*///////////////////////////////////////////////////////////////////////////////// __________ É CEDO DEMAIS para dizer "ADEUS BOLSONARO"? */////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
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____________________ * É CEDO DEMAIS para dizer "ADEUS BOLSONARO"?

A Cara da Democracia
Colunista do UOL
26/06/2021 04h00
Leonardo Avritzer*
Jair Bolsonaro formou a coalizão de apoio mais heterogênea e mais heterodoxa da história recente do Brasil. Me explico. É sabido que exército, centrão, corporações da área de segurança e mercado financeiro, além da legião de motociclistas incomíveis (de acordo com a camiseta que um deles vestia), têm pouco em comum quando pensamos em termos de projeto político. Mas deve-se reconhecer que esses grupos constituíram uma base de apoio relativamente estável para um presidente que, ao que parece, ainda não se dedicou um dia inteiro à tentativa de governar o país. Pelo contrário, desde o início da pandemia tudo indica que ele entende o seu mandato como a arte de desfazer políticas públicas na área de saúde, boicotar a compra de vacinas e apostar em remédios sem eficácia. Supreendentemente, até algumas semanas atrás, parte significativa da sua base de apoio demonstrava aderir a esse projeto político heterodoxo. Foi até possível encontrar um general que se divertia em desorganizar a política de saúde no país, em nome da logística e da legitimidade das Forças Armadas.
As últimas semanas dão a impressão de que essa coalizão finalmente se desfez. Desde que demitiu o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, em abril deste ano, Bolsonaro parece não ter o mesmo apoio naquela instituição que ele insiste em denominar de "meu exército''. Entenda-se o "meu" como mais uma evidência de que o presidente do Brasil tem uma visão ancien régime sobre o funcionamento das instituições do estado brasileiro. Para ele, que já falou em "minha constituição", o exército é uma instituição que ele trata de forma pessoal, como um pai: garante os soldos, os planos de aposentadoria generosos, marca presença em formaturas irrelevantes como a dos especialistas da Aeronáutica em Guaratinguetá nesta semana. Exige, porém, uma contrapartida que o "meu exército" está cada vez menos disposto a oferecer: a fidelidade absoluta, até mesmo comprometendo a ideia de hierarquia. Aí parece, finalmente, residir a resistência das forças que acreditam que corporativismo e hierarquia têm que ser minimamente compatíveis.
O segundo problema do presidente chama-se centrão. Jair Bolsonaro considera o sistema político um bando de leprosos, mas assume a máxima do ex-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon: entre eles existem os seus leprosos, a quem recorre quando enfrenta problemas no Congresso. Essa estratégia funcionou até o início de 2021. Sempre que Bolsonaro precisou construir maiorias no Congresso ele o fez e por duas vezes conseguiu fazer o presidente das duas casas. Até que a oposição conseguiu, por meio do Supremo, não apenas instalar uma CPI, como também ter maioria nela. E aí começaram os problemas de Bolsonaro, que não acreditava na capacidade do sistema político e da oposição obrigarem o seu governo a prestar conta dos seus atos na pandemia. Ainda mais surpreendente foi a situação em que um deputado do Democratas e seu irmão colocaram o presidente, ao produzirem fortes evidências de que o capitão sabia de um esquema de compra de vacinas superfaturadas - a Covaxin.
Todos esses fatos em conjunto apontam em duas direções: em primeiro lugar, que o arranjo político que estabilizou Bolsonaro além das normalidades do sistema político chegou ao final. Isso é, aplica-se agora ao capitão presidente as mesmas regras que se aplicaram a todos os membros do sistema político desde a democratização. Bolsonaro esteve acima dessas regras porque a ampla coalizão que o levou ao poder acabou tendo que se comprometer com o desgoverno que ele instituiu. Esse momento parece ter passado, na medida em que o bolsonarismo passou a ameaçar a existência da democracia e dessas forças ao centro. Nada melhor para exemplificar esse ponto do que a patética entrevista de Onyx Lorenzoni de quarta-feira (23) ameaçando o servidor do Ministério da Saúde e seu irmão deputado.
Em segundo lugar, parece claro que a estratégia de ameaçar o sistema político com as forças da coerção militar também parece estar chegando ao fim e até mesmo as coerções feitas pelo Gabinete de Segurança Institucional cessaram devido à depressão do ministro de plantão. O presidente parece estar com medo de fazer mais uma viagem irrelevante e se encontrar alí com o Brasil real que morre de Covid.
Assim, centrão e militares parecem estar se dissociando, por fim, da aventura bolsonarista da qual foram participantes de primeira hora. Afora todos os motivos elencados acima, parece existir um terceiro, que tem nome e CPF. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está sendo capaz de montar uma aliança extremamente ampla que, ao que parece, irá envolver as principais lideranças políticas da oposição. De um lado, Lula foi capaz de se aproximar de políticos do centro com o prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil, de montar uma chapa viável em torno de Marcelo Freixo no Rio e de reorientar o PSB e suas alianças na região Nordeste. Evidentemente esse cenário aponta para uma vitória eleitoral de Lula no ano que vem e preocupa justamente aqueles que achavam que poderiam empurrar a aventura Bolsonarista até 2026. Não parece ser mais possível e a questão é o que fazer com o capitão reformado.
Para entender essa nova configuração entre centro político, ruas e oposição vale a pena analisar como outros presidentes a enfrentaram. Um presidente enfrentou mais protestos na rua que oposição no Congresso, caso de FHC, e outro enfrentou mais oposição no Congresso do que nas ruas, caso de Lula durante o mensalão. Finalmente, outra recente mandatária enfrentou oposição nas ruas e no Congresso e não resistiu, caso da ex-presidente Dilma. Jair Bolsonaro adentrou, nas últimas semanas, o mesmo campo pantanoso que derrubou Dilma Rousseff e perdeu apoios que essa nunca teve, como o das corporações militares. Ao mesmo tempo, Hamilton Mourão - que não parece ser afeito a cartas - foi ao programa do Roberto D'Ávila desfilar suas intenções em um possível governo de transição. Estão jogados os dados sobre o futuro do capitão, a não ser que o grupo de motociclistas incomíveis consiga mantê-lo no poder.
*Leonardo Avritzer é professor do Departamento de Ciência Política da UFMG, coordenador do INCT - Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação e autor de diversos livros, entre eles o recente Política e antipolítica: a crise do governo Bolsonaro, Pêndulo da Democracia e Participatory Institutions in Democratic Brazil.
