____________________ * CRIME sem CASTIGO: Bolsonaro e os 500 mil MORTOS | Bernardo Mello Franco ____________________ * Em busca da civilização perdida ____________________ * DAVID CARDOSO JÚNIOR, que PROTESTOU, com CUECA no ROSTO, contra restrições contra a Covid-19 está INTERNADO
/////////////////////////////////////////////////////////////////////// *
///////////////////////////////////////////////////////////////////////
____________________ * Game Trends #5: o bom, o ruim e o hype da E3 2021

Do START, em São Paulo
18/06/2021 18h21
Com o fim da E3 2021 discutimos o que representou a volta da maior feira de videogames do mundo após a ausência no ano passado.
O formato on-line foi bom? Quais games se destacaram? Também falamos sobre os jogos que foram o Brasil na E3, como Unsighted e Dolmen.
Ouça e venha participar você também da conversa: mande um e-mail para oi.gametrends@gmail.com que poderemos ler sua mensagem no próximo programa.
Matérias comentadas no episódio.
Vencedores da E3 Awards: https://tinyurl.com/vfadyu9w
Resumão START da E3 2021: https://tinyurl.com/2de5swfr
Apresentação: Bruno Izidro e Letícia Wexel
Edição: Victor Borges
Os podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts e em todas as plataformas de distribuição de áudio. Você pode ouvir Game Trends, por exemplo, no Spotify e no Youtube ou assinando o nosso feed.
SIGA O START NAS REDES SOCIAIS
Twitter: https://twitter.com/start_uol
Instagram: https://www.instagram.com/start_uol/
Facebook: https://www.facebook.com/startuol/
TikTok: http://vm.tiktok.com/Rqwe2g/
Twitch: https://www.twitch.tv/start_uol
____________________ * Chaves 50 anos: A inocência e simplicidade que virou fenômeno mundial
Lá vem o Chaves: série se tornou grande sucesso nos anos 70

Publicado em 20/06/2021 às 06:00:00,
atualizado em 20/06/2021 às 12:38:42
O seriado Chaves (1971-1980) completa 50 anos de seu primeiro episódio neste domingo (20). A data é comemorada no mundo inteiro pelo Grupo Chespirito e a TV mexicana Televisa. Um vilarejo com organização habitacional típica dos bairros populares da Cidade do México daquela época, foi pano de fundo para situações de um menino de rua muito pobre, que passava grande parte de seu tempo em um barril, cujo um dos seus maiores desejos (ou o maior deles) era um simples sanduíche de presunto. Essa história criada por Roberto Gómez Bolaños (1929-2014) ganhou o mundo e se tornou um grande sucesso que atravessou gerações.
Para compor a série, Seu Madruga, um homem de meia-idade, desempregado, trapaceiro e que custava a pagar o aluguel; a Bruxa do 71... ops, dona Clotilde, uma senhora idosa, solteira e sem filhos; Chiquinha, uma criança astuta e inteligente; Kiko, uma criança que se gabava de ter os melhores brinquedos embora bastante carismático; Dona Florinda, uma mãe solteira que não gostava tanto de viver em um lugar que acreditava não estar à sua altura; Professor Girafales, o professor das crianças e pretendente de Dona Florinda; Senhor Barriga, o dono da vila e que cobrava o aluguel, pai de Nhonho, criança da elite e que brincava com os meninos da vila.
A história do sucesso de Chaves surpreende, às vezes, os próprios mexicanos. "Parece difícil de acreditar que um programa imaginado, escrito e transmitido pela primeira vez há 50 anos tenha feito, e ainda faça, sucesso entre os países da América Latina. Seu cenário e linguagem foram feitos a partir de tipos bem mexicanos. Até o nome do mais famoso personagem é uma espécie de 'localismo', pois a palavra 'chavo' se limitava à Cidade do México e era usada para designar crianças e adolescentes, principalmente entre a classe média e baixa", pontua Gabriela Rodriguez, consultora de tecnologia de 45 anos nascida em Toluca, no México, e que hoje vive na capital, Cidade do México, ao NaTelinha.
Mas embora o conteúdo e o tipo de humor do programa possam ser questionados e até criticados, o impacto que Chavo del Ocho, o nosso Chaves, e os demais personagens de Chespirito, o pequeno Shakespeare, tiveram na criação e recriação na identidade cultural e da América Latina ao longo de seus anos de exibição, não podem ser questionados.

O impacto cultural de Chaves
Não só no seu país de origem ou nos nossos vizinhos, o seriado acabou influenciando até no nosso vocabulário. Quem nunca soltou um "sem querer querendo" ou chamou alguém de "gentalha" em alusão a um dos bordões mais famosos da série?
O que ajuda a explicar o sucesso da série é justamente a ambientação. Culturalmente, há quem se sentia representado. Suas raízes na América Latina estavam ligados ao ambiente e relações que nela se realizam. A vila, palco da história, partilhava características habitacionais de países latinos.










Em contextos políticos e econômicos, a pobreza, falta de espaço e ausência de planejamento governamental para garantir o sucesso aos serviços públicos básicos que caracterizavam cidades, levaram à criação de unidades multifamiliares onde vizinhos acabaram compartilhando lugares comuns como pátio, banheiro, lugares para lavar e secar roupas, escadas, etc. A vida de uma família estava ligada à outra.
No livro As Chaves do Sucesso, de 2006, do autor Pablo Kaschner, ele comenta que a vila é um espaço peculiar de convívio de pessoas, e de classes sociais dispares, como ocorre nos países latinos.
O cenário, extremamente simples e feito com materiais baratos, dá a impressão de que pode se desfazer com um peteleco e se encaixa como metáfora à vulnerabilidade a que estão sujeitos, desde sempre, os chamados 'países em desenvolvimento'. A concepção cênica funciona como linguagem, na medida que traduz o cenário social desigual e subdesenvolvido da América Latina. E poucas paisagens traduziram isso tão bem. A latinidade, se é assim que podemos chamar, de Chaves, também se manifesta sob outra perspectativa: a do erro. A estética simplória, beirando o trash sob um ótica atual (ou basura, para ser mais latina, ou ainda bote, como dizem os mexicanos), bem como o enredo das histórias. [...] A 'solucionática' de Chaves é calcada na afirmação de uma afirmação de identidade latina, muito mais para o seu Madruga do que para o Batman. Mais para o anti-herói Chapolin que para o herói super-homem. Menos super, mais homem, mais humano. E tão modesto quanto honesto.
Pablo Kaschner no livro As Chaves do Sucesso
Não por acaso, no lançamento do livro O Diário de Chaves, em 1995, Bolaños comentou: "A moral de Chaves não deixa dúvidas. É materialmente possível ser pobre e ser feliz ao mesmo tempo. E assim como Chaves perdurou na TV, a pobreza não apenas perdurou, mas também cresceu na América Latina".
Chaves e o grande "boom"

Não demorou muito para que Chaves ganhasse fama além do México. A partir de 1973, a atração foi transmitida para quase toda sua região e sua popularidade o alçou como o programa mais visto da América Latina.
A série já foi dublada em mais de 50 idiomas e ganhou em 2006 sua versão em desenho. Nem o próprio Bolaños imaginava que seus bordões fossem tão repetidos assim. "Nunca imaginei que durariam assim, nem que eu escutaria essas frases sendo repetidas até em meios como na política", declarou ele numa entrevista concedida à BBC em 2005.
Em outra entrevista, desta vez ao portal El Universo, declarou não conhecer a fórmula do sucesso, mas sim a do fracasso. "Tentar lisonjear a todos. Nunca fiz concessões nem investiguei o que o público gostava, só fazia o que gostava, confiando que muita gente também gostava", simplificou.
Nos anos 70, a série já gozava de grande sucesso no México e grande parte da América Latina. Os bordões dos personagens já eram amplamente difundidos e conhecidos, mas no Brasil, a série demorou algum tempo para estrear.

Motivo de orgulho para os mexicanos
Bolaños levou o nome do México para o mundo todo, sobretudo em países vizinhos. O que fez com que todo o povo ficasse orgulhoso de ver um produto genuinamente mexicano ganhar tanto cartaz por aí afora. "Para nós, mexicanos, é um orgulho que Roberto Gómez Bolaños tenha conseguido alcançar um impacto massivo na América Latina e outras partes do mundo com seus icônicos personagens", fala ao NaTelinha Damian Vera, recepcionista de 24 anos, nascido e criado em Isla Mujeres, ilha situada a 13 quilômetros da costa de Cancún, no Caribe mexicano conhecido por suas belíssimas praias.
Gabriela, consultora de tecnologia que explicou anteriormente como a palavra "chavo" se expandiu no México, também se diz orgulhosa pelo êxito alcançado pelo Pequeno Shakespeare. "Bolaños levou o nome do país para o mundo. Fico admirada como a série conseguiu fazer tanto sucesso, inclusive no Brasil, que fala português", espanta-se ela. E Damian concorda. "Para nós significa muito que outros países o admirem e também desfrutem de seu trabalho, cujo objetivo era compartilhar sua mensagem a todos através dos seus personagens."
"A série faz parte do dia a dia dos mexicanos. Para mim, pessoalmente, é uma das minhas favoritas, devido ao alto impacto que gerou em mim. Me recordo que quando era criança, me levantava todas as manhã para poder desfrutar da série antes de ir à escola. Inclusive, em 2014, tive a oportunidade de visitar o circo do Professor Girajales, o professor Linguiça (risos), pessoa que infelizmente não conheci, porque infelizmente naquele dia, não se apresentou", relembra Damian, que já chegou a encarnar o Senhor Barriga em um festival do colégio cuja temática era justamente o Chaves.
Chaves, aliás, foi uma tradução que causou espanto aos dois mexicanos entrevistados. Ambos questionaram o que significa. "Chaves como o ditador venezuelano?", estranhou Damian. Respondi que a pronúncia é a mesma e o título no Brasil não tem significado. Depois disso, enviei a abertura da série que fez sucesso no SBT e o aclamado episódio O Disco Voador. "Não conseguimos parar de rir com a dublagem. Seu Madruga?", divertiu-se Damian, que viu o conteúdo em português ao lado de amigos e afirmou que também achou curiosa a abertura. "A introdução é muito diferente", opina o jovem.
A chegada de Chaves no Brasil

Em um pacote da Televisa em meio às novelas, o SBT adquiriu Chapolin e Chaves em 1984. A qualidade de produção do seriado destoava do padrão de telenovelas da Televisa, e Silvio Santos ficou de analisar se ficaria ou não com o pacote, que só poderia ser adquirido caso Chaves também fosse exibido.
Na época vice-presidente da emissora, Luciano Callegari lembrou, em uma entrevista ao livro Chaves: Foi Sem Querer Querendo, de 2006, que no primeiro contrato de cinco anos, cada episódio custou US$ 250, sem a dublagem, e depois passou a custar US$ 500.
O ex-executivo da emissora ainda comentou que disse não ao seriado, e não se interessou por ele em um primeiro momento. "Em razão da péssima qualidade da imagem, e também me pareceu, na oportunidade, que não teria grande chance de sucesso na nossa grade", bradou.
Os diretores do SBT foram unânimes. Para eles, Chaves não tinha qualidade, mas Silvio Santos contrariou a todos e disse que compraria o pacote da rede mexicana. O sucesso foi instantâneo, se tornando um curinga na programação do canal.
O apagão de Chaves na TV

