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Posso falar com você um minuto, Juliana Paes? - Ricardo Nêggo Tom

De Duque de Caxias a Adriano da Nóbrega: Exército de milícias

"Neste momento, vocês estão nas mãos de um ditador", diz Domenico De Masi sobre o Brasil

Biden faz novo ataque à China e diz que são as "democracias de mercado" que ditam as regras do comércio e da tecnologia

Pedro Serrano sobre voto impresso: 'Bolsonaro não quer a legitimidade da eleição. Está se lixando para a democracia'

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Posso falar com você um minuto, Juliana Paes? - Ricardo Nêggo Tom

Por Ricardo Nêggo Tom

Para começo de conversa, não está aqui em questão o seu talento como atriz. Até porque, ele é indiscutível. O que aumenta a responsabilidade social das suas falas, em função do alcance da sua voz e da representatividade que a sua figura artística exerce sobre milhares de pessoas. Vendo e ouvindo o seu posicionamento, achei importante fazer algumas observações a respeito dos seus argumentos como cidadã. Só não consigo fazer uma análise isenta de ideologia política. Algo que você criticou no vídeo que publicou nas redes sociais.

Você disse não apoiar os ideais arrogantes da extrema direita, nem os delírios comunistas da extrema esquerda. Sutil e inconscientemente, você estabeleceu um juízo de valor entre os dois polos que critica, e, segundo a sua jurisprudência pessoal e o seu lapso verbal, relativizou os erros de um lado, e condenou o que nunca existiu do outro. O que você chama de “ideais arrogantes da extrema direita”, eu, e mais alguns outros milhões de brasileiros e brasileiras, já constatamos se tratar de ideais genocidas. O que é bem diferente de arrogância, que, por si só, já seria algo desprezível.

Sobre os “delírios comunistas da extrema esquerda”, confesso que precisaria saber melhor do que se trata, para depois emitir uma opinião. Que eu e a torcida do Flamengo saibamos, o comunismo nunca esteve no poder em nosso país. Talvez, o delírio tenha sido de sua parte. Foi assim que o atual governo se elegeu. Fazendo o povo delirar e comprar a ideia de uma luta contra um inimigo imaginário. Por coincidência, o mesmo comunismo ao qual você se referiu. Outro ponto que me chamou a atenção no seu pronunciamento, foi quando você diz que quer “respeito e acolhimento à todas as causas minoritárias”, mas quer que isso aconteça independentemente de ideologia política.

Ju, se me permite assim chama-la, senta aqui um instante. Deixa eu te contar um segredo. Papai Noel só existe, graças a um conceito capitalista. Desde a incubadora, nossas crianças já começam a ser aliciadas pelas mentiras de uma ideologia. Entendo que, talvez, você não queira uma para viver, mas isto não significa que elas deixaram de existir. Você é a “dona do pedaço” apenas na novela. E realidade é outra longe das câmeras. Nesse cenário econômico e social estruturado para que alguns poucos obtenham lucros gigantescos, explorando a mão de obra da grande maioria, respeitar e acolher causas minoritárias é pura resistência ideológica. E nós sabemos muito bem, qual a ideologia política que se opõe a promover inclus&at ilde;o social e a acolher os menos favorecidos. E não é delírio da minha parte.

Falando em ideologia, você também disse que quer um governo liberal que respeite as liberdades individuais, uma máquina pública enxuta, além de saúde e educação públicas de qualidade. Isso é ideologia social pura, Ju. Um pouco confusa, confesso. Porém, tendendo para um dos lados que você jura não estar. Isto, porque eu não consigo enxergar a possibilidade de oferecer ao povo saúde e educação de qualidade, por exemplo, sendo liberal e enxugando a máquina pública. Isso é um delírio! Os liberais condenam o que costumam chamar de “ingerência estatal”, ou seja, são adoradores do estado mínimo. Quem ofereceria ao povo essa saúde e essa educação de qualidade? A iniciativa privada? Filantropica mente?

Eu não sei se você estava se referindo a algum país cenográfico, mas aqui no Brasil, quando se fala em enxugar gastos públicos, os primeiros “cômodos” onde a ideologia liberal pensa em passar o rodo, é justamente nas áreas da saúde e da educação. Um dos pilares da liberalidade econômica por aqui, é a produção de pobreza e escassez. E como você também disse que quer um estado democrático, vale lembrar que não existe democracia sem justiça social. E não falo de igualdade. Falo de equidade. Coisas que o liberalismo, sob todos os aspectos, está muito longe de promover.

Você disse querer muitas outras coisas no vídeo, mas não me pareceu saber bem como consegui-las. Por isso, sugiro que você analise melhor os assuntos quando for emitir uma opinião de forma pública. Chega junto da rapaziada que já está engajada em transformar e alterar a atual estrutura e pega umas dicas de conteúdo que possibilite ter um pouco mais de conhecimento. Troca uma ideia, se abra a um diálogo mais amplo. Sem ofensas, sem cancelamentos, sem animosidades. Como eu já havia escrito, a sua voz tem um grande alcance e uma capacidade de influência bastante considerável.

Ouvir utopias é tão gostoso quanto saborear através da tela, os deliciosos bolos que você fazia na novela. Eu adoro! Fico imaginando como tudo seria maravilhoso se não fosse a realidade. Mas, no mínimo, elas precisam fazer algum sentido.  Pois, nem sempre, é possível fazer política com uma receita de bolo.  Carinhosamente.

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De Duque de Caxias a Adriano da Nóbrega: Exército de milícias - Ricardo Mezavila

Por Ricardo Mezavila

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim" – foi o trecho final do discurso de Bolsonaro em 2016, favorável ao impeachment da Presidenta Dilma.  

Oriundo do exército brasileiro, Jair Bolsonaro foi indiciado por ter concedido entrevista à revista Veja, no ano de 1987, onde reivindicava melhoria do soldo, além de ter revelado um esquema batizado de ‘beco sem saída’, que teria como objetivo explodir bombas em banheiros da Vila Militar.  

Bolsonaro também apresentou à Veja o desenho de um croqui mostrando a localização de uma bomba que seria detonada na Adutora do Guandu, que abastece de água o município do Rio de Janeiro.  

