* //////////////////////////////////////////////////////////////////////////////// ______________ * 'BOLSONARO entrou de vez na MIRA da CPI', diz RANDOLFE sobre CORRUPÇÃO na compra da COVAXIN * ////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
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____________________ * Surge A PROVA de que Bolsonaro foi avisado do ESQUEMA de CORRUPÇÃO na compra SUPERFATURADA da vacina indiana
____________________ * Deputado diz ter informado Bolsonaro pessoalmente, no Alvorada, sobre corrupção na compra da Covaxin
____________________ * Ex-diretor da PF diz não se lembrar se Bolsonaro pediu investigação sobre superfaturamento na contratação da Covaxin
____________________ * CPI questiona PF se Bolsonaro avisou sobre corrupção na compra da Covaxin
____________________ * 'Bolsonaro entrou de vez na mira da CPI', diz Randolfe sobre corrupção na compra da Covaxin
____________________ * TCU diz que já investiga Covaxin e que caso terá prioridade no tribunal
____________________ * Valente quer informações do GSI sobre entradas e saídas de Miranda no Planalto: 'pode ficar provada a corrupção de Bolsonaro'
____________________ * Luís Miranda disse a Bolsonaro: "meu irmão está recebendo uma puta pressão de coronéis, para fazer um pagamento"
____________________ * Deputado diz ter consultado presidente da Câmara ARTHUR LIRA (PP-AL) sobre denúncia na compra da Covaxin
____________________ * QUEIROGA se IRRITA com pergunta sobre escândalo da Covaxin, IMITA Bolsonaro e ABANDONA entrevista
____________________ * CPI da Covid requisita segurança para deputado Luís Miranda e irmão
____________________ * Netanyahu recomendou a Ernesto Araújo compra da vacina da Pfizer: 'foi fundamental para o controle da pandemia em Israel'
____________________ * DIREITA prepara a "SEGUNDA VIA", com apoio de MOURÃO
____________________ * "Pequi roído": STJ tranca inquérito por outdoors com críticas a Bolsonaro em Palmas
____________________ * Christiane Pelajo briga com equipe e abandona estúdio no meio do programa (vídeo)
____________________ * Defesa de Lula apresentará à ONU decisão do STF sobre suspeição de Moro
____________________ * Fundador da McAfee é achado morto em prisão horas após aprovarem extradição
____________________ * Vacina cara, comprada com ajuda de Bolsonaro, FULMINA o mito ANTICORRUPÇÃO
____________________ * Governo usa Deus, inverte a lógica e barra perguntas ao falar das suspeitas
____________________ * Reinaldo Azevedo - Depoimento de Terra evidencia algo ALÉM do NEGACIONISMO: é o "NEGOCIONISMO"
____________________ * A geração Z te deixou 'CRINGE'? Pois espere a ASCENSÃO dos ALPHA
____________________ * Brincando com Fogo: Participante se masturba, quebra regras e engana affair
____________________ * PAUL KRUGMAN: A semana em que o pânico sobre a inflação morreu
____________________ * Há 50 anos, JONI_MITCHELL olhou as PROFUNDEZAS do mundo. E era AZUL
____________________ * Se sangria de assinantes continuar, TV paga 'morre' em 7 anos
____________________ * Marvin Gaye, "What's Going On" já não era 1⁰ lugar de TODOS os TEMPOS uns 25 anos atrás? ___________________________________ Opinião: Pedro Antunes - 50 anos do disco que desbancou os Beatles - e por que você deveria ouvi-lo
____________________ * PORNÔ ou EROTISMO? Cenas de SEXO em ELITE desafiam MORALISMO
____________________ * 'Luca' troca a ambição da Pixar pela lembrança de um verão perfeito
____________________ * BTS conduz a nova revolução do pop. Como fizeram Michael Jackson e Beatles
____________________ * Juliette é cobrada como se a felicidade do Brasil dependesse dela. Por que?
____________________ * Juliette emociona Gil e prova que conto de fadas existe. E é brasileiro
____________________ * Em tempos de MOTOSSERRA e das QUEIMADAS, ainda bem que temos a POESIA, o LIRISMO e a CANDURA de GILBERTO GIL. Ainda bem que temos Gilberto Gil
____________________ * A única coisa boa de 1964 foram esses discos. E olhe lá
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____________________ * Surge a prova de que Bolsonaro foi avisado do esquema de corrupção na compra superfaturada da vacina indiana

247 - O deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) afirmou que áudios e mensagens encaminhadas a interlocutores de Jair Bolsonaro comprovariam a pressão em cima de Luis Ricardo Miranda, irmão do parlamentar e chefe de importação do Departamento de Logística em Saúde do Ministério da Saúde. A pressão tinha como objetivo a compra da vacina indiana Covaxin.
Em entrevista à CNN no início desta tarde, o parlamentar relatou ter informado Jair Bolsonaro pessoalmente, em um encontro no Palácio da Alvorada no dia 20 de março, um sábado, junto com seu irmão, Luis Ricardo Miranda. No início da semana, afirmou ter indagado o "adjunto" do presidente sobre o assunto.
Ao site Metrópoles, o deputado disponibilizou as mensagens encaminhadas ao secretário de Bolsonaro com os alertas de uma possível corrupção na pasta. O nome do militar foi preservado a pedido do congressista.
"Avise ao PR [presidente da República] que está rolando um esquema de corrupção pesado na aquisição das vacinas dentro do Ministério da Saúde. Tenho provas e as testemunhas. Sacanagem da porra… a pressão toda sobre o presidente e esses ‘FDPs’ roubando”, escreveu o parlamentar às 12h55 do dia 20 de março. O auxiliar de Bolsonaro respondeu com uma Bandeira Nacional.
Uma hora depois, Miranda insistiu: "Não esquece de avisar o presidente. Depois, não quero ninguém dizendo que eu implodi a República. Já tem PF e o caralho no caso. Ele precisa saber e se antecipar". A outra resposta também foi um símbolo nacional.
A Covaxin foi a vacina mais cara adquirida pela gestão de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, ao custo de US$ 15 por dose. A compra superfaturada do imunizante foi a única para a qual houve um intermediário e sem vínculo com a indústria de vacina, a empresa Precisa. O preço da compra foi 1.000% maior do que, seis meses antes, era anunciado pela fabricante.
A CPI da Covid aprovou um requerimento do relator Renan Calheiros (MDB-AL) para convocar os irmãos Miranda.
____________________ * Deputado diz ter informado Bolsonaro pessoalmente, no Alvorada, sobre corrupção na compra da Covaxin

247 - O deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) relatou em entrevista à CNN no início da tarde desta quarta-feira (23) que informou Jair Bolsonaro pessoalmente sobre a suspeita de corrupção no contrato de compra da vacina indiana Covaxin pelo Ministério da Saúde.
O parlamentar disse ter enviado inicialmente uma mensagem a um “adjunto” de Bolsonaro informando a pressão incomum que seu irmão, o servidor da pasta Luis Ricardo Miranda, estaria sofrendo para fechar um contrato suspeito da compra das vacinas. Os dois irão depor na CPI da Covid na sexta-feira (25).
No mesmo dia - 20 de março, um sábado - o assessor de Bolsonaro propôs um encontro pessoalmente entre eles e Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada, por volta de 16h. O parlamentar compareceu à residência oficial da Presidência acompanhado do irmão e da esposa e comunicou o chefe do Planalto sobre os detalhes da negociação, inclusive com documentos.
De acordo com o servidor Luis Ricardo, as suspeitas se baseavam em alguns elementos: o invoice - nota fiscal para pagamento - estava em nome de uma empresa que não era nem a fabricante da vacina, na Índia (Bharat Biotech), nem a representante legal dela no Brasil (Precisa Medicamentos), mas de uma terceira. Havia também acordos diferentes no contrato inicial e no invoice - como o pagamento antes da entrega das vacinas, no caso do último documento. Durante a entrevista, o deputado apresentou um áudio do irmão com o relato dos pontos.
Na conversa com Bolsonaro, segundo o deputado, o presidente disse que tomaria providências e que levaria o caso ao diretor-geral da Polícia Federal. Depois do encontro na Alvorada, o parlamentar contou ter cobrado o adjunto por mensagens via Whatsapp. Chegou a perguntar se ‘o presidente estaria chateado’ com ele por alguma coisa e depois indagou se o caso havia sido levado adiante.
Vacinas prestes a vencer
No dia 24 de março, quarta-feira, Luis Miranda relatou ter enviado ao assessor uma “informação bastante complicada”. “Além de tudo, as vacinas ainda estavam, segundo o documento que foi encaminhado ao meu irmão, em prazo de vencimento. Venceriam entre abril e maio. Ou seja, a importação, a distribuição e a vacinação da população seria praticamente impossível. Teria que fazer uma mágica”.
“Então eu mandei uma mensagem na quarta-feira dizendo ‘olha, os caras ainda estão mandando vacinas que vencem em abril e maio’. E não tive mais resposta sobre o caso, não sei dizer qual foi dado o prosseguimento, não tive mais contato. Eu até encontrei o presidente recentemente num evento que eu fui convidado. Falei ‘presidente, preciso falar com o senhor’. E ele me mandou entrar em contato com o chefe de gabinete dele. Eu falo que é urgente, mas nunca mais consegui falar nem com ele nem com nenhum assessor dele sobre o tema. E eu só estou aqui hoje porque estouraram o áudio do meu irmão no MPF”.
O valor do contrato, que envolve a aquisição de 20 milhões de doses da Covaxim, é de R$ 1,61 bilhão. O custo unitário é de US$ 15, o mais alto dentre todas as vacinas adquiridas pelo Ministério da Saúde - no site da Covaxin, a dose da vacina era anunciada a US$ 2. O sócio da Precisa Medicamentos, Francisco Emerson Maximiano deveria prestar depoimento à CPI nesta quarta-feira (23), mas a oitiva foi adiada para a semana que vem.
____________________ * Ex-diretor da PF diz não se lembrar se Bolsonaro pediu investigação sobre superfaturamento na contratação da Covaxin

247 - O ex-diretor da Polícia Federal (PF) Rolando Alexandre de Souza alegou que não se lembra se Jair Bolsonaro lhe pediu uma investigação sobre superfaturamento nos contratos de compra da vacina indiana Covaxin. O presidente sabia das irregularidades, segundo o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), irmão de Luis Ricardo Miranda, chefe de importação do Departamento de Logística em Saúde do Ministério da Saúde.
"Desculpe, mas não vou parar para pensar. Tem que ver na polícia. Se me perguntar o que chegou e o que não chegou, eu não vou lembrar", disse Rolando, segundo o Globo. A PF não comentou sobre as investigações.
Luis Ricardo e seu irmão se reuniram com Bolsonaro no dia 20 de março. No encontro, o servidor relatou o esquema ao presidente, que prometeu remeter o caso à PF.
Na época, Rolando era o diretor-geral da PF. Ele foi substituído em abril e está em Washington, nos Estados Unidos, onde assumirá um cargo na Embaixada do Brasil.
"Tem que olhar lá (na PF). Tem que pedir lá. Tem que ver com o diretor atual. Não é mais comigo", disse o delegado.
____________________ * CPI questiona PF se Bolsonaro avisou sobre corrupção na compra da Covaxin

247 - A CPI da Covid acionou a Polícia Federal para saber se Jair Bolsonaro repassou à corporação o alerta sobre suspeitas de corrupção no contrato de aquisição da vacina indiana Covaxin, fabricada pela Bharat Biotech e representada no Brasil pela farmacêutica Precisa. O alerta foi feito pelo chefe de importação do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, o servidor Luís Ricardo Fernandes Miranda, que diz ter sofrido “pressões” para agilizar a importação do imunizante.
“Acabei de pedir para o delegado da PF que peça ao diretor-geral para saber se houve inquérito para investigar essa questão da Covaxin. Se o presidente foi avisado pelo servidor e tomou providências, ótimo. Se não tomou, é preocupante”, disse o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), de acordo com o jornal O Globo.
Para o presidente da CPI, "a existência de corrupção nos contratos do governo vira o foco. Esse depoimento traz o presidente definitivamente para o foco das investigações. Vamos aprofundar pois existem indícios mais do que claros de um enorme esquema de corrupção, inclusive com empresa laranja com sede em Cingapura, o que é indício de lavagem de dinheiro. É a empresa Madson Biotech”.
“A partir de agora, tem-se um novo caminho para investigar. A demora para adquirir algumas vacinas não ocorreu para todas. Há uma diferença de tratamento muito grande. Ele (o servidor do Ministério da Saúde) diz que Pazuello foi demitido porque não aceitava corrupção. Ele está dando uma informação ao Brasil", emendou Omar Aziz.
____________________ * 'Bolsonaro entrou de vez na mira da CPI', diz Randolfe sobre corrupção na compra da Covaxin

247 - Vice-presidente da CPI da Covid, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou à CNN Brasil nesta quarta-feira (23) que após as revelações feitas pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) sobre o caso de corrupção na compra superfaturada da vacina indiana Covaxin, Jair Bolsonaro "entrou de vez" na mira da comissão.
"O presidente agora entrou de vez na investigação. O foco agora é ele. Ficou evidente que providências não foram tomadas, o contrato foi firmado. Chegamos à nova fase. O inimigo agora é outro. As outras frentes já estão confirmadas. O alvo agora é outro", declarou o parlamentar.
Sobre as revelações de Miranda, o senador afirmou: "esse depoimento indica que a coisa é muito mais grave. Imaginávamos que era omissão e prevaricação. Mas vemos que houve ação deliberada para não fechar contatos de vacinas mais eficazes. Às custas da vida de brasileiros e para lucrar com isso, optaram por uma vacina menos eficaz".
____________________ * TCU diz que já investiga Covaxin e que caso terá prioridade no tribunal

247 - O Tribunal de Contas da União (TCU) informou nesta quarta-feira (23) que já investiga o contrato do Ministério da Saúde para a compra da vacina indiana Covaxin, da fabricante Bharat Biotech, com intermediação da Precisa Medicamentos.
Ministro do tribunal, Bruno Dantas afirmou em sessão plenária que as recentes revelações de um possível esquema de corrupção na aquisição dos imunizantes reforçam a necessidade da corte debater o tema. "O tema se encontra envolto em um emaranhado de questões nebulosas", disse Dantas após a ministra Ana Arraes ler, a pedido do ministro Benjamim Zymler, um posicionamento do caso. Zymler é responsável por um processo sobre a Covaxin que corre no TCU desde março.
Tal representação pedia que o tribunal verificasse os termos de compra da vacina pelo Ministério da Saúde. À época, o TCU pediu que a pasta prestasse esclarecimentos. "O Ministério da Saúde respondeu, no dia 14 de maio de 2021, e a documentação está em análise com prioridade que o caso requer".
Relatório preliminar produzido pela unidade técnica do TCU sobre a Covaxin afirma existir "algumas possíveis impropriedades que precisam ser mais bem apuradas junto ao Ministério da Saúde", mas destaca que "a mera diferença no valor de aquisição das vacinas citadas não constitui evidência suficiente para caracterização de sobrepreço".
____________________ * Valente quer informações do GSI sobre entradas e saídas de Miranda no Planalto: 'pode ficar provada a corrupção de Bolsonaro'