Há exato um mês, em 20 de maio, o filho de Bolaños, Roberto Gómez Fernandes, participou de uma live no Instagram e garantiu que trabalha para que as séries do pai como Chaves e Chapolin retorne à TV. O executivo pediu paciência aos fãs da produção e que têm a expectativa que em breve as atrações vão estar disponíveis ao público.
"Eu não posso dormir tranquilo até que volte ao ar. Para mim, é uma prioridade. Espero que esteja de volta logo. Às vezes se tomam decisões em circunstâncias complicadas. E foi o que aconteceu”, contou o responsável por cuidar das histórias criadas pelo Chespirito.
“Uma cadeia de circunstâncias de pessoas envolvidas, eu me incluo, que tomaram decisões que levaram a isso. Tenho que fazer até o impossível para que retorne. E logo voltará. Peço um pouco de paciência, mas posso dizer com certeza que as séries voltarão. E espero que seja logo”, acrescentou ele.
Com a decisão de Roberto, Chaves e Chapolin precisaram sair do ar em dezenas de países, inclusive no Brasil. Ao longo de 36 anos, as produções eram consideradas verdadeiros “curingas” da programação do canal, recuperando a audiência de horários problemáticos.
Os mais de 1.200 episódios de Chaves, Chapolin e do programa Chespirito pertenciam à Televisa há 45 anos, quando se fundiu ao canal 8 (TV Tim), que transmitia as séries. Um acordo entre Bolaños e a gigante da comunicação latina revelou que esta parceria aparentemente eterna teria prazo de validade.
"Roberto Gómez Bolaños tinha apalavrado um contrato de usufruto dos personagens e de sua criação literária até 30 de julho deste ano, quase seis anos depois de sua morte. E não renovaram os direitos, a Televisa não quis pagar", disse Edgar Vivar, intérprete do Sr. Barriga.
Em outras palavras, Bolaños estipulou uma data limite para a Televisa, produtora de seus humorísticos durante duas décadas, continuar lucrando com as reprises e exportações de Chaves. Se a rede quisesse as séries por mais tempo, teria que negociar com ele ou com seus herdeiros.
Nas redes sociais o Grupo Chespirito fez um post sobre os 50 anos de Chaves:

____________________ * Confira curiosidades de Roque Santeiro, clássico da TV que volta ao ar no Globoplay

Dando continuidade a seu projeto de resgatar novelas clássicas, o Globoplay traz de volta nesta segunda (21) um dos títulos mais icônicos da teledramaturgia nacional. Estamos falando de Roque Santeiro, obra escrita em conjunto por Dias Gomes e Aguinaldo Silva e exibida originalmente pela Globo entre junho de 1985 e fevereiro de 1986.
A seguir, você relembra conosco algumas curiosidades dos bastidores dessa história inesquecível.
Dos palcos para as telas
Roque Santeiro foi concebida por Dias Gomes como uma adaptação do espetáculo teatral O Berço do Herói, de sua própria autoria. O texto foi escrito pelo marido de Janete Clair em 1963 e encenado pela primeira vez em 1965 – exatas duas décadas antes de se transformar em telenovela.
O protagonista da peça também se chama Roque e é um cabo do exército que, supostamente, morre durante uma guerra na Itália, ao ter um surto de nacionalismo e sair correndo em direção às linhas inimigas, sacrificando a própria vida em nome do amor à pátria.
Roque então passa a ser tido como herói, e a cidade onde nasceu, além de ser rebatizada com seu próprio nome, passa a girar econômica e culturalmente em torno do mito de seu altruísmo e nacionalismo. Isso até o próprio Roque ressurgir na cidade, vivinho da silva, esclarecendo que na verdade estava fugindo apavorado da guerra quando teria se sacrificado pelo país.
A partir daí, os poderosos da cidade se unem para dar cabo do psedo-herói ressurreto, temendo que o fim da mitologia construída em torno do cabo Roque possa abalar os alicerces da rotina e do lucrativo turismo locais.
A montagem original de O Berço do Herói conta com Mílton Moraes (1930-1993) na pele do cabo Roque, enquanto Tereza Rachel (1935-2016) deu vida à personagem correspondente, na novela, à viúva Porcina (Regina Duarte).
Versão censurada
A bem da verdade, Roque Santeiro foi concebida para ir ao ar em 1975, com roteiro unicamente de Dias Gomes e direção de Daniel Filho. No entanto, quando a novela já tinha mais de 30 capítulos gravados e estava a uma semana de estrear, o governo militar simplesmente proibiu sua veiculação!
De acordo com o relatório da Censura Federal, o folhetim era “uma ofensa à moral e aos bons costumes” e trazia “achincalhe à Igreja Católica”. No entanto, de acordo com reportagem publicada em 2011 pela Folha de São Paulo, a decisão de vetar a obra foi tomada a partir de uma conversa telefônica que Dias Gomes teve com um amigo, sem saber que estava grampeado.
No diálogo, o novelista revelou que pretendia fazer “uma pequena sacanagem” com os militares, ao adaptar O Berço do Herói – proibida dez anos antes pelos então governantes – para telenovela. “Esses milicos são muito burros, não vão perceber”, teria dito o dramaturgo ao amigo, assinando a sentença de sua novela.
Elenco original
Na versão da história rodada em 1975 – inconclusa e até hoje totalmente inédita -, Francisco Cuoco dava vida ao controverso Roque Santeiro, desempenhado por José Wilker na trama que pôde ir ao ar dez anos depois. A viúva Porcina, por sua vez, era interpretada por Betty Faria.
Eva Todor (Dona Pombinha / Eloísa Mafalda), Emiliano Queiroz (Zé das Medalhas / Armando Bógus), Dennis Carvalho (Roberto Mathias / Fábio Jr.), Theresa Amayo (Mocinha / Lucinha Lins), Débora Duarte (Lulu / Cássia Kiss), Waldir Maia (Astromar / Ruy Rezende) e Sandra Barsotti (Linda Bastos / Patrícia Pillar) foram outros nomes que integraram o elenco desta primeira filmagem do folhetim – e que acabaram sendo substituídos na versão definitiva.
Apenas quatro atores escalados em 1975 puderam ‘reaver’ seus papéis em Roque Santeiro uma década depois. A saber: Lima Duarte (Sinhozinho Malta), Ilva Niño (Mina), Luiz Armando Queiroz (Tito) e João Carlos Barroso (Jiló).
Intérprete original de Tânia (Lídia Brondi), Elizângela também retornou em 1985, mas para viver outra personagem, Marilda. O mesmo ocorreu com Mílton Gonçalves, que na versão censurada vivia o padre Honório – rebatizado de Hipólito (Paulo Gracindo) – e acabou ressurgindo como o promotor Lourival Prata na ‘definitiva’.
A ‘Porcina’ ideal
Embora tenha feito de Porcina um dos papéis mais marcantes de sua carreira, Regina Duarte foi nada menos que a terceira opção para viver aquela “que foi sem nunca ter sido”.
Grande idealizar da obra, Dias Gomes sonhava em ver a saudosa Dina Sfat (1938-1989) encarnando a personagem – isso quando a versão inédita de 1975 ainda estava em pré-produção! Prevaleceu, porém, a opção do diretor Daniel Filho, por Betty Faria.
Dez anos depois do cancelamento da obra, quando o projeto pôde enfim ser retomado, a protagonista de Tieta (1989) foi automaticamente pensada para reencarnar Porcina. Mas, para surpresa de muitos, abriu mão da oportunidade, deixando-a então para Regina Duarte.
Desfechos alterados
O triângulo amoroso central de Roque Santeiro ganhou uma resolução distinta à que estava prevista na sinopse. O planejamento inicial do folhetim estabelecia que Roque e Porcina terminariam juntos a história. Nas cenas finais, ela fugiria de Asa Branca com o personagem-título, deixando seu amado Sinhozinho Malta a ver navios.
A excelente química em cena de Lima e Regina Duarte, entretanto, fez com que Dias Gomes revisse a ideia e optasse por inverter o desfecho, com Roque partindo sozinho e Porcina desistindo no último minuto de acompanhá-lo para seguir ao lado de Malta.
O ‘santeiro’, aliás, também teve seu destino alterado em relação ao que se via em O Berço do Herói. No texto teatral, o cabo Roque acabava assassinado pelos poderosos da cidade que levava seu nome, na tentativa de manter vivo o mito que lhes era tão lucrativo.
Autores em guerra
Embora a autoria de Roque Santeiro tenha sido, oficialmente, compartilhada entre Dias Gomes e Aguinaldo Silva, não se pode dizer que os dois novelistas trabalharam exatamente juntos na criação da obra. A bem da verdade, eles dividiram entre si os trabalhos de forma bastante democrática, praticamente ‘meio a meio’.
O marido de Janete Clair escreveu a trama até o capítulo 51, passando então a batuta para Aguinaldo. Este, por sua vez, seguiu à frente do texto até o episódio de número 161, quando Dias retornou para conduzir a obra até seu desfecho. Dos 209 capítulos totais, 99 foram escritos pelo idealizador do projeto, enquanto Silva ficou com os outros 110.
Essa divisão, somada ao sucesso estrondoso do folhetim, acabou gerando uma disputa de egos entre os dois roteiristas, que reivindicavam para si a ‘paternidade’ da obra. A coisa chegou a tal ponto que a Globo teve de intervir e a amizade que Gomes e Aguinaldo cultivavam acabou seriamente abalada. Eles só voltaram a se falar em 1999, pouco antes da morte do primeiro.
____________________ * Após caçada de mais de um mês, atirador que ameaçou virologista é achado morto na Bélgica - Ex-soldado furtou armas pesadas e munição de depósitos do Exército
Após um mês e três dias de intensa caçada, foi encontrado morto neste domingo (20) na Bélgica o instrutor militar de tiro Jürgen Conings, 46. O ex-militar havia furtado armas e munição do quartel no dia 17 de maio, ameaçado matar um dos principais virologistas belgas e, depois, desaparecido.
A principal suspeita é a de que ele tenha se suicidado, segundo o Ministério Público Federal, possibilidade já aventada pela polícia desde o final de maio. Em bilhete à namorada antes de desaparecer, ele escrevera: "Estou me juntando à resistência. Talvez não sobreviva".
O corpo foi encontrado pelo caçador Leonard Houbenum, que percorria de bicicleta um parque nacional no nordeste da Bélgica, na fronteira com a Holanda. Mais de 350 policiais e soldados, cães de busca, helicópteros e dezenas de veículos militares procuravam Conings nessa região, onde havia sido encontrado seu carro com as armas mais perigosas e uma mochila com munição.
O caçador sentiu um cheiro forte ao passar por uma trilha na manhã deste domingo e voltou à área mais tarde para ver se havia um javali ou um veado mortos.
À mídia local Houbenum relatou que a pessoa que encontrou morta tinha barba, vestia roupas pretas e levava uma arma de fogo pequena, outra mais potente, um machado, um canivete e munição.
Equipes da Polícia Federal cercaram o local à espera de um legista e do esquadrão antibomba, já que havia o temor de que o ex-soldado pudesse ter montado uma armadilha. Especialista em “camuflagem e pontaria”, o ex-soldado montara no dia em que desapareceu uma emboscada para Marc van Ranst, um dos principais virologistas do país e o mais popular, com aparições frequentes no rádio e na TV.
Em uma mensagem deixada no quartel, de onde retirou um “pequeno arsenal”, segundo a polícia, ele escreveu: “Não consigo conviver com as mentiras de quem decide como devemos viver. A chamada elite política e agora também os virologistas decidem como você e eu devemos viver. Eles semeiam ódio e frustração, piores do que já eram”.
Conings ficou por três horas à espera de Van Ranst na rua em que mora o virologista, mas, por sorte, ele havia voltado mais cedo do trabalho naquele dia e já estava em casa com a mulher e o filho de 12 anos. Desde então, a família vive em um esconderijo vigiado por agentes de segurança.
O corpo do ex-soldado foi encontrado no dia do aniversário de 56 anos do virologista. Após a notícia, Van Ranst escreveu em rede social que seus pensamentos estavam com a família de Conings. “Isso para eles é uma notícia especialmente triste, porque perderam um pai, um membro da família ou um amigo.”
Ainda não é certeza que ele poderá deixar o esconderijo, já que foi alvo de outras ameaças recentemente: desde o começo da pandemia, Van Ranst afirma combater “as duas doenças da Bélgica: o coronavírus e a extrema direita flamenga".