O caso foi parar no Superior Tribunal Militar, onde Bolsonaro foi absolvido com a tese de que a matéria era fraudulenta, as provas insuficientes, e os laudos periciais não possibilitavam comparações caligráficas do desenho, porque a matéria foi publicada em, pasmem, ‘letra de imprensa’.  

Nos dias atuais, o comandante do exército, general Paulo Sérgio Nogueira, ouviu a defesa do general e ex-ministro da saúde, Eduardo Pazuello, que transgrediu o regulamento e participou de ato político com o presidente Bolsonaro, o que indicaria uma punição disciplinar administrativa.  

Seguindo a jurisprudência corporativista militar, o comandante arquivou o procedimento administrativo contra Pazuello, que ficou livre da punição por transgressão disciplinar. Em sua defesa, Pazuello argumentou, pasmem, que “o ato não era político porque o presidente está sem partido”.  

As Forças Armadas nunca cortaram na carne, fizeram do escravocrata Duque de Caxias, pacificador e patrono do exército brasileiro. Não puniram os militares que, em ação frustrada e atrapalhada, tentaram explodir duas bombas no Rio Centro no show de 1° de maio, em 1981.   

Perseguiram, torturaram e mataram estudantes, artistas, políticos, sindicalistas e profissionais da imprensa, que lutavam por liberdade em meio à uma ditadura perversa, cruel e sanguinolenta. Os militares que participaram dos crimes foram anistiados, absolvidos, alguns escreveram livros e tornaram-se heróis.  

O caso do general Pazuello é emblemático e revela o suposto plano do presidente, um novo croqui, de tensionar as Forças Armadas para que os ‘times’ tirem par ou ímpar, vistam seus uniformes e tomem posição dentro de campo, caso decidam rasgar novamente a Constituição, com o apoio de uma fiel e já escalada milícia. Se Bolsonaro perder o jogo, pelo menos terá preparado seu vice para 2022.  

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"Neste momento, vocês estão nas mãos de um ditador", diz Domenico De Masi sobre o Brasil

Domenico De Masi

247 - Enquanto aprendemos a nos adaptar aos novos tempos, os novos tempos também tiveram que se adaptar às ideias do sociólogo italiano Domenico De Masi. 

Precursor do conceito do home-office, quando nem internet havia ainda, o professor De Masi falou com exclusividade ao canal Midiosfera sobre este novo capítulo na história do trabalho – tema favorito de sua obra. 

De Masi, um dos escritores estrangeiros mais vendidos no Brasil e apaixonado confesso pelo país, falou também sobre a atual situação brasileira:

Neste momento, vocês estão nas mãos de um ditador”, argumentando que Mussolini, Hitler e Erdogan também foram eleitos.

“Esta ditadura reduz a inteligência coletiva do Brasil. Durante esta pandemia, Bolsonaro se comportou como uma criança, de um jeito maluco. Ou seja, o ditador conseguiu impor um comportamento idiota em um país muito inteligente. Porque é isso que fazem as ditaduras". 

Confira a entrevista.

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Biden faz novo ataque à China e diz que são as "democracias de mercado" que ditam as regras do comércio e da tecnologia

Joe Biden

Sputnik - Em artigo publicado no The Washington Post, o presidente dos EUA excluiu a China do rol de países que podem estabelecer as normas do comércio e da tecnologia em âmbito mundial.

Em sua primeira viagem ao exterior no cargo de presidente, Joe Biden se reunirá em Bruxelas com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, para debater como os EUA e a União Europeia (UE) podem "trabalhar em estreita coordenação nos desafios globais".

"Vamos nos concentrar em garantir que as democracias de mercado, e não a China nem mais ninguém, estabeleçam as regras do século XXI em torno do comércio e da tecnologia", detalhou.

De acordo com o líder dos EUA, as principais democracias do mundo poderão oferecer uma "alternativa de alto nível" à China para melhorar "a infraestrutura física, digital e de saúde que seja mais resistente e apoie o desenvolvimento global".

Além disso, Biden afirmou que seu país deve "liderar o mundo a partir de uma posição de força", quer se trate de lutar contra a pandemia, "responder às exigências de uma crise climática acelerada" ou "confrontando as atividades prejudiciais dos governos da China e da Rússia".

No âmbito de sua primeira viagem ao exterior como presidente, Biden participará da cúpula do G7 que terá lugar de 11 a 13 de junho no Reino Unido e, em seguida, se reunirá na Bélgica com os líderes da União Europeia e participará da cúpula da Otan.

Rússia e China devem resistir em conjunto aos 'atos perversos' dos EUA

Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China, afirmou durante uma conversa telefônica com seu homólogo russo Sergei Lavrov que Washington está usando a democracia e os direitos humanos para interferir na política interna de outros países.

O chanceler sublinhou que, sendo "potências responsáveis" e membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, a China e a Rússia devem "denunciar e resistir conjuntamente a estes atos perversos" e "defender firmemente o sistema mundial com as Nações Unidas no centro".

O Chanceler chinês disse que Moscou e Pequim sempre se apoiaram mutuamente em questões relacionadas com seus interesses fundamentais, declarando que "a Rússia tem defendido a justiça" em várias ocasiões para "apoiar a posição legítima" do país asiático "em resposta a uma campanha de difamação contra a China por parte dos EUA e de outros países ocidentais".

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Pedro Serrano sobre voto impresso: 'Bolsonaro não quer a legitimidade da eleição. Está se lixando para a democracia'

247 - O jurista Pedro Serrano, advogado, professor de Direito Constitucional da PUC-SP, afirmou em entrevista ao programa Estado de Direito, na TV 247, que o campo progressista e democrático não podem ser ingênuos e cair no debate bolsonarista sobre o voto impresso e auditável.

“Quando entra no discurso do Bolsonaro não dá para ser ingênuo. No discurso do Ciro sobre esse tema há também um traço de ingenuidade. O nosso campo sempre tem que fazer a observação de que o que o Bolsonaro quer não é a legitimidade da eleição. Ele sabe que urna eletrônica não tem fraude ao ponto de alterar o resultado de uma eleição para presidência da República”, salientou Serrano.