247 - O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) anunciou a entrada de um pedido de informação junto ao Gabinete de Segurança Institucional, comandado pelo general Augusto Heleno, sobre entradas e saídas do deputado federal Luís Miranda (DEM-DF) no Palácio do Planalto. O parlamentar pelo Distrito Federal disse ter alertado interlocutores de Jair Bolsonaro sobre um esquema de corrupção no Ministério da Saúde que, segundo o congressista, envolvia uma pressão dentro da pasta para a importação da vacina indiana Covaxin.
"URGENTE! Entramos com pedido de informação junto ao Gabinete de Segurança Institucional a respeito de entrada e saída do dep. Luis Miranda no Planalto. Se Bolsonaro tiver recebido as provas do esquema da Covaxin no dia 20/03, como afirma o deputado, ficará provada corrupção", escreveu o parlamentar no Twitter.
De acordo com Miranda, um auxiliar de Bolsonaro recebeu do próprio parlamentar áudios e mensagens que comprovariam a pressão em cima de Luis Ricardo Miranda, irmão do deputado e chefe de importação do Departamento de Logística em Saúde do Ministério da Saúde.
A Covaxin foi a vacina mais cara adquirida pela gestão de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, ao custo de US$ 15 por dose. A compra superfaturada do imunizante foi a única para a qual houve um intermediário e sem vínculo com a indústria de vacina, a empresa Precisa. O preço da compra foi 1.000% maior do que, seis meses antes, era anunciado pela fabricante.
____________________ * Luís Miranda disse a Bolsonaro: "meu irmão está recebendo uma puta pressão de coronéis, para fazer um pagamento"

247 - O deputado federal Luís Miranda (DEM-DF) disse ter alertado Jair Bolsonaro sobre a pressão de "coronéis" contra o irmão do parlamentar, Luís Ricardo Fernandes Miranda, "para fazer um pagamento e importar uma vacina que não tem Anvisa". O congressista fez referência ao imunizante da Índia Covaxin. Segundo Miranda, a pressão tinha como objetivo a realização de "um pagamento que estava em descompasso com o contrato e pior: o nome da empresa que vai receber o dinheiro não é a que fez o contrato com o Ministério da Saúde, nem a intermediária".
"É uma loucura. Fora as quantidades: o contrato previa 4 milhões na primeira entrega e só tem 300 mil", disse o parlamentar, de acordo com relatos publicados pelo site O Antagonista.
A Covaxin foi a vacina mais cara adquirida pela gestão de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, ao custo de US$ 15 por dose. A compra superfaturada do imunizante foi a única para a qual houve um intermediário e sem vínculo com a indústria de vacina, a empresa Precisa. O preço da compra foi 1.000% maior do que, seis meses antes, era anunciado pela fabricante.
"A bandeira do presidente, a plataforma do presidente é o quê? O combate à corrupção. Quando eu vi a corrupção ali, clara, visível, pelo menos os indícios eram de algo errado ali, eu levei para o presidente da República, hoje o maior defensor no combate à corrupção. Eu levei para ele. Quando eu entrego para ele, eu comento: 'É o mesmo grupo econômico que recebeu por medicamentos do Ministério da Saúde e não entregou'. Só por isso aí, ele não deveria fazer negócio com eles", continuou Miranda.
O deputado disse que, em janeiro, falou a Bolsonaro sobre a necessidade de uma conversa para relatar irregularidades no Ministério da Saúde. "Quando aconteceu o fato, eu comuniquei para ele no dia 20 de março, junto com o meu irmão no Palácio do Planalto, com toda a documentação em mãos", contou.
"O próprio presidente, quando bateu o olho, falou assim: 'Quem empresa é essa?'. Eu digo para ele: ‘Presidente, essa é a mesma empresa do caso da Global'. O presidente tinha que se sentir privilegiado, na verdade. Eu confio tanto nele no combate à corrupção que eu levei o caso para ele", relatou.
O deputado também contou sobre a reação de Bolsonaro. "Ele disse para mim com todas as letras: 'Deputado, é grave'. Ele falou até para o meu irmão: 'Obrigado por trazer isso para mim, porque isso aqui é grave, gravíssimo'. Vou entrar em contato agora com o DG [diretor-geral] da Polícia Federal e encaminhar a denúncia para ele".
A CPI da Covid aprovou um requerimento do relator Renan Calheiros (MDB-AL) para convocar os irmãos Miranda.
____________________ * CPI da Covid requisita segurança para deputado Luís Miranda e irmão

247 - O vice-presidente da CPI da Covid no Senado, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), anunciou que a comissão vai requisitar segurança para o deputado federal Luís Miranda (DEM-DF), para o irmão, o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda e para seus seus familiares, em função das denúncias de corrupção do governo Bolsonaro na compra das vacinas Covaxin.
O parlamentar disse ter enviado inicialmente uma mensagem a um “adjunto” de Bolsonaro informando a pressão incomum que seu irmão, o servidor da pasta Luis Ricardo Miranda, estaria sofrendo para fechar um contrato suspeito da compra das vacinas. Os dois irão depor na CPI da Covid na sexta-feira (25).
No mesmo dia - 20 de março, um sábado - o assessor de Bolsonaro propôs um encontro pessoalmente entre eles e Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada, por volta de 16h. O parlamentar compareceu à residência oficial da Presidência acompanhado do irmão e da esposa e comunicou o chefe do Planalto sobre os detalhes da negociação, inclusive com documentos.
De acordo com o servidor Luis Ricardo, as suspeitas se baseavam em alguns elementos: o invoice - nota fiscal para pagamento - estava em nome de uma empresa que não era nem a fabricante da vacina, na Índia (Bharat Biotech), nem a representante legal dela no Brasil (Precisa Medicamentos), mas de uma terceira. Havia também acordos diferentes no contrato inicial e no invoice - como o pagamento antes da entrega das vacinas, no caso do último documento. Durante a entrevista, o deputado apresentou um áudio do irmão com o relato dos pontos.
Na conversa com Bolsonaro, segundo o deputado, o presidente disse que tomaria providências e que levaria o caso ao diretor-geral da Polícia Federal. Depois do encontro na Alvorada, o parlamentar contou ter cobrado o adjunto por mensagens via Whatsapp. Chegou a perguntar se ‘o presidente estaria chateado’ com ele por alguma coisa e depois indagou se o caso havia sido levado adiante.
Vacinas prestes a vencer
No dia 24 de março, quarta-feira, Luis Miranda relatou ter enviado ao assessor uma “informação bastante complicada”. “Além de tudo, as vacinas ainda estavam, segundo o documento que foi encaminhado ao meu irmão, em prazo de vencimento. Venceriam entre abril e maio. Ou seja, a importação, a distribuição e a vacinação da população seria praticamente impossível. Teria que fazer uma mágica”.
“Então eu mandei uma mensagem na quarta-feira dizendo ‘olha, os caras ainda estão mandando vacinas que vencem em abril e maio’. E não tive mais resposta sobre o caso, não sei dizer qual foi dado o prosseguimento, não tive mais contato. Eu até encontrei o presidente recentemente num evento em que eu fui convidado. Falei ‘presidente, preciso falar com o senhor’. E ele me mandou entrar em contato com o chefe de gabinete dele. Eu falo que é urgente, mas nunca mais consegui falar nem com ele nem com nenhum assessor dele sobre o tema. E eu só estou aqui hoje porque estouraram o áudio do meu irmão no MPF”.
O valor do contrato, que envolve a aquisição de 20 milhões de doses da Covaxin, é de R$ 1,61 bilhão. O custo unitário é de US$ 15, o mais alto dentre todas as vacinas adquiridas pelo Ministério da Saúde - no site da Covaxin, a dose da vacina era anunciada a US$ 2. O sócio da Precisa Medicamentos, Francisco Emerson Maximiano deveria prestar depoimento à CPI nesta quarta-feira (23), mas a oitiva foi adiada para a semana que vem.O deputado Luís Miranda disse ainda ter alertado Jair Bolsonaro sobre a pressão de "coronéis" contra o irmão no Ministério da Saúde. Segundo ele, a pressão tinha como objetivo a realização de "um pagamento que estava em descompasso com o contrato" de vacinas. O irmão de Miranda relatou pressão em favor do imunizante Covaxin ao Ministério Público Federal.A CPI da Covid aprovou um requerimento do relator Renan Calheiros (MDB-AL) para convocar os irmãos Miranda, que deporão na próxima sexta.
____________________ * Netanyahu recomendou a Ernesto Araújo compra da vacina da Pfizer: 'foi fundamental para o controle da pandemia em Israel'

Por Ricardo Brito (Reuters) - O então primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, defendeu em março, em conversa com o chefe da diplomacia brasileira na época, Ernesto Araújo, que a compra rápida da vacina da Pfizer contra a Covid-19, mesmo diante das críticas devido ao preço do imunizante, foi fundamental para controlar a pandemia no país e possibilitar a reabertura da economia israelense.
Segundo telegramas diplomáticos enviados pelo embaixador do Brasil em Tel Aviv, general Gerson Menandro Garcia de Freitas, ao Itamaraty, Netanyahu justificou a compra antecipada dos imunizantes a Araújo com o argumento de que o preço pago garantiu o início rápido da vacinação em massa em Israel.
A postura de Netanyahu --um aliado do presidente Jair Bolsonaro que deixou o comando de Israel neste mês após 12 anos no poder-- contrasta com a demora do governo brasileiro em agilizar a compra do imunizante da Pfizer. A negociação pela vacina e Araújo são investigados pela CPI da Covid no Senado.
Preço compensou
O relato da conversa do então primeiro-ministro israelense e do chanceler brasileiro, ocorrida em 7 de março, foi feita pelo embaixador brasileiro uma correspondência ao Itamaraty um dia depois. A mensagem foi encaminhada à CPI da Covid e obtida pela Reuters.
"Netanyahu... comentou que inicialmente houve muitas críticas às compras --lideradas por ele próprio-- das vacinas da empresa Pfizer. As críticas se concentraram no preço pago pelas milhões de doses, que, segundo o mandatário israelense, não excedia significativamente os valores praticados no mercado", diz o texto de um telegrama.
"Para Netanyahu, o preço compensou por garantir que as vacinas chegassem a Israel assim que aprovadas para uso em massa. Sair à frente na corrida por vacinas foi fundamental para que hoje a pandemia esteja praticamente controlada em Israel e a economia possa ser reaberta, antecipando a retomada do desenvolvimento econômico", destacou o relato do embaixador.
Netanyahu revelou na conversa que a Pfizer planejava construir uma planta de produção de vacina em Israel. "Caso a ideia se concretize, o Brasil também poderia se beneficiar da produção de vacinas em solo israelense", disse ele, segundo relato do embaixador.
Liderança
Em outro telegrama, de 15 de março, Garcia de Freitas deu mais detalhes ao Itamaraty sobre o contrato do governo israelense com o laboratório Pfizer para a compra de vacinas contra Covid.
Nessa correspondência, o embaixador destacou que, inicialmente, o próprio Netanyahu "liderou as tratativas preliminares, ao realizar contato com a direção da empresa Pfizer no começo da pandemia (antes mesmo da escalada global da pandemia)".
"O governo de Israel pagou preço majorado pelas vacinas, a fim de assegurar prioridade no recebimento das doses, cujo primeiro carregamento foi entregue neste país em 9 de dezembro de 2020", disse Garcia de Freitas no telegrama. Israel começou a imunizar antes da virada do ano.
Apesar de Israel ser citado como um exemplo por Bolsonaro em diversas ocasiões para assuntos variados, na questão das vacinas, o governo brasileiro não acelerou tratativas com a Pfizer, mesmo tendo o laboratório oferecido desde meados do ano passado a possibilidade de um acordo com o país de fornecimento também em dezembro de vacinas.
Uma das alegações do governo para o Brasil travar as negociações foi de que haveriam cláusulas "leoninas" que seriam prejudiciais ao país. Representantes da Pfizer, no entanto, já afirmaram que as mesmas cláusulas foram apresentadas a dezenas de outros países.
No mês passado, a Reuters revelou que a gestão do então ministro da Saúde Eduardo Pazuello preteriu as negociações com a Pfizer para a compra de vacinas por acreditar que o país não precisaria de mais imunizantes além dos acordos para produção nacional das vacinas Oxford-AstraZeneca e CoronaVac. Fontes relataram à Reuters que as cláusulas seriam superáveis.
Apenas no final das negociações Pazuello e Bolsonaro se envolveram com os executivos da Pfizer. O Ministério da Saúde só assinou formalmente um acordo para a compra de 100 milhões de doses da vacina com a Pfizer em 15 de março e as primeiras doses começaram a ser aplicadas no início de maio.
Procurada por e-mail para comentar o teor dos telegramas, a Embaixada de Israel no Brasil não respondeu de imediato.
____________________ * Deputado diz ter consultado presidente da Câmara sobre denúncia na compra da Covaxin

247 - O deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) afirmou ter informado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), as suspeitas de corrupção envolvendo o contrato para a aquisição da vacina indiana Covaxin, fabricada pela Bharat Biotech e representada no Brasil pela farmacêutica Precisa.
"Em respeito ao presidente Arthur Lira, eu mando mensagem e falo "o que eu faço nessa situação?". Ele fala assim: "Amigo, se tem crime, se tem corrupção, toca para frente. Por que você está me perguntando isso?". Tipo assim: "O que eu tenho a ver com isso?". E ele responde: "Explode, cara. Se você tem certeza que tem alguma coisa de errado, senta o pau", disse Miranda em entrevista à CNN Brasil.
Questionado sobre o fato, Lira disse que Miranda apenas compartilhou uma notícia sobre o caso. "Ele Miranda, há uns dias atrás, me mandou um print do G1 falando algo sobre a compra dessa vacina e que quem estava envolvido nisso, que falava ter sofrido alguma pressão, era o irmão dele. Eu disse a ele que se ele tivesse alguma coisa errada, explicite. Eu não sou órgão de controle", disse o presidente da Câmara.
____________________ * Queiroga se irrita com pergunta sobre escândalo da Covaxin, imita Bolsonaro e abandona entrevista

247 - O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, irritou-se com uma pergunta sobre a vacina indiana Covaxin e, assim como costuma fazer Jair Bolsonaro (sem partido) quando é contrariado, abandonou a entrevista. O titular da pasta da Saúde fala com os jornalistas após cerimônia de lançamento de um fórum sobre proteção de fronteiras, nesta quarta-feira (23).
Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, inicialmente, o ministro foi questionado sobre o que faria em relação à Covaxin e indícios de superfaturamento na negociação do Ministério da Saúde para a compra da vacina.
Queiroga disse que o governo não comprou nenhuma dose do imunizante.
"Todas as vacinas que têm registro definitivo da Anvisa ou emergencial, o Ministério considera para aquisições. Então, esperamos este tipo de posicionamento para tomar uma posição acerca não só dessa vacina, mas de qualquer outra vacina que obtenha registro emergencial ou definitivo da Anvisa porque já temos hoje um número de doses de vacina contratados acima de 630 milhões", afirmou Queiroga.
A reportagem relata ainda que um outro jornalista perguntou então se o governo compraria a vacina mesmo com preço mais alto que os demais imunizantes. Foi neste momento em que o ministro se irritou.
"Eu falei em que idioma? Eu falei em português. Então, não foi comprado uma dose sequer da vacina Covaxin nem da Suptinik", disse o ministro.
Os repórteres explicaram que a pergunta se referia a uma intenção futura. Queiroga disse que "futuro é futuro" e deixou a entrevista sem responder a outras indagações.
Saiba mais
O deputado federal Luís Miranda (DEM-DF) disse ter alertado Jair Bolsonaro sobre a pressão de "coronéis" contra o irmão do parlamentar, Luís Ricardo Fernandes Miranda, "para fazer um pagamento e importar uma vacina que não tem Anvisa". O congressista fez referência ao imunizante da Índia Covaxin. Segundo Miranda, a pressão tinha como objetivo a realização de "um pagamento que estava em descompasso com o contrato e pior: o nome da empresa que vai receber o dinheiro não é a que fez o contrato com o Ministério da Saúde, nem a intermediária".
"É uma loucura. Fora as quantidades: o contrato previa 4 milhões na primeira entrega e só tem 300 mil", disse o parlamentar, de acordo com relatos publicados pelo site O Antagonista.
A Covaxin foi a vacina mais cara adquirida pela gestão de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, ao custo de US$ 15 por dose. A compra superfaturada do imunizante foi a única para a qual houve um intermediário e sem vínculo com a indústria de vacina, a empresa Precisa. O preço da compra foi 1.000% maior do que, seis meses antes, era anunciado pela fabricante.
____________________ * Direita prepara a "segunda via", com apoio de Mourão - Rodrigo Vianna
Por Rodrigo Vianna

