um pensamento profundo; tudo vazado num tom, assim, de quem está um tantinho escandalizado porque o interlocutor ainda não teria percebido o que ele já percebeu.
Coluna na Folha: O nem-nem da terceira via é um erro, antes de tudo, ético
Acontece que o "óbvio" de Guedes, não raro, é alguma aberração de quem não tem a menor intimidade com um país de 210 milhões de habitantes, em que 110 milhões vivem no que os especialistas chamam "insegurança alimentar".
Atenção! Os ministros cujas falas vão abaixo exercem cargos importantes no país que é o terceiro maior produtor de alimentos do mundo — só perde para EUA e China — e que é o maior exportador.
O pensador resolveu dar a sua receita para acabar com a fome, que voltou a assumir proporções alarmantes no país. Prestem atenção à proposta e à filosofia que a embasa:
"O prato [de comida] de um classe média europeu, que já enfrentou duas guerras mundiais, são pratos relativamente pequenos. E os nossos aqui, nós fazemos almoços onde, às vezes, há uma sobra enorme. Isso vai até o final, que é a refeição da classe média alta, até lá há excessos. (...) Como utilizar esses excessos que estão em restaurantes e esse encadeamento com as políticas sociais, isso tem que ser feito. Toda aquela alimentação que não for utilizada durante aquele dia no restaurante, aquilo dá para alimentar pessoas fragilizadas, mendigos, desamparados. É muito melhor do que deixar estragar essa comida toda".
Falou o tiozão do churrasco. Mas não de um churrasco qualquer. Tirinhas de carne, bem fininhas. Nada de se empanturrar. Pensem na economia de guerra, brasileiros! Sua fala transcrita mereceria um pequenino tratado sobre a alienação. O que será que ele quer dizer quando afirma, referindo-se à classe média alta, que "até lá há excessos"? Explico: Guedes está dizendo que, no Brasil, até os ricos têm um hábito muito arraigado, típico dos pobres: comer demais!
E, como vocês sabem, alguns desses pobres, na modalidade "empregadas domésticas", também tinham a mania de ir para a Disney.
É o ministro que, na reunião do Conselho de Saúde Suplementar, ao lamentar a falta de recursos do SUS e, na prática, defender ainda menos recursos, disse em tom meio lamentoso:
"Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130 ". E concluiu que "não há capacidade de investimento para que o Estado consiga acompanhar".
E como diminuir o financiamento do SUS e, ainda assim, atender a esse pobre que come e vive demais?
Ele também deu a resposta?
"Você é pobre? Você está doente? Está aqui seu voucher. Vai no Einstein se você quiser".
BOTOX DE POBRE
Os gênios, parece, planejam um modo de nossos pobres também terem acesso à toxina botulínica: por meio do botulismo. É bem verdade que a doença mata. Mas, como já disse o chefe de Tereza Cristina e Guedes, "todo mundo morre um dia; nem sente".
A ministra também teve ideias. Ela quer mudar as regras para o alerta de vencimento dos alimentos -- mas sem rebaixar exigências, por favor! Afirmou:
"A gente poderia fazer uma adaptação, sem precarizar nada. Podemos rever uma série de fatores e gargalos, principalmente em relação à validade dos nossos alimentos. A pandemia nos trouxe esse tema de maneira perceptível, temos que agir rapidamente", afirmou."
A ideia ainda não está formatada, mas ela passa, claro!, por estender o prazo de validade. Como fazê-lo? Vender comida vencida? Isso não pegaria muito bem, né? Quem mantém produtos assim na gôndola pode ser multado.
O governo poderia comprar dos supermercados distribuir aos pobres alimentos perto do vencimento — com o risco imenso de ser consumido depois da data? Ou é preferível mudar a inscrição na embalagem, criando uma tradução para o "Best before": "Melhor consumir antes de tal mês"? Notem a sutileza: é "melhor", mas aí o pobre decide se compra um produto mais barato, depois do "before", ou paga preço cheio para consumi-lo a partir do "before".
ESCÂNDALO MORAL
É um escândalo moral. Ali estavam os dois ministros aos quais concerne a brutal inflação de alimentos que vive o país -- da ordem de 15%. Há produtos que aumentaram 50%. O Brasil tem hoje o menor consumo de carne em 25 anos. E, por óbvio, também cumpre a eles, no governo, primariamente, dar uma resposta à fome.