____________________ * Bolsonaro, a destruição da democracia e seu legado macabro


A Cara da Democracia
Colunista do UOL
08/06/2021 04h00
Rafael R. Ioris*
Na noite de 2 de junho, nossa funesta figura presidencial se apresentou à nação, em cadeia nacional de rádio e televisão, na tentativa de estancar a sangria do governo responsável pela maior tragédia humana da história contemporânea do país. Mesmo em meio a níveis históricos de desemprego, buscou reavivar a promessa do dito crescimento econômico que, se vier, será abaixo da média mundial.
Tanto no conteúdo do seu pronunciamento, como no seu estilo robótico e sem empatia pela dor coletiva de uma nação em processo de desconstrução acelerada, o que nosso líder mítico conseguiu demonstrar é que, para o clã Bolsonaro, estar e querer permanecer no poder está ligado, acima de tudo, à necessidade de se proteger de inúmeros processos legais e investigações criminais em curso. Para tanto, todos tipos de diversionismo serão aplicados. Se no início o instrumento preferencial para tanto era a anacrônica luta contra o comunismo, hoje, quando o tema só encontra eco nas bolhas bolsonaristas, especialmente na caserna e nas PMs estaduais, volta à tona a velha tática dos anos de chumbo – se valer do dito esporte do povo. Embora o país continue a enfrentar a necessidade de restringir a circulação de pessoas, a nefasta decisão de acolher a Copa América foi tomada; algo inconcebível na atual situação nacional, mas que está sendo desvairadamente apresentado como razão para euforia em meio ao genocídio em curso.
O regime neo-fascista em curso é pautado pela criação permanente de crises. Complementando o quadro de convulsão social e dissolução de todas amarras institucionais da democracia que vivenciamos, em 4 de junho o Exército anunciou que não iria punir o general da ativa Eduardo Pazuello pela participação em ato político a favor do grande líder. Tanto a ida do desastroso ex-ministro ao ato, como a falta de punição ferem as normas de procedimento, assim como o que se esperaria de quaisquer Forças Armadas que tenham aceitado sua existência dentro do marco da democracia. Evidentemente, esse não é o nosso caso. E ao decidir por tal rumo, conivente e submisso, os militares não mais podem se dizer isentos da mortandade e desmandos em curso.
O bolsonarismo é um movimento político com um fim em si mesmo. Além da proteção ao clã, Bolsonaro e seus herdeiros não têm agenda de governo. O próprio patriarca chegou a afirmar, em discurso no exterior, que veio para destruir. Não surpreende, pois, que suas ações envolvam de maneira tão clara o aumento da exclusão social, a promoção da divisão, do ódio e da falta de sensibilidade pela dor alheia. Deixar um legado para a história não é algo que faça parte do horizonte de visão do atual fatídico mandatário da Terra de Cabral. No entanto, mesmo sem fazer parte de seus projetos e ambições pessoais e familiares, o legado dos Bolsonaro já está definido.
Serão lembrados por terem possibilitado a eclosão da maior calamidade humana em uma nação não alheia à dor e ao sofrimento em massa. Sim, nossa história, muito além das conciliações e pactos intra-elites, foi definida pela exploração e violência imposta à maioria dos nossos habitantes. Mas nada se compara à destruição coletiva reiteradamente planejada que hoje vivenciamos. Não surpreenderá, portanto, se no futuro os descendentes dos atuais Bolsonaro prefiram mudar de sobrenome, a fim de silenciar o macabro passado de seus antepassados, e que, quando os brasileiros olharem no dicionário encontrem o termo Bolsonaro como sinônimo de genocida.
Temos mesmo no poder do Brasil hoje um personagem não só trágico, mas também aberrante. Não que nossa história tenha sido isenta de figuras exóticas. Uns trataram a chamada questão social como caso de polícia, outros queriam varrer a corrupção com sua vassourinha mágica. Uns preferiam ouvir jogos de futebol no rádio de pilhas a governar, outros preferiam cavalos ao povo. Mas ninguém se equivale ao grau de insensibilidade de quem chama a maior crise sanitária global dos últimos 100 anos de gripezinha e faz piada dos que se contaminaram ou perderam entes queridos. E mesmo quando, muito a contragosto, se referiu ao problema, o fez de maneira inaceitavelmente egoística, afirmando que como ele, por ter histórico de atleta, não iria se enfermar de maneira grave, e que, portanto, não havia problema; ou dizendo que todos tem que morrer um dia.
Eleito numa concertação de momento, ajudada por manobras escusas de juízes e promotores ativistas, Bolsonaro conseguiu encantar não somente as classes médias que queriam mudar isso aí, mas também comentaristas e empresários, sempre de plantão na defesa da milagrosa agenda liberal. Assim, legitimado pela aura tecnocrática de ministros que alegremente associaram-se a um deputado medíocre e monotemático, mas recauchutado como mito salvador, o ex-tenente chegou ao poder federal ungido na expectativa de alterações de curso. Mas embora tenha aprofundado o desmonte do estado-de-bem-estar-social da Constituição Cidadã de 1988 – iniciado pelo presidente de ocasião, Michel Temer, na promessa, sempre fugidia, da tal explosão de crescimento –, ninguém mais se lembra de tais promessas e seus apoiadores hoje se reduzem a asseclas ideológicos e generais apaniguados por benesses crescentes.
Presidentes se ocupam não só de implementar uma agenda para a qual foram eleitos, mas também de deixar um legado pelo qual serão reconhecidos nos livros de história. Independentemente do que Jair Bolsonaro vier a fazer, seja nos próximos 18 meses, seja em um eventual segundo mandato, seu sobrenome será conhecido no futuro como sinônimo de dor, aflição, desespero, horror e morte; e seu legado, e dos que com ele partilham seu macabro patronímico, será o da matança coletiva intencional, por atos e omissões, de, até o momento, meio milhão de seres humanos.
*Rafael R. Ioris, Professor da Universidade de Denver
____________________ * Paradoxos do Negacionismo


Fabiano Santos*
Resultado marcante oriundo da mais recente rodada da pesquisa nacional “A Cara da Democracia” é o alto contingente de negacionistas entre os respondentes. Negacionistas são definidos como aqueles que negam teses há muito comprovadas, consensuais ou quase consensuais no meio científico, como, por exemplo, que a terra é redonda ou que existe uma ameaça à vida devido às mudanças climáticas em curso. Seriam também os que adotam hipóteses um tanto quanto estapafúrdias, contraintuitivas para a emergência e disseminação da COVID-19 – que seriam resultado de uma ação deliberada do governo da China, que a cloroquina funcionaria como tratamento precoce ou que a vacina causaria efeitos deletérios e irremediáveis à saúde dos pacientes.