A extensa (e, por isso mesmo, surpreendente) cobertura da Globo às manifestações de 19 de junho não foi uma rendição puritana ao jornalismo factual. Não. As imagens que passaram de forma generosa pela tela da emissora, com destaque para o povo na rua a pedir "Fora Bolsonaro", são parte de uma estratégia política mais ampla e manhosa - que fez acender o sinal amarelo no Palácio do Planalto.
Porta-voz da direita liberal (que oficialmente ainda sonha com uma "Terceira Via", entre Lula e Bolsonaro), a emissora da família Marinho escancara que o projeto na verdade mudou: a única saída para os liberais é a "Segunda Via". Ou seja: é preciso desidratar e afastar Bolsonaro, deixando o caminho livre para uma candidatura que possa enfrentar Lula em 2022.
Esse arranjo pelo alto só é possível num acordo que inclua bancos/mídia/PSDB e o que sobrou da direita liberal... mas que reserve espaço para o ator fundamental no Brasil pós 2016: o chamado Partido Militar.
O arranjo da Segunda Via passaria por um governo de transição, sob comando do general Mourão, que articularia o combate à pandemia, estabilizando minimamente o país na travessia até a eleição.
Esse arranjo abriria espaço para um chapa de direita que incluísse a direita liberal e os militares. O compromisso central seria manter intactos o poder e os privilégios das Forças Armadas, mas sem os excessos de Bolsonaro.
No Boa Noite 247 desta terça-feira, o comentarista Luís Costa Pinto disse que em Brasília já se fala em dois nomes para compor tal chapa: o tucano Tasso Jereissati e o general Santos Cruz. Parecem dois nomes sem densidade eleitoral. Dependeriam de uma gigantesca campanha midiática para ganhar viabilidade... Mas têm aliados poderosos na mídia, nos quartéis e na burguesia brasileira.
Não foi à toa, portanto, o destempero do capitão delinquente, na última segunda-feira (21 de junho), a vociferar contra Globo e CNN (de quem ele esperava parceria, na tarefa de minimizar os atos populares do dia 19). Bolsonaro não teme só as ruas. Mas fareja que parte da elite econômica quer usar as manifestações para armar o bote contra ele.
O movimento ficou mais evidente com o espaço inusitado que o JN abriu ao vice Hamilton Mourão nesta terça-feira (22 de junho), chamando o público para assistir a entrevista completa do general na Globo News, com uma manchete singela: "Mourão diz que governo falhou ao não fazer campanha de orientação sobre a Covid".
A Globo estende o tapete vermelho a um vice que tem procurado se desvincular do presidente, lamentando publicamente sua exclusão das reuniões ministeriais.
Esse é o jogo que se prepara. Mas não quer dizer que vai necessariamente vingar. Primeiro, porque o Partido Militar por enquanto segue fechado com o governo. Segundo, porque Bolsonaro mostra capacidade de resistir nas ruas e no Congresso, ao lado do cúmplice Arthur Lira.
A operação da Segunda Via depende de uma deterioração da popularidade de Bolsonaro, que afastasse dele o Centrão o alto oficialato.
Isso pode acontecer nos próximos meses, a depender do sucesso crescente das manifestações de rua e das investigações da CPI - que agora puxa o fio de um caso grave de corrupção: Bolsonaro não foi apenas irresponsável diante da pandemia, mas pode ter envolvido o governo na compra superfaturada de vacinas da Índia.
Além da rua e da CPI escancarando a corrupção de um governo em frangalhos, há o risco iminente de racionamento de energia. Essa conjunção de fatores é a condição necessária para que avance a operação de Segunda Via.
As cartas estão na mesa. Mas, como sempre, falta combinar com o povo...
____________________ * "Pequi roído": STJ tranca inquérito por outdoors com críticas a Bolsonaro em Palmas

Danilo Vital, Conjur - O Direito Penal é uma importante ferramenta conferida à sociedade, mas que deve ser acionado situações extremas, que denotem grave violação aos valores mais importantes compartilhados socialmente. Não deve servir, jamais, de mordaça nem tampouco instrumento de perseguições políticas aos que pensam diversamente do governo eleito.
Com esse entendimento, a 3ª Seção do Superior Tribunal de Justiça deu provimento a Habeas Corpus para trancar o inquérito aberto a pedido do então ministro da Justiça, Andre Mendonça, contra o responsável por financiar outdoors na cidade de Palmas (TO) com mensagens contra o presidente Jair Bolsonaro.
O investigado arrecadou verba através de vaquinha para instalar na capital do estado imagens do presidente com a mensagem “Cabra à toa não vale um pequi roído. Palmas quer impeachment já!”.
Relator na 3ª Seção, o ministro Ribeiro Dantas explicou que a proteção da honra do homem público não é idêntica àquela destinada ao particular, pois ao aceitar a militância política, resigna-se com maior exposição e escrutínio de sua vida e personalidade, bem como de seus atos.
Assim, nessa hipótese, não basta criticar o indivíduo o sua gestão da coisa pública para ocorrer o crime. É necessário ter a intenção de ofende-lo.
“No caso concreto, as críticas restringiram-se à analise politica e subjetiva da gestão empregada pelo presidente, que, da mesma forma que é objeto de elogios para alguns, é alvo de críticas para outros. Por isso não estão demonstradas nos autos todas elementares do delito, notadamente o especial fim de agir”, concluiu o ministro.
Em outubro de 2020, um simpatizante de Bolsonaro já havia apresentado queixa-crime que pedia a investigação pela Lei de Segurança Nacional também pelos outdoors. A Polícia Federal iniciou as apurações, mas a Corregedoria Regional da PF e o Ministério Público Federal arquivaram o caso em outubro. Foi então que Mendonça pediu o inquérito.
Essa foi uma das muitas oportunidades em que o hoje Advogado-Geral da União usou a Lei de Segurança Nacional para embasar pedido de investigação contra desafetos políticos do presidente Bolsonaro. Como mostrou a ConJur, o uso desmedido da LSN reacendeu o debate sobre a reforma da mesma no Congresso, ações no Supremo Tribunal Federal e pedido para que a Procuradoria-Geral da República averigue abuso de autoridade.
____________________ * Christiane Pelajo briga com equipe e abandona estúdio no meio do programa (vídeo)

247 - Durante o telejornal ‘Edição das 16h’, da GloboNews, a apresentadora Christiane Pelajo brigou com a equipe do programa por conta de um problema técnico envolvendo o áudio.
A veterana reclamou que estava “em voo cego” por conta do não retorno do áudio. “Eu só pedi para aumentarem o volume, é simples”, disse.
Como o problema não foi contornado, ela abandonou o programa e disse que não poderia continuar a apresentá-lo com a falha.
____________________ * Defesa de Lula apresentará à ONU decisão do STF sobre suspeição de Moro

247 - Os advogados do ex-presidente Lula planejam, de acordo com a CNN Brasil, novamente enviar ao Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) uma manifestação sobre a decisão final do Supremo Tribunal Federal (STF) acerca da perseguição judicial sofrida pelo petista pela Operação Lava Jato e pelo ex-juiz Sergio Moro.
Desde 2016 o ex-presidente questiona na ONU as condenações que recebeu pela Justiça do Brasil.
Nesta quarta-feira (23), o Supremo deve encerrar o julgamento sobre a suspeição de Moro, reconhecida pela Segunda Turma do STF.
O tribunal, no entanto, já havia formado maioria pela parcialidade do ex-juiz em abril deste ano.
O objetivo da defesa é conseguir o reconhecimento de um órgão internacional de que Lula teve seus direitos subtraídos pelo Estado por meio da Lava Jato, dentre eles o direito político, tendo sido impedido de disputar a eleição para presidente da República em 2018, o que abriu caminho para a chegada de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto.
____________________ * Fundador da McAfee é achado morto em prisão horas após aprovarem extradição
De Tilt, em São Paulo
23/06/2021 17h23
Atualizada em 23/06/2021 19h48
O criador do antivírus informático John McAfee, 75, foi encontrado morto nesta quarta-feira (23) em sua cela em uma prisão, horas após a Justiça espanhola aprovar sua extradição para seu país de origem, os Estados Unidos.
"Foi encontrado morto em sua cela, aparentemente por suicídio", informou a porta-voz do sistema penitenciário na Catalunha (nordeste), sem dar detalhes.
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McAfee, um empresário que nos últimos anos se dedicou ao comércio de criptomoedas, foi preso em outubro de 2020 no aeroporto de Barcelona. Ele estava acompanhado de outras duas pessoas aguardando para embarcar para Istambul, na Turquia. Ele apresentou seu passaporte britânico e foi identificado a partir de um filtro de saídas internacionais.
Uma vez consultadas as bases policiais, sobre sua identidade, os agentes que realizaram a abordagem verificaram que havia um mandado de busca e prisão da Interpol, que exigia extradição imediata para os Estados Unidos, por causa da investigação do crime de fraude.
O Tribunal Nacional autorizou a extradição, mas a decisão ainda poderia ser apelada e deveria ser aprovada em última instância pelo governo espanhol. Se ele fosse entregue e julgado nos EUA, enfrentaria uma pena de até 30 anos de prisão.
Em março deste ano, ele foi indiciado pela Justiça dos EUA, em outro caso, por supostamente usar informações privilegiadas e lucrar com elas na venda de criptomoedas.
Pedido de extradição
As autoridades norte-americanas solicitaram a extradição alegando que ele ganhou mais de US$ 10 milhões entre 2014 e 2018 graças à atividade com criptomoedas, serviços de consultoria, conferências e venda de direitos para fazer um documentário sobre sua vida.
No entanto, "ele não apresentou declarações fiscais em nenhum desses anos e não pagou nenhuma de suas obrigações fiscais", de acordo com a ordem do Tribunal Nacional, um tribunal superior com sede em Madri.
"Para ocultar sua renda e bens", o réu "ordenou o pagamento de parte de sua renda a terceiros e colocou propriedades no nome deles", acrescenta o despacho, citando os argumentos da administração fiscal norte-americana, que estima a dívida do empresário em US$ 4,2 milhões antes de multas e juros.
Fortuna com antivírus
McAfee fez fortuna na década de 1980 com seu antivírus, que ainda leva seu nome. Em 2010, ele vendeu a companhia para a Intel por US$ 7,6 bilhões. Com a aquisição, a companhia ganhou um novo nome: Intel Security.
Nos últimos anos, se tornou um guru no mundo das criptomoedas e chegou a afirmar que ganhava US$ 2.000 por dia com elas —sua conta no Twitter tem mais de um milhão de seguidores.
Em um tweet postado em sua conta em 16 de junho, McAfee escreveu que as autoridades dos EUA acreditam que ele tenha "criptomoedas ocultas".
"Eu gostaria de tê-las", mas "meus bens restantes foram todos confiscados. Meus amigos evaporaram por medo de serem associados a mim. Não tenho nada. E não tenho arrependimentos".
Polêmicas
Mesmo longe das atividades da sua companhia de antivírus, McAfee sempre figurava no noticiário por polêmicas. Uma das principais ocorreu em 2012 quando ele foi considerado fugitivo pelas autoridades de Belize por estar envolvido no assassinato do seu vizinho, que era um cidadão dos Estados Unidos.
O crime não foi solucionado e, quando a polícia foi ao local para investigar, encontrou-o morando com uma garota de 17 anos e com um grande número de armas em casa. Na época, ele se disfarçou e fugiu do país da América Central. A família do falecido entrou com um processo por homicídio culposo e, no ano passado, um tribunal da Flórida ordenou que McAfee pagasse mais de US$ 25 milhões de indenização.
O documentário "Gringo: A Perigosa Vida de John McAfee" dá detalhes da vida excêntrica que ele levava em Belize.
Em 2016, ele resolveu se candidatar à presidência dos EUA pelo Partido Libertário, mas seus planos não foram adiante.
____________________ * Vacina cara, comprada com ajuda de Bolsonaro, FULMINA o mito ANTICORRUPÇÃO

Olga Curado
Colunista do UOL
23/06/2021 16h06
Atualizada em 23/06/2021 19h09
Vão caindo os tapumes do discurso do capitão reformado, que invocava, a uma crédula e desinformada turba, que estava acima das tentações da carne. Anunciava com veemência o propósito de passar a limpo o país acometido do mal nefasto da corrupção. Contou com a ajuda necessária de um ex-juiz alçado à condição de ministro da Justiça e agora reconhecidamente apontado por juristas, acadêmicos, íntimos das leis e do Direito, e com o reconhecimento do STF (Supremo Tribunal Federal), como parcial em julgamento contra o ex-presidente Lula.
Marco Aurélio Cunha pode ser expulso do São Paulo
O mito de que a corrupção "não existe no governo do capitão", como dizem de boca cheia seus vassalos, está ruindo. Não bastassem as denúncias, cujas investigações permanecem inconclusas por manobras de todo o tipo, visando, claro, proteger os filhos do capitão, e que não são reconhecidas como apropriação de dinheiro público. Rachadinha, no Código Penal, se chama peculato. Corresponde a pegar salário de funcionários de gabinetes de parlamentares.
Além disso, ninguém faz as contas das habilidades de Midas - o mítico rei que transformava em ouro tudo que tocava (e que morreu de inanição), do filho Zero alguma coisa, feliz proprietário de mansão em Brasília, cujo soldo como senador é insuficiente para comprar o imóvel, mesmo somando a pecúnia com o caixa arrecado de apartamento que alega ter vendido, mas que continua em seu nome.
Ao deixar o cargo que pouco honrou no Ministério da Saúde, o general da ativa falou que sofria pressão para dar "pixulé". Na desastrosa gestão do meio ministro, que tinha a incumbência de liderar o país na luta contra a sanha do vírus que matou mais de 500 mil pessoas no Brasil, parece ter algum rastro de "pixulé", a serem verdadeiros os indícios de contratação impertinente de compra da vacina Covaxin.
Teve gente graúda na estrutura do ministério do general da ativa trabalhando fora do horário de expediente para assegurar que uma vacina não aprovada pela agência de vigilância sanitária do país, a Anvisa, fosse comprada a peso de ouro. O "pixulé", como carinhosamente se denomina uma sobra de orçamento - segundo explicou à CPI o general -, é, porém, reconhecido vulgarmente como um termo que designa "uma grana" por fora.
O acesso ao Brasil foi garantido à vacina da Índia, produzido por um laboratório que, inspecionado, não logrou atender aos requisitos de produção pré-definidos pela Anvisa, além de não ter o seu uso autorizado, ainda que emergencialmente, no país.
A volúpia inexplicável, do Congresso, de um deputado Ricardo Barros, que pragueja contra a Anvisa e muda texto de lei, para ir célere na construção de dispositivo legal que permitisse a importação da Covaxin, fechando acesso a outras, é um mistério. Concede, na mudança da lei, autorização de uso de imunizante, desde que este fosse permitido pelas autoridades sanitárias da Índia. Uma generosidade para com o laboratório, já que a tal autoridade sanitária não estava incluída entre aquelas agências cuja reputação justificaria liberação automática para a população brasileira.
Mas o assunto parece ter o dom de gerar desequilíbrio emocional. O meio-ministro da Saúde, o médico Marcelo Queiroga, felizmente a salvo da covid-19, pelo uso de máscara e aparentemente respeitando o distanciamento social, de mãos dadas com os bonecos do Zé Gotinha, foi, todavia, contagiado pela irritação e desequilíbrio emocional do capitão, de quem não é censor. Cobrado sobre a celeridade na compra da vacina Covaxin, saiu abruptamente de entrevista, visivelmente acabrunhado e desconfortável com as explicações que terá que produzir sobre o assunto. Como vem dizendo e repetindo à exaustão, ele é "um ministro do presidente". Então, afinal de contas, explique.
Como e por que se deu a contratação de compra da Covaxin, com empenho pessoal do capitão reformado, mesmo depois de alertado por servidor de carreira do Ministério da Saúde e pelo deputado irmão deste mesmo funcionário, de cuja assinatura dependia um pagamento de US$ 45 milhões adiantados para uma empresa, parceira do laboratório, estranha ao contrato, e criada meses antes?
O capitão reformado diz ter ojeriza à corrupção. Não terá dificuldade em explicar como pegou o telefone e ligou para o primeiro-ministro da Índia, pedindo o imunizante do laboratório daquele país, assegurando que a vacina faria parte do programa brasileiro de vacinação, mesmo que não houvesse até então autorização da Anvisa para uso no Brasil.
E não terá dificuldade em explicar, cioso que se diz ser quanto ao uso do dinheiro público, por que pulou rapidamente para a aquisição de um imunizante cujo preço é, em média, quatro vezes mais caro que o da Pfizer, cuja oferta se recusou a avaliar por quase um ano.
Há quem diga, nos corredores de Brasília, que entre uma baleia e um tubarão - numa cínica e debochada referência à escolha para a Presidência da Câmara dos Deputados - a prudência recomendaria a escolha da baleia. Tubarões ficam ferozes e matam quando têm fome.
Apenas uma digressão.
____________________ * Governo usa Deus, inverte a lógica e barra perguntas ao falar das suspeitas