Cuidado, meu bom pobre! Junto com o conteúdo de uma embalagem vencida, pode vir a tal bactéria Clostridium botulinum. O nome do programa poderia ser "Bolsa Botulismo".
A fome voltou a ser um problema sério no Brasil, e essa gente não tem a menor noção do que está falando. Não temos exatamente um governo, mas uma associação de lobistas sem compromisso com o interesse público. Pouco importa se está capitalizando a Eletrobras ou tratando da fome.
Não por acaso, esse é o governo que extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional logo na primeira semana.
Havia um plano para quem tem fome: restos e alimentos vencidos.
ENCERRO
O diretor, ator e humorista Paulo Gustavo, que morreu de covid-19 no dia 4 de maio, criou uma personagem chamada "Senhora dos Absurdos". É uma perua rica e agressiva, que diz os disparates mais abjetos e tem ódio patológico de pobres.
Paulo Gustavo, infelizmente, está morto.
A Senhora dos Absurdos está no poder.
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De Anitta a fetichistas, OnlyFans reinventa o erotismo e a indústria pornô
OS NOVOS PORNÓGRAFOS
Como as redes sociais e o smartphone criaram uma nova era de produção pornográfica na internet
A recepcionista de hotel mal tinha completado 18 anos quando recebeu uma proposta pelo Instagram.
Um desconhecido ofereceu R$ 100 por 25 fotos sensuais.
Até então, Freitas nunca ouviu falar em pack de nudes ou qualquer coisa do gênero.
Tirou as fotos com seu celular de câmera de baixa resolução, sem entender muito bem como deveria fazer.
Fez.
Mandou.
Em menos de uma hora, o dinheiro estava na conta.
Para ela, era uma fortuna.
"Em minutos, ganhei uma quantia que meu pai, que vive de salário mínimo, demoraria muito mais para conseguir", relembra.
Foi assim que a jovem percebeu a chance de ganhar dinheiro e sair do salário mínimo.
Ela passou a pesquisar perfis de garotas que vendiam conteúdo sensual e notou a ausência de mulheres trans na área.
Aos poucos, a jovem de 19 anos foi se profissionalizando.
Investiu em luz, um celular melhor e roupas mais elaboradas.
Também migrou das fotos sensuais para conteúdos mais pornográficos.
Também resolveu se mudar da sua cidade natal para a capital de São Paulo.
Em pouco mais de um ano, Mel conseguiu alugar um apartamento na região central de São Paulo, bancar-se sozinha e até mandar dinheiro para a família no Ceará.
Não é um trabalho empoderador nem glamouroso, como ela mesma gosta de esclarecer, mas foi uma forma eficiente de hackear os estigmas da sociedade em relação às transexuais.
"A sociedade quer que as mulheres trans façam programa na rua ou fiquem lavando cabelo de madame no salão", critica.
"Se você não estiver fazendo uma dessas duas coisas, vivendo só com o básico, sempre à mercê da morte e da violência, vai causar indignação."

PACK DE NUDES
A história de Mel é apenas uma dentre milhares de brasileiras, em sua maioria mulheres, que se sustentam produzindo pornografia de forma independente, sem vínculo com produtoras de filmes adultos.
Há várias formas de vender fotos ou vídeos eróticos.
Alguns produtores vendem em troca de uma assinatura mensal em plataformas específicas.
E quando as transações não ocorrem em sites, não é incomum que o negócio seja feito por mensagem direta de Twitter ou via WhatsApp ou Telegram.
Para muitos desses produtores, a invenção do Pix democratizou ainda mais a transação.
O pornô independente apenas acompanha o que se vê acontecer no ramo do entretenimento, qualquer que seja: influenciadores digitais falam para a câmera, mostram fragmentos da intimidade nas redes sociais e se dirigem diretamente aos seguidores.
Antes, os "amadores" eram vistos como produtores de nicho.
Hoje a estética da exclusividade e da intimidade sobrepujou a pornografia tradicional.
Foi assim que o OnlyFans adentrou a cultura pop.