E acrescenta: “Se houver uma votação como o Ciro fala, com comprovante de voto, ele [Bolsonaro] vai arrumar um jeito se ele perder a eleição de falar que foi fraudada. Ele só tem uma hipótese dele não falar que a eleição foi fraudada: ele ganhar. É um pouco do discurso do Trump de falsificar a realidade em prol de uma ideologia ultra-extremista. Uma instrumentalização do fato em prol de uma ideologia insana. Isso eles vão fazer de qualquer modo e não podemos cair nessa lorota do bolsonarismo”.

Pedro Serrano reforça que a Justiça Eleitoral brasileira já demonstrou para o mundo sua eficiência e é acompanhada por autoridades internacionais, dando legitimidade às eleições.

“Se a impressão aperfeiçoa o voto, acho ótimo que se faça, mas por conta do debate técnico. Agora, no político ele não me convence porque o que eles estão querendo é arrumar um discurso que tem só uma hipótese de não ser utilizado: eles ganharem a eleição. Se eles perderem vão falar que é ilegítimo. É gente facista. Está se lixando para a democracia, para a legitimidade, a moralidade política da democracia. São amorais nesse ponto de vista. É gente do mal e que não tem mediação possível”, conclui.

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O drama de Carluxo e a omissão de figuras públicas gays - Moisés Mendes

Por Moisés Mendes

Carlos Bolsonaro

Por Moisés Mendes, para o Jornalistas pela Democracia

Jean Wyllys sabe do que está falando. 

É gay assumido e também é militante LGBT+. 

Pois Jean Wyllys, que já abordou o assunto outras vezes, acha que Carluxo é agressivo com os gays por não sabe lidar com a própria sexualidade.

Jean não é um hétero tentando enquadrar gays para tentar desqualificá-los. 

É um humanista, um gay famoso, respeitado e valente.

Não se trata de um diagnóstico, mas de uma observação sobre o comportamento inadequado de uma figura pública, com mandato, que tem obsessão por questões sexuais e está sempre depreciando quem ele não considera hétero.

“Carluxo é sexualmente enrustido”, escreveu Jean Wyllys no Twitter, comentando o fato de o filho de Bolsonaro ter resgatado e publicado um vídeo antigo em que dois homens se beijam em uma performance em evento com as presenças de Lula e de Celso Amorim, entre outras figuras da esquerda.

Carluxo quer dizer, de novo, que ficou escandalizado. 

É uma situação complicada para figuras públicas homofóbicas, porque o exagero na abordagem do assunto parece denunciar mesmo algo errado.

Carluxo tem o direito de se proteger, se não quiser explicitar sua orientação sexual.

Mas é óbvio que não tem o direito de ser homofóbico.

Gay, cínico e homofóbico? Não dá, sendo ou não sendo gay.

Jogadores de futebol gays se protegem porque seriam massacrados e suas vidas se tornariam insuportáveis.

Em todas as áreas, com graduações diversas, gays, lésbicas trans, agêneros buscam a discrição, inclusive na política.

Mas não deve ser escamoteado o debate sobre as condutas de figuras públicas, principalmente as eleitas, que não só escondem a orientação como nada fazem em favor da diversidade e do combate a preconceitos e à violência de cunho sexual.

Uma figura pública, eleita, com mandato, com exposição pública cotidiana, com poder para tomar decisões, pode continuar se omitindo em relação à diversidade e às lutas LGBTs+ apenas para se proteger?

Um vereador, um deputado ou gestor público gay, prefeito ou governador, uma figura com amplos poderes pode ficar imobilizada diante das grandes questões envolvidas em atitudes de proteção e de afirmação das pessoas LGBT+ em nome da privacidade?

Pode um gay ocupante de função pública não fazer nada pelos gays? 

Nenhuma fala, nenhum gesto, nenhuma proposta de mudança em normas e leis e em condutas condenáveis e/ou criminosas?

Um gestor público eleito pelo voto pode ser indiferente à realidade que o cerca e que deve ser alterada com a sua contribuição?

Não pode ser indiferente se for hétero.

Não deve ser for gay.

Não há como ser indiferente diante de uma questão fundamental que pode significar vida ou morte.

Uma figura pública gay ou LGBT não pode ser cúmplice, pela omissão, da reafirmação de uma realidade que precisa ser mudada também a partir de ações na esfera pública.

Não precisa ser militante, mas não pode ser indiferente.

Claro que não se espera nada disso de Carluxo.

Pelo que diz Jean Wyllys, ele é um atormentado. 

O vereador ataca os gays porque não quer admitir que seria um deles e assim enfrentar discriminações, perseguições e violências.

A situação de todos os Bolsonaros é complicada. 

Carluxo é parte de uma família violenta, com a vida associada ao convívio com milicianos violentos.

Todos, começando pelo pai, são obsessivos com pênis e armas.

É uma família violenta, que prega a violência talvez pelo próprio sentimento de insegurança em relação ao que de fato é e que tenta não ser.

A agressão de Carluxo aos gays é parte dessa violência de quem, segundo Jean Wyllys, teme sair do armário. Carluxo teme enfrentar agressões como as que ele comete. É um drama pessoal terrível.

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São Petersburgo mapeia o século eurasiano - Pepe Escobar

Por Pepe Escobar

Vladimir Putin no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo

Por Pepe Escobar para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres para o 247

É impossível entender os pontos mais sutis do que vem acontecendo concretamente no ambiente empresarial da Rússia e de toda a Eurásia sem acompanhar o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (FEISP), realizado anualmente.

Vamos diretamente ao ponto, trazendo alguns dos melhores exemplos do que está sendo discutido nos principais painéis.

O Extremo Oriente Russo - Aqui temos uma discussão sobre as - em grande medida exitosas - estratégias formuladas para aumentar os investimentos produtivos em indústria e infraestrutura por todo o Extremo Oriente Russo. A indústria manufatureira cresceu em 12,2% entre 2015 e 2020. No Extremo Oriente, esse aumento foi duas vezes maior, chegando a 23,1%. E, entre 2018 e 2020, o investimento per capita em capital fixo foi 40% maior que a média nacional. Os próximos passos terão como foco aperfeiçoar a infraestrutura, abrir os mercados globais para empresas russas e, principalmente, conseguir os fundos necessários (China, Coreia do Sul?) ao desenvolvimento de tecnologia avançada.