Carla Araújo
23/06/2021 19h58
Atualizada em 23/06/2021 20h45
A entrevista coletiva do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, no início da noite desta quarta-feira (23), chamou atenção pela irritação que o auxiliar do presidente Jair Bolsonaro demonstrou ao defender o chefe em relação às suspeitas de irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin.
Além disso, há pelo menos outros três pontos que merecem atenção nesta entrevista.
Queiroga se irrita após ser questionado sobre Covaxin e abandona entrevista
O primeiro deles é a inversão da lógica que cerca qualquer denúncia de irregularidade. É esperado que as autoridades peçam apurações sobre o tema para de fato garantir que não houve — por parte de nenhum responsável — algum tipo de fraude.
Onyx, no entanto, mirou sua artilharia contra o deputado Luis Miranda (DEM-DF) e o irmão dele, Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, ao anunciar que ambos serão alvos de investigação.
O segundo ponto, não menos alarmante, foi o uso de Deus para encorpar as ameaças de que os "delatores" serão punidos. "Deus tá vendo", disse o ministro, acrescentando em tom ameaçador que os irmãos Miranda não pagarão apenas "perante a Deus". "O senhor não vai se entender só com Deus, vai se entender com a gente também".
O estado é laico. Não tem ou não deveria ter religião. O presidente Bolsonaro não liga para isso. Usa o bordão "Deus acima de todos" desde a campanha e, com isso, autoriza que seus ministros também usem Deus para defender seu governo de suspeitas de corrupção.
Por fim, após uma apresentação com dados de diversas vacinas e uma narrativa extremamente confusa do assessor especial da Casa Civil e ex-auxiliar do general Eduardo Pazuello na Saúde, Élcio Franco, o que podemos classificar como "a cereja do bolo": "Não haverá perguntas", disse o funcionário do Palácio do Planalto que acompanhava a fala do ministro a jornalistas.
Na semana em que Bolsonaro mais uma vez agrediu verbalmente uma repórter - por não gostar de suas perguntas — após uma suspeita de tamanha gravidade, se o governo tivesse realmente a intenção de esclarecer o tema o mínimo seria permitir que a imprensa fizesse questionamentos.
Mas não, em busca de reforçar a sua narrativa, Onyx tenta apenas com sua indignação convencer os brasileiros de que não há nada de errado com as suspeitas em torno da compra do imunizante indiano.
O caso, no entanto, não deve ficar por isso mesmo. Além da CPI da Pandemia, o TCU (Tribunal de Contas da União) já avalia o assunto. Mais cedo, o ministro Bruno Dantas, disse que espera que as "questões nebulosas", que cercam o contrato para a compra da vacina indiana, devem ser esclarecidas pela corte.
____________________ * Reinaldo Azevedo - Depoimento de Terra evidencia algo além do negacionismo: é o "negocionismo"
Colunista do UOL
22/06/2021 22h49
O deputado Osmar Terra (MDB-RS) foi, de muito longe, a figura mais repulsiva que prestou depoimento à CPI da Covid. E sabemos que falou porque quis. Foi, sim, convocado, mas é bom que fique claro: não era obrigado a fazê-lo. Bastaria ter lembrado ao comando da CPI o que dispõe o Parágrafo 6º do Artigo 53 da Constituição:
§ 6º Os Deputados e Senadores não serão obrigados a testemunhar sobre informações recebidas ou prestadas em razão do exercício do mandato, nem sobre as pessoas que lhes confiaram ou deles receberam informações.
Mas Terra, que as redes sociais batizaram de "Enterra" em razão do efeito prático que têm a suas ideias — que não são só suas, mas é fato que atua como conselheiro do presidente da República —, fez questão de falar. E nunca antes nesta CPI alguém mentiu de forma tão determinada. E, no seu caso, sabemos, o desdobramento possível deveria se dar no Conselho de Ética da Câmara. Não vai acontecer. E os reacionários do Rio Grande do Sul já tem o seu bastião para a Câmara em 2022. É possível, inclusive, que o deputado tenha feito uma torção à extrema direita para mudar seu eleitorado.
Quem ainda não o fez deve assistir ao documentário "A Terra é plana?", que retrata o encontro anual de terraplanistas. Destaco um aspecto em particular da turma, que é mais divertida, note-se, do que os negacionistas brasileiros. Em seus esforços, eles colhem evidências de que a Terra é... redonda. Diante do dado escancarado, afirmam algo como: "Está vendo, não falei?" Há muitos grãos de loucura no grupo.

Em 15 dias, haverá a comprovação oficial de que Bolsonaro mente sobre urnas
Não é caso do cloroquinismo no Brasil. O negacionismo também é um "negocionismo". Também envolve, por óbvio, interesses. O que nos terraplanistas é loucura autofinanciada é, no "bolso-terrismo", exercício de poder e política deliberada para mobilizar setores do eleitorado e a parte mais atrasada do empresariado. Como temos visto. E Terra decidiu emprestar a sua cara de "médico" ao delírio anticientífico. Se aqueles do documentário negam o que veem por maluquice, Terra não tem receio em dizer os maiores disparates por cálculo.
Afirmou, por exemplo:
"As previsões que eu fiz foram baseadas não num estudo matemático apocalíptico como foi o do Imperial College, mas nos fatos que existiam na época, em março. Fevereiro e março".
No dia 11 de março, com atraso — e não há cientista responsável que conteste a demora —, a Organização Mundial de Saúde declarou a existência da pandemia. Em março do ano passado, este senhor declarou que, em 12 ou 13 semanas, o ciclo da pandemia chegaria ao fim porque é esse o comportamento do vírus.
Em julho, muito além das tais treze semanas, ele estava liderando os esforços contra a quarentena. E falou nestes termos à CNN:
"Eu tenho muito receio de botar apelido nas pessoas. Então tenho que chamar os que defendem a quarentena de apocalípticos, de catastrofistas. Hoje está um esforço muito grande da mídia, não coloco a CNN nisso, de assustar as pessoas. Assustar, assustar, não explicam nada, não falam dos ciclos virais, como funcionam, não mostram luz no fim do túnel. É medo, medo, caixão, caixão, cova rasa, só para assustar as pessoas. Tratam as pessoas de forma infantil, acham que têm que botar medo para as pessoas ficarem trancadas dentro de casa".
No dia 31 de julho do ano passado, contavam-se 92.568 mortos. Nesta terça, segundo a contabilidade do consórcio dos veículos de comunicação, são 504.897. Que importa que, em 11 meses, o número de óbitos tenha se multiplicado por mais do que cinco?
Terra se negou a reconhecer os erros do passado e continua a defender as mesmas teses. Seu compromisso não é com os fatos, mas com o eleitorado que busca cativar. E sua condição de médico serve apenas para tentar emprestar certa credibilidade ao deputado. E o deputado enlameia a reputação do médico porque, no fim das contas, o que ele quer é chafurdar no pântano das disputas políticas mesquinhas. E pouco importa quantos morram no meio do caminho.
Reitero: ele depôs porque quis. A Constituição lhe garantia o direito de não depor. Nem precisaria recorrer ao Supremo. Na prática, preferiu usar o negacionismo e o morticínio como palanque.
O CASO DA SUÉCIA
A cara de pau é de tal sorte que chegou a apontar a Suécia como um caso bem-sucedido de combate à Covid-19 porque ali não houve lockdown. Que se note: houve, sim, medidas restritivas, mas bem mais leves no que nos países vizinhos. E o país é um caso de gestão desastrosa da Covid. Tanto é assim que o governo caiu, em meio à terceira onda da doença.
O primeiro-ministro Stefan Löfven recebeu, pela primeira vez na história do país, voto de desconfiança. O país conta com 141,7 mortos por 100 mil habitantes, contra 14,7 na Noruega, 17,5 na Finlândia e 43,2 na Dinamarca. No Brasil, com efeito, são 238 por 100 mil. Mas comparem as condições da pobreza brasileira com as da pobreza sueca.
Terra, reitere-se, não tem compromisso com os fatos. Negou o que a ciência comprova de modo peremptório e irrespondível: os lockdowns funcionam para fazer despencar as curvas de contaminação e morte, como evidencia a cidade de Araraquara, no Brasil. Ou o Reino Unido, que o deputado citou como exemplo negativo, onde teria havido surtos gigantescos apesar dos lockdowns. Não! É o contrário. Boris Johnson hesitou em recorrer à medida. Aliás, quem popularizou no mundo a expressão "imunidade de rebanho" foi o gabinete de Johnson. E experimentou a tragédia.
Mas ele, ao menos, aprendeu com o erro. Johnson passou a adotar os lockdowns, e o número de contaminados e mortos despencou, números consolidados depois com uma ampla vacinação.
ASQUEROSO
Chamei seu depoimento de repulsivo porque se nota ali a retórica de alguém que pretende torturar a medicina para obrigá-la a confessar o que quer o político. Mas ele conseguiu ir além, sendo asqueroso. Afirmou, por exemplo, que, se isolamento funcionasse, não haveria tantas mortes em asilos. É boçal. Isso aconteceu não porque os idosos tenham ido colher o vírus nas ruas, mas porque o vírus invadiu os estabelecimentos a partir daqueles que mantinham contato com o mundo externo. E, aí sim, o confinamento torna tudo pior porque se supõe um contato mais próximo entre as pessoas confinadas do que em outros ambientes.
Terra não sabe disso? Sim, ele sabe disso.
E, claro!, negou que tenha feito parte de um gabinete paralelo quando vídeos, testemunhos e fatos apontam o contrário. Nomeado numa reunião informal pelo próprio presidente, foi uma espécie de coordenador daqueles que resistiam às orientações da ciência.
Em março do ano passado, o deputado previu que o novo coronavírus mataria no Brasil menos do que o H1N1, que matou 796 pessoas em 2019. Já são 504.897 mortos. Ele errou, digamos, 634,29 vezes. Mas o "Enterra", como o chamam as redes, exibe a convicção, que deve ser falsa, de que fez a coisa certa. Os fatos não são do seu interesse.
Foi à CPI caçar votos.
Depois de Bolsonaro, ele é o mais agressivo dos homens públicos a fazer uso da necropolítica: a política da morte.
Não é só negacionismo. Também é "negocionismo".
____________________ * A geração Z te deixou 'cringe'? Pois espere a ascensão dos alpha
Matheus Pichonelli
Colunista do UOL
23/06/2021 04h00
Não sei vocês, mas quem era esquisito dentro da própria bolha geracional não viu o menor sentido na choradeira diante da ferida narcísica de quem acaba de descobrir que é feio e não está mais na moda.
(Se vocês pegaram a referência, vocês envelheceram. E estão fora de moda. E provavelmente não estão mais belos.)
Alguns de nós, nascidos no começo dos anos 1980, já éramos cringe antes de virar modinha. Digo isso enquanto ostento meu pijama e minha calça larga no camarote às avessas onde vi entrar e sair de cena todo tipo de moda. Das meias coloridas ao ICQ, passando pelo litrão. Nunca fui usuário nem de um nem de outro. Só fiz conta no Orkut porque valia nota na faculdade.
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Cartas de fã dos Beatles para a filha imaginavam como o mundo seria hoje
Durante anos, sustentei a fama de "jovelho" abstêmio que ia pra missa e jogava futebol de salão de All Star e meia branca comprida e camisa verde-limão do Palmeiras de 96 pra dentro, como manda o figurino. Na época a moda era ser grunge, mas eu levaria anos para descobrir Nirvana.
Até então, era só o esquisitão que não sabia cantar uma única música da MTV ou das sete melhores da Pan. Gostava mesmo era dos hinos dos clubes de futebol. E de jornal. Em papel — isso muito tempo antes de me aposentar com cabelos brancos e sentar na varanda para reclamar em paz do preço da carne.
Gostava tanto de jornal impresso que cheguei a ouvir (sem ser visto) o pai de uma namorada dizer, num misto de estranheza e indignação, a um amigo: "ele é bonzinho. Você dá um pedaço de jornal pra ele e ele fica horas no canto sem amolar ninguém".
Era verdade. No cursinho, meu melhor amigo era um professor de literatura que, no intervalo, apostava corrida com a professora de gramática para ver quem pegava antes o jornal para ler o Cony. No clube, enquanto a Turma do Samba arrancava suspiros dos meus amigos descolados, eu gritava "toca Raul" no baile da saudade com os amigos do meu pai.
Pois a geração que ridicularizou o tio do pavê e da piada do "vou Paul McCartney no correio" agora se vê no espelho. É a justiça divina proclamada no Twitter: "Você não ria da sua mãe quando ela batia o dedo indicador na tela do Motorola e levava meia hora pra escrever "oi" no WhatsApp? Agora se ferra aí pra fazer dancinha do TikTok".
Entre os hábitos dos novos velhos ridicularizados pela geração Z estão assistir noticiário, usar sapatilha, ouvir pagode, gostar de "Friends", pontuar frases e mandar emojis amarelos chorando de rir. É nessa hora que o amigo internauta (olá, internauta!) se pergunta: e desde quando tudo isso NÃO foi deprimente?
Aos novos integrantes do baile da saudade, se aceitarem um conselho, diria que ser chamado de "cringe", a nova versão de "deprimente", "uó" e coisa e tal, é mel na chupeta perto do que vocês faziam com os detentores de mullets, dos permanentes, de gírias tipo "broto", dos bigodes à la Belchior ou do disco dos Pholhas..
Meu deslocamento com o que era cool na época certa me deixou com casca. Espanto mesmo foi saber que minha calça larga entrou na moda sem sair do lugar. Daí a reivindicar meu lugar na moda são outros 500.
De onde estou, não guardo recalque ou inveja de quem chegou agora à pista. Até porque não costumo invejar quem não transa.
Preocupação mesmo eu tenho é com a geração alpha. Os nascidos depois de 2010.
Tenho um representante da gangue dentro de casa e já percebo alguns sinais.
Se pudesse, chutaria que os centennials são uma espécie de limbo entre quem nasceu offline e os que vão promover o maior detox digital já visto. Desconfio (na verdade torço para) que meu filho, aos 20 anos, considere o suprassumo da cringice humana ver alguém num sábado à noite com os dedos e os olhos presos numa tela. E que as redes sociais sejam para ele o que foram os sucos em pó sabor câncer para minha turma.
Com os alpha, chuto eu, muitos hábitos milenares estarão com os dias contados. Aí sim haverá choro e ranger de dentes.
Um exemplo é o fanatismo futebolístico, que herdei do meu pai, que herdou do meu avô, que herdou do bisavô. Meu filho de oito anos não só não se identifica com as neuroses do pai diante da TV como não vê o menor sentido em torcer em uma tela plana por algo com o qual não pode interagir, mudar, pausar, deixar pra ver depois. Para quem tem dez segundos de atenção disputados por todos os produtores de conteúdo deste mundo, 90 minutos mais os acréscimos e o intervalo é um latifúndio temporal que ele não está disposto a ceder.
As aulas online aprofundaram também a minha impressão de que não fará mais tanto sentido acordar, se trocar, se deslocar para o outro lado da cidade para passar a manhã ou parte da tarde sentado à espera do sinal da escola. Só não tenho ideia (nem muito otimismo) do que virá no lugar.
Quando criança, meus passeios aos finais de semana eram — para mim — chatíssimas incursões pela chácara dos meus pais e tios. Nossa cidade não tinha shopping center ainda. Quando o primeiro surgiu, andar pela praça de alimentação era como viajar, de galocha, para a Lua. A maior aventura que alguém poderia viver.
Para meu filho, que passou seus primeiros domingos numa bolha de ar condicionado e luzes artificiais, nada é mais empolgante do que um dia no mato.
Se, para a geração Z, não faziam sentido expressões do tipo "namorar pela internet" —como se as duas dimensões já não estivessem fundidas— para os alpha, a noção do real tende a ser mais bem delimitada. Se nossos primos mais novos, hoje na casa dos 20 anos, passam tranquilamente uma noite, uma semana ou dois anos apenas com interações online, quem atravessou o dia nas aulas virtuais quer mais é ficar longe de tudo aquilo na primeira chance.
Para crianças que viram os pais (e tios mais novos) pilhados no celular, interagir com alguém não vale quando a pessoa está presa em uma tela. Vimos isso na pandemia, quando os encontros virtuais só entretinham os jovens adultos. Para nosso filho, a vida mesmo só voltou a aflorar quando revisitou o quintal da vó. De todas, o mundo lá fora ainda é a tecnologia que mais o impressiona.
____________________ * Brincando com Fogo: Participante se masturba, quebra regras e engana affair