De fato, causa espanto constatar como afirmações tão absurdas encontram-se disseminadas, levando-se em consideração o padrão de respostas encontrado na pesquisa. Não obstante, é curioso observar o grau de quase consenso entre as pessoas entrevistadas quando as perguntas se referiam às providências recomendadas para evitar a contração e propagação do vírus. Tanto a vacinação quanto o uso de máscara receberam apoio amplamente majoritário.
Esse aparente paradoxo nos leva a refletir um pouco mais sobre os resultados e tentar capturar seu significado mais profundo, assim como potenciais consequências políticas. Em primeiro lugar, é preciso discernir entre os diferentes tipos de negacionismo. Respostas afirmativas a qualquer uma das questões sobre a terra ser plana, existir uma conspiração de esquerda para dominar o mundo, terem sido fraudadas as eleições estadunidenses e ameaças climáticas à vida na terra não passarem de invenção de cientistas mal-intencionados parecem fazer parte de um estado permanentemente paranoico, acossada por propaganda de cunho político ideológico que independe da crise sanitária. Por outro lado, respostas contrárias (pelo menos uma delas) às hipóteses mais plausíveis sobre a emergência da doença e de sua profilaxia dizem respeito à conjuntura mais imediata da pandemia, contexto ainda cercado de muitas dúvidas e incertezas.
A distinção entre os dois grupos e a exploração de relações entre suas respostas e questões de cunho político, bem como de aspectos socioeconômicos acabam gerando resultados interessantes dignos de nota. O primeiro grupo (negacionistas permanentes) tende a ser politizado e com viés favorável ao governo Bolsonaro. Em particular os que consideram haver uma conspiração de esquerda e que as eleições nos EUA resultaram de fraude preponderam no conjunto dos negacionistas e demonstram muito boa vontade com o presidente. Se é comum encontrarmos respondentes que concordam com as duas afirmações, é muito raro, uma boa notícia, os que assumem posição negacionista em todas as quatro questões. O estado de permanente e total paranoia ainda é pouco usual na sociedade brasileira.
O cruzamento dos respondentes do segundo grupo com suas atitudes face à vacinação e uso de máscara nos permite, por sua vez, isolar um conjunto bastante particular de habitantes – os negacionistas inconsistentes, isto é, na mesma medida em que recusam crédito às descobertas científicas sobre a doença e sua profilaxia, não encontram maiores problemas em recorrer à vacina como meio de se proteger ou apoiar o uso da máscara tendo em vista evitar sua propagação. Se chamarmos estes de inconsistentes e verificarmos sua inserção socioeconômica constata-se que estamos lidando com pessoas sobretudo de baixa renda e baixa escolaridade.
Como resumo, podemos dizer que, embora incomodativo o grau de disseminação dos “negacionismos”, é preciso separar os que possuem raízes mais estruturais e de natureza política daqueles que se referem mais à conjuntura específica da pandemia. Além disso, vale ressaltar que o negacionismo relacionado ao COVID-19 não impede uma adesão maciça na sociedade e majoritária entre os negacionistas à vacina e uso da máscara – dando origem ao estranho caso dos inconsistentes. Estes por seu turno, parecem se concentrar nos entrevistados de extratos de renda mais baixos e de baixa escolaridade, grupo da população particularmente sensível a mensagens ambivalentes e contraditórias, tal como, faz muito tempo, revelado pelos estudos de comportamento das massas nas democracias contemporâneas.
Nota metodológica: A edição de 2021 da pesquisa nacional "A Cara da Democracia" foi realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação. Foram entrevistados 2031 brasileiros de todas as regiões do país entre 20 e 27 de abril. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais considerando um intervalo de confiança de 95%. A amostra representa a população eleitoral brasileira de 16 anos ou mais distribuída proporcionalmente à população eleitoral existente em cada uma das cinco regiões do Brasil: Norte, Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul. Os municípios foram selecionados probabilisticamente através do método PPT (probabilidade proporcional ao tamanho) tomando como base o número de eleitores de cada município. A amostra obedeceu ainda cotas de sexo, idade, escolaridade e renda familiar dentro de cada setor censitário. Esta edição da pesquisa foi realizada presencialmente, seguindo os protocolos de segurança conforme orientação dos órgãos competentes, tais como uso de máscaras e álcool em gel e distanciamento seguro.
*Fabiano Santos é cientista político, professor do IESP-UERJ, coordenador do Observatório do Legislativo Brasileiro e membro do Conselho Gestor do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação.
____________________ * Uma direita autoritária, conservadora e conspiratória


A Cara da Democracia
Colunista do UOL
14/05/2021 04h00
Carlos Ranulfo Melo*
Uma nova rodada de pesquisa do projeto “A cara da Democracia”, realizada entre 20 e 27 de abril, aponta para um crescimento dos brasileiros que se posicionam à direita no espectro ideológico. Levando-se em conta o primeiro levantamento feito pelo projeto, em 2018, o percentual dos que se posicionaram entre 7 e 10, em uma escala onde 10 significa “direita”, saltou de 21,8 para 35,7. Os dados podem ser vistos no gráfico 1.

Ainda mais notável que o crescimento dos que se declaram de direita, foi a diminuição do contingente daqueles que não se posicionam na escala (NS/NR) – de 38,7% para 15,3%. Para esse recuo contribuíram também, ainda que em menor grau, o aumento dos que se consideram de esquerda (de 16,6% para 21,3%) e dos que se situam ao centro (22,9% para 27,7%).
Essa inédita demarcação de campos políticos no país foi um dos resultados da eleição de 2018. Bolsonaro fez sua parte: pela primeira vez, desde a redemocratização, um candidato competitivo desenvolveu uma campanha com forte conteúdo ideológico ao assumir um perfil claramente à direita e identificar tal posição a causas conservadoras e retrógradas.
Cabe perguntar até se esse crescimento à direita representa um movimento mais consistente e programático de parcela da população ou se reflete principalmente uma identificação com o capitão. A diferença importa, uma vez que posicionamentos ideológicos baseados na identidade mais facilmente conduzem a níveis elevados de polarização afetiva e alimentam atitudes de ódio contra grupos “inimigos”.
