BOLSONARO está se ARMANDO. Mais tarde SERÁ TARDE, SE JÁ não for.

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O capitão dobrou os generais. O próximo passo é transformar o Exército em milícia

O passo largo do golpismo - BOLSONARO está se ARMANDO. Mais tarde SERÁ TARDE, SE JÁ não for.

O incrível futuro da internet

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O capitão dobrou os generais. O próximo passo é transformar o Exército em milícia | Malu Gaspar - O Globo

Eduardo Pazuello em ato pró-Bolsonaro no Rio de Janeiro: estatudo militar proibe oficiais da ativa de participar de manifestações políticas

Se havia alguma dúvida sobre a posição do Exército em relação a Jair Bolsonaro, foi eliminada na tarde desta quinta-feira. Com a decisão de não punir o general Eduardo Pazuello por ter subido ao palanque de um ato de apoio ao presidente, no Rio de Janeiro, o comandante da principal força militar do país demonstra que os generais, afinal, não são capazes de conter o capitão. 

Os regulamentos militares são claríssimos ao proibir a participação de oficiais da ativa em "manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político.” Portanto, ao consignar em nota oficial que "não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar por parte do general Pazuello", o comando do Exército passa algumas mensagens à própria tropa e à sociedade brasileira.

Ao Brasil, que não espere do Exército nenhum esforço de proteção à ordem democrática ou ao estado de direito se, do outro lado, forçando os limites, estiver Jair Bolsonaro. Se não foi capaz de contê-lo nem para proteger um pilar básico da força, o respeito a hierarquia e aos códigos militares; se aceitou se humilhar diante do presidente num impasse em que tinha a seu favor uma regra cristalina e inequívoca, não há por que supor que o comandante terá força para fazê-lo quando estiver em jogo alguma questão politicamente difusa, do tipo que se justifica pelas narrativas delirantes de Bolsonaro

À tropa, o recado é claro. Cabos, soldados, majores, tenentes, coronéis, estão todos liberados para fazer reivindicações salariais, contestar as regras do comando ou mandar às favas o regulamento disciplinar do Exército. A partir de agora é lícito pensar que, se Pazuello pode, eles também podem. As pilhas de processos disciplinares que se acumulam nas mesas dos comandantes podem ser arquivadas ou jogadas no lixo, porque a partir de agora existe uma nova regra: quem tem costas quentes pode promover a anarquia, que está tudo bem. 

Era público e notório que Bolsonaro não aceitava nenhuma punição para Pazuello. E bancou a aposta ao nomeá-lo para um cargo no Palácio do Planalto.  

Em reação a esses movimentos, há dias generais de vários segmentos vinham procurando a imprensa, diretamente ou por meio de interlocutores, para dizer que não havia hipótese de Pazuello não ser punido. Podia até ser uma punição branda. O que não podia era acabar tudo em "pizza", como se apostava entre os recrutas. 

Mas as poucas informações que vazaram sobre a reunião do Alto Comando do Exército, na última quarta-feira, já indicavam que o desfecho do caso seria diferente. Quando um integrante do Alto Comando disse à repórter Jussara Soares que a decisão do comandante seria acatada por todos como uma “decisão do Exército, independentemente da posição pessoal de cada um”, estava claro que os generais entendiam que teriam de se dobrar à vontade de Bolsonaro. 

Agora, não vai faltar quem se apresse a enviar a imprensa recados na direção contrária. Vão dizer que Bolsonaro é, em última instância, o comandante máximo das Forças Armadas. Dirão ainda que, se ele decidisse revogar a decisão de Paulo Sérgio, o prejuízo à imagem do Exército seria ainda maior. 

Tudo balela. 

O Exército já desafiou a autoridade de outros presidentes para se preservar, quando achou conveniente. Quando Dilma Rousseff exigiu uma punição para o então general Hamilton Mourão, que em 2015 convocou militares para um "despertar patriótico"  e para a mudança do status quo, o comandante, general Villas Boas, negociou uma espécie de punição branca e transferiu Mourão de um comando militar para um setor burocrático, sem tropas.  Em 2017, quando Mourão novamente desafiou os militares a resolver "o problema político" do país, o presidente da República era Michel Temer, e não houve nenhuma punição.

Um Exército que não obedece a um comando único, em que cada um faz o que quer, já entra na guerra derrotado. Um Exército em que oficiais priorizam interesses políticos e pessoais em detrimento do todo não serve mais ao país. Transforma-se em partido político. E, armado, facilmente transmuta-se em milícia. 

Em última instância, é esse o preocupante sinal enviado ao Brasil pelo desfecho do caso Pazuello. Depois de entrar no governo, o Exército vai se transformando em partido. A continuar assim, o próximo passo é se transformar em milícia. 

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O incrível futuro da internet | Opinião - O Globo

Parece ficção científica, mas por trás da briga entre o estúdio de videogames Epic e a Apple, o primeiro caso antitruste contra as Big Techs nas cortes americanas, está um conceito de como será a internet no futuro. É o metaverso. Não se trata de uma realidade próxima, mas também não é tão distante — coisa para daqui a 15 ou 20 anos. É quando a internet se tornará um universo paralelo em que vamos transitar. Algo quelembra “Jornada nas estrelas: a nova geração”, o filme “Jogador número 1” ou, em sua forma distópica, “Matrix”.

A Epic processa a Apple, pois quer oferecer a quem joga seu principal game, Fortnite, maneiras de pagar por recursos do jogo sem passar pela loja dos iPhones e iPads. Mas esse processo é só um lance numa partida bem mais complexa. A Epic quer se firmar como uma das maiores empresas de tecnologia do mundo alguns lances à frente. E seu caminho é justamente o multiverso.

Chamamos hoje de ciberespaço este ambiente on-line em que nos encontramos cotidianamente. Com frequência, temos já a sensação de que levamos ali uma ou mais vidas paralelas entre fotos das férias com muito sorriso e nenhum mau humor, debates acalorados no Twitter, trocas de e-mail sisudas com o chefe, os Zooms que substituem o bar com os amigos. É como se tivéssemos inúmeras personas. Mas não há a sensação de que a internet é um espaço.

Uma das ideias por trás do que será o 6G é que ele terá a capacidade de operar realidade virtual. Essa rede, que em algum ponto dos anos 2030 começará a ser instalada, permitirá que o Zoom não se dê na frente de um monitor, e sim num ambiente em que, com um amigo em Tóquio, outro no México e um terceiro em Nairóbi, possamos juntos nos sentar num à beira-mar virtual com todo o jeito de ser real. Veremos as pessoas em três dimensões ricas.

A internet parecerá de fato um lugar.

Num ambiente assim, as possibilidades são inúmeras. Não se trata, afinal, apenas da visão 3D. Luvas e outros utensílios acoplados ao corpo podem oferecer tato — e, assim, quando alguém aperta sua mão, o cumprimento é sentido com a pressão dada na origem, até com o calor. Pode ser tão realista quanto quisermos, quanto também permitir que um perna de pau como cá este colunista se saia na partida tão brilhante como Zico. A pornografia ganhará outra dimensão, também o cinema e o teatro poderão se fundir e estaremos ali ao lado de Hamlet quando enfim ele cair morto. O resto é silêncio.

Esse é o conceito do metaverso. Quem o oferecer primeiro vai, naturalmente, fazer muito dinheiro.

Facebook, Google e Microsoft têm investimentos importantes e pesados em realidade virtual. A Apple já explora com suas câmeras de celular as possibilidades de mapear o espaço real em 3D para compreender sua profundidade e encaixar, ali, objetos virtuais para ser vistos, hoje, pela lente do celular. No futuro, com algum outro aparelho, na própria rua.

Uma maneira de enxergar o Fortnite é como um jogo em que comandamos personagens que, a cada rodada, saltam sobre uma ilha para disputar seu território. Armas as mais distintas, fantasias de super-heróis e alienígenas, tudo vale. Mas em Fortnite também se realizam, de tempos em tempos, concertos de música virtuais com artistas reais que estão de fato tocando. Lady Gaga e Ariana Grande estão programadas para tocar na ilha este ano. O rapper Travis Scott tocou para um público que ultrapassou 12 milhões de pessoas.

O metaverso existirá. A Epic trabalha para ser a primeira a oferecê-lo. Para isso, precisa passar por cima das grandes, hoje.

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Por que Bolsonaro chega a “torcer” pela prisão de Pazuello por Renan Calheiros na CPI | Bela Megale - O Globo

O ex-ministro da Saúde e general da ativa Eduardo Pazuello durante depoimento à CPI da Covid, no Senado Federal, na última quarta-feira (19)

A possibilidade de o general Eduardo Pazuello ter a sua prisão decretada pela CPI da Covid durante um novo depoimento não só é calculada por Bolsonaro, como chega a ser quase uma torcida do presidente.

A interlocutores, Bolsonaro já afirmou que uma eventual prisão de Pazuello por ordem do relator Renan Calheiros pode incensar os militares contra o Congresso. Seria um contraponto ao seu governo, que nutre apoio de grande parte das Forças Armadas.

Aliados de primeira ordem de Bolsonaro afirmam ainda que o episódio poderia abrir espaço para ele realizasse um ato mais extremado, com potencial de abalar novamente a harmonia entre os poderes.

Integrantes da alta cúpula das Forças Armadas têm dito que não aceitarão que um general seja desrespeitado pelo relator da CPI, que responde a processos por desvios públicos. Uma nova convocação para Pazuello depor já foi aprovada, mas a data ainda não foi marcada.

Nesta quinta-feira o Exército deu uma prova da ascendência de Bolsonaro sobre a instituição, ao arquivar o procedimento administrativo de Pazuello por ter participado de um ato político com Bolsonaro.

Renan Calheiros disse no Twitter que quer “crer que a decisão do comando do Exército é movimento de retirada, de recuo, não de capitulação” e que tem “certeza de que os comandantes não vão se render na guerra pela democracia”. Segundo senadores da CPI, a “torcida” de Bolsonaro pela prisão de Pazuello não passa de um "blefe". Os parlamentares veem legitimidade e provas suficientes para tomarem qualquer decisão sem serem questionados.

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Decisão deixa Exército em situação inédita de submissão', diz cientista político Carlos Fico

Historiador teme que postura da Força de não punir o general Pazuello dê ‘sinalização perigosa’ também para as Polícias Militares
Mariana Muniz
04/06/2021 - 04:48
Carlos Fico, historiador e professor da UFRJ Foto: Fernando Souza / Fernando Souza
Carlos Fico, historiador e professor da UFRJ Foto: Fernando Souza / Fernando Souza

BRASÍLIA — Especialista em estudos sobre a ditadura militar, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Fico avalia que a decisão do Exército de arquivar o procedimento administrativo que havia sido instaurado contra o ex-ministro e general da ativa Eduardo Pazuello por participar de um ato ao lado do presidente Jair Bolsonaro coloca as Forças Armadas em uma inédita posição de submissão.

O historiador credita a não punição a Pazuello — ocorrida após pressões de Bolsonaro, que nomeou o ex-ministro para um cargo no Palácio do Planalto esta semana — ao envolvimento que ele chama de "promíscuo" das Forças Armadas, sobretudo do Exército, no governo Bolsonaro. Para ele, a decisão dá uma sinalização perigosa não só para os oficiais como para as Polícias Militares, que se sentirão autorizadas a adotar posicionamentos políticos, além de colocar em descrédito o atual comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.

Já houve, na história do Exército, algum outro episódio que se assemelhe à decisão do comando de isentar o general Eduardo Pazuello de qualquer punição por participar do ato político com o presidente Jair Bolsonaro?

Que eu me lembre, não. Embora sempre tenha havido na história brasileira muita manifestação de oficiais, generais, ministros. Já houve, claro, o caso do coronel Bizarria Mamede em 1955, quando ele se manifestou contra a posse do presidente eleito Juscelino Kubistchek. O ministro do Exército tentou puni-lo, mas quem impediu foi o presidente da época, Carlos Luz. Isso foi inclusive o que levou a toda aquela situação crítica que culminou com o afastamento do presidente Carlos Luz, justamente porque o ministro queria punir.

Então foi uma situação oposta à atual?

Sim. É o contrário da situação atual, porque agora se trata do comandante do Exército que está acovardado diante do presidente. Acho que o comandante sai totalmente desautorizado, dando a impressão de um Exército submisso ao Bolsonaro.

A que o senhor credita essa decisão do Exército de arquivar o processo contra o General Pazuello?

As Forças Armadas e o Exército em particular se envolveu de maneira promíscua nesse governo, aceitando os cargos, dando apoio político expresso, como no caso do famoso tuíte do ex-comandante [do Exército Eduardo] Villas Bôas. Então, ficou muito difícil para o Exército se afastar minimamente que fosse desse governo por conta desse envolvimento total, o que inclusive passa em boa medida por boquinhas, cargos, salários. Isso é o que eu acho que explica um pouco esse compromisso político de apoio e esse envolvimento, que eu tenho chamado de promíscuo, é o que explica esse acovardamento do comandante atual que ninguém esperava, diga-se de passagem.

Porque a decisão do comandante causou surpresa, na avaliação do senhor?

Ele sempre foi visto como um homem mais independente, mas agora a gente percebe que ele se submeteu a pressão do Bolsonaro, dando a impressão de que o Exército está submisso. Eu acho que muitos oficiais generais não vão gostar disso. Dessa imagem de um Exército submisso a um presidente que sempre foi visto pelos militares como uma pessoa problemática, como mau militar, acho que isso vai desagradar muitos oficiais generais.

Tendo em vista o arquivamento de um processo disciplinar contra um general que participou de ato político, como fica a questão das Polícias Militares?

A Polícia Militar está agindo como guarda pessoal do presidente, defendendo interesses pessoais do presidente, agindo nesse sentido como guarda pretoriana. Juntar esse posicionamento político, de uma PM que se vê abrigada pelo projeto político tão condenável de um presidente e aliar isso à tradição de violência e despreparo das PM é uma situação muito delicada.

Diante desse cenário delicado que o senhor coloca, como qual é a saída para as instituições democráticas brasileiras? 

Você tem um Exército submisso e uma Polícia Militar agindo como guarda pessoal do presidente, como guarda pretoriana. Isso é uma combinação catastrófica para a História do Brasil. Superar esse problema vai depender de uma ação conjunta de todos os democratas que eu espero que se associem. Então, seria necessário uma ação política muito conjugada mesmo de lideranças que se opem partidária e politicamente mas que sejam democratas e se manifestem com ênfase contra esse absurdo total. A solução desse compósito de problemas vai demandar o apoio coordenado de todas as lideranças democráticas, sem exceção.

Qual é o resultado imediato que a decisão de não punir Pazuello gera para o atual comandante do Exército?