Felipe Pinheiro
Do UOL, em São Paulo
23/06/2021 17h08
Homens e mulheres sarados desfrutam de um cenário paradisíaco ansiosos pela pegação, mas eles recebem um balde de água fria: estão na nova temporada da versão americana de "Brincando com Fogo" ("Too Hot to Handle"), reality show da Netflix que acaba de estrear.
Para quem não conhece o programa, a premissa do formato é que ninguém pode transar, beijar ou mesmo praticar "autogratificação", como é definido o ato de se masturbar. A quebra das regras é punida em dinheiro.
O UOL assistiu aos primeiros quatro episódios, que já estão disponíveis, e a seguir conta tudo o que rolou.

Quebrando as regras
Cam é o participante geek do reality, um clássico fã de "Senhor dos Anéis". Quem vê a cara de bom moço pode não desconfiar, mas ele se revela o protagonista boy lixo da primeira metade dos episódios.
O personal trainer de 24 anos se envolve com Emily, que acaba se apaixonando pelo rapaz de abdômen trincado. A atração entre os dois é de soltar faíscas, mas eles precisam se controlar. Não conseguem e violam as regras do programa, bem como outros casais que acabam não segurando a tentação.
É proibido transar
Ela lembra um purificador de ar, mas seu papel é bem mais divertido. Um pouco autoritário também. Lana é um dispositivo cuja função é controlar os comportamentos dos participantes. Ele quer manter todos em um "retiro" para que eles encontrem uma conexão profunda com seus parceiros.
Em seu manual de boa conduta, está proibido qualquer tipo de gesto sexual. O prêmio que ela oferece ao final é de US$ 100 mil, mas este valor é diminuído quando se violam as regras. E elas são quebradas sempre — daí a graça do programa.
Essa é a Lana do "Brincando com Fogo"
Plano para burlar as regras

Cam estava sofrendo, literalmente, de tesão. Depois de reclamar de dores nos testículos por não ejacular, ele bolou um plano com Emily, sua affair no jogo. "Você tem que bater uma punheta para mim", diz ele.
Ela não concorda muito com a ideia pelo medo de perder dinheiro, mas à noite, debaixo das cobertas, a movimentação não passa despercebida. Lune pune os dois na frente de todos os demais participantes.
"Apesar dele não ter chegado lá, isso resultou em uma diminuição de US$ 4 mil do prêmio", diz o dispositivo. Cam se mostra arrependido, mas não propriamente pela pegação escondida. O rapaz lamenta:
Se eu soubesse que perderíamos US$ 4 mil, eu teria ido até o fim. Minhas bolas não estariam doendo.
Depois, ele acaba violando mais uma vez as regras. Cam vai ao banheiro e pede a dois amigos que vigiem a porta. É durante o banho que ele se "alivia".
Boy lixo
Cam acaba roubando a cena na primeira metade de "Brincando com Fogo", mas não pelo comportamento exemplar. E não julgamos ele por não conseguir segurar a testosterona. O personal trainer acaba ficando a fim de Christina, uma piloto que entra no meio do reality show. Mas a novata não sabe que entrou no "Brincando com Fogo".
Ele, que a recepciona, deve decidir se deixa a pegação rolar e se conta em qual programa ela acabou de entrar. Cam fica animado com a morena, mas diz que não pode ficar com ela. E não pela relação que começou com Emily, mas porque eles estão no "Brincando com Fogo".
A modelo descobre que o jovem disse a Christina que a conexão deles não era muito forte e também que ele quase beijou a novata. Emily reclama:
Eu me sinto péssima agora. Ele deveria me tratar com mais respeito. O que sentimos nessa semana, segundo ele, foi mais do que ele teve em quatros anos.
DR e arrependimento
Cam e Emily discutem. A modelo diz como se sentiu ferida pelo comportamento do jovem nerd: "Você não quis beijá-la só para não perder dinheiro. Você não pensou em mim. Estou magoada. O que sinto por você é verdadeiro".
Cam se mostra arrependido pelo que fez."Eu fui um cuzão, não fui? Esse sou eu. Sempre quero ter tudo, mas não é bom ser assim. Estou começando a perceber. Não posso tratar as pessoas como tratei", desabafa.
____________________ * Paul Krugman: A semana em que o pânico sobre a inflação morreu
Os números e as declarações recentes do Fed deflacionaram os argumentos que embasavam um surto sustentado de inflação
Você se lembra de quando todo mundo estava em pânico com relação à inflação, soltando alertas ameaçadores sobre o perigo de uma estagflação como a da década de 1970? Está bem, muita gente continua a dizer esse tipo de coisa, alguns porque é o que sempre dizem, alguns porque é o que dizem quando o presidente é democrata, alguns porque estão extrapolando com base em grandes aumentos de preços acontecidos nos cinco primeiros meses deste ano.
Mas para as pessoas que prestam mais atenção ao fluxo de informações novas, o pânico com relação à inflação se tornou uma coisa muito semana passada, sabe?
Falando sério: tanto os números recentes quanto declarações recentes do Fed (Federal Reserve), o banco central dos Estados Unidos, deflacionaram seriamente os argumentos que embasavam a história de um surto sustentado de inflação. Pois esses argumentos sempre dependeram da afirmação de que o Fed é deficiente, seja em termos morais, seja em termos intelectuais (ou ambos). Ou seja, para entrar em pânico sobre a inflação, é preciso acreditar que ou o modelo do Fed sobre como a inflação funciona está todo errado ou que o Fed não teria coragem política de esfriar a economia caso ela estivesse perigosamente superaquecida.

As duas crenças agora perderam a maior parte de qualquer credibilidade que talvez pudessem ter. Comecemos pela teoria sobre a inflação.
Desde a década de 1970, e especialmente desde um importante estudo publicado em 1975 por Robert Gordon, muitos economistas tentaram distinguir entre flutuações transitórias na taxa de inflação, causadas por fatores temporários, e uma taxa subjacente de inflação que é muito mais estável —mas também difícil de derrubar caso se torne desconfortavelmente alta. A ideia é de que a política monetária deveria em geral ignorar a inflação transitória, que vem fácil e vai fácil, e se preocupar apenas caso a inflação subjacente pareça estar se tornando alta demais (ou baixa demais).
Desde 2004, o Fed vem publicando rotineiramente uma estimativa da inflação subjacente calculada por meio da exclusão de alterações nos preços dos alimentos e da energia, que são notoriamente voláteis, e usa esse indicador a fim de rebater demandas de que aperte a política monetária diante de inflação que considere temporária —especialmente em 2010-2011, quando os preços do petróleo e de outras commodities estavam em alta e os republicanos acusavam o Fed de causar um risco de “aviltamento da moeda”.
O Fed tinha razão, é claro: a inflação não demorou a cair. E a distinção entre inflação transitória e subjacente —uma distinção que, a julgar pelas mensagens de email que recebo, gera ódio extraordinário em certas figuras de Wall Street— na verdade se provou um enorme sucesso prático, ajudando o Fed a manter a calma e continuar seu trabalho diante de pânicos inflacionários e deflacionários.
O Fed vem argumentando que os aumentos de preços recentes são semelhantemente transitórios. É verdade que eles não vêm dos alimentos e da energia, e sim de desordenamentos associados à pandemia que causaram disparada nos preços de carros usados, madeira e outras fontes não tradicionais de inflação. Mas a posição do Fed vem sendo a de que o episódio, como o pequeno salto inflacionário de 2010-2011, em breve terá acabado.
E no momento parece que o Fed estava certo. Os preços da madeira despencaram nas últimas semanas. Os preços de metais de uso industrial como o cobre estão em queda. Os preços dos carros usados continuam muito altos, mas sua alta parou e é provável que já tenham chegado a um pico. Mais uma vitória para a teoria da inflação subjacente.
E quanto à história alternativa sobre a inflação? Ela funciona assim: o American Rescue Plan do governo Biden injetou grande volume de poder aquisitivo na economia, e os domicílios afluentes, que acumularam grandes poupanças durante a pandemia, agora estão prontos para uma onda de consumo. Como resultado, os críticos alertam, haverá um caso clássico de dinheiro demais caçando produtos de menos, o que conduzirá a uma grande alta não só dos preços voláteis mas também da inflação subjacente.
Para aceitar essa história, porém, é preciso afirmar não só que o boom que está por vir será verdadeiramente imenso —ainda maior do que a maioria dos analistas antecipa— mas também que o Fed, que tem plena capacidade de cercear um boom descontrolado, ficará ocioso enquanto a inflação dispara.
No entanto, declarações do comitê de open market do Fed—o órgão que estabelece a política monetária— na semana passada tornam essas afirmações menos críveis.
Ler as declarações do banco central é muitas vezes um exercício de “kremlinologia”. O Fed não anunciou mudanças concretas de política, e assim o objetivo é identificar mudanças de tom que oferecem pistas quanto ao futuro. Mas os observadores do Fed consideram que os novos comunicados tendem à linha dura, sinalizando uma disposição ampliada de pisar no freio caso a economia ultrapasse de fato os limites de velocidade.
Em minha opinião, apertar os freios não será necessário. Mas ao sugerir que agirá caso preciso, o Fed terminou por desmontar qualquer argumento de que devemos nos preocupar sobre uma volta à década de 1970.
Assim, por que tamanha agitação? Os pessimistas monetários erraram inúmeras vezes desde o começo da década de 1980, quando Milton Friedman começou a prever uma retomada da inflação que jamais aconteceu. Por que tanta disposição de festejar como se estivéssemos em 1979?
É justo afirmar que o apoio do governo à economia é muito mais forte agora do que foi nos anos Obama, e por isso faz mais sentido se preocupar com a inflação desta vez. Mas a veemência da retórica anti-inflacionária vinha sendo absurdamente desproporcional aos riscos reais —e esses riscos eram ainda menores do que pareciam algumas semanas atrás.
Tradução de Paulo Migliacci
____________________ * Há 50 anos, JONI_MITCHELL olhou as PROFUNDEZAS do mundo. E era AZUL