Na lista antiterrorismo da polícia belga, Conings era descrito como “extremista potencialmente violento, com visões extremistas, que tem a intenção de usar a violência, mas ainda não tomou medidas concretas para fazê-lo". O ex-soldado havia sido filiado ao partido de ultradireita Vlaams Belang, que atribui a virologistas a responsabilidade por restrições impostas para conter o coronavírus, vistas como violação de suas liberdades.
O Vlaams Belang, por sua vez, disse não ter ligação com as ações de Conings nem responsabilidade por elas, mas endossou seu “estado de espírito”. Durante a caçada pelo ex-soldado, o presidente do partido, Tom van Grieken, afirmou: “Os atos que Conings quer cometer são repreensíveis, mas a sensação de mal-estar que ele descreve é generalizada”.
Apesar do alívio com o fim da caçada policial, o Ministério da Defesa belga ainda terá que responder como um homem já identificado como perigoso foi capaz de retirar do depósito do quartel um lançador de foguetes, uma submetralhadora P90 —arma leve semiautomática que pode perfurar coletes à prova de balas, segundo o Exército belga— e uma pistola 5.7 mm, além de “munição suficiente para uma pequena guerra”.
Países europeus têm alertado para o crescimento da extrema direita dentro das Forças Armadas, documentado em relatórios recentes na Alemanha e no Reino Unido.
Uma primeira investigação interna apontou falhas estruturais, e um comitê especial de investigação deve apresentar um relatório no final deste mês. A ministra da Defesa belga, Ludivine Dedonder, anunciou a implantação de medidas para "lutar contra a ideologia extremista dentro da Defesa” e evitar incidentes semelhantes no futuro.
O Ministério Público Federal também vai apurar as causas da morte de Conings —familiares afirmaram duvidar da hipótese de suicídio e acreditar que ele tenha sido morto pelas tropas de busca, numa operação que, até a semana passada, já tinha consumido 650 mil euros (quase R$ 4 milhões).
____________________ * O assassinato nunca solucionado da feminista que liderou luta pelo divórcio no Brasil

Daniel Salomão Roque - De São Paulo para a BBC News Brasil
19/06/2021 16h05
Anita Carrijo foi amarrada e asfixiada no próprio apartamento no Dia das Mães de 1957. Seis décadas depois, as netas refletem sobre sua trajetória e os impactos do crime.
Pela primeira vez, Irma Sargentelli chegaria mais tarde. A auxiliar de serviços gerais, recém-admitida no emprego, caminhava com pressa em direção a um edifício no distrito da República, região central da capital paulista.
Às 9h30, subiu até o primeiro andar e manejou a chave do apartamento número 1, que servia como residência e consultório de sua patroa. Um letreiro anunciava a quem viesse pelo corredor: "Anita Carrijo - Cirurgiã-dentista".
Relacionadas

"Transformei meu divórcio em um negócio para ajudar outras mulheres"
Irma abriu a porta, temendo uma advertência pelo atraso. O cenário não era o mesmo de todas as segundas-feiras.
No chão da sala, encontravam-se duas bolsas remexidas. Por cima da mesa, muitas folhas de papel. A patroa não dava as caras, e seu quarto permanecia trancado.
Irma espiou pelo buraco da fechadura e avistou um vulto caído. Com ajuda do zelador, arrombou a porta, descortinando um painel mórbido: gavetas abertas, mais papéis, roupas em desalinho por todo o cômodo — e o corpo de Anita sobre o assoalho.
Descalça, a dentista trajava um tailleur azul-marinho e meias finas, rasgadas na altura das coxas. Estava de bruços, as mãos e os pés atados às costas por uma corda cheia de nós.
Tinha o rosto envolto em um pedaço de pano, o nariz e a boca tapados com esparadrapos e a face esquerda marcada por um ferimento de cinco centímetros, através do qual jorrara o sangue que tingia o chão e os lençóis.
A mão direita, já enrijecida, fechava-se sobre um tufo de cabelo, que arrancara em legítima defesa da cabeça de seu algoz. No apartamento, os assassinos haviam quebrado lâmpadas, destruído instalações elétricas e cortado o fio do telefone.
Às 15h, o corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal. A causa da morte, segundo o laudo, havia sido "asfixia mecânica". O documento também apontava a presença de álcool no sangue da vítima e de presunto e queijo no trato digestivo — resquícios de uma última refeição, provavelmente na véspera, 12 de maio de 1957, um domingo de Dia das Mães. Aos 56 anos, Anita deixava uma filha e duas netas.
Fotografias de seu cadáver amordaçado estampariam jornais em todo o país. Por cima das imagens, vinham manchetes como a da capa do tabloide fluminense A Luta Democrática: "Assassinada em seu apartamento a líder feminista e divorcista".
O crime, dos mais comentados na época, nunca foi resolvido.

A última geração
Illène Pevec é carioca e atua como educadora ambiental em Carbondale, cidadezinha montanhosa no Estado do Colorado, nos Estados Unidos. Sua irmã Ruth Lawyer, oito anos mais nova, nasceu em Denver e trabalha como assistente de parto em Nova Iorque.
As duas eram pequenas quando a avó foi assassinada, e são da última geração de familiares a ter mantido algum contato com ela.
"Minha relação com o Brasil é menos próxima do que eu gostaria", admite Ruth em entrevista à BBC News Brasil. "Estou esquecendo quase todo o português."
Illène afirma ter visitado o país há dois anos com sua irmã. E conta à reportagem o que sabe da própria árvore genealógica.
José Carrijo, o pai de Anita, era produtor de café em Santos, no litoral paulista, e primo de Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930), uma das primeiras mulheres do mundo a fazer fortuna na bolsa de valores.
Embora não saiba se a dentista e a investidora algum dia chegaram a se encontrar, Illène guarda fortes impressões do bisavô: "Ele foi uma pessoa muito eloquente, um livre pensador. Prezava a circulação de ideias e nunca gostou da Igreja Católica". A esposa, contudo, ia à missa todos os dias.
Anita Carrijo era a caçula do casal. Tinha cinco irmãos e nascera no dia 31 de outubro de 1900. Na juventude, casou-se com o francês Gaston Cord'homme, poliglota, filho de diplomata e estudioso da cultura indígena guarani. Em 24 de março de 1922, teve com ele uma filha, Arlette Carrijo.
A menina estava com 3 anos quando os pais se separaram. Para sustentá-la, Anita cursou Odontologia e abriu um consultório em São Paulo. No início da vida adulta, Arlette também se tornaria dentista. Hoje, as filhas a reverenciam pela inteligência e curiosidade.
"Minha mãe foi a mulher mais educada que eu já conheci", orgulha-se Illène. "Ela cresceu falando português, espanhol e francês. Depois aprendeu a língua inglesa e seguiu estudando grego até o fim."
"Ela adorava tudo o que se relacionasse à Grécia", acrescenta Ruth. "O idioma, a comida, a história, o desenvolvimento da democracia."
Arlette morreu em agosto de 2014, quatro anos antes do marido. Nas últimas décadas de vida, com as filhas criadas e uma boa reserva financeira, realizou o sonho de conhecer as ruínas do mundo helênico. Com igual entusiasmo, visitava regularmente o Brasil, país que deixara em 1943.
Em março daquele ano, as garotas que lotavam um baile de Carnaval em Santos disputavam a atenção do único homem sem cabelos ali presente. John Lawyer, oficial da Marinha norte-americana que investigava uma rede de espionagem nazista no litoral.
Entre todas as moças, John escolheria Arlette, com quem dançou ao som do emblemático refrão: "É dos carecas que elas gostam mais".
Os jovens namorados se casaram em 25 de novembro, data em que os norte-americanos celebravam o Dia de Ação de Graças e Arlette se formava em Odontologia pela Universidade de São Paulo (USP).
Quando a Marinha solicitou a John que regressasse à sua terra natal, a esposa brasileira o acompanhou. Com o fim da Segunda Guerra, ele estudaria Direito em Chicago, tornando-se advogado.
Em 1949, após uma breve estadia no Rio de Janeiro, o casal se reestabeleceu nos Estados Unidos ? agora, em caráter definitivo.
Mundo público
No Brasil, a mãe de Arlette envolvia-se, cada vez mais, com os círculos intelectuais e a militância política.
Em julho de 1948, com uma tese sobre a "modificação das coroas acrílicas paramolares, pré-molares e caninos", tornou-se a primeira mulher do país a apresentar um trabalho científico em um congresso de Odontologia: a Semana Odontológica de Ribeirão Preto.
Nas reuniões do Centro de Cultura Social, espaço gerido por anarquistas paulistanos, conviveu com o historiador Caio Prado Júnior, o jornalista Edgard Leuenroth, o filósofo Mário Ferreira dos Santos e o sociólogo Maurício Tragtenberg. Duas de suas irmãs, Baby e Odila Carrijo, foram retratadas em telas de Anita Malfatti.
Monteiro Lobato, que desqualificava a obra da pintora modernista como um fruto temerário da "paranoia" e da "mistificação" contemporâneas, escreveu em 1947: "Anita Carrijo pertence ao pequeno e maravilhoso grupo humano dos apóstolos, isto é, dos que acreditam na possibilidade de salvar os homens. Não desejo a Anita o fim usual dos apóstolos ? cruz ou decepção absoluta".
A sentença consta nas páginas do livro A Mulher no Século XX, que a dentista publicou em 1949. Um dos exemplares disponíveis para consulta na Biblioteca Florestan Fernandes, ligada à USP, traz em tinta verde uma dedicatória da autora ao "nobre e humano cientista" Raul Briquet (1887-1953), catedrático da universidade e um dos introdutores da Psicologia Social no Brasil.