A Organização de Cooperação de Xangai (OCX)  - Como observei pessoalmente em edições anteriores do fórum, não existe no Ocidente nada de remotamente similar, em termos da seriedade das discussões e de organização, à OCX - que evoluiu gradativamente de seu foco inicial na segurança para um amplo papel político-econômico.

A Rússia presidiu a OCX em 2019-2020, quando a política externa recebeu novo ímpeto, e as consequências socioeconômicas da covid-19 foram tratadas com seriedade. Agora, a ênfase deve se voltar para estratégias de fazer com que esses países - os "istãos" da Ásia Central - se tornem mais atraentes para investidores internacionais. Entre os panelistas estão o antigo secretário-geral da OCX, Rashid Alimov, e o atual, Vladimir Norov.     

Parcerias eurasianas - Essa discussão inclui o que deverá ser um dos principais nós do Século Eurasiano: o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (CITNS). Há aqui um importante precedente histórico: a rota comercial do Volga dos séculos VIII e IX, que conectava  a Europa Ocidental à Pérsia - que poderia agora ser ampliada, em uma variação da Rota da Seda Marítima, até portos da Índia. O tema levanta uma série de questões, indo desde o desenvolvimento comercial e tecnológico até a implementação harmônica de plataformas digitais. Aqui participam panelistas da Rússia, Índia, Irã, Cazaquistão e Azerbaijão.

A parceria da Grande Eurásia -  A Grande Eurásia é o conceito amplo empregado pela Rússia para designar a consolidação do Século Eurasiano. Essa discussão enfoca principalmente a Big Tech, incluindo total digitalização, sistemas automatizados de administração e crescimento Verde. A questão é como uma transição tecnológica radical poderia beneficiar os interesses pan-eurasianos.

E é aí que entra a União Econômica Eurasiana (UEEA), liderada pela Rússia: de que forma o movimento da UEEA em direção a uma Parceria da Grande Eurásia deverá funcionar na prática. Entre os panelistas estão o presidente do Conselho da Comissão Econômica Eurasiana, Mikhail Myasnikovich, e uma relíquia do passado da era Yeltsin, Anatoliy Chubais, que hoje é o representante especial de Putin para "relações com organizações internacionais para alcançar objetivos de desenvolvimento sustentável".

Temos que nos livrar dessas verdinhas 

Pode-se dizer que o painel mais chamativo do FEISP tenha sido o que tratou do novo normal pós-covid-19", (que talvez seja um novo anormal), e de que forma a economia será remodelada. Uma sub-seção importante desse tema é como a Rússia poderia capitalizar essas mudanças em termos de crescimento produtivo. Essa foi uma oportunidade única de assistir a Diretora-Executiva do FMI, Kristalina Georgieva, a presidente do Banco Central Russo, Elvira Nabiullina e o Ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, debatendo na mesma mesa.

Foi Siluanov quem de fato comandou todas as manchetes relativas ao FEISP ao anunciar que a Rússia irá abandonar por completo o dólar dos Estados Unidos na estrutura do Fundo Nacional de  Riqueza (NWF, em inglês) – o real fundo de riqueza soberano da Rússia – bem como reduzir a participação da libra britânica. O NWF terá mais euros e yuans, mais ouro, e a participação do yen permanecerá estável.

Esse processo de desdolarização atualmente em curso já era mais que previsível. Em maio, pela primeira vez, menos de 50% das exportações russas foram denominadas em dólares norte-americanos.  

Siluanov esclareceu que as vendas de cerca de 19 bilhões de dólares em ativos líquidos serão feitas através do Banco Central da Rússia, e não mais dos mercados financeiros. Na prática, essa será uma simples transferência técnica de euros para o NWF. O Banco Central, aliás, há anos vem se desfazendo de dólares norte-americanos.  

Mais cedo ou mais tarde a China fará o mesmo. Paralelamente, alguns países de toda a Eurásia, de forma extremamente discreta, vêm deixando para trás o que na verdade é a moeda de uma economia baseada em dívidas - ao som de dezenas de trilhões de dólares, como Michael Hudson vem explicando em detalhes. Para não mencionar o fato de que o uso do dólar americano em transações comerciais expõe nações inteiras a uma máquina judiciária extorsionária extraterritorial.       

No importantíssimo front sino-russo, permeando todas as discussões ocorridas no FEISP, há o fato de que um pool de know-how tecnológico chinês e de energia russa é mais do que capaz de solidificar uma maciço mercado pan-eurasiano capaz de eclipsar o Ocidente. A história nos conta que em 1400, a Índia e a China eram responsáveis pela metade do PIB mundial.

Enquanto o Ocidente chafurda no colapso auto-induzido do Reconstruir Melhor, as caravanas eurasianas parecem impossíveis de conter. Mas então há as insuportáveis sanções norte-americanas. 

Sessão do Clube de Discussão Valdai examinou mais a fundo essa histeria: sanções colocadas a serviço de uma agenda política estão ameaçando vastos setores da infraestrutura econômica e financeira mundial. Voltamos mais uma vez, portanto, à inescapável síndrome do uso lesivo do dólar norte-americano – empregado contra as compras de petróleo iraniano e equipamento militar russo pela Índia, ou contra as empresas tecnológicas chinesas.

Entre os panelistas estavam o Vice-Ministro das Finanças russo, Vladimir Kolychev, e o Relator Especial da ONU sobre "O Impacto Negativo das Medidas Coercitivas Unilaterais sobre o Gozo dos Direitos Humanos", Alena Douhan, que debateram a inevitável escalada das sanções anti-russas mais recentes. 

Um outro tema recorrente nos bastidores dos debates do FEISP é que, aconteça o que acontecer no front das sanções, a Rússia sempre contará com uma alternativa ao SWIFT, e o mesmo acontece com a China. Ambos os sistemas são compatíveis com o SWIFT em termos de software, de forma que outros países poderão usá-lo.

A Rússia responde por nada menos que 30% do tráfego do SWIFT. Se a tal "opção nuclear" chegar a acontecer, os países que mantêm comércio com a Rússia quase que certamente abandonariam o SWIFT. Além de tudo, Rússia, China e Irã – o trio que o Hegêmona vê como "ameaçador" – mantêm acordos de troca de moeda, bilateralmente e com outros países.   