Pedro Antunes
Colunista do UOL
22/06/2021 17h27
Sem tempo?
- Há 50 anos, Joni Mitchell largou o noivo e a vida caseira para viver com hippies na Europa.
- Ao voltar aos EUA, a canadense gravou Blue, disco eleito o 3º melhor de todos os tempos pela Rolling Stone EUA.
- Mitchell escondeu segredos em Blue, alguns deles possivelmente nunca revelados.
- Com estas canções, Joni Michell olha para a nossa alma, assim como mostra a dela para nós. É uma experiência de troca.
- Blue é o disco que você deveria ouvir hoje.
Joni Mitchell é um tipo raro de artista que se esconde à vista de todos. Daqueles que escrevem a música mais íntima possível e os segredos profundos escondidos nela passam despercebidos por décadas.
É o caso, por exemplo, de "Little Green", uma música criada a partir de um dos momentos mais transformadores da vida da artista nascida e criada em quase completo isolamento na infância passada em Fort Macleod, no Canadá.
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A única coisa boa de 1964 foram esses discos. E olhe lá
"Little Green", uma das mais bonitas do álbum "Blue", tem versos sobre uma filha que Joni entregou para adoção em 1964, aos 21 anos.
Esta era uma história mantida em segredo pela artista até uma antiga companheira de quarto de Joni, dos tempos em que elas cursavam escola de arte, contou tudo para um tabloide.
Este colunista reprova completamente a exposição da intimidade da artista, mas este fato ajuda a explicar a algo tão mágico de "Blue", o álbum seminal que hoje completa 50 anos.
Aliás, mais do que seminal. "Blue" ganhou relevância nos últimos anos, principalmente pela ambivalência e pela capacidade extraordinária de olhar através do ouvinte.
Este foi o quarto álbum da cantora canadense em um intervalo de dois anos e pouco. Mais do que um grande momento criativo, aos 27 anos, quando ela lançava "Blue", Joni vivia uma revolução interna: largou o noivo, deixou a vida caseira para trás, foi viver com hippies na Europa e criou um dos álbuns mais importantes da história.
Na época, Jjoni tinha um relacionamento com Graham Nash, um dos ícones da folk music norte-americana, integrante do supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young) e anunciou uma aposentadoria que, na verdade, se tornaria em um retiro.
Até 1971, ela era mais uma artista daquela cena de música acústica que acompanhava a transformação florida do mundo dos anos 60 e, que, com a chegada da década seguinte, percebeu que "o sonho acabou".
O maior sucesso dela até então era "Big Yellow Taxi", uma balada com discurso ecológico, que chegou ao 14º lugar nas paradas canadenses.
Chame de retorno de saturno se quiser, mas o fato é que Joni rasgou as convenções da época e o papel que era esperado dela para ganhar o mundo.
Cansada daquela vida doméstica com Nash, ela comprou uma passagem só de ida para a Europa e foi embora, morar em uma caverna na Grécia (isso não é exagero e realmente aconteceu, o que era muito comum na época).
A parte da Grécia é importante para a história porque foi lá que ela se familiarizou com um instrumento chamado dulcimer, usado para gravar "A Case of You", considerada por David Crosby, outro gênio do folk, uma das "mais belas canções já feitas".
Não são poucos os elogios feitos Joni Mitchell e "Blue" ao longo da história, mas se um desavisado der play no álbum e deixá-lo ressoando como trilha sonora ao fundo, possivelmente a ficha do disco não cairá.
"Blue" é daqueles trabalhos que exigem total e completa atenção.
E, caso o ouvinte se entregue para esta experiência, "Blue" enxergará através dele. E isso pode ser incomodo, reconfortante, alegre e melancólico, tudo ao mesmo tempo.
Joni dizia ter esta habilidade. Falava ser capaz de enxergar a alma das pessoas. Contava que, no supermercado, chorava simplesmente porque foi viu pela alma de alguém que cruzou com ela.
O que ela faz em "Blue" é estabelecer esta comunicação de mão dupla, o que não é comum na música pop mais simples. Geralmente, a emoção do artista é o que chega no público. Não há contrapartida a não ser que o ouvinte tenha vivido pela mesma situação.
De uma maneira sobrenatural, Joni acessa partes de nós que não queremos que as pessoas conheçam: lugares de incertezas, inseguranças e medos. E também nostálgicos, sobre as saudades do que vivemos e até do que nunca existiu. Sim, é muito louco. É como "Little Bird", por exemplo, em que ela canta, no subtexto, sobre a filha que colocou para adoção, entende?
Joni conta na biografia "Reckless Daughter: A Portrait of Joni Mitchell", de David Yaffe, que seus pais, ambos, eram daltônicos. Ela, pelo contrário, via cores intensamente.
Por isso, ao nomear "Blue" com o azul, ela diz muito neste título. É uma cor que se conecta com a água, com a espiritualidade, com um olhar muito interno.
Tudo é muito ambíguo ali, canções que são tristes e felizes ao mesmo tempo, porque Joni é capaz de entender, como poucos, a complexidade humana. E, veja bem, ela tinha só 27 anos.
Há uma questão técnica interessante também aqui. Joni teve poliomielite na infância e isso enfraqueceu a mão esquerda dela, que é a responsável por criar os acordes o braço do violão. O autor e neurocientista Daniel Levitin (autor de livros como "This is Your Brain In Music"), contou ao The New York Times que conversou com ela sobre esta ambiguidade desses acordes.
A dificuldade de estabelecer qual é raiz dos acordes de Joni, além de criar uma dificuldade para os baixistas que trabalharam com ela, também cria esta sensação de estranheza de duas forças opostas soando ao mesmo tempo. Sem a definição de que o acorde é maior (digamos, mais "feliz) ou menor (melancólico e introspectivo), a forma como sentir ao ouvi-lo depende de você. Que doidera, não é?
"Blue" é um álbum que melhorou com o tempo, sem dúvida. Em 1971, quando saiu, revistas como a mesma Rolling Stone EUA, listaram os homens com quem Joni havia tido intimidade para tentar contextualizar cada uma das passagens das músicas em vez de sacá-lo como obra ótima que é.
Curioso é que artistas homens da mesma geração, como Bob Dylan, Neil Young, Leonard Cohen, James Taylor, não passaram pela mesma situação, apesar de também criarem arte a partir de suas vidas, relações, amores e tesões.
Em um mesma canção, "A Case of You", Joni chorava por uma relação que estava acabando e, dizia: "se quiser me encontrar, estarei no bar". Isso me representa, viu?
Criada em uma comunidade tão pequena e restrita, Joni não teve ídolos na infância nem ninguém para se inspirar musicalmente durante a juventude. Pense nela como esta tela em branco quando ela se constrói como artista.
Portanto, cada transformação na vida dela foi intensa E a transição dos 20 anos para a próxima década da vida, já naturalmente dura, foi ainda mais acentuada para Joni.
Com um modo de cantar e respirar tão próprio e acordes únicos, Joni Mitchell possivelmente não sabia que estava sendo tão transgressora. Mas lá estava ela, questionando tudo e todos: sexo, drogas, os Estados Unidos, o idealismo, o amor, o que nos faz feliz e o próprio rock.
Joni Mitchell olhou na profundeza do mundo e viu azul. Talvez a gente nunca entenda completamente o que isso significa, mas passados 50 anos, isso ainda emociona.
____________________ * Se sangria de assinantes continuar, TV paga 'morre' em 7 anos
Colunista do UOL
23/06/2021 10h53
Menos de 30 anos depois de surgir e se expandir no Brasil, a TV por assinatura já enfrenta o risco de desaparecer do mapa.
Se a perda de assinantes continuar nos níveis atuais, que vão de 150 mil a 200 mil assinantes "cancelados" por mês, num prazo de sete anos essa mídia deixaria de existir.
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Assista: Por que TV paga perde tantos assinantes no mundo
Ou então chegará a um paradoxo de só ser sintonizada por quem faz uso da pirataria.
Hoje são cerca de 33 milhões de usuários "piratas" contra cerca de 43,5 milhões de "legalizados" (cerca de 14 milhões de assinantes).
Não são só os assinantes que têm telefonado para as operadoras pedindo o cancelamento (o que as fez reforçar as equipes de atendimento).
As próprias operadoras também têm feito cortes de assinaturas em massa devido à falta de pagamento.
Se a crise econômica e o desemprego persistirem ou aumentarem, a pirataria continuar à solta, e se os serviços de streaming não cometerem o mesmo erro de subirem muito o preço de suas mensalidades, a TV paga já pode vislumbrar seu próprio fim.
É sobre isso que o colunista Ricardo Feltrin comenta esta semana no canal do UOL no YouTube.
____________________ * Marvin Gaye, "What's Going On" já não era 1⁰ lugar uns 25 anos atrás? ____________________ Opinião: Pedro Antunes - 50 anos do disco que desbancou os Beatles - e por que você deveria ouvi-lo

Pedro Antunes
Colunista do UOL
21/05/2021 12h29
Sem tempo?
- Hoje o álbum What?s Going On, de Marvin Gaye, completa 50 anos.
- E este é o disco que ficou no centro de uma polêmica por ser escolhido como o melhor de todos os tempos pela Rolling Stone dos Estados Unidos.
- Acontece que em 2003, quando a primeira lista foi criada, o topo era ocupado pelos Beatles. Na versão de 2020, a liderança ficou com Gaye.
- Aqui dou 5 motivos para entender os motivos que fizeram de What's Going On liderar a lista de melhores de todos os tempos.
E não fui eu a destituir os Beatles, antes que o ódio comece. Foi a Rolling Stone dos Estados Unidos que, em 2020, refez a famosa lista de 500 melhores álbuns de todos os tempos criada 17 anos atrás e destronou Paul, George, John e Ringo do topo.
Em vez de trazer o clássico "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" no lugar mais alto da lista, a primeira colocação foi destinada a "What's Going On", trabalho de Marvin Gaye, outra lindeza de disco, que havia aparecido na 6ª posição na edição anterior da RS.
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Billy Gibbons está obcecado por queijo coalho. Ah, e também gravou um álbum
Já os Beatles, que tinham quatro álbuns entre os dez primeiros colocados na lista de 500 melhores álbuns da história - "The Beatles" (Álbum Branco), em 10º; "Rubber Soul", em 5º; em 3º, o "Revolver"; além da primeira colocação para "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" - foram relegados. Tiveram "somente" um disco no top 10.
Vamos comparar?
Top 10 de melhores álbuns de todos os tempos da RS EUA de 2003:
- 10º) Beatles, "The Beatles" (Álbum Branco)
- 9º) Bob Dylan, "Blonde on Blonde"
- 8º) The Clash, "London Calling"
- 7º) Rolling Stones, "Exile on Main Street"
- 6º) Marvin Gaye, "Whats Going On"
- 5º) Beatles, "Rubber Soul"
- 4º) Bob Dylan, "Highway 61 Revisited"
- 3º) Beatles, "Revolver"
- 2º) Beach Boys, "Pet Sounds"
- 1º) Beatles, "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band"
Top 10 de melhores álbuns de todos os tempos da RS EUA de 2020:
- 10º) Lauryn Hill, "The Miseducation of Lauryn Hill"
- 9º) Bob Dylan, "Blood on the Tracks"
- 8º) Prince and the Revolution, "Purple Rain"
- 7º) Fleetwood Mac, "Rumours"
- 6º) Nirvana, "Nevermind"
- 5º) Beatles, "Abbey Road"
- 4º) Stevie Wonder, "Songs in the Key of Life"
- 3º) Joni Mitchell, "Blue"
- 2º) The Beach Boys, "Pet Sounds"
- 1º) Marvin Gaye, "What's Going On"
Com a nova lista, a Rolling Stone EUA criou uma baita discussão. E mudou o status quo dos álbuns em questão e também da eternidade das listas de melhores de todos os tempos. Afinal, nada mais é sólido, escrito em pedra. Tudo é líquido e se transforma de acordo com o movimento que vivemos, certo?
Ou você ouve o mesmo álbum, dia e noite, no verão e no inverno, apaixonado e logo após levar um chute no traseiro?
Em um dos primeiros textos desta coluna, falei sobre o caso. Gerou também um bafafá porque concordava com a nova lista. E no dia em que "What's Going On" comemora 50 anos de existência (o 11º disco de Gaye saiu em 21 de maio de 1971), digo que ainda concordo.
Isso não significa menosprezo aos artistas que estavam na primeira lista e que, agora, caíram algumas posições.
Acho os Beatles fenomenais. Tenho um disco favorito deles por mês (agora, em maio, é "Abbey Road"). Também devoro cada palavra de Bob Dylan, ainda piro na melancolia solar dos Beach Boys e toda vez que penso em Londres, lembro-me de ouvir "London Calling" em uma viagem que fiz para lá, a primeira sozinho, com os salários economizados da época em que era um repórter de esportes e corria atrás de respostas além do básico dos boleiros.
Todos têm um lugar aconchegante no meu coração. E sempre terão.
Mas "What's Going On" me faz arrepiar atualmente. Pela precisão dos versos de Gaye, dono de uma voz que, se eu fosse cristão, diria ser assim que cantam os anjos. A temática é afiada, desesperadamente atual. "O que está acontecendo?", clamava o músico. "O que está acontecendo?", a gente se pergunta todos os dias quando abrimos a home do UOL e nos deparamos, por exemplo, com a notícia de que o Brasil recusou 10 e-mails da Pfizer por vacinas contra a Covid-19.
Aqui vão 5 motivos para ouvir, entender e apreciar o novo cinquentão do pedaço. E você pode fazê-lo sem necessariamente colocá-lo no primeiro lugar da sua lista pessoal, ok?
1) Luta contra a depressão
O fim dos anos 60 e início da década seguinte foram particularmente pesados para Gaye.
Ele perdera a parceira de duetos Tammi Terrell para um câncer no cérebro, descoberto três meses antes da morte dela em 1970. Deprimido, afundou-se no vício de cocaína. Abusiva do álcool e tinha problemas no relacionamento com Anna Gordy (casamento que chegou ao fim em 1973, embora o divórcio só tenha sido oficializado dois anos depois).
Gaye tentou tirar a própria vida com uma arma, inclusive.
O artista sentia que não era merecedor do sucesso que tinha até então, conseguido principalmente por "I Heard It Through the Grapevine", primeira música dele a estar no topo da parada geral dos Estados Unidos.
Ele se sentia uma marionete de Anna Gordy, sua esposa, e de Berry Gordy, sogro dele e também dono da gravadora Motown.
"Em 1969 ou 1970, eu comecei a reavaliar todo o conceito do que queria que a minha música passasse para as pessoas. Eu estava muito influenciado pelas cartas enviadas pelo meu irmão do Vietnã, assim como pela situação social dos Estados Unidos",Marvin Gaye, à Rolling Stone
Gaye não recusava a vida de popstar que tinha, mas dinheiro, drogas e mulheres não acalmavam os anseios e sociais artísticos dele.
Assim nascia "What's Going On".
2) Luta para conseguir lançar o álbum
Gaye não teve vida fácil para lançar a música que deu nome ao álbum. Na Motown, tinha independência o artista que tinha dado dinheiro o suficiente para a companhia com outros discos. E, apesar de famoso, Gaye não havia conquistado este status naquela época.
A preocupação de Berry Gordy era que Gaye dividiria seu público. Foi o que sentiu ao ouvir o single que trazia para o centro da narrativa um caso de violência policial contra negros em Berkeley, bairro localizado na zona oeste de San Francisco, de levada funk suave e arranjos criados sobre uma base de acordes menores e melancólicos.
Músicas políticas tinham criado o próprio espaço no universo pop graças a "A Change Is Goona Come", canção poderosa na qual Sam Cooke cantava sobre direitos dos negros nos Estados Unidos.
Na visão de Gordy, o artista perderia a numerosa parcela branca da sua base de fãs caso lançasse aquela canção criada por Al Cleveland, Renaldo Benson e Gaye (que também a produziu).
O músico ficou fulo da vida. Para ele, era aquele o melhor momento para cantar "What's Going On" e prometeu entrar em greve caso a negativa seguisse. Não lançaria mais nada até ver a prensagem de "What's Going On" como single.
Isso aconteceu, mas sem o conhecimento de Gordy. Por baixo dos panos, foram fabricadas 100 mil cópias do single, que se tornaram insuficientes ainda na primeira semana de lançamento.
Ao todo, o single vendeu 2 milhões de cópias e se tornou, até aquele momento, a segunda música mais bem-sucedida de Gaye lançada pela Motown.
Gordy, enfim, concordou com "What's Going On", nos termos de Gaye e deu-lhe a possibilidade de trabalhar com os melhores músicos disponíveis no elenco da Motown. Em uma semana, o álbum estava pronto.
3) Bastante contemporâneo
A comparação de "What's Going On" com as tensões raciais nos Estados Unidos em 2020 são claras. O gatilho para o álbum foi justamente uma ação de violência exagerada de um policial contra protestantes pacifistas antiguerra em 15 de maio de 1969 testemunhada por Renaldo Benson (da banda Four Tops), em Berkeley, na Califórnia, em um dia que ficou conhecido como "Quinta-feira Sangrenta".
O senso de urgência em tratar aquelas temáticas fez Gaye colocar as "próprias fantasias para trás", segundo ele contou à Rolling Stone EUA, para ser capaz de "mexer com a alma das pessoas". "Eu queria que as pessoas olhassem para o que estava acontecendo no mundo".
Além das tensões raciais nos EUA, a inútil Guerra do Vietnã também fervia os sentimentos estadunidenses.
Bastante conceitual, o álbum parte de uma narrativa de um negro que voltou do Vietnã como veterano de guerra e testemunha o estado das coisas na época: injustiça, ódio, desigualdade.
Aqui, Gaye escreve sobre pobreza, sobre abuso de drogas e também apresenta a preocupação com questões ecológicas, também.
Ou seja, o que Gaye escreveu está a anos-luz de distância de ser resolvido mesmo 50 anos depois.
Um disco desses merece ser ouvido. Dia sim, dia sim.
4) "Nós podemos mexer com as fundações do mundo"
O tópico acima se inspira no verso de "Wholy Holy" (o original é "We can rock the world's foundation").
Por mais tenso e melancólico que seja "What's Going On" e fosse aquele momento dos Estados Unidos, o novo cinquentão do pedaço é uma obra-prima por não se basear em um sentimento apenas. O desconforto com a crise estadunidense na época foi a pólvora, mas o que se ouve ali, até nos momentos mais tensos e políticos, é uma mensagem de amor.
Enquanto retrata a vida do jovem negro na época, Gaye leva luz a uma realidade que era minimizada e apagada. Dar voz àqueles que queriam que fossem calados é uma das forças dos versos do artista. Mais do que cantar a dor, Gaye cantava a união. O desejo por mudança. O anseio por um mundo melhor.
Não é o mais otimista dos álbuns, mas a delicadeza com que Gaye e banda pincelam as mazelas da época cria um quadro com algumas cores otimistas na tela. É como se dissesse: está ruim, mas podemos mudar isso se nos unirmos.
5) Até os britânicos concordam com o topo para Gaye
O quinto tópico é uma curiosidade. Em 1985, a revista britânica NME elegeu "What's Going On" o melhor álbum de todos os tempos. Sete anos mais tarde, foi a vez do jornal The Guardian repetir a escolha.
Sim, duas publicações inglesas, terra de Beatles e Rolling Stones, ambos relegados na segunda versão da lista de 500 melhores da estadunidense Rolling Stone, concordam que "What's Going On" deveria estar no topo.
Três listas criadas nas décadas de 80, 90 e 2020 mostram o eterno rejuvenescimento da arte de Gaye.
Político, psicodélico, delirante, melancólico e até otimista. Uma obra-prima que toca a alma.
E, dois anos depois de cantar sobre política, Gaye criou outro clássico, desta vez destinado aos amantes: "Let's Get It On". Afinal, amar é um ato político.
____________________ * PORNÔ ou EROTISMO? Cenas de SEXO em ELITE desafiam MORALISMO