A identificação com Bolsonaro é indiscutível. A pesquisa mostra que elementos de uma teoria conspiratória patrocinada pelo Presidente da República encontram campo fértil para proliferar entre os brasileiros que se posicionam à direita: 62,6% destes cidadãos acreditam que “os hospitais são pagos para declarar que há mais mortos por covid-19 do que a realidade”; 61,7% concordam que “há uma conspiração da esquerda para tomar o poder” e 60,7% concordam com a afirmação de que “o Coronavírus foi criado pelo governo chinês”. Da mesma forma, 45,9% destes brasileiros avaliam o governo Bolsonaro como ótimo ou bom, percentual que corresponde ao dobro do encontrado quando são considerados todos os entrevistados pela pesquisa.
Por outro lado, os dados não permitem afirmar que o crescimento à direita seja a expressão de algo mais consistente e programático de parcela da população. É certo que a pesquisa mostra um acentuado crescimento dos que expressam uma opinião programaticamente de direita e dizem preferir uma economia com maior liberdade para a ação do mercado, em detrimento de um papel mais incisivo do estado – de 25,7% em 2018 para 47,8% em 2021.
Mas no mesmo período não se registrou um aumento no percentual dos que optaram por posições mais conservadoras em temas que fazem parte do debate público no país. Pelo contrário. No que se refere à redução da maioridade penal, ao casamento civil de pessoas do mesmo sexo, à adoção de crianças por casais homoafetivos, à legalização do aborto ou à possibilidade de prisão de mulheres que o pratiquem, as posições mais progressistas ganharam algum espaço – um crescimento que vai de seis a quinze pontos percentuais a depender da questão. Quando o assunto é a pena de morte, a descriminalização do uso de drogas ou a adoção de cotas raciais, os percentuais mantiveram-se constantes. Apenas quando perguntados sobre a proibição da venda de armas de fogo, os brasileiros mostraram-se mais conservadores em 2021.
Independentemente da questão colocada acima, as opiniões daqueles que se posicionaram à direita são consistentemente distintas daquelas expressas pelos que se colocaram à esquerda ou mesmo no centro do espectro ideológico. É o que se pode verificar no gráfico 2, para o qual foram selecionadas algumas das questões abordadas na pesquisa.

Como se pode perceber é à direita que a democracia é mais facilmente descartada. O gráfico mostra como reagiram os entrevistados quando colocados diante da possibilidade de um golpe de estado como resposta a um cenário de “muita corrupção” ou “muito crime”.
Brasileiros que se posicionam à direita são mais favoráveis à privatização dos serviços públicos no país. E se opõem de forma mais contundente que os de centro ou esquerda à adoção de cotas raciais ou ao casamento civil de pessoas do mesmo sexo – o mesmo acontece com a redução da maioridade penal, a adoção de crianças por casais homoafetivos, a legalização do aborto, a prisão de mulheres que o pratiquem, a pena de morte, a descriminalização do uso de drogas e a proibição da venda de armas de fogo (não mostrados no gráfico).
Por fim, e mesmo diante da tragédia que assistimos a cada dia, 47,7% dos que situaram à direita discordam que Bolsonaro tenha dado pouca importância à pandemia, percentual muito superior ao encontrado ao centro (17,7%) ou à esquerda (13,9%).
Ainda que não seja possível traçar um quadro completo do crescimento da direita no país, os dados aqui apresentados mostram que boa parcela dos que se posicionam neste lado do espectro defende ideias semelhantes à de Bolsonaro: são mais autoritários, conservadores e propensos a aderir a teorias conspiratórias do que a média dos brasileiros.
Nota metodológica: A edição de 2021 da pesquisa nacional "A Cara da Democracia" foi realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação. Foram entrevistados 2031 brasileiros de todas as regiões do país entre 20 e 27 de abril. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais considerando um intervalo de confiança de 95%. A amostra representa a população eleitoral brasileira de 16 anos ou mais distribuída proporcionalmente à população eleitoral existente em cada uma das cinco regiões do Brasil: Norte, Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul. Os municípios foram selecionados probabilisticamente através do método PPT (probabilidade proporcional ao tamanho) tomando como base o número de eleitores de cada município. A amostra obedeceu ainda cotas de sexo, idade, escolaridade e renda familiar dentro de cada setor censitário. Esta edição da pesquisa foi realizada presencialmente, seguindo os protocolos de segurança conforme orientação dos órgãos competentes, tais como uso de máscaras e álcool em gel e distanciamento seguro.
*Carlos Ranulfo Melo é graduado em Geologia (1981), mestre em Ciência Política (1994) doutor em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (1981), e pós-doutor na Universidade de Salamanca (2006/2007). É professor titular do Departamento de Ciência Política e pesquisador do Centro de Estudos Legislativos da UFMG.
____________________ * Dados mostram a relação entre o bolsonarismo e a desinformação na pandemia


A Cara da Democracia
Colunista do UOL
25/05/2021 04h00
Oswaldo E. do Amaral*
Passados quase 15 meses do início da pandemia no Brasil, muitos brasileiros acham que a cloroquina funciona contra a Covid-19 e que o novo coronavírus foi criado pelo governo chinês. Impressiona o número de pessoas que creem em afirmações sem nenhuma base real. O que explica isso?
Se estivéssemos conversando sobre invasões de alienígenas ou terraplanismo, não seria tão dramático. Mas estamos falamos de percepções que podem facilitar mortes, muitas mortes. Os dados aos quais nos referimos são de uma pesquisa nacional, realizada pelo Instituto da Democracia, entre 20 e 27 de abril, com 2031 entrevistados e margem de erro de 2,1 pontos percentuais.
Os números são muito ruins para aqueles que acreditam na ciência. 30% dos entrevistados acham que a cloroquina combate a Covid-19. Isso depois de dezenas de estudos demonstrarem que a cloroquina não funciona e que pode até piorar o quadro clínico dos pacientes, informação repetida à exaustão pela imprensa séria. E 51% concordam com a afirmação de que o novo coronavírus foi criado pelo governo chinês. Não há nenhuma evidência concreta até o momento de que isso seja verdadeiro.