O FEISP, neste  ano, teve lugar apenas poucos dias antes do G7, da OTAN e das cúpulas Estados Unidos-União Europeia – o que evidenciou de maneira patente a irrelevância geopolítica europeia, reduzida à condição de plataforma para a projeção do poderio  dos Estados Unidos.

E, tendo lugar menos de duas semanas antes da cúpula Putin-Biden, em Genebra, o FEISP, acima de tudo, prestou um serviço de utilidade pública àqueles que se dignaram a dar atenção, mapeando alguns dos principais contornos  práticos do Século Eurasiano.

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Comandante do Exército agiu com prudência - Vivaldo Barbosa

Por Vivaldo Barbosa

General Eduardo Pazuello e o comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira

Acostumado a remar contra marés temporárias, passageiras, que atingem até setores lúcidos e progressistas, desde os tempos que trabalhava de perto om Leonel Brizola, afirmo o seguinte: o Comandante do Exército agiu com prudência.

A maré de opinião de muitos setores cobra punição ao general, sem o que a disciplina e hierarquia teriam ficado irremediavelmente comprometidas.

A lei e os regulamentos não devem ser sempre aplicados em uma linha reta.

É claro que esse general fez muito mal ao Exército, deixou o Comandante mal, prejudicou até o Bolsonaro. Nunca deveria ter feito o que fez. Nem ele nem Bolsonaro.

Acontece que, se o Comandante o pune, estaria igualmente punindo o Presidente. Pois Bolsonaro o levou para o caminhão, o abraçou, passou o microfone a ele, com sua costumeira irresponsabilidade. E o Presidente da República é o Comandante em Chefe do Exército. E se o Comandante pune o seu Chefe, mesmo que indiretamente, crise maior estaria aberta. Se viesse mesmo a punir o general, atingindo o Presidente, não lhe restaria a não ser pedir demissão. A crise atingiria nível maior.

Nos lembremos que ao longo da História, grandes Comandantes souberam manter sua liderança, mesmo com perdões a transgressores. De Gaulle salvou Petain da morte, terminada a Guerra, quando anulou sua execução. A autoridade do Comandante poderá não se deteriorar se souber agir em próximos episódios.

A esta altura, o mais sensato é não fomentar crises de nenhuma espécie. Aguardemos as eleições, estão chegando, a campanha já começou. 

Muitos dizem, com toda razão, que os setores mais extremados dentro das Forças Armadas e das polícias estarão mais soltos, atuarão de maneira mais livre contra as liberdades e a democracia. Esses setores sempre existiram, claro que com a eleição de Bolsonaro ficaram fortalecidos. O conservadorismo sempre se utilizou deles para praticar barbaridades para manter seus privilégios: levou Getúlio ao suicídio, tentou impedir a posse de Juscelino e derrubou Jango. Atingiram seu ponto alto quando participaram da derrubada de uma Presidente eleita e honesta, colocaram um ex-presidente na cadeia e elegeram Bolsonaro.

Foi pena, é de se muito lamentar que os governos populares não tenham procurado colocar as Forças Armadas caminhando ao lado do povo brasileiro, participando dos avanços da nossa gente com menos miséria e pobreza menor, avanços na educação e moradia. Acima de tudo: o Brasil se colocando no mundo em uma posição de respeito. Deixaram as Forças Armadas soltas e influenciadas pelo atraso.

Um dos fatores de contenção dessa gente desvairada é o desgaste do próprio governo Bolsonaro, mediocridade, negação de seus propósitos, destemperos, o Brasil pior, os brasileiros sofrendo ainda mais. Não é razoável esperar que boa porção das Forças Armadas venha transgredir leis e a Constituição para defender golpes e ilegalidades de um governo da doença, da miséria, da incompetência e já com casos palpáveis de corrupção. Pior: que envergonha e humilha o Brasil aos olhos do mundo.

A situação de Bolsonaro, com este episódio, é pior, mais enfraquecida nas Forças Armadas.

Além disso, a política é fator de contenção, mesmo empobrecida como se encontra, com atores tão fracos, mas que de vez em quando se manifesta, como vemos na CPI. E as eleições. As eleições serão o desaguadouro de todas as forças de atuação política e das nossas esperanças. A direita estará na campanha de Bolsonaro. As forças populares, com Lula. E ainda algumas correntes na rabeira. Mas todos na eleição.

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A barbárie capitalista e o papel contemporâneo das Forças Armadas - Jeferson Miola

Por Jeferson Miola

 Preparativos finais para o desfile de 7 de Setembro, na Esplanada dos Minist鲩os.

1.

A escalada militarista no Brasil desperta enorme atenção mundial. Não bastasse o componente militar em si, muitos elementos presentes na dinâmica política brasileira têm parentesco com a emergência e a evolução do fascismo e do nazismo na Europa dos anos 1920 a 1945, assim como com a atual expansão da extrema-direita e do neofascismo em vários países.

É essencial estudar-se e entender-se o fenômeno brasileiro na sua complexidade. Ao lado disso, é importante também alargar-se o campo de análise com o objetivo de desvendar a eventual existência de fios de conexão entre o “caso brasileiro” e lógicas militaristas também presentes nas realidades de potências capitalistas centrais, como a Alemanha, França e EUA.

É necessário averiguar-se qual tem sido, ou qual passará a ser, no mundo contemporâneo, o papel das Forças Armadas diante da espiral de conflitos e dramas abertos pelo agravamento da crise estrutural do capitalismo na sua etapa neoliberal ultra-avançada.

2.

Na Alemanha, a infiltração de terroristas e extremistas nazistas nas forças policiais e militares, inclusive nas unidades especiais e de elite, é assombrosa. O poder político civil, por meio do Estado, exerce rigoroso monitoramento de comportamentos e do ambiente nestas estruturas.

O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha [AfD], fundado há menos de uma década, avança dando voz pública e reverberando visões propaladas por estes grupos infiltrados, que são incompatíveis com um padrão democrático e civilizatório.

O presidente da agência de inteligência alemã Thomas Haldenwang identifica a escalada extremista no seio de instituições militares e policiais como o “maior perigo para a democracia alemã hoje”.