As atividades políticas de Anita ganharam fôlego a partir do dia 4 de abril de 1945. Naquela quarta-feira, ela esteve entre as 42 mulheres reunidas na sede da Associação Paulista de Imprensa em defesa da anistia ampla e irrestrita aos presos políticos do Estado Novo.
Duas semanas depois, Getúlio Vargas (1882-1954) assinaria o decreto-lei que viabilizaria a libertação dos últimos seiscentos prisioneiros de seu governo. O presidente caiu em outubro, dando início a um período de relativa tolerância aos movimentos sociais no Brasil.
Associações femininas foram surgindo por todo o país. Uma das mais representativas, a Federação das Mulheres do Estado de São Paulo (FMESP), aglutinava diversas tendências de esquerda sob influência direta do Partido Comunista Brasileiro. A entidade, fundada em 1948, chegaria ao início da década seguinte com cerca de 7,5 mil membros ? incluindo Anita.
"Essas mulheres lutavam por uma inserção na sociedade, contra a ideia de que os papéis femininos se resumiam aos de mãe, esposa e dona de casa", explica Marcela Morente, mestre em História Social pela USP e autora de Invadindo o Mundo Público - Movimentos de Mulheres, 1945-1964 (Humanitas).
"Nem todas as participantes da Federação eram comunistas, mas o comunismo era amplamente reconhecido como uma forma de oposição um pouco mais organizada."
Homens desinteressantes
As pautas desses movimentos abarcavam desde reivindicações tipicamente femininas, como a equidade salarial e a abertura de creches para os filhos das trabalhadoras, até bandeiras políticas da Guerra Fria, como a proibição das armas atômicas, a nacionalização do petróleo e o não envolvimento do Brasil no conflito entre as duas Coreias.

As mulheres participantes, entretanto, ainda não se apresentavam publicamente como feministas. O termo, explica Morente, era utilizado com mais frequência pelos seus críticos, como forma de ridicularizá-las.
"Elas eram vistas como histéricas e desequilibradas", afirma a historiadora.
Mulheres indesejáveis, ociosas, casadas com homens fracos, incapazes de controlar suas esposas. Mulheres que não deveriam ser levadas a sério, que se rebelavam contra a ordem por um mero capricho, uma birrinha.
Anita não esteve livre desse julgamento. O repórter Louis Wiznitzer, em artigo publicado pelo jornal A Manhã no dia 9 de julho de 1952, refere-se a ela como uma "brasileirinha metida a escritora", descrevendo em tons caricatos sua intervenção em um debate que os poetas Allen Tate e Eugenio Montale travavam em Paris.
"Esta senhora parecia estar muito nervosa e frequentemente interrompia os conferencistas batendo palmas, com assobios, protestos ou aplausos que espantavam os vizinhos mais discretos", escreveu o jornalista.
"No fim da conferência, nossa amiga, ruborizada, pediu a palavra e, num francês de comédia, fez umas declarações das quais só posso me envergonhar. Anita, por que você deixou São Paulo?"
Seis anos antes, a dentista tornara-se nacionalmente conhecida. Encabeçava, na época, uma campanha pela liberação do divórcio, em suas palavras, "uma necessidade social".
Palestrando em diversas instituições culturais, exigia que o caráter indissolúvel do matrimônio, previsto nas leis brasileiras desde 1934, fosse revogado na futura Constituição de 1946.
O desquite, única alternativa então disponível aos casais insatisfeitos, previa apenas a separação de corpos e bens, não permitindo que maridos e esposas contraíssem núpcias com novos parceiros.
Uniões posteriores não tinham qualquer respaldo legal; mulheres desquitadas viviam sob o estigma do concubinato, e seus filhos eram tidos como ilegítimos. Anita recebia cartas de algumas delas.
"Respondo a todas que me têm escrito que não lhes basta lastimarem-se", discursou às correligionárias no dia 10 de maio daquele ano.
"É preciso darem o seu apoio ao movimento divorcista publicamente, sem receio de ofenderem seus princípios religiosos, já que os mesmos não nos dão, em caso de infelicidade no matrimônio, nenhuma solução moral compatível com a realidade da vida."
Ataliba Nogueira, deputado federal pelo Partido Social Democrático (PSD), acusava a dentista de promover uma campanha impatriótica: "Não precisamos de divórcio no Brasil, mas de famílias bem constituídas e obedientes à moral cristã".
Sobre os opositores, Anita dizia: "São homens desinteressantes, sem argumentos para discutir aquilo que pretendem defender".
A escrivaninha
Nos Estados Unidos, Arlette experimentava uma rotina bem mais pacata que a de sua mãe. Entraves na revalidação do diploma brasileiro fizeram com que ela abandonasse a Odontologia para abraçar novos ofícios — foi professora de espanhol, voluntária em programas sociais e dona de escolinha infantil. Adorava crianças e raramente falava português.
"Durante o pós-guerra, existia uma gigantesca pressão para que as pessoas parecessem norte-americanas", observa Illène.
A casa da família em Denver, apesar disso, tornou-se um reduto de intercambistas brasileiros. "Quem chegasse na cidade para fazer doutorado sempre acabava por lá. Os estudantes jantavam e faziam amizade com a gente", lembra Ruth.
Anita quase nunca podia estar presente. As vagas memórias que Illène tem dela se apoiam em fotografias de suas visitas, dificultadas pela agenda e pelo valor proibitivo das passagens de avião.
Em uma dessas imagens, a dentista e a neta parecem alheias à câmera, brincando compenetradas em frente a uma árvore de Natal. Outro clique, de 1952, mostra Illène sorrindo enquanto segura um boneco de Bambi ao lado da mãe e da avó.
"Anita vinha todo fim de ano, e daquela vez acabou esticando até a Páscoa", recorda a educadora. "Tive ciúmes. Minha mãe e minha avó só falavam em português, e eu sentia raiva por não entender nada. Eu ainda era filha única e queria toda a atenção só para mim. Mamãe ficou muito feliz por ela estar lá."
Em circunstâncias comuns, o diálogo se dava pelos correios. "Eu passei a minha vida toda vendo mamãe debruçada na escrivaninha, mandando cartas para a mãe dela, os primos, tios e amigos", diz Illène. "Ela escreveu todos os dias para o Brasil."

Embora fosse uma missivista compulsiva, Arlette não tinha o hábito de guardar correspondências. "Mamãe lia e respondia, depois jogava tudo no lixo", explica a filha mais velha. Assim, apenas uma carta de Anita sobreviveu ao tempo — aquela que escrevera em território sueco.
Suas impressões acerca dos países escandinavos foram registradas em uma entrevista concedida no dia 4 de maio de 1956: "Já não existe na Dinamarca o problema das relações entre as diversas camadas sociais", declarou ao jornal Correio Paulistano.
"Um empregado de balcão e um pescador com muita frequência se sentam na mesa de um restaurante ao lado de um alto funcionário ou de um membro da ONU."
Palavras semelhantes talvez estejam grafadas no manuscrito que a dentista enviou da Suécia. As netas, porém, nunca conseguiram decifra-lo plenamente.
"O papel é fino, quase transparente, e minha avó escreveu nos dois lados", explica Illène. "Além disso, ela tinha uma letra muito difícil de se ler. Mas nós entendemos que ela queria saber se o socialismo funcionava bem como modo de governo de um país, e que ela adorou a viagem."
Passos vigiados

Leitores ocultos se interpunham entre Anita e sua filha. As cartas que a dentista enviava aos Estados Unidos eram sistematicamente examinadas pelos censores do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
O órgão, criado pelo governo brasileiro em 1924 e hoje lembrado pelo seu papel repressivo durante a ditadura militar, teve forte atuação no Estado Novo e também monitorou cidadãos nos períodos de suposta normalidade democrática.
Em 27 de outubro de 1951, um memorando destinado a Arnaldo de Camargo Pires, delegado-chefe do Serviço Secreto do DOPS, acusava: "Anita Carrijo é militante comunista; as suas atividades em prol da ideologia comunista vêm se manifestando desde princípios de 1949".
O documento, encontrado pela BBC News Brasil no acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo, integra um pequeno dossiê sobre as atividades políticas da cirurgiã-dentista.
Uma correspondência de cinco páginas, enviada a Arlette no dia 13 de abril de 1944, chamou a atenção dos delegados por conter "referências depreciativas" ao país.
O relator afirma: "Em carta de caráter familiar, a missivista, referindo-se ao Brasil, fá-lo de maneira desairosa, dizendo (...) tratar-se de um país de semianalfabetos, onde desconhecem a lei da verdade, para se basearem na lei do código civil e na lei da aparência."
A existência da documentação surpreende as netas, que descrevem o fato como "horroroso" e "inimaginável". Mas a censura postal, segundo Marcela Morente, era apenas um entre tantos esquemas de vigilância aos quais Anita pode ter sido submetida.
"A polícia armava todo um cerco às mulheres militantes", diz a historiadora. "Havia uma grande rede de informações para desmobilizar esses movimentos. Pelos testemunhos, percebe-se um clima de tortura psicológica. A polícia estava a par de cada passo que elas davam."
Morente enumera alguns dos principais métodos coercitivos empregados pelas autoridades da época: "Guardas à paisana se colocavam próximos aos locais de reunião e infiltravam policiais femininas nas atividades. Mulheres foram presas e submetidas a interrogatórios. Eram pressionadas a citar nomes, delatar colegas, dar informações sobre eventos, a dizer se havia alguma comunista entre elas".
Em 22 de janeiro de 1957, o decreto nº 40.789, assinado pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), suspendeu o funcionamento da Federação das Mulheres do Brasil e de todas as associações filiadas, incluindo a FMESP.
A documentação das entidades, recolhida pela polícia na ocasião, seria utilizada como prova de que essas mulheres estavam envolvidas em atividades subversivas.
Medo de dormir