Gostar mais do presidente aumenta a chance de acreditar em afirmações sem base real
Para tentar compreender um pouco melhor quem são as pessoas que acreditam nessas afirmações que não possuem nenhuma base na realidade é importante ir além da descrição dos dados. Para isso, foi feita uma análise multivariada em que estudamos os efeitos do nível de escolaridade, da idade e do sexo do entrevistado sobre a resposta dada, e também o impacto dos resultados de uma pergunta em que pedíamos para o entrevistado declarar o quanto gostava do presidente Jair Bolsonaro em uma escala de 1 a 10. A vantagem desse tipo de análise é que ele permite isolar o impacto de cada fator sobre as diferentes respostas. Abaixo, mostramos a distribuição de respostas para o apreço ao presidente Jair Bolsonaro. Vê-se uma concentração na categoria de 1-3 pontos, que implica pouco apreço.

Nos dois casos mencionados, tanto o nível de escolaridade do entrevistado quanto "gostar mais" do presidente Bolsonaro (8 a 10 na escala) afetaram de maneira estatisticamente segura as respostas. Ou seja, ter chegado a cursar o nível superior reduzia a chance de acreditar em afirmações sem nenhuma base concreta. Do outro lado, gostar de Jair Bolsonaro ampliava as chances de acreditar nelas.

Para ilustrar os achados da análise, vamos tomar o caso em que pedimos ao entrevistado para declarar se a afirmação "a cloroquina combate a Covid-19" era verdadeira ou falsa. Ter cursado o ensino superior ampliava em cerca de duas vezes a chance de responder que a afirmação era falsa com relação a quem cursou apenas o ensino fundamental. Já gostar de Jair Bolsonaro ampliava em seis vezes a chance de acreditar que a afirmação era verdadeira com relação àqueles que demonstraram não possuir muito apreço pelo presidente (1 a 3 na escala).

Nos gráficos, é possível ver de forma mais simples como as preferências políticas e as respostas dos entrevistados estão conectadas. Nos dois casos, a porcentagem dos que acreditam em afirmações sem base real aumenta conforme cresce o apreço pelo presidente. Para tomar de novo o caso da afirmação sobre a cloroquina, entre os que gostavam menos do presidente, apenas 20% disseram que a afirmação era verdadeira. Entre os que gostavam mais, a porcentagem subiu para 54%.
Nossa pesquisa de nível individual vai ao encontro de estudos realizados com dados agregados no Brasil e nos EUA que mostraram a ligação entre preferências políticas e o comportamento com relação a medidas que tentaram promover o isolamento social, especialmente em contextos de polarização ideológica. Os trabalhos apontam para a influência que determinados comportamentos das lideranças políticas podem ter sobre sua base de apoio mesmo sobre temas que não são estritamente políticos.
Nesses 15 meses de pandemia no Brasil não foram poucas as vezes que o presidente e seu entorno imediato, notadamente seus filhos, defenderam práticas sociais, medicamentos e posições políticas que claramente contribuíram para a desinformação da população. Em um contexto pandêmico, em que não contamos com as políticas públicas adequadas para enfrentar a Covid-19, a desinformação feita de forma deliberada pode também ajudar a matar.
Nota metodológica: A edição de 2021 da pesquisa nacional "A Cara da Democracia" foi realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação. Foram entrevistados 2031 brasileiros de todas as regiões do país entre 20 e 27 de abril. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais considerando um intervalo de confiança de 95%. A amostra representa a população eleitoral brasileira de 16 anos ou mais distribuída proporcionalmente à população eleitoral existente em cada uma das cinco regiões do Brasil: Norte, Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul. Os municípios foram selecionados probabilisticamente através do método PPT (probabilidade proporcional ao tamanho) tomando como base o número de eleitores de cada município. A amostra obedeceu ainda cotas de sexo, idade, escolaridade e renda familiar dentro de cada setor censitário. Esta edição da pesquisa foi realizada presencialmente, seguindo os protocolos de segurança conforme orientação dos órgãos competentes, tais como uso de máscaras e álcool em gel e distanciamento seguro.
*Oswaldo E. do Amaral é professor de Ciência Política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da mesma instituição.
____________________ * O fim da Lava Jato e o patético Barroso


A Cara da Democracia
Colunista do UOL
24/04/2021 04h00
Leonardo Avritzer*
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) por sete votos a dois corroborando a tese da suspeição do juiz Sérgio Moro no processo do assim chamado “triplex” representa, efetivamente, o fim da operação Lava Jato. Os principais derrotados pelo fim dessa via inquisitória de combate à corrupção são os justiceiros de Curitiba que atuavam em conluio, Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, e seus parceiros no STF. A derrota da Lava Jato constitui também a derrota de uma interpretação equivocada do Brasil, lançada por Raymundo Faoro no final dos anos 50 em seu livro “Os Donos do Poder” e resgatada pelos justiceiros de Curitiba. A tese é que a corrupção é o maior, senão o único, problema do Brasil e explicaria o fracasso civilizatório do país. Analisemos o argumento de Raymundo Faoro para entender sua expressão no Lavajatismo.
A tese principal de “Os Donos do Poder” é que o grande elemento da formação do estado brasileiro, que explicaria o país como nação, seria a formação de um estado patrimonial que abriria caminho para a apropriação privada de recursos do estado. Faoro realiza duas operações de qualidade acadêmica duvidosa para defender tal tese: a primeira é atribuir esse elemento à formação portuguesa, ainda no começo do milênio passado, e assumir (supostamente com base na obra de Max Weber) que esse elemento patrimonial haveria se transferido e reproduzido no Brasil. A segunda é identificar esse elemento em todos os períodos históricos do nosso país.
Assim, em um capítulo considerado por alguns o pior texto já escrito sobre a história do Império, Faoro interpreta o período como centralista, estamental e patrimonialista, algo que qualquer estudante de graduação de história sabe ser equivocado. Para Faoro, o liberalismo (que, diga-se passagem, a Lava Jato nunca professou porque o liberalismo preza o direito de defesa) envolveria a ruptura com o estado patrimonial. Faoro achava possível interpretar a formação do Brasil sem tratar do problema da escravidão. É interessante notar também que, apesar das críticas ao estamento patrimonial e certa defesa de um liberalismo conservador, Faoro prescinde de uma visão sobre como democratizar o estado brasileiro. Para ele, bastaria destruir o estamento burocrático, algo que, podemos argumentar, a Lava Jato tentou realizar.