O efeito é uma uma desautorização um descredito, um enfraquecimento do comandante do Exército porque os oficiais generais vão vê-lo como um fraco. eu creio que isso não venha a público de maneira explicita, mas havia certeza de que haveria algum tipo de punição ao Pazuello inclusive sob o argumento de que não havendo a punição o comandante sairia muito enfraquecido. Então, com certeza, alguns oficiais generais verão o comandante como sendo um fraco, uma pessoa que se submeteu ao Bolsonaro.

Como o Exército fica daqui pra frente?

Desde o primeiro momento em que Bolsonaro conseguiu nomear tantos oficiais para diversos cargos, nós vemos um desgaste do Exército. Mas o pior efeito que vejo é a Polícia Militar, enxergar na não punição do Pazuello uma autorização para essas ações de defesa política do presidente. O que eu temo muito é que, além do que pode acontecer daqui até as próximas eleições, em uma eventual derrota do Bolsonaro, nós tenhamos um episódio parecido com o que aconteceu no Capitólio, nos Estados Unidos. A PM vai conter esses manifestantes bolsonaristas? Eu duvido muito que haja isenção e serenidade da PM para agir em favor de manifestações democráticas e contra manifestações subversivas da extrema-direita. E isso é delicado porque nós teremos esse problema daqui a pouco. Eu não sei dizer qual será o papel das Forças Armadas, que têm o dever constitucional de proteger as instituições.

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Bolsonaro esvazia comandante e põe Exército de joelhos | Bernardo Mello Franco - O Globo

O general Paulo Sérgio Nogueira e o presidente Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro seduziu as Forças Armadas com três moedas: prestígio, poder e dinheiro. Em troca, exigiu uma só: a submissão completa ao seu projeto político.

O capitão subiu a rampa com sete ministros militares. O loteamento se espalhou pelos escalões inferiores da máquina pública. Mais de seis mil fardados se penduraram em cargos civis.

Quem não ganhou emprego embolsou vantagens no contracheque. Os integrantes das Forças foram poupados da reforma da Previdência. Além de manter privilégios, arrancaram novos penduricalhos.

No mês passado, uma canetada autorizou militares da reserva a furar o teto constitucional. Alguns generais passarão a receber supersalários acima dos R$ 60 mil por mês.

O presidente nunca escondeu a regra do jogo: para manter as benesses, é preciso se curvar a ele e a seus filhos. No início do governo, o general Santos Cruz tentou contrariar interesses do vereador Carlos Bolsonaro. Puxou a fila dos demitidos antes de completar seis meses no cargo.

Outros oficiais toparam se humilhar para continuar no poder. Foi o caso do general Luiz Eduardo Ramos, chamado de “Maria Fofoca” e “Banana de Pijama” por um colega de gabinete. Ele engoliu os desaforos e foi promovido a chefe da Casa Civil.

Quando o governo começou a dar sinais de derretimento, o capitão elevou o tom das cobranças. Passou a exigir demonstrações públicas de apoio e ameaçou usar tanques contra prefeitos e governadores.

No fim de março, ele criou uma crise militar e derrubou o general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa. Agora esvazia o novo comandante do Exército, que assumiu há pouco mais de dois meses.

Bolsonaro montou uma armadilha para o general Paulo Sérgio Nogueira. Levou o ex-ministro Eduardo Pazuello, que é oficial da ativa, para um comício em seu favor. O comandante ficou emparedado: ou punia o subordinado, arriscando-se a ser demitido, ou fechava os olhos para a indisciplina, abrindo as portas para a anarquia militar.

O general aceitou ficar de joelhos para o capitão. Perdeu a autoridade e ainda pode vir a perder o cargo. Basta que ele contrarie a próxima vontade do chefe.

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Bolsonaro é um agente do caos | Vera Magalhães - O Globo

O general Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro em ato no Rio

"Introduza um pouco de anarquia. Perturbe a ordem vigente e, então, tudo se torna um caos. Eu sou um agente do caos. Ah, e sabe a chave pro caos? O medo."

O discurso, conhecido, é proferido pelo Coringa, o vilão do Batman. Mas poderia ser de Jair Bolsonaro, circunstancialmente presidente do Brasil.

As circunstâncias que o levaram ao Planalto, aliás, já são fruto do caos. Numa situação de normalidade institucional, alguém cuja única obra em vida foi apostar na ofensa e no esculacho a pessoas e corporações jamais poderia ter sido eleito presidente.

Uma vez aboletado no poder, não era de esperar que um agente do caos virasse um promotor da ordem. Quis o destino que essa figura histórica estivesse no comando do país na pandemia de covid-19.

O resultado do investimento no caos está aí. Para ficar só em dois fatos recentes: está na capitulação do Exército Brasileiro ao Coringa que expurgou décadas atrás. E está na capa da revista britânica “The Economist”, que mostra um Cristo Redentor sem oxigênio, retrato acabado da nossa tragédia.

Parecia esculhambação demais até para os padrões bolsonarescos imaginar que Eduardo Pazuello escaparia do episódio em que se postou ao lado de Bolsonaro num caminhão de som sem ao menos uma advertência. Pois aconteceu: Bolsonaro colocou o Alto Comando do Exército na situação de submissão completa a sua explícita pressão, para que o caso claro de indisciplina fosse arquivado.

O precedente, mais um, é de gravidade extrema. Uma vez infiltradas pelos caprichos do capitão reformado do Exército em 1988, depois de um rumoroso processo por indisciplina, que papel desempenharão as Forças Armadas nas eleições de 2022?

É esse o caos atual que Bolsonaro fomenta. E, para esse tipo de plano, como o que o levou a ser julgado pelo Superior Tribunal Militar, ele é ardiloso e obstinado.

Não é de hoje que o presidente testa os limites dos militares. Quando encontra resistências, trata de extirpá-las do caminho. Foi assim com os generais Santos Cruz, Rêgo Barros, Fernando Azevedo e Silva e Edson Pujol, todos caídos, como um dominó de alta patente.

Ainda assim, os generais Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira, respectivamente ministro da Defesa e comandante do Exército, ambos colocados nos postos atuais em substituição a companheiros de arma que não aceitaram vergar diante dos caprichos de Bolsonaro, toparam fazer o jogo.

As consequências potenciais são gravíssimas. A própria reportagem da “Economist” se debruça sobre a insubordinação militar e a infiltração das Forças Armadas pela ideologia política como uma das causas de o Brasil estar sufocado.

O método bolsonarista de bagunçar o coreto das instituições para cooptá-las está descrito pelo semanário britânico em seus pormenores, e as reportagens que compõem o triste retrato do Brasil mostram como esse caos planejado está minando as diversas áreas da vida nacional, do SUS ao meio ambiente.

No discurso que fez na posse do agora defenestrado general Azevedo e Silva na Defesa, lá nos primórdios de seu mandato, Bolsonaro olhou para o general Villas Bôas e lhe agradeceu pelo papel que teve em sua eleição, um segredo que prometeu levar para o túmulo, mas que, no seu método de fomentar o caos, fez questão de vazar ali em voz alta.

Ao coreografar, como o Coringa, cada uma de suas investidas contra o sistema para implodi-lo por dentro, Bolsonaro vai fazendo questão de mostrar a seus seguidores que é capaz de tudo.

Primeiro, alude a uma fraude inexistente numa eleição que venceu.

Depois vai dilatando os controles nas Forças Armadas e nas polícias militares.

Alicia o Ministério Público, fazendo papinha da lista tríplice. 

Mira os órgãos de controle, como Coaf e Tribunal de Contas.

Quando os integrantes de todas essas corporações corrompidas acordarem, SERÁ TARDE DEMAIS.

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Um mês sem Paulo Gustavo: Fábio Porchat, Mônica Martelli e Ingrid Guimarães lembram histórias do amigo

Fracasso de público no teatro, primeiro show da Beyoncé e a jaqueta que espetava ao abraçar... Além de 'causos' hilários, há também desabafo indignado com atraso da vacina contra a Covid-19, que matou o humorista
Maria Fortuna
04/06/2021 - 00:01
Fábio Porchat, Mônica Martelli e Ingrid Guimarães com o amigo Paulo Gustavo Foto: Montagem sobre reproduções do Instagram
Fábio Porchat, Mônica Martelli e Ingrid Guimarães com o amigo Paulo Gustavo Foto: Montagem sobre reproduções do Instagram

Hoje (4) completa um mês que Paulo Gustavo morreu, vítima da Covid-19, e deixou o Brasil aos prantos. Se quem parte permanece vivo na memória dos que ficam, compartilhar histórias ajuda no luto. É o que três amigos do humorista fazem nesta página. No clima da frase de Paulo, ‘rir é um ato de resistência’, Fábio Porchat e Ingrid Guimarães contam ‘causos’ hilários. Já Mônica Martelli faz um desabafo movido pela indignação.

De fracasso a uma boa lição

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Fábio Porchat: “Em 2005, eu e Paulo fizemos uma peça chamada ‘Infraturas’. Foi nosso primeiro espetáculo após nos formamos na CAL. Terças e quartas, no Candido Mendes, dois atores desconhecidos... Foi um fracasso retumbante! Maravilhoso para a gente, mas, de público, um desespero. Um dia choveu muito. Deu nove horas, a gente pronto, e quantas pessoas? Zero, não veio ninguém. Ficamos chateados, nos vestimos e, quando estávamos saindo do teatro, chegaram cinco pessoas completamente ensopadas. Tinham vindo de Campo Grande. Fazer comédia para pouca gente já é uma dor na alma, e eles ensopados, no meio do caos... Eu e Paulo nos olhamos e falamos: ‘Vamos fazer para vocês, sentem aqui na frente’. Demos toalhas para se secarem e fizemos. Foi ótimo, eles riram bastante. E a gente ria muito enquanto fazia a peça. Quando a luz apagava, o Paulo me falava ‘Não acredito que a gente está fazendo para cinco pessoas!’. Eu: ‘Nem eu, mas eles vieram de Campo Grande e estão ensopados’. E Paulo: ‘Só penso nisso’. Foi uma boa lição. Teatro é isso: não importa se tem 10 mil pessoas ou cinco, é o nosso público e a gente tem que fazer”.

O primeiro show da Beyoncé

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Ingrid Guimarães: “Fizemos uma das nossas primeiras viagens internacionais juntos há uns 14 anos, para Nova York. Paulo estava começando a ganhar dinheiro, e a gente saiu comprando coisas sem nenhuma utilidade. Me convenceu a comprar desde colher de pau a lugar para colocar bombril, um negócio de vodka de mentira todo de brilho... Era o início dos personagens dele, compramos muitas perucas também. Na hora em que a gente foi embarcar, nossa mala deu acima do peso. Aí passamos por aquela situação péssima de ficar tirando coisa da mala no meio do aeroporto. Uma hora, ele pegou o folder de ‘Minha mãe é uma peça’, no Candido Mendes, que ainda não era aquele estouro absoluto, e disse: ‘Mostra pro cara que a gente é famoso no Brasil, diz que essas coisas são para o figurino’. Claro que o cara falou 'Dane-se quem são vocês'. Nessa mesma viagem, fomos a um show da Beyoncé, o primeiro da vida dele. Pagou caríssimo para ficar perto dela. Uma hora, ela disse: ‘Levanta a mão quem faz aniversário hoje’. Ele não entendia bem inglês, e eu disse: ‘Levanta a mão, finge que é seu aniversário’. Ele levantou, e ela disse ‘Happy birthday the pink one’, porque ele estava de camisa rosa. Foi a maior emoção. Ali, começou o amor pela Beyoncé”.

A jaqueta que espetava e a indignação

Paulo Gustavo e Mônica Martelli Foto: reprodução
Paulo Gustavo e Mônica Martelli Foto: reprodução

A imagem de Mônica Martelli com os olhos marejados e um cartaz em homenagem a Paulo Gustavo no ato contra o governo Bolsonaro no último sábado (29) se espalhou pelas redes sociais. Em pleno luto pela perda do amigo, a atriz fez questão de ir à Avenida Paulista manifestar sua revolta pela forma como que o governo vem tratando a pandemia ("Paulo Gustavo foi traído junto com quase 500 mil brasileiros com a omissão das políticas sanitárias do governo federal").

Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Mônica diz que a CPI da Pandemia "comprova o que já sabíamos ("não consigo parar de pensar em quantas vidas podiam ter sido salvas"), conta como vem encarando o luto e diz que estar perto dos filhos do humorista é como tê-lo perto de si. A atriz também conta a história da jaqueta de espetos que herdou do amigo ("um dia, ele me abraçou com ela e me espetou toda. Reclamei. Aí, ele deixou comigo para eu trocar os espetos por tachinhas. Mas não deu tempo...")

Leia a entrevista completa aqui.

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'Paulo Gustavo foi traído, junto com quase 500 mil brasileiros', diz Mônica Martelli

Um mês após a morte do humorista por Covid-19, atriz fala da saudade do amigo, do luto e faz desabafo indignado sobre a conduta do governo Bolsonaro na pandemia: 'A CPI está comprovando o que a gente já sabia'
Maria Fortuna
04/06/2021 - 00:01
Mônica Martelli: 'O sentimento de indignação é o que me move' Foto: Vitor Lisboa
Mônica Martelli: 'O sentimento de indignação é o que me move' Foto: Vitor Lisboa

A imagem de Mônica Martelli com os olhos marejados segurando cartaz em homenagem a Paulo Gustavo no ato contra o governo Bolsonaro, sábado passado (29), emocionou muita gente e se espalhou pelas redes. Em luto pela perda do amigo, que morreu de Covid-19 há um mês, a atriz conta que foi à Avenida Paulista movida pela revolta e que está acompanhando de perto a CPI da Pandemia.

Qual a importância de ter ido à manifestação?

Foi muito importante para mostrar que o país é nosso, que as ruas e a luta são nossas. Para mostrar a nossa vontade de mudar. O que me motivou a ir para a rua foi a causa que envolve a morte do Paulo Gustavo, um jovem de 42 anos, sem comorbidade, que tinha muito medo de pegar Covid e respeitava todas as determinações sanitárias, cientificamente comprovadas, e o distanciamento.

Paulo Gustavo foi traído junto com quase 500 mil brasileiros com a omissão das políticas sanitárias do governo federal. Me senti cumprindo uma missão, de levar o que representou a vida do Paulo Gustavo, o amor, para o povo. Senti que estava participando de uma marca da virada e acho que estava certa.

Na hora que eu abri a faixa, o povo em volta começou a aplaudir, eu comecei a chorar. Pensei: "Meu Deus, estou aqui em nome do meu amigo que morreru de uma doença para a qual já existe vacina. Bastavam duas doses!". O Brasil poderia ter sido o primeiro país a começar a vacinar, a gente tinha milhões de vacina no Butantan esperando...

Está acompanhando a CPI? Ela ganha outro sentido para você, que teve uma perda pessoal dessa magnitude? Pensa: 'Se essas vacinas tivessem chegado mais cedo..."?

Não consigo parar de pensar nisso, em quantas vidas poderiam ter sido salvas. A CPI está comprovando o que a gente já sabia. Penso na minha dor, vem a indignação, mas junto com a esperança de que, através dessa constatação da CPI, possa haver, realmente, uma mudança. O Brasil está assistindo um mar de horrores.