Criado em 2016 como site de venda de conteúdos diversos, a plataforma britânica virou a feira digital moderna para ver e comprar foto de gente pelada — e não apenas entre os anônimos.
Até celebridades do calibre de Anitta postam conteúdo sensual na plataforma.
Com a pandemia, o tráfego do OnlyFans explodiu, tanto por parte de quem quer vender conteúdo quanto por quem busca consumir, movido pela solidão do isolamento social.
Em 12 meses, o número de usuários sextuplicou:
foi de 20 milhões para mais de 120 milhões.
Só em 2020, mais de US$ 2 bilhões foram movimentados na plataforma.
A empresa come uma fatia de 20% de todas as assinaturas e transações do site — valor baixo, se comparado a sites de webcam, que cobram entre 40% e 60%.

DUPLA JORNADA
Os vendedores de conteúdo adulto não possuem um perfil único, apesar de grande parte ser do gênero feminino.
No caso de Letícia Sanseverini, 33, publicitária, a decisão de vender nudes começou com um golpe.
Em 2017, ela quis mandar um ensaio erótico para o site Suicide Girls, conhecido pelo elenco de modelos "alternativas".
Na época, era comum que modelos do site recrutassem novatas em troca de uma comissão.
Pensando estar falando com uma, Sanseverini enviou fotos nuas como "teste".
Logo descobriu que tinha enviado material para um homem que aplicava golpes em outras garotas.
Sabendo que "cairia na net" a qualquer momento, não foi difícil resolver abrir uma conta no OnlyFans anos depois.
"Pelo menos agora eu cobro", conta, rindo.
A publicitária também sabia que teria pessoas dispostas a pagar por suas fotos.
"Estou na internet há muito tempo, sou um pouco conhecida. Já sabia que teria público garantido."
Ao contrário de Mel Freitas, Sanseverini não depende da venda de conteúdo para se sustentar, mas a renda extra compensa.
Ela conseguiu se planejar melhor financeiramente, trocar de celular e até comprar um jogo de jantar, seu sonho de consumo.

SE NÃO TRABALHA, NÃO GANHA
Todos os criadores de conteúdo erótico ouvidos pelo TAB possuem metas, estilos e opiniões divergentes sobre vender conteúdo, mas são unânimes em dizer:
não é um trabalho fácil.
Expectativa de dinheiro rápido, horários flexíveis e histórias de sucesso lembram o canto de sereia que seduz motoristas e entregadores de aplicativo a dedicarem sua força de trabalho ao enriquecimento de empresas de tecnologia, mas essa solução salvadora está longe de ser real.
Nas redes sociais, Mel é incisiva ao lembrar seguidores que não se limita a tirar fotos no quarto.
"Parece bobo, mas não é", adverte.
Para lucrar, é preciso adotar um conceito neoliberal:
tornar-se a própria empresa, ser seu próprio produto.
Além de lidar com a concorrência, um criador precisa administrar redes sociais, falar com clientes, investir em equipamentos de qualidade e produzir tudo que deseje vender.
"Todo tempo que tô acordada, eu tô trabalhando", conta Freitas, que relata momentos de exaustão mental e psicológica devido à carga de trabalho.
Quando se está atrelado ao OnlyFans, sem uma base fiel de clientes, pode levar semanas, até meses, para receber algum pagamento da plataforma.
Com o valor mínimo de US$ 4,99 (R$ 25,15) pela assinatura mensal, a empresa só libera as transferências para a conta bancária do criador depois que uma quantia mínima é acumulada.
Visto que a carga de trabalho é muito maior que a de um emprego em regime de CLT, muita gente que começa a trabalhar se assusta com o nível de dedicação e talento que a venda de conteúdo pornográfico exige.
"Quem fala que é exploração é porque descobriu que não é tão simples como julgavam ser", diz Mel.

TRADICIONAL PAGA MENOS
Mesmo com o boom da venda direta de conteúdo erótico, a pornografia tradicional está ainda na ativa e concorrendo quase que diretamente com essa modalidade de pornô.
Ainda é alto o tráfego de usuários em sites de streaming, e produtoras pornô do mundo inteiro seguem gravando suas cenas.
Ser independente, no entanto, é cada vez mais rentável entre quem já trabalhava com isso.