Pensando a Lava Jato como "faorismo judicial"
A Lava Jato pode ser entendida como um “faorismo judicial”, isto é, uma operação que associou a tentativa de acabar com o estamento burocrático com a ambição de dar fim à concepção de estado vigente no país desde a década de 1930. Para isso, seus integrantes reivindicaram um ativismo judicial muito mal compreendido pelos nossos juristas porque supõe que os juízes tudo podem e buscaram estendê-lo para a arena do direito penal.
Assim, a disputa política no Brasil deixou de se dar pela via eleitoral, mas tratou de criminalizar aqueles que defendiam uma concepção de nação organizada em torno do estado. Para esses, a Lava Jato reservou não apenas a derrota política imposta por um impeachment para o qual ela contribuiu decisivamente, mas também a prisão com o objetivo de mudar a composição do sistema político.
Tal objetivo foi claramente expresso pelo juiz Sérgio Moro em artigo com pretensões acadêmicas no qual analisava a operação Mãos Limpas. Ali, Moro afirmou “A operação mani pulite ainda redesenhou o quadro político na Itália. Partidos que haviam dominado a vida política italiana no pós-guerra, como o Socialista (PSI) e o da Democracia Cristã (DC), foram levados ao colapso, obtendo, na eleição de 1994, somente 2,2% e 11,1% dos votos, respectivamente. Talvez não se encontre paralelo de ação judiciária com efeitos tão incisivos na vida institucional de um país.”
Hoje é difícil duvidar que esse foi um dos objetivos de Moro: redesenhar o sistema político brasileiro. Ele e seus aliados na elite brasileira esqueceram-se apenas de um detalhe: que a outra força política disponível no nosso país é o militarismo de feições autoritárias, que foi o maior beneficiário do “faorismo judicial”.
Sabemos o que levou à reversão do punitivismo jurídico seletivo ou do “faorismo judicial.” Primeiro, uma decadência sem par da economia brasileira desde 2015, para a qual a Lava Jato contribuiu decisivamente, tal como foi observado pelo juiz Ricardo Lewandowski na sessão de quinta-feira, 22 de abril. Mais recentemente, a ascensão de um militarismo sem controle que ocupou o ministério da saúde e foi parceira na tragédia que se abateu sobre o Brasil ao longo da pandemia. E, por fim, a resistência daqueles que acreditam na instituição do estado de direito, completamente ignorada, senão vilipendiada, pelos lavajatistas. Ou seja, o que fracassou não foi a Lava Jato, mas um projeto de destruição sistemática do estado brasileiro, que não encontrou substituto nem no governo Temer e nem no governo Bolsonaro. Esses governos acentuaram os impasses vividos pela economia e pela política no Brasil. O único substituto que apareceu foi a militarização do governo introduzida por Bolsonaro e reforçado pateticamente na gestão Pazuello no Ministério da Saúde que escancarou a incompetência dos militares na gestão.
Coube ao eminente jurista Luís Roberto Barroso servir como a última linha de defesa do “faorismo judicial.” Barroso, já havia escrito um artigo no qual defendia a compatibilidade entre o STF como instituição contramajoritária e como instituição representativa da opinião pública, essa última supostamente constituída por aqueles membros do mercado interessados em destruir o estamento burocrático.
O jurista deu um passo adiante na defesa do “faorismo” ao deixar de lado quaisquer arroubos ligados ao liberalismo como forma do direito de defesa e passar a sustentar a ideia de que um dos componentes do estamento burocrático tem legitimidade para se colocar acima da lei ou violar o coração do direito penal. Aqueles que não defendem a Lava Jato seriam defensores da corrupção e não do estado de direito. A resposta por ele recebida de Gilmar Mendes mostra o tamanho do equívoco de Barroso.
Ao se arvorar defensor da moralidade sem forma política ou judicial, Barroso “brinca” com uma concepção judicial e não democrática de governo. Ao se considerar representante de uma parcela da opinião pública, ele se coloca contra o estado de direito para defender o projeto político “faorista”. Entretanto, tudo indica que essa concepção foi derrotada na sessão de quinta-feira, apesar dos gritos do eminente ministro ao final da sessão.
O resultado da votação de 22 de abril aponta para o fim do “faorismo judicial” e para o retorno de uma concepção de estado definida pela política e não por parte dos membros do poder judiciário que se constituíram em uma facção antirrepublicana e contra o estado de direito. Caberá aos eleitores em 2022, e não ao poder judiciário, determinar o projeto político que irá substituir o faorismo judicializado e militarizado.
*Leonardo Avrtizer é professor do Departamento de Ciência Política da UFMG, coordenador do INCT - Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação e autor de diversos livros, entre eles o recente Política e antipolítica: a crise do governo Bolsonaro, Pêndulo da Democracia e Participatory Institutions in Democratic Brazil.
____________________ * A cara da democracia brasileira

A Cara da Democracia
Colunista do UOL
25/03/2021 04h00
Leonardo Avritzer*
As democracias já morreram no passado por meio de golpes de estado desferidos por atores externos ao sistema político, em especial militares. Mas hoje elas são desafiadas por uma morte lenta provocada de dentro pelos governantes. Jair Bolsonaro é o terceiro outsider da direita brasileira que chega à presidência nos últimos 60 anos. Jânio Quadros e Fernando Collor o antecederam. Nenhum dos dois completou seus mandatos e ambos produziram fortes crises com suas atitudes.
"Rachadão" das vacinas pode ser a pá de cal no moribundo governo Bolsonaro
Assim como Jair Bolsonaro, eles também se elegeram destacando a luta contra a corrupção e tentando traçar uma relação entre esquerda e corrupção no governo. Porém, o atual presidente possui uma diferença fundamental em relação aos outros dois: o bolsonarismo tem traços maiores de movimento do que de forma de governo e o presidente tem atuado, desde o início da pandemia, na tentativa de acentuar o lado movimentalista do bolsonarismo, tal como assistimos na sua ida a Praia Grande e a Santa Catarina no verão de 2021. Jair Bolsonaro tensiona a democracia no Brasil como ela jamais foi tensionada desde 1985, o ano da redemocratização.
O bolsonarismo como movimento agride governadores, ironiza aqueles que fazem quarentena, ignora os grandes dramas da população brasileira como as mortes em Manaus no início do ano. Implantou uma bagunça tal na gestão da pandemia que torna o Brasil o caso de maior fracasso no enfrentamento à covid-19 segundo diversas agências internacionais. O bolsonarismo exime-se da responsabilidade de governar entendida como o ato metódico de organizar políticas públicas e sente-se confortável em jogar nos governadores e prefeitos a culpa pelo fracasso no enfrentamento da pandemia. Esse é o maior elemento da crise do governo Bolsonaro, que se acentuou nos primeiros meses de 2021: a falta de uma política federal em relação à pandemia.