Um mês depois da morte do Paulo Gustavo, como você está?

A caminhada não é linear e é de muitos sentimentos. Há momentos de boas lembranças e de tristeza profunda, de chorar pela perda, por não ter mais aquela genialidade ao meu lado. O Paulo Gustavo era que nem criança, brincava, se divertia o dia inteiro e sempre sendo genial. Ele nunca perdeu o prazer da descoberta, e isso era lindo.

O que eu sinto mais saudade é daquele amigo que dividia a vida comigo. Porque sei que a obra dele está aí e vai ficar para todo mundo. Mas o amigo me ligava o tempo eu não tenho mais. Ele interferia na minha vida de diversas formas. Toda quarta-feira, a gente fazia Facetime para escolher a roupa do "Saia Justa". Semana passada escolhi uma toda roxa e já imaginei ele falando: "Amor, o que é isso, halloween?".

Ele afetou tanto a minha vida que vai me influenciar para sempre. Tive o privilégio de ter essa relação íntima com ele, um encontro que vai me alimentar até o fim. A gente está falando de um homem com a personalidade forte do Paulo Gustavo, que afetou todo mundo que passou pela vida dele. E também a de todos os brasileiros, com a sua arte. É um vazio gigantesco.

Já dá para ir ficando amiga da saudade ou o sentimento de revolta pela perda ainda é maior?

O sentimento de dor e indignação é o que me comanda hoje. Ainda não consigo lembrar dele sem dor. Faz um mês e ainda me dói porque todos os dias a gente se depara com perplexidades. Acordo e digo: "Não é possível!".

Não estou me cobrando sair do lugar da tristeza. Acho cruel a sociedade impor o tempo inteiro para a gente esse positivismo. A gente não é alegre nem otimista o tempo todo, tem que dar espaço para viver o luto. O melhor dos mundos vai ser conseguir lembrar dele sem dor, aí vou estar no caminho da cura do luto, da aceitação. Mas estou longe disso ainda.

Qual é a importância do riso em meio ao processo do luto Está conseguindo riri?

O riso faz parte do luto em alguns momentos. Vem quando um amigo lembra algo engraçado. Quiano o riso vem, é acolhido e valorizado. Ele te eleva, te põe em outro patamar, te cura. Mas não estou buscando "ah, tenho que rir para sair do luto".

Foram poucos os momentos em que ri desde o que aconteceu com o Paulo (Mônica tem dificuldade em dizer que o amigo morreu). Acho que não dá para forçar o riso, esse lugar da alegria. Quando ele vem, é acolhido e valorizado, mas não estou buscando 'ah, tenho que rir para sair do luto'.

Os amigos estão preparando alguma homenagem?

O que queremos ainda não podemos fazer por causa da aglomeração. É uma grande homenagem no teatro, onde ele se fez, onde colocou a arte dele para fora e apresentou para várias famílias conservadoras que família é amor e aceitação. Ele fez isso com a Dona Herminia e com o casamento com o Thales. Mudou muitas famílias através do riso e da arte.

As pessoas permanecem vivas através da memória dos que ficaram. Pode contar uma história boa com o Paulo?

A gente chegou a escrever metade de uma peça para estrear no fim da pandemia. Seria a nossa primeira vez no palco juntos. Tem uma cena em que ele treinava como seria a conversa quando fose conhecer a Beyoncé, que era o foco da vida dele. Eu dizia: "Paulo tem que ser em três etapas. Na primeira, você joga uma conversa aleatória, tipo "como está o tempo"; na segunda, uma coisa mais cool; e, na terceira, aprofunda com algo mais inteligente para ela sentir interesse e se agarrar em você para sempre. E ele: "Amor, como faço isso em inglês, se tenho dificuldade até em português?". Paulo começou fazer inglês só para conhecer a Beyoncé.

Outro dia, ele me ligou do celular do Thales (marido do Paulo Gustavo) dizendo: "Amor, me salva! Acabei de entrar numa live e sabe quantas pessoas têm? Eu!". Era o filho de uma amiga dele.. Queria que eu entrasse na live para ele sair...

Ele também adorava me imitar e eu amava ser imitada por aquele gênio. Ele pegava umas particularidades...

Tem encontrado o Thales e as crianças?

Viramos uma família. Eles passaram o meu aniversário comigo (no últimdo dia 17). Vieram ficar comigo em São Paulo e foi muito importante. A única forma de atravessar esse aniversário, não seria possível se não fosse na companhia deles. Estamos dividindo a mesma dor, a gente chora quando está com vontade, ri, se fala todos os dias, vai se apoiando, segurando a onda um do outro. Foi muito forte estar com Romeu e Gael, era como se o Paulo Gustavo estivesse comigo. Ele era muito apaixonado por esses filhos. Antes de ser intubado, no hospital ele disse: "Tento nem pensar nas crianças de tanta saudade que estou deles".

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Juliana Paes causa polêmica ao defender médica Nise Yamagushi e diz: 'Não sou bolsominion'

Atriz gravou vídeo rebatendo criticas de 'colega' que preferiu não identificar
O Globo
03/06/2021 - 21:35
Juliana Paes se defendeu de críticas em vídeo Foto: Reprodução Instagram
Juliana Paes se defendeu de críticas em vídeo Foto: Reprodução Instagram

Após ser criticada nas redes sociais por defender a médica Nise Yamagushi, que participou da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 no Senado na última terça-feira, a atriz Juliana Paes publicou em seu Instagram um vídeo para uma "colega" de profissão que a teria "agredido com palavas".

A polêmica começou quando Juliana Paes criticou o tratamento que senadores deram à médica durante a sessão da CPI. 

Após uma onda de comentários em sua página,  ela publicou um vídeo afirmando que não era “bolsominion” ou de direita, mas que “NÃO apoia os DELÍRIOS COMUNISTAS da extrema-esquerda”.

“Eu não admito ser colocada em nenhum desses dois polos. Não quero contribuir para essa polarização doentia. Não nesse momento obscuro onde o ódio reverbera mais. Ou você é isso ou é aquilo. Isso não existe. Somos múltiplos”, afirmou a atriz no vídeo que já tem mais de 5 milhões de vizualizações.

Segundo ela, não é por que alguém não milita nas redes, ou fala de política na internet que necessariamente está assumindo uma posição.

Colegas saem em defesa

“Quero respeito, acolhimento a todas as causas minoritárias. Mas quero que isso aconteça independentemente de ideologia política”, defende.

Se dirigindo a uma atriz que ela não idenfitica, Juliana Paes afirma ter decidido se posicionar por “ter sido acusada de ser covarde, desonesta e criminosa”.

“Cara colega, apesar de eu ter sido agredida por suas palavras caluniosas, de ter sido invadida pela sua mensagem de noite, de ter sido acusada de ser covarde, desonesta, criminosa, eu me dispus a te responder por todas as cenas que eu me emocionei do seu lado”, diz a atriz no vídeo, sem citar nomes.

Outras colegas da atriz sairam em sua defesa e publicaram comentários na postagem. "Sim somos todos livres pra sentir, pensar, escolher e ser o que quisermos", escreveu Danni Suzuki.

"Parabéns Ju! Belo posicionamento! Todo meu respeito!", publicou Marcos Palmeira.

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Luana, musa da CPI, lava nossa alma | Ruth de Aquino - O Globo

A médica infectologista Luana Araújo, na CPI da Covid: lealdade aos pacientes, à Ciência e ao Brasil

Mais Luanas e menos Nises e Mayras, esse é o Brasil que merecemos. “Não é porque um vírus morre no micro-ondas que eu vou pedir para o paciente entrar no forno duas vezes por dia”. Tem humor ferino a mineira Luana Araújo, médica especialista em doenças infecciosas pela UFRJ. Assim ela detonou, na CPI no Senado, os tratamentos experimentais para Covid, com antivirais in vitro

Luana fez mestrado nos EUA em Saúde Pública. Fala bem inglês, alemão e até o português, em desuso no Planalto. Canta, toca piano. No Senado, sapateou em cima dos negacionistas fake com o salto alto do conhecimento e da palavra. A discussão sobre a cloroquina, ela chamou de “delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente”. O tratamento precoce mereceu mais uma ironia: “É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular”. Fiquei encantada. 

Precoce não é o tratamento com as caixinhas de cloroquina e ivermectina que Mayra, Nise, Pazuello e Bolsonaro coagiram médicos a receitar. Precoce é Luana, que aprendeu a ler e escrever sozinha com dois anos e aos quinze foi estudar música na Áustria, já com ensino médio concluído. Em seu perfil do Instagram, canta em inglês, tocando violão. Aí entendo como Luana soube projetar a voz, esgrimindo as sílabas com clareza em seu depoimento. Suas palavras soaram como música para os meus ouvidos. 

Luana é carismática e bonita. Não me venham acusar de machista por constatar e apreciar. Com “a política do apropriado”, ficou feio falar das belas. O irlandês maldito Oscar Wilde dizia que “a beleza é superior à genialidade porque não precisa de comentário; ela é um dos fatos do mundo, não pode ser interrogada, é soberana por direito divino”. E sabemos bem que ele não se referia especificamente às mulheres.

Espero que a infectologista vencedora de bolsa de prestígio para a Universidade Johns Hopkins conviva bem com os elogios e a fama repentina. Importante é seu percurso como médica, suas palestras sobre doenças infecciosas, como voluntária, para crianças e adolescentes. Ela mora em Nova Lima (MG) com o marido, fotógrafo oficial do time do Cruzeiro. Virou a musa da CPI pelo que pensa e fala. Por sua firmeza, sua inteligência. Não pela aparência.

Luana podia ser tudo, menos secretária extraordinária de enfrentamento à Covid no governo Bolsonaro. Ainda levaram 10 dias para perceber que ela era uma médica séria, a favor de máscara, distanciamento social, vacinas. Luana já tinha dito que o Brasil, no combate à pandemia, estava “na vanguarda da estupidez mundial” e que o tratamento precoce das Nises e Mayras não passava de “neocurandeirismo”. No Senado, ao ser confrontada com um vídeo do presidente contra máscaras, reagiu: “Como médica, é muito ruim ver isso. Isso dói”.

Tenha cuidado com os efeitos colaterais dos holofotes, Luana. Já surgiram perfis fake sobre você. Os bolsonaristas não perdoarão a goleada acachapante que você impôs a quem despreza a vida. São um rebanho imune à razão, pronto a se imolar em nome do capitão. Aplaudem mentiras cínicas e debochadas. Aglomeram-se. Desdenham das vacinas. Acreditam, tolos, na tese impossível e criminosa da imunidade de rebanho. 

“Mais de 320 dias. Esse seria o tempo em que teríamos de ficar quietos para respeitar um minuto de silêncio para cada uma das mais de 460 mil mortes por Covid-19 no Brasil. Só de ontem para hoje, é como se mais de 12 aviões comerciais grandes, lotados tivessem caído em nosso território. Essa é a razão pela qual eu estou aqui hoje. Para mim, isso é intolerável e qualquer pessoa precisa fazer o que estiver a seu alcance para impedir essa hecatombe”.

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Medo de assombração | Merval Pereira - O Globo

Ao pedir que o ministro da Defesa Fernando Azevedo Silva se demitisse, o presidente Bolsonaro se queixou de que não tinha respaldo político por parte de seus ministros militares. Ouviu dele que sua saída não representaria uma mudança de atitude dos militares, que não poderiam se vincular a um projeto político. Ledo engano.

Quarta-feira, por volta das 10 da manhã, o presidente Bolsonaro saiu do Planalto e foi, fora da agenda, ao Ministério da Defesa. O general Braga Neto o esperava na porta principal. Subiram. A conversa durou cerca meia hora. Bolsonaro saiu pela garagem, no sub solo, e voltou pelos fundos ao Palácio. Estava dado o recado ao Alto Comando do Exército, reunido naquele mesmo dia para avaliar a crise gerada pela presença de um General de divisão da ativa, ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, em um palanque político ao lado do presidente.

A decisão de ontem do Comandante do Exército, General Paulo Sérgio Nogueira tem uma motivação puramente política, sem se importar com um dos pilares das forças militares, que é serem instituições de Estado, e não de um governo.

A quebra da disciplina e hierarquia só aconteceu porque os militares estão convencidos de que apenas Bolsonaro pode derrotar o PT e Lula na eleição do ano que vem, e quiseram dar respaldo político a ele. Assim como quando o então comandante do Exército, General Vilas Boas, soltou uma nota claramente de pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) para que não aprovasse um habeas corpus que poderia ter soltado Lula.

Bolsonaro convenceu os militares, e o núcleo duro de seus seguidores, de que a volta do PT ao poder, que hoje as pesquisas de opinião detectam como provável, é um perigo comunista que tem que ser evitado. Por isso está criando um clima antecipadamente de possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas, para ter um pretexto para comandar um golpe caso seja derrotado por Lula.

A decisão do Comandante do Exército, General Paulo Sérgio Nogueira, respaldado pelo Alto Comando do Exército, representa um golpe de Bolsonaro. Não há mais dúvidas, agora, de que Bolsonaro age como age devido ao apoio do "seu" Exército. Bolsonaro deu uma demonstração de força ao submeter o Exército aos seus desígnios. Resultado de uma visão política medíocre dos militares, que trocam a soberania do Exército pela submissão a um líder político de direita, populista e autoritário, para evitar um líder populista de esquerda, Lula, e do PT, que consideram totalitário.

Nessas condições, se Bolsonaro se reeleger em 2022, se sentirá respaldado, pelo voto popular e pelo apoio dos militares, a seguir com sua escalada em direção a um governo de cunho personalista e ditatorial.

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300 mulheres contra o Império Britânico: filme de diretora palestina relembra levante feminista acontecido em 1929

'O protesto silencioso: Jerusalém 1929' está na programação da 2ª Mostra de Cinema Árabe Feminino, realizada online até 27 de junho
Renata Izaal
04/06/2021 - 06:00
Mahasen Nasser-Eldin, cineasta palestina cujos filmes estão na Mostra de Cinema Árabe Feminino Foto: Divulgação
Mahasen Nasser-Eldin, cineasta palestina cujos filmes estão na Mostra de Cinema Árabe Feminino Foto: Divulgação

Na manhã de 19 de maio, quando esta entrevista foi feita, a cineasta, pesquisadora e educadora palestina Mahasen Nasser-Eldin, 34 anos, trocou a caminhada pelo carro para levar o filho à escola. Andar pelas ruas de Jerusalém Oriental, onde ela vive, se tornou um risco desde o início do mês passado, quando a justiça israelense decidiu que famílias palestinas deveriam dar lugar a colonos judeus no bairro de Sheikh Jarrah, desencadeando a onda de protestos que levou ao mais recente conflito entre o grupo extremista Hamas e as forças armadas de Israel.