Na pequena indústria brasileira, de regulamentação quase inexistente, a possibilidade de fazer filmes para ficar rico já deixou de ser um sonho há mais de uma década.
Gravar cenas com produtoras conhecidas serve mais como vitrine para performers aumentarem o cachê de outros trabalhos sexualis.
Vender vídeos e fotos exclusivas no OnlyFans salvou o ator Lucas Scudellari, 26.
Com gravações suspensas e a impossibilidade de fazer programas, Scudellari usou a base de fãs que conquistou com o pornô gay e investiu tudo no digital.
Apesar de ainda gravar com produtoras, Scudellari sente que o cachê pago é menor que a rentabilidade de um vídeo no OnlyFans.
"Com um único conteúdo amador, já cheguei a ganhar de três a quatro vezes mais do que com uma cena.
Também sente que está mais no controle quando produz suas próprias cenas.
"Faço o que eu quero e exploro até mais fetiches."

CONSUMO CONSCIENTE
A pirataria ajudou a naturalizar a ideia de que não faz sentido pagar por algo que pode ser encontrado no XVideos.
As pessoas tendem a achar que quem paga pelo que consome é, em português claro, otário.
Mas a proximidade entre consumidor e produtor tornou menos abstrata a transação financeira.
Em vez de pagar para uma produtora que você mal conhece, você está comprando diretamente de quem produz.
Segundo consumidores ouvidos pelo TAB, pagar mensalmente pelo acesso é mais satisfatório do que passar horas vasculhando pornografia gratuita atrás de alguma coisa que chame atenção.
Na opinião de Cristiano*, 33, pesquisador em administração pública, o conteúdo que assina no OnlyFans não é tão superior ao que se consegue encontrar de graça em sites de streaming, mas há outras vantagens.
"[O conteúdo tem] potencial de ser produzido de maneira mais ética que na indústria tradicional, sobretudo porque no sexo a gente mexe com fantasias que muitas vezes passam por dominação, submissão e outras coisas que, acho, precisam ser produzidas com muito cuidado."

PEDAÇO DE CARNE
Na produção de conteúdo pornô, as promessas de "ser seu próprio chefe" e a dependência de plataformas digitais, que estimulam a concorrência entre criadores, são abstratas.
Mesmo com a liberdade de produzir pornografia de forma autônoma e de ter mais controle sobre o que está fazendo, a rotina de trabalho sem hora para acabar e o estigma que vem de fora desse universo recaíram forte sobre Mel Yasmin Freitas.
Semanas após a entrevista, a jovem avisou que a venda de seus conteúdos tem data de validade.
Depois de meses de trabalho interminável, vazamentos constantes e a forma com que é tratada a fizeram repensar.
"São 24 horas sendo vista como um pedaço de carne.
Tive até problemas para alugar uma casa, porque assim que falava minha profissão, as pessoas achavam que eu ia fazer programa.
Está me esgotando muito, mental e fisicamente."
Ela pretende parar de vez até o fim do ano e se dedicar à sua marca de roupas, que deu mais certo do que imaginava.
"Prefiro ganhar menos com um negócio saudável para minha cabeça do que trabalhar nisso."
Apesar da exaustão, Freitas diz não ter arrependimentos. "Foi o que me fez mudar de vida."
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_________________________________________ PANDEMIA _____ Avanço da Covid põe bolsonarista contra bolsonarista no Mato Grosso do Sul

O combate à pandemia de Covid-19 no Mato Grosso do Sul colocou em pólos opostos dois defensores do bolsonarismo. De um lado está o governador, Reinaldo Azambuja (PSDB), que decretou lockdown no estado para tentar conter o aumento de casos e de mortes no estado. De outro, o prefeito de Campo Grande, Marquinhos Trad (PSD), que se recusa a fechar o comércio e outras atividades econômicas na capital.
Ao que tudo indica, as razões da briga tem mais a ver com as eleições do ano que vem do que com a própria evolução da doença.
Nas últimas semanas, o sistema de saúde do Estado entrou em colapso, e foi necessário até transferir pacientes para Rondônia e São Paulo em razão da falta de leitos. O Mato Grosso do Sul registra média móvel de 1.800 casos e 50 mortes diárias. Para piorar, a vacinação no estado está parada por falta de doses de vacina.