Jair Bolsonaro governa sob o signo da morte. Ele não se preocupou em passar o vírus da covid para outros brasileiros em suas aparições públicas sem máscara. Ele não se preocupou em produzir uma política viável para salvar da asfixia aqueles brasileiros em Manaus cuja vida dependia de algumas ações viáveis do Ministério da Saúde. Não se preocupa em receitar a hidroxicloroquina, um remédio com fortes efeitos colaterais que já mataram muitos brasileiros. Ele não se preocupa em não (?) aumentar a oferta de vacinas se isso puder beneficiar o seu possível adversário na eleição do ano que vem, o governador de São Paulo João Dória. Em todos esses casos, ele apenas repete uma frase sem emoção e sem conteúdo: eu lamento, como se ele não tivesse mais nada a fazer em relação à tragédia que se abate sobre o nosso país.
Para além disso, o governo Bolsonaro tem o potencial de apontar para um segundo tipo de morte, a morte institucional da democracia brasileira. O Brasil construiu instituições democráticas relativamente fortes entre 1994 e 2014, mas estas vivem um desgaste diário que está levando a sua morte lenta. Se é verdade que tivemos alguns momentos importantes nos quais chamados do presidente à intervenção militar ou ao fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) receberam uma resposta à altura, também é verdade que instituições democráticas que são atacadas diariamente ou permanentemente não podem ser consideradas fortes.
Ao mesmo tempo, o Brasil assiste bestializado (para usar uma famosa frase de Aristides Lobo sobre a Proclamação da República) ao festival de ilegalidades, manipulações e atentados ao estado de direito produzidos pela Operação Lava Jato e pergunta-se como foi possível que um juiz de primeira instância manipulasse o STF e levasse a tal distorção a ideia de justiça. Todas essas questões levam à pergunta: qual é hoje a cara da democracia brasileira?
Este espaço servirá para cientistas políticos e estudiosos da democracia no Brasil apresentarem dados de pesquisas de opinião pública sobre como os brasileiros veem a democracia, as instituições políticas, o governo Bolsonaro e a pandemia. Iremos também analisar os principais movimentos das forças políticas no Brasil rumo à eleição de 2022. Com base em dados, avaliaremos o estado da nossa combalida democracia. Sabemos que os brasileiros estão oscilando em suas opiniões em relação à democracia e sabemos que um núcleo de aproximadamente 30% da população aceita o autoritarismo e concorda com o fechamento do Congresso e do STF. Quem são esses brasileiros?
Em segundo lugar, iremos contribuir para uma análise do bolsonarismo e sua relação com o eleitorado no país. Como diagnosticar o bolsonarismo? Qual é a sua proposta de governo? Como ele, até agora, operou no campo das políticas públicas? Novamente com base em pesquisas e informações científicas, discutiremos a degradação da capacidade de governar e elaborar políticas públicas no Brasil neste momento. Iremos também analisar o movimento de duas forças centrais na política brasileira: o centro democrático e o assim chamado "centrão" forças centrais na articulação no congresso e na elaboração das chapas presidenciais para 2022. A relação destas forças com associações civis e a maneira como o campo centrista irá se posicionar em relação às diferentes alternativas terá impacto decisivo nos caminhos da democracia brasileira.
Se a democracia está em crise porque está sendo corroída por dentro, o que fazer para recuperar a confiança da população brasileira na democracia e nas instituições que ela precisa para funcionar? Os diferentes movimentos, seja na direção de uma restauração mais forte das práticas democráticas seja na tentativa do bolsonarismo de continuar na sua tentativa de destruir as instituições democráticas no nosso país, serão seguidos e analisados nesse espaço.
* Leonardo Avritzer é graduado em Ciências Sociais (1983) e mestre em Ciência Política (1987) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutor em Sociologia Política pela New School for Social Research (1993) e pós-doutor pelo Massachusetts Institute of Technology (1998-1999) e (2003). É professor titular do departamento de Ciência Política da UFMG.
____________________ * As Instituições funcionam?


Lucio Rennó*
Há no Brasil um debate que parece eterno: nossas instituições funcionam? O presidencialismo com fragmentação partidária está fadado à sucessão de crises e uma certeza: instabilidade política como o equilíbrio dominante?
Ao longo do tempo, consolidaram-se grupos com visões concorrentes sobre essa temática, que hoje parecem bem delimitados. Há os negacionistas e os alarmistas. Para os negacionistas, não há crise da democracia, as instituições nunca funcionaram tão bem, os problemas vividos no Brasil são iguais aos que se passam em outros países, mesmo os com mais história e tradição democrática, e reformas políticas seriam prejudiciais para o funcionamento do sistema. Para esse grupo, há controles sobre tentativas de arbitrariedades e os freios e contrapesos oriundos da disputa entre os poderes constituídos evitam idiossincrasias.
Já para os alarmistas, tudo vai de mal a pior. O Brasil é pontuado por golpes sucessivos, que restituem ao poder forças conservadoras e antidemocráticas dispostas a tudo para se perpetuarem nessa posição. Há uma crise da democracia em andamento, com desrespeitos seguidos à constituição, e jogos procedimentais decidindo resultados. A presidência de Jair Bolsonaro epitomaria esse processo, embasada em uma clara agenda autoritária e permeada por uma retórica e prática populista de direita, excludente e conflitiva.
A verdade é que nenhum desses grupos conseguiu apresentar evidências contundentes e inequívocas de que está certo e o outro errado. Certamente a longevidade e resiliência dessa pergunta como orientadora dos principais debates nacionais sobre política não é bom sinal. Se estivesse tudo bem, não estaríamos seguidamente nos perguntando se está tudo bem. Então aqui fica um primeiro ponto: boas instituições são invisíveis. Simplesmente convivemos com elas. Servem como parâmetro para a definição do conjunto de alternativas disponíveis para nossas escolhas e dão vazão à solução de problemas e conflitos. Instituições fortes são imperceptíveis e não são questionadas; ao mesmo tempo limitam o leque de escolhas, moderando preferências para que decisões fruto de deliberação e negociação sejam possíveis. O fato de que seguimos nos perguntando se nossas instituições políticas funcionam é sinal de que há problemas.