Ao usar o carro para circular pela Jerusalém Oriental sob ocupação, Mahasen repetiu a decisão tomada por um grupo de 300 mulheres palestinas em 1929, quando a região ainda estava sob mandato do Império Britânico. De carro, elas organizaram um protesto em que pediam o fim da colonização e a criação de um Estado nacional Palestino — episódio que é narrado no curta "O protesto silencioso: Jerusalém 1929", dirigido pela própria Mahasen e um dos filmes exibidos na 2ª Mostra de Cinema Árabe Feminino, que o Centro Cultural Banco do Brasil realiza online até 27 de junho.

— O meu trabalho se concentra em criar uma ponte entre a Palestina antes e depois da nakba (palavra árabe que significa "catástrofe" e que é usada pelos palestinos para se referirem ao êxodo de mais de 700 mil árabes que deixaram suas casas ou foram expulsos delas nas guerras de 1947/1948 e na criação do Estado de Israel) e olhar para a História com uma lente que ecoe hoje. Fazer este filme foi para mim uma reflexão sobre os nossos tempos, sobre o movimento político de mulheres e a luta feminista — conta Mahasen, em entrevista por Skype.

O curta, o sétimo dirigido por ela, relembra o ativismo dessas mulheres, que se organizaram para ocupar o espaço público, mas foram impedidas pela autoridade colonial de caminhar em protesto. Elas então percorreram Jerusalém Oriental de carro. No filme, a diretora refaz o trajeto da carreata, ao mesmo tempo em que tenta encontrar as casas onde as mulheres se reuniam há mais de 90 anos. A maioria desses imóveis está hoje nas mãos de israelenses.

O filme nasceu das pesquisas feitas por Mahasen em arquivos históricos. Como a Palestina ainda não é um Estado nacional, o material que conta a história da região antes de 1948 está dividido entre arquivos britânicos, franceses e israelenses. A diretora conta que tem havido um esforço coletivo ("vamos acrescentando uns aos trabalhos dos outros, de geração em geração") para mapear e identificar textos, fotos e documentos. Parte do material usado no filme vem de registros de espionagem realizada por franceses e britânicos coletados em seis anos de pesquisas:

— O material que pesquisei me levou a essas mulheres que criaram um movimento em tempos desafiadores. Eram educadas, moravam nas cidades, tinham recursos, acesso aos jornais para criar e mobilizar. Mas isso não quer dizer que nas áreas rurais não havia mulheres envolvidas na luta pela Palestina; a informação sobre elas é rara, o que nos coloca um desafio: como olhar a História hoje sem negligenciar e marginalizar o papel de algumas mulheres? — questiona Mahasen, para quem essas manifestantes de 1929 estavam expandindo o feminismo. — Talvez elas não se definissem como feministas, como nós fazemos hoje, mas desenharam um espaço para si na sociedade.

Para Mahasen,"O protesto silencioso: Jerusalém 1929" é tanto uma homenagem a essas mulheres como um resgate histórico que pode ser útil hoje. Os créditos finais trazem os nomes de cada uma delas, mas também a certeza de que há uma conexão entre os esforços das mulheres palestinas antes e depois de 1948. Como acontece no feminismo latino-americano, a geração atual não quer apenas o acesso ao espaço público, mas quer transformar esse espaço em um ambiente acolhedor para as mulheres:

— Antes, as mulheres palestinas diziam que o Estado viria primeiro e ele nos daria os nossos direitos. Dessa experiência delas, nós, na Palestina e ao redor do mundo, questionamos esse Estado e sua estrutura patriarcal: o que ele é, quem o lidera, que estrutura ele apóia e por quem é apoiado? — diz Mahasen, para quem outras demandas deverão ser integradas à luta feminista. — O feminismo palestino não é local. Ele inclui também a diáspora e todas essas vozes que dizem que o político e a libertação são parte da luta das mulheres.

Diante dos últimos conflitos, que atingiram a Faixa de Gaza mais seriamente, mas foram snetidos em todo o território palestino, ela é crítica às lideranças atuais:

— Não temos um Estado, não temos nem mesmo autonomia e nosso governo é controlado pela ocupação. De qualquer forma, a ideia de Estado que eles têm em mente é arcaica. O que nós mulheres estamos dizendo hoje é o quanto essa autoridade é disfuncional.

Mãe de um menino e professora de Cinema na Universidade Dar al-Kalima, em Belém, ela diz que é um desafio lidar com os jovens nos territórios ocupados. Há medo e ao mesmo tempo a necessidade de criar alguma sensação de normalidade para que a vida possa prosseguir. Muitas vezes, ela se vê em uma encruzilhada:

— As crianças sentem medo, então como abordar isso? Como ensiná-las a ficarem firmes por seus direitos? Como criar uma criança com dignidade, uma criança que conheça sua História, seu papel na comunidade, e fazer isso em meio à ocupação? É difícil. Não quer dizer que não é possível, mas é um grande desafio, especialmente em tempos como esses.

E, em tempos como esses, como manter-se sã e firme?

— Minha mãe cuida de mim, é claro. Mas também os meus amigos. É preciso criar uma rede de apoio, ter por perto pessoas que pensam parecido, vivem parecido e que acreditam nas mesmas ideias. Felizmente, eu tenho muitos alunos jovens interessados na arte como uma forma de questionamento. Isso também me conforta.

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Massacre de Tulsa: Como uma mentira de jornal foi estopim para matança de negros nos EUA | Blog do Acervo - O Globo

Homem em meio a ruínas de Greenwood após Massacre de Tulsa, em 1921

Os ponteiros marcavam algo em torno de 16h de uma segunda-feira quando o engraxate Dick Rowland, de 19 anos, foi ao Edifício Drexel para usar o único banheiro permitido para negros nos arredores de onde ele trabalhava, no centro da cidade americana de Tulsa. Quando ele entrou no elevador, a ascensorista Sarah Page, uma adolescente branca de 17 anos, não se sabe por que motivo exatamente, deu um grito e atraiu a atenção de outros funcionários no prédio. Em uma questão de segundos, Rowland se tornara suspeito de tentar molestar a menina.

Ocorrida no dia 30 de maio de 1921, a cena deu início a uma série de acontecimentos que, menos de 48 horas depois, desembocaram no tenebroso episódio conhecido como o Massacre de Tulsa. Cerca de 300 pessoas negras foram mortas por turbas de homens brancos armados que invadiram o distrito de Greenwood, em Tulsa, Oklahoma, entre a noite de 31 de maio e a madrugada de 1° de junho, há cem anos. Capítulo emblemático da história dos Estados Unidos, a chacina vem sendo relembrada em séries de TV como "Watchmen" e "Lovecraft country", que mostram como aquela mortandade está, até hoje, enraizada na sociedade americana.

Ruínas do distrito de Greenwood após o Massacre de Tulsa, em 1921

Mesmo após cem anos da confusão no Edifício Drexel, ninguém sabe precisar o que houve. Historiadores dizem que Rowland pode ter tropeçado e, ao tentar evitar uma queda, segurou-se no braço de Sarah, que berrou assustada. A polícia foi chamada, mas a suposta vítima sequer prestou queixa contra o rapaz. Segundo relatos, eles até se conheciam, já que o engraxate trabalhava na área e, provavelmente, usava o banheiro do prédio com frequência. Até então, tudo parecia um mal-entendido típico de uma sociedade racista que culpa o jovem negro em situações como aquela.

Na manhã seguinte, dois policiais detiveram Rowland na Avenida Greenwood e levaram-no à delegacia. Na tarde do mesmo dia, o diário "Tulsa Tribune", de propriedade de um homem branco, publicou um texto na primeira página sob o título "Negro preso por atacar garota em elevador". O jornal relatou o episódio da véspera de forma mentirosa (e racista), afirmando que o engraxate molestara a menina, "arranhando" seu rosto e  "rasgando" suas roupas. A matéria  descrevia Rowland como um criminoso, e Sarah como uma órfã que trabalhava para pagar os estudos. Testemunhos dão conta de que o "Tulsa Tribune" também publicou um editorial sob o título "Lichamento de negro hoje", mas não há registro físico deste artigo.

Família dentro de um carro após o Massacre de Tulsa, em 1921

"Assim que o 'Tulsa Tribune' chegou às ruas, em cerca de meia hora, havia conversas sobre linchamento nas ruas de Tulsa", disse em entrevista à emissora "NBC News" o historiador Scott Ellsworth, autor do recém-lançado livro "The ground breaking: Uma cidade americana em sua busca por Justiça", sobre as sequelas ainda vivas em Tulsa  cem anos após o massacre. "O que aconteceu depois daquilo foi uma multidão de licnhamento e aí as coisas começaram a acontecer muito rapidamente".

Em uma entrevista ao jornal "The Tulsa Daily World" publicada em 2 de junho de 1921, dia seguinte ao massacre, o chefe de polícia James Patton afirmou que a polícia estava conduzindo a investigação de forma cautelosa. Segundo ele, Sarah Page disse apenas que Dick Rowland agarrara seu braço e fugira quando ela gritou de susto. De acordo com Patton, não fosse a versão enganosa dos fatos publicada pelo "Tulsa Tribune", provavelmente, todo o episódio de extrema violência que se sucedeu no distrito de Greenwood não teria ocorrido.

Análises reconhecem a influência do jornal nos acontecimentos, mas afirmam que a tensão racial era um barril de pólvora pronto para explodir. Oklahoma é um estado no Sul dos EUA, região de histórica segregação racial. Naquela época,  vigoravam leis de discriminação contra descendentes de africanos em diversos espaços públicos. O distrito de Greenwood era conhecido como a "Wall Street negra", endereço de pessoas bem sucedidas de pele negra, como advogados, dentistas e comerciantes. Muitos moradores da "parte branca" de Tulsa se ressentiam desse êxito.

Entrada de um acampamento de refugiados após o Massacre de Tulsa, em 1921

O clima esquentou no início da noite, quando homens brancos se aglomeraram na porta do tribunal de Tulsa, onde Rowland seria levado à presença de um juiz. Três deles entraram no prédio e chegaram a pedir às autoridades que o engraxate fosse entregue ao grupo. Queriam matá-lo. Como não se podia confiar na competência (e nem na boa vontade) da polícia para proteger o engraxate, por volta das 21h30, dezenas de homens negros, muitos deles veteranos da Primeira Guerra Mundial, armados com rifles e revólveres, chegaram ao tribunal.

A partir de então, a situação ficou fora de controle. Por volta das 23h, havia cerca de 2 mil homens brancos, boa parte deles também armados, na porta do tribunal. Não demorou até que uma briga entre os dois grupos desse início a uma troca de tiros. Os homens negros, em minoria, retiraram-se na direção do distrito de Greenwood, mas foram perseguidos pela turba de homens brancos, que começaram a saquear os estabelecimentos pelo caminho e a disparar também contra pessoas negras que nem estavam envolvidas naquela confusão. Foi um caos.

Fumaça de casas de famílias negras incendiadas no Massacre de Tulsa, em 1921

A madrugada de 1º de junho viu a brutalidade se espalhar por horas. Residências e prédios comerciais foram queimados. Parte dos moradores revidaram os ataques com tiros, mas os agressores eram maioria. Mais de 30 quarteirões foram incendiados. Após aquela noite, muitas famílias deixaram Tulsa para nunca mais voltar. Segundo Scott Ellsworth, é preciso continuar pesquisando para se chegar a um total de mortos, mas todas as estimativas informam que o número de negros que perderam a vida é muitas vezes maior do que o de brancos.

Depois dos distúrbios, enquanto os agressores ainda se gabavam de sua participação no massacre, as autoridades de Tulsa se esforçaram para apagar seus registros, como fotos e outros documentos. O episódio nunca foi totalmente esquecido, mas, quando a série "Watchmen" foi ao ar, em 2019, muitos americanos confessaram jamais ter ouvido falar na tragédia. Mesmo entre as comunidades negras há desconhecimento sobre o assunto, já que muitas famílias, traumatizadas, sentiram dificuldade em falar daquilo para seus filhos e netos.

Ruínas do distrito de Greenwood após o Massacre de Tulsa, em 1921
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Decisão de não punir Pazuello é vitória de Bolsonaro e da indisciplina | Lauro Jardim - O Globo

Por Lauro Jardim

Eduardo Pazuello em ato pró-Bolsonaro no Rio de Janeiro: estatudo militar proibe oficiais da ativa de participar de manifestações políticas

A decisão do comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira, de não punir Eduardo Pazuello por sua participação em uma manifestação política, contrariando o que diz de modo inequívoco o regulamento disciplinar da força, é uma vitória não só de Jair Bolsonaro — mas da indisciplina no Exército.

Significa que o Alto Comando não teve autoridade para cumprir um regulamento pelo qual deveria zelar. Não teve coragem de enfrentar um Bolsonaro que dia a dia mostra querer fazer da instituição o "seu" Exército. 

Na semana passada, Bolsonaro disse de forma acintosa em sua live semanal que o ato em que Pazuello subiu num palanque não fora político. Foi afrontoso ao Exército e à sociedade. É uma afirmação que não se sustenta. E é contraditória com o que ele próprio afirmou naquela transmissão sobre o evento: "Foi um movimento pela liberdade, pela democracia, e apoio ao presidente". 

Na terça-feira, Bolsonaro botou Pazuello para despachar dentro do Planalto, num cargo de assessoria. E fez questão de nomeá-lo enquanto o comandante do Exército decidia sobre a punição do ex-ministro da Saúde. O recado estava dado por Bolsonaro. 

Desde o ato das motocicletas todos os generais da ativa e da reserva foram unânimes em cravar que Pazuello teria que ser punido. Os adjetivos sobre o que ocorreu variavam de "grave" a "inaceitável".

Havia um certo consenso de que a pena não deveria ser de prisão — uma advertência bastaria. Seja para não criar uma crise com o presidente da República, seja por que o importante, diziam eles, era que todos os integrantes das Forças Armadas soubessem que o regulamento existe para ser seguido.

O ex-ministro da Defesa Raul Jungmann no mesmo dia do ato no Rio de Janeiro foi cristalino ao registrar que a punição a Pazuello era obrigatória "por que se ultrapassar desse limite qualquer sargento, tenente ou capitão poderá fazer o mesmo. Isso representa a implosão da hierarquia e da disciplina militares que até aqui permaneceram incólumes a tudo isso".

As Forças Armadas, portanto, abrem perigosamente as portas dos quartéis a outras manifestações. De que tipo e até aonde podem chegar, não se sabe. Como o Exército vai controlar seus integrantes a partir de agora? Se algum general da ativa se manifestar contra o presidente da República ficará também livre, leve e solto? Alguém acredita nisso? 

A decisão covarde tomada pelo Exército abre espaço para que Bolsonaro, o "mau militar" na definição precisa e concisa dada por Ernesto Geisel, siga avançando sobre um dos pilares das Forças Armadas — o respeito à hierarquia e à disciplina. E siga também avançando sobre outras instituições, seja elas quais forem. O capitão aplicou ao Exército um dos seus objetivos explícitos, a destruição das estruturas. Com a palavra o próprio Bolsonaro, num discurso do ano passado:"Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer". 