3.

A França foi sacudida em abril passado pela surpreendente publicação de manifesto na revista de extrema-direita Valleurs Actuelle. Nele, militares da reserva defenderam intervenção militar para “salvar o país” do risco de perda da identidade nacional e cultural que poderá levar a França a uma guerra civil [sic].

Muçulmanos e imigrantes que formam a nacionalidade francesa são, portanto, indesejáveis e o destino preferencial do ódio de extremistas.

No início de maio um segundo manifesto – desta vez publicado por militares ditos da ativa – reivindicou a necessidade de intervenção militar para evitar uma guerra civil e garantir a “sobrevivência” da sociedade francesa, abalada por supostas “concessões feitas ao islamismo pelo governo francês”.

A líder da extrema-direita Martine Le Pen capturou rapidamente os movimentos extremistas, e convidou-os a se somarem à sua campanha presidencial de 2022, que deverá propor uma agenda de governo com forte conteúdo xenofóbico e racista.

4.

Nos EUA, merece ser revisitado o pedido de desculpas do chefe do Estado Maior por ter acompanhado o então presidente Trump em evento para simbolicamente intimidar o movimento antirracista que tomava o país em protesto pelo bárbaro assassinato do cidadão negro George Floyd.

É preciso, evidentemente, louvar a autocrítica do general Mark Milley no episódio. Mas é de se especular, hoje, o que levaria o chefe de Estado da potência imperial a cogitar o uso da mais poderosa e imbatível força militar do planeta para ostentar autoridade e poder dissuasivo não perante inimigos externos, mas perante seu próprio povo, que se encontrava em protesto pacífico e democrático.

5.

Tanto nas economias capitalistas centrais como no periférico Brasil, a presença das Forças Armadas ganhou intrigante proeminência no século 21.

Em todos estes casos, mesmo nos EUA, país em guerra permanente contra tudo e contra todos, as razões do neo-militarismo não são eventuais conflitos bélicos contra inimigos externos, mas tem o propósito de conter inimigos internos; ou seja, o próprio povo.

Quais fatores ajudam explicar este fenômeno que tem desafiado a democracia e aprofundado a tendência global crescente de desdemocratização? Existem elementos comuns que permitem compreender estes processos que acontecem, cada qual com suas lógicas particulares, tanto no centro como na periferia do capitalismo?

6.

Uma possível pista explicativa pode ser acessada nos estudos do professor Marildo Menegat, da UFRJ, que identifica no atual estágio de ultra-financeirização do capitalismo uma potente fonte constante de instabilidade, crise, violência e barbárie [A crítica do capitalismo em tempos de catástrofe, Consequência Editora].

Marildo centra sua obra no exame dos efeitos da crise da produção e da reprodução do valor, que faz com que neste estágio ultra-financeirizado do capitalismo, a produção da mais-valia prescinda da exploração central da força de trabalho humano.

O capitalismo alcançou tal nível de produção e de reprodução do dinheiro por meios “endógenos” [derivativos, sofisticada especulação etc] que dispensa a necessidade do trabalho humano para produzir mais capital, que é cada vez mais fictício e menos ancorado na produção real.

Cada vez mais o capitalismo, enquanto sistema mundial integrado, dispensa a necessidade de bilhões de seres humanos para serem explorados como força de trabalho.

A pandemia, além disso, com o aperfeiçoamento das tecnologias e a aceleração do uso da inteligência artificial, da nanotecnologia, da robótica e outras técnicas, antecipou para o tempo imediato muitas tendências de fenômenos estimados para ocorrerem somente a partir das próximas décadas.

Do ponto de vista do capital, portanto, o extermínio de metade da população planetária seria uma medida saneadora e profilática para o capitalismo, embora possa gerar alguma comoção a “espíritos mais sensíveis”.

O imenso exército industrial de reserva deixou de ser um fator funcional para regular a exploração e a remuneração do trabalho, e passou a ser um estorvo à funcionalidade do sistema capitalista.

A necropolítica, neste contexto, é o método estatal de execução permanente e furtiva deste descarte humano em larga escala – que o diga o povo negro brasileiro.

7.

Sociedades com enormes contingentes de humanos descartáveis convivem com conflitos, tensões e violência cada vez mais exacerbados. Se agrava em todo o mundo a miséria, a fome e o desamparo para imensas maiorias populacionais, ao passo que a riqueza, a renda, o dinheiro, o poder e o capital ficam cada vez mais concentrados nas mãos de menos de 2% dos habitantes do planeta.

No Brasil, o contingente de desempregados, desalentados, subempregados, famélicos, subnutridos, desesperados, desvalidos etc, alcança mais de 110 milhões de pessoas.

Esta mais da metade da população brasileira, se exterminada, não faria nenhuma falta ao sistema, tanto que hoje já não fazem falta, porque pertencem a uma geração perdida, que não terá ocupação produtiva e dependerá de socorro oficial para a sobrevivência precária. Por isso a multiplicação por 20 vezes do genocídio promovido pelo governo militar com a pandemia propiciaria uma “profilaxia e limpeza” benéfica ao sistema.

8.

Em sociedades assombradas pelo risco iminente de explosão de conflitos desesperados, as Forças Armadas são chamadas pelas suas oligarquias a exercerem um papel decisivo na contenção da revolta dos excluídos, convertidos em inimigos internos.

Os estamentos militares, neste sentido, atuam como exércitos de ocupação dos próprios países para manter o padrão de dominação e exploração com base na repressão e no controle. A defesa do sistema se dá, então, por meio da violência estatal e do terror de Estado contra o próprio povo.

Este é o sintoma da emergência das Forças Armadas nacionais como atores centrais para a administração do Estado em circunstâncias de revolta e de luta por mudanças sociais.

Seguindo a linha de estudo de Marildo Menegat, com a ultra-financeirização capitalista e suas consequências catastróficas, as Forças Armadas, as polícias militares e as milícias passam a exercer papel central na “gestão violenta da barbárie”.

No “caso brasileiro” esta realidade é ainda mais perturbadoramente dramática, porque boa parte dos generais que comandam o governo militar e mandam de fato no país carregam nos seus currículos a atuação como force commanders em missões internacionais no Haiti, onde foram adestrados a governar numa perspectiva contra-insurgente, de repressão, asfixia social e extermínio popular.