Quatro meses depois, no dia 11 de maio, um sábado, Anita vestiu seu tailleur azul-marinho e dirigiu-se com Irma Sargentelli ao casamento de uma cliente na Paróquia São José do Belém, zona leste da capital paulista.
Às 20h, a dentista e sua funcionária deixaram a igreja, partindo rumo a uma casa no bairro do Ipiranga, zona sul, onde ocorria uma festa de recepção aos convidados. Irma foi embora às 21h, mas Anita permaneceria na área de comes e bebes por mais algumas horas.
Pouco depois da meia-noite, despediu-se e foi levada até o portão. Sozinha e aparentemente tranquila, atravessou a rua em direção ao ponto de ônibus. Nunca mais foi vista com vida.
Seu irmão, José Carrijo Júnior, soube do assassinato no início da tarde de segunda-feira. Do município de Marília, no interior do estado de São Paulo, enviou um telegrama para Denver. Arlette cuidava de Ruth, ainda bebê, e Illène, com 9 anos, havia acabado de chegar da escola. A educadora jamais se esqueceu daquele dia.
"Encontrei minha mãe em total desespero. Foi a única vez em toda minha vida que eu a vi chorar. Meu pai mandou rosas do escritório", lembra-se.
"Para mim, aquilo representou um choque enorme. Mamãe era uma pessoa muito alegre, positiva, e de repente estava mergulhada em tristeza. Demorei para entender o acontecimento, mas pude ver a tragédia nos olhos dela. E percebi que, se a mãe dela havia morrido de repente, então a minha também poderia morrer. Passei um ano inteiro com medo de ir para a cama sozinha."
A polícia acreditava que duas ou mais pessoas estivessem envolvidas no crime. Apesar da posição em que o corpo havia sido encontrado, a hipótese de violência sexual não foi considerada.
Embora o cofre do apartamento estivesse intacto e os assassinos tivessem ignorado diversos objetos de valor, como joias e uma câmera fotográfica, a morte foi inicialmente investigada como latrocínio — Irma dera por falta de uma máquina de escrever e de um pequeno aparelho de diatermia.
Em depoimento às autoridades no dia 13, a funcionária levantaria o nome de um suspeito — o jovem Federico Cappellin, ex-auxiliar de Anita. Vizinhos atestavam que ele, inconformado com sua recente demissão, passara toda a noite de sábado circundando o prédio da patroa.
Federico tinha 27 anos e nascera em Auronzo di Cadore, pequeno vilarejo de três mil habitantes no nordeste da Itália. Crescera na França e vivia no Brasil desde 1954.
Antes de se mudar para a capital paulista, havia trabalhado na vidraçaria do pai em Paris e supostamente cursado Filosofia na Universidade de Sorbonne. Boêmio e bem apessoado, aspirava à carreira de ator, dizendo ter no currículo algumas pontas em filmes europeus.
Nas semanas que antecederam a morte de Anita, o suspeito havia atuado em uma montagem da peça A Prostituta Respeitosa, de Jean-Paul Sartre, apresentada no Teatro Cultura Artística pelo grupo amador da Aliança Francesa.
Ironicamente, interpretara um dos policiais corruptos que perseguem a protagonista Lizzie, garota de programa que testemunha a execução de um homem negro pelo sobrinho de um senador branco. Agora, às voltas com um assassinato verídico, Federico alegava ter conhecido a vítima em um encontro fortuito no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
"Muito afável, Anita logo me convidou a passar em casa, a fim de ver os dentes. Já naquela época eu lutava contra dificuldades financeiras", disse ao delegado João Leite Sobrinho na Delegacia de Segurança Pessoal da Polícia Civil.
"Acertei então com ela um acordo. Em troca de comida, eu lhe cuidaria do apartamento, embora continuasse a dormir fora. Mas um dia, por motivos fúteis, brigamos. E ela saiu por aí alinhavando todas as suas teorias feministas, que me aborreciam de verdade. Não suportei aquela investida. Ainda mais que tínhamos divergido várias vezes por causa dessas teorias."
No dia 18, às 17h30, após 33 horas quase ininterruptas de interrogatório, o rapaz foi liberado. Na companhia de seus advogados, Hélio Ribeiro Nogueira e Tuany Valdetaro Silva, distribuiu autógrafos pelo centro da cidade.

"Veja como é o destino", vangloriou-se um de seus defensores à imprensa, enquanto passeavam pela Rua Barão de Itapetininga.
"Esse moço chegou ao Brasil como mestre videiro. Surgiu aos olhos do público como assassino. Hoje, é herói. Ele ainda não sabe que já tem propostas para trabalhar na televisão."
Um grande silêncio
Anita, por sua vez, enfrentaria uma campanha de difamação póstuma. A dentista, garantiam seus detratores, era "um demônio".
Dizia-se que, "apesar da idade", levava uma "vida irregular". Sua "estranha existência" consistiria em um "mar de lama" eivado por "tramas de devassidão e mistério". Ela teria sido exterminada pelo "próprio meio" ? um "círculo social totalmente contaminado pelo vício de entorpecentes". Os termos são de reportagens da época.
A imprensa não economizaria em adjetivos para a vítima: "inconsequente", "infeliz", "inquieta", "embriagada", "destrambelhada", "confusa", "solitária", "toxicômana".
Nas redações, sua figura desdobrava-se em uma sucessão de arquétipos negativos — a mulher "pouco cuidadosa", "dada a jogatinas", "frequentadora de cabarés", "impregnada de pensamentos comunistas" e "mal sucedida no amor".
Sem provas, jornais a acusavam de ter ganhado dinheiro com agiotagem e tráfico de cocaína. A revista Manchete, uma das mais lidas pela classe média brasileira na década de 1950, insinuou: "a dentista, insatisfeita, recebia rapazes em seu apartamento pretextando ministrar-lhes aulas de Odontologia". O texto, escrito por Walter Bouzan, trazia a foto de um travesseiro com manchas escuras, e, logo abaixo, a legenda: "O leito em que Anita recebia seus 'clientes' amanheceu um dia coberto de sangue."
As investigações pouco avançaram. Mário Santalúcia, médico responsável pela autópsia, não obteve nenhum esclarecimento que servisse de norte para seu trabalho, efetuado sem qualquer supervisão da Delegacia de Segurança Pessoal; o laudo resultante, admitiria o legista posteriormente, era falho.
Uma semana após o crime, as impressões digitais recolhidas no apartamento ainda não haviam sido analisadas pelo serviço datiloscópico.
Na esteira do testemunho de Federico, mais de cem pessoas foram ouvidas pela polícia. Os suspeitos eram detidos, exibidos à opinião pública como culpados e soltos logo em seguida.
João Ribeiro da Silva, com três passagens pela Delegacia de Roubos, confessou o crime sob tortura.
O argentino Roberto Ray, cantor de tangos em boates paulistanas, foi retratado como cafetão e suposto concorrente de Anita no tráfico de drogas.
Luís Lopes, portador de esquizofrenia e fugitivo do Hospital Psiquiátrico do Juquery, declarou-se culpado, mas peritos concluíram que seu relato era mero "produto de uma imaginação doentia".
O caso foi arquivado em 1970. Sete anos depois, a lei nº 6.515 finalmente instituiu o divórcio no Brasil. Àquela altura, ninguém mais falava sobre o assassinato da cirurgiã-dentista ? nem mesmo seus descendentes.
"Arlette tentou ao máximo proteger a imagem da mãe", diz a corretora imobiliária Carmen Bittencourt, casada há 38 anos com um sobrinho-neto de Anita — ele não quis dar entrevista.
Foi pela convivência com a família do marido que ela tomou conhecimento do crime, já na década de 1980. O tema costumava ser um tabu.
"Quando Arlette vinha ao Brasil, todos evitavam essa história", diz. "Os tios escondiam os jornais, rasgavam qualquer coisa que aparecesse em casa. Ninguém queria que ela soubesse dos detalhes. O pessoal fez de tudo para que ela não visse as fotos do corpo."
Arlette mantinha um retrato de Anita na escrivaninha e recusava-se a conversar sobre os acontecimentos de 1957.
"Minha mãe não parecia ter vivenciado uma tragédia", lembra Ruth. "Ela nunca quis estacionar no passado, fazer disso o centro de sua vida. Ela queria preservar as memórias bonitas, falar de coisas agradáveis."
A assistente de parto reconhece, por outro lado, que um grande e doloroso silêncio se abate sobre a família: "Ninguém tocava nesse assunto quando éramos jovens. Eu não me sentia confortável para fazer perguntas, mas sempre tive curiosidade. Recentemente, digitei o nome da minha avó no Google".
Ruth deparou-se com a imagem do cadáver, reproduzida em blogs e páginas de antiguidades no Facebook. Ela, que até então desconhecia os pormenores do crime, intuiu que o assassinato havia sido político ? uma sensação compartilhada pela irmã mais velha.
"Só descobri a causa da morte aos dezenove anos", relata Illène. "Eu estudava na Universidade de Stanford e participava ativamente dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Mamãe tinha muito medo de que algo acontecesse comigo e acabou me contando como foi que Anita morreu."
Stalin e prostitutas
Arlette nunca tolerou críticas à mãe. "Ela se sentia extremamente irritada quando parentes mais conservadores falavam mal de Anita, e sempre foi muito clara com relação a isso", diz Illène.
E observa: "Nós crescemos em uma casa de muito debate político. Mamãe era liberal, admirava Franklin D. Roosevelt e fazia questão de ir às urnas toda eleição".
O direito ao voto foi adquirido às vésperas do golpe de 1964, quando Arlette, a contragosto, naturalizou-se norte-americana. "Ela ficou triste, pois adorava o Brasil e queria preservar sua nacionalidade", conta Ruth.
O marido, no entanto, acabou por convencê-la, alegando insistentemente que João Goulart transformaria o país em uma ditadura comunista.
"Minha mãe sempre falava o quanto Stalin era terrível", afirma Illène. "Por muitos anos, ela pensou que Anita tivesse sido assassinada pelo Partido Comunista. Essa ideia é simplesmente absurda. Eu acho que minha avó foi morta por saber de algo errado envolvendo homens de poder."
A reportagem mostra às netas de Anita uma nota publicada pelo Jornal do Brasil em 9 de maio de 1959. "Minha irmã estava escrevendo um livro sobre o uso de tóxicos em São Paulo", dizia José Carrijo Júnior naquele momento.
Nesse livro estavam os nomes de várias personalidades da alta sociedade paulista, pessoas viciadas em tóxicos. Pois bem, os originais do livro desapareceram logo após o crime, não sendo encontrados em nenhuma oficina gráfica.
O recorte desperta lembranças em Illène. Já na idade adulta, familiares teriam lhe dito que Anita acidentalmente desvendara um cartel de drogas comandado por dentistas e médicos da capital paulista.
Arlette, ao mesmo tempo, relatava que a mãe oferecia tratamento odontológico gratuito às prostitutas da cidade, a fim de conversar com elas sobre feminismo.
"Eu imagino que muitas prostitutas sejam utilizadas para satisfazer homens poderosos, e que minha avó tenha descoberto algo por meio dessas mulheres. Mas isso é uma grande especulação. Não existem evidências, nunca saberemos o que realmente houve", admite a educadora.
"Em todo caso, quando lembro da forma como ela morreu, amordaçada e sufocada, só consigo pensar em silenciamento. Alguém queria calar a boca da minha avó, para que ela não divulgasse o que sabia."
A imagem do corpo, que a BBC News Brasil não publica em respeito às netas, causou impressão parecida em Marcela Morente: "Achei a foto muito chocante", diz a historiadora. "Anita foi pioneiríssima, um atentado ambulante contra tudo aquilo que a sociedade brasileira entendia por moral e bons costumes. A violência que sofreu e a maneira como foi assassinada me parecem uma resposta direta ao papel controverso que ela desempenhava na época."
Flores para os vivos
Mais de sessenta anos após o crime, o edifício da República permanece em pé. Sua fachada discreta, em frente aos canteiros da Praça Dom José Gaspar, encontra-se coberta de pichações.
Os apartamentos, distribuídos em onze andares, hoje servem como escritórios para engenheiros, arquitetos, advogados, despachantes e desenvolvedores de softwares. Os inquilinos aparentemente desconhecem o histórico do prédio.
A Biblioteca Municipal Mário de Andrade, a 80 metros dali, foi palco de pelo menos duas conferências de Anita. No dia 9 de junho de 1947, a dentista esteve no local para falar sobre a "situação dos filhos de desquitados e divorciados". Em 16 de setembro de 1954, retornaria com uma palestra sobre a "evolução mental da mulher no Ocidente".
A Mário de Andrade, reconhecida como a segunda maior biblioteca pública do país, não possui o livro da dentista em seu acervo de 370 mil títulos.
Os vestígios públicos de Anita também desapareceram do Cemitério do Araçá, na zona oeste da cidade, onde foi enterrada.
"Ano retrasado, quando estive no Brasil pela última vez, quis visitar o túmulo da minha avó", relata Illène. "Ao chegar lá, descobri que havia sido vendido para outra família. Saí do cemitério e entreguei para uma amiga as flores que tinha comprado. Percebi que uma pessoa viva poderia apreciá-las melhor."
As mulheres entrevistadas pela reportagem lamentam que a figura da dentista tenha se apagado no tempo.
"Anita Carrijo poderia ter entrado para a história como um nome marcante do feminismo, mas caiu na obscuridade como personagem de folhetins sensacionalistas", opina Carmen Bittencourt. "O crime infelizmente foi vendido como um assalto qualquer. Acho que não era conveniente levar esse caso adiante."
Para Morente, trata-se de um esquecimento calculado. "Não interessa ao Estado que mulheres como Anita sejam lembradas, ou que ela tivesse se tornado mártir do divórcio na década de 1950", afirma a pesquisadora.
"O objetivo é fazer com que as mulheres sejam sempre silenciadas, que não ganhem espaço nem voz, que não inspirem umas às outras."
Na contramão da memória coletiva brasileira, Illène pendura fotografias da avó nas paredes de sua casa em Carbondale e guarda no armário o vestido vermelho com o qual a dentista presenteou Arlette ao retornar de uma viagem à Europa.
"É maravilhoso, feito de linho irlandês e bordado à mão em branco", descreve a educadora. "Mamãe me deu quando fiz quinze anos, e ainda tenho. Ela costumava dizer que sou muito parecida com minha avó. Acho que Anita ainda vive dentro de mim."
____________________ * Novas pesquisas reforçam a busca pela camisinha perfeita