O curto comunicado de 44 palavras expedido pelo comando do Exército foi também uma péssima notícia que o Brasil recebeu a apenas quinze meses de uma eleição em que Bolsonaro, desde já, bota em dúvidas o resultado das urnas.

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Militares próximos ao Bolsonaro usam regimento para explicar decisão de não punir Pazuello | Malu Gaspar - O Globo

O presidente Jair Bolsonaro discursa para oficiais do Exército em visita à Amazônia

O mesmo regimento que proíbe os oficiais da ativa de participar de manifestações públicas e político-partidárias está sendo usado para justificar, entre oficiais próximos ao presidente da República, a decisão do comandante do Exército de não punir Pazuello por ter subido ao palanque de um ato a favor de Jair Bolsonaro. 

Oficiais ligados ao Palácio do Planalto já antecipavam, no início da semana, a ideia de que não havia que se pensar em enquadrar a atitude de Pazuello como transgressão disciplinar. Isso porque, se o estatuto dos militares diz que "são proibidas quaisquer manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político", o regimento disciplinar abre uma brecha. 

Ao listar as transgressões, afirma que é vedado ao oficial da ativa manifestar-se, publicamente "sem que esteja autorizado a respeito de assuntos de natureza político-partidária". Segundo essa interpretação do regimento, Pazuello subiu ao palanque autorizado por Bolsonaro, que segundo a Constituição é o chefe supremo das Forças Armadas.

Por isso, entre os militares do círculo de assessores do presidente, há quem diga que o comandante do Exército não tinha razões sequer para abrir uma apuração disciplinar. Segundo essa visão, mesmo que houvesse reação do público, o general Paulo Sérgio teria evitado criar a expectativa da punição. O que é controverso, uma vez que houve forte movimentação de bastidores por parte de generais favoráveis a punir Pazuello. Isso demonstra que o generalato estava, no mínimo, dividido. 

Na reunião do Alto Comando da última quarta-feira, inclusive, vários dos generais de quatro estrelas expressaram a preocupação de que livrar Pazuello de qualquer sanção poderia enviar à tropa um sinal de abertura para manifestações políticas e a quebra de hierarquia. 

Ainda assim, na interpretação dos militares do círculo de assessores do presidente, a escolha do comandante Paulo Sérgio teve como objetivo evitar uma crise maior, uma vez que Bolsonaro ameaçava revogar uma eventual punição. Nesse caso, não restaria outra opção ao comandante Paulo Sérgio senão se demitir – como, aliás, fizeram o então ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e os três comandantes das Forças, em março passado, ao deixar seus cargos. Em sua carta de demissão, ele disse ter preservado as instituições de Estado. 

Desta vez, como se trataria de um caso sem precedentes, já que nenhum comandante do Exército nunca teve uma punição disciplinar revogada por um presidente da República, as interpretações das regras militares servem mais para que se tenha uma ideia de a quantas anda o debate interno a respeito do caso nas Forças Armadas. 

Entre oficiais da reserva e da ativa com quem conversei ontem, esse entendimento dos códigos é visto como esdrúxulo. Eles dizem que o regimento é claro, em seu artigo 61, ao dizer que cabe ao comandante do Exército revogar qualquer punição a oficiais (e não ao presidente da República), e que esse ato teria de ser revestido de excepcionalidade. "Isso é uma ginástica retórica para justificar o indefensável", disse um general da reserva.

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Bolsonaro é um agente do caos | Vera Magalhães - O Globo

O general Eduardo Pazuello e o presidente Jair Bolsonaro em ato no Rio

"Introduza um pouco de anarquia. Perturbe a ordem vigente e, então, tudo se torna um caos. Eu sou um agente do caos. Ah, e sabe a chave pro caos? O medo."

O discurso, conhecido, é proferido pelo Coringa, o vilão do Batman. Mas poderia ser de Jair Bolsonaro, circunstancialmente presidente do Brasil.

As circunstâncias que o levaram ao Planalto, aliás, já são fruto do caos. Numa situação de normalidade institucional, alguém cuja única obra em vida foi apostar na ofensa e no esculacho a pessoas e corporações jamais poderia ter sido eleito presidente.

Uma vez aboletado no poder, não era de esperar que um agente do caos virasse um promotor da ordem. Quis o destino que essa figura histórica estivesse no comando do país na pandemia de covid-19.

O resultado do investimento no caos está aí. Para ficar só em dois fatos recentes: está na capitulação do Exército Brasileiro ao Coringa que expurgou décadas atrás. E está na capa da revista britânica “The Economist”, que mostra um Cristo Redentor sem oxigênio, retrato acabado da nossa tragédia.

Parecia esculhambação demais até para os padrões bolsonarescos imaginar que Eduardo Pazuello escaparia do episódio em que se postou ao lado de Bolsonaro num caminhão de som sem ao menos uma advertência. Pois aconteceu: Bolsonaro colocou o Alto Comando do Exército na situação de submissão completa a sua explícita pressão, para que o caso claro de indisciplina fosse arquivado.

O precedente, mais um, é de gravidade extrema. Uma vez infiltradas pelos caprichos do capitão reformado do Exército em 1988, depois de um rumoroso processo por indisciplina, que papel desempenharão as Forças Armadas nas eleições de 2022?

É esse o caos atual que Bolsonaro fomenta. E, para esse tipo de plano, como o que o levou a ser julgado pelo Superior Tribunal Militar, ele é ardiloso e obstinado.

Não é de hoje que o presidente testa os limites dos militares. Quando encontra resistências, trata de extirpá-las do caminho. Foi assim com os generais Santos Cruz, Rêgo Barros, Fernando Azevedo e Silva e Edson Pujol, todos caídos, como um dominó de alta patente.

Ainda assim, os generais Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira, respectivamente ministro da Defesa e comandante do Exército, ambos colocados nos postos atuais em substituição a companheiros de arma que não aceitaram vergar diante dos caprichos de Bolsonaro, toparam fazer o jogo.

As consequências potenciais são gravíssimas. A própria reportagem da “Economist” se debruça sobre a insubordinação militar e a infiltração das Forças Armadas pela ideologia política como uma das causas de o Brasil estar sufocado.

O método bolsonarista de bagunçar o coreto das instituições para cooptá-las está descrito pelo semanário britânico em seus pormenores, e as reportagens que compõem o triste retrato do Brasil mostram como esse caos planejado está minando as diversas áreas da vida nacional, do SUS ao meio ambiente.

No discurso que fez na posse do agora defenestrado general Azevedo e Silva na Defesa, lá nos primórdios de seu mandato, Bolsonaro olhou para o general Villas Bôas e lhe agradeceu pelo papel que teve em sua eleição, um segredo que prometeu levar para o túmulo, mas que, no seu método de fomentar o caos, fez questão de vazar ali em voz alta.

Ao coreografar, como o Coringa, cada uma de suas investidas contra o sistema para implodi-lo por dentro, Bolsonaro vai fazendo questão de mostrar a seus seguidores que é capaz de tudo.

Primeiro, alude a uma fraude inexistente numa eleição que venceu. Depois vai dilatando os controles nas Forças Armadas e nas polícias militares. Alicia o Ministério Público, fazendo papinha da lista tríplice. Mira os órgãos de controle, como Coaf e Tribunal de Contas.

Quando os integrantes de todas essas corporações corrompidas acordarem, será tarde demais.

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Trump fecha blog criado há um mês por falta de audiência

Conselheiros afirmam que a plataforma era provisória e que ex-presidente voltará às redes
Annie Karni, do New York Times
03/06/2021 - 15:17 / Atualizado em 03/06/2021 - 19:02
Donald J. Trump ainda está banido de redes sociai como Twitter e Facebook Foto: MANDEL NGAN / AFP
Donald J. Trump ainda está banido de redes sociai como Twitter e Facebook Foto: MANDEL NGAN / AFP

NOVA YORK - O ex-presidente dos EUA Donald Trump decidiu sair por completo da internet. Ainda banido do Twitter e do Facebook, e lutando para encontrar um meio de influenciar a cobertura midiática desde que deixou a Presidência, Trump decidiu, na quarta-feira, fechar o blog que ele havia começado há um mês, chamado From the Desk of Donald J. Trump (Da mesa de Donald J. Trump).

Trump ficou frustrado depois de ouvir de amigos que o site estava com a audiência baixa, fazendo com que ele parecesse pequeno e irrelevante, de acordo com uma pessoa a par das razões da decisão.

O site, que custou alguns milhares de dólares para ser feito e foi desenvolvido para o ex-presidente por uma empresa chefiada pelo seu antigo gerente de campanha, Brad Parscale, foi criado para ser um espaço on-line para apoiadores terem acesso a comunicados de Trump e se comunicarem com ele.

“Em tempos de silêncio e mentiras, um sinal de liberdade aparece”, dizia um vídeo que, no mês passado, apresentava a plataforma: “Um lugar para falar livremente e com segurança. Direto da mesa de Donald J. Trump”.

Em maio, após o Washington Post noticiar que o blog estava atraindo praticamente nenhum leitor, Trump minimizou o propósito do site, afirmando que era uma alternativa provisória até que ele pensasse no que viria em sequência.

“O blog é para ser um meio temporário de tornar meus pensamentos e ideias públicos sem o turbilhão de notícias falsas, mas o site não é uma ‘plataforma’”, ele disse em um comunicado. “É só uma forma de comunicação até que eu decida qual será o futuro na escolha ou criação de uma plataforma."

Algumas pessoas em seu pequeno grupo de conselheiros disseram, na quarta-feira, que eles estavam frustrados com a decisão de fechar a página on-line. Outros tentaram passar uma percepção mais positiva da questão.

Um dos assessores, Jason Miller, disse no Twitter que a decisão de fechar o blog foi a primeira etapa para Trump ingressar em outra plataforma de mídia social.

“Sim, na verdade é isso”, ele escreveu quando perguntado se a movimentação significava que o ex-presidente poderia voltar à internet de outra maneira. “Fiquem ligados!”, completou.

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Especialista diz que Elizabeth II acha comportamento de Harry e Meghan 'deplorável'

Casal quer estar no jubileu de platina da rainha no ano que vem e já causa dor de cabeça
O Globo
03/06/2021 - 07:43 / Atualizado em 03/06/2021 - 08:08
A rainha Eizabeth II, Meghan Markle e o príncipe Harry Foto: Tolga Akmen/AFP
A rainha Eizabeth II, Meghan Markle e o príncipe Harry Foto: Tolga Akmen/AFP

Parece que a rainha Elizabeth II não está nem um pouco satisfeita com o comportamento de Meghan Markle e do príncipe Harry. A situação começou a ficar mais complicada, segundo o jornal britânico "The Mirror", em março, logo após a entrevista do casal com Oprah Winfrey. A última gota teria sido a participação do filho do príncipe Charles na série "The me you can't see", na Apple TV.

De acordo com Richard Fitzwilliams, especialista em realeza, as declarações de Harry e Meghan vão "prejudicar a família". "As atividades dos Sussex, quando falam, têm sido muito, muito prejudiciais. Não há dúvidas sobre isso. A rainha deve ter achado o jeito como eles lidaram com as coisas deplorável", diz ele. "Ela percebeu como eles eram infelizes, mas falar da maneira que fizeram é uma coisa totalmente diferente."

O casal não chegou a criticar abertamente a monarca, mas ainda assim Elizabeth ficou "profundamente chateada" com as críticas "muito pessoais" de Harry à família real. No entanto, Charles "está ansioso por uma reconciliação".

Mesmo fora da realeza, Meghan e Harry querem estar no jubileu de platina da rainha no ano que vem, o que já vem causando dor de cabeça para a família. "Harry quer estar lá. Já está causando dor de cabeça e vai ser muito estranho."

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Opinião: Entendendo Bolsonaro - Exército pavimenta caminho para um Estado bolsochavista

23.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro discursa em um comício no Rio de Janeiro, Brasil, em 23 de maio de 2021, ao lado do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Manifestação foi marcada pelo descumprimento do isolamento social e outras medidas de combate à covid-19. - ANDRE BORGES / AFP
23.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro discursa em um comício no Rio de Janeiro, Brasil, em 23 de maio de 2021, ao lado do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Manifestação foi marcada pelo descumprimento do isolamento social e outras medidas de combate à covid-19. Imagem: ANDRE BORGES / AFP
Entendendo Bolsonaro

Colunista do UOL

03/06/2021 17h57

* Vinícius Rodrigues Vieira

Ao evitar punir o general Eduardo Pazuello por participação em ato político ao lado do presidente Jair Bolsonaro, o Comando do Exército abre as portas em definitivo para que o atual mandatário do país transforme nossa força terrestre numa extensão de seu poder pessoal. A sigla EB não faz mais jus ao significado original — Exército Brasileiro. A partir de 3 de junho de 2021, deve ser entendido como Exército Bolsonarista, tal e qual uma milícia privada.

Simbólico que, no mesmo dia, em Rio das Pedras — área dominada por milicianos de verdade —, um prédio tenha caído, ceifando a vida de uma menina e seu pai. É a trágica — embora perfeita — metáfora de um país em escombros, dominado por foras-da-lei e agentes do Estado que, em vez de defender a Constituição, dão as costas para ela e o povo que a promulgou em 1988 contra a desordem econômica e social legada pelos patifes de 1964: lembrem-se que a criminalidade começou a crescer já nos anos 1970, década em que as sementes para a expansão da desigualdade foram semeadas junto com o milagre econômico brasileiro.

O Comandante do Exército, general Paulo Sérgio, deixa suas digitais numa das páginas mais horrendas da história da instituição. Encorajados pela leniência com a qual Pazuello foi tratado, cabos e soldados — inclusive das polícias militares — não se furtarão a fazer campanha para Bolsonaro em 2022, que, assim, tem tudo para nos enfiar goela abaixo uma contestação armada do resultado das próximas eleições presidenciais. Nesse cenário, os praças mais simpáticos ao bolsonarismo vão atuar como guarda pretoriana de um presidente que, tudo indica, fará o diabo para se manter no poder.

Não duvido se membros do Alto Comando recusarem-se a engolir tamanha covardia a seco. Trata-se de uma afronta não apenas a valores como hierarquia e disciplina — principíos fundamentais de qualquer força profissional. Parafraseando o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estamos vivendo um bolsochavismo de fato.

Ao perdoar Pazuello, o general Paulo Sérgio também deu as costas aos anseios manifestados ontem (2) nas grandes cidades, em que panelas ecoaram enquanto Bolsonaro pintava em pronunciamento no rádio e na TV um país inexistente, em que crescimento econômico vale mais que a vida de quase 500 mil cidadãos.