Mas qual a dimensão desses problemas? Primeiro, as democracias tendem a ruir quando segmentos cada vez mais relevantes das elites políticas - aqueles que ocupam cargos de poder no sistema político - não estão comprometidos com os princípios básicos da democracia, não respeitam a incerteza das decisões, assegurando repetidamente resultados a seu favor através da manipulação das regras, e não aceitam derrotas. Portanto, a morte das democracias é ato de pessoas que habitam as instituições.
Chegamos assim a nosso segundo grande ponto: instituições são frutos de escolhas coletivas e são povoadas por pessoas que tomam decisões. As instituições são tão boas quanto as pessoas que as operam. Assim, para entendermos o funcionamento das instituições, precisamos olhar para o comportamento político dos atores que ocupam os espaços de poder: suas atitudes, crenças, orientações ideológicas, preferências sobre temas e políticas públicas.
No caso das nossas elites, nunca tivemos muita sorte. Nos falta muita auto-contenção: saber quando parar e admitir que não se pode ou deve ganhar sempre. A orientação dominante é mais sobre como posso usar o poder e as instituições em meu proveito próprio ao invés do que posso fazer para que atinjamos bens coletivos desejáveis. O compromisso com o bem público é artigo de luxo no Brasil. Os seguidos e significativos escândalos de corrupção, de desvio de recurso público, de malversação desse recurso, com partidos políticos que dão guarita a criminosos ao invés de serem filtro do sistema político, é sim um grave problema e não deve ser julgado em comparação com outros igualmente graves, como a nossa também persistente desigualdade e pobreza. Na verdade, há forte intersecção entre esses problemas.
Bolsonaro, nesse sentido, é uma grave ameaça à democracia brasileira. Suas sucessivas e persistentes tentativas de instauração de estados de exceção no país nas últimas semanas são clara manifestação de suas tendências autoritárias, já antes abertamente declaradas em atos e palavras como suas falas a favor do Regime Militar Autoritário dos anos 60 e da tortura, e sua participação em manifestações antidemocráticas em plena pandemia. Ele não está só nesse movimento. Bolsonaro quis comemorar na última semana o 31 de março com um golpe para chamar de seu com apoiadores no Congresso. O discurso antidemocrático nunca esteve posto de forma tão clara e contundente. Ponto para os alarmistas.
Contudo, Bolsonaro vem sucessivamente fracassando em fazer avançar sua agenda autoritária. Há movimentos de resistência dentro da elite que tem bloqueado essas estratégias. Nesse sentido, somos diferentes de outros casos, como o da Hungria de Viktor Orbán que ampliou seus poderes delegados durante a pandemia de Covid-19, o que parece ser o sonho de Bolsonaro. Ou seja, o quadro institucional vem bloqueando os ensaios ameaçadores da cúpula do poder. Ponto para os negacionistas.
Nossos colegas mais mal intencionados e bem humorados poderiam nos acusar de estarmos criando um novo grupo: os isentões. Nada estaria mais longe da verdade. No que tange às elites, claramente estamos em um ambiente tensionado e polarizado, com significativa amplitude entre os pólos e resistências mútuas embasadas tanto em posições ideológicas quanto, aparentemente, também afetivas, ancoradas em sentimos fortes como ódio e rancor. As instituições democráticas estão sendo tensionadas e testadas. O que nos cabe perguntar é se isso é um elemento passageiro, que a próxima eleição levará embora, ou se é algo mais permanente.
Para responder essa pergunta, precisamos avaliar o que pensam as massas. Esse é nosso terceiro ponto: a longevidade de movimentos das elites passa por sua congruência com as preferências da população. Há grupos no seio da população fortemente vinculados a um lado e outro? A polarização das elites tem respaldo popular e, portanto, eleitoral? Para isso, dados do projeto "A Cara da Democracia" são muito úteis. Permitem verificar como a cidadania pensa acerca dessas questões.
Nossos dados coletados desde 2018 têm mostrado uma base de apoio a Bolsonaro consistente ideologicamente, no sentido de compartilharem visões sobre temas políticos e políticas públicas. São favoráveis a políticas de segurança pública duras, políticas econômicas liberais, contrários às agendas de gênero e LGBTQI+ e críticos de políticas sociais inclusivas baseadas em raça. Há, talvez pela primeira vez na nossa história recente, um alinhamento ideológico conservador do qual Bolsonaro é seu grande artífice.
Ademais, esse grupo é bem mais favorável a soluções autoritárias. Bolsonaristas são mais fortemente favoráveis à intervenção militar e críticos das instituições democráticas. Assim como Bolsonaro, menosprezam a pandemia e apoiam as posições negacionistas (em relação à pandemia) do presidente.
Mas, os dados demonstram uma queda de posturas autoritárias na população. A defesa de uma intervenção militar em meio a desemprego alto cai de 25% de apoiadores em 2018, para 15% em 2020. Em situações de crime alto, o apoio à uma intervenção diminui de assombrosos 53% para 25%. Quando a corrupção é alta, esses números também caem de 47% em 2018 para 29% em 2020. Além disso, 21% dos eleitores em 2020 tendem a concordar com as posições negacionistas de Bolsonaro e 24% têm uma avaliação positiva de seu governo. Nossos estudos mostram uma correlação forte entre negacionismo, autoritarismo medido por preferências políticas e bolsonarismo, mas restrito a uma parcela minoritária da população.
O eleitorado apresenta crescente polarização, dado o surgimento de um alinhamento antes inexistente no pólo extremo da direita e que mobiliza com certa consistência um quarto da população. Mas essa polarização convive com apoio crescente à democracia e favorável a medidas de enfrentamento à pandemia mais moderadas e responsáveis. As sirenes alarmistas são necessárias para mostrar que tudo não é divino e maravilhoso e para nos manter atentos e fortes na defesa da democracia. Mas sem com isso negar nossos avanços, até como estratégia de defesa dessa mesma democracia.
A pesquisa "A Cara da Democracia" é uma iniciativa do INCT-Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação e do Cesop/Unicamp realizada desde 2018.
*Lucio Rennó é professor de Ciência Política na UnB, onde também fez sua graduação e mestrado, possui doutorado pela Universidade de Pittsburgh (2004) e pós doutorado no Latin American and Caribbean Studies Center da SUNY Stony Brook de 2004 a 2005 e no Institute for Latin American Studies do German Institute for Global and Area Studies, em Hamburgo, Alemanha, de 2009 a 2010. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política Comparada, Estudos Legislativos e Comportamento Eleitoral.

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