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Vai ter golpe x não vai ter golpe - Arnóbio Rocha

Por Arnóbio Rocha

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Eduardo Pazuello durante passeio de moto, que gerou aglomeração na cidade do Rio de Janeiro.

Da mesma lavra que criou a ilusão de que não ía ter GOLPE, em 2016, e teve. Agora, em sentido oposto, começou a "sofrência" de vai ter GOLPE, ou melhor já teve GOLPE dentro GOLPE. 

A minha posição, lá  e aqui, é a mesma, e oposta à essa corrente. 

GOLPE de estado é muito parecido com a lenda do empresário como animal indutor da economia,  segundo Delfim Neto, os empresários investem quando há uma "expectativa positiva na sociedade, assim eles se animam e investem firme".

Assim, o GOLPE,  pode ser uma questão de expectativa,  a meu ver, nesse campo de esquerda e/ou progressita, muitas vezes trabalha, mal,.essas expectativas. Que vai da euforia do "não vai ter golpe", à depressão de que a não punição do Panzuello, significa que "vai ter golpe", esse dois movimentos, alto e baixo,  são feitos sem nenhuma mediação da realidade concreta, apenas lemos a superfície dos fenômens.

Infelizmente, nos faltou a análise da economia, das classes, da correlação de forças e qual o programa em disputa que Temer, depois Bolsonaro, representavam, a despeito de sutilezas de diferenças ideológicas entre ambos, a economia e os ataques aos direitos foram feitos em sincronia entre ambos os governos.

O GOLPE  de 2016, em essência, foi a resposta econômica e política aos anos petistas de governo. O Estado foi desmontado de forma absolutamente rápida e sem nenhuma defesa efetiva das conquistas, as emendas constitucionais aprovadas destruíram boa parte da CF de 1988, o Ultraliberalismo "passou o carro sobre a população, entre 2016 e 2018, e deu ré (para matar quem sobreviveu), entre 2019 e 2021".

O que justificaria esse novo golpe? A Pandemia, a possibilidade de derrota do governo Bolsonaro nas eleições de 2022? 

Insisto, qual a correlação de forças, o comportamento das classes, o afluxo ou refluxo dos movimentos políticos e sociais?

Quando leio os impressinismos, me assusto e penso:

Parece que amanhã pela manhã teremos nossas prisões decretadas, de que os militares vão cumprir  a "intervenção militar constitucional", esse pesadelo sem pé na realidade dos bolsonarista. 

A reação covarde, medrosa, de que Vai ter GOLPE,  nos desarma, demonstra um medo desproporcional à realidade, facilitando o GOLPE real. Isso me faz lembrar, a fanfarronice de que não teria GOLPE em 2016, mas no sentido contrário, não reagir, aceitar, como se fez ali.

É hora das Instituições, das organizações políticas, sociais, de reagir firme, de não aceitar ou não se deixar vencer psicologicamente de um GOLPE que não foi dado, mas pode ser, se houver essa aceitação passiva.

Vamos reagir, fugir ou nos conformar? Simplesmente constar, não resolverá nada, apenas facilitaria os desejos nefastos do bolsonarismo.

Essa é a questão central.

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A resiliência de Jair M. Bolsonaro - João Feres Júnior

Por João Feres Júnior

Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro.

Por João Feres Jr.

Toda pessoa que acompanha o noticiário político brasileiro, a essa altura dos acontecimentos, já deve ter se perguntado qual seria a razão da popularidade de Bolsonaro apresentar tamanha resiliência, uma vez que os problemas que acometem sua gestão e seu comportamento seriam potencialmente muito danosos para qualquer político. Pesquisa após pesquisa, assistimos a uma flutuação razoavelmente tímida do índice de aprovação da gestão do presidente, que se manteve acima de 30% ao longo da série temporal, a despeito da crise do Coronavírus e sua administração desastrosa por parte do governo federal.

A última rodada da pesquisa “A cara da Democracia”, realizada entre 20 e 27 de abril, detecta uma queda significativa do índice de aprovação do Governo Bolsonaro: a proporção agregada de avaliações ótimo/bom foi de apenas 22%. Efeito semelhante foi observado pela pesquisa do Datafolha, divulgada em maio. O resultado completo da avaliação do governo na pesquisa A Cara da Democracia vai no gráfico abaixo:

Gráfico: Avaliação do Governo Bolsonaro Imagem: Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC)

Como vemos, a proporção daqueles que consideram o governo Bolsonaro ótimo se aproxima de 8%. No plano das hipóteses, é razoável supor que esse contingente corresponde ao que podemos chamar de bolsonarismo raiz, ou seja, aquelas pessoas que apoiam e concordam com o presidente mesmo depois dele ter assumido posturas negacionistas e antidemocráticas bastante extremadas. O grupo dos que acham o governo bom provavelmente é composto por aqueles que reconhecem alguns problemas na gestão, mas consideram seu saldo ainda positivo. É mais difícil fazermos conjecturas acerca do numeroso grupo que responde regular, pois dado o alto grau de rejeição da política representativa na população, revelado por um sem número de pesquisas, é possível que haja aí muitas pessoas que estão desgostosas com Bolsonaro mas não enxergam opção desejável de mudança.

Os dois últimos grupos são os que rejeitam fortemente o governo, com preponderância para o péssimo, com quase 40% dos respondentes da pesquisa. Juntos, as categorias “ruim” e “péssimo” perfazem praticamente metade dos respondentes. É claro que uma leitura “copo meio vazio” dos dados poderia ser feita, pois metade dos respondentes não rejeita fortemente o governo.

Ao cruzarmos o resultado da pergunta de avaliação do governo com os de outras perguntas, conseguimos obter informações mais precisas sobre o perfil do apoio ao presidente nos dias de hoje no que toca a demografia, as preferências e os valores de cada grupo.