Parafraseando Churchill em relação à política de apaziguamento dos britânicos para com os nazistas antes da Segunda Guerra Mundial, o Exército escolheu a desonra para evitar um conflito imediato com Bolsonaro. Terá a instituição de aguentar o fardo da parvoíce sem, no entanto, fugir da guerra. Se não hoje, ela virá em 2022, quando o presidente se agarrar à cadeira presidencial sob a proteção de neomilicianos travestidos de soldados de Caxias.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na FGV

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Análise: Reinaldo Azevedo - A cumplicidade perniciosa Bolsonaro-militares se torna humilhação pública

Pazuello ao lado de Bolsonaro em palanque golpista e a capa da revista Economist, que expressa o entendimento de boa parte do mundo sobre o Brasil - Reprodução/Reprodução
Pazuello ao lado de Bolsonaro em palanque golpista e a capa da revista Economist, que expressa o entendimento de boa parte do mundo sobre o Brasil Imagem: Reprodução/Reprodução
Reinaldo Azevedo

Colunista do UOL

03/06/2021 23h06

O Exército escreve uma das páginas mais vergonhosas de sua história ao garantir a impunidade a Eduardo Pazuello. De fato, não é exatamente verdade que ele tenha participado de uma manifestação político-partidária naquele 23 de maio, no Rio. Foi mais do que isso: um general de divisão, da ativa, compareceu a um ato explicitamente golpista. Sobre o carro de som, o presidente Jair Bolsonaro disse aos presentes que aquele era o verdadeiro exército, mais importante do que os Três Poderes da República.

AGRAVANTE

Cai comandante da PM de PE. Quem deu a ordem para os bandidos de farda?

Não é a primeira vez que Pazuello faz isso. Atenção! No dia 24 de maio do ano passado — as datas não são coincidentes por um miserável dia —, ele já havia feito a mesma coisa. Estava como interino na Saúde havia apenas oito dias, substituindo Nelson Teich, que pedira demissão no dia 15 daquele mês. Sim, o general participou altivamente de uma manifestação em favor do fechamento do Congresso e do Supremo.

Ali, vá lá, arrumou-se a desculpa de que estava, afinal, no ministério. O ministro interino teria ido ao ato, não o general. Bem, que fosse um oficial da ativa exercendo um cargo no primeiro escalão já era, por si, excrescente. Mas muita gente preferiu olhar para o outro lado. Eu o critiquei severamente aqui. Desta feita, não dá para dourar a pílula. Quando subiu no palanque, Pazuello não era dublê de militar da ativa e assessor presidencial. Era apenas um general.

A Lava Jato destruiu o meio ambiente político, com o auxílio luxuoso de setores idiotizados da imprensa, e se abriu um imenso clarão na floresta institucional. Quando o capitão se tornou uma alternativa potencialmente viável, dada a devastação, setores da força-tarefa imaginaram que seriam eles a garantir a estabilidade a Bolsonaro e a constituir, vamos dizer assim, a nova burocracia dirigente. Ele, no entanto, tinha outros planos.

PARTIDO MILITAR
O esteio de sua pré-candidatura, note-se, já era constituído de militares da reserva. Os fardados, ainda que reformados, resolveram que era chegada a hora de restaurar a ordem, a honra e a dignidade... A velha conversa de sempre. E embarcaram na aventura. O resultado é a degradação que se vê aí: e, como é óbvio, ela se dá tanto no padrão de governança do Estado como, nem poderia ser diferente, na qualidade da democracia. Se a politização das Forças Armadas descer a ladeira das patentes, quem vai contê-la?

Isso é tudo o que quer Bolsonaro. Fiquem atentos aos atos de indisciplina e a ações violentas e autoritárias de PMs Brasil afora. As respectivas corporações se tornaram alvos e palcos de proselitismo político fascistóide e golpista. O Partido Militar considera que civis não sabem governar porque seriam tolerantes com o malfeito. Quando o Exército deixa de punir Pazuello, estão a dizer: "Não ousem punir um dos nossos; somos, antes de mais nada, militares. E, se preciso, vocês — os civis — terão de obedecer na marra".

QUEM SUBORDINA QUEM
A história é conhecida. Havia os militares que alimentavam a ilusão de que teriam o controle do capitão destemperado. Esqueceram-se de consultar a sua ficha quando soldado. Lá encontrariam as anotações sobre sua tendência à insubordinação, sua ambição e sua falta de raciocínio lógico. Esqueceram-se também da força que tem a caneta de um presidente.

Tornaram-se, sim, o esteio do regime. Formam o Partido Militar, que está no poder, mas o comando passou para as mãos e, sobretudo, para a mente de Jair Bolsonaro, que já fez gato e sapato de pelo menos nove generais da reserva. Ocorre que as coisas não poderiam parar por aí.

Desde o seu primeiro ano de governo — antes, portanto, da pandemia —, o celerado faz ameaças explícitas à Constituição, espalhando a desordem país afora e usando a condição de comandante-em-chefe das Forças Armadas para incentivar a indisciplina também nos quarteis. Hoje, não há dúvida, o Alto Comando tem menos controle da tropa do que tinha antes dessa perversa sociedade. Os militares graduados da reserva e da ativa acharam que teriam em Bolsonaro o seu instrumento de intervenção na política. Aconteceu, obviamente, o contrário. Os que imaginaram manipular são hoje manipulados.

Mais: Bolsonaro quer as Forças Armadas como cúmplices dos crimes que comete contra a ordem democrática. E, por enquanto, estão logrando seu intento.

PERCEPÇÃO ESTRANGEIRA
O Brasil voltou a ser capa da revista britânica "The Economist". E os militares ocupam um lugar destacado na leitura que faz a revista. Em 2009, o Cristo Redentor era um foguete que decolava. Em 2013, o dito-cujo estava em trajetória descendente. Agora, está preso a um tubo de oxigênio. Sem ar.

O título do editorial é eloquente: "A década sombria do Brasil"

O texto afirma que Jair Bolsonaro quer "destruir as instituições em vez de reformá-las". Entre as falhas que considera mais graves, está um valor caro aos militares: teria, por exemplo, esmagado todas as tentativas de uma exploração sustentável da Amazônia.

As Forças Armadas teriam se juntado a ele para ver avançar algumas de suas pautas. Não conseguiram e ainda assistem à degradação da própria reputação. Quem há de negar? Pazuello, o pivô do novo desastre, teria transformado o Ministério da Saúde numa espécie de "boca de fumo da hidroxicloroquina".

Para a revista, depois de uma era de progresso, a mobilidade social no país estancou. E, com Bolsonaro no poder, será impossível mudar de rumo.

Vejam aí a miséria a que nos conduziu a destruição da política.

CONCLUO
Sim, há descontentamento no Alto Comando das Três Forças. E daí? Triunfou a vontade do capitão arruaceiro, que foi expelido do Exército para, depois, como presidente da República, macular a sua honra. É o resultado de uma cumplicidade perniciosa que se torna humilhação pública.

E se enganam os militares que acham que Bolsonaro vai parar. Exigirá, a cada dia, novas provas de fidelidade a seu desvario,

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Conselho de Medicina critica tratamento dado a médicos em CPI: "Humilhação"

A médica oncologista Nise Yamaguchi, em depoimento à CPI da Covid   - Agência Senado
A médica oncologista Nise Yamaguchi, em depoimento à CPI da Covid Imagem: Agência Senado

Do UOL, em São Paulo

04/06/2021 00h00

O CFM (Conselho Federal de Medicina) criticou hoje o tratamento dado a médicos durante depoimentos à CPI da Covid, instaurada para investigar ações do governo federal em meio à pandemia. A reação da entidade ocorre dois dias depois de depoimento da médica oncologista Nise Yamaguchi, conhecida por defender o uso da hidroxicloroquina contra a covid-19. Ela foi interrompida inúmeras vezes por parlamentares, que não a deixavam concluir o raciocínio.

Na nota, publicada em seu site, o CFM diz que profissionais buscaram o órgão para manifestar sua insatisfação com a postura de membros da CPI.

"Estou totalmente de acordo com escolas abertas", diz ministro da Educação

"A classe lamenta que esses médicos chamados a depor estejam sendo submetidos a situações de constrangimento e humilhação. Ao comparecer na CPI da Pandemia, qualquer depoente ou testemunha tem garantidos seus direitos constitucionais, não sendo admissíveis ataques à sua honra e dignidade, por meio de afirmações vexatórias", diz trecho do comunicado.

"O que tem sido exibido em rede nacional configura situação inaceitável e incoerente com o clima esperado em um ambiente onde as discussões devem se pautar pela transparência e idoneidade. Em lugar disso, testemunha-se situações que desmoralizam os médicos e as médicas", acrescenta.

Na carta, o CFM pede ainda ao presidente do senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que "tome as providências que considerar necessárias".

Nos bastidores, comenta-se que os senadores da CPI são mais duros com profissionais de saúde que adotam posturas consideradas governistas, como a defesa da cloroquina e do tratamento precoce.

Convidada para depor à comissão depois de seu nome ter sido citado pelo presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, Nise Yamaguchi, de 62 anos, foi interrompida inúmeras vezes por parlamentares ao longo das cerca de oito horas de depoimento, o que gerou revolta em políticos da base governista, dentre eles, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Bolsonaro.

Nesta quinta, Bolsonaro comentou o assunto durante a realização de sua live semanal e, novamente, defendeu Nise Yamaguchi.

"Fizeram uma opção equivocada no passado, e tão perdendo uma opção de ser útil. Ficam lá três marmanjos, Renan Calheiros, Phd em inquéritos no supremo, o Omar Aziz que conhece tudo de saúde no seu estado, acusado de um monte de coisa, o outro lá, aquela pessoa lá do Amapá, outro senador, fica maltratando pessoas que falam o que eles não gostam de ouvir, inclusive duas mulheres. Nise Yamaguchi e Mayra, duas excepcionais profissionais, entendem do assunto, que defendem o tratamento imediato."

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Painel S.A.: Bilionário Carlos Wizard diz que Nise Yamaguchi agiu como Jesus Cristo na CPI

Empresário também foi alvo de requerimento para depor

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São Paulo

O empresário Carlos Wizard foi às redes sociais nesta quinta (3) com uma mensagem de apoio à médica Nise Yamaguchi, que prestou depoimento à CPI da Covid na terça (1) para falar da proximidade dela com Jair Bolsonaro e da bula da cloroquina.

"Expresso o mais profundo respeito, admiração e carinho à dra. Nise Yamaguchi que lamentavelmente essa semana foi agredida por aqueles que deveriam respeitá-la e agradecer seu esforço incansável de salvar vidas", escreveu o empresário.

Ela foi interrompida por senadores e acusada de não ter conhecimento para discutir o tratamento da doença, o que levantou reações nas redes sociais.

Para Wizard, Nise "agiu como Jesus Cristo agiria se estivesse em seu lugar".

"Ela manteve a calma, deu a outra face e não agrediu seus ofensores", escreveu o empresário na internet. Wizard também foi alvo de requerimento para depor na CPI. O senador Alessandro Vieira ainda protocolou um pedido para quebrar sigilos do bilionário, mas não foi apreciado.

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Carlos Wizard também foi alvo de requerimento para falar na CPI da Covid - Folhapress

Na mensagem publicada na rede social, ao lado de uma foto com a médica, o empresário também diz que "os homens e mulheres de bem do Brasil tomaram as dores dessa sra, que é um anjo de Deus na terra" e convida seus seguidores de rede social a enviarem mensagem de apoio à médica.

​"Cada cidadão tem o direito de discordar com uma orientação médica, mas isso não lhe dá o direito de ultrajar, insultar e desacatar qualquer profissional de saúde desse país", escreve Wizard, que chegou a ser nomeado para assumir um cargo no Ministério da Saúde em 2020, mas saiu em meio a uma polêmica sobre a contagem das vítimas da doença.

com Mariana Grazini Andressa Motter

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Opinião: Leonardo Sakamoto - 'Meu Exército' livra Pazuello e dá poder a militar e policial bolsonaristas

Pazuello no ato de apoio a Bolsonaro: Exército passou pano para o general e o presidente - Reuters
Pazuello no ato de apoio a Bolsonaro: Exército passou pano para o general e o presidente Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

03/06/2021 17h23

"É simples assim: um manda, outro obedece" (PAZUELLO, 2020)

O Exército disse, nesta quinta (3), que não viu transgressão disciplinar na transgressão disciplinar do general Eduardo Pazuello. Acatou, assim, a justificativa do ex-ministro da Saúde, que disse que não participou de um ato político após participar de um ato político de apoio ao presidente da República.

Ainda devem vir à tona mais informações de como foi a negociação de Bolsonaro e do ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, junto ao comandante do Exército, general Paulo Sérgio de Oliveira, para cozinhar a vergonhosa passada de pano. Independente do cálculo feito, a mensagem que isso transmite aos quartéis militares e policiais é que o Brasil vive a Festa da Fruta. Tudo pode porque o Jair garante.

Se esse for o novo normal, teremos que parar de criticar o presidente quando ele se referir à força como "Meu Exército". Afinal, quadros importantes da tropa realmente estão à sua disposição para necessidades políticas, familiares e eleitorais. A absolvição é, nesse sentido, anuência para a politização das Forças Armadas para apoio a Bolsonaro.

Da mesma forma, não haverá crítica possível quando ele começar a usar "Minha Polícia" ao tratar das forças de segurança nos estados. Se até o comando do Exército libera que regras sejam quebradas em nome do presidente, por que PMs não poderiam fazer o mesmo?

Lideranças bolsonaristas insuflaram forças policiais no motim de agentes da Polícia Militar do Ceará, em fevereiro de 2020, e no caso do policial que entrou em surto psicótico e atirou nos próprios colegas antes de ser morto em Salvador (BA), em março deste ano. A marcha da "guarda pretoriana bolsonarista" sobre a Constituição se fez sentir nos últimos dias, quando policiais de Pernambuco cegaram pessoas durante um protesto contra o presidente. E quando um tenente da PM de Goiás prendeu um professor com base na Lei de Segurança Nacional por ter chamado o presidente de genocida.

Governadores afastam os envolvidos, como ocorreu em Pernambuco e Goiás. Mas a questão não é de meia dúzia de maçãs podres, já se tornou estrutural.

Como escrevi aqui nesta quarta (2), a aderência ao bolsonarismo entre soldados, cabos, sargentos e subtenentes nos quartéis da PM é significativa em todo o país, mais até do que entre as Forças Armadas. Pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em agosto passado, apontou que 41% dos praças da PM participavam de grupos bolsonaristas nas redes e aplicativos de mensagens, 25% defendiam ideias radicais e 12% defendiam o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional.

Diante desse cenário, esperava-se que o Exército demonstrasse independência para ajudar a traçar uma linha no chão. Preferiu nos lembrar que não teria como fazer isso uma vez que é sócio da tragédia sanitária e social em curso, com representantes em posição de poder e bons salários no Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios, em estatais.