Chermaine Lee - BBC Future
19/06/2021 18h09
De preservativos autolubrificantes até aqueles com medicamentos embutidos que protegem contra infecções, o contraceptivo do futuro já está em desenvolvimento.
Ele era o governante de uma das primeiras grandes civilizações da Europa há cerca de 5 mil anos.
Mas reza a lenda que o rei Minos de Creta tinha um problema: seu sêmen era venenoso.
Churros, menta, caipirinha: veja camisinhas de sabor e texturas diferentes
Dizem que várias amantes do rei morreram depois de fazer sexo com ele, já que ele ejaculava "serpentes e escorpiões".
Embora seja uma descrição incomum para uma doença venérea, ela levou ao que agora é uma inovação familiar. O rei Minos é a primeira pessoa de que se tem registro a usar camisinha.
O revestimento protetor era feito de bexiga de cabra, mas ajudava a manter as parceiras do rei seguras durante a relação sexual (embora haja algum debate sobre se o dispositivo era usado pelo rei ou por suas parceiras).
Hoje, quase 30 bilhões de camisinhas são vendidas no mundo todo a cada ano. Desde 1990, estima-se que cerca de 45 milhões de infecções por HIV tenham sido evitadas com o uso de preservativos, de acordo com a Unaids, programa da Organização das Nações Unidas (ONU).
No entanto, mais de 1 milhão de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) ainda são contraídas todos os dias, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). E cerca de 80 milhões de gestações por ano não são intencionais.
Isso levou muitos especialistas em saúde pública a insistir que a camisinha deveria desempenhar um papel ainda maior na prevenção da propagação de doenças e no planejamento familiar.
Os preservativos masculinos modernos de látex oferecem pelo menos 80% de proteção contra a maioria das infecções sexualmente transmissíveis.
Este dado inclui o uso incorreto e até mesmo inconsistente da camisinha masculina.
Quando usada corretamente, a camisinha pode ser até 95% eficaz na prevenção da transmissão do HIV, conforme mostram estudos.
Mas fazer as pessoas usarem preservativos corretamente ainda é um grande desafio, de acordo com William Yarber, diretor sênior do Centro Rural de Prevenção da Aids/IST da Universidade de Indiana, nos EUA.
"Pela nossa pesquisa, muitos querem usar camisinha, mas tiveram experiências negativas com o uso do preservativo, acreditam na 'má reputação' das camisinhas ou não sabem muito sobre o uso correto do preservativo e como usá-lo e ao mesmo tempo sentir prazer", diz ele.

Há várias razões pelas quais as pessoas resistem ao uso de preservativos — questões religiosas, educação sexual deficiente e porque não gostam da sensação.
Rupturas ou deslizes de preservativos são relativamente incomuns, mas acontecem. Alguns estudos estimam que ocorram entre 1% e 5% dos casos, e isso também pode afetar a confiança e se as pessoas usam os itens.
Isso levou os pesquisadores a buscarem maneiras de melhorar o preservativo com materiais e tecnologias inovadoras, na esperança de estimular mais pessoas a usarem.
Uma ideia promissora para camisinhas mais resistentes utiliza o grafeno — uma única camada ultrafina de átomos de carbono que foi identificada pela primeira vez por cientistas vencedores do Prêmio Nobel da Universidade de Manchester, no Reino Unido, em 2004.
Aravind Vijayaraghavan, cientista de materiais do Instituto Nacional de Grafeno da Universidade de Manchester, acredita que "o material mais fino, mais leve, mais forte e com melhor condutividade de calor do mundo" pode ser ideal para melhorar as propriedades dos preservativos.
A equipe dele recebeu uma bolsa da Fundação Bill e Melinda Gates em 2013 como parte de uma campanha para desenvolver designs inovadores de camisinha.
Mas o grafeno não pode ser transformado em objetos autônomos por conta própria, então a equipe de Vijayaraghavan está combinando grafeno com látex e poliuretano.
"O grafeno é um material em nanoescala, que tem apenas um átomo de espessura e poucos micrômetros de largura", ele explica.
"Mas, nessa pequena escala, é o material mais forte do planeta. O desafio é transferir essa força da nanoescala para uma macroescala, na qual usamos objetos do mundo real. Fazemos isso combinando as partículas fortes de grafeno com um polímero fraco, como látex de borracha natural ou poliuretano. O grafeno então transmite sua força ao polímero fraco para torná-lo mais forte, reforçando-o na nanoescala."
Essa combinação é capaz de aumentar a resistência de uma película fina de polímero em 60% ou permitir que as camisinhas sejam 20% mais finas, enquanto mantêm sua resistência atual, acrescenta Vijayaraghavan.
Embora os preservativos de grafeno ainda não estejam disponíveis, a equipe está atualmente trabalhando na comercialização de sua inovadora borracha reforçada.
Outro grupo que trabalha para tornar o material usado nas camisinhas mais fino e resistente está na Universidade de Queensland, na Austrália.
Lá eles estão desenvolvendo preservativos que combinam látex com fibras da grama spinifex, nativa da Austrália.
A resina de spinifex é usada há muito tempo como adesivo pelas comunidades indígenas no país, como na fabricação de ferramentas e armas com ponta de pedra.
Os pesquisadores descobriram que eram capazes de reforçar o látex com nanocelulose extraída da grama. As películas de látex resultantes eram até 17% mais fortes e podiam ser mais finas.
Eles dizem que foram capazes de produzir um preservativo que poderia suportar 20% mais pressão em um teste de ruptura e poderia ser inflado até 40% mais em comparação com as camisinhas de látex comerciais.
Nasim Amiralian, engenheira de materiais da Universidade de Queensland que está entre os líderes do projeto, afirma que a equipe está trabalhando agora com fabricantes de preservativos na tentativa de otimizar as formulações e métodos de processamento.
Mais resistentes e mais finas
A expectativa deles é de que sejam capazes de fabricar camisinhas que são mais resistentes, mas também talvez até 30% mais finas do que os preservativos atuais, o que pode melhorar a taxa de adesão das pessoas, fazendo com que sejam menos perceptíveis durante o uso.
O material também pode ter outras utilidades, como a produção de luvas mais resistentes e, ao mesmo tempo, mais sensíveis para cirurgiões.
Mas, embora o látex seja atualmente o material mais comum usado em camisinhas, muitas pessoas o consideram "desconfortável" de usar e geralmente precisam de lubrificantes. O látex também é relativamente caro, o que pode ser uma barreira adicional ao uso dos preservativos.
Cerca de 4,3% da população mundial também sofre de alergia ao látex, tornando o tipo mais comum de camisinha inútil para milhões de pessoas.
Embora haja alternativas como preservativos de poliuretano ou de membrana natural, elas apresentam desvantagens.
As camisinhas de poliuretano rompem muito mais facilmente do que os preservativos de látex, enquanto as de membrana natural contêm pequenos poros que não bloqueiam a passagem de patógenos de ISTs, incluindo hepatite B e HIV.
Outro grupo de cientistas australianos, no entanto, quer substituir o látex por um novo material chamado "hidrogel resistente".
A maioria dos hidrogéis — uma rede de polímeros capazes de absorver grande quantidade de água — tende a ser macio e pegajoso, mas os que estão sendo usados por pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Swinburne e da Universidade de Wollongong, na Austrália, são fortes e elásticos como borracha.
A equipe criou uma empresa chamada Eudaemon que está tentando desenvolver a pesquisa inicial dos "GelDoms".
Como não contêm látex, essas camisinhas podem evitar os problemas de alergia associados aos preservativos tradicionais, mas a equipe afirma que seus hidrogéis também podem ser desenvolvidos para dar uma sensação mais parecida com a pele humana e, portanto, mais natural.
Como o hidrogel contém água, essas camisinhas também são autolubrificantes, ou podem ser criadas com medicação contra ISTs embutida em sua estrutura que é liberada durante o uso.
Garantir que os preservativos possam ser usados sem lubrificação adicional é outro desafio para o qual os cientistas voltaram sua atenção.
Empresa desenvolveu camisinha "autolubrificante"
Um grupo de pesquisadores da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, desenvolveu um revestimento que pode ser aplicado às camisinhas, permitindo que se tornem autolubrificantes. Eles fundaram uma empresa, a HydroGlyde Coatings, para a inovação.
A maioria dos lubrificantes usados em preservativos de látex tende a ser pegajosa, repelir água e diminuir durante o uso.
Os pesquisadores da Universidade de Boston, no entanto, descobriram que podiam vincular uma fina camada de polímeros hidrofílicos — que amam água — à superfície do látex. Quando os polímeros entram em contato com a água, eles se tornam escorregadios ao toque.
Isso significa que eles podem usar a umidade dos fluidos corporais para permanecerem escorregadios e reduzir o atrito durante o uso.
"Os lubrificantes estão atrapalhando os preservativos, pois são hostis ao uso de água. Nosso revestimento pode permanecer nas camisinhas de látex durante a relação sexual para oferecer lubrificação contínua. Resolve um dos maiores problemas [no uso de preservativos]", diz Stacy Chin, diretora-executiva e cofundadora da HydroGlyde.
O revestimento reduziu o atrito em 53% em uma pequena pesquisa realizada com 33 pessoas, em comparação com o látex sem lubrificação — e teve um desempenho semelhante aos lubrificantes disponíveis comercialmente.
Nos testes de toque cego em pequena escala, 70% dos participantes preferiram os preservativos com o novo revestimento àqueles com lubrificante pessoal.
Como o produto está atualmente em processo de comercialização, Chin diz que não pode revelar mais detalhes sobre quanto tempo levará para que os novos preservativos autolubrificantes estejam disponíveis.
O encaixe é outra questão que pode muitas vezes ser um problema, e um fabricante de preservativos nos EUA está vendendo camisinhas com ajuste personalizado em 60 tamanhos.
Um estudo de 2014 da Universidade de Indiana mostrou que o comprimento ereto do pênis de 1.661 homens sexualmente ativos nos Estados Unidos variava de 4 cm a 26 cm, enquanto sua circunferência oscilava de 3 cm a 19 cm. O comprimento médio de um preservativo masculino é de 18 cm.
Em resposta, a Global Protection Corporation está oferecendo preservativos que vêm em 10 comprimentos e nove circunferências diferentes.
Cynthia Graham, professora de saúde sexual e reprodutiva da Universidade de Southampton, no Reino Unido, e pesquisadora da equipe de preservativos do Instituto Kinsey da Universidade de Indiana, também está avaliando se novas maneiras de colocar a camisinha podem torná-la mais fácil de usar.
Eles estão testando um novo tipo de preservativo que usa um aplicador embutido, permitindo que a camisinha seja colocada sem ser tocada.
A embalagem apresenta uma aba de puxar para facilitar a abertura. O objetivo é evitar danos potenciais à camisinha em uma embalagem de preservativo de alumínio convencional.
A novidade conta um par de tiras para desenrolar o preservativo, que se soltam quando ele está totalmente desenrolado — uma tentativa de garantir que esteja encaixado corretamente antes do uso.
Mas o dispositivo ainda não foi usado em testes clínicos devido à falta de financiamento.
E há outras questões mais fundamentais que constituem um empecilho no uso da camisinha.
"É muito comum as pessoas não usarem camisinha — elas a usam para prevenir a gravidez, em vez de para prevenir as ISTs. O pior é que muitos jovens acham que a maioria dessas doenças é tratável, então eles não se preocupam com elas", diz Graham.
Mesmo com preservativos mais resistentes, mais finos e confortáveis, é claro que muitos avanços podem ser alcançados com um pouco mais de educação também.
____________________ * Com 12 anos e já na faculdade, jovem sonha se tornar engenheira da Nasa