No geral, quando comparamos o voto em 2018 com a avaliação presente de Bolsonaro, notamos que ele perdeu muito apoio nos grupos de maior renda (5-10 e acima de 10 salários mínimos), e ganhou apoio nos de menor renda (até 2 e de 2-5 salários mínimos). Essa reorientação de preferências em relação à renda é clara, e também se reflete na variável escolaridade: 41% dos respondentes com nível superior declaram ter votado em Bolsonaro, mas hoje somente 9% acham seu governo ótimo e 12 % bom.

Em relação ao sexo, as mulheres continuam a ser significativamente mais antipáticas ao presidente do que os homens. Essa preferência se mostra particularmente nos extremos da avaliação. Hoje, entre aqueles que acham o governo péssimo, 61% são mulheres e 39% homens. Já na outra ponta, dos que o avaliam como ótimo, 59% são homens e 41% mulheres.

Para além dessas tendências mais gerais, relevadas também por outras pesquisas, o nosso survey traz baterias de perguntas sobre temas específicos que nos permitem penetrar nas preferências e valores dos respondentes. A primeira delas diz respeito às razões que justificariam um golpe militar no Brasil atual. O questionário contém as seguintes razões: alto desemprego, instabilidade política, alta corrupção, muitos protestos sociais, muito crime e crise econômica aguda. Ao cruzarmos as respostas para essas questões com os diferentes graus de apoio ao presidente obtemos o seguinte resultado:

Gráfico: Avaliação do Governo x Justificativas para golpe militar Imagem: Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC)

Para simplificar a representação, optei por plotar as diferenças entre apoio e rejeição em cada categoria. Por exemplo, o ponto mais alto do gráfico, que marca 47% na curva da corrupção, é resultado da diferença entre os 72% que apoiam o golpe em caso de alta corrupção e os 25% que não apoiam, no grupo daqueles que consideram a gestão de Bolsonaro ótima. O ponto mais baixo, que marca – 61% na curva de protestos sociais, corresponde à diferença entre os 18% que apoiam o golpe em caso de muitos protestos sociais e os 79% que o rejeitam, no grupo daqueles que consideram Bolsonaro péssimo.

Primeiramente, não precisamos criar um índice geral de golpismo para notar a forte correlação entre o apoio a Bolsonaro e a aceitação da possibilidade de golpe militar no Brasil. Essa tendência se verifica em todos os temas. E ela é particularmente marcante nas transições entre ótimo e bom, e ruim e péssimo. Ou seja, os bolsonaristas raiz são significativamente mais golpistas que os apoiadores mais moderados, assim como os que rejeitam fortemente o governo do capitão rejeitam também o golpe com mais intensidade do que aqueles que o rejeitam mais moderadamente.

O assunto desemprego é o que menos ativa o golpismo. Os bolsonaristas, inclusive, rejeitam essa justificativa. O tema protestos sociais conquista maior adesão dos bolsonaristas. Mesmo assim, a sua maioria, composta daqueles que marcaram ótimo e bom na avaliação do governo, não aceita tal justificativa. Em seguida temos crise econômica e instabilidade política. Ambas ganham adesão da maioria dos bolsonaristas raiz, mas não entre os mais moderados. A diferença entre os bolsonaristas no tema crise econômica é de 26 pontos percentuais entre o grupo do ótimo e o do bom.

No topo da lista temos corrupção e crime, as justificativas que mais geraram respostas de apoio à intervenção militar. A curva do crime é curiosa, pois o saldo é positivo em prol do golpe para os valores ótimo, bom, regular e ruim. Somente o grupo dos que acham a gestão péssima rejeitou tal solução, esse sim por uma margem razoavelmente larga de 27 pontos percentuais. No cômputo geral, 45% dos respondentes emprestaram legitimidade à intervenção dos militares sob a justificativa de alta criminalidade.

Esse resultado revela a importância da questão da segurança, um dos carros-chefes da agenda de Bolsonaro, para uma ampla fatia da população: mesmo entre aqueles que consideram o governo péssimo, mais de um terço aceitariam golpe militar em caso de alta criminalidade.

Finalmente, corrupção é a campeã no ranking das justificativas de golpe. Seus resultados são idênticos ao da alta criminalidade para aqueles que acham o governo ruim ou péssimo, mas muito maiores para as categorias ótimo, bom e regular. Isso parece indicar a centralidade desse tema para o bolsonarismo. O apoio ao golpe no grupo raiz é de 3 para 1 em caso de alta corrupção, e de mais de 2 para 1 no grupo que acha o governo bom. E esse apoio continua forte no grupo do regular, com vantagem de 19 pontos percentuais para o golpismo.

Muito mais poderia ser dito dos padrões das respostas para essa bateria de perguntas sobre a possibilidade de golpe. Por exemplo, poderíamos examinar o outro lado das curvas, ou seja, o grupo que rejeita Bolsonaro, mas que ainda assim revela adesão surpreendente a soluções de exceção.

O exame dessas perguntas nos permite cotejar a adesão à democracia de maneira mais complexa, evitando, ao mesmo tempo, a pergunta direta. Ele nos permite confirmar, ainda que provisoriamente, a hipótese de que a corrupção é tema central no bolsonarismo, mais ainda que a segurança. Nenhuma outra questão, mesmo posturas antidemocráticas como a rejeição do protesto e da instabilidade política, induziu apoio tão forte quanto a corrupção. Sabemos que esse tema está ligado à rejeição da política representativa e de suas instituições e ao antipetismo. A exploração dessas conexões fica, contudo, para uma próxima oportunidade.

Nota metodológica: A edição de 2021 da pesquisa nacional “A Cara da Democracia” foi realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação. Foram entrevistados 2031 brasileiros de todas as regiões do país entre 20 e 27 de abril. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais considerando um intervalo de confiança de 95%. A amostra representa a população eleitoral brasileira de 16 anos ou mais distribuída proporcionalmente à população eleitoral existente em cada uma das cinco regiões do Brasil: Norte, Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul. Os municípios foram selecionados probabilisticamente através do método PPT (probabilidade proporcional ao tamanho) tomando como base o número de eleitores de cada município. A amostra obedeceu ainda a cotas de sexo, idade, escolaridade e renda familiar dentro de cada setor censitário. Esta edição da pesquisa foi realizada presencialmente, seguindo os protocolos de segurança conforme orientação dos órgãos competentes, tais como uso de máscaras e álcool em gel e distanciamento seguro.

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