Além do mais, o ex-ministro da Saúde não foi o primeiro. Se um Comandante do Exército faz pressão indevida ao Supremo Tribunal Federal, o que impede um general subir num palanque de um presidente? Sim, a situação só chegou a este ponto, com Pazuello participando de micareta política ao lado de Jair e o Exército fazendo a egípcia, porque a porteira já estava aberta. Um dos casos mais notórios foi do seu xará, o general Eduardo Villas Bôas

Às vésperas do julgamento do habeas corpus solicitado pela defesa do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal, em 3 de abril de 2018, ele afirmou em sua conta no Twitter: "Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais". Sua declaração foi vista (e sentida) como uma chantagem à corte. O HC acabou negado e Lula passou 580 dias na cadeia.

O problema é que, uma vez aberta a porteira, é difícil de fechá-la. E a democracia, tão maltratada, não resiste a um estouro de boiada. Principalmente se vier de forças policiais, fiéis a Jair, questionando o resultado eleitoral no ano que vem.

O caso mostra que o sistemático ataque do bolsonarismo às instituições, que já atuou para sequestrar Polícia Federal, Coaf, Receita Federal, Ibama, ICMBio, Procuradoria-Geral da República, foi bem-sucedido ao substituir Fernando Azevedo e Silva por Braga Netto, no comando do Ministério da Defesa, no dia 29 de março. Ele vem garantindo o que o chefe queria.

E os efeitos da anarquia no Exército são sentidos muito além da política. Com um presidente que apoia a letalidade das forças de segurança, não importa se limites são impostos por superiores, pela lei, por governadores. A percepção da impunidade ajuda a apertar o gatilho primeiro e só perguntar depois. Militares e policiais entram numa lógica miliciana, de fazer justiça com as próprias mãos.

Em abril de 2019, o músico Evaldo dos Santos foi morto por militares, em Guadalupe, Zona Norte do Rio de Janeiro. Estava indo com a família para um chá de bebê. Foram confundidos com bandidos. Luciano Macedo, catador de recicláveis que passava por lá, também foi morto ao tentar salvar a família de Evaldo. Ao todo, foram 257 tiros disparados por nove militares, dos quais 83 atingiram o carro.

Em sua defesa, os envolvidos transferiram a culpa para as vítimas. Como sempre faz o presidente.

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Quem curte o 'estilo Luana Araújo' de combate às 'fake news'?

A médica infectologista Luana Araújo durante depoimento na CPI da Covid, no Senado - Jefferson Rudy/Jefferson Rudy/Ag?ncia Senado
A médica infectologista Luana Araújo durante depoimento na CPI da Covid, no Senado Imagem: Jefferson Rudy/Jefferson Rudy/Ag?ncia Senado
Cristina Tardáguila

Colunista do UOL

03/06/2021 04h00

depoimento dado pela infectologista Luana Araújo à CPI da Pandemia na última quarta-feira (2) não foi apenas um reluzente espetáculo da ciência frente ao perigoso curandeirismo que tomou conta do Brasil. 

Foi, sobretudo, prova de que é possível combater a desinformação pandêmica com tranquilidade, educação e - é claro - técnica. O resultado tende a ser avassalador.

Quem luta contra as notícias falsas de forma profissional sabe - e costuma repetir - que o confronto direto com aqueles que disseminam falsidades (sobretudo os que o fazem por falta de conhecimento) não leva a lugar nenhum.

Pazuello já disse que Bolsonaro manda, ele 'obedece'

O método mais eficiente para contornar um boato passa necessariamente por três pontos: produzir uma comunicação simples e direta (seja em formato de texto, vídeo ou áudio), ser absolutamente transparente sobre as fontes de informação utilizadas e estar seguro sobre a reputação delas. 

Sem isso, a conversa vira uma guerra de narrativas em que indivíduos duelam apenas para ver quem fala mais alto.

Durante o dia em que passou no Senado, no entanto, a infectologista que poderia ter sido secretária de enfrentamento à Covid dentro do Ministério da Saúde mostrou que também entende de comunicação. Em ao menos três oportunidades, acertou em cheio na forma de combater a desinformação. Araújo aplicou metáforas visuais extremamente ilustrativas, apontou distorções estatísticas com um linguajar simples e ainda pediu reflexão sobre a reputação das fontes utilizadas pelos senadores.

A metáfora do micro-ondas

Ainda na parte da manhã, ao fazer uma defesa do ineficaz "kit covid", o senador Marcos Rogério (DEM-RO) sugeriu que algumas das drogas contidas na lista disseminada por um grupo de médicos e alguns órgãos do poder público teriam tido efeito em experimentos realizados com o novo coronavirus in vitro.

Araújo então tomou a palavra e, em tom didático, expôs a fragilidade dessa evidência. 

Como se caminhasse de mãos dadas com a audiência que a observava, afirmou, sem despregar os olhos do senador, o seguinte:

"Quando a gente vai transferir essa potência antiviral in vitro para a complexidade dos organismos multicelulares e organizados, a gente tem menos de 10% de sucesso nessa transferência.

Então, a frustração desse desenvolvimento é sempre muito grande.

A gente tem uma esperança muito grande aqui e que nem sempre, ou quase nunca, se reflete no funcionamento real, no organismo humano por exemplo. Está bem?", 

questionou Araújo em tom amistoso, antes de seguir para um arremate brilhante.

"Se eu pegar uma placa, uma cultura viral, e botar no micro-ondas, senador, os vírus vão morrer. Mas não é por isso que eu vou pedir para o paciente entrar no forno duas vezes por dia. O senhor entende? Essa diferença precisa ficar clara para as pessoas que estão em casa".

E, sem dúvida, ficou.

Estatísticas distorcidas

Logo em seguida, Araújo foi interpelada pelo senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) sobre o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes com sintomas leves e moderados de Covid-19.

Heinze disse que "no mundo inteiro" havia "resultados extremamente positivos" para a aplicação dessas drogas no formato off-label (fora do prescrito em bula) e quis embasar sua afirmação lançando mão de listas e números:

"A China usa (esses remédios contra a Covid-19). A Índia usa. Vinte e oito países usam esse tratamento".

Ao que Araújo retrucou, sem jamais elevar o tom da voz:

"São mais de 200 países (no mundo), senador".

Mas Heinze continuou:

"Bom, eu estou falando que 28 usam".

E Araújo voltou à carga, para encerrar sua fala de forma simples:

"É. E os outros não usam".

A infectologista provava ali que é possível colocar informações numéricas em perspectiva. Com poucas palavras, fez com que a comunidade refletisse sobre a manipulação estatística de forma produtiva. Outra boa lição de alfabetização midiática.

Uma reflexão sobre a fonte

As perguntas de Heinze continuaram, e o senador decidiu então elencar os cientistas que costuma acompanhar para obter informações sobre o uso de fármacos frente à Covid-19. 

A lista que compartilhou tinha pelo menos cinco nomes. 

Eram, segundo o parlamentar, cientistas que "recomendam o tratamento precoce".

"(O francês) Didier Raoult, inclusive, colocou nas suas redes (essas recomendações) e continua trabalhando (nesse assunto)", destacou o parlamentar.

Araújo então fez o que todo fact-checker faria. 

Questionou, com paciência e sem qualquer grau de ironia, sobre a reputação daquela fonte:

"Eu, primeiro, gostaria de perguntar ao senhor se o senhor já ouviu falar num prêmio chamado Rusty Razor, que o Dr. Didier Raoult ganhou ano passado?"

Heinze disse que não, e Araújo retomou a palavra sugerindo que ele fizesse "uma checagem nesse sentido".

Se seguir a recomendação da infectologista, o senador descobrirá que sua fonte de informação médica tem sido alvo de chacota mundial. 

O "prêmio" Rusty Razor foi criado pela revista britânica "The Skeptic" e é dado ao maior promotor da pseudociência no mundo. Raoult levou o galardão na última edição.

Cristina Tardáguila é fundadora da Agência Lupa e também escreve sobre fact-checking e desinfomação para Univision (EUA) e Fundación Gabo (Colômbia)

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Ricardo Melo: Há tudo de podre no reino de Bolsonaro

Apesar do cerco da mídia oficial, dezenas de milhares nas ruas começaram a faxina

As cartas estão na mesa, ou nas ruas. A estratégia do usurpador expulso do Exército, rejeitado pela maioria do povo, é tensionar a corda até criar um ambiente de guerra civil aberta ou disfarçada.

As provocações se sucedem. Além das já divulgadas em excesso —desprezar a pandemia, cortar auxílio emergencial, atacar jornalistas, sabotar vacinas, atacar minorias, afundar a economia etc—, Bolsonaro agora afronta o Exército e instituições em geral.

promoção de Pazuello é um escárnio. O recruta chamado de general tem uma longa lista de serviços prestados: quase 500 mil mortos. Ao arrepio de qualquer liturgia, subiu no palanque do seu senhorio para fazer proselitismo sem máscara nem decência. Em troca, ganhou um cargo de R$ 17 mil mensais.

A reação das Forças Armadas mostra a qualidade daqueles que deveriam ser obedientes à Constituição, não a alucinados. Num caso em que caberia uma punição sumária e rigorosa, o alto comando —expurgado há poucos meses, é bom lembrar— hesita em tomar qualquer decisão à altura do escândalo.

O general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, participa de ato político ao lado do presidente Bolsonaro neste domingo (23) no Rio
O general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, participa de ato político ao lado de Bolsonaro no dia 23 de maio no Rio de Janeiro - André Borges/AFP

Bolsonaro é obcecado em defender acólitos. Blindou-se com gente como o procurador Aras, que acoberta tudo o que interessa ao chefe. Ricardo Salles é um infrator contumaz, executivo-chefe de desmatadores, madeireiros criminosos e garimpeiros ilegais. Genocida deliberado das populações indígenas.

Depois que a PF fez um rapa na casa do ministro do ½ Ambiente e seus assessores, o milico invasor do Planalto não se deu nem ao cuidado do silêncio constrangedor. Ao contrário. Foi ao cercadinho elogiar publicamente Salles como “vítima”.

O descaso com a pandemia continua. As mortes oscilam de 2.000 para cima diariamente. As UTIs estão lotadas. Não há equipamentos, leitos, insumos, funcionários, vacinas. O que fazer então? Promover a Copa América! Disseminar o vírus ainda mais num país que não sai das alturas do ranking de infectados e óbitos. Um descalabro.

Não há mal que sempre dure (espera-se...). As manifestações do último sábado (29) mostraram que o povo não aguenta mais. O número de presentes, aliás, foi claramente subestimado. As PMs negaram dados sobre a quantidade de manifestantes. Estavam mais preocupadas em agredir quem se expressava pacificamente, como em Pernambuco.

Como, aliás, estão os policiais atualmente. Batem a torto e a direito amparados nas diretivas de seus chefes, cada vez mais alinhados como milicianos fardados da turma de Bolsonaro, não garantidores da “ordem pública”.

Já se disse aqui que Bolsonaro não tem conserto. Isso há 30 anos. Só está de pé porque tem como sustentáculos o grande capital, o Congresso servil, a mídia oficial, militares acoelhados e um Judiciário “suave”.

A esse respeito, cabe um parêntesis: quem viu a capa dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo no dia seguinte às manifestações de 29 de maio não sentiu apenas espanto, mas nojo. Os telejornais não ficaram muito longe.

Do SBT nem se fale. O genro de Silvio Santos é o ministro das Comunicações do capitão expulso do Exército. Precisa desenhar?

A Band não passa de vitrine dos negócios imobiliários e agropecuários da família Saad. De lá que vem a fortuna da família. Como disfarce, cita uma ou outra notícia entre reportagens sobre um mundo que não existe no Brasil.

Já a Globo é um caso à parte. Enrolada em vários negócios aqui e lá fora, problemas com a Receita e pânico de perder a concessão, flutua entre “jornalismo” e oficialismo. Quem sabe daqui a 40 anos vá divulgar um editorial se arrependendo de apoiar Bolsonaro.

Dia 19 de junho já está marcado como novo dia de manifestações contra o genocida Bolsonaro e sua clique de malfeitores. Aos poucos o povo vai perdendo o medo de sair às ruas, sempre tomando as precauções possíveis. Mas entre morrer de fome, de falta de oxigênio ou nas filas de UTI; ou suportar Bolsonaro e sua gangue de milicianos com ou sem farda, a escolha começou a ser feita no último sábado.

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Opinião - Maria Hermínia Tavares: Politização das Forças Armadas é risco claro e presente

Militares estão mais presentes na vida nacional, indo além de atividades de defesa das fronteiras

Quando instituiu o Ministério da Defesa, em 1999, e entregou o seu comando a um civil, o presidente Fernando Henrique deu um passo crucial para a consolidação da democracia no país, aproximando-a dos melhores padrões internacionais. Ao cumprir o que estabelecia a Carta de 1988 —e não sem resistências—, assegurou pela primeira vez na história da República que nenhum militar com assento no escalão superior do governo controlasse a política de defesa.

A criação da pasta —e a decisão do presidente de confiá-la a um civil— correspondeu ao anseio das forças democráticas de impedir que a política tornasse a invadir os quartéis, dividisse seus comandantes e, não raro, subvertesse a sua estrutura hierárquica. Tratava-se de blindar a um só tempo a democracia e a integridade das três Armas.

Os avanços e percalços do ministério e das políticas de defesa por ele postas em prática são discutidos com afiada maestria pelos cientistas políticos Octavio Amorim Neto (Fundação Getulio Vargas) e Igor Acácio (Universidade da Califórnia, Riverside) em artigo recente intitulado "One step forward, one step back: the impact of the Defense Ministry on defense policymaking in Brazil, 1999-2020" (Um passo adiante, um passo atrás: o impacto do Ministério da Defesa na política de defesa no Brasil; 1999-2020, em tradução livre.)

Os autores mostram que a reduzida competência e o escasso apetite dos políticos civis por questões de defesa nacional bloquearam os avanços rumo à consolidação do controle civil do setor.

Documentam o aumento da presença de militares nos escalões superiores do ministério com importante inflexão a partir de 2018 —com a nomeação de ministro de origem militar— e seu crescimento exponencial sob o governo atual.

Amorim e Acácio notam ainda que os militares se tornaram mais presentes na vida nacional por meio de Operações de Garantia de Lei e Ordem (GLO) e de iniciativas assistenciais e humanitárias, indo muito além das atividades costumeiras de defesa das fronteiras, participação em operações de paz e exercícios conjuntos.

Nada disso, a rigor, começou com a chegada do ex-capitão ao Planalto, mas o enfraquecimento da influência civil sobre a política de defesa ficou agora mais claro e perigoso, configurando ameaça real e presente de renovada politização dos militares, que se queria confinar aos livros de história.

Na democracia, as Forças Armadas servem ao Estado, não aos desígnios políticos e planos pessoais dos governantes de turno. É o que estará em jogo no eventual julgamento disciplinar do general Eduardo Pazuello.