Aline Ramos
Colunista do UOL
21/06/2021 12h00
Elite é mais uma série teen totalmente distante do que é a vida de um adolescente comum. Isso está longe de ser um problema. Com muito sexo, assassinatos, dramas, crimes e traições, a produção espanhola da Netflix se firmou como uma das queridinhas do público jovem e chegou à sua quarta temporada.
Se as temporadas anteriores já eram capazes de chocar um público mais conservador, a quarta chegou com os dois pés na porta. A quantidade de cenas de sexo fez a série ser comparada ao site de vídeos pornográfios Xvideos. No momento, falar de Elite é falar de sexo.
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Final da 4ª temporada de Elite supera temporadas anteriores na Netflix
Sexo casual em evidência
Mesmo que, de modo geral, a gente acredite que adolescentes são mais liberais, as críticas feitas ao teor sexual da última temporada podem indicar o contrário. Há um certo moralismo quando se compara Elite ao pornô. Sempre houve sexo na série. Mas o que mudou agora?
As três primeiras temporadas são carregadas de drama e tudo parece muito intenso. Na quarta, há diferenças. Com a chegada de personagens novos e que não possuem relação prévia com os colegas, os vínculos estabelecidos são mais frágeis e superficiais. E isso se estende ao sexo.
Sendo assim, podemos dizer que anteriormente o sexo carregava mais sentimentos. A existência de vínculos afetivos entre os personagens atenuava a forma como o público recebia as cenas quentes. A partir do momento em que as relações sexuais se tornaram, em sua maioria, casuais e focadas no prazer, passaram a ser mais condenáveis.
Relações homossexuais ganham destaque
Apesar de ainda contar com relacionamentos heterossexuais, a atual temporada focou ainda mais nas relações homossexuais. Se antes o trisal era formado por dois homens e uma mulher, agora são três homens gays. Além disso, a formação de um casal de mulheres é novidade, assim como as cenas de sexo entre elas.
E mais, um dos garotos gays é adepto da cachorrada e passa a maior parte do tempo procurando por sexo casual. As relações heterossexuais definitivamente ficaram para trás na quarta temporada de Elite.
Erotismo x pornografia
Há um debate antigo sobre as diferenças entre pornografia e erotismo. É sempre difícil definir o que é uma coisa e o que é outra, já que os conceitos são abstratos e mudam de acordo com os costumes de cada época. Isso é o que pode explicar por que a atual temporada de Elite se tornou tão polêmica.
De maneira geral, séries, filmes e novelas reproduzem relações sexuais heterossexuais, classificadas como eróticas e artísticas. É com esse modelo que o nosso olhar foi acostumado.
Já o sexo homossexual, não monogâmico e casual, ainda é tabu para muita gente, assim como para a maioria das produções de dramaturgia. Por isso, ganha a fama de pornográfico.
O lado bom disso tudo é que o que é considerado pornográfico hoje pode ser considerado apenas erótico amanhã. O tempo absolverá Elite.
____________________ * 'Luca' troca a ambição da Pixar pela lembrança de um verão perfeito

Roberto Sadovski
Colunista do UOL
23/06/2021 03h29
Em "Curtindo a Vida Adoidado", Ferris Bueller decide cabular aula e tirar um dia de folga. "A vida passa muito depressa", diz, a certa altura. "Se não paramos para curti-la, ela escapa por nossas mãos." De certa forma, isso vale para os dois lados de "Luca", nova animação da Pixar.
"Aproveitar a vida" é justamente o que move seus protagonistas, dois monstros marinhos adolescentes que sentem vontade de ver o mundo além de seus limites. Desacelerar e aproveitar a paisagem, por outro lado, serve para o estúdio, que aqui dá um respiro em seus filmes mais densos e abraça a simplicidade de uma boa história.
Mesmo seguindo uma trilha mais segura do que aventuras mais densas como "Soul" ou "Viva! A Vida É Uma Festa", "Luca" é uma história charmosa sobre amizade e aventuras, sobre respeito e diferenças, que usa um tema bastante familiar - o do "peixe fora d'água" - para construir uma fábula de escopo menor mas alcance emocional imenso.

Esse "peixe", por sinal, é quase literal. Luca é um monstro marinho que vive com sua família no mar que banha a costa da Itália. A vida submarina tem uma regra simples, repetida sempre por seus pais: não vá à superfície e, sempre que puder, fuja dos humanos.
As coisas mudam quando ele conhece Alberto, adolescente como ele, aparentemente abandonado pelo pai e ansioso para explorar o mundo dos humanos. A dupla comporta-se exatamente como adolescentes curiosos, experimentando o mundo além das fronteiras de sua criação. Quando Alberto convence Luca a visitar um vilarejo na outra margem do atol em que eles vivem, tudo muda.
O diretor Enrico Casarosa, estreando aqui no comando de um longa, aproveita ao máximo a premissa simples (e nunca simplória). "Luca" segue uma narrativa familiar de descoberta e reviravoltas, uma jornada que vai fazer com que os dois garotos aprendam mais sobre eles mesmos e sobre o mundo que os cerca.
Tudo acontece em um clima de tensão cômica: fora da água Luca e Alberto tornam-se meninos normais, mas basta se molharem para voltar à sua forma original de criaturas marinhas. Em uma cidade obcecada em "caçar" monstros, eles descobrem o que os une e, também, o que os faz tão diferentes um do outro.
Até porque Alberto quer se divertir e ganhar dinheiro para comprar uma vespa (sim, a motoca tradicional italiana) e ver o mundo. O plano é compartilhado por Luca, mas ele começa a experimentar novos desejos quando uma menina que se torna amiga dos dois, Giulia, lhe apresenta o mundo dos livros e do conhecimento: Luca quer, então, descobrir o mundo de outra forma, e a ideia de ir à escola o fascina.
"Luca" segue algumas "regras" das aventuras Disney, aliviando seu peso. Temos um vilão, mas ele não é alguém com planos mirabolantes, e sim um valentão, Saverio, que esconde sua insegurança ao tentar impor sua vontade com a molecada local. Eles entram em choque quando Luca, Alberto e Giulia formam uma equipe para competir em um triatlo local, dividido em uma prova de natação, ciclismo e gastronômica - alguém precisa devorar um prato de massa, é a Itália!

A trama, claro, é a tapeçaria em que Casarosa desenha uma história honesta e emocionante, colocando o respeito pelas diferenças como motor narrativo. O filme é baseado em suas próprias lembranças da juventude, quando um amigo expansivo o ajudou a sair de sua zona de conforto. O fato de eles serem monstros marinhos é a materialização da metáfora dos adolescentes que se sentem diferentes - e tentam esconder para "pertencer" a algum lugar.
Tudo vem emoldurado em um filme belíssimo, que troca a perfeição visual por um design mais cartunesco, uma espécie de mistura dos mundos da Aardman e do Studio Gibli, com uma pitada da fantasia de Guillermo Del Toro. É uma aventura ligeira e com menos gatilhos emocionais do que a média da Pixar.
Ainda assim, impossível não sentir um calor no coração com a nostalgia dos amigos eternos que fizemos na infância, das descobertas que definem as pessoas que vamos nos tornar, e da lembrança inesquecível de um verão perfeito.
____________________ * BTS conduz a nova revolução do pop. Como fizeram Michael Jackson e Beatles

Pedro Antunes
Colunista do UOL
13/06/2021 09h57
Sem tempo?
- Existem artistas gigantes e aqueles que são revolucionários.
- Beatles e Michael Jackson são alguns artistas que definiram uma Nova Era.
- E estamos diante de uma nova revolução, agora comandada pelo BTS.
- Hoje, no aniversário de 8 anos da estreia do grupo sul-coreano, mostro como a existência deles já afeta completamente a música pop como a conhecemos.
Alguns artistas marcam época. Outros, poucos, transformam-nas.
Michael Jackson era um desses revolucionários de status quo. Na música pop (que não é um gênero e, sim, um ecossistema que envolve mais do que harmonias e versos), existe o antes e o depois de Michael Jackson.
Mais da coluna?

Luísa Sonza adia álbum e prova que o ódio está vencendo. Até quando?
O mesmo foi com os Beatles décadas antes.
Vimos artistas gigantes indo e vindo. E, tenho certeza, vocês apontarão toneladas deles em comentários raivosos no campo abaixo.
O zeitgeist se moldou à nomes extremamente populares, que venderam milhões de cópias de discos, fizeram turnês avassaladoras, ganharam capas de revistas importantes e impactaram mudanças, mas não foram revolucionários em âmbitos mais profundos, sócio, econômico e até políticos.
Este posto é para poucos. São aqueles que encapsulam o espírito de mudança e capitaneiam uma nova era.
Existiram artistas que dançavam melhor que Michael Jackson, que criaram a estética usada pelo Rei do Pop e outros repetiram seus feitos em números de vendas e talvez até o tenham ultrapassado.
Nenhum teve o mesmo impacto para o nosso planeta e a sociedade desde Michael.
Pelo menos até a chegada septeto sul-coreano.
Hoje o BTS comemora 8 anos de existência. Há quem só os tenha conhecido a partir do domínio do single "Dynamite", que ganhou as manchetes em 2020 ao ser a primeira música do K-pop a estrear no topo da parada Hot 100 da Billboard norte-americana, mas a história do grupo é bem anterior à isso.
(Aliás, "Dynamite" sequer representa o melhor que o BTS pode produzir, diga-se de passagem.)
BTS representa o novo pop e tudo o que vamos ver daqui para frente.
Aliás, já estamos vendo isso acontecer.
A nova revolução não é televisionada. E, possivelmente, não faz sentido para você, leitor com mais de 30 anos.
O BTS representa uma geração que, eu, nascido em 1986, ainda tento entender.
Tudo é fluído e líquido como a humanidade jamais viu. A crítica musical tradicional sofre para tentar enquadrar o grupo em uma caixinha musical, mas é impossível.
O BTS é trap e hardrock, são rap e dubstep, são música eletrônica e baladas folk. Nascidos de uma época em que se têm acesso a tudo, o BTS não sabe o que é amarra estética. Para que se prender em uma batida, se é possível ter todas?
Hoje, vemos um álbum extremamente popular, como "SOUR", de Olivia Rodrigo, ter punk pop, baladas tristes ao violão e músicas dançantes. Um artista de R&B alternativo como The Weeknd tem se aventurado por timbres dos anos 80, assim como Dua Lipa e sua nostalgia futurística.
A internet mudou o tempo das coisas - conceitualmente falando, o que é passado, presente e futuro no ambiente virtual? - e o BTS é a representação máxima deste novo capítulo musical. Não existe linearidade porque um álbum de 1988 pode ser descoberto agora, em pleno 2021 e soar novo para alguém.
Mas isso vai muito além da estética musical. A indústria tentou controlar seus ídolos como pode e o tiro eventualmente saiu pela culatra. Gente como Britney Spears, Demi Lovato e Justin Bieber são exemplos de artistas que, inseridos em uma bolha, perderam contato com a realidade. Cantavam músicas de plástico sobre sentimentos que nunca foram deles.
Viraram reis e rainhas sem contato com a realidade. Quando os seus pés tocaram no chão, quando perceberam a realidade, sofreram na frente das cruéis câmeras dos paparazzi.
Com letras conscientes e ligadas à saúde mental e à geração de jovens que tenta encontrar seu próprio espaço em um mundo globalizado, o BTS trata do indivíduo como figura única.
Há alguns anos, a música pop se comunicava com as multidões e falava-se de indústria de massa.
O BTS transcende esta ideia justamente ao olhar para dentro. Os integrantes sabem das pressões de ser um jovem moderno e assinam grande parte de suas próprias canções, diferentemente do pop enlatado que nos fazem engolir nos últimos anos, criados em "fazendas de composição" que reúnem autores de letras que tentam repetir fórmulas baratas.
Os integrantes do grupo cantam o amor-próprio sem parecerem gurus de autoajuda barata. Enquanto os mais velhos repetem frases como "você não tem motivo para ser triste", o cresce o interesse dos jovens para entender seus próprios sentimentos. Os termos angústia, ansiedade e depressão foram buscados 98% mais vezes em 2020, segundo dados do Google.
O que nos leva ao terceiro pilar da revolução do pop do BTS. Por conta da estética fluida e das letras sobre amor-próprio, já citados aqui, a relação que o grupo criou com fãs é de outro mundo.
Ou melhor, é do futuro. O Army, nome dado aos seus seguidores, não é só poderoso, como também se tornou uma arma política, agindo contra racismo e gente como Donald Trump. É uma parte poderosa da revolução do grupo e que age além das fronteiras da música.
Com oito anos de existência, o BTS abriu as portas de uma nova revolução. E ela não tem gênero, tem o indivíduo como figura central e move multidões com alcance que talvez a gente ainda não seja capaz de mensurar.
Preste atenção e verá, na música pop, como aspectos da ascensão do BTS já são notados em novos artistas, nas cores, na fluidez musical, no foco no bem-estar, na estrutura das canções.
E isso tudo não é um atestado de excelência, é de transcendência.
Muitos artistas são gigantes. Poucos são realmente revolucionários.
____________________ * Juliette é cobrada como se a felicidade do Brasil dependesse dela. Por que?
Pedro Antunes
Colunista do UOL
20/06/2021 20h18
Sem tempo?
- Juliette estrelou lives de Gilberto Gil e Wesley Safadão.
- Em ambas, cantou o melhor que pode, mas foi exigida como uma profissional.
- Juliette não pode errar e isso se torna perigoso.
- A vencedora do BBB 21 é cobrada por algo que nunca prometeu. De ótima cantora à fada sensata da web.
- Por que Juliette é cobrada como se a felicidade do Brasil dependesse dela?
Na semana passada, Juliette Freire, vencedora do BBB 21, cantou com Gilberto Gil.
Foi um bafafá danado. Vídeos, tuítes, posts em Instagram e matérias publicadas guerreavam sobre a presença da advogada e maquiadora no Arraial transmitido ao vivo ao lado de um dos maiorais da música brasileira.
Mais da coluna