Carolina Vellei
Colaboração para Ecoa, de São Paulo
20/06/2021 06h00
Desde pequena, Alena Analeigh Wicker já dizia aos pais que um dia se tornaria uma engenheira da Nasa. Hoje com 12 anos, ela acaba de ficar mais próxima de realizar seus planos. Aceita na Escola de Exploração Espacial da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, ela começará ainda neste semestre a cursar as aulas como uma das alunas mais jovens que já estudaram ali. A ideia é concluir o curso de Ciências Astronômicas e Planetárias em 2024.
Alena sempre foi muito inteligente e curiosa. O seu interesse pela ciência e pela engenharia começou quando tinha quatro anos, momento em que se apaixonou por diferentes tipos de Legos. Os brinquedos, com pequenas peças de montar, deram a Alena espaço para imaginar grandes invenções e construções robóticas para a exploração espacial em um futuro próximo.
É um sonho que ela deseja tornar realidade - e num curto espaço de tempo. Como explicou sua mãe, Daphne McQuarter, ao programa Good Morning America, a menina costumava dizer que trabalharia para a Nasa e que "seria a garota negra mais jovem" a atuar na agência espacial norte-americana. Ao acelerar a sua formatura no Ensino Médio a partir de muito esforço e dedicação, ela mostrou à mãe que não estava brincando.
Uma mente brilhante
De olho na jovem prodígio, estavam presentes em sua cerimônia de entrega de diploma do Ensino Médio um dos diretores da Nasa, Clayton Turner, do centro de pesquisa Langley, e também a prefeita Rachel Proctor, da cidade de DeSoto, no Texas.
Apesar de não viver em DeSoto, Alena se tornou cidadã honorária após ser recebida pela prefeita em seu gabinete. No começo do ano, Rachel Proctor se tornou a mais jovem prefeita a ocupar o posto na história da cidade, feito que inspirou Alena a correr atrás de seus objetivos, apesar da pouca idade. "Obrigada, prefeita Rachel, por abrir sua cidade, seus braços e suas portas para mim", escreveu a estudante em seu Instagram.
Pela igualdade de acesso à ciência
Alena notou as disparidades raciais e de gênero nos campos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, na sigla em inglês) e decidiu fazer algo a respeito. Ela lançou seu próprio site, o Brown Stem Girl (BSG), para fornecer apoio a outras garotas negras nessas áreas. Com o desejo de criar oportunidades para jovens com menos de 18 anos, sua fundação oferecerá orientação e recursos financeiros para aquelas que precisarem.
"Ela disse: 'Eu quero criar essa cultura de garotas negras em STEM, porque existe essa lacuna, e eu quero fazer alguma coisa para mudar isso'", contou a mãe no programa de TV.
Um dos próximos projetos de Alena é um livro infantil intitulado "Brainiac World". O nome vem de uma provocação que a garota recebia de outras crianças quando era mais nova. Em inglês, "brainiac" é uma gíria de conotação negativa que descreve pessoas extremamente inteligentes. A estudante contou que a sua ideia é ressignificar essa palavra e transformá-la em algo positivo.
Ela também está trabalhando em um podcast. "Meu podcast vai incentivar garotas no STEM, nele eu vou chamar outras mulheres e meninas da área para fazer e responder perguntas", promete.
As mais lidas agora
____________________ * A nossa dor além da conta | Míriam Leitão - O Globo
Por Míriam Leitão