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Telescópio Espacial James Webb, que já está 7 anos atrasado, é adiado novamente - Gizmodo Brasil

por
Concepção artística do Telescópio Espacial James Webb. Imagem: Northrop Grumman

O Telescópio Espacial James Webb, já com sete anos de atraso, não será mais lançado no Halloween conforme planejado. Até que foi uma boa decisão, dado o histórico de azar deste projeto. Pela primeira vez, o atraso não se deve ao telescópio, mas sim ao foguete que o levará ao espaço.

Precisamos ser pacientes, mas espero que não por muito mais tempo.

Conforme confirmado ontem durante uma coletiva de imprensa da Agência Espacial Europeia, o Telescópio Espacial James Webb não será lançado em 31 de outubro, conforme planejado. Se um dos dois lançamentos comerciais não relacionados de foguetes Ariane 5 der certo nos próximos meses, no entanto, o lançamento pode acontecer já em meados de novembro. O cronograma original previa o lançamento em 2014 — depois 2018, 2019, meio de 2020, março de 2021 e então Halloween de 2021 — então, mais algumas semanas de espera não é grande coisa. Quer dizer, eu estou tentando me convencer disso.

A expectativa é grande, já que este parece ser o telescópio mais notável já construído. Uma vez no espaço, ele visualizará o universo em infravermelho, examinará a atmosfera de exoplanetas distantes, contemplará estrelas e detectará galáxias antigas que surgiram apenas 150 milhões de anos após o Big Bang.

Um técnico realizando os testes finais do telescópio. Imagem: Nasa / Chris Gunn

O projeto, uma parceria internacional envolvendo a Nasa, a ESA e a Agência Espacial Canadense (CSA), tem sofrido atrasos, incluindo um reforço de sua proteção solar que demorou mais do que o previsto. O custo estimado do projeto, de US$ 9,7 bilhões, é quase o dobro da cotação original, de acordo com um relatório divulgado pelo Government Accountability Office no mês passado.

E agora temos outro atraso, desta vez por causa de uma anomalia durante dois lançamentos do foguete Ariane 5 da empresa Arianespace no ano passado. Como afirma o relatório do GAO, “os lançamentos deste tipo de veículo estão atualmente adiados” até que a ESA e a Arianespace “investiguem acelerações inesperadas do veículo” que aconteceram quando a carenagem se separou durante os dois lançamentos.

As cargas úteis foram implantadas com sucesso em ambos os casos, mas a companhia “deve demonstrar que o problema foi corrigido em pelo menos um [dos dois lançamentos programados]” antes que o telescópio possa ser ativado. A Arianespace não revelou as datas dos próximos lançamentos, mas o primeiro pode acontecer em julho, informa o SpaceNews.

Muito disso foi confirmado na coletiva da ESA realizada na quarta (2), que serviu como uma prévia do futuro lançamento do telescópio e de suas capacidades. Representantes da Nasa, da ESA e da CSA participaram do evento, e o consenso geral foi que o foguete Ariane 5 está pronto e que o lançamento do James Webb em meados de novembro é provável.

Thomas Zurbuchen, diretor da missão científica da Nasa, disse que o telescópio será enviado ao local de lançamento da ESA na Guiana Francesa no final de agosto. Depois disso, 55 dias para colocar o dispositivo no lançador. Ele descreveu o cronograma atual para um lançamento em novembro como “aproximadamente correto”.

Daniel de Chambure, chefe interino de adaptações e missões futuras do Ariane 5 na ESA, disse que a “origem do problema foi encontrada” e “ações corretivas foram tomadas”, acrescentando que a revisão de qualificação começou, “então devemos ser capazes de para confirmar tudo isso dentro de alguns dias ou semanas”. A anomalia, ele reiterou, “não comprometerá a missão”. Não foram fornecidos mais detalhes sobre o problema e como ele foi resolvido.

Zurbuchen disse que a Arianespace foi transparente em todo o processo.

“Temos todas as informações de que precisamos. Tivemos discussões técnicas profundas com todas as partes alinhadas com um objetivo, que é criar o sucesso da missão”, disse Zurbuchen, da Nasa. “Estamos no negócio de ciência de foguetes, por isso estamos acostumados a problemas.”

Pelo menos as coisas parecem estar avançando. A Arianespace reservou uma janela para o lançamento do James Webb de 31 de outubro ao início de dezembro, então há uma boa chance de o telescópio ser lançado este ano, mas já ficamos desapontados antes. Quando se trata do Telescópio Espacial James Webb, é melhor deixar para acreditar quando ele estiver no segundo ponto de Lagrange, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra.

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Santos Cruz declara guerra a Bolsonaro e diz que este não é o "seu exército"

General Carlos Alberto dos Santos Cruz

247 - Em veemente protesto pelas redes sociais, o general Santos Cruz sugere que militares devem se unir contra tentativa de desmoralização do Exército por jair Bolsonaro. Leia a íntegra:

"Ontem, 3 de junho de 2021, fui surpreendido com telefonemas e mensagens de dezenas de jornalistas sobre o encerramento do caso Pazuello. Em atenção ao trabalho que fazem, sempre respondo, mesmo que seja para informar que nada tenho a dizer. Mas ontem eu não disse nada. Por vergonha.

Por formação, me nego a fazer qualquer consideração sobre a decisão.

Sobre o conjunto dos fatos, é uma desmoralização para todos nós. 

Houve um ataque frontal à disciplina e à hierarquia, princípios fundamentais à profissão militar. Mais um movimento coerente com a conduta do Presidente da República e com seu projeto pessoal de poder. A cada dia ele avança mais um passo na erosão das instituições. 

Falta de respeito pessoal, funcional e institucional. Desrespeito ao Exército, ao povo e ao Brasil.  Frequentemente, com sua conduta pessoal, ele procura desrespeitar, desmoralizar pessoas e enfraquecer instituições.

Não se pode aceitar a SUBVERSÃO da ordem, da hierarquia e da disciplina no Exército, instituição que construiu seu prestígio ao longo da história com trabalho e dedicação de muitos.

Péssimo exemplo para todos. Péssimo para o Brasil. 

À irresponsabilidade e à demagogia de dizer que esse é o "meu exército", eu só posso dizer que o "seu exército" NÃO É O EXÉRCITO BRASILEIRO. Este é de todos os brasileiros. É da nação brasileira.

A politização das Forças Armadas para interesses pessoais e de grupos precisa ser combatida.  É um mal que precisa ser cortado pela raiz. 

Independente de qualquer consideração, a UNIÃO de todos os militares com seus comandantes continua sendo a grande arma para não deixar a política partidária, a politicagem e o populismo entrarem nos quartéis.

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Veja implode Bretas, da Lava Jato do Rio, e o acusa de negociar penas

Marcelo Bretas

247 - O advogado criminalista Nythalmar Dias Ferreira, que fechou um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), acusa o juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato no Rio, de negociar penas, combinar estratégias com o Ministério Público e direcionar acordos. De acordo com reportagem da revista Veja, Ferreira teria apresentado aos promotores uma gravação em que Bretas fala em 'aliviar' a pena de Fernando Cavendish, um outro delator preso na operação Lava Jato.

No áudio, segundo a reportagem, o juiz diz a Nythalmar que havia conversado com o Ministério Público sobre um acordo e que poderia “aliviar” a pena de Cavendish caso tudo saísse como o esperado. “Você pode falar que conversei com ele, com o Leo, que fizemos uma videoconferência lá, e o procurador me garantiu que aqui mantém o interesse, aqui não vai embarreirar” diz Bretas na gravação. “E aí deixa comigo também que eu vou aliviar. Não vou botar 43 anos no cara. Cara tá assustado com os 43 anos”, diz em outro trecho do diálogo. 

O Leo citado por ele é o procurador Leonardo Cardoso de Freitas, então coordenador da Lava-Jato no Rio de Janeiro.

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O passo largo do golpismo - Tereza Cruvinel

Por Tereza Cruvinel

Mais tarde será tarde, se já não for. Bolsonaro respondeu aos protestos populares, à CPI, ao panelaço e ao fracasso de seu governo com um passo vigoroso em seu projeto golpista. Subjugou o Exército, que não punindo o general Pazuello, assumiu-se como partido armado de Bolsonaro, e não como instituição de Estado.  Mas não são apenas as Forças Armadas. O bolsonarismo está dominando as PMs, a PRF e a PF.

O ativismo político-militar foi liberado,  a pouco mais de um ano de uma eleição que Bolsonaro parece fadado a perder, mas dá sinais de não aceitar a derrota.  Não foram os políticos, como disse o marechal  Castelo Branco que, "como vivandeiras alvoroçadas", foram "aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar". Só existe uma vivandeira, que é Bolsonaro, e o bolsonarismo é fruto da voluntária associação dos militares com ele para voltarem ao poder. Voltaram e vão marchar com Bolsonaro se o poder civil não reagir. Acreditar que a complacência do alto comando para com Pazuello,  pela participação em ato político vetada pelo regulamento, foi apenas um recuo tático para evitar crise militar é uma ilusão. 

A repressão violenta da PM nos protestos de Recife foi um sinal do ativismo político da PM. A prisão do professor petista em Goiânia, porque exibia no carro um adesivo "Bolsonaro genocida" foi outro. Há dois dias, Bolsonaro prestigiou a solenidade de formatura de uma turma da PM do Distrito Federal, em que o comandante da Academia e também o comandante geral da PM, coronel Márcio Cavalcante de Vasconcelos, encerraram seus discursos com o lema bolsonarista "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".

O Governo, através do Ministério da Justiça, fará uma pesquisa com todos os PMs do país sobre questões salariais e operacionais, a pretexto de colher elementos para a política de segurança. E com isso, disporá de um banco de dados sobre todos os policiais brasileiros, uma arma poderosa para a mobilização de quem tem o poder das armas.

Ontem mesmo, num passeio a Formosa, congratulou-se com os policiais rodoviários e foi por eles aplaudido.

Bolsonaro está se armando. Mais tarde será tarde, se já não for.

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"Sempre avisei", diz Paulo Pimenta sobre acusações contra Marcelo Bretas

Paulo Pimenta e Marcelo Bretas

247 - O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) usou as redes sociais para comentar a acusação, divulgada pela revista Veja nesta sexta-feira (4),  de que o juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato no Rio de Janeiro, negociava penas, combinava estratégias com o Ministério Público e direcionava acordos de delação premiada. 

“Não sou profeta mas sempre avisei sobre Marcelo Bretas, uma espécie de Nise Yamaguchi da Lava Jato !! Pena que muita gente boa não quiz me escutar !! Sérgio Moro, Dalagnol, Marcelo Bretas e cia, essa gente nunca me enganou. Junto com a Globo são os pais do Bolsonarismo !!”, escreveu Pimenta no Twitter. 

Confira a postagem de Paulo Pimenta sobre o assunto. 

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"Exército vai se transformando em partido e se continuar assim vai virar milícia", diz Malu Gaspar

Malu Gaspar e Pazuello

247 - A jornalista Malu Gaspar avalia, em sua coluna no jornal O Globo, que o comando do Exército “passa algumas mensagens à própria tropa e à sociedade brasileira” ao decidir não punir o general Eduardo Pazuello, que participou de um ato de apoio ao governo Jair Bolsonaro, e afirma que a instituição militar “vai se transformando em partido”. “A continuar assim, o próximo passo é se transformar em milícia”, afirma.

“Ao Brasil, que não espere do Exército nenhum esforço de proteção à ordem democrática ou ao estado de direito se, do outro lado, forçando os limites, estiver Jair Bolsonaro”, destaca. “À tropa, o recado é claro. Cabos, soldados, majores, tenentes, coronéis, estão todos liberados para fazer reivindicações salariais, contestar as regras do comando ou mandar às favas o regulamento disciplinar do Exército”, escreve mais à frente. 

“Em reação a esses movimentos, há dias generais de vários segmentos vinham procurando a imprensa, diretamente ou por meio de interlocutores, para dizer que não havia hipótese de Pazuello não ser punido. Podia até ser uma punição branda. O que não podia era acabar tudo em ‘pizza’, como se apostava entre os recrutas”, observa. 

“Mas as poucas informações que vazaram sobre a reunião do Alto Comando do Exército, na última quarta-feira, já indicavam que o desfecho do caso seria diferente. Quando um integrante do Alto Comando disse à repórter Jussara Soares que a decisão do comandante seria acatada por todos como uma “decisão do Exército, independentemente da posição pessoal de cada um”, estava claro que os generais entendiam que teriam de se dobrar à vontade de Bolsonaro”, avalia a jornalista. 

Ainda segundo ela, “um Exército em que oficiais priorizam interesses políticos e pessoais em detrimento do todo não serve mais ao país. Transforma-se em partido político. E, armado, facilmente transmuta-se em milícia. Em última instância, é esse o preocupante sinal enviado ao Brasil pelo desfecho do caso Pazuello. Depois de entrar no governo, o Exército vai se transformando em partido. A continuar assim, o próximo passo é se transformar em milícia”.

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"Indefensável", diz ex-chefe do GSI sobre perdão do Exército a Pazuello

247 - O ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e general Sérgio Etchegoyen qualificou como “indefensável” a decisão do comandante do Exército, Paulo Sérgio Oliveira, de não punir o general Eduardo Pazuello pela participação em um ato de apoio a Jair Bolsonaro. 

“Sou um soldado disciplinado, fui assim minha vida inteira. Não vou criticar uma decisão do comandante do Exército, até porque a julgo indefensável”, disse Etchegoyen à Coluna do Estadão, do jornal O Esado de S. Paulo. 

Ainda segundo a reportagem, a avaliação entre os militares de alta patente é que a decisão corrói, mas não desestabiliza institucionalmente o Exército. 

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Na contramão do mundo, Bolsonaro extingue estatal de tecnologia fabricante de chips

247 - Em meio a uma crise mundial na produção de chips e semicondutores, o governo de Jair Bolsonaro resolveu extinguir a única fábrica desses componentes do Brasil, o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), inaugurada pelo ex-presidente Lula, em 2010.

Instalada em Porto Alegre (RS), a Ceitec é responsável pelo desenvolvimento de tecnologia e pela fabricação dessas pequenas partes de eletrônicos, utilizadas em larga escala no mundo todo para produção desde  celulares até aviões. O governo Lula investiu muito na Ceitec com o propósito de tornar o Brasil um país autossustentável, a longo prazo, nas demandas por este produto e competir com mercados como o da China e dos Estados Unidos. Em todos os lugares estão faltando chips por causa da pandemia, que paralisou atividades industriais em todo o planeta, escreve o jornalista André Accarini, no portal da CUT.

Para o ex-ministro Ricardo Berzoini, a extinção da Ceitec é “um atraso monumental”. Ele explica que, desde a criação, a empresa vem ampliando sua capacidade e já produz o suficiente para abastecer várias demandas no Brasil, uma delas o mercado de etiquetas de sistemas de pagamento automático de pedágios, além de chips de identificação de produtos e de animais.

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