BTS conduz a nova revolução do pop. Como fizeram Michael Jackson e Beatles
Reclamaram de afinação e debateram a validade artística da presença da nova queridinha do Brasil naquela prestigiada (e invejada) posição de cantar com Gil.
No fim, enquanto a internet caía matando em um debate infindável, Gil chorava de ver Juliette ali emocionada também. E isso não é pouco.
Outra semana, mais uma live. No sábado (19), Juliette fez uma participação no Arraiá do Safadão. Cantou (melhor do que na live do Gil, inclusive), mas a interpretação dela levou pancada de novo.
Aliás, dessa vez foi pior.
Juliette é cobrada por um nível de profissionalismo como cantora que não condiz com o que ela "prometeu" entregar.
Aliás, a única coisa que Juliette fez foi cantar durante a estadia em Curicica, no BBB 21. O mundo aqui fora que projetou nela uma excelência que nunca existiu.
Juliette não é cantora profissional. Não ainda. Ter mais de 31 milhões de seguidores a configuram como uma pessoa pra lá de influente e desejável para qualquer ação.
O engajamento que ela traz é excepcional e explica sua presença em eventos como estes em que números são fundamentais para anunciantes.
E mais: diga-me outro artista da música de hoje que seja capaz de entregar mais engajamento do que Juliette nestas lives.
De novo, número de likes, comentários e etc não significam talento, mas explica os convites. Atacá-la por aceitar as participações é culpar quem é inocente nesta história.
Veja bem: consigo imaginar outras sete cantoras que poderiam ocupar (e bem) o lugar de Juliette nestas lives, mas entendo quais são as regras deste jogo.
O que nos leva ao segundo problema da live com Safadão, que foi a alegada aglomeração de pessoas no estúdio, justamente no dia em que o Brasil atingiu a terrível marca de 500 mil pessoas mortas pela covid-19.
Claro que foi uma infelicidade sem tamanho. É óbvio que não é um bom exemplo. E evidentemente o dia 19 de junho será uma mancha na história do Brasil.
Mas quem deveria ser cobrado pelos 500 mil mortes está lá em Brasília comendo pão com leite condensado no café da manhã, não uma vencedora de reality show que está realizando o sonho de cantar com seus ídolos porque virou um fenômeno de popularidade.
A quantidade de posts de "decepcionados" que cobravam "sensatez" de Juliette me fazem imaginar se a vencedora do BBB 21 assinou, em algum momento, um contrato de fada sensata-mor, de rainha da sabedoria, de Madre Tereza moderna ou de nova santa a ser canonizada pelo Vaticano.
Até onde eu sei, ela não assinou nada, não.
Isso não significa que erros como a tal aglomeração em um dia tão terrível (como todos têm sido todos desde o início da pandemia) seja aceitável, mas é um erro como tantos outros que a gente viu durante a pandemia, como de YouTuber jogando futebol com amigos e cobrando distanciamento nas redes sociais depois. Calma.
Exigir excelência no canto, é irresponsável. Que ela seja perfeita em tudo, além de perigoso é doentio. De onde veio isso? Juliette carrega a felicidade do País nas costas, por acaso?
Juliette vai errar. E muito. Vai desafinar. E bastante. São as imperfeições que fazem dela humana. E o que a transformaram em personagem tão interessante a ponto de extrapolar as expectativas criadas durante a jornada pelo BBB 21.
Talvez ela se torne uma cantora das boas e eventualmente se assuma um posto de salvaguarda dos bons costumes e boas práticas exigidas pela patrulha da web. Por enquanto, ela é só Juliette.
____________________ * Juliette emociona Gil e prova que conto de fadas existe. E é brasileiro

Pedro Antunes
Colunista do UOL
14/06/2021 07h18
Sem tempo?
- Maquiadora e advogada, Juliette foi escanteada durante o BBB 21, mas viu sua vida se transformar.
- Vencedora do reality, hoje é maior estrela brasileira no Instagram. Todos a querem.
- No domingo, ela participou do Arraial de Gilberto Gil, exibido no Globoplay, para celebrar o dia de Santo Antônio.
- E, ao cantar três músicas com o mestre, fez Gil até chorar.
- Como não se emocionar com esta jornada, não é?
- Juliette é a prova de que os contos de fadas existem. E são brasileiros
Talvez tenha sido a lembrança do forró dançando bem grudadinho, dos pés rápidos que levantam a poeira do centro da praça durante a festa de São João. Ou fosse a emoção transbordante de Juliette Freire à sua frente.
Mais da coluna

Marisa Monte é o amigo que sempre pede uma dose. Neste caso, de otimismo
O fato é que Gilberto Gil chorou.
A instituição da música brasileira viu os olhos encherem d'água após apresentar "Asa Branca", hino de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, ao lado da campeã do Big Brother Brasil 2021.
"Maravilha é ter você aqui, você que cresceu com estas festas tão maravilhosas", disse Gil antes de engasgar com a emoção que subia à garganta.
"É a nossa alma dançando forró. Nossa história, nossa alma, nosso sangue, nossa vida", responde Juliette.
Afinando o violão, Gil aceitou o atropelo da emoção. "Deixa chorar", disse.
Tarde de domingo, 13 de junho. Dia de Santo Antônio. No Globoplay, Gilberto Gil fazia seu Arraial. É o segundo ano seguido que o coronavírus nos priva da alegria das festas de junho.
Acompanhado por uma banda formada por familiares e parceiros de estrada, Gilberto Gil transformou em calor a frieza do estúdio.
Que delícia de live, quente como um quentão fumegado goela abaixo.
As lágrimas de Gil caíram como se sentissem os versos que estavam por vir, de "Estrela" (do álbum "Quanta"), mais uma vez cantados com Juliette ao lado.
"O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir"
Juntos, Juliette e Gil ainda fizeram uma versão de "Esperando na Janela" (de Targino Gondim, Raimundinho do Acordeon e Manuca Almeida), antes dela se despedir pela primeira vez.
Chamou-o de padrinho, inclusive, em um ato de amor e devoção.
Quando voltou para cantar mais uma vez "Esperando na Janela" e mais solta, dançou com Gil. Errou com Gil. Sorriu com Gil.
Juliette é o conto de fadas brasileiro. A maquiadora e advogada que, injustiçada durante o confinamento o BBB 21, tantas vezes escanteada, tornou-se a vencedora do reality show. Mas mais do que ganhar aquele R$ 1,5 milhão, virou um cometa. É tudo puro suco de Brasil.
Entre tantos convites para cantar profissionalmente, principalmente depois de soltar a voz no programa da Globo com elegância ímpar, decidiu não cair na vala e no comum, fazer featzinho com artista da estação.
Juliette saltou para o voo mais alto. Cantou com Gilberto Gil, o maior de todos.
E se ele, nossa maior instituição, se desmonta em emoção, nesta mistura agridoce de saudade e fé, como não chorar também?
A história dela é de uma pessoa em mais 200 milhões, eu sei, mas inspira e emociona.
E isso tem nome: esperança.
____________________ * Ainda bem que temos Gilberto Gil

Pedro Antunes
Colunista do UOL
23/02/2021 15h26
O ar é úmido e denso. Zumbido dos insetos, o cantar dos pássaros no céu. A luz do sol quase não ultrapassa a copa das árvores. Os pés, descalços, tocam o solo molhado.
Paz.
Daft Punk revolucionou o pop com estética dos robôs e volta à forma humana
Experimente dar o play na música abaixo e sinta-se na cena descrita acima.
Gilberto Gil, de voz gentil, acalanta o coração desmatado de "Refloresta", uma música com o filho Bem Gil (que assina a produção da canção) e o trio Gilsons, formado outros integrantes do clã Gil, com filho e netos.
Suavemente, Gil canta sobre os perigos do desmatamento desenfreado, uma bandeira política da turma do agronegócio que costumeiramente banca o Presidente da República.
"Manter em pé o que resta não basta. Que alguém virá derrubar o que resta. O jeito é convencer quem devasta a respeitar a floresta"Alerta Gilberto Gil em "Refloresta"
Ao longo da faixa, também disponível em streaming, o desmatamento é o inimigo a ser combatido. Não basta parar, reforça Gil, é importante iniciar um processo de reflorestamento.
"Por que não deixamos o nosso mundo em paz?"
A iniciativa de "Refloresta" é do Instituto Terra, uma ONG criada por Lélia Deluiz Wanick Salgado e Sebastião Salgado, em 1998. O clipe, disponível acima, foi realizado pela Ampfy, dirigido por Ivi Roberg e produzido por Piloto.
Em uma parceria com TikTok, entre os dias 22 e 28 de fevereiro, cada vídeo publicado na plataforma com a canção e a hashtag do desafio #ReflorestaComGil será convertido em uma nova árvore plantada no Instituto Terra.
Diante de números alarmantes - como o aumento de 27% da mata atlântica de 2018 a 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro -, a voz do artista que criou "Refazenda" é uma sementinha de esperança e acalanto.
Em tempos de motosserra e das queimadas, ainda bem que temos a poesia, o lirismo e a candura de Gilberto Gil.
____________________ * A única coisa boa de 1964 foram esses discos. E olhe lá

Pedro Antunes
Colunista do UOL
31/03/2021 12h27
Alceu pegou o celular logo de manhã animado. Recebeu diversas mensagens hoje cedo, dia 31 de março. "Feliz aniversário da revolução", diziam os textos e desenhos toscamente criados, como se fossem feitos por um estudante do nível básico do Microsoft Paint - possivelmente, pensando aqui, talvez sejam feitos por estudantes do nível básico de Paint.
Em outras mensagens, lembravam outra data: 31 de março também era seu aniversário.
Mais da coluna

Bolsonaro estava esperando a Sarah do BBB 21 para a vaga de Ernesto Araújo?
Levantou-se apressado, porque tomara muita água na noite anterior antes de dormir desesperado pela saída da negacionista Sarah Andrade, do BBB 21.
De tão ansioso, mantinha o celular em uma das mãos enquanto urinava aquele xixi dos justos, o melhor deles, o primeiro do dia.
Encaminhou a arte sobre o tal "aniversário da revolução" para os grupos de WhatsApp enquanto realizava o ritual sanitário. Com uma mão só selecionou os dois grupos da família (da esposa e o grupo da família dele), os três dos cinco grupos de trabalho, os dois do futebol semanal para enviar o conteúdo.
Ufa. Exausto, entre as mensagens sobre a tal revolução e responder aos desejos de parabéns, embananou-se enquanto fazia a higiene do órgão. Canhoto, segurava o celular com a mão direita, que não é a boa, daí já viu.
Deixou cair o aparelho no vaso sanitário e gritou um palavrão.
Que doce ironia.
Dia 31 de março de 1964 não é aniversário de revolução. Não é data para se comemorar. É data para se lembrar, sim, mas para querer ver cada vez mais distante. Um recorte de um passado que se não é possível mudá-lo, que seja lembrado para nunca ser mais repetido.
Dia 31 de março de 1964 marca o início da ditadura militar no Brasil. O início de anos de chumbo, de falta de liberdade de expressão e de outras tantas liberdades tiradas por um governo autoritário e golpista.
Infelizmente, de golpe, a turma que ocupa Brasília entende.
O que não entende, Alceu e tantos outros, é a gravidade de chamar golpe de revolução. Foram 20 mil pessoas torturadas pela ditadura. Outras 434 pessoas foram mortas ou desapareceram durante o período no Brasil, de 1964 a 1985, segundo levantamento da Human Rights Watch.
Alceu, fã das piruetas de Bolsonaro no combate à covid-19, nega a vacina, usa máscara só quando pedem e tudo mais.
Agora, o aparelho celular com o qual espalha as me****s está no vaso sanitário, onde parece ser o seu lugar, de fato.
Para não dizer que não há nada de bom para ser lembrado de 1964, vamos lá.
Em janeiro, no nosso verão e antes do abominável golpe, Brigitte Bardot, a atriz, veio ao Brasil e fez um estrago. TODOS queriam Brigitte, que se "escondeu", mas nem tanto, no balneário de Búzios, no Rio de Janeiro - e, dizem, foi a visita da francesa que criou o hype hoje brega em torno do local.
Também em janeiro de 1964, nasceu Patricia Pillar, atriz brasileira que encanta a gente até hoje na TV.
Foi o ano em que foram lançados bons discos, embora não essenciais, de grandes artistas da música mundial.
A Beatlemania chegou em peso em 1964 quando os quatro jovens de Liverpool desembarcaram nos Estados Unidos. Foi um ano em que vários álbuns dos Beatles foram lançados também - destaco "Beatles for Sale" e a música "Eight Days a Week", porque atualmente minha semana parece ter oito dias (todos úteis!).
Quer outro? Foi em abril de 1964 que os Rolling Stones lançaram o primeiro álbum cheio. Na época, chamavam aquelas bolachonas de LPs, ou long plays. Mas os Stones ainda eram gurizinhos, faziam mais covers do que tocavam músicas originais e surfavam na onda do rock and roll.
Roberto Carlos lançou o álbum "É Proibido Fumar", cuja música que dá nome ao disco e a primeira da tracklist é famosa até hoje. E ganhou uma versão mais jovem e rebelde. "É proibido fumar", cantam os artistas. "Maconha!", vibra a plateia, em resposta, possivelmente com um baseado em mãos. A ironia da vida, de novo, percebem?
Citarei três discos incontestáveis, para não só falar mal de 1964.
"The Times They Are a-Changin'" é o terceiro álbum de Bob Dylan. Atento às questões sociais, crítico ao governo e às injustiças, o bardo Dylan criou uma de suas obras-primas, a música que deu nome ao álbum.
Também é o ano de "Getz/Gilberto", o trabalho que une o saxofonista estadunidense Stan Getz e João Gilberto, o nosso, o gênio do violão mudinho e da voz escolhida. Essa fusão de jazz e bossa nova ganhou até Grammy de melhor gravação do ano, derrotando "I Want to Hold Your Hand", dos Beatles, e "Hello, Dolly!", de Louis Armstrong, com "Garota de Ipanema".
Por fim, vou escolher um álbum que logo nos convida a esquecer que 1964 existiu. "A Love Supreme", álbum genial de John Coltrane, foi gravado em dezembro daquele ano maldito para os brasileiros e lançado em janeiro de 1965.
O amor supremo - o oposto o que se viu no Brasil do fatídico 31 de março de 1964 a 15 de março de 1985.
Não há nada para comemorar sobre 1964. Talvez estes discos, mas olhe lá. Prefiro safras de outros anos.
Certas ideias (e certas memórias) merecem ficar no mesmo lugar onde jaz o celular do negacionista Alceu.
No vazo sanitário.


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