Meio milhão de mortos. É o que temos registrado. Um número imenso, inconcebível, mas que era previsível diante dos erros do governo. Caminhamos para a morte, dolorosamente, sem saber quem entre nós será atingido na próxima semana, no próximo dia, na próxima hora. Nós, os sobreviventes, carregamos dores e sequelas de uma impiedosa mortandade. Sim, Bolsonaro é culpado, e essa não é uma frase política, é a simples constatação diante de abundantes fatos produzidos diariamente por ele mesmo, o mais irresponsável dos governantes que o Brasil já teve. Na última quinta-feira, na live em que mente sistematicamente, Bolsonaro disse que quem pegou o vírus está mais imunizado do que quem tomou a vacina. Essa é mais uma mentira mortal. As mentiras do presidente matam.
Não foi Bolsonaro que inventou a pandemia, mas é ele que tem se esforçado diariamente pela disseminação do vírus. Bolsonaro pôs todos os seus mesquinhos interesses à frente da vida. Sabotou os esforços dos que tentam proteger os brasileiros, atacou governadores, alimentou a cizânia, espalhou mentiras, estimulou aglomerações, ignorou fornecedores de vacinas, exibiu desprezo pelos que sofrem e correu atrás de tudo o que não funciona, da cloroquina ao spray nasal.
Governantes podem errar. Isso sempre aconteceu na história dos países. Mas Bolsonaro conseguiu errar o tempo todo. Diariamente ele toma decisões ou faz declarações que colocam o país mais vulnerável ao vírus. Descrever a lista desses erros aqui seria exaustivo e ocioso. O país vê o presidente manipulando números de óbitos, estimulando a atitude errada, brigando de forma vil com todos os que sinceramente se empenham em proteger a vida.
O país chega exaurido ao espantoso número de quinhentos mil mortos. Tem que dividir seus esforços em duas frentes de luta, contra o inimigo invisível e implacável, e contra o governante que nos empurra em direção ao abismo. A Comissão Parlamentar de Inquérito põe diante de nós, a cada sessão, novos fatos, novas omissões, novas provas da incúria, da incompetência e do desprezo pela vida. Ficou claro, irretorquível, que o projeto de Bolsonaro sempre foi disseminar o vírus o mais rapidamente possível. Ele segue ainda hoje no delírio de que a contaminação geral da República é a melhor estratégia. O custo em vidas humanas não o interessa. Ele não quer proteger o país, quer que o assunto não atrapalhe a sua demagógica campanha eleitoral para 2022. Só nisso pensa o presidente.
Ele demitiu ministros que tentaram acertar, colocou outros na coleira, impôs que a máquina pública trabalhasse por remédios que são ineficazes e desprezou inúmeras chances de ter a vacina na primeira hora. Isso custou milhares de vidas. O único imunizante pelo qual o governo se empenhou era vendido por um intermediário sobre o qual pairam suspeitas. Houve também, como a CPI mostra, desperdício de recursos públicos e desvios.
Bolsonaro passeia de moto sobre a dor do país nessa sua campanha eleitoral fora de época e de lugar, e que está sendo paga com o nosso dinheiro. São recursos públicos que custeiam seus deslocamentos e dos seus ministros para os comícios em que, desmascarado, ele mente e nos expõe ainda mais ao risco. Sai do nosso bolso o dinheiro que paga disseminadores de mentiras que ele instalou no Planalto sob o comando do vereador, seu filho. É nosso o imposto que financia a montagem dos palanques, que paga a comitiva de assessores e áulicos, os policiais da segurança, e os falsificadores de informação que o seguem em cada deslocamento.
A democracia brasileira está sem instrumentos para lidar com pessoa tão maléfica no governo. Está acossada pelo presidente e seus blefes, como o de que haverá uma “convulsão social” se o voto não for impresso. Como é possível tolerar que o presidente ameace o país com uma convulsão social e no meio de uma pandemia que matou 500 mil brasileiros?
Não há mais palavras para descrever os fatos desses devastadores meses em que o país atravessa uma tragédia inédita em nossa história sob o comando do pior dos presidentes. O tempo talvez console os enlutados, cure os feridos, e nos permita entender a devastação que temos vivido. O tempo presente, contudo, ainda é de luta pela vida.
Com Alvaro Gribel (de São Paulo)
____________________ * Em busca da civilização perdida
Se não bastasse a pandemia, vive-se a ameaça de uma crise no fornecimento de energia. E se isso fosse pouco, o projeto de privatização da Eletrobras foi minado pelos jabutis que os maganos enfiaram na legislação.
Tamanha confusão produzida por uma base política voraz e pela falta de rumo do governo poderá ser melhor entendida por quem se dispuser a atravessar as 368 páginas de “Curto-circuito: Quando o Brasil quase ficou às escuras”, dos jornalistas Roberto Rockmann e Lucio Mattos.
Eles contam duas histórias. O tema central é o “apagão” de 2001, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso enfrentou a falta de água nos reservatórios. O pano de fundo é a mistura de interesses, inépcias e empulhações que provocaram a crise e desembocaram na girafa em que se transformou o sonho tucano de privatização das estatais elétricas.
Prometiam um modelo no qual a geração seria privatizada, haveria disputa pelo fornecimento e as pessoas poderiam escolher de quem comprariam energia. Não aconteceu nem uma coisa nem outra, as tarifas subiram e a crise hídrica voltou.
Aqui e ali, ecoam algumas situações parecidas com as de hoje. O governo levou meses para perceber a gravidade da crise e não queria falar em racionamento. “Curto Circuito” mostra a diferença que faz um presidente disposto a botar sua popularidade na frigideira e, sobretudo, entregar o problema a um servidor capaz. Ele foi o economista Pedro Parente, a quem FHC entregou a encrenca e os poderes para enfrentá-la.
FHC e Ruth Cardoso tinham um filho e duas filhas, nenhum deles dava palpite no governo. Para sua sorte, David Zylbersztajn, seu genro ao amanhecer da crise, dirigia a Agência Nacional de Petróleo, entendia do assunto e ajudou a acender a luz vermelha.
O papel de Parente pode ser medido a partir de um episódio, quando ele foi encarregado de chefiar a nova Câmara de Gestão da Crise de Energia. Os marqueteiros não queriam falar em crise. Ele se impôs: “Tem que usar a palavra crise. (...) Não adianta esconder.”
Para quem vive no mundo da cloroquina, com o ministério da Saúde tendo banido o uso das expressões “quarentena” e “auto-isolamento” um Pedro Parente é tudo o que falta. Ele trabalhou como um mouro, suas reuniões eram abastecidas com esfihas do Habib’s. Houve um dia em que esqueceu de vestir o cinto.
A crise de 2001 não tinha a letalidade da pandemia, mas sua complexidade era enorme. Havia burocratas brigando, o Centrão bicando e empresários querendo faturar. Só não havia um presidente negando a crise ou acreditando em remédios milagrosos. (Em março de 2020 Jair Bolsonaro disse que nos Estados Unidos visitaria uma empresa de militares que pesquisa a transmissão de energia elétrica sem fios. Felizmente não foi.)
Em 2001 os jogos noturnos de futebol foram cancelados e Gilmar Mendes, o advogado-geral da União, costurou arestas nos tribunais.
O apagão custou caro à popularidade de FHC, mas suas medidas evitaram catástrofes. Tudo isso num clima de civilização que parece perdido.
500 mil mortos
Batendo a triste marca dos 500 mil mortos, a administração de Jair Bolsonaro, confronta-se com a tragédia da “gripezinha”cujo “finalzinho” esteve próximo, pois a nova onda era uma “conversinha”. Muita gente votou nele porque concordava com suas propostas de campanha. Outros, votariam em qualquer um para impedir a volta do PT.
Passados dois anos, eleitores e sobretudo pessoas que formam seu governo acreditando em sabe-se lá o quê, estão diante de uma personalidade conturbada. Algum defeito, todas as cabeças têm, mas Bolsonaro é um sexagenário com fantasias infantis.
São soluções simples e definitivas para problemas que os adultos consideram complexos.
Aos 66 anos, acredita na cloroquina e no spray israelense. Por volta dos trinta, acreditava na mágica do garimpo, desafiando as normas do Exército onde servia. De lá para cá apresentou-se como um profeta das virtudes milagrosas do nióbio e do grafeno para a economia. Noves fora a curiosidade pela transmissão de eletricidade sem fios, como presidente, disse que o Brasil e Argentina poderiam adotar uma moeda única.
Promessas de políticos são uma coisa, onipotências infantis, bem outra.
Milagre
A Samarco, empresa responsável pelo desastre de Mariana, onde morreram 19 pessoas em 2015, pediu recuperação judicial.
O então diretor jurídico da Vale, acionista da empresa, notabilizou-se por dizer que “a Samarco não é um botequim, não é uma empresinha qualquer”.
Pode ter sido assim, mas três dias antes do pedido de recuperação judicial da Samarco, sua dívida passou de R$ 27 bilhões para R$ 50 bilhões.
O espeto engordou porque a Vale e a empresa anglo-australiana BHP transformaram em dívida da Samarco o dinheiro que gastaram no pagamento das indenizações devidas pelo desastre de Mariana.
Num botequim qualquer, isso poderia acabar em tiros.
Madame Natasha
Madame Natasha é uma miliciana do idioma e percebeu que surgiu uma novidade. É o “lixão clandestino”, denominação dada aos terrenos onde as milícias jogam detritos que o Estado não coleta.
Já se falou em “loteamentos clandestinos” e em “transportes clandestinos”. O que a senhora não entende é como essas clandestinidades não são percebidas. Elas são apenas ilegais.
Frito
Bolsonaro pode repetir a cada dia que Ricardo Salles é um excelente ministro, mas pelo andar da carruagem do inquérito do favorecimento das madeireiras, ele está frito.
Ramos e Alcolumbre
Se o general da reserva Luiz Eduardo Ramos deixar a chefia da Casa Civil, seu substituto poderá ser o senador Davi Alcolumbre. Pelo menos essa é a esperança de muitos parlamentares da base do governo.
Quando Alcolumbre surgiu como candidato a presidente do Senado, muita gente dizia que ele não tinha tamanho para derrotar Renan Calheiros.
Escolha para Doria
João Doria é candidato a presidente e tomou mais uma pancada no PSDB. Ele tem dois caminhos.
No primeiro, passa a tratar seriamente as restrições que sofre no tucanato. Há um ano ele menosprezava referências a esse obstáculo.
No segundo, continua na pose negacionista. Com ela, caso seja eleito, arrisca ficar parecido com o antecessor.
Lula e Perón
Começou a temporada de caça ao Terceiro Nome, capaz de quebrar a polarização Lula x Bolsonaro.
A ver, mas o andar de cima brasileiro está na mesma armadilha em que caíram aqueles argentinos que pensam ser ingleses.
Tendo defenestrado Juan Perón em 1955 com a ajuda dos militares, passaram dezoito anos procurando uma alternativa. Em 1973 Perón voltou à Casa Rosada.
Se o Terceiro Nome não aparecer, no ano que vem poderá ser fechado um círculo:
Lula e o comissariado petista contribuíram a gerar Jair Bolsonaro que, por sua vez, ajudou a gerar Lula.
____________________ * DAVID CARDOSO JÚNIOR, que protestou, com cueca no rosto, contra restrições contra a Covid-19 está internado | Ancelmo - O Globo
Por Ana Cláudia Guimarães

Lembra-se dede David Cardoso Júnior, ator bolsonarista que saiu por aí com uma cueca no rosto em protesto contra as restriçoes impostas, como o uso de máscaras, em São Pauo para combater a pandemia de Covid-19? Está internado no Hospital Sancta Maggiore com Covid-19. Ele tem 52 anos, uma filha e é filho mais velho do ator David Cardoso. O estado dele, negacionista convicto, é delicado.
David Cardoso Filho atuou em "Zaza", na TV Globo, e foi recordista de venda da "G.Magazine". Posou nu duas vezes para a revista. Ele trabalha desde criança. Fez muitos comerciais, interpretou o princípe do quadro "Boa noite, cinderela, no SBT, é vocalista de uma banda. Além disso, o ator atuou em diversos filmes eróticos feitos pelo pai, tem ainda vários CDs gravados, o mais recente foi um gospel. Conhecido como Davizinho, ele tem pretensões políticas.
____________________ * Crime sem castigo: Bolsonaro e os 500 mil mortos | Bernardo Mello Franco - O Globo

O Brasil atingiu as 500 mil mortes pelo coronavírus. A pandemia devastou o país com a cumplicidade de Jair Bolsonaro. O presidente sabotou as medidas de distanciamento, boicotou a compra de vacinas e segue em cruzada contra o uso de máscaras.
A CPI da Covid já reuniu provas de que a irresponsabilidade foi calculada. O capitão apostou na estratégia da “imunidade de rebanho”. Atuou para acelerar a disseminação da doença, como se isso fosse abreviar o baque na economia e facilitar sua reeleição.
Indiferente à tragédia, ele torra dinheiro público para fazer campanha antecipada. Na sexta, transformou uma visita ao Pará em comício, com transmissão ao vivo na TV estatal.
O presidente tem razões para confiar na impunidade. As instituições se acoelharam diante de suas afrontas. A Câmara já recebeu mais de uma centena de pedidos de impeachment, mas nenhum chegou a sair da gaveta.
“No momento, parece muito provável que Bolsonaro dispute o segundo turno em 2022, e nada provável que ele seja defenestrado do Planalto por seus crimes de responsabilidade”, resume o professor Rafael Mafei, da Faculdade de Direito da USP.
No epílogo de “Como remover um presidente” (Zahar, 378 págs.), ele discute por que o capitão não enfrenta o mesmo processo que derrubou Fernando Collor e Dilma Rosuseff.
Não é por falta de base jurídica. O autor compara a contagem dos crimes de Bolsonaro a um bingo: “a cada tantos dias, pode-se marcar um novo crime na cartela da Lei do Impeachment”. Antes da pandemia, ele já atentava contra o decoro do cargo e a autonomia dos outros Poderes.
Os constantes ataques ao Supremo fazem parte de uma tática de intimidação. “Não são arroubos de temperamento, mas uso estratégico do poder presidencial para atentar contra o Judiciário”, escreve o professor.
“Até aqui, os presidentes preocupavam-se ao menos em dissimular a intenção de agredir a Constituição. Ele, ao contrário, comete crimes de responsabilidade em série, abertamente e de modo ostensivo”, sustenta. “Cada comportamento ultrajante e indecente tira o foco da infração anterior. Ele e seus apoiadores são mestres na arte de usar o crime de hoje como diversionismo para o delito de ontem”.
O professor da USP contesta a tese de que o Congresso não pune Bolsonaro por falta de pressão popular. Ele lembra que Rodrigo Maia segurou dezenas de denúncias em 2020. “É pedir demais que multidões desafiem um vírus perigoso e tomem as ruas para exigir um impeachment que a própria autoridade competente passou o ano jurando que não tiraria da gaveta”, afirma.
Apesar dos riscos, as ruas voltaram a encher ontem em todo o país. Mas agora o impeachment enfrenta outras barreiras. A Câmara está nas mãos de Arthur Lira, que tem recebido milhões de incentivos para blindar o presidente. E a oposição acredita ter mais chances se ele estiver no páreo em 2022.
Pode ser um erro fatal, avisa o autor de “Como Remover um Presidente”. “O plano de vencer Bolsonaro nas urnas subestima a quantidade de incentivos e possibilidades que ele tem de jogar sujo no pleito”, adverte Mafei. É o que sugerem os ataques ao voto eletrônico e aos ministros do TSE.
Comentários
Postar um comentário