No último dia 10, o governador Azambuja atendeu à reivindicação da associação de prefeitos do estado para ampliar as restrições à criculação nos 79 municípios sul-matogrossenses, e editou um decreto autorizando apenas o funcionamento de serviços essenciais - supermercados, farmácias, postos de gasolina e escolas.
Diante da medida, o prefeito de Campo Grande, que havia participado da mobilização pela implantação do lockdown, chegou a pedir que o decreto só entrasse em vigor na segunda-feira (14), para poder manter o comércio aberto no final de semana e evitar prejuízos com o fechamento de lojas no dia dos namorados.
O pedido foi aceito e o decreto passou a valer só na segunda-feira – mas, na terça-feira, Trad editou um decreto municipal flexibilizando o lockdown e permitindo a abertura lojas, bares e shoppings em Campo Grande. A atitude surpreendeu revoltou o governador e vários prefeitos, que a consideraram traição eleitoreira.
Marquinhos Trad, que compõe um dos principais clãs políticos do Mato Grosso do Sul e é primo do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, apoiou Bolsonaro em 2018 e chegou a defender o uso de hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.
Ele alega que a doença está próxima do controle e que as atividades econômicas não devem ser punidas pela pandemia, mas aliados de Azambuja e mesmo especialistas em saúde associam a decisão à intenção de Trad de disputar o governo do estado em 2022.
O eleitorado sul-mato-grossense é fortemente bolsonarista. Em 2018, deu a Jair Bolsonaro 65% dos votos válidos e elegeu a novata Soraya Thronicke (PSL), apoiadora de Bolsonaro, para o Senado.
Entrevista: 'Isso aqui é Brasil, não vai funcionar!', diz Mourão sobre passaporte da imunidade
Azambuja, por sua vez, também apoiou Bolsonaro em 2018 e, em março deste ano, foi um dos quatro mandatários que se recusaram a assinar uma carta de governadores contra a divulgação de dados distorcidos pelo governo federal sobre repasses da União para o combate à Covid-19.
Diante do colapso nos hospitais, contudo, teve que atender o pleito dos prefeitos.
Para o secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, a decisão de Trad é “lastimável”. "Neste momento não temos que ter um viés político das eleições futuras. Precisamos preservar vidas”, disse Resende.
A preocupação é ainda maior porque Campo Grande tem mais de um terço da população do estado e mais de 40% dos casos e óbitos diários. "Vivemos uma tragédia. Pessoas estão intubadas nas UPAs. A fala de Trad induz a população a acreditar que a doença está sob controle, mas não está. Tanto que estamos recorrendo à ajuda humantária”.
Leia também: Comissão de Ética prepara denúncia ao MP sobre estudo da 'nova cloroquina' de Bolsonaro
Para o infectologista Júlio Croda, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), a decisão de Marquinhos Trad fatalmente custará vidas por manter atividades não essenciais em um momento de grande circulação do coronavírus e de saturação da rede de saúde.
“A medida da prefeitura prejudica muito. Teremos muitos óbitos que poderiam ser evitados. Vamos ter um platô durante todo o mês de junho e, com o colapso, a letalidade por Covid-19 deve aumentar”, prevê Croda. “Trad prometeu abrir menos de 30 leitos de UTI. Só na fila das UPAs tem mais de cem pacientes”.
Para mediar o cabo de guerra bolsonarista, o Ministério Público estadual convocou uma audiência entre a prefeitura de Campo Grande, o governo estadual e outros municípios, buscando uma “reconciliação”.
Até o momento, no entanto, não há indicativos de que Trad recuará da proposta. Na avaliação de autoridades do estado, o governo já havia cedido às condições da capital para viabilizar a implementação das restrições.
Procurado, o prefeito Marquinhos Trad não respondeu às mensagens da coluna. No decreto publicado no Diário Oficial na última terça-feira, o prefeito menciona o bom desempenho do estado na vacinação contra a Covid-19, a ampliação de leitos de UTI e da oferta de teste RT-PCR na cidade.
E mais: Após Barroso desafiar Bolsonaro, PF pede a superintendentes denúncia de fraude